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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Poesia na Bagagem: o cancioneiro do esteta Carlos Gildemar Pontes - TÚLIO MONTEIRO*

livro
PARTE 1


DAS COISAS DE UMA ANTOLOGIA



Antes de identificarmos o conceito de antologia poética, torna-se necessário desmembrar o termo em si. Original e etimologicamente falando, o conceito de antologia provem do grego anthos, onde seu significado seria “coleção de flores”. Algo assim bem diferente no que se refere ao termo em relação à poesia.

Contudo, a palavra originada do grego tem um importante recurso em seu significado: a palavra “coleção”. Ou seja, do ponto vista artístico literário, antologia seria um conjunto, uma coleção formada a partir de diversas obras, diversos livros, diversas criações. Onde o ponto estético nada mais é que explorar uma mesma temática de uma mesma autoria ou de um determinado período. Centrando forças em uma raiz similar em todas as produções de uma determinada coleção, ou melhor, coletânea. Ou como diz Adriano Espínola: “há, em uma antologia, uma variedade de tons que oscila da indignação à ironia, da gravidade à leveza, da alegria à tristeza. Tudo urdido com naturalidade e maestria”.

Atentando para uma linha do tempo, Meleágro, um jovem poeta grego foi um dos primeiros executores do que se tem hoje como antologia poética, onde, àquela época, as sentenças definiam os poetas de então como “silvas”, “florilégios” ou colecionadores de “flores”. Estranho, não?! Por certo. Entretanto, a partir do século18 nossa aludida locução passou a ter sentido de “coleção”.

E é exatamente na área da botânica que o termo “antologia” começa a derivar a palavra coleção. Isso porque, nesta área científica, a sentença remete a uma “coleção” de flores, violetas...acácias. Senão, vejamos o Hai-Cai que segue e é de autoria do escritor Carlos Gildemar Pontes, poeta de obra singular que será mais aprofundadamente analisado ao decorrer do presente estudo literário:



HAI CAI

No vaso partido
As flores perdem as cores
Perdem o sentido.



No que abrange a Literatura, uma antologia literária, em prosa ou verso, é formada a partir de uma coleção de textos escolhidos a esmero, seja por um determinado autor ou crítico literário, sendo essa obra organizada em um volume único ou posteriormente em novos tomos. Os poemas ou contos escolhidos se comportam em uma temática comum, remetendo-se a um determinado autor ou período histórico; onde um exemplo bastante seguido na atualidade está na junção de poemas, contos ou crônicas temporais para formatar um determinado apanhado de trabalhos literários. Em um passado próximo, Carlos Drummond de Andrade nos presenteou com um sem número de antologias quer de sua autoria ou da lavra de outros poetas seus contemporâneos. Já na atualidade temos um Luiz Fernando Veríssimo como exponencial que é reconhecido por seus muitos livros de antologias.

Apesar das inúmeras coletâneas de contos e crônicas existentes, é na poesia que as antologias se proliferam com voracidade ímpar. Selecionado, como já dissemos, por um determinado autor ou estudioso da Literatura, elas seguem um critério arbitral e individual. Uma antologia poética, no entanto, também pode apresentar uma coletânea de autores e não somente os poemas de um só. Para que essa junção se dê, basta que ele ou eles abordem uma temática comum ou relativas a um mesmo período de produção. Um exemplo clássico a ser dado são os dos movimentos literários ocorridos através de determinadas gerações. Leiam-se Romantismo, Simbolismo, Realismo e Concretismo para citarmos apenas alguns. A seguir, um exemplo de versos Concretistas do poeta Carlos Gildemar Pontes:

SERTANEJO



No gozo de tuas mãos sangrentas
Calejadas de enxada
E apertadas pela fome
Faz desabar
                 na terra
                            toda pancada
                                               derivada
                                                           de
                                                             emoção.
Nas
      ruas
             pisadas

Nos campos sorvidos
                                 está a sepultura
                                                        do
                                                           teu
                                                               suor.

Apesar de ser chamada de antologia mesmo sem haver comentários do compilador, o trabalho fica mais completo se ele o fizer, de forma a contextualizar os textos, classificando-os de acordo com seu gênero ou tema, e defender suas opções de escolha – isso pode ser feito, inclusive, em um prefácio, notas ou comentários que antecedam cada parte da antologia selecionada. Senão, vejamos o que diz o escritor e ensaísta Adriano Espínola na quarta de capa da coletânea Poesia na bagagem, do escritor e professor cearense Carlos Gildemar Pontes:

Em boa hora, Carlos Gildemar Pontes reúne seus melhores poemas neste volume denominado Poesia na bagagem. De pronto, o que percebemos é a variedade rítmica, formal e temática dos textos. O poeta aqui vai do haicai ao poema longo e confessional; dos versos rimados aos brancos; do enfoque social ao íntimo; da natureza à feitura do próprio poema. Também há, nesta antologia, uma variedade de tons, que oscila da indignação à ironia, da gravidade à leveza, da alegria à tristeza. Tudo urdido com naturalidade e maestria.



Mas para que servem as antologias além de guardarem em seus bojos imprescindíveis e caras informações sobre determinado autor, autores ou épocas? Simples: eles servem para abrigar os textos mais importantes de determinadas gerações de pensadores, de estetas...de sonhadores!

Para esse fim e para o fim pedagógico, as antologias despontam de árduos trabalhos de pesquisa para se tornarem eternas. Além disso, são importantes para orientar corretamente as análises de obras de determinado escritor caso ele tenha produzido muitas obras, ou exista uma carência com relação ao tempo disponível para estudá-lo.

Apesar de suas vantagens, acredita-se que as antologias possam ser um obstáculo à leitura completa dos textos literários, ou seja, estudam-se as antologias, mas não se busca conhecer a obra integralmente. É importante, por isso, que os estudantes de Literatura que usam antologias para se posicionar quanto a um determinado autor ou estilo literário, não ignorem as obras por completo, e as respeitem. Pode-se dizer que, vista dessa forma, a antologia servirá como um guia para o leitor chegar até a obra integral. 


PARTE 2


POESIA NA BAGAGEM: O CANCIONEIRO DO ESTETA CARLOS GILDEMAR PONTES


A poesia é a síntese do Absoluto. Parte indissolúvel da sua beleza. E o Absoluto é o todo, a completude, o elo das somas, o grau e a integridade da perfeição. Mas, como a poesia pode ser síntese de algo acabado, se o conceito de absoluto não está pronto, neste nível de compreensão das formas e das subjetividades? Simples, a poesia é o caminho da inteligibilidade do cosmos. É a harmonia em movimento, uma passagem que permite seres, como nós, atingirem o além da compreensão conceitual no nosso atual estágio de permanência, nesta evolução. CARLOS GILDEMAR PONTES

E eis que veio à luz nesse 2018 de intempéries, Poesia na bagagem, do escritor, poeta e ensaísta Carlos Gildemar Pontes. Nada mais salutar que poesia para os dias sombrios que o Brasil assiste, atônito, com seus habitantes a não crerem que o retrocesso que está acontecendo é verdadeiro, real e nada saudável. Ministérios serão extintos e a Cultura – prima pobre dos podres poderes – ficará à míngua, a mendigar, porta em porta, livros, filmes, peças teatrais e afins. Sorte a nossa termos seres especiais como Gildemar, que luta com unhas, dentes e golpes de artes marciais – sim! Além de poeta o homem é faixa preta de karatê –, para que osversoslivres ou metrificados não percam a ternura jamais.

Acompanho a escrita do nosso poeta desde os tempos de acadêmico do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará, quanto em 1984 ele lançou Lesco-lesco, a lida cotidiana. Recordo da estreia de Gildemar com um certo carinho e saudade, visto que eu contava apenas 19 anos de idade e era recém-chegado ao Bosque de Letras do Benfica. O lançamento, que na verdade não existiu de fato, pois à época e como eu ele ainda era um iniciante na feitura e costura da poesia, foi, no mínimo, diferente. Em tempos de “filipetas” e portas de banheiro ou de salas de aula, Gildemar saiu Bosque afora a escrever à base de pincel atômico a frase: “você sabe o que é lesco-lesco?”. Se chocou ou agiu de maneira interpelativa em outros pares não sei. No entanto, por onde quer que eu caminhasse, fosse indo às salas de aula, fosse nos banheiros, lá estava a pergunta a me rodear. Não teve jeito, corri ao velho “Aurélio” para saber o que diabos significa o termo em questão. Simples assim: trabalho pesado e diário; a dura faina de todos os dias para uns, ou ato sexual para os mais afoitos. Ri-me como ainda rio. Com vocês Lesco-lesco:


LESCO-LESCO

Qualquer coisa
Todo dia
Lesco-Lesco
Quem diria!

Qualquer coisa
Monstruosa
Lesco-Lesco
Em verso e prosa.

Qualquer coisa
Enigmática
Lesco-Lesco
Na gramática.

Qualquer coisa
Faz sentido
Lesco-Lesco
Meu amigo.

Toda coisa
Qualquer
Lesco-Lesco
Toda Poesia.

Como bom poema, este acima não especifica o todo pelas partes, deixando ao nobre ledor a análise dos versos em questão.

E Carlos Gildemar Pontes foi amadurecendo sua poesia como fruta saborosa tirada do pé. Como os bons vinhos, sua estética foi se afiando com o passar dos anos, fazendo-o nos brindar com um sem número de versos, uns mais bem acabados que os outros. Poeta de mão cheia e boa tessitura, Gildemar passeia pela Última Flor do Lácio com maestria ímpar. Quer seja no campo da metrificação e escansão, quer seja o da versificação livre.

De sua pena afiada brotam pérolas como “Noite”, poesia com a qual o crítico literário Adriano Espínola em tom de sabedoria pura disse ao Gildemar que com ela ele iria até o fim do mundo. Senão, vejamos:


NOITE

eu sou a noite
canto no ouvido dos bêbados
choro no berço dos mortos
racho cabeças inocentes
eu sou noite

sou escura e cruel
sou fria e de aluguel
sou as ruas e os becos

e também os homens secos
eu noite
mordo a língua dos culpados
cuspo sangue nos mercados

cato migalhas, mesmo assim
bordo fios de cetim
noite, água a escorrer nas coxias
afogando estrelas em precipício

levando a tormenta dos sonhos
lavando a bagana dos vícios
a noite não dorme


mas adormece os loucos
os homens são poucos
são apenas sombras

sou eu a noite
e varro os vultos medonhos
transformo meninas em feras

e como-as durante as eras
sou eu a mãe das corujas
das velhas por trás das janelas
dos gatos ligados calados

nos ratos coitados tão sujos
sou hoje e amanhã serei também
depois e além
planejo as notícias do dia

sou triste sou alegria
folia amante dos boêmios
alimento dos poeta que plantei

madrugada vivo a vagar
nos palácios ou nos covis
nas cantigas de ninar
nos alentos infantis

eu sou a noite
a conspiração dos detentos
a armadilha dos sonolentos
a tentação.

E Carlos Gildemar Pontes, leitor insaciável no dizer da professora Albetânia Bezerra Alves, caminha por seu Poesia na bagagem, nos servindo uma antologia que parece não ter fim tamanha é a qualidade de seu apanhado. Seguindo-se ao Lesco-lesco, a lida cotidiana, ele nos apresenta sua criação nas décadas posteriores, onde trouxe à vida Metafísica das partes, 1991; O olhar de Narciso, 1995. Livros nos quais já podemos notar um amadurecimento maior no tocante ao fabricar de versos, coisa típica dos homens de Letras.


Basta-nos notar o tom mais severo com que Gildemar trata de sua escrita, buscando e rebuscando a palavra mais correta e amiúde na construção de seu fazer literário. Coisa que ele executa com maestria na poesia carro-chefe de Metafísica das partes, de 1991:


METAFÍSICA DAS PARTES
parte considerável de nós
traz inúmera solidão desde menino
partes de nós ficaram pelo caminho
parte de nós uma nau errante
partes do coração distante

parte considerável de nós segue firme
partes se dissipam sem destino
parte das partes não voltará
partes da parte que fica seguirão

uma das partes nada sabe
outra parte nada teme
uma não tem leme

uma outra tem uma solução
outra uma imensidão
parte do coração errante

parte considerável de nós
se aquieta se aprofunda
partes se confundem

de todas as partes repartidas
nos perdemos
de todas as partes que ficaram

nós sonhamos
à parte olhamos parados
para partes que partem
deixando partes de nós
partidas.

Eis um Gildemar centrado e concentrado naquilo que sai de seus punhos marciais. Poesia engajada com a vida e a política social do Mundo e do País. Algo assim jovial, porém eterno. Sentimento puro ante à sequidão das fogueiras e arrabaldes da vida. Poesia tem que ser viva, nunca antes ou dantes morta. Poesia, vida e Arte maior. Compromissos que nenhum poeta que se preze pode deixar de carregar em seu saco de matalotagens, pois o poeta brasileiro, assim como os nordestinos, é antes de tudo um forte.

Saúdo, então, o meu amigo Carlos Gildemar Pontes, por quem tenho orgulho de cativar a sinceridade de poder escrever o que bem me venha à telha, certo de seu crivo será essencial sempre. Saúdo, pois, Poesia na bagagem, valentemente publicado pela carioca Editora Gramma, lamentando apenas que a tiragem de 500 exemplares seja tão curta ante o preciosismo poético que carrega o livro em questão. O livro possui 300 páginas de um navegar ora por mares tranquilos, ora por mares de sargaços e bravios. Despeço-me, assim, com a poesia “Capitão-de-mar-e-rua”:
 
CAPITÃO-DE- MAR-E-RUA
cubro-me com o vento da noite
e só, durmo sob do vento o açoite
sonho com o amanhã em cama de neve

para fugir das torturas que me pousam leves
ó se o meu deus soubesse onde estou agora
me faria do alimento satisfeito

me faria sonolento do meu leito
que espero ter, antes da boa hora
mas aqui desta sarjeta, pobre e sujo

cubro-me com o manto da noite escura
e acordo com a fome, nobre amiga
esperando que ela não mais me persiga
bem queria esta no mar, ser um marujo
cair da proa e guardar no mar as amarguras.

_____________
Túlio Monteiro - scritor, crítico literário e um apaixonado por Literatura. Fortaleza, terra de Iracema e Moacir. Novembro de 2018.




terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sem confetes - Chico Araujo*

Dos poemas de Túlio Monteiro constantes nessa antologia, “Poesia” tem natureza metalinguística. Nela, o poeta declara a seus leitores o que a poesia significa para ele: um espaço de expressão no qual as palavras são costuradas com o propósito de dar voz a um eu lírico múltiplo de vivências e sentimentos. Isso é o que depreendemos dos dois primeiros versos; dos quatro últimos, o desnudamento de certa ansiedade positiva para a escrita de seu mundo interior.

Por isso, acolhemos a poesia de Túlio Monteiro como meio de revelação, muita revelação. Por meio dela, um eu lírico expressa, expõe, põe à vista do leitor latências incontidas. A partir dela, esse eu lírico faz transbordar, principalmente, sentimentos e sensações já não possíveis de contenção.

Desejo, lembranças, paixão, saudade, dores, solidão são elementos formadores de suas temáticas em exploração poética, em versos compostos em linguagem simples, o que permite aos leitores interação rápida com sua poesia, mesmo nos momentos de maior sutileza expressiva, quando nos deparamos mais intensamente com sua subjetividade.

Em “Teus olhos no vinho”, por exemplo, os dois primeiros versos expõem ao leitor um momento em que o eu poético declina um momento de recordação e, devido a ele, o despertar de uma saudade em amplitude tanta que a lembrança dos olhos da pessoa querida e desejada perduram em seu rememorar, pois “teimam em boiar / no escarlate do vinho”. Vê-se, nesse instante, o registro de validação de alegria, posto que, devido a ele, “Um sorriso franco me chega ao peito / feito feitiço em noite de lua cheia...”.

A imagem da pessoa amada nesse poema é tecida, subjetivamente, como prazer, encantamento e felicidade a partir da utilização de palavras e expressões como “sorriso franco”, “feito feitiço em noite de lua cheia...“ (aqui se deduz a grandeza da pessoa amada, posto que associada à dimensão subjetiva proporcionada pela lua quando está cheia), “saudade do teu carinho”; no entanto, a dubiedade dos sentimentos também é pronunciada quando emerge alguma tristeza pelo distanciamento do ser amado em “nunca mais te terei / ao alcance de meu beijo.”.

Em “Saudades das estrelas no corpo” e “Há pó de estrelas pelas estradas”, lembranças e saudades dão vazão a sentimentos de paixão que transitam pelo padecimento do amor sentido e pelo prazer lembrado, porém perdido. Os versos “Um tempo nunca mais retornado / Relembra a paixão e o viver.”, do primeiro, dizem bem de uma lembrança em recorrência no existir do eu lírico, uma insistente lembrança que não maltrata, pois significa vida. O amargor da saudade, contudo, aparece nos últimos versos desse poema, quando se fala do amigo que foi embora, do tempo que não pode retornar, do “grande amor” agora inalcançável.

O segundo, logo em sua primeira estrofe, expressa experiências sentimentais saudosas e alegres, uma vez que “o pó de estrelas pelas estradas” é motivo de prazer que leva a uma sensação de espírito pacificado. Essas vivências são despertas novamente por lembranças, posto que vindas dos “últimos já quase oito anos.”, tempo em que a experiência amorosa foi pretendida para um sempre, ao serem considerados os versos “amantes que, mesmo antes de tê-las, / já éramos antes, hoje e depois.”. Essa vivência amorosa do eu lírico está sempre marcada por momentos de amor partilhado e, depois, pela solidão do amor rompido, mesmo que essa solidão emerja não a partir de fatos, mas de temores pela perda. É o que se intui dos versos “Tantas lembranças dessas estradas / estão retidas em minha mente / tão temorosas de serem lembradas / por medo que o peito não aguente / todas as dores de amor geradas / pelas ideias de te ver ausente.”

A poética de Túlio Monteiro também pontua acentos de Intertextualidades, como, por exemplo, em “Saudades das estrelas no corpo”, uma vez que a última estrofe retoma, em parte, frase e estrutura poética de Casimiro de Abreu em “Meus oito anos”. De modo semelhante, no mesmo seu poema, Monteiro, por intermédio do eu poético, associa versos da música “Como nossos pais” – exatamente “... já faz tempo eu vi você na rua / cabelo ao vento, gente jovem reunida...” –, do compositor e intérprete sobralense Belchior, como elementos intensificadores das lembranças existentes. Também no poema "Há pó de estrelas pelas estradas", no título e no primeiro verso, o poeta Túlio Monteiro dialoga com o poema Plenilúnio, de Raimundo Correia.

Concluindo, destaco, ainda, do poema “Cigana”, certa e resoluta entrega amorosa do eu lírico a sua amada, negando-se a qualquer intenção premonitória – verdadeira ou ardilosa – de uma cigana aparecida em seu caminho; novamente a lembrança se fazendo presente e marcando as sensações amorosas que sente enquanto se permite molhar-se em chuva em “Verde, cor favorita”, poema que se encerra com mais um exemplo de intertextualidade.

No mais, importa ainda declarar a sutileza amorosa do poeta Túlio Monteiro em seu poema “Primeiro poema para Aline Monteiro”. Nele, vê-se um eu lírico alegre, descontraído, distenso, brincando com as palavras e com o registro de letras em algumas delas, de forma cândida para enaltecer a vida de sua musa inspiradora para o poema, a qual trata por princesa, linda, pérola morena, expressões que servem para destacar, dela, uma beleza ímpar.


O que mais dizer desses poemas de Túlio Monteiro nessa antologia? Bem... agora deixo com você, ledor.
___________
*Chico Araujo - professor, poeta, compositor, contista, cronista, escreve articulista do Evoé! O título "Sem confetes" foi escrito entre 25 e 28 de agosto de 2018.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

P de plantador - O homem que plantava bandeiras - Túlio Monteiro*

Todos os dias, minha rotina entediante de trabalho força-me a deixar o carro rodar sistematicamente pelas mesmas ruas e horários, o escritor que me habita adormecido em detrimento do sustento de cada dia. Um a um já sei quais semáforos estarão abertos, abrindo, fechados ou fechando; quantas vezes darei com o pé no freio ou quantas mudanças de marcha ocorrerão.

Durante esse percurso insosso sempre o vejo na mesma calçada, ficando bandeirolas coloridas amarradas a varetas que as deixam a um metro do chão. Já tem idade aquele homem. Denunciada pelas costas curvadas, o cabelo em prata e desalinho, rosto sulcado que um dia distribuiu sorrisos largos vindos dos olhos vazios e secos de vida de agora.

De maneira mecânica, uma a uma, as bandeirolas que anunciam mais um grande empreendimento da construção civil, vão sendo aninhadas em seus locais, um vento impregnado de fumaça e pó de asfalto a balançar-lhes os tecidos encardidos da chuva-sol que se reveza nas manhãs de um abril que se inicia.

Decido por parar o carro e mudar um pouco a mesmice. Que se danem o maldito ponto a ser batido e o bando de caras amarradas que trabalham na repartição bolorenta onde me abanco por oito horas seguidas, mais uma para o almoço e olhe lá. Quero falar com aquele homem, saber dele e sua rotina mais tediosa que a minha, salário menor, idade maior, filhos, netos, esposa, amantes, saudades do pai, da mãe e de algum irmão ou amigo que já partiram desse vasto mundo.

Indago! Pergunto! Mudo de lado e ele nada. Palavra sequer, preocupando-se apenas em ficar bandeirolas, serviço mecânico, demarcação, publicidade de mais concreto frio e ferro a serviço dos abastados que ali irão morar. Desisto, sabendo ainda haver tempo de chegar a tempo.

Já voltando para o carro, ouço sua voz soando rouca, porém firme em seus propósitos:

– Também vejo seus olhos todos dias por trás do vidro de seu carro. Ainda não são tristes como os meus, mas seguem o mesmo caminho que segui. Para você chegou a hora das escolhas certas. Na idade em que se encontra não se pode mais errar, pois há um tempo em que deixamos de ser promessa para virarmos realidade.

_____________
*Túlio Monteiro – escritor, crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! O texto "O homem que plantava bandeiras" foi escrito em abril de 2008. Agora integra o projeto Abecedário de Crônicas do Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro

sexta-feira, 13 de abril de 2018

I de Imagem, ironia, internáufragos, "influencer" e outros is - Kelsen Bravos*

Eita! Esses dias intensos a nos inquietar!

É como se estivéssemos a nadar em turbulentas águas, onde é difícil manter o pescoço acima da superfície. Mal se respira bem. Tem-se de ter cuidado ao inspirar, para não se engasgar ou encharcar os pulmões com o que vem junto do ar. Velocidade e intensidade instintivas. Tudo é urgente. Pensar e agir, num vapt-vaput. Nada de reflexões. Sem essa de verticalizar assuntos, pesquisar, ponderar, ler mais, filosofar, dialogar, gerar ideias e linhas de raciocínios. Inútil guiar-se pela luz da ciência. Arte?! Nada disso! Para se formar opinião, basta imergir no mar de informações da base de dados que nasceu googol e depois virou google, por erro ortográfico.

Googol designa uma quantidade indicada pelo número um, seguido de cem zeros (10¹°°). Tal índice, suponho, era só o princípio da quantidade de dados que um simples clique acionava... Foi o acaso de um erro de digitação, por fim, quem definiu a - talvez - palavra mais cogitada, mais inquirida e internetizada do mundo: Google.

Irônico o nome final da maior base de informações de referência da Internet ter sido definido por um erro. Isso põe em xeque tudo quanto se pode afirmar com certeza. Só nos confirma a imagem de um turbulento mar de incertezas. Nele, ante a aparência mais consistente, o internáufrago se apega como a uma boia. Uma boia, por mais efêmera que seja, permite-lhe um fôlego extra, é esperança de sobrevivência.

Vale também fazermos outra inferência a partir do surgimento do nome Google. Quem definiu por batizá-lo assim, fê-lo por ter-se criado um neologismo de forte apelo identitário cujo significado hoje encapsula a informação infinita de dados, muito além de 10¹°°. Aquele erro ortográfico gerou uma poderosa opção de marketing, tão bem sucedida, que transformou, para muitos, uma base referencial de dados em uma definitiva fonte de informações primárias (que ironia!).

A bem da verdade, o google cumpre o papel daqueles antigos arquivos de biblioteca, onde estão as fichas catalográficas do acervo local aos quais até o mais experto consulente recorre para localizar nas estantes as fontes (livros, revistas, artigos...) do tema de seu interesse. Vejam bem: o google não é um conteúdo propriamente dito. Ele, apesar de ser o mais poderoso arquivo referencial de fontes, apenas indica os locais onde estão os conteúdos almejados.

Mas nos turbulentos e impacientes dias de hoje, os insofríveis internáufragos se contentam com a rasa informação indicativa do mais poderoso "arquivo catalográfico" digital do mundo, como se a rasa informação fosse a da fonte definitiva. Daí podemos supor a imensurável falta de senso crítico no contexto vigente.

O contexto acrítico se fortalece na futilidade do mundo descartável, mutante, camaleônico e superficial. Surgem então conceitos e gostos efêmeros, cujo pensamento tem a profundidade de um pires, o suficiente para o rápido fôlego tomado em turbulentas águas. A pressa dessa realidade favorece ao pensamento liberal cujo alimento é o consumismo desenfreado, quanto mais descartável, fútil e acrítico melhor. A mídia liberal cuida de potencializar essa superficialidade, em fetiches e fantoches, gerando um fútil mundo de aparências.

Nesse mundo de aparências, a ostentação vale mais do que o lastro. Vejam bem: o lastro pesa, é um risco para o internáufrago em águas turbulentas. Daí o melhor caminho é estar no topo, na superfície. Nada de profundidade. Na Internet, estar na crista da onda, é atingir um topo de acessos (via streaming) e virar referência na blogosfera-cibersfera.

Uma estratégia, para ampliar o número de fiéis seguidores, é saber dar (des)orientações, dicas, que não lhes canse a mente, apenas os estimule a seguir e fazer a efêmera "vibe" da hora. É só promover um monte de lugar-comum, por exemplo, dizer que a culpa da violência e da insegurança é dos direitos humanos. Se consegue aliviar os seguidores da obrigação de pensar, aí vira uma referência e pode chegar a ser uma celebridade, ter milhares de seguidores e virar um "influencer".

Por ter seguidores aos milhares, a liberal sociedade de consumo assedia o "influencer" e paga para ele ditar o gosto que ela quer impor. E, como ninguém tem mesmo senso crítico, "se o tal diz que é, é porque é e tá valendo".

A superficialidade se impõe até em investigações e julgamentos e ameaçam a calmaria das águas do Estado Democrático de Direito. O maior exemplo está na convicção - sem provas! - das acusações contra o presidente Lula que foram demonstradas em pireslescas informações de um "influente" power point e foram acatadas pela convicção afim do pré-juízo de Curitiba.

Eu mesmo, se não estivesse tão a nadar em turbulentas águas, onde é difícil manter o pescoço acima da superfície, pararia para botar sentido em certas coincidências. Por exemplo, Marielle Franco, expressão feliz do conceito gramsciano de intelectual orgânico, uma liderança das mais importantes, ser assassinada. Na sua ausência, surge um jovem pastor (do mesmo partido de Marielle), com argumentos contundentes contra a ameaça ao Estado Democrático de Direito. Vejo também sendo urdida uma liderança funk - já com sotaque bem pop. Ambos, sinto, vão ocupar parte do vazio deixado por uma intelectual orgânica com a interferência ou não da mídia liberal. O liberalismo faz de tudo para destruir a imagem de uma liderança orgânica. Talvez o alvo nem seja o vazio deixado por ela.

Marielle Franco não tinha a longa estrada de Lula, outro intelectual orgânico. Mesmo assim tentam destruir a imagem dela, que infelizmente não pode se defender. São uns covardes. Nunca serão vencedores, pois são violentos. A violência como argumento é a expressão dos derrotados. Não sabem o quão indestrutível é a imagem de um intelectual orgânico. Por isso Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo na prisão, é livre e está lhes impingindo a pior das derrotas, a sua imagem cada vez mais cresce em importância, em expressão, em substância e em quantidade, em qualificada quantidade! Evoé!

______________
*Kelsen Bravos - professor, escritor, compositor, editor do Evoé!

quarta-feira, 14 de março de 2018

"Era casa, era jardim" (memorial em versos com chuvas de fevereiro 2018) - Márcia Matos*


Que gemam as dobradiças da casa cheia de flores
que sangrem os pescoços de galinha morta
a se debater pendurada por cordel em porta
por mão de quem manteve em silêncio suas dores

Que chorem as asneiras da mata particular
que revoem os colibris do alto da trepadeira
a beijar o néctar de uma vida inteira
plantada por mão de quem só soube amar

Que caiam as folhas da rosa mangueira


que se canse de nutrir tantos ais
a ouvir canções dos dias de quintais
em toadas de mãos que sugaram sua seiva



Que rache o tempo das velhas paredes
que seguraram o vento de frias noites
a embalar o acalanto, o riso e açoites
Permitido o tranquilo sono das redes



Que finde o brilho do piso antigo

que esfregaram com rigor e medo
a receber as pisadas de domingo
permaneceu a mancha de tanto zelo


Que partam destinos da sua calçada
que encontrem sempre retorno certo
a esperar o calor do ninho
aos que sabem o portão aberto!


_______________
*Márcia Matos - poeta, professora, a querida Márcia Matos faz colaboração bissexta ao Evoé. O poema "Era casa, era jardim" (memorial em versos com chuvas de fevereiro 2018) foi escrito em fevereiro deste 2018. Fotos da tatuagem a ilustrar a poesia Márcia Matos.

terça-feira, 13 de março de 2018

Estela - Chico Araujo*


Estela. Latinamente Stella. Estrela.
De outra língua originada, expressão significativa em linguagem modificada. Não na essência. Não na raiz.
Estela. Meu primeiro brilho. Meu primeiro sim. Luz intensa em minha existência.
O meu primeiro abraço, quando nesse mundo. O meu primeiro carinho, quando despertado. Minha primeira vitória. A gênese de minha História.
Noites insones nos cuidados preciosos – em precisão. Todo pequeno carece da grandeza materna para seus primeiros suspiros, seus primários olhares, seus iniciantes sorrisos, suas primitivas investigações guiadas pela inocência. Estela firme. Alimento para o corpo e para o espírito.
Estela iluminando os caminhos para os primeiros passos. A mão estendida à mãozinha aflita ansiosa pela segurança. A voz dócil chamativa orientando o caminho do caminhar – Aqui, aqui... Vem, vem, vem... – autonomia em fabricação não imaginada. A genitora não se imagina vendo partir a quem gerou em suas entranhas, em seu ventre (tanto tempo no tempo certo do tempo em gestação). A descendência – crê –, enquanto no apego possessivo, não se estabelece sem seu olhar orientador-protetor.
Mas então, na angústia de uma surpresa que de tão certa surpresa não seria, a descendência se mostra crescida e cheia de vontade de ter vontade própria e de fazer seu próprio caminho, trilhar por estradas avaliadas como as melhores, pisar os oportunos passos rumo aos desconhecidos lugares e momentos que lhe convierem. Estela em luta quanto à aceitação.
Mutável, analisa as circunstâncias e se adapta, se reinventa, mesmo sentindo o gosto de mudança inesperada e, ainda, não desejada. Estela renunciada. O olhar que olha não é para ver a si, porém para acautelar os filhos. Ela, forte e resoluta, prenunciando em quase adivinhação que em breve eles entenderão de seguir por conta própria o que a vida reserva para cada um.
Reestrutura-se, redimensiona-se. Agora, um pouco mais à distância, fica mais presente – espetacular movimento dialético: mais longe, mais perto –, com intensidade maior em seu brilho.
O novo momento torna-se exato, a partir da solidez dos ensinamentos feitos nos anos de presença amorosa, dos aconselhamentos reditos, repisados. Tudo emerge de forma surpreendente em ações que agora não são de Estela por ela mesma, mas de Estela renascida e inserida na vivência de seus descendentes, na reinserção de culturas dimensionadas em novos contextos. “O antes / O agora / O depois...”
O tempo no tempo de novos tempos...
Estela brilhando, perpetuando-se, tornando-se cada vez mais plena, cada vez mais ela...
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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Estela" foi escrito entre 10/03/2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 7 de março de 2018

A Literatura Infantil no Ceará - Kelsen Bravos


Um breve histórico da literatura infantil no Brasil e sua expressão no Ceará da qual apresentamos aspectos que a destacam no universo infantil. O cenário criativo-editorial da literatura para crianças e a formação de leitores no Ceará.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Consilium fraudis - *CHICO ARAUJO


A cidade nem é pequena nem é metrópole, então é considerada entre mediana e grande. Não se encontra na região metropolitana nem está distante da capital – e isso é considerado muito bom, pois permite acesso rápido a ela, por via terrestre, em estradas muito bem pavimentadas.

O clima ali é muito agradável, também a tranquilidade impera, não havendo mesmo registro qualquer de ações de violência, dois fatos que têm levado algumas famílias a se mudarem para lá. Foi para lá que se mudou o deputado federal Carlos Lopes de França com sua família.

É nela que encontramos o “Bar do seu Luís”. Ostenta esse nome porque começou mesmo assim, um bar, um boteco pequeno onde os homens adultos do lugar se encontravam para doses de cachaça, cervejas, tira-gostos e conversas. Depois cresceu um pouco, pois seu proprietário, o seu Luís, tendo terreno disponível, ampliou o comércio para uma mercearia, criando dois ambientes distintos, mas interligados e com acesso um ao outro sem qualquer empecilho.

Já sabemos que o seu Luís, por natureza, não é daquelas pessoas em quem se reconhece facilidade no trato. No entanto, depois de tantos anos à frente da bodega mais conhecida e festejada do bairro – e mesmo da cidade inteira – era bem aceito por todos que a ela iam para compras diversas, incluídos produtos como açúcar, feijão, farinha, arroz, pão, biscoitos, leite, entre alguns outros, além das cervejas e cachaças. Sendo um local onde existia respeito, não somente os homens apareciam para as compras, também senhoras e mocinhas.

Eram muitos anos ali estabelecido e neles seu Luís viu e ouviu muita coisa envolvendo seus clientes. Contudo, arretou-se da vida numa certa tarde de quarta-feira, mês de março, no tempo exato da entrada, em seu estabelecimento, do deputado federal Carlos Lopes de França, vulgo Carlão, como ele mesmo havia declarado quando deu as caras pela primeira vez na bodega do comerciante.

Acontece que quarta-feira à tarde, em mês de março, sem haver feriado, é dia de deputado federal encontrar-se na Câmara dos Deputados, em Brasília, trabalhando em benefício do povo. Pelo menos era assim que seu Luís pensava, declarava a plenos pulmões, defendia diante de qualquer um que lhe aparecesse pela frente para falar alguma coisa sobre política. Ele era homem simples, de pouco estudo escolar, mas sabia muito da vida – dizia sempre isso com muito orgulho – e julgava situações e acontecimentos como poucos.

Pois foi só o deputado federal Carlos Lopes de França aparecer naquele meio de semana, em sua bodega, naquele horário – eram umas duas da tarde pelo que ele se lembrava – para ele, seu Luís, se encrespar, vestir seu conhecido manto de irritação e, naquele instante também se lhe fazer assanhar profunda desconfiança. Porque o político chegou na arrogância já conhecida, mas acompanhado da arrogância de dois assessores, de acordo com o apurado pelos ouvidos e pela atenta observação do mercador.

Carlos Lopes de França chegou com seu rompante e foi disparando:

- Boa tarde, seu Luís. Traga logo duas das suas cervejas sempre geladas e prepare aí um dos seus bons tira-gostos que eu e esses dois colegas vamos ter uma conversa possivelmente longa aqui. Seu estabelecimento não será mais o mesmo, seu Luís, depois de hoje.

Seu Luís ouviu essa frase enquanto levava as duas cervejas e os três copos para a mesa onde havia ficado o trio. Estava de cenho fechado, e mais cerrado ficou quando, após a frase, três gargalhadas ecoaram no ambiente, unissonantes. Ressabiado, ficou de olhos abertos aos gestuais daquela tríade e de ouvidos atentos às falas, sem distrair-se dos outros poucos clientes daquela hora.

- O negócio é o seguinte. Estou em conversas bem avançadas com o Grande e o meu nome deve ser lançado para aquela vaga que vai surgir lá mais em cima nas próximas eleições. Mas para isso vou precisar muito de vocês dois, muito mais do que já precisei antes. A ida para lá exige atenção, empenho, visões e ações diferentes. O trabalho será muito maior, mais intenso e por isso quero contar com vocês.

- Sabe que pode contar com a gente – disse um, antes de sorver um bom gole de cerveja.

- Sempre... Sempre pode contar com a gente – enfatizou o outro, após fazer descer garganta abaixo sua cerveja e deixar seu copo vazio, pronto para ser novamente enchido.

- Sei disso, sempre soube. Por isso os chamei. Vou falar somente do primeiro passo, por enquanto.

Silenciou quando percebeu seu Luís chegando com um farto prato de torresmo feitinho na hora.

- Beleza, seu Luís. Vocês dois vão comer um torresminho melhor do que qualquer um feito por mineiro. Seu Luís, pode trazer logo mais duas cervejinhas? E se puder preparar aquela mão de vaca que só se encontra aqui, já estamos a postos.

O vendeiro afastou-se do grupo meditando sobre como aquele deputado devia considerá-lo um idiota. Aquela bajulação toda só pra ter um lugar onde pudesse organizar tramoias. Mas por que logo no seu comércio?

- Vamos lá. O negócio é o seguinte: precisamos tirar de nosso caminho aquele outro lá que vai tentar se manter. O tempo dele vai terminar e ele vai querer ficar, é claro. No lugar dele eu também ficaria. A gente pode conseguir muita coisa estando lá. Dá muito prestígio. Mas se ele ficar, eu não entro. Então, ele não pode ficar.

- E como você vai conseguir despachar o homem? Você está sempre tão perto dele...

A pergunta somente foi respondida quando seu Luís afastou-se da mesa após dispor as duas cervejas pedidas. Já nem se davam contam de que, quanto mais baixo queriam falar, mais audível estava o que diziam. Entornaram rápido demais os primeiros copos.

- Pois é, tudo deve ser feito com muito cuidado, porque o que aparecer dele não pode me atingir também, entendem? Por isso chamei vocês, que são amigos especiais, pessoas em quem posso confiar. Eu não posso de maneira alguma aparecer em nada que seja ruim. Eu tenho de aparecer como pessoa boa, competente, responsável, que pensa nos eleitores etc., então tudo o que fizerem para ele não pode ficar relacionado a mim, deve me manter o mais distante. Entendem, né? Óbvio que uma vez eu estando lá vocês serão recompensados.

- Mas vir pra cá pra essa cidadezinha não vai atrapalhar seus planos não?

- Pelo contrário. Ela foi escolhida a propósito. Aqui é tranquilo, o povo é hospitaleiro e me recebeu muito bem. O povo daqui é simples demais, amigo demais, inocente demais. Nessa espelunca aqui estou bem perto das pessoas mais importantes da cidade. O prefeito vem aqui, sabiam? O delegado de polícia vem aqui; os médicos vêm aqui; todo mundo que importa na cidade vem aqui. É tradição. Esse bodegueiro – que não gosta de ser chamado de bodegueiro – talvez seja o cara mais importante desse lugar, porque todo mundo passa por aqui.

- E...

- E acontece que estou conhecendo todo mundo e todo mundo está me conhecendo. Alguns já me reverenciam. Daqui, já sei, nunca saiu um deputado nem estadual nem federal. Já estão me vendo aqui como possibilidade pra eles. Claro que tenho alimentado isso, sempre que posso. Depois de me mudar pra cá, aliás, por intermédio do prefeito – outro destacado inocente – passei a ter maior proximidade com o governador e, por meio dele, estou chegando mais perto de outras figuras importantes, decisivas. Se tirarmos aquele lá da disputa, aí será o paraíso...

Algumas gargalhadas ecoaram. Seu Luís olhava o grupinho com uma seriedade aguda. Os outros clientes bebiam, falavam, escutavam uma ou outra frase solta, não entendiam o todo. Seu Luís sempre atento.

- E a tua filha, tá melhor?

- Minha filha nunca esteve tão bem. Aliás, ela nunca teve nada. Vim pra cá por descobrir que aqui seria um lugar bem estratégico para as minhas pretensões – disse isso rindo. Minha filha quase nunca vem aqui. Estuda na capital, num dos melhores colégios; minha mulher, parceiraça que me apoia em tudo, vem quando eu venho e me ajuda com alguns contatos. No mais, eu precisava de um novo domicílio para alcançar o que agora quero e esse lugar serve como uma luva. Depois, se tudo correr a contento, “o céu é o limite”.

Novas gargalhadas se fizeram ouvir, sob o olhar censurador do dono do bar nem um pouco contente com a tramoia articulada ali, cujo entendimento lhe chegara pela capacidade de observação desenvolvida em muitos anos de vivência e pela escuta de trechos fundamentais da conversa. Olhava-os e refletia sobre como poderia impedir o retorno daqueles três ao seu estabelecimento. Nunca deveria ter aceitado ficar de cócoras com ele quando o conheci. Por enquanto, apenas pôde atender ao novo pedido, vindo de uma voz que começava se arrastar:

- Ô seu Luís, traga mais duas... E homem de Deus, cadê aquela mão de vaca saborosa?

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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título Consiliu fraudis faz parte do Abecedário de Crônicas-Evoé! e foi escrito entre 15 e 17/02/2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

CEMITÉRIO, CATEDRAL E CASTRO E SILVA - Túlio Monteiro*

Eu, com a velha mania de flanar pelas ruas e avenidas dessa Cidade do Sol, um dia me deparei com a Castro e Silva, rua singela no centro de Fortaleza que mal conta com oito ou dez quarteirões. Cismado que sou em ler as placas das ruas, me veio a vontade de saber qual a história daquela. Confesso que não obtive muitas informações históricas além das quais muitos já sabem: os Castro e Silva são de uma linhagem nobre do estado do Ceará com origens em Portugal, como quase todos nós e que Castro nada mais significa que uma cividade (substantivo feminino antigo de cidade) ou citânia sendo um castro de maiores dimensões e importância, habitado continuamente. A designação "citânia" é comparada com o Cytian dos povoados fortificados nas ilhas Britânicas, ou seja, os castros ainda que em ruínas estão quase invariavelmente localizados no topo de montes que eram defesas naturais e permitam o controle tático dos campos em redor. Estes montes tinham sempre fontes pequenas ribeiras onde n´aqueles mais desprovidos de água eram construídos reservatórios pelas populações, provavelmente para resistir aos cercos medievais.

Mas, voltemos à nossa Castro e Silva cearense e a curiosidade que a mesma nos reserva enquanto rua pequena de nossa capital. E desta vez não tive que recorrer aos meus alfarrábios ou sistemas de comunicação de grande porte. Apenas a mente foi utilizada nesta que vos escrevo para as palavras que a em si tomaram o curso do projeto de Kelsen Bravos, de fazermos com ele e o Chico Araújo um Abecedário de Crônicas..

Em conversa com Bernardo Monteiro, meu pai, certo dia ele me perguntou: Quem é que nasce no cemitério e morre na catedral? Eu era apenas um moleque de dez ou dois anos quando afirmei não saber a resposta e ele foi instantâneo em dizer de que não se tratava apenas de uma simples adivinhação. Que eu procurasse a resposta, pois logo mais à noite, depois de um dia de labuta, ele iria buscar a resposta.

Olhemos bem para a época de tal pergunta e retornemos breves para nossas linhas. Não havia ainda a tal da internet nem tampouco o mundo era digital. Tudo ficava na ponta de um lápis em escrita fundamental do que se ia comentar. Foi então que tive a ideia de ir até à casa de meu tio Francisco Pereira da Silva pesquisar em seus grossos volumes da enciclopédia Delta-Larousse para tentar entender algo mais de uma rua que levava nome de gente. Sim! Digo levar gente para um nome de rua porque há cerca de 100 anos o poder público de Fortaleza teimou em numerar as ruas da cidade, bobagem que não demorou muito para ser reconhecida e voltou a estrutura à qual estamos acostumados a nos locomover.

Mas, para findarmos a estrutura desse “mistério” levantado por meu pai, retornemos à pergunta que origina o “C” dessa crônica: Quem é que nasce no cemitério e morre na catedral? Foi só à boca da noite que meu pai chegou de volta que me perguntou se eu havia evoluído no meu raciocínio sobre a referida pergunta, tendo por resposta minha algumas das palavras que vos escrevi anteriormente.

A resposta que tive do criador de meus dias foi simples e objetiva: quem nasce no cemitério e morre na catedral nada mais é que a rua Castro e Silva. Ponto! Isso porque, explicou-me meu velho, ela tem mão única no trânsito, iniciando-se no cemitério São João Batista, vindo por findar, em frente à Catedral Metropolitana de Fortaleza, sendo ela, talvez, a única a ter essa formação geográfica no Mundo todo.

Ficamos, então, com mais uma informação da nossa Fortaleza, tão pouca na memória de nosso povo. Um grande abraço e até o “D”.

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*Túlio Monteiro - Escritor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

DILEMA - Chico Araujo*

Chegou e já avisou ao amigo que se encontrava em profundo dilema.

- Qual?

- Palavras.

- Palavras?

- Palavras!

- Pode explicar?

Faz alguns dias já. Mas aconteceu de repente. Eu estava com uma frase quase pronta, já ia registrá-la e, sem mais nem menos, ela me escapou.

- A frase...

- Não, a palavra que comporia a frase que por sua vez daria robustez ao texto.

- Por que não pôs outra? Há diversas maneiras de se dizer algo que se queira.

- Mas naquele instante somente haveria uma forma para eu declarar o que queria fosse declarado e para que assim acontecesse, na exata medida, sem tirar nem pôr, todo o pensamento plenamente ajustado, só com ela eu conseguiria. E ela estava ali, comigo, bem pertinho, mas de repente...

- De repente...

- ... de maneira inusitada desviou-se de seu rumo, embrenhou-se em outro destino, misturou-se em meio a outras disputantes daquela oportunidade e... sumiu... desapareceu de meu pensamento de tal maneira que até hoje não a encontrei. Esse fato, essa fuga tem me atrapalhado um bocado.

- Mas por quê?

- Porque como ela era a palavra exata, precisa, não existe outra para o seu lugar, então, o pensamento que existia, o próprio texto que escrevia não pode ter completude, não pode ter seu começo meio e fim. Começo ele teve e, de certa maneira, está em seu meio, mas não chegará ao seu fim, exatamente por causa dela, da fugitiva. Uma fugitiva a me afligir.

- Por que não tenta encontrar uma substituta no dicionário?

- Mas como? Se ela fugiu, se desapareceu ou mesmo se escondeu em algum lugar na minha cabeça entre tantas palavras e expressões coexistindo, como encontrar substituta? Simplesmente não sei nem mais qual era a palavra. O que sei é que ela era basilar, fundamental. Sem ela, necas de pitibiribas...

- Eis aí seu dilema.

- Sim. Não tenho como dar continuidade ao que escrevia, ao que pensava.

- Pois parte pra outra escrita.

- Seria uma alternativa; contudo, não tenho conseguido essa façanha, pois me persegue o desejo de encontrar a palavra ajustada. Tenho absoluta certeza – não mera convicção – de ter ela o significado essencial para o pensamento quase desenvolvido por completo. Sei da importância de tudo o que dizia. Os textos sempre precisam dessa característica: importância.

- Insisto que o melhor caminho talvez seja escrever um texto outro. Quem sabe não encontra no processo de escrita dele a fugitiva do anterior?

- Talvez tenha razão. Mas, onde foi se esconder aquela danada, a ponto de me deixar assim, prostrado, sem ação? Para mim vai ser difícil lidar com esse fato de não poder dizer aos possíveis leitores algo que me propunha dizer. Então, como dizer outro algo?

- Para seu próprio bem, será melhor tentar.

- ...
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*Chico Araujo (Sérgio Araujo) - publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Dilema" foi escrito no dia 31 de janeiro de 2017. Leia mais Chico Araujo no blog Vida, minha vida...

domingo, 4 de fevereiro de 2018

DEFININDO OS MONÓLOGOS DE ROBERT HUMPREY - Túlio Monteiro*

Robert Humphrey lançou em 1954 Stream of Consciousness in the Modern Novel, no qual definiu os quatro tipos mais recorrentes de técnicas de fluxo da consciência: monólogo interior direto, monólogo interior indireto, descrição por autor onisciente e solilóquio.
O francês Édouard Dujandin determinou o monólogo interior como sendo a apresentação da fala interior de uma personagem sem a intervenção do autor, através de notas ou comentários no corpo do texto. Algo extremamente próximo do pensamento mais íntimo e próximo do inconsciente humano. Partindo desse princípio. Robert Humphrey definiu de forma mais simples e moderna o monólogo interior como sendo a técnica usada na ficção para representar o conteúdo e os processos psíquicos do personagem, parcial ou inteiramente desarticulados, exatamente da maneira como esses processos existem em diversos níveis do controle consciente antes de serem formulados para fala deliberada.
Deve-se observar, sobretudo, que se trata de uma técnica para representar o conteúdo e os processos psíquicos em diversos níveis de controle consciente: isto é, de representar a consciência. Convém salientar que poderá lidar com o consciente, no entanto, em qualquer nível (não obrigatoriamente, aliás, raramente é uma expressão do pensamento mais íntimo mais próximo ao inconsciente; e que se preocupa com o conteúdo além dos processos da consciência e não apenas com um deles. Convém observar, ainda, que é parcial ou inteiramente inarticulada, pois que representa o conteúdo da consciência em sua fase incompleta, antes de ser articulado em palavras deliberadas. Esta é a diferença que distingue completamente o monólogo interior do monólogo dramático e solilóquio usados no palco de um teatro.

O MONÓLOGO INTERIOR DIRETO

Humphrey dividiu o monólogo interior em dois tipos: direto e indireto. O direto sempre se evidencia pela não interferência do autor, onde a personagem ignora a presença de uma plateia, nesse caso o leitor. Aqui o pensamento da personagem se revela ao leitor sem as tradicionais indicações de direção que o escritor costuma inserir na sua ficção. Termos explicativos como "pensou ele", "assim disse ela" ou " afirmou ele", que supõem a presença de alguém alheio à trama desaparecem por completo.
Torna-se conveniente esclarecer que a personagem em momento algum se dirige a outra pessoa. O que é lido deve ser percebido como um diálogo interior sincero da personagem consigo mesma, como se ela estivesse sozinha, teoricamente suprimindo-se a presença do leitor. O autor que utiliza-se do monólogo interior direto tem por objetivo final representar, através de palavras escritas, a consciência psicológica do ser humano, bem como suas diversas camadas e texturas.
Além do total "desaparecimento" do autor, que não deve desempenhar papel algum na trama, o texto deve sempre ser escrito em primeira pessoa, com os tempos verbais "misturando-se" entre si. Presente, passado e futuro fundem-se em aparente desconexão, compondo assim um monólogo interior direto. A personagem deve encontrar-se sozinha no ambiente. Caso ocorra a presença de outras personagens na cena, ela deve sempre acontecer de forma passiva, sem que as mesmas exerçam qualquer interferência sobre o desenrolar da trama ou exerçam o poder da fala.
A monotonia do cotidiano sertanejo e o ambiente desolado contidos em Vidas Secas, por exemplo, proporcionam um espaço perfeito para um romance fundeado nas técnicas de Fluxo da Consciência. A solidão do deserto nordestino brasileiro e o isolamento humano causado pelas as imensas distâncias geográficas, forneceram a Graciliano Ramos os ingredientes necessários à feitura de uma grande obra de tempo psicológico.
No entanto, quando Graciliano optou por não suprimir-se de sua onisciência, excluiu de Vidas Secas os monólogos interiores diretos. No entanto, isso não aconteceu por acaso. Sendo o universo verbal das personagens profundamente limitado e a comunicação entre eles ser reduzida a um mínimo indispensável de gestos e palavras, a presença de monólogos interiores diretos tornar-se-ia algo extremamente inverossímil. Personagens dotados de tão limitado grau de conversação, necessariamente possuem uma mesma limitação de pensamentos. Sabiamente, Graciliano Ramos evitou os monólogos interiores diretos, artifícios literários que, se utilizados em Vidas Secas, certamente dariam ao livro um caráter demasiadamente artificial.   
Mas Graciliano queria escrever um romance de tempo psicológico, que abordasse o truncado diálogo mental do sertanejo brasileiro. Consequentemente, percebeu a necessidade da inclusão de monólogos interiores no seu livro. Em contraponto à ausência de monólogos interiores diretos, o escritor valeu-se de uma imensa quantidade de monólogos interiores indiretos para expor ao leitor a mente de suas personagens, fato que será comprovado durante a análise que faremos de Vidas Secas no texto que dará sequência a este e que tratará dos monólogos interiores indiretos.
São Bernardo é diferente. Como bem exige o monólogo interior direto, esse romance é escrito em primeira pessoa, sendo a cronologia temporal bastante confusa. A linguagem psico-regionalista de São Bernardo reflete a problemática da desumanização que o homem capitalista necessariamente tem que se submeter quando decide que o “ter” é mais importante que o “ser”. Nesse romance, o latifundiário Paulo Honório expõe, ao longo de toda a trama, seus mais íntimos conflitos e dissabores. Mais uma vez o escritor alagoano tem nas mãos um riquíssimo cenário para a desenvoltura de um romance moldado segundo as técnicas de Fluxo da Consciência.
Tendo dado total “liberdade” de pensamentos e atitudes a Paulo Honório, Graciliano permitiu que sua personagem agisse por “conta própria” no decorrer da trama. À maneira de João Valério, personagem principal de Caetés, Paulo Honório decide-se por escrever um livro. Duas diferenças, no entanto, devem ser observadas entre os livros aqui referidos: João Valério pretendia escrever um romance que nunca passou do primeiro capítulo, enquanto Paulo Honório inicia e conclui uma espécie de autobiografia romanceada muito bem dilapidada.
Utilizando-se novamente do artifício de um livro sendo escrito dentro de outro – desta vez de forma bem mais madura que em Caetés –, Graciliano obteve inúmeras possibilidades para a inserção de monólogos interiores diretos em São Bernardo. A “autonomia” desfrutada por Paulo Honório permitiu que ele, sem nenhuma interferência do autor, pudesse caminhar livremente por entre as suas introspecções, selecionando e escrevendo no papel, à maneira de um autobiógrafo ególatra, tudo o que lhe parecia ter importância de ser lembrado.
O primeiro monólogo direto que pode ser encontrado em São Bernardo ocorre no momento em que Paulo Honório discute com seu braço direito, Casimiro Lopes, sobre as reformas iniciais da fazenda São Bernardo, que ele acabara de comprar:

Pensei que, em vez de aterrar o charco, era melhor chamar mestre Caetano para trabalhar na pedreira. Mas não dei contraordem, coisa prejudicial a um chefe.
Apanhei o pensamento que lhe escorregava pelos cabelos emaranhados, pela testa estreita, pelas maçãs enormes e pelos beiços grossos. Talvez ele tivesse razão. Era preciso mexer-se com prudência, evitar as moitas, Ter cuidado com os caminhos. E aquela casa esburacada, de pareces caídas...         

Podemos facilmente perceber o diálogo franco que Paulo Honório mentalmente mantém consigo. Apesar da presença de Casimiro Lopes, ele, ignorando o empregado e o leitor, detém-se em imaginar melhorias para a fazenda que acabara de adquirir.
Convencionaremos chamar marcas de pensamento, os verbos que Graciliano Ramos utiliza para remeter o leitor ao que se passa na psique de suas personagens. Todas as vezes que surgirem verbos grifados nos excertos extraídos dos romances aqui analisados, esses serão chamados de marcas de pensamento, o que também poderá ocorrer com palavras substantivas. No exemplo acima, o verbo pensei por si mesmo já demarca o que afirmamos. Já o verbo apanhei, nem sempre poderá ser catalogá-lo como uma marca de pensamento. Entretanto, no caso acima ele pode ser assim considerado por estar antecedendo o substantivo abstrato pensamento que, evidentemente, faz referências ao discurso psicológico de Paulo Honório. Essa regra se aplica às quatro técnicas de Fluxo da Consciência definidas por Humphrey.
Um outro exemplo de monólogo interior direto contido em São Bernardo merece destaque.
Isolado em um cômodo de sua casa na fazenda São Bernardo, Paulo Honório continua a escrever seu livro de memórias. Aliás, é nesse cômodo que se desenvolve toda a trama deste romance de Graciliano Ramos. Paulo Honório, em momento algum se ausenta do local ou trava contato direto com outra personagem. Quando isso acontece, sempre se realiza no nível de sua consciência, limitando a ação do romance às recordações que a personagem transcreve nas páginas do livro que escreve. Isso pode ser comprovado já no parágrafo de abertura de São Bernardo:

Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho.  
Voltemos ao monólogo interior direto do capítulo dezenove. Sentado à mesa, Paulo Honório dedica-se a recordar da esposa Madalena, recentemente falecida. Sempre que a sequência temporal muda do tempo presente para o passado, Paulo Honório encontra-se mergulhado em sua psique, ora recordando, ora questionando fatos ocorridos na sua vida. Esse discurso mental em forma de flashback sempre se caracterizará, no São Bernardo, como um outro tipo de marca de pensamento. Ou seja, todas as vezes que isso ocorrer, o Fluxo da Consciência estará presente em uma das quatro variantes. Comprovemos isso no exemplo que se segue:

Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão...
A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvidos. Também já não a vejo com os olhos.    

Dois fatores são importantes para a constatação do Fluxo da Consciência: o verbo recordar é uma marca de pensamento, pois imediatamente remete o leitor, como já afirmamos antes, à psique da personagem. Quando Paulo Honório afirma já não ver Madalena com os olhos, nem sua voz lhe chega mais aos ouvidos, deixa bastante claro que isso ocorre em sua mente, no espaço destinado às recordações.
Esse fluxo mental truncado, o confinamento da personagem a um cômodo da casa e a narrativa em flashback deixam claro que Paulo Honório está questionando a si mesmo sem perceber ou mesmo se importar com a presença de algum ouvinte, neste caso o leitor. Caso a presença do leitor fosse notada, não ocorreria aí um monólogo interior direto, mas, sim, um solilóquio. Sobre essa técnica de Fluxo da Consciência oportunamente discorremos mais adiante em estudo a ser publicado na próxima segunda-feira. Sigam meus textos, pois!

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*Túlio Monteiro - Escritor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.