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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Y - Chico Araujo*

Eis que chegou o momento de ficar frente a ela. Confesso que muito antes desse momento me flagrei me preocupando com ele. De mim para mim se impunham questões sempre me encaminhando a incertezas quanto a como lidar com a situação: o que dizer e como dar forma linguística ao que pudesse dizer são duas das que me afligiram. Hoje, nesse exato agora, preciso enfrentar a situação e, mais que enfrentá-la, preciso superá-la.

Vou ao desafio.

Desafio mesmo, porquanto ela nunca me disse muita coisa. Não me lembro de nenhum instante em que tenha me dedicado a ela anteriormente; agora que ela consta oficialmente do abecedário da língua portuguesa, sou chamado a validá-la no "Abecedário de Crônicas do Evoé!".

Sendo a vigésima quinta letra do alfabeto português, localizando-se entre "X" e "Z", "Ypsilon" (ou i-grego) costuma marcar presença em antropônimos – e derivações suas – oriundos de outras línguas, também em topônimos e, ainda, em siglas, símbolos e palavras representativas de unidades de medida de valor internacional. Mais ainda, o “Y” é utilizado para designar o cromossomo determinante do sexo masculino.

Exemplo de antropônimo iniciado pelo “Y” em nossas plagas vemos em Yan, substantivo masculino designativo de pessoa do sexo masculino. No entanto, o Yan português / brasileiro deriva de Yang, termo que, no pensamento oriental, designa o princípio masculino, considerado ativo, celeste, quente e luminoso, que convive com o yin, em posição oposta

É certo que antropônimos iniciados com “Y” têm certa abundância na língua portuguesa, embora apresentem etimologia em outra língua. Yuri, Yago, Ygor, Yanni, Youssef, Yudi e Yves constituem outros exemplos, bem como Yasmin, Yara, Yasmim, Yohanna, Yumi, Yolanda, Yanka, Yoko, Yonara.

Em terras brasileiras, é incomum topônimo iniciado com “Y”. Em pesquisa feita na WEB por esse que aqui escreve, localizei apenas Yolanda, identificada como distrito do município de Ubiratã, no Paraná. Não mais.

Também no território nacional, localizando-se na Região Norte, encontra-se o povo Yanomami. Esse etnônimo trata-se de denominação cunhada por antropólogos para identificar a sociedade indígena de caçadores-agricultores, cujas terras foram bastante cobiçadas – e mesmo invadidas – devido a suas riquezas minerais.

Não é, de fato, muito usual em nossa língua a utilização do “Y” como letra de existência marcante nas palavras, excetuando as designativas de antropônimos. Pelo menos até agora; em tempos adiante, poderemos observar se ela se tornará efetiva, ou se permanecerá em pouco uso.


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*Chico Araujo - professor, poeta, compositor, contista, cronista, escreve todas as quartas aqui no Evoé! O título "Y" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé! e foi escrito no dia 2 de agosto de 2018.

Citações:
1 Yang, por sua vez, também é palavra derivada, de “Yáng” (mandarim), conforme se lê em http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=Yan
2. Acesso em 02/08/2018. ² Informação colhida em https://www.dicionariodenomesproprios.com.br/nomes-masculinos/y/.

3. Acesso em 02/08/2018. ³ Informação colhida em https://www.dicionariodenomesproprios.com.br/nomes-femininos/y/
4. Acesso em 02/08/2018. 4 Informação localizada em https://www.geografos.com.br/distritos/distrito-yolanda.php. Acesso em 02/08/2018.
5 Para mais informações, via WEB, a respeito do povo Yanomami, visite-se o sítio eletrônico https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Yanomami#Nome. Acesso em 02/08/2018.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Efes - Chico Araujo*


Mal entrou no recinto, foi obrigado a ouvir a invocatória:
- Ei, Filé-de-Borboleta.
Não se aborrecia mais, acostumado com o epíteto desde quando adolescente: cresceu muito, porém somente esticou, sem engordar nem receber sobre os ossos massa muscular que o deixasse naquele padrão reconhecido como o das pessoas com peso ajustado ao tamanho.
- Diz, Ferrado – foi a resposta que deu, sem que para ela houvesse qualquer crítica ou aborrecimento. Filé e Ferrado se conheciam há muito tempo, cresceram juntos, eram quase irmãos, não se aborreciam com a maneira como se tratavam.
Onde morava o Filé-de-borboleta, muitos o tinham como um sujeito fajuto, mas tenho cá as minhas dúvidas; creio que essa suposta fajutice se devesse à ausência de proximidade dele, à falta de conhecimentos sobre ele. Acho mesmo que o grande mister – e problema – dele era a compulsão para falar água. E como falava! Ah, como falava... Mas bem sei que algumas vezes acertava em cheio naquilo que falava.
Talvez sua maior questão estivesse no fato de querer saber de tudo, entender de tudo. Aí, dava no que dava. Falhava naquela eterna falação fácil, feroz às vezes, noutras por intenso frivião – muitos debochavam. Ferrado sempre o defendia, pois reconhecia no amigo total ausência de maldade, de intenção de ser falso. Falava porque falava; parecia ter nascido para isso. E ele também reconhecia que nem sempre o Filé falava absurdos.
O fato mesmo é que ele falava muito e ninguém conseguia parar sua língua quando ele aparecia com ela solta. Aí cansava os ouvidos, às vezes até irritava-os pela altura e estridência da voz constante. Como dizem muitos, ele “metralhava” suas conversas, cortava o turno de fala das pessoas, discordava, concordava, apresentava suas opiniões, depois as contradizia... Era assim, impetuoso na ação de falar.
Também tem uma: não era amigo de fuxico. Isso não. Ninguém dissesse que ele fuxicava que ele ficava fulo. E também não gostava de futrico (a menos que a situação pedisse); só gostava de falar falar falar falar... E assim corriam seus dias, em muita falação, também em quase total tranquilidade.
Até o dia em que precisou ficar no mesmo ambiente em que se encontrava um certo Carlão, aquele deputado que se imiscuía em várias situações a partir das quais pudesse ser visto para, no fim, ficar conhecido. O problema não estava exatamente em ficar no mesmo ambiente (já acontecera outras vezes), posto que o Filé sabia conviver com as pessoas; aquele conflito se iniciava com o que dizia aquele representante do povo.
O deputado já estava criando o hábito de aparecer muito no “Bar do seu Luís” e, para impaciência de boa parte da freguesia de há muito, levando em sua companhia pessoas de seu naipe ou próximas dele. Em outras palavras, aquele político estava contaminando o “Bar do seu Luís” com sua presença, com a de pessoas “suas”, as suas conversas, suas gargalhadas, sua busca de conquista do povo dali. Para muitos, não deveria ficar ali de flozô – mesmo garantindo ao seu Luís um reforço no caixa –, mas em Brasília, trabalhando de verdade em benefício do povo.
O Filé-de-Borboleta não ia nem um pouco com as feições daquele político e também não fazia nenhuma cerimônia de deixar bem clara essa sua posição. Cumprimentar, até cumprimentava, que podia ser “Filé-de-Borboleta”, mas não era mal-educado. Ser amigo, ter grande proximidade, aí já seria demais.
Pois naquele quase meio-dia daquele sábado de temperatura agradável o tal Carlão, acompanhado dos dois fiéis assessores também já se acostumando a frequentar o “Bar do seu Luís”, entendeu de dizer alto e bom som haver tramitação, na Câmara, de projeto de sua autoria que iria colocar aquela cidade no mapa do mundo. Todos os presentes olharam para aquele astuto representante de causas as quais dizia republicanas. Seu Luís não somente olhou:
- Que projeto? Que mapa de mundo? Nossa cidade vai muito bem, obrigado.
- Mas pode melhorar, né, seu Luís. Aliás, ela vai melhorar. Meu projeto está sendo muito bem compreendido pelos meus pares lá em Brasília.
- E o que os seus pares lá em Brasília tem a ver com nossa cidade? O que o senhor mesmo tem a ver com ela, se nem daqui o senhor é?
O camarada deu um sorriso que foi impiedosamente filmado pelas retinas desconfiadas do comerciante.
- É que eu já me sinto um filho dessa terra maravilhosa, seu Luís, essa terra que acolheu a mim e a minha família muito bem. Preciso retribuir e a melhor maneira de fazer isso é trazendo mais progresso pra ela. Ela está em ponto estratégico nesse Estado maravilhoso e o que eu puder fazer para melhorá-la eu farei.
Houve um silêncio incomodador. Seu Luís botou os olhos firmes em cima do deputado, dizendo de si para si: Fuleiragem. Filho de uma égua.
Quem não ficou calado foi o Filé:
- Fantasia. Fanfarronice de falastrão.
- Como é, Filé?
- Isso mesmo. Desde que chegou aqui é isso. Fala, fala, fala e nada. Não se vê nada. Dizem aqui que eu falo demais, mas o senhor é fábrica de falácias. Eu falo muito mesmo, mas eu sei o que falo. Eu falo porque sei, sou inocente não. Falo porque tenho o que falar e com justeza. Outros falam no vazio, falam só por falar. Projeto? Que nada. É só falação isso. Eu fui futricar na história do senhor ali na Câmara e não vi nada. O senhor nunca falou nada, nunca apresentou proposta nenhuma. Tô aqui lhe fustigando é pra saber se o senhor fala de uma futurição exata, ou se está dizendo coisas como futurista impreciso e esnobe. Cadê o projeto? Mostra. Faço que nem São Tomé: quero ver. Ver para crer. O senhor deve tá é fazendo fuzarca com o povo daqui. E tem mais: quem disse que o povo daqui quer esse progresso que o senhor tá falando? A vida aqui é boa, muito boa, tranquila, pacífica, honesta... ou pelo menos era até o senhor vir pra cá.
- Aí você já está ofendendo, Filé. Não sou fuzarqueiro, não. Quero o melhor para nós todos. Vim pra cá porque aqui é um lugar muito bom – disse isso piscando um olho para um dos assessores ali com ele.
No Bar, o silêncio especulativo de como aquela conversa ácida iria acabar. Seu Luís olhou para o Filé como quem pedia para ele controlar a língua. Mas ele ainda foi um pouquinho mais adiante:
- Tomara que o senhor não desonre nossa cidade com alguma farra de milhões. Muitas coisas que muitos de vocês fazem e que deveriam ser festa facilmente se firma como fuzuê. O que deveria ser feito com finura, elegância, honestidade acaba como atestado de fisiologismo.
Filé, enfim, se calou. O olhar dele firme em encontro com o olhar do deputado. Enquanto se miravam, se mediam, seu Luís observava os dois, enquanto passava um pano por dentro de um copo de vidro, enxugando-o. Os frequentadores do Bar que por lá estavam permaneceram em silêncio, mas num formigamento de curiosidade que observava tudo esperando o desenlace daquela contenda.
Decerto uma fissão ocorreu ali. E foi intensa e tensa.
E preciso confessar: fiquei fissurado para saber da realidade do projeto. Seu Luís também. Acho mesmo que todos que estavam lá. Talvez até o deputado e os assessores. Para que tudo não passasse de simples fita; para que todos, no futuro, pudessem entrar em verdadeira e honesta festa. Festa fabulosa, sem ser desagradável fábula.
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*Chico Araújo -
professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Efes" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 12 e 17 de março de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 19 de março de 2018

FERROVIÁRIO ATLÉTICO CLUBE - Túlio Monteiro*

EU TIVE UM SONHO! Não, não estou me referindo à famosa frase de Martin Luther King, que lutou até o dia de seu assassinato, no dia 4 de abril de 1968 (50 anos passados), contra a segregação negra nos Estados Unidos da América, por que não dizer do Mundo.

Refiro-me mesmo ao sonho que tive noite anterior com o Tubarão da rua Dona Filó, 650 – Barra do Ceará: O Ferroviário Atlético Clube, sabidamente o segundo time do coração de todos que torcem pelos grandes elencos do nosso estado, ou seja, Ceará e Fortaleza. E não me desmintam aqueles que no mais íntimo de suas almas não têm uma quedinha pelo nosso amado “Ferrim”. Estarão a blasfemar! Risos.

Pois bem! Mas vamos ao sonho, que pela segunda vez o tive em alguns anos. Já que em meu livro de contos, “Dois dedos de prosa com Graciliano Ramos” (2007), narrei o evento de uma disputa histórica entre Ferroviário e Machester United com o único de intuito de tirar uma onda com o poeta, contista, mestre em Literatura Brasileira e ferrenho defensor do “Ferrão” Chico Miranda, hoje já falecido.

Desta vez o onírico foi mais real, uma vez que, qual fênix, o Ferroviário está renascendo das próprias cinzas e dando ares de retorno imediato ao plantel dos grandes das terras de Alencar. Sim! Isso mesmo! Para os menos avisados e antenados, o Gigante da Barra vem trucidando adversários de cá e de fora qual moedor de carnes, de tão redondinha é a pelota que vem jogando.

Pois bem, acordei assustado com o resultado de minhas memórias do sonho, uma vez que simplesmente o “Ferrim” acabará com a máxima de só ser campeão cearense de nove e nove anos ou em ano terminado em nove. (A última conquista, contudo, foi em 1999, pasmem!). Em meus embalos na rede de deitar, adormeci e começou tudo: primeiro o Tubarão da Barra arrasou e ganhou o campeonato cearense de forma invicta, goleada sobre goleada. Fez o mesmo na série B do Brasileirão e subiu para a primeira divisão do Campeonato Brasileiro no mesmo ano.

Daí para a classificação da Libertadores da América foi só um pulo. Agora, nem o maior dos torcedores podia imaginar que, contra um time argentino cujo nome me falha agora, o “Ferrão” se sagraria campeão da Libertadores da América, com direito a passeio em carro aberto e aeroporto lotado de todas as camisas de times que possam ser imaginadas sendo orgulhosamente vestidas por torcedores mil, numa confraternização que em nada lembra as atrocidades que vemos em torcidas organizadas planeta afora.

Sim, meu caro leitor, o Ferroviário iria disputar o campeonato mundial de clubes de 2019. O tempo passou e com os cofres cheios e uma boa administração os reforços começaram a chegar. Sendo o ano de 2018 dedicado exclusivamente à reforma da sede, contratações a peso de ouro, campeonato cearense (mais uma vez vencido por você sabe quem) e amistosos internacionais.

E dizem que em time que está ganhando não se mexe. Mas essa máxima do futebol não se aplica aos clubes que crescem de maneira avassaladora. E o time composto por uma senhora comissão técnica e jogadores do porte dos goleiros Léo e Maílson, dos zagueiros TÚLIO, Cristiano e Erandir, dos laterais Amaral e Sávio, e dos atacantes Roney, Mota, Luís Soares e Romário foi aos poucos se desfazendo em detrimento de jogadores de nomes internacionais, alguns até da seleção brasileira.

O 2019 chegou e com ele a decepção de mais uma Copa do Mundo da FIFA perdida vergonhosamente na Rússia no ano anterior. Para compensar e lavar nossas almas, estava o Ferroviário remodelado e polido ao esmero,  nos Emirados Árabes Unidos. E para quê? Para disputar – de igual para igual – o Campeonato Mundial de Clubes com ninguém menos que o Barcelona de Messi, Luizíto Soaréz e companhia. Ressalte-se que o clube adversário se reforçou com os melhores de cada time para ter chances contra o Ferrim, estava assim uma Seleção do Resto do Mundo para enfrentar o portentoso Tubarão da Barra.

O Brasil parado em frente de suas televisões, os mais abastados acenando com suas bandeiras e camisas no estádio lá nos Emirados Árabes Unidos. No Céu, Chico Miranda atracado com São Judas Tadeu, ambos lideravam a imensa torcida de lá. Por ser o Ferrim expressão da Paz, os países signatários da ONU decretaram feriado nacional. E os times entram em campo.

Lembro que até camisas do ”Ferrão” eu comprei para toda a família. Televisão ligada, olhos sem piscar, o juiz apita o início da peleja. Viv´alma nas ruas não existiam, que não nos bares a exibir a contenda. Aquela, sim, ia ser uma decisão de Copa do Mundo.

A essa altura você já deve estar curioso com o resultado do jogo e eu, creio, também nunca vou saber, pois fui arrancado do sonho por buzinas e gritos. Fiquei possesso, esbravejei comigo mesmo e com os deuses dos sonhos. Até para o anjo-da-guarda sobrou. Por que me deram um sono tão leve?! Fui à janela começar uma guerra; mas no caminho ouvi nitidamente os gritos de Ferrim! FERRIM! FERRIM!

Ao abrir a janela, vi o cortejo coral em festa. Seria o campeonato mundial? Não... não dormira tanto assim... depois soube estar o Ferrim entre os oito melhores clubes da Copa do Brasil... eis o porquê da festa. Associei um fato a outro, seria o sonho um prenúncio? Tomara que sim, sonhar, enfim, não custa nada e o recado fica dado: pode até ser que o Ferroviário não venha a chegar a tal feito, mas que o time que hoje atua pelos gramados do País está de encher os olhos, ah está. Acompanhem! Torçam! Surpreendam-se com o nosso Tubarão da Barra. Até a próxima. Risos. E façam vocês mesmos o placar final entre Ferroviário e a Seleção do Resto do Mundo.

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*Túlio Monteiro - escritor, crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! O texto "Ferroviário Atlético Clube" foi escrito no dia 18.03.2018. Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Estudantina - Kelsen Bravos*

Queria ficasse assim uma paratopia, que se materializasse sempre pelo desejo dos encontros boêmios. Adoro música. Música de violões e voz em mesas de bar, em quintais, regadas pela emoção dos olhares, sorrisos, papos e abraços. Sem hora para acabar e quando o momento de separação surgisse fosse em forma de até já.

Houve um tempo por aqui de ser bem comum encontrar espaços assim, depois os violões sumiram. Talvez pela imposição da necessidade de feijão de quem vive o sonho de ser músico. Talvez não. Bem sei da falta em mim desse canto acompanhado de alegres ou plangentes pinhos.

Foram desse jeito os anos de 1980 até meados dos 1990, uma transição entre o ressurgir das canções espontâneas em bares e praças (a festejar o sol e o luar da abertura política e o início da redemocratização no país), e o recolher desse ímpeto luminoso do canto liberto, dando devido lugar a apresentações profissionais dos músicos de banquinho e violão em bares e restaurantes, com as cobranças dos merecidos couvert artísticos nas contas. 

Num rápido exercício de memória desse tempo, a lembrança me leva ao Bar das Letras, ao Jazz Blues Bar, ao Quina Azul, ao Bar da ASAUFC, ao Recanto do Sabiá (do meu amigo Rainunes), ao Mila Lanches (academia paralela - não havia apresentações pagas, só o violão do Tarcísio Câmara), todos no Benfica. A ordem em que cito os lugares não é a da cronologia do surgir e sumir os bares (porque aqui tudo é efêmero).

Lembro dos efêmeros Cio da Terra, Cheiro Verde, Tom Bege, Bar da Filosofia, esses dois últimos vicinais à Faculdade de Filosofia de Fortaleza, onde conheci meu amigo Lira Neto no comecinho dos anos de 1980. Quem nos apresentou foi a Dudu Molotov, codinome definido por Airton Monte à nossa amiga poeta e acadêmica de filosofia, contemporânea do Lira, da Sônia Maria Castelo Branco, da Martha Vecchia, da Sandrinha, do Ellis Mário e tantas outras (Clara Pinho) figuras bem queridas.

Havia o Cais Bar de tantas histórias, o Largo do Mincharia, e tantos pela Praia de Iracema. O sempre que não fechava Tocantins, onde todos boêmios vindo de todas as demais tabernas se encontravam...

Lembro do Mesa de Bar, do Papo de Esquina (sonho fugaz de meus irmãozinhos Celso e Severo), esses no roteiro do PCdoB (Polo Cultural do Benfica). Neles a paratopia boêmia existia. Nenhum, porém, era igual à Estudantina. Junte a qualidade de todos os bares citados em um só lugar, eis a Estudantina. Era uma varanda de uma casa caiada decorada com simplicidade na forma e requinte no conteúdo, lugar tão aprazível estou para ver igual.

O aconchego do lugar tem a extensão do espírito de Leda Guimarães Rocha e Ignácio Barreira Rocha. O sorriso da Ledinha, sua doce voz, a atenção no ouvir e a palavra amiga plena de carinho a nos querer fazer botar sentido na vida. O abraço de coração imenso, sorriso largo e solidariedade sem par do Ignácio transforma o espaço em bar doce lar.

Nem parecia mesmo um bar; de fato, não o era, pois ao adentrar a Estudantina atravessávamos um portal para felicidade boêmia. Shows, saraus literomusicais, conversas mil sobre filosofia, literatura, projetos, notícias de jornal (não havia televisão por lá), num ambiente de excelente repertório musical. As caixas de som em volume suficiente para não atrapalhar o papo falando da vida. As separadas e diversas mesas iam-se acoplando umas a outras com o passar das horas até se transformarem numa única távola boêmia. Conheço muita gente de lá. Amigos admiráveis e muito queridos. Luciano Franco, que presente maravilhoso a Estudantina me deu!, assim feito o Cláudio Costa, Fhátima Santos, Humberto Brito...

Testemunhar a arte de João Barbosa e Paulo Barreto a inaugurar a programação de shows do espaço cultural não foi coisa pouca. Um misto de erudito, do primeiro violino da sinfônica da Paraíba, e de popular, da radical expressão da voz e violão do hoje Cumpade Barbosa. Espaço Cultural Edson Távora assim foi carinhosamente batizado  de forma não oficial por Ignácio e Leda, em homenagem póstuma ao músico que sempre frequentava a Estudantina no meio da semana. Certa feita, me conta Ignácio, Távora recebeu um acordeon importado e fez questão de inaugurá-lo numa noitada por lá. Um encanto.

A programação, claro, teve sequências em muitos espetáculos, Késia (en)cantou por lá minha preferida Catavento e Girassol, de Aldir Blanc e Guinga, ("só você me pede essa música, Kelsen, eu adoro." - disse-me uma vez). O mais marcante foi o dedicado a Vinícius de Moraes, em que Fhátima Santos e sua voz de silenciar catedrais, acompanhada de Cláudio Costa, violão, Luciano Franco, baixo, Dihelson Mendonça, teclado-piano, com leitura de texto por Ricardo Guilherme... e outros atrevidos feito eu.

Tanto talento junto só me confirma a existência de Deus, e o quanto Ele ama a arte, pois era Divina tamanha beleza a reverberar por lá em música, em texto, em canção, em poesia e nos encantos dos encontros de nós com nós mesmos e com os outros.

Deus, aliás, tal qual me lembra Ledinha, que um dia pacientemente tentei explicar para minha querida amiga Inês não se tratar de um senhor bem velho e barbudo. Isso já às cinco da manhã... Deus sim que me fez protegerem da queda ao descer dos batentes da Estudantina. Juram a Ledinha e os demais terem visto na queda minhas pernas e pés, em vez da cabeça, sobressaírem para além e acima do muro. Todos correram para ver na calçada o estrago. Os recebi com a frase: "capoeira não cai, mas se cai, cai bem..."

Não havia só música, muita literatura também se vivia por lá. Túlio Monteiro outro dia me falou ter sido na Estudantina onde acertou com o Lira Neto a proposta para publicar o perfil biográfico de Lopes Filho. Aliás, muitos projetos editoriais o Vessillo Monte e o Lira conversamos ali, quase todo o santo dia, em companhia de Jota Pompílio e Edvaldo Filho. Lá testemunhei casamentos e desenlaces, enlaces e enrascadas amorosas e muito prazer e muita dor... eita! Intensa dor.

...

Mas o melhor de tudo era o após o hiato entre a despedida dos, digamos, normais e a chegada dos boêmios mais noctívagos a surpreender os que ficávamos. Vinham com conversa animada como se tudo estivesse começando agora e logo, espontaneamente, sacavam os instrumentos, violões, baixo, sax, flauta e começavam a preencher o ar e a vida com as mais belas músicas e poesias das canções até depois do raiar do dia. Numa dessas estavam reunidos, entre outros, Luciano Franco, Arismar do Espírito-Santo (companhia), Ellis Mário, Cláudio Costa, Fhátima Santos, Dihelson Mendonça e seu teclado e muita poesia na voz de Ricardo Guilherme, Karlo Kardozo, Eugênia Siebra, Suzi Lins, Ignácio, Ledinha, canora, e a nossa voz.

Quero de volta tudo outra vez, não só a Estudantina; mas o tempo da delicadeza, em que o silêncio das noites e madrugadas era preenchido pela poesia das canções e a juventude era poupada do vexame de morrer tão cedo. Ave Estudantina! Evoé!


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* Kelsen Bravos - professor, escritor, compositor, editor do Evoé!

terça-feira, 13 de março de 2018

Estela - Chico Araujo*


Estela. Latinamente Stella. Estrela.
De outra língua originada, expressão significativa em linguagem modificada. Não na essência. Não na raiz.
Estela. Meu primeiro brilho. Meu primeiro sim. Luz intensa em minha existência.
O meu primeiro abraço, quando nesse mundo. O meu primeiro carinho, quando despertado. Minha primeira vitória. A gênese de minha História.
Noites insones nos cuidados preciosos – em precisão. Todo pequeno carece da grandeza materna para seus primeiros suspiros, seus primários olhares, seus iniciantes sorrisos, suas primitivas investigações guiadas pela inocência. Estela firme. Alimento para o corpo e para o espírito.
Estela iluminando os caminhos para os primeiros passos. A mão estendida à mãozinha aflita ansiosa pela segurança. A voz dócil chamativa orientando o caminho do caminhar – Aqui, aqui... Vem, vem, vem... – autonomia em fabricação não imaginada. A genitora não se imagina vendo partir a quem gerou em suas entranhas, em seu ventre (tanto tempo no tempo certo do tempo em gestação). A descendência – crê –, enquanto no apego possessivo, não se estabelece sem seu olhar orientador-protetor.
Mas então, na angústia de uma surpresa que de tão certa surpresa não seria, a descendência se mostra crescida e cheia de vontade de ter vontade própria e de fazer seu próprio caminho, trilhar por estradas avaliadas como as melhores, pisar os oportunos passos rumo aos desconhecidos lugares e momentos que lhe convierem. Estela em luta quanto à aceitação.
Mutável, analisa as circunstâncias e se adapta, se reinventa, mesmo sentindo o gosto de mudança inesperada e, ainda, não desejada. Estela renunciada. O olhar que olha não é para ver a si, porém para acautelar os filhos. Ela, forte e resoluta, prenunciando em quase adivinhação que em breve eles entenderão de seguir por conta própria o que a vida reserva para cada um.
Reestrutura-se, redimensiona-se. Agora, um pouco mais à distância, fica mais presente – espetacular movimento dialético: mais longe, mais perto –, com intensidade maior em seu brilho.
O novo momento torna-se exato, a partir da solidez dos ensinamentos feitos nos anos de presença amorosa, dos aconselhamentos reditos, repisados. Tudo emerge de forma surpreendente em ações que agora não são de Estela por ela mesma, mas de Estela renascida e inserida na vivência de seus descendentes, na reinserção de culturas dimensionadas em novos contextos. “O antes / O agora / O depois...”
O tempo no tempo de novos tempos...
Estela brilhando, perpetuando-se, tornando-se cada vez mais plena, cada vez mais ela...
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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Estela" foi escrito entre 10/03/2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 12 de março de 2018

ETERNAMENTE? - Túlio Monteiro*

Há certas particularidades do nosso léxico que me deixam realmente com a “pulga atrás da orelha”. São palavras tão usadas em nosso cotidiano que mais parecem sapatos velhos que nem marcas deixam mais pelos caminhos que trilham. Mas ainda assim, são norteadoras do nosso dia a dia em circunstâncias mil. Daí, minha paixão pela Última Flor do Lácio, nossa eterna língua portuguesa.

A palavra que hoje tratará da letra “E” do nosso abecedário nada mais é que um mero substantivo feminino que refere-se à duração de algo que não tem começo nem fim e que prescinde de qualquer determinação cronológica. Uma espécie de círculo que nunca se fecha. Estranho, não, caros ledores? O quanto pode caber no simples período que acabei de construir?! ETERNAMENTE palavra carregada de significados, qual saco de matalotagem de onde tiramos quase tudo que direciona nossas vidas vãs e vez por outra sem sentido algum.

Sim! Todos a queremos! Todos desejamos ansiosamente ser eternos e essa é uma busca diária que vai desde o mais simples trabalhador braçal ao mais conceituado PHD que possa estar vagando a essa hora Mundo afora tentando driblá-la qual um craque de futebol. Hã?! Driblar quem mesmo? Pergunta-se você e respondo eu: aquela que chega lenta, silenciosa e transparente; a que nunca nos deixa de povoar o imaginário; aquela que nunca nos abandonará e um dia virá com suas garras extensas buscar-nos para o ETERNO. Falo-lhes da morte. Essa, sim, a detentora de todas as sabedorias, de todas as respostas, de todos os compromissos que ainda teremos quando partirmos para outros campos onde ceifaremos o que um dia plantamos por aqui!

Impressionante, não? Lidamos com esses termos todos os dias como se eles simplesmente existissem por existir. Haja vista que todo ser humano se julga um imortal ou um “imorrivel” – como diria meu pai que recentemente abandonou seu corpo terreno para assumir sua forma etérea e (ETERNA?) – mesmo sabedores que são cada homem e mulher em idade da lucidez que um dia tudo acaba em coroas de rosas e espinhos, para lhes ser mais leve.

Dentre as muitas religiões, doutrinas e crenças por onde circulei nesses últimos 53 anos de vida, só uma coisa é comum a todas elas: A partir do momento em que nascemos já deixamos de ser ETERNOS, uma vez que que a cada inflar de pulmões, a cada caminhada percorrida, a cada piscar de olhos morremos um pouco mais a cada dia, cada hora, minuto e segundo.

Assustador, não acham?! Eu, como sou um tanto exagerado diria tenebroso saber que nossos corpos tão bem tratados, banhados, perfumados e educados ao longo de anos, um dia simplesmente pararão de respirar e... pronto! Lá estaremos nós a caminho da ETERNIDADE. Prestar contas com Deus sobre as coisas boas e más que por aqui praticamos ao bel-prazer de nosso livre arbítrio.

Tenho visto e ouvido sobre atrocidades em noticiários sem número, você que hora me lê. Se isso não for o Final dos Tempos como reza a Bíblia católica em seu Apocalipse, que eu esteja enganado. Mas tempos escuros se aproximam o que nos deve levar a refletir como foram nossos dias e responsabilidades até hoje. Para que se a ETERNIDADE nos chegar ao sabor do imprevisto possamos tentar quitar nossas contas com o além de maneira um pouco menos dolorosa.
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*Túlio Monteiro. escritor, crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! O texto "Eternamente?" foi escrito no dia 11.02.2018. Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Dignidade - Kelsen Bravos*

Nesse março de 2018, as águas da chuva cobrem todo o meu Ceará e renovam as esperanças de fartura no sertão, encantam o contagiante sorriso dos mais velhos, intensificam o brilho do olhar coletivo a mirar feliz o futuro. A minha e a tua dignidade - essa nossa qualidade comum que nos faz universal - merece tamanha felicidade e, claro, todo o respeito. Nosso pais está em bancarrota moral, econômica, social. A Nação Brasileira está politicamente golpeada. Estamos sendo usurpados das conquistas mais caras à nossa dignidade. Ferida está a Cultura, lanhada está a Educação. Cabe a nós resistir com arte!

No Ceará, resistimos com educação, arte, cultura! Nos últimos dez anos e meio, intensificamos gradativamente, ações de ongs em parceria com o poder público (de esquerda, óbvio). Dentre eles, com muito eficiente planejamento e resultados eficazes, promovemos a leitura desde a mais tenra idade, na família por meio dos Agentes de Leitura, na escola com o Programa Alfabetização na Idade Certa, o já reconhecido PAIC e seus desdobramentos, Mais Paic e Paic Mais (que se torne cada vez mais amplo pois nunca será demais). O programa promove, além da leitura pragmática, a leitura literária, da Educação Infantil ao nono ano. A presença da Literatura Infantil em ambos é fundamental. 

A I Feira da Literatura Cearense me convidou para ministrar a Oficina Literatura Infantil no Ceará. Pelo tema preparei-me para um público especialista, pensei em professores, acadêmicos, críticos literários, autores, editores... mas que nada! Não que eles não estivessem, havia sim, porém, a presença da juventude dos oitavo e nono anos das escolas públicas lotou o auditório do Centro Cultural Banco do Nordeste do Brasil - CCBNB.  Mais que surpreendente, foi um encanto, intenso e consequente.

Começamos pela construção do conceito de Literatura. Quanta participação! E que concepções! Emocionante constatar o quanto já permeia a história de vida dessa juventude a leitura. As Leituras de mundo! Foi fácil chegar à conclusão de que literatura é a expressão da arte cuja matéria prima é a palavra (oral ou escrita ou pictografada). Daí foi num átimo a transição do conceito para a reflexão sobre o conteúdo expresso pela literatura: dignidade!

Somos seres históricos, portanto, literários, temos narrativas inscritas em nosso próprio nome. Exemplifiquei com a história do meu sobrenome Bravos. Via de regra a nossa cultura registra com o nome de batismo o sobrenome da mãe e o sobrenome do pai, exatamente nesta ordem. Se formos investigar, a história dos sobrenomes inscritos em nosso nome veremos que nossa vida descende de uma imensa novela real - cheia de beleza e muita coisa feia também, porque num é novela plimplinesca, é realidade, nem maior ou menor do que quaisquer outras, nem melhor nem pior, mas a nossa própria história que estamos cuidando de ampliar da melhor forma possível.

Pedi para refletirem que temos (via de regra) mãe e pai, quatro avós, oito bisavós, dezesseis triavós, trinta e dois tetravós, sessenta e quatro tatataravós ... e se assim prosseguirmos aonde chegaremos? Decerto na origem comum de todos nós, pois somos todos um só povo, somos irmãos...

... Neste momento cada um de nós protagonisa uma bilenar história cheia de grandes bem e malfeitos, belíssimos fatos e fatos horríveis, sim somos feitos assim nem melhor e nem pior do que ninguém. De uma saga bilenar somos todos fruto. Seja quem for - do mais poderoso ser humano do planeta ao mais simples e desprovido de bens sociais - todos temos uma história que pertence a humanidade e é bilenar. O nome disso é dignidade. Desrespeitar essa história de cada um é ferir a dignidade, é ferir toda a humanidade. E a literatura trata disso. Ela adensa a minha, a tua e a nossa dignidade, faz cada um mais próximo e senhor de si mesmo. Ler nos faz mais aptos a alcançar as circunstâncias da condição humana, a refletir sobre as relações entre si e entre os povos e a condição do planeta. Isso é um perigo para os poderosos de então, porque quem quer deter para si o poder está sempre a temer um povo consciente da própria dignidade e que sonha com a liberdade, um conceito que só se realiza no coletivo.

Foi assim que começou a nossa Oficina Literatura Infantil no Ceará, como terminou, eu conto em outra oportunidade; mas reafirmo o quanto foi bom dialogar com uma juventude leitora, num espaço público (o CCBNB), numa iniciativa de ong com apoio do poder público, num momento em que o país é golpeado, a Nação usurpada das conquistas mais caras à nossa dignidade, e num mês em que chove esperanças no meu Ceará. Esse Ceará que resiste com ações de guerrilha a esse contexto perverso. Guerrilha cultural em defesa de nossa dignidade. Evoé!

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Kelsen Bravos - professor, escritor, compositor, produtor cultural, editor do Evoé!

quarta-feira, 7 de março de 2018

Dádivas - Chico Araujo*

Não, não era todo dia, pois os tempos pós-modernos não permitiam mais. Mas não poucas vezes acordou antes de todos e mesmo se levantou antes de todos e entre o sono no cedo da manhã, o cansaço ainda aceso do dia anterior e o desejo simples de apenas fazer, preparava o café matutino para aqueles que acordariam e se levantariam depois.

Quando a mediana fartura acontecia, de frutas batia no liquidificador a vitamina, ou na jarra providenciava o suco da preferência; ainda punha ovos à fritura, ou mesmo os fazia mexidos; também esquentava pães e coava o café que logo depois permaneceria quente na garrafa.

Nada pedia em troca. Apenas fazia.

Ia, então, ao encontro de cada um e os abençoava, os acarinhava, os beijava, deseja a todos um dia bom, tranquilo, pacífico, abençoado mesmo. Depois passava a pensar em si, no seu trabalho, no seu dia que também merecia ser abençoado, pacífico. Mas parece que saía de casa mais leve, mais inteira, mais disposta ao enfrentamento dos desafios a virem, certamente.

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Percebia, há alguns tempo, que algumas moedas lhe sumiam do bolso, que algumas cédulas lhe desapareciam da carteira. E achava estranho...

De primeiro, começou a se perguntar se não estava a fazer confusão com esses sumiços: - Será que não gastei mesmo e não me lembro? Que foi mesmo que comprei ontem? E com essas perguntas – sem respostas efetivas – ia se angustiando, se martirizando. Era-lhe muito doloroso faltarem-lhe as respostas desejadas.

Mas os dias passavam... Os sumiços acontecendo...

Foi numa manhã, após o banho e antes do café, que se chegou, muito sério e certamente triste, ao filho:

- Gostaria que me devolvesse a cédula que me tirou da carteira.

- Senhor?

- Você sabe. Você tirou uma cédula hoje da minha carteira enquanto eu tomava banho. Preciso que me devolva.

Cabeça baixa, entre a vergonha e o medo, o filho retirou a nota guardada no bolso da calça e a entregou ao pai. E então chorou. O pai ainda aguentou firme.

- Agora quero que me diga por que vem me tirando dinheiro. E quero que me diga a verdade.

Após alguns soluços pelo choro, o garoto conseguiu falar:

- Tem um menino lá na escola, na minha sala, que ele é muito pobre. Ele sai de casa sem comer nada, nem toma café da manhã. Eu levo o dinheiro pra gente merendar, porque nem todo dia tem merenda na escola. Aí eu pago merenda pra mim e pra ele.

O pai ainda aguentou firme e não derramou ali suas lágrimas – de tristeza e de medo. Olhando firme para o filho, com firmeza disse:

- A sua razão é nobre, o seu ato é pobre. Quando a gente pega algo de alguém sem a devida permissão, estamos roubando dessa pessoa o que para ela pode ser muito necessário. O dinheiro aqui em casa é pouco; eu ganho pouco e sua mãe também. Do pouquinho meu e do pouquinho dela fazemos de tudo para que nada falte a você e seus irmãos. O que você tirar de mim vai fazer falta a nós todos, a mim, a sua mãe, a seus irmãos. Você está roubando de todos nós e até de você, mesmo que por um momento tenha o dinheiro tirado só pra você mesmo e praquilo que considera importante.

A palavra "roubando" estourou na cabeça da criança com força e um choro menos controlado e muito mais soluçado se revelou. Foi uma arrebentação de represa. Muito triste, o pai, ainda em controle, disse:

- O que quero agora é que me prometa que nunca mais, mas nunca mais mesmo, fará isso de novo, nem comigo nem com mais ninguém.

- Prometo, papai.

- Esse dinheiro que ia levar hoje eu não posso lhe dar. Ele vai servir pra pagar uma conta na mercearia. Se por acaso não tiver merenda escolar hoje, você e seu amigo precisarão controlar a fome, pelo menos até chegar a hora do almoço.

- Tá certo, papai.

- Outra coisa: de hoje em diante, quando estiver precisando de dinheiro ou de qualquer outra coisa que não dependa somente de você, mas de mim, da sua mãe, dos seus irmãos ou de quem quer que seja, você vai "pedir", dizer qual a sua necessidade e "pedir". É assim que deve ser. O que não é nosso, para passar a ser nosso, tem que ser pedido, ou comprado com dinheiro honesto. Entendido?

- Sim, papai.

- Agora vá tomar seu café da manhã pra depois ir pra aula.

O garoto saiu em silêncio, cabisbaixo, triste, desconsertado mesmo, humilhado por sua própria ação. Comeu meio sem vontade, tentando entender porque não foi castigado por seu pai. Merecia uma surra bem dada. Mas não. O pai o pegou em flagrante e não o castigou. Como pode isso?

O filho não conseguia entender porque não houve castigo. A mãe, ali na cozinha, perto dele, sabia de tudo, já, mas não dizia nada. O pai decidira que era ele quem deveria falar com aquela criança. A mãe entendeu e aceitou. Permaneceu calada, triste também, muito triste e preocupada, mas atendeu ao desejo do marido e ficou calada. Mas dava para sentir o pesado ar circulando em torno de todos.

O filho tomou a benção à mãe quando saía para a escola.

- Deus o abençoe, meu filho, Deus o abençoe, livre e guarde das coisas ruins dessa vida – fez essa invocação sem que o menino visse as lágrimas escorrendo de seus olhos.

Estava já próximo ao portão, quando ouviu a voz do pai (que em dia normal teria saído mais cedo. Naquela manhã, precisou isolar-se um pouco no quarto, talvez para meditar sobre sua preocupação, quem sabe para deixar cair alguma lágrima pela aflição sentida):

- Filho, Deus o abençoe. Deus guie seus passos. Tenha boas aulas e aprenda, filho, aprenda tudo o que puder de bom, na escola e na vida.

O menino, enfim, seguiu para a escola, passos pesados no chão das ruas. Ainda levaria algum tempo para entender o que de fato acontecera naquela manhã; mas a lição recebida nunca se apagaria de sua memória e ele poderia aprender, a partir dela, como seria o restante de sua vida.

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Os tempos atuais são de velocidade e, certamente por isso, costuma-se, nas correrias diárias, não se perceber muito do que precisa ser observado. As pessoas, por exemplo, precisam ser observadas e, mais que isso, vistas.

Ele observa; por isso, vê. Não é hábito adquirido recentemente, mas herança pela formação, evidenciada a partir do pai e da mãe. Assimilou. Incorporou. Põe em prática.

Então foi comum levantar-se do banco do ônibus para ceder o assento a um senhor já com idade bem além da sua. Foi natural recolher do chão os livros do estudante, caídos da mão deste, quando em descida do coletivo. Nada extraordinário abrir a porta e dar passagem aos colegas que chegavam ao trabalho no mesmo momento que ele. Tampouco lhe caberia na esquisitice esperar que as pessoas saíssem de dentro do elevador para ele entrar.

Talvez não seja difícil reconhecer sua principal característica. Basta acompanhá-lo, por alguns dias, pois também afirmar a característica de alguém não deve ser de improviso, por uma primeira visão, ou mesmo uma visão rápida, superficial. Estar com ele, porém, pari passu, em trajetórias cotidianas, pode nos conceder visão adequada de qualidades suas.

Então não causou surpresa vê-lo abrir mão de seu lugar na fila do almoço em favor de pessoas com mais idade; também não acarretou estranheza quando se determinou ajudar colega em trabalho que já fizera tempos antes, mas que agora estava sob a responsabilidade do outro, ainda às voltas com a necessidade de compreensão para realizá-lo a contento.

Apenas é assim, apesar dos dias atuais.
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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Dádivas" foi escrito entre 18 e 27/02/2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 5 de março de 2018

DOR - Túlio Monteiro*

Eis, pois, exposta aqui, uma das oxítonas mais extravagantes do nosso léxico! DOR tem mais significados que muitas palavras da língua portuguesa podendo ir da dor do parto, passando pela dor de um osso quebrado, de um ferimento, dor no coração por um amor perdido, dor explícita ou implícita. Ou a pior delas: a DOR de um ente perdido.

Na última sexta-feira, caros ledores, perdi uma peça-chave nesse tabuleiro de xadrez chamado vida. Perdi para sempre meu pai, o grande e “imorrível” Joaquim Bernardo Monteiro Neto, que aos 79 anos de vida decidiu por conta própria virar “imortal” e ir viver na Casa de Deus ao lado de seus pais Laurindo e Luiza, de sua irmã Lucimar, de sua sobrinha Nice de seu sobrinho Enéas sem contar outros antepassados. O Céu certamente está em festa, tenho certeza disso. Pois toda vez que por lá chega uma alma de reputação ilibada e que só cativou pessoas enquanto viveu nessa Terra de lamentações tudo deve ficar azul.

Logo ele que, por mais estranho que pareça, nunca errou os alvos a serem escolhidos; que sempre trabalhou com o afinco de homem hercúleo; que eu nunca vi chegar em casa com um cigarro sequer na boca ou mesmo alcoolizado foi tragado pela pior das doenças que podem existir nesse planeta de expiações: o câncer!

Não há conformação em minh’alma nesse momento em que vos escrevo madrugada adentro. Há, Sim, uma certa calma em meu peito ante todos os ensinamentos que ele me deu nos 53 anos em que pude desfrutar de sua companhia. Ensinou-me muito, o meu velho. Se eu aprendi ou fiz de conta que não o ouvia foi por conta do adolescente-homem sempre ensimesmado com a vida que, devido aos meus devaneios de poeta louco, nunca soube ter medidas certas. Falta de aviso não foi quando ele me dizia que não estaria aqui para sempre. Mas, como pais são espelhos aos filhos homens, achei que ele nunca partiria nem mesmo durante os 9 anos em que lutou contra essa maldita doença que não escolhe credo nem cor da pele.

Não sei, não, meu pai. Queria que essa crônica terminasse com você voltando com aquele sorriso largo e aquela simpatia estampada no rosto. Mas, sei que não é mais possível de te ver. Não nesse plano. Porém, no plano dos sonhos, no plano espiritual, no plano etéreo sempre estaremos juntos um com a mão no ombro do outro a passear em uma praia deserta dos confins do paraíso. Ficamos então, meu pai, com a letra da música que sempre nos marcará para sempre. Que bom que brincou muito de vovô com meus filhos e netos. Jamais estaremos sozinhos, nem nós nem você. Fique em paz que aqui embaixo eu os teus honraremos para sempre o teu nome...

Pai!
Pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo pra gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho talvez...

Pai!
Pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre
Esses vinte ou trinta
Longos anos em busca de paz...

Pai!
Pode crer, eu tô bem
Eu vou indo
Tô tentando, vivendo e pedindo
Com loucura pra você renascer...

Pai!
Eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Pra falar de amor
Pra você...

Pai!
Senta aqui que o jantar tá na mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensine esse jogo da vida
Onde a vida só paga pra ver...

Pai!
Me perdoa essa insegurança
Que eu não sou mais
Aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo
Nos teus passos você foi mais eu...

Pai!
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Pra pedir pra você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar

Pai!
Você foi meu herói meu bandido
Hoje é mais
Muito mais que um amigo
Nem você nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz

Pai! Paz!...
(Fábio Jr.)
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*Túlio Monteiro - Escritor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

sexta-feira, 2 de março de 2018

CERTEZA! - *Kelsen Bravos

Ao meu primo amado Túlio Monteiro

Dizem ser a morte a coisa mais certa da vida; nem tanto, pois via de regra não sabemos nem onde, nem como e nem quando morreremos. Na mitologia, os ciclopes pediram e obtiveram o dom de antever a tudo. Com a dádiva recebida, sua primeira antevisão é a da própria morte. Daí a forma intimorata com que enfrentavam as circunstâncias da vida, sobretudo as batalhas. São os ciclopes heróis e vilões de muitos por conta de sua coragem. Esses mitos são importantes não para explicar o mundo, mas também para nos fazer refletir sobre as coisas do mundo. Gosto de mitos por isso; não pelo modelo de heroísmo. Meus heróis são todos de carne e osso e mais perderam que ganharam, e foi justamente nas "derrotas" que lhes identifiquei a fortaleza que me fizeram elegê-los e elegê-las como referência heroica.

O meu Tio Bernardo traduz em mim essa referência. Por todas as suas qualidades, ele desde cedo me é uma referência heroica. Insólito na mais pura expressão da infância - a que tudo questiona porque vê estranheza em tudo. Ele sempre nos estimulou a descobrir, a investigar, a experimentar a vida, mantendo com ela a sensação de estranheza e coragem para descobrir as coisas.

Inelutável determinação, meu Amado Tio Bernardo plantou em nós, pelo exemplo de sua inexorabilidade felina de jamais desistir dos propósitos, demorasse o quanto fosse, sempre nos fez ver que a espera sempre foi e é bem menor do que a conquista. Daí não valer a pena desistir, mudar a estratégia sim, desistir jamais.

Pelo exemplo nos ensinou a honrar a palavra dada. Dedicar-se com honra desmedida ao cumprimento dos desideratos prometidos; dos assumidos junto ao leito de morte de um amigo ao mais ingênuo pedido de uma criança, uma vez dada a palavra, ela deve ser cumprida sem ressalvas.

Há mais, muito mais qualidades o meu herói. Assim como há defeitos e dúvidas e fragilidades. As fragilidades, ao me ver, ele as escondia. Sempre se fez para mim mais forte do que era. Mais recentemente, confirmei esse seu carinho dedicado a mim. De longe eu o observa cabisbaixo e com expressão de dor. Quando eu me aproximava,  ele ajeitava o corpo e, em vez de queixa, recebia um sorriso.

Pois o meu Amado Tio Joaquim Bernardo Monteiro Neto, hoje, 2 de março de 2018, pelas oito horas, cumpriu o sublime momento da passagem para um plano eterno. Ele que durante anos enfrentou com exemplar Paciência um câncer já diagnosticado como generalizado em um doente terminal.

Não precisa ser nenhum herói para ter Paciência, é necessário apenas uma Fé consciente, para saber conviver com a dor. E meu amado Tio Bernardo lidou com a doença sempre com um sorriso no rosto, fé na Vida e cumprindo com disciplina beneditina as recomendações médicas. Teve um alento ao lhe ser administrado um remédio caríssimo, para o qual conseguiu o benefício de recebê-lo sem custo em um posto de saúde.

Certa feita, ao ir pegar o medicamento, a pessoa da recepção se recusou a entregar o remédio a ele. Depois questionar e se esgotarem os argumentos gentis, a funcionária categórica afirmou: "esse remédio não pode ser para o senhor, porque é só para pessoas em estado terminal!" Ele riu e disse que sim, que esse era seu diagnóstico, mas que ele estava provando que também servia para curar as pessoas. Desconcertada a moça se rendeu aos fatos. Isso aconteceu há quase uma década.

Tio Bernardo e Luísa Moura Bravos
Brincadeira do sério - quem ri perde
Sempre foi presente na família para quem não media esforços. Era duro quando precisava; mas nunca com as crianças. Se transformava em pura ternura ao lidar com as crianças, confirmava o que sempre de fato foi a existência inteira, uma criança.

Desligou-se hoje, agora pouco, o meu Amado Tio, do corpo que tanto sofrimento estava lhe dando, que nem a morfina mais amainava tamanha dor física da qual nunca praguejou. Que agora esteja leve a confirmar sua imortalidade tal como afirmava em tom de brincadeira a todos  (mas era muito a sério que falava) como se todos crianças fôssemos. Irmãos, irmãs, companheira, filho, noras, netos e netas e bisnetos e bisnetas, sobrinhos e amigos e amigas, cunhados e cunhadas, ele afirmava a todos e a todas com convicção: sou imorrível!

Hoje está sim tomando consciência da certeza de sua imortalidade no plano eterno, em que se congraça com seus/nossos afins. Ave, Tio Bernardo, meu Amor!

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Kelsen Bravos - escritor, compositor, editor do Evoé!

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Consilium fraudis - *CHICO ARAUJO


A cidade nem é pequena nem é metrópole, então é considerada entre mediana e grande. Não se encontra na região metropolitana nem está distante da capital – e isso é considerado muito bom, pois permite acesso rápido a ela, por via terrestre, em estradas muito bem pavimentadas.

O clima ali é muito agradável, também a tranquilidade impera, não havendo mesmo registro qualquer de ações de violência, dois fatos que têm levado algumas famílias a se mudarem para lá. Foi para lá que se mudou o deputado federal Carlos Lopes de França com sua família.

É nela que encontramos o “Bar do seu Luís”. Ostenta esse nome porque começou mesmo assim, um bar, um boteco pequeno onde os homens adultos do lugar se encontravam para doses de cachaça, cervejas, tira-gostos e conversas. Depois cresceu um pouco, pois seu proprietário, o seu Luís, tendo terreno disponível, ampliou o comércio para uma mercearia, criando dois ambientes distintos, mas interligados e com acesso um ao outro sem qualquer empecilho.

Já sabemos que o seu Luís, por natureza, não é daquelas pessoas em quem se reconhece facilidade no trato. No entanto, depois de tantos anos à frente da bodega mais conhecida e festejada do bairro – e mesmo da cidade inteira – era bem aceito por todos que a ela iam para compras diversas, incluídos produtos como açúcar, feijão, farinha, arroz, pão, biscoitos, leite, entre alguns outros, além das cervejas e cachaças. Sendo um local onde existia respeito, não somente os homens apareciam para as compras, também senhoras e mocinhas.

Eram muitos anos ali estabelecido e neles seu Luís viu e ouviu muita coisa envolvendo seus clientes. Contudo, arretou-se da vida numa certa tarde de quarta-feira, mês de março, no tempo exato da entrada, em seu estabelecimento, do deputado federal Carlos Lopes de França, vulgo Carlão, como ele mesmo havia declarado quando deu as caras pela primeira vez na bodega do comerciante.

Acontece que quarta-feira à tarde, em mês de março, sem haver feriado, é dia de deputado federal encontrar-se na Câmara dos Deputados, em Brasília, trabalhando em benefício do povo. Pelo menos era assim que seu Luís pensava, declarava a plenos pulmões, defendia diante de qualquer um que lhe aparecesse pela frente para falar alguma coisa sobre política. Ele era homem simples, de pouco estudo escolar, mas sabia muito da vida – dizia sempre isso com muito orgulho – e julgava situações e acontecimentos como poucos.

Pois foi só o deputado federal Carlos Lopes de França aparecer naquele meio de semana, em sua bodega, naquele horário – eram umas duas da tarde pelo que ele se lembrava – para ele, seu Luís, se encrespar, vestir seu conhecido manto de irritação e, naquele instante também se lhe fazer assanhar profunda desconfiança. Porque o político chegou na arrogância já conhecida, mas acompanhado da arrogância de dois assessores, de acordo com o apurado pelos ouvidos e pela atenta observação do mercador.

Carlos Lopes de França chegou com seu rompante e foi disparando:

- Boa tarde, seu Luís. Traga logo duas das suas cervejas sempre geladas e prepare aí um dos seus bons tira-gostos que eu e esses dois colegas vamos ter uma conversa possivelmente longa aqui. Seu estabelecimento não será mais o mesmo, seu Luís, depois de hoje.

Seu Luís ouviu essa frase enquanto levava as duas cervejas e os três copos para a mesa onde havia ficado o trio. Estava de cenho fechado, e mais cerrado ficou quando, após a frase, três gargalhadas ecoaram no ambiente, unissonantes. Ressabiado, ficou de olhos abertos aos gestuais daquela tríade e de ouvidos atentos às falas, sem distrair-se dos outros poucos clientes daquela hora.

- O negócio é o seguinte. Estou em conversas bem avançadas com o Grande e o meu nome deve ser lançado para aquela vaga que vai surgir lá mais em cima nas próximas eleições. Mas para isso vou precisar muito de vocês dois, muito mais do que já precisei antes. A ida para lá exige atenção, empenho, visões e ações diferentes. O trabalho será muito maior, mais intenso e por isso quero contar com vocês.

- Sabe que pode contar com a gente – disse um, antes de sorver um bom gole de cerveja.

- Sempre... Sempre pode contar com a gente – enfatizou o outro, após fazer descer garganta abaixo sua cerveja e deixar seu copo vazio, pronto para ser novamente enchido.

- Sei disso, sempre soube. Por isso os chamei. Vou falar somente do primeiro passo, por enquanto.

Silenciou quando percebeu seu Luís chegando com um farto prato de torresmo feitinho na hora.

- Beleza, seu Luís. Vocês dois vão comer um torresminho melhor do que qualquer um feito por mineiro. Seu Luís, pode trazer logo mais duas cervejinhas? E se puder preparar aquela mão de vaca que só se encontra aqui, já estamos a postos.

O vendeiro afastou-se do grupo meditando sobre como aquele deputado devia considerá-lo um idiota. Aquela bajulação toda só pra ter um lugar onde pudesse organizar tramoias. Mas por que logo no seu comércio?

- Vamos lá. O negócio é o seguinte: precisamos tirar de nosso caminho aquele outro lá que vai tentar se manter. O tempo dele vai terminar e ele vai querer ficar, é claro. No lugar dele eu também ficaria. A gente pode conseguir muita coisa estando lá. Dá muito prestígio. Mas se ele ficar, eu não entro. Então, ele não pode ficar.

- E como você vai conseguir despachar o homem? Você está sempre tão perto dele...

A pergunta somente foi respondida quando seu Luís afastou-se da mesa após dispor as duas cervejas pedidas. Já nem se davam contam de que, quanto mais baixo queriam falar, mais audível estava o que diziam. Entornaram rápido demais os primeiros copos.

- Pois é, tudo deve ser feito com muito cuidado, porque o que aparecer dele não pode me atingir também, entendem? Por isso chamei vocês, que são amigos especiais, pessoas em quem posso confiar. Eu não posso de maneira alguma aparecer em nada que seja ruim. Eu tenho de aparecer como pessoa boa, competente, responsável, que pensa nos eleitores etc., então tudo o que fizerem para ele não pode ficar relacionado a mim, deve me manter o mais distante. Entendem, né? Óbvio que uma vez eu estando lá vocês serão recompensados.

- Mas vir pra cá pra essa cidadezinha não vai atrapalhar seus planos não?

- Pelo contrário. Ela foi escolhida a propósito. Aqui é tranquilo, o povo é hospitaleiro e me recebeu muito bem. O povo daqui é simples demais, amigo demais, inocente demais. Nessa espelunca aqui estou bem perto das pessoas mais importantes da cidade. O prefeito vem aqui, sabiam? O delegado de polícia vem aqui; os médicos vêm aqui; todo mundo que importa na cidade vem aqui. É tradição. Esse bodegueiro – que não gosta de ser chamado de bodegueiro – talvez seja o cara mais importante desse lugar, porque todo mundo passa por aqui.

- E...

- E acontece que estou conhecendo todo mundo e todo mundo está me conhecendo. Alguns já me reverenciam. Daqui, já sei, nunca saiu um deputado nem estadual nem federal. Já estão me vendo aqui como possibilidade pra eles. Claro que tenho alimentado isso, sempre que posso. Depois de me mudar pra cá, aliás, por intermédio do prefeito – outro destacado inocente – passei a ter maior proximidade com o governador e, por meio dele, estou chegando mais perto de outras figuras importantes, decisivas. Se tirarmos aquele lá da disputa, aí será o paraíso...

Algumas gargalhadas ecoaram. Seu Luís olhava o grupinho com uma seriedade aguda. Os outros clientes bebiam, falavam, escutavam uma ou outra frase solta, não entendiam o todo. Seu Luís sempre atento.

- E a tua filha, tá melhor?

- Minha filha nunca esteve tão bem. Aliás, ela nunca teve nada. Vim pra cá por descobrir que aqui seria um lugar bem estratégico para as minhas pretensões – disse isso rindo. Minha filha quase nunca vem aqui. Estuda na capital, num dos melhores colégios; minha mulher, parceiraça que me apoia em tudo, vem quando eu venho e me ajuda com alguns contatos. No mais, eu precisava de um novo domicílio para alcançar o que agora quero e esse lugar serve como uma luva. Depois, se tudo correr a contento, “o céu é o limite”.

Novas gargalhadas se fizeram ouvir, sob o olhar censurador do dono do bar nem um pouco contente com a tramoia articulada ali, cujo entendimento lhe chegara pela capacidade de observação desenvolvida em muitos anos de vivência e pela escuta de trechos fundamentais da conversa. Olhava-os e refletia sobre como poderia impedir o retorno daqueles três ao seu estabelecimento. Nunca deveria ter aceitado ficar de cócoras com ele quando o conheci. Por enquanto, apenas pôde atender ao novo pedido, vindo de uma voz que começava se arrastar:

- Ô seu Luís, traga mais duas... E homem de Deus, cadê aquela mão de vaca saborosa?

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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título Consiliu fraudis faz parte do Abecedário de Crônicas-Evoé! e foi escrito entre 15 e 17/02/2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...