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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sem confetes - Chico Araujo*

Dos poemas de Túlio Monteiro constantes nessa antologia, “Poesia” tem natureza metalinguística. Nela, o poeta declara a seus leitores o que a poesia significa para ele: um espaço de expressão no qual as palavras são costuradas com o propósito de dar voz a um eu lírico múltiplo de vivências e sentimentos. Isso é o que depreendemos dos dois primeiros versos; dos quatro últimos, o desnudamento de certa ansiedade positiva para a escrita de seu mundo interior.

Por isso, acolhemos a poesia de Túlio Monteiro como meio de revelação, muita revelação. Por meio dela, um eu lírico expressa, expõe, põe à vista do leitor latências incontidas. A partir dela, esse eu lírico faz transbordar, principalmente, sentimentos e sensações já não possíveis de contenção.

Desejo, lembranças, paixão, saudade, dores, solidão são elementos formadores de suas temáticas em exploração poética, em versos compostos em linguagem simples, o que permite aos leitores interação rápida com sua poesia, mesmo nos momentos de maior sutileza expressiva, quando nos deparamos mais intensamente com sua subjetividade.

Em “Teus olhos no vinho”, por exemplo, os dois primeiros versos expõem ao leitor um momento em que o eu poético declina um momento de recordação e, devido a ele, o despertar de uma saudade em amplitude tanta que a lembrança dos olhos da pessoa querida e desejada perduram em seu rememorar, pois “teimam em boiar / no escarlate do vinho”. Vê-se, nesse instante, o registro de validação de alegria, posto que, devido a ele, “Um sorriso franco me chega ao peito / feito feitiço em noite de lua cheia...”.

A imagem da pessoa amada nesse poema é tecida, subjetivamente, como prazer, encantamento e felicidade a partir da utilização de palavras e expressões como “sorriso franco”, “feito feitiço em noite de lua cheia...“ (aqui se deduz a grandeza da pessoa amada, posto que associada à dimensão subjetiva proporcionada pela lua quando está cheia), “saudade do teu carinho”; no entanto, a dubiedade dos sentimentos também é pronunciada quando emerge alguma tristeza pelo distanciamento do ser amado em “nunca mais te terei / ao alcance de meu beijo.”.

Em “Saudades das estrelas no corpo” e “Há pó de estrelas pelas estradas”, lembranças e saudades dão vazão a sentimentos de paixão que transitam pelo padecimento do amor sentido e pelo prazer lembrado, porém perdido. Os versos “Um tempo nunca mais retornado / Relembra a paixão e o viver.”, do primeiro, dizem bem de uma lembrança em recorrência no existir do eu lírico, uma insistente lembrança que não maltrata, pois significa vida. O amargor da saudade, contudo, aparece nos últimos versos desse poema, quando se fala do amigo que foi embora, do tempo que não pode retornar, do “grande amor” agora inalcançável.

O segundo, logo em sua primeira estrofe, expressa experiências sentimentais saudosas e alegres, uma vez que “o pó de estrelas pelas estradas” é motivo de prazer que leva a uma sensação de espírito pacificado. Essas vivências são despertas novamente por lembranças, posto que vindas dos “últimos já quase oito anos.”, tempo em que a experiência amorosa foi pretendida para um sempre, ao serem considerados os versos “amantes que, mesmo antes de tê-las, / já éramos antes, hoje e depois.”. Essa vivência amorosa do eu lírico está sempre marcada por momentos de amor partilhado e, depois, pela solidão do amor rompido, mesmo que essa solidão emerja não a partir de fatos, mas de temores pela perda. É o que se intui dos versos “Tantas lembranças dessas estradas / estão retidas em minha mente / tão temorosas de serem lembradas / por medo que o peito não aguente / todas as dores de amor geradas / pelas ideias de te ver ausente.”

A poética de Túlio Monteiro também pontua acentos de Intertextualidades, como, por exemplo, em “Saudades das estrelas no corpo”, uma vez que a última estrofe retoma, em parte, frase e estrutura poética de Casimiro de Abreu em “Meus oito anos”. De modo semelhante, no mesmo seu poema, Monteiro, por intermédio do eu poético, associa versos da música “Como nossos pais” – exatamente “... já faz tempo eu vi você na rua / cabelo ao vento, gente jovem reunida...” –, do compositor e intérprete sobralense Belchior, como elementos intensificadores das lembranças existentes. Também no poema "Há pó de estrelas pelas estradas", no título e no primeiro verso, o poeta Túlio Monteiro dialoga com o poema Plenilúnio, de Raimundo Correia.

Concluindo, destaco, ainda, do poema “Cigana”, certa e resoluta entrega amorosa do eu lírico a sua amada, negando-se a qualquer intenção premonitória – verdadeira ou ardilosa – de uma cigana aparecida em seu caminho; novamente a lembrança se fazendo presente e marcando as sensações amorosas que sente enquanto se permite molhar-se em chuva em “Verde, cor favorita”, poema que se encerra com mais um exemplo de intertextualidade.

No mais, importa ainda declarar a sutileza amorosa do poeta Túlio Monteiro em seu poema “Primeiro poema para Aline Monteiro”. Nele, vê-se um eu lírico alegre, descontraído, distenso, brincando com as palavras e com o registro de letras em algumas delas, de forma cândida para enaltecer a vida de sua musa inspiradora para o poema, a qual trata por princesa, linda, pérola morena, expressões que servem para destacar, dela, uma beleza ímpar.


O que mais dizer desses poemas de Túlio Monteiro nessa antologia? Bem... agora deixo com você, ledor.
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*Chico Araujo - professor, poeta, compositor, contista, cronista, escreve articulista do Evoé! O título "Sem confetes" foi escrito entre 25 e 28 de agosto de 2018.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Zerando a conta - Chico Araujo*

Zerar a conta, como você deve saber, leitor, significa encerrar uma dívida por meio de pagamento pertinente. Feito o pagamento, a dívida se encerra e a conta fica zerada. É isso o que faço agora, entregando ao gestor do blog, o queridíssimo amigo Kelsen Bravos, o último texto (a última crônica) acordado para a construção e desenvolvimento do Abecedário de Crônicas do Evoé. 


Evoé!

Encerra-se o Abecedário com a lógica da inserção nele de texto que contemple a letra “z”, a última do alfabeto. Sigo, declarando: nesse limite natural que o alfabeto me impõe, sinto-me alegre e com a sensação de "dever cumprido".

Mas há algo me inquietando, um algo que não está diretamente relacionado à produção desse texto: a zorra que vivenciamos no Brasil nesse momento histórico. Zorra que expõe a falta de zelo de nossos governantes para com a população, tratando-a de uma maneira profundamente aviltante, como se ela vivesse em uma zona na qual deveria ficar eternamente, sem possibilidade de movimento para ascensão e onde poderia cair no esquecimento deles. 

Tal atitude, interpreto-a como zombaria e desprezo.

A zombaria é de tal monta que se tem divulgado a saída de brasileiros – principalmente alguns com folga nas finanças – para outras plagas distantes dessa terra espetacular. Zarpam eles para outros países na esperança de conseguirem vida melhor; zarpam para aniquilarem a sensação de seres explorados negativamente por aqueles cuja maior importância na função de políticos seria a de trabalharem em benefício do povo, mas dele se afastam, renegam-no, esforçando-se para jogá-lo no esquecimento e na escuridão. Contundente sabotagem!

Será sempre muito relevante a qualquer um de nós "dar um zoom" para enxergar o mais próximo possível essa e outras situações. A função de político em nosso país não deveria possibilitar a perpetuação de nenhum deles nesse poder de tal maneira que enriquecem e mais enriquecem, pensando exclusivamente em acúmulo de riqueza para si, enquanto a população mais pobre e mesmo miserável fica a ver navios, muitas vezes zonza por se perceber em processo de exclusão.

Continuadamente, devido a esse contexto, muitos ficam zuruó, sofridos, perdidos, sem chão, ziguezagueando dia após dia, procurando um porto seguro que reiteradamente não se alcança. Distribuição melhor de renda certamente daria sustentação ao sonho do povo sentir-se cidadão e comprometido com a cidadania.

Pessoas comuns, "povo" que são, andam céticas quanto ao futuro do País e muito zangadas por não encontrarem oportunidades viabilizadoras de sua entrada nas categorias das camadas sociais onde a existência ocorre de forma mais adequada, mais tranquila. 

A carência acentuada que têm de quase tudo posto em evidência como meio de bem existir – moradia, alimentação, transporte, saúde, trabalho, lazer... – deixa colossal parte delas a transitar pela cidade como se zumbis fossem. É algo muito triste. Muita gente zoa delas, sentindo-se superior a elas. É outro algo muito triste.

Ziquizira é algo que acompanha muitos dessa população empurrada para o ostracismo num verdadeiro zanzar para um "não ser nada" na sociedade, um zero à "esquerda" nela.

Essa população precisa urgentemente poder viver, não apenas sobreviver enfrentando níveis intensos e profundos de pobreza e miséria.

E logo. E já. Até para que não tenham medo aqueles que a sabotam.
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Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Zerando a conta" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 8 de agosto de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Xucro - Chico Araujo*

Tenho me arriscado aqui no contar histórias, algumas com invencionices, outras sem. Tenho gostado, sem pleitear unanimidade e considerando, a partir de Nietzsche e Rodrigues, que onde ela graça, burrice existe. Ou não? Um pouco não me importo; a vivência da escrita, o estímulo para fazê-la, a expectativa de haver um parco – mesmo que único – comentário a ela me inflama motivação. Vou tecendo. E me arriscando.

Pois veja que dessa vez a história não tem demora, apesar de o personagem ser existente em variados contextos, materializando muitos fatos. Vamos.

Subiu. Como cedo ainda a manhã, no ônibus poucas pessoas. Em chegando à roleta, o cobrador outra vez expressou Bom dia, mas, de volta, o silêncio, a sisudez, o arranco na borboleta – rotina. Seguiu o ônibus, seguiu o cobrador, seguiu ele.

Desceu. Ponto-parada, o caminho de ontem e de antes, o trabalho avocando. Na contradição de uma pressa lenta, não desviou da senhora no sentido oposto. No quase atropelo, a reclamação madurona esnobada no nem olhar desdenhoso. Seguia ele.

Na entrada, empurrão na porta, agredindo pé do segurança gritante de um “Eita” considerável de imponente. Sem abalo, os passos seguintes.

Na sala, os companheiros. Nenhum qualquer Bom dia – todos no costume.

Na precisão, nunca medo da pergunta, assim direta, sem floreio:

- Você pode me dizer como fazer isso? – e apontava para uma planilha como novidade.

Em atenção, a colega:

- Posso.

Ensinado, nada de um ligeiro agradecer. Nada de sorriso. Em suma, nada. Apenas o cumprimento da tarefa.

Em vendo aquele desenrolar, alguém arrisca:

- É um xucro mesmo!

Sem reação. Um solene ignorar do dito e do sugerido.

Em atendimento a telefonema, iniciava a conversa com um Diga forte e insolente. No uso de banheiro, ignorava os apelos de descarga e manutenção de limpeza. Na hora de um cafezinho, tomava a frente de quem chegara antes, sem exclamação de licença. No almoço, sem respeito à preferência pela ordem de chegada.

Assim como de manhã, a tarde.

Em retorno à casa, arrastava para dentro do ônibus quem lhe estivesse pelo caminho e, se conseguisse lugar para sentar, não o oferecia a quem mais precisasse, e se não houvesse cuidado, alguém poderia descer em ponto-parada não desejado.

Era assim. Não se sabia até quando seria, se haveria mudança na sua maneira de ser.

Era assim. Um exemplo de como não ser.

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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Xucro" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito a 23 de julho de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

terça-feira, 17 de julho de 2018

WandysKarlos Ypysilone da Silva - Chico Araujo*

Pois nos lembremos de que houve, em 2009, a entrada em vigor do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado, em outubro de 1990, em Lisboa, por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe.

A partir da assinatura, oficialmente fizeram-se constar, nos países lusófonos, como letras do alfabeto, o K (k), o W (w) e o Y(y). Com esse acréscimo, o abecedário a ser utilizado em documentos oficiais, empresariais e técnicos por tais Estados deixou de contar 23 letras para validar sua ampliação em 26. “Oficialmente”, pois oficiosamente, aqui por nossas plagas, tais letras já eram de vasto uso como componentes naturais do idioma.

Tanto que, além do uso delas em termos técnicos e estrangeiros previstos, principalmente antropônimos iniciados por elas surgiram por aqui, nem sempre relacionados a nomes e expressões estrangeiras. E é sabida, porquanto cantada em prosa e verso, a criatividade de nosso povo.

Ora, foi sabendo das inserções em caráter oficial a partir de 2009 – antes não aceitaria, pois sempre atento às questões de legalidade – que Francisco José, nascido e criado no interior de..., deu de criar perturbação na existência da mulher, Francisca Maria. Isso porque resolveu trazer a lume uma vontade sua desde a primeira gravidez de sua Chica, pretensão que ela conseguiu calar durante muitos anos, quando se valia exatamente de chamar a atenção do marido para o fato de que batizar filho homem com aquele nome de sua aspiração iria contra as leis da língua. Contrariado, ele baixava a cabeça e engolia o desejo. Mas não o esquecia.

Assim, o ano de 2009 foi de abrir à larga o sorriso de seu Chizé. Sua Chica (e somente ele podia chamá-la assim) estava esperando o décimo descendente e todo mundo já sabia que seria mais um menino, estabelecendo a uniformidade entre feminino e masculino. O momento é agora – pensou ele quase gargalhando quando soube das mudanças em seu idioma.

Contudo, nada é perfeito. Então, a alegria dele não seria exatamente a alegria da mãe de sua prole; mas porque ela mais uma vez tentou mudar aquela ideia do marido, ele, do alto de seu vozerio de macho determinado a não permitir mais contrariedade, sem candura avisou:

- Mas dessa vez não se meta a besta comigo não, Chica. Agora eu posso e agora vai ser meu gosto. Vingando, o menino vai se chamar de acordo com meu querer.

Se a sua Chica não gostava nunca de bate-boca com seu ninguém, com Chizé menos ainda. Calou-se, e deixou mesmo passarem-se os cinco meses faltantes ao nascimento do mais novo rebento. Em silêncio, alimentava a esperança de conseguir impor mais um nome de inspiração religiosa, por tanta crença. Acreditou mesmo que Josué chegaria com saúde, repleto de bênçãos e tendo a aceitação de seu nome sem qualquer questão de quem quer que fosse.

No sétimo mês, porém, Chizé lembrou a mulher de que não se esquecera da decisão por ele tomada: logo de manhãzinha, bem cedo mesmo (exatamente às cinco e meia), depois do café tomado, cochichou no ouvido dela o nome por ele escolhido para o filho. Francisca Maria estremeceu. Calou-se, ruminando seu descontentamento.

No resto da manhã, até a hora do almoço – o hábito dessa refeição naquela família levava-os ao comer exatamente às onze e meia, depois que a filharada mais velha retornava da escola e Chizé chegava do seu árduo trabalho –, sua Chica resmungava pelos cômodos da casa:

- Mas será possível que meu homem não vai desistir desse nome?

Mesmo nas horas em que os dois mais novos – o segundo casal de gêmeos, esclareça-se – choramingavam suas mamadeiras, semblante fechado, taciturna, aquela mãe rezingava pela casa:

- Mas será mesmo possível que meu homem não vai desistir desse nome?

Dona Raimunda, uma das vizinhas que se autoproclamava a melhor amiga da família, sem que ninguém a contrariasse (também na casa de Chizé e sua Chica vizinho do bem não se anunciava, já era percebido dentro), flagrando um balbucio da amiga, indagou sem sutileza, pela proximidade e hábito:

- Tá doida, Francisca Maria? Deu pra falar só, foi?

Aquela progenitora, plena de inquietação, não expôs detalhe:

- Tava era cantando aqui pro Josué, pra ele ir se acostumando com a minha voz.

- E já tá certo, é? Vai ser Josué mesmo? Tu conseguiu de novo?

Francisca Maria não encontrou disposição para ampliar diálogo com a Dona Raimunda; apenas deu um sorrisinho meio sem graça, mas a vizinha não alcançou a falta de convicção da melhor amiga dela.

O almoço mesmo só teve o barulho da filharada, marido e mulher cada um em maior mudez que o outro, por assim dizer, pois ambos estavam em silêncio por igual, embora um em sonhos, ela em tormento, o qual se ampliou logo após o esposo empurrar o prato e liberar seu arroto, porque se levantou da mesa e, passando ao lado da companheira, cochichou, pela segunda vez na mesma manhã, porém já quase no início da tarde, o inquietante nome do décimo procedente. Foi um assombro e um estremecimento imediatos. Francisca Maria não gritou, não discutiu, não contradisse aquele pai. Guardou-se em seu silêncio.

Dali a pouco, enquanto lavava a louça, pediu a Nossa Senhora dos Aflitos:

- Ó, Senhora, olhai por mim em meu sofrimento; fazei com que Chizé não fale mais comigo desse nome esquisito pro nosso derradeiro filho. Um pedido e algumas lágrimas.

No final da tarde daquele dia, voltando da labuta para casa, e mal nela entrando, Chizé mirou a senhora e quis dizer alguma coisa, que da boca não saiu. Beijou-a na testa, como de costume, e foi logo ao banho.

Daquele final de tarde até o nascimento do último herdeiro das poucas posses, nenhuma pequena frase em torno do nome da criança se formulou entre o casal.

O parto foi normal. O menino nasceu sob muitas bênçãos e com muita saúde. Francisca Maria, descansando, caiu no sono, logo após ver o filho, aconchegá-lo no colo, acariciar seu rosto, sorrir para ele numa alegria materna intensa e única.

Horas depois, acordou sobressaltada, como que desperta de um pesadelo. Olhou pelo quarto até dar com a cara do marido, sentado, tranquilo, com um sorriso maroto e vitorioso não somente nos lábios, mas em toda sua expressão. A mulher arriscou:

- O que foi, Chizé? O que que foi que tu fez?

- Nada demais, não, minha Chica. Sou apenas um homem que realizou seu maior desejo.

Já faz um tempinho que esse fato se deu e o casal continua em casamento, que Chizé e Francisca Maria juraram votos até a separação por morte. E asseguro, até vivem bem.

O único problema em torno deles parece ser não saberem bem – nem ninguém que os conheça – como chamar o décimo filho. Alguns parentes, amigos e vizinhos, simplificando a situação, entenderam de tratar o menino apenas por WK; outros, pensando ser melhor, acrescentaram o Y na forma de tratar.

Em casa, Chizé e Francisca Maria optaram por algo que entenderam não ser causador de desavenças: ambos chamam aquele filho de da Silva e, a cada novo dia, instruem os outros a fazerem o mesmo.

Nessa família não se pensou na existência de mais nenhum rebento.

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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "WandysKarlos Ypysilone da Silva compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 15 e 16 de julho de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Vacilante - Chico Araújo*

Com cara de quem vira fantasma, eis que chegou trêmulo (justamente ele, supersticioso até a última raiz do cabelo), mudo (justamente ele sabidamente falador pelos cotovelos), olhos arregalados. Sua branquidão facial denunciava uma palidez inusitada, extraordinária de tão toda.

Sentou-se à mesa em que eu estava bem acompanhado de minha cervejinha gelada e me olhou fixamente como se não me visse. Estava como se olhasse para um lugar qualquer além daquele no qual nos encontrávamos, além mesmo das paredes, além mesmo de além das paredes e do universo a partir delas.

- Seu Luiz, por favor, traga um pouco de água com açúcar para esse apavorado aqui.

- Já tô levando. Parece ter visto coisa do outro mundo.

Seu Luiz entregou a água às mãos trêmulas. Uma parte do preparo açucarado caiu sobre a mesa, mas a maior parte foi ingerida pelo atônito. Seu Luiz e eu ficamos em silêncio, observando aquele ser tão indefeso naquele instante, perplexo, perturbado. Aos poucos ele foi voltando e, quase sem descoramento e tremedeira, falou em tartamudeio:

- E-E-Eu fui a-a-avi-sado.

- Avisado? De que?

Não falou de imediato. Pegou meu copo de cerveja, completou-o e verteu o precioso líquido em um único gole. Aí olhou menos aflito para o seu Luiz e, em resposta à pergunta feita, repetiu:

- Eu fui avisado.

- Avisado de que, homem de Deus? Desembucha logo – arrematou seu Luiz, aparentemente assumindo a perplexidade.

Antes de rezar a missa, encheu mais uma vez meu copo de cerveja e sorveu tudo novamente de uma só golada.

- Seu Luiz, por favor, traga outra, bem gelada, e outro copo, que esse aqui parece estar precisando de combustível pra soltar a língua.

O silêncio perdurou enquanto seu Luiz foi e voltou. Cerveja aberta, enchi o copo dele, também o meu e fiquei aguardando já um pouco ansioso. Ele olhou para mim, para seu Luiz, de novo para mim, até alcançar com a mão direita o copo disponível a ele. Dessa vez bebeu mais devagar e não tudo de uma vez. Pôs o copo na mesa. Ele olhou para seu Luiz, para mim, de novo para seu Luiz e, ainda malseguro, ensaiou uma fala:

- Um aviso. Quando eu estava quase chegando aqui, ouvi um aviso.

Seu Luiz começou a perder a muito conhecida pouca paciência:

- Se você não desembuchar logo de uma vez vou lhe botar porta afora dando chutes no seu traseiro.

Ele respirou fundo, buscando, talvez, um pouco mais de domínio sobre si, porquanto ainda instável. Tomou mais um pouco da cerveja e aí começou a narrativa:

- Eu tava quase chegando aqui, tava passando ali perto das árvores do nosso resto de floresta quando ouvi uma voz me chamando. Ou pelo menos pensei que alguém me chamava. Mas olhei pra traz e não vi ninguém. Aí me virei e comecei a vir pra cá de novo, mas ouvi de novo alguém me chamando, só que dessa vez a voz tava bem mais perto.

A mão dele deu novos sinais de tremedeira. Ele bebeu mais cerveja e despejou mais no copo. E continuou, sob a atenção minha e de seu Luiz.

- Eu me virei de novo e... ninguém! Ninguém estava ali, nem perto nem distante. Aí eu parei por um tempinho, olhando para tudo que era lado e nada. Ninguém nem perto nem longe. Aí eu cismei e fiquei na dúvida se corria pra casa ou se corria pra cá. Aqui era mais perto, então decidi correr pra cá.

- E correu.

- Corri logo não. Quando eu já estava quase dando a primeira passada, uma voz disse bem perto do meu ouvido:

- Prepare-se. O futuro está chegando.

Não deu pra segurar a gargalhada dupla, uma do seu Luiz, outra minha. Seu Luiz arrematou:

- Mas você tá no vacilo mesmo, hein? E distraindo a gente do nosso precioso tempo. Ora, mas tenha santa paciência! O futuro sempre está chegando!

Sem mais rir, seu Luiz saiu, resmungando, pondo-se por trás do balcão, agora recebendo fregueses. Eu fiquei, ainda rindo, pelo menos até perceber que ele me olhava sério. Fui investigar:

- Tá falando ajuizado?

- Não brinco com essas coisas. Escute o resto da história.

- Tem mais além dessa chegada do futuro? – zombei um pouco, enquanto ele manteve o rosto sisudo.

- Quando aquela voz falou no meu ouvido Prepare-se. O futuro está chegando, apesar do susto e do tremor, quis me voltar pra ver quem brincava daquele jeito comigo, mas não consegui me virar. Meu pescoço não se mexeu pra trás, eu só podia olhar pra onde eu já estava olhando, a porta daqui do bar do seu Luiz. Eu olhava pra cá, queria correr pra cá, mas não conseguia. Estava paralisado, totalmente preso por aquela voz. Aí ela disse outra coisa, também bem baixinho, no meu ouvido: O futuro é o progresso que muda tudo.

- Mas isso também não é novidade. O futuro sempre traz progresso e o progresso resume-se exatamente em mudanças. Algo deixa de ser, de existir, para existir outro algo. É sempre assim.

- Depois de dizer essa outra frase, meu corpo como que se livrou da prisão daquela voz que me fazia ficar parado, imóvel. Foi depois dessa liberdade que corri para cá, mas sentindo no corpo todo um vento frio e violento vindo de lá das árvores. Era como se o resto de nossa floresta soprasse em cima de mim aquela predição. A ventania fria somente parou quando consegui entrar aqui.

- Você está é vacilando, vendo coisas onde não existem.

- Diz isso porque não foi com você.

Olhei para ele agora sem nenhuma vontade de rir. Ele continuava sério e pude notar certo tremor rápido percorrendo todo o seu corpo, naturalmente viajando por toda a espinha. O rosto não estava lívido como antes, porém sua mão estava novamente trêmula, quando pegou novamente o copo para beber mais cerveja.

Me virei pro seu Luiz e apenas pude dizer:

- Seu Luiz, traga mais uma, por favor.

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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Vacilante" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 10 e 11 de julho de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Ubíquo e ubiquidade - Chico Araujo*

Ubíquo. Sou um sujeito ubíquo. Ou quase. Não, nunca tive pretensão de o ser; em verdade, nunca antes houvera passado em minha consciência qualquer ligeira aspiração em o ser. Mas o querido amigo KB, nessa última quinta-feira de junho, assim me reconheceu e, sinceramente, quem sou eu para admoestar tão precioso amigo.


Ele, direto e simples, disparou em rápida conversa por ambiente virtual:

- Toda vez que penso na letra U, me vem a tua imagem associada à palavra “ubiquidade”. Professor é o bicho mais ubíquo que existe.

E, na alegria daquele momento, completou sua fala:

- kkkkkkkkkkkkk.

KB ria da constatação que o levou à comparação; ria também de mim, de si mesmo, certamente por saber de tudo o que nos envolve no nosso dia a dia. Um riso amistoso, honesto, acolhedor, gracejador. E quem sou eu para exprobrar tão valioso amigo.

Aceito a alcunha, a antonomásia, o epíteto, que também se estende a ele e a quem mais vestir os atributos assumidos por nós dois. Ambos podemos, sim, por fato e por direito, estar em muitos lugares no perfeito instante em que escrevo essa crônica, não somente onde fisicamente nos localizamos; é bem certo, também, estarmos aí com você, leitor que agora nos lê, nesse preciso novo instante desse novo agora, por meio da crônica a nos interligar.

Sendo professores – KB e eu –, é-nos comum estabelecermos diálogos com muitos estudantes, os quais nos enriquecem com seus conhecimentos e enricam com tantos outros cujo encaminhamento nós fazemos. Profícuos diálogos com potencial reverberação noutras tantas imprevisíveis pessoas, noutros tantos imprevistos lugares.

Indubitável essa ubiquidade de um professor: como ser formador, tem essa faculdade de se difundir, de se expandir, quanto mais esteja agindo; assim, é-lhe possível ir além de onde possa estar, alongando-se e marcando presença em espaços e ambientes a ele impossíveis de determinar.

Não, não posso objurgar o fundamental amigo KB. Ele está certo. E mais certeiro ainda tornou-se quando ampliou seu raciocínio pontuando características as quais não incidem somente sobre mim, mas que se firmam nele também:

- Exatamente assim, a ubiquidade do professor, escritor e compositor.

KB e eu, além de professores, somos escritores e compositores, então, bem além das salas de aula nos fazemos presentes em tantos sítios, em tantos recintos como esse no qual se encontra agora você que me lê. Onde chegará essa minha crônica? Difícil especular, impossível dizer... Nossas composições musicais, quem, porventura, as está escutando nesse tempo em que essa crônica é tecida? Novamente, difícil especular, impossível dizer... Impossível também será negar que estaremos onde nossos escritos e nossas composições estiverem.

Não, definitivamente não posso reprochar o basilar e provocador amigo KB (a cada palavra aqui escrita mais me convenço de que fui provocado, sutilmente, por ele, a escrever essa escrita). Assumo, então, adicionando-o: somos, sim, ubíquos; a ubiquidade se revela em nós e por nós.


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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Ubíquo e ubiquidade" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 1° de junho de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Tá vendo? - *Chico Araujo

Eis uma frase que ouvi algumas vezes – muitas? – de minha mãe em minha infância: Tá vendo?

Na sequência não era incomum ouvir um “Eu avisei”, ou mesmo um “Eu não disse?”, ou, ainda, “Não foi por falta de aviso”. Então, havia sido uma queda de bicicleta (também, pra que isso de soltar as mãos do guidão enquanto se pedala, não é mesmo?), um joelho ralado, um arrancado de tampo de dedão no jogo de bola, sem calçado, em calçamento pedregoso... Mas, quando se é criança...

Pois bem. A frase quase inocente revelava, em sua proposição, certa premonição de minha mãe. Diga-se: não era somente a minha que a falava. De qualquer maneira, dita por quem a dissesse, quase sempre implicava algum acontecimento – e os contextos sempre semelhavam.

Pois bem. Não faz muito essa fala materna me chegou novamente aos ouvidos, porém pronunciada pela boca de outra mãe. Dava passos em uma calçada – essa rua tem calçada – e um garoto fazia acrobacias em seus patins na varanda de sua casa e, após girar duas vezes sobre si mesmo, ouviu a voz irritada:

- Tá vendo?

Junto ao choro iniciado, a irritação da mãe se aprofundava:

- O que foi que eu disse? Avisei, não avisei?

Não poderia ficar para conferir o resultado do acontecido, mas imagino o que possa ter se operado entre a queda, a fala, o choro e o levar a descendência aos curativos. Prossegui em meus passos. Com eles, a memória ativada falando em minha consciência.

Entre sorrisos invisíveis aos passantes em sentido contrário, motivados pela rememoração de traquinagens pueris marcadas pelas constatações maternas pautadas na expressão “Tá vendo?”, algumas reflexões me afluíram: uma delas tem assento na passagem do tempo e no aprendizado informal que ele possibilita às pessoas, às famílias, embora saiba não acontecer em todas elas essa transmissão, essa via de ensinamento ditado por uma tradição transitada dos antepassados aos descendentes.

Outra se ampara no fato de haver quase certo desgaste da expressão exatamente pela ação do tempo, uma vez que ele e sua passagem encaminham às sociedades mudanças em suas formas de ser, de pensar, de agir, acarretando, entre outros fatos, a eliminação de aspectos culturais tradicionais. Nos dias de hoje, nos quais vivemos sob os patrocínios de uma sociedade líquida, foi surpreendente ouvir da boca de uma jovem mãe a seu filho justamente o que eu ouvi em minha infância.

Uma terceira me chegou, fazendo, com certeza, meu semblante se alterar de alegre para sisudo, fechado, soturno, me fazendo proferir, enquanto ainda andava:

- Bem que dá vontade de dizer a muita gente: Tá vendo? Não foi por falta de aviso...

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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Tá vendo" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 27 e 28 de junho de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Saber - Chico Araújo*

Ora, acontece que o garoto queria porque queria saber o que era saber e por que saber é tão importante, e não encontrava viv'alma que o demovesse dessa necessidade tão intrinsecamente fervorosa. Então, não perdia oportunidade de perguntar: 

- O que é saber? Por que saber é importante? 

Essas eras as suas frases de preferência e isso aconteceu muitas vezes em sua infância – quando crescido passou a perguntar a si mesmo; nela, quando emergiam essas indagações, não por nenhum laivo de maldade, não por qualquer desejo traquina de pôr seu interlocutor em maus lençóis. Não, não era isso e nem era nada pior, apenas se sentia insatisfeito com as respostas dadas pelas pessoas respondentes, pois cada resposta lhe chegava acompanhada por lacunas a serem preenchidas; nenhuma delas o satisfazia. 

Esse perguntar começou mesmo em exata noite em que, quando contava cinco anos de puerilidade, ouviu sua mãe dizer que o pai acabaria seus dias inquieto, cheio de preocupações por tanto querer saber e saber e saber de tudo quanto existisse, principalmente no que se referisse a questões políticas, econômicas e sociais. 

Aquela fala da mãe foi o pronunciamento fundante daquele perguntar insistente, insatisfeito, inquieto e inquietador. Naquela hora fatídica, o menino cismou. E disparou: 

- Mamãe, o que é saber? Por que saber é importante? 

- O que filho? Perguntou o que? 

- O que é saber e por que ele é importante. 
- Bem, meu filho, saber é algo que... que... a gente sabe, entende? 

- Não. 

A mãe respondeu por responder, nem prestara bem atenção na pergunta feita pelo primogênito de cinco anos. Estava era de olho no pai dele que não desligava aquela ânsia pela informação, ouvindo e lendo notícias o tempo quase todo. 

- Mãe! 

- Oi, filho. 

- Me explica. 

- O que? 

- O que é saber e por que ele é importante... 

- Mas eu não já te disse, filho querido? 

- Eu não entendi. 

A mãe resolveu exemplificar: 

- Olha ali pro seu pai. O que ele está fazendo? 

- Vendo televisão. 

- Tá, mas o que ele está vendo na televisão? 

- É notícia, né mãe? 

- Isso! Muito bem. 

- Então quer dizer que saber é ver notícia na televisão? 

- Hã? Bem, não... não exatamente... é sim, sim, ver notícia na televisão também faz você saber, mas não só a televisão, entende? 

- Não. 

- Não o quê? 

- Não entendi, mãe. 

- Como não entendeu? É simples... 

Foi um marco aquele momento. Não entender acendeu a curiosidade do menino que, daquela hora em diante, queria porque queria saber o que era saber e por que era tão importante. Ficou taciturno, meditativo, mesmo tendo a idade que tinha. 

Na hora do jantar, comeu bem, ruminando em silêncio como saberia o que era saber, enquanto observava o pai atento ao noticiário televisivo, sob o olhar apreciativo e silente da mãe comendo devagar sua janta que não sobraria no prato. 

Criança costuma ser instável em sua saúde na infância e muitos poderiam ser os motivos para aquele estado repentinamente febril revelado na madrugada. 

- Poderia ser uma simples gripe simples, ou mesmo o prenúncio de algum adoecimento característico da idade para o qual se deveria ter olhar mais cuidadoso, o que necessitaria de observação. Naquele momento – disse o médico –, não havia nada para causar grandes preocupações. 

A mãe arriscou: 

- Tô achando que tem ligação com algo emocional... 

- Como assim? – perguntou o doutor. 

- Ontem à noite ele quis muito saber de uma coisa e perguntou muito a respeito dela, mas não consegui dar informação que o tranquilizasse. Jantou calado, ficou calado o resto da noite. Pouco antes de cair no sono, fixava o olhar no teto, como se ali procurasse alguma resposta a sua inquietação. 

- E o que o atormenta? 

- Pergunte a ele, doutor. Quem sabe não consegue dar uma resposta que o satisfaça. 

O pediatra voltou-se à criança e a ela lançou a pergunta: 

- E então, em que mais posso ajudar você? Tem algo que queira saber e eu possa lhe dizer? 

A criança não se fez de rogada: 

- Quero. Exatamente isso, doutor. 

- Isso o que? 

- O que é saber? Por que ele é tão importante? 

Aquela criança, nos seus cinco anos, prenunciava, com aquelas perguntas reincidentes, a sagacidade com que inquiriria a vida dali por diante. 

E muito tempo se passou até chegar aquele instante que poderíamos dizer fosse um agora. Das memórias ele saltou para ver-se ali, maduro, diante da televisão, vendo notícias em telejornais. Apesar disso, aprendera que, dentre muitos saberes consolidados em sua existência, um se revelava por demais relevante: não se pode crer, passivamente, em tudo o que é dito nos telejornais. Há muitos interesses envolvidos entre a manchete, a matéria feita para divulgação, o interesse de quem a divulga, a expectativa a ser criada em quem a escuta / vê. 

Assim, restava como certa a ideia de que nunca se saberá cem por cento tendo-se por base apenas o que é dito, mostrado, comentado, julgado pela imprensa, pelos jornais, pelas revistas, pelos telejornais. 

Ainda se sonha em vãs filosofias. 
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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Saber" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito em 20 de junho de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Razões: uma reflexão em erres - Chico Araujo*

Naquele dia a conversa foi a um ponto diferente do se tratara até então. Começou, por inusitada, um tanto quanto muito séria; o rumo posterior restou em resultado de diálogo mais leve, mantida a relevância reflexiva.

- Esse livro tão volumoso sob sua concentrada atenção é um dicionário?

- Sim.

- E exatamente o que está merecendo toda essa atenção.

- Razões!

- Razões?

- Sim. Vi uma matéria de televisão em que aquele político que quer fazer base eleitoral aqui na cidade disse ter razões de sobra para se propor representante de seu povo no Senado.

- Foi? E aí?

- Aí que eu cismei de querer entender que razões dele seriam essas, já entendendo a realidade da frase dita: o seu povo somos nós, nos inclui! Pelo menos até um certo momento, exatamente aquele pelo qual possa resultar sua eleição.

- E aí?

- Aí fui procurar no dicionário o que pode significar razões. Encontrei a palavra no singular, razão; mesmo no singular, ela apresenta significado na filosofia, na matemática, na astronomia, na física, na química, entre outras áreas.

- E então?

- E então que acabei de entender a razões dele, assim, no plural, podendo significar muita coisa, inclusive nada. Um nada a nos envolver. A fala dele ficou, supostamente, mais próxima de questões filosóficas; contudo, elas, na boca, nos gestos, nas ações revelam-se, não poucas vezes, como resultados desprovidos de responsabilidade.

- Não exagera?

- Recolhamo-nos, mesmo que rapidamente, a reflexões? Primeiro leiamos juntos alguns significados os quais identifiquei e os reputo relevantes:

Faculdade que tem o ser humano de avaliar, julgar, ponderar ideias universais; raciocínio, juízo.

Faculdade que tem o homem de estabelecer relações lógicas, de conhecer, de compreender, de raciocinar; raciocínio, inteligência.

Bom senso; juízo; prudência.

- Tá. Já lemos juntos. E agora?

- E agora? Reflita! Nesse senhor repousa alguma das características acima?

- Inteligência!

- Hummm... Não posso negar. Tem inteligência, sim, tem raciocínio, avalia e julga situações de forma quase rara, a ponto de estar há pouco tempo em nossa comunidade e compreender relativamente de maneira aprofundada as nossas necessidades. No entanto, insisto, na boca, nos gestos, nas ações revela-se nele, ruidosamente, ausência de bom senso, de prudência. Isso nos pode reduzir a meros representados sem representação.

- Entendo. E imagino que esteja, também, além de indignado, querendo escrever algo sobre o tema. Escrever e divulgar.

- Perfeito. Me sentirei um relapso se me permitir relaxamento a ponto de nada falar sobre a questão.

- É razoável. Mas não seria melhor para você mesmo relegar o tal? Sendo ele um reles, desterre-o.

- Talvez tenha razão, meu amigo, mas preciso dizer algo, embora esteja com alguma dificuldade quanto ao que, mas sinto que pelo menos uma crônica devo redigir. E logo, antes de me afligir ainda mais.

- Relaxa, amigo, o importante será o resultado final. E quando ficar pronta sua resistente crônica em R, é só me encaminhar, que a gente revela pro resto do mundo a razão de ser dela.

- Respeite a briga aqui, meu amigo. Tô ralhando com ela faz um tempinho e ela se rindo de mim.

- RiRiRi...

- Rastos... Você está me deixando rastos para tecê-la... Me amparo nesses vestígios...

- Rodeia esse resiliente R motivador de sua crônica, raspa o pé dele com uma rasteira, pega a rama de ideia de ruma, e não respingos, e remata tudo.

- Resultado: resolvido em breve esse tecer dessa crônica em resposta a respeitável incentivo.

- Que reviravolta, hem? Reverbero ricos e risos de regozijos!

- Reviravolta revigorante.

- Ligou o radar, pegou a ideia pelo rabicho, raciocínio repleto de razão radiará refestelo geral. És um rajá!

- Não tanto. Mas estou mais leve. Realizamos, então, com um pouco de ralação, essa fala, que não é somente minha mais, também é sua e creio até de alguém mais que esteja nos provendo os caminhos. São razões.

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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Razões: uma reflexão em erres" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 12 e 14 de junho de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Quando o querer é um querer que se quer intensamente - Chico Araujo*

Certamente, você já quis algo. E se seu desejo foi forte, mas muito forte mesmo, vai entender a situação que se mostra agora.

Ele foi à praça. Cedo da manhã, ele se encaminhou para a praça. Gostava de lá, pois nela conseguia, quase em cem por cento, ser abraçado pela quietude.

Não, a praça não cabia na classificação de lugar deserto. Ao contrário, era até bem movimentada, como toda praça deveria ser. Por ela passavam e passavam e passavam pessoas em transitar frequente de passos distintos, indo e vindo, vindo e indo. Mas essa presença de vidas humanas viajando por ali não se configurava como incômodo para ele, afinal, também se inseria na humanidade, também precisava da liberdade de ir e vir - todos precisam. Houve um tempo em que as praças eram proibidas, agora, não mais, e é bom que assim permaneça.

Quando ali, ele sempre observava as pessoas em suas idas e vindas, em seus caminhares para lugares tantos; gostava de vê-las e de captá-las em instantâneos não percebidos. Com seu olhar seguia muitas delas até que se perdessem entre outras, ou até que fisgado por novo objeto de apreciação, ou até que fosse distraído por algum qualquer outro evento não compreendido de imediato: poderia ser o sopro mais forte do vento, o cantar próximo de um pássaro, um arrastado de pé diferente, uma fala de nova voz em sua audição, uma fragrância marcante de perfume...

De fato, a praça não se constituía, de forma alguma, como um deserto, sendo, em verdade, um espaço de agitação, uma agitação boa, sem conflito, flamante e por isso mesmo pulsante de vida. E era isso o que ele buscava ali, quando para ali ia.

Ia até ela sempre que se sentia deserto, um deserto de sol intenso a lhe inquietar o espírito, a escaldar seus pensamentos e sensações. Dentro desse deserto, sabia-se perdido, desorientado, sem Norte. Ficava preso em algo ou em algum lugar que não compreendia e por não compreender não podia definir e sem essa definição para si não atinava meio de traçar um rumo a livrá-lo daquele cárcere – pelo menos, não conscientemente.

Inconscientemente ia para a praça. Nela, sem qualquer contradição, se encontrava com a quietude, que o abraçava, o envolvia de tal maneira e com invulgar intensidade que o deserto sucumbia, se desintegrava (como se um ato de magia desconstruísse toda aquela desertificação), fazendo-o ir para o lugar de onde nunca deveria ter saído – para povoar sua alma.

Ia para a praça e nela se apaziguava. Para si, dizia não importar onde ela ficava, contanto que a encontrasse, quando precisasse ir até ela. Em momentos de travessia difícil, carecia dela, da quietude abraçando-o.

Movia-se até a praça – uma praça que se escrevia: sua quietação. Ia, porque "quando o querer é um querer que se quer intensamente", sua chama acesa, além de luz, é sopro de vida, vida que arde, força que se fortifica e segue em frente.

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*Chico Araújo
publica todas as quartas-feiras no Evoé! "Um outro novo dia" foi escrito em 06 de junho de 2018 e integra o Abecedário de Crônicas do Evoé!. Leia mais Chico Araujo em Vida, Minha Vida...

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Provérbios populares - Chico Araujo*

De acordo com o que lembro, o diálogo dos dois naquela manhã, até o momento em que pude ouvi-los, incógnito, transcorreu assim:

- Tá macambúzio?

- Chateado. Aborrecido. Irritado. Injuriado. Meditativo.

- Meditativo você está sempre.

- Hoje estou mais, bem mais que meditativo. E acho mesmo que lhe enunciei eufemismos. Tudo hoje está muito mais, potencialmente muito mais... Além mesmo do que se possa querer nominar, adjetivar...

- E por que tanto assim?

- Porque não se consegue caminhar em areia movediça.

- Como é que é?

- Não se planta nada em terreno infértil.

- Onde quer chegar, homem de Deus? O que está querendo dizer?

- Em terreno fértil, você planta e tempos depois colhe aquilo que plantou. Natural e benfazejo. Em solo infértil, nem jogue semente, que ela será desperdiçada.

- Mas, o que lhe acometeu hoje?

- Não é só de hoje; talvez esteja reduzindo as indignações guardadas aqui dentro desde antes de antes de antes... de ontem. Hoje é dia de transbordamento. Acho que a represa está se derramando. Tanto represamento elevou o nível do represado e agora primeiro ele está se pondo para fora. Torço para que a pressão não se torne tão grande a ponto de explodir. Explodindo, será o caos. Serei caos.

- Tá tão cinza assim essa sua manhã?

- Não é a minha manhã. Não é o hoje. Aliás, o hoje resulta dos "ontens". Então, estou mesmo é tentando dimensionar o amanhã.

- Carpe Diem.

- O Carpe Diem pode ser a exata medida do que se viva hoje em intensidade adequada ao esboço do amanhã. Dizem que o pior cego é aquele que não quer ver. Eu, cada vez mais, quero enxergar.

- E o que você quer realmente ver?

- Aquilo que seja preciso e necessário. Tudo na exata medida.

- Seria realmente bom se pudéssemos alcançar tudo o que necessita de ser alcançado. Sou-lhe solidário, mesmo sem que tenhamos qualquer luneta.

- Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és. Aqui, com você, sei que estou em boa companhia.

- Estamos. Embora, por amplo contexto, sejamos integrantes dessa enorme “Casa de mãe Joana", não compactuamos com ela. Isso nos alenta e nos fortalece.

- Não nos deixamos levar pelo "Conto do vigário", não é mesmo?

- Parece que se equilibrou um pouco. Sua fala parece estar mais calma, mais tranquila.

- Pode ser... Mas há indignação tanta... A calmaria pode ser um dado falso. Sinto que não há bonança nesse momento; ainda persistem os ares de tempestade.

- Aos poucos, tudo se vai ajeitando.

- Não sei se é algo semelhante ao da "Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.".

- Não, talvez não seja mesmo; mas veja – já que deseja ver – talvez os "Sem eira nem beira" estejam conseguindo suplantar essa condição que lhes foi injustamente imposta. Em sendo verdade, não se ficará mais a ver navios.

- Diz-se que "A esperança é a última que morre".

- É... Agora tenho certeza de que há alguma calmaria em seu espírito, mesmo que tênue...

- Talvez... Talvez...

- Não crê?

- Tenho vivido tantas experiências surpreendentes em meus dias... tanta coisa tem acontecido a tanta gente...

- São os dias, amigo, são os dias...

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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Provérbios populares" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 29 e 30 de maio de 2018. Leia mais Chico Araújo emVida, minha vida...




quarta-feira, 23 de maio de 2018

Olhando com olhar que se alonga... - Chico Araujo*

O primeiro ato ao chegar: inspecionou o ambiente, à porta ainda do restaurante. Avaliou a quantidade de pessoas presente - queria estar distante de qualquer possibilidade do mínimo tumulto ou barulho -, a disponibilidade dos garçons - não pensava pudesse haver demora em seu atendimento -, a disposição das mesas - intentava sentar próximo à janela, para alongar seu olhar pela avenida que bem perto dali se abria em estrada. Entrou. Sentou-se à mesa onde pensara ficar.


- Bom dia.

- Bom dia.

- O senhor é bem pontual.

- Embora sempre tente, nem sempre consigo. As nuances da vida.

- Verdade. Não temos controle sobre sua dinâmica.

- Nos iludimos, apenas, quando julgamos que temos.

- Trago o de sempre?

- Sim, por favor.

O bom dia desejado ainda valia, mas em verdade verdadeira dali a meia hora a tarde sopraria seus ventos mais aquentados. Pelo costume e horário, dali a meia hora o ambiente teria um pouco mais de barulho, suportável, pois estava onde queria estar.

- Com licença. Sua cerveja, "véu de noiva", como gosta.

- Obrigado.

- Vai querer algum papel hoje?

- Não, não. Hoje vim acompanhado de um caderninho.

- Então, me dê licença. Fique à vontade. Precisando, é só chamar.

- Combinado.

O "combinado" foi dito com um leve sorriso seguido de ligeira mudança na ação de olhar. O objeto da atenção agora era novamente a avenida-estrada, o sabor da cerveja preferida já aprazível.

De imediato não lhe chegou vontade alguma de escrever. No entanto, a avenida-estrada, como nunca antes, prendia sua atenção, convidava-o a fixar-se no olhar para ela. Ela como que o encantava para deter-se naquele olhar que, a princípio, não tinha clareza sobre o porquê daquela detenção intensa e extensa.

No movimentar-se da Terra, o Sol ia anunciando a passagem do tempo, impondo mais claridade em certos lugares, instaurando sombras em outros. O dia, assim, prosseguia, enquanto a cerveja era sorvida, o barulho no ambiente criava vida, o calor se intensificava. Sinestesias. Olhava e olhando saboreava não somente a bebida, mas a própria atitude de permanecer olhando, percebendo que os sons lhe tocavam.

- O senhor me dá licença?

- Pois não?

- O senhor está aqui sozinho já faz um tempo... Posso sentar um pouco com o senhor?

- Mas há outros lugares livres no recinto!

- É verdade - disse ela já puxando a cadeira e se sentando -, mas gostaria mesmo de conversar um pouco com o senhor?

- Mas por quê?

- Curiosidade. O senhor, sempre que vem aqui, chega no mesmo horário, senta à mesma mesa, bebe o mesmo tipo de cerveja, come a mesma comida - aliás, daqui a pouco o garçom lhe perguntará se já pode fazer o pedido - e, o que chama mais a atenção, o senhor sempre fica olhando pela janela, creio que sempre para o mesmo lugar.

- A senhora está me observando? Quem é a senhora mesmo?

- A proprietária. Costumo ficar naquela sala ali em cima, por trás daquele vidro escuro. De lá vejo todo o movimento, observo as pessoas, observo os funcionários... Na verdade, tudo o que é possível. O senhor sempre está só, sempre olhando pra avenida, pensando, creio.

- Gosto de ficar assim e aqui. Fico olhando para a avenida e para a sequência dela, a estrada. As estradas costumam levar e trazer, mas há momentos em que elas nem trazem nem levam. Ficam como se não houvesse sentido em seu existir.

- Mas isso não é eterno. Haverá sempre um momento em que o fluxo naturalmente retornará.

- Os instantes de depois jamais podem ser iguais aos de antes. Toda a paralização de agora não será recomposta adiante. A diferença entre um momento e outro deve ser bem observada, avaliada, para que não se tenha a falsa ideia de que o que vem depois é melhor. Nem sempre é. A existência carece de equilíbrio.

- O senhor fala como se aquela estrada a qual olhamos agora não fosse exatamente aquela vista pelo seu olhar. A cada nova palavra sua chega-me a ideia de outra estrada, outro caminho, talvez não tão concreto como nossa visão vê agora... Quem sabe algo mais subjetivo, numa dimensão simbólica não alcançável de imediato...

- Nosso cotidiano nem sempre é, de fato, objetivo. Há muitas entrelinhas, muitas metáforas em cada novo dia. O Sol é um só; seus brilhos, no entanto, apresentam matizes e a percepção deles dependerá da percepção de cada um.

- Tal qual a noite...

- Tal qual a noite... Tal qual falas de quem fala - as minhas falas, por exemplo -... Tal qual ideias de quem as tem e as divulga... Metáforas exigem interpretação; elas dizem muito, mas não diretamente. E há discursos criados no sentido de que as entrelinhas não sejam facilmente compreendidas...

- Há de se ter atenção aos discursos...

- Sim... Há de se ter atenção aos discursos...

Naquele ponto, o diálogo silenciou, enquanto dois copos de cerveja eram novamente enchidos. Agora eram efetivamente dois olhares perscrutando a avenida-estrada... 

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*Chico Araujo
- professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Olhando com olhar que se alonga..." compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 16 e 19 de maio de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Nada, nunca, nenhum... - Chico Araujo*

O despertador os fez abrir os olhos na hora de sempre de sempre de sempre... 5 da manhã. Sem galo. Sem quintal.

Mario e Maria se levantaram sem quererem dar atenção a qualquer cansaço que tivesse se escondido neles desde a noite, quando se iludiram de que poderiam enganá-lo.

- Bom dia.

- Bom dia, bem.

O selinho foi seguido de arrastados dos chinelos partindo de cada lado da cama os quais soavam como sonos ainda não despertos, talvez no assombro do sonho não concluído.

Mario, à padaria. Maria, ao café.

No reencontro, o encontro de olhares cúmplices e apaixonados. Nas bocas, o pão quentinho com manteiga se misturando com o café fresquinho.

- Que foi, Mário?

- Nada.

- Nada? Parece estar com olhar distante, um olhar que é mesmo o pensamento sabe-se lá em que lugar.

- Nada não. Só querendo adivinhar como será o dia, o que é impossível.

- Deixa acontecer. O que é pra ser será.

- Não é cem por cento assim. Às vezes conseguimos interferir e mudar algum acontecimento. Se não fosse assim...

- Que nada! Só impressão sua.

- Será?

Jovens ainda, ainda eram somente os dois. Quem saberia dizer o futuro? Não ousavam, ainda, pensar muito adiante, embora entendessem não puderem viver sempre os dois, sem a própria família formada.

Saíram de casa juntos, de mãos dadas, como ocorria toda manhã.

- Nunca mesmo conseguimos interferir? Os acontecimentos apenas acontecem?

- Ainda está pensando nisso?

- Nunca é uma palavra de difícil compreensão e profunda extensão, não acha? Nunca é igual a jamais e jamais implica negação, um “não” bem grande. Pelo que diz, é um “não” possivelmente pra tudo.

- Acordou exagerado hoje, hem?

- Será? Veja, se “nunca” impera, jamais sairemos da condição em que nos encontramos, ficaremos sempre – outra palavrinha chata de tão determinante – onde estamos. Nem avançaremos nem retrocederemos. O ponto e as questões se repetirão exatos em suas mesmices.

- Está mesmo inquieto hoje.

- É, acho que estou mesmo, Maria. Mas se estou assim hoje e não estava ontem, isso significa que o seu nunca não é nada permanente, ininterrupto, eterno. Então, minha reflexão quanto a nossa interferência nas coisas passa a ter sentido.

- ...

Chegaram ao ponto de ônibus de mãos dadas como ocorria em cada manhã. O beijo rápido. A despedida para lugares opostos, como em toda manhã.

De maneira síncrona, descem de seus coletivos, exata hora e meia depois de terem entrado neles. Mais dez minutos, aproximadamente, de caminhada, cada um chega ao local de trabalho. Tem sido assim diariamente, desde que morando onde moram após o casamento.

Não eram trajetórias opostas, caminhos contrapostos na vida decidida pelos dois para serem um. Naquele instante da vida em parceria, nenhum abria mão do outro, da companhia do outro, da existência do outro.

Nenhum, nunca, jamais, desejaria o nada em suas vidas compartilhadas. As discordâncias faziam parte do tudo a envolvê-los e tudo era o que almejavam um para o outro.

Sabiam: nunca abririam mão dessa vivência participada.
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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Nada, nunca, nenhum..." compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito em 15 de maio de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Kafkaesco - CHICO ARAUJO*


            Pois entendam, que já de início solicito essa busca de compreensão.
Faz cinco minutos que ele se sentou ali na parte interna da Lanchonete-Bar Agora Mesmo. E agora mesmo, nesse exato instante em que você lê o aqui escrito, Você sentou-se de frente a ele e deu voz à pergunta:
- Acha mesmo que tudo ficará assim como está?
Chegou com a incredulidade de muita gente – Para que mesmo? –, tornando-se décimo primeiro. E ficou K, simplesmente. E não foi que vingou? Naquelas situações difíceis, pouco se dava crédito a sua existência, até que teve a teve confirmada. Então houve festa, módica, mas houve. E logo logo foi destacado como singular.
Enquanto crescia, a fama se alargava, rompia as cercanias primeiras e se espalhava pelas circunvizinhanças tórridas. Então, pairavam sobre ele algumas desconfianças, muito embora, pelo sim pelo não, o melhor talvez fosse crer. E quanto mais alguém cria, mais se divulgava seu potencial afirmado e confirmado em casos específicos. Aí, ora, veja bem, sua popularidade o tornava mais e mais celebridade.
- Não.
- Só isso? Um simples não?
- Vá até a porta de entrada, estude a rua, volte e me diga o que viu.
Você não se levantou de imediato. Olhou K com olhar fixo, seguro, investigativo em perceber no amigo qualquer sinal de alteração no semblante, nos gestos, no humor, até cumprir a sugestão dada.
- Não vi nada diferente. Pra mim tá tudo igual.
- Tem que aprender a ver para ver, assim como se tem que instruir-se na ação de ler para ler. Só caminha quem aprende caminhar. Só entende quem se aparelha para compreender.
- O que quer dizer com tudo isso?
- Confirmou. Não se encontra aprontado para perceber e saber.
Você se sentiu em desconforto com o dito por K. Em rebuliço, pediu:
- Por favor, me oriente. Mais de uma vez declarou aqui mesmo que quem sabe tem obrigação de instruir quem não sabe. Veja minha aflição; estou precisando.
- Você, lembra-se da pergunta que fez?
- Claro. Acha mesmo que tudo ficará assim como está?
- Quando foi ali à porta e olhou além dela não viu nada em diferença ao que viu ontem?
- Repito, não vi nada diferente. Pra mim tá tudo igual.
- Vou poupá-lo de voltar lá agora, vou lhe adiantar um pouco; contudo, faço uma nova pergunta: o dia está claro ou escuro?
Você olhou em redor e ainda alongou a investigação para a porta e as janelas do Agora Mesmo. Aí pontuou:
- O óbvio... Claríssimo... Estamos praticamente no meio da manhã, não é mesmo? Além disso, nenhum sinal de nuvem de chuva, o sol brilha com muita intensidade.
- Se está claro, por que não vê?
- Mas ver o que, K?
- Você, quando aprender a olhar com o cuidado necessário, verá que sua pergunta não tem sentido. Hoje, quase nada está como estava antes.
- Porque hoje é outro dia e nenhum dia é igual àquele que lhe vem depois.
- Quando se põe a refletir, consegue ir além. O que mais tem a dizer?
- A dizer? Quero uma resposta, uma orientação sua. Tô aflito demais.
- Uma contribuição pessoal a não enxergar. Mas vamos lá... Você, o dia pode estar claro com sol intenso, mas ele está turvo, sem brilho que ilumine. Inaugurou-se, há pouco, em verdade, um tempo de pouca clareza, embora acreditemos haver luz suficiente. Por isso é importante que veja, e rápido, além, mas muito além, do que espera que eu diga. Ver, nesse caso, é saber e crer, enxergar não somente com a visão primeira, mas com a alma, o espírito. Ver, nesse caso, está além de entender a partir de qualquer palavra que eu diga, porque há falas em abundância dizendo também em fartura em contrário até do que lhe digo. Então, o melhor ver agora está mesmo sintonizado com seu íntimo, seu espírito vibrante, suas crenças, suas vivências, suas interpretações, seu saber.
- Eu entendo o que você diz, K, e isso me aflige mais. Eu entendo e é como se eu não entendesse nada. Mais precisamente, eu entendo as palavras que diz, mas parece que não entendo o significado delas, onde elas podem chegar em sentido.
- Isso faz parte do contexto, do momento vivido agora. Por isso precisa investigar respostas para o que procura saber em você mesmo, ouvir a si mesmo. Existem meios, existem caminhos, existem traços, pistas, tudo podendo servir como ferramentas para chegar onde precisa e deseja chegar.
- A minha aflição você não abranda, não sossega.
- Não é culpa minha, não é querer meu. Repito: faz parte do momento. Se partir de você mesmo, de suas sensações, de seus sentimentos, perceberá até porque a resposta está não em mim, ou não somente só em mim, mas principalmente aí mesmo, repercutindo, gritando de tanto desassossego em seu interior.
Você olhou novamente para os lados, em redor, para a porta, investigou as janelas, mas... nada...
- Queria ser como você.
- Cada um é na medida do que deve ser. Não há igualdade entre as pessoas. As especialidades existem em todas, bastando o descobrimento dessas particularidades.
- O dia está claro...
- O tempo, Você, está escuro, sombrio, nebuloso, tenebroso, denso, confuso, duvidoso, ambíguo, ameaçador, temível... Não começou hoje, porque um tempo assim vai sendo feito de pouco em pouco, embora paulatinamente, obstinadamente. Alguns veem mais rapidamente, acostumados a olhar e ver, compreender. Não se entregue. Vá vendo.
- É por isso a sua calma, porque vê?
- Olhe bem. Onde está vendo calma, perceba análise, entenda associação e comparação. Também preciso ver além dessa escuridão que não vê ainda – quisera não chegasse a ver nunca mesmo, por inexistente, mas é falsa essa ideia. Análise, associação, comparação são mecanismo eficientes em favor da compreensão. Amanhã, melhor será, caso não receba sopros do passado. Volta ali à porta e olha tudo novamente.
Você caminhou até a porta e, atencioso, estendeu o máximo que pode seu olhar para além dela, querendo, profundamente, saber. Retornou pensativo.
- E então?
- Não são exatamente as ruas, nem as praças, nem os prédios, nem as casas... Isso está praticamente igual. Não falei com ninguém, no entanto, soube – me permita assim dizer – de alguns passos, de alguns olhares, de alguns silêncios, de alguns gestos ausentes a chegada de um tempo sem ser tempo, porém ausência, quase uma perfeita carência do momento a se desenhar. Por alguns instantes, ali, uma brisa soprou fria em meu rosto uma bofetada intensa, numa espécie de sacudida, e, em seguida, friamente percorreu minha espinha até beijar meu espírito e aquentá-lo, enquanto me sussurrava uma animação de despertar quente. Aí quis voltar para cá e voltei. O que é tudo isso, K?
- Fique um pouco mais aqui comigo, Você. Podemos nos ajudar; dialogando, há a possibilidade de sabermos mais. Juntos. Não se fie apenas na fama criada em torno de mim; ela pode até ter algum sentido, porém seu significado precisa ir além de mim. Não me aceite me limitando ao dito sobre mim. Posso ser mais e posso ser menos. E não fechando seu olhar, seja sobre o que for, pode ver muito mais...
- Mas, e agora K?
- Estamos aqui sentados. Agora Mesmo é um bom lugar para alimentarmos nosso corpo. Também é um bom momento. Vamos ver o cardápio para hoje...   

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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Kafkaesco" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 10 e 12 de abril de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...