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sexta-feira, 16 de março de 2018

Estudantina - Kelsen Bravos*

Queria ficasse assim uma paratopia, que se materializasse sempre pelo desejo dos encontros boêmios. Adoro música. Música de violões e voz em mesas de bar, em quintais, regadas pela emoção dos olhares, sorrisos, papos e abraços. Sem hora para acabar e quando o momento de separação surgisse fosse em forma de até já.

Houve um tempo por aqui de ser bem comum encontrar espaços assim, depois os violões sumiram. Talvez pela imposição da necessidade de feijão de quem vive o sonho de ser músico. Talvez não. Bem sei da falta em mim desse canto acompanhado de alegres ou plangentes pinhos.

Foram desse jeito os anos de 1980 até meados dos 1990, uma transição entre o ressurgir das canções espontâneas em bares e praças (a festejar o sol e o luar da abertura política e o início da redemocratização no país), e o recolher desse ímpeto luminoso do canto liberto, dando devido lugar a apresentações profissionais dos músicos de banquinho e violão em bares e restaurantes, com as cobranças dos merecidos couvert artísticos nas contas. 

Num rápido exercício de memória desse tempo, a lembrança me leva ao Bar das Letras, ao Jazz Blues Bar, ao Quina Azul, ao Bar da ASAUFC, ao Recanto do Sabiá (do meu amigo Rainunes), ao Mila Lanches (academia paralela - não havia apresentações pagas, só o violão do Tarcísio Câmara), todos no Benfica. A ordem em que cito os lugares não é a da cronologia do surgir e sumir os bares (porque aqui tudo é efêmero).

Lembro dos efêmeros Cio da Terra, Cheiro Verde, Tom Bege, Bar da Filosofia, esses dois últimos vicinais à Faculdade de Filosofia de Fortaleza, onde conheci meu amigo Lira Neto no comecinho dos anos de 1980. Quem nos apresentou foi a Dudu Molotov, codinome definido por Airton Monte à nossa amiga poeta e acadêmica de filosofia, contemporânea do Lira, da Sônia Maria Castelo Branco, da Martha Vecchia, da Sandrinha, do Ellis Mário e tantas outras (Clara Pinho) figuras bem queridas.

Havia o Cais Bar de tantas histórias, o Largo do Mincharia, e tantos pela Praia de Iracema. O sempre que não fechava Tocantins, onde todos boêmios vindo de todas as demais tabernas se encontravam...

Lembro do Mesa de Bar, do Papo de Esquina (sonho fugaz de meus irmãozinhos Celso e Severo), esses no roteiro do PCdoB (Polo Cultural do Benfica). Neles a paratopia boêmia existia. Nenhum, porém, era igual à Estudantina. Junte a qualidade de todos os bares citados em um só lugar, eis a Estudantina. Era uma varanda de uma casa caiada decorada com simplicidade na forma e requinte no conteúdo, lugar tão aprazível estou para ver igual.

O aconchego do lugar tem a extensão do espírito de Leda Guimarães Rocha e Ignácio Barreira Rocha. O sorriso da Ledinha, sua doce voz, a atenção no ouvir e a palavra amiga plena de carinho a nos querer fazer botar sentido na vida. O abraço de coração imenso, sorriso largo e solidariedade sem par do Ignácio transforma o espaço em bar doce lar.

Nem parecia mesmo um bar; de fato, não o era, pois ao adentrar a Estudantina atravessávamos um portal para felicidade boêmia. Shows, saraus literomusicais, conversas mil sobre filosofia, literatura, projetos, notícias de jornal (não havia televisão por lá), num ambiente de excelente repertório musical. As caixas de som em volume suficiente para não atrapalhar o papo falando da vida. As separadas e diversas mesas iam-se acoplando umas a outras com o passar das horas até se transformarem numa única távola boêmia. Conheço muita gente de lá. Amigos admiráveis e muito queridos. Luciano Franco, que presente maravilhoso a Estudantina me deu!, assim feito o Cláudio Costa, Fhátima Santos, Humberto Brito...

Testemunhar a arte de João Barbosa e Paulo Barreto a inaugurar a programação de shows do espaço cultural não foi coisa pouca. Um misto de erudito, do primeiro violino da sinfônica da Paraíba, e de popular, da radical expressão da voz e violão do hoje Cumpade Barbosa. Espaço Cultural Edson Távora assim foi carinhosamente batizado  de forma não oficial por Ignácio e Leda, em homenagem póstuma ao músico que sempre frequentava a Estudantina no meio da semana. Certa feita, me conta Ignácio, Távora recebeu um acordeon importado e fez questão de inaugurá-lo numa noitada por lá. Um encanto.

A programação, claro, teve sequências em muitos espetáculos, Késia (en)cantou por lá minha preferida Catavento e Girassol, de Aldir Blanc e Guinga, ("só você me pede essa música, Kelsen, eu adoro." - disse-me uma vez). O mais marcante foi o dedicado a Vinícius de Moraes, em que Fhátima Santos e sua voz de silenciar catedrais, acompanhada de Cláudio Costa, violão, Luciano Franco, baixo, Dihelson Mendonça, teclado-piano, com leitura de texto por Ricardo Guilherme... e outros atrevidos feito eu.

Tanto talento junto só me confirma a existência de Deus, e o quanto Ele ama a arte, pois era Divina tamanha beleza a reverberar por lá em música, em texto, em canção, em poesia e nos encantos dos encontros de nós com nós mesmos e com os outros.

Deus, aliás, tal qual me lembra Ledinha, que um dia pacientemente tentei explicar para minha querida amiga Inês não se tratar de um senhor bem velho e barbudo. Isso já às cinco da manhã... Deus sim que me fez protegerem da queda ao descer dos batentes da Estudantina. Juram a Ledinha e os demais terem visto na queda minhas pernas e pés, em vez da cabeça, sobressaírem para além e acima do muro. Todos correram para ver na calçada o estrago. Os recebi com a frase: "capoeira não cai, mas se cai, cai bem..."

Não havia só música, muita literatura também se vivia por lá. Túlio Monteiro outro dia me falou ter sido na Estudantina onde acertou com o Lira Neto a proposta para publicar o perfil biográfico de Lopes Filho. Aliás, muitos projetos editoriais o Vessillo Monte e o Lira conversamos ali, quase todo o santo dia, em companhia de Jota Pompílio e Edvaldo Filho. Lá testemunhei casamentos e desenlaces, enlaces e enrascadas amorosas e muito prazer e muita dor... eita! Intensa dor.

...

Mas o melhor de tudo era o após o hiato entre a despedida dos, digamos, normais e a chegada dos boêmios mais noctívagos a surpreender os que ficávamos. Vinham com conversa animada como se tudo estivesse começando agora e logo, espontaneamente, sacavam os instrumentos, violões, baixo, sax, flauta e começavam a preencher o ar e a vida com as mais belas músicas e poesias das canções até depois do raiar do dia. Numa dessas estavam reunidos, entre outros, Luciano Franco, Arismar do Espírito-Santo (companhia), Ellis Mário, Cláudio Costa, Fhátima Santos, Dihelson Mendonça e seu teclado e muita poesia na voz de Ricardo Guilherme, Karlo Kardozo, Eugênia Siebra, Suzi Lins, Ignácio, Ledinha, canora, e a nossa voz.

Quero de volta tudo outra vez, não só a Estudantina; mas o tempo da delicadeza, em que o silêncio das noites e madrugadas era preenchido pela poesia das canções e a juventude era poupada do vexame de morrer tão cedo. Ave Estudantina! Evoé!


______________
* Kelsen Bravos - professor, escritor, compositor, editor do Evoé!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Conversa de Botequim: Era um sujeito cascudo e bocão

Passar algum tempo sem encontrar o Vessillo Monte constitui grave penitência. Seu refinado bom humor e o inversamente proporcional mau humor me são essenciais. Aliás, o bem-humorado de fato rebenta do mal-humorado. Não é à toa que, sim, todo comediante (se for do bom mesmo) tem em si perene ranzinzice, cujo antítodo consiste em dar à sua irascibilidade vazão com efeito risível, senão vira neurastenia crônica. O bom humor, portanto, prevalece entre mim e o poeta Vessillo Monte, pois somos dois rabugentos.

Devo fazer alguma falta também, porque mesmo em companhia do mais fleugmático dos seres, o Doce Gigante Flávio San, gentil e delicado até ao espantar moscas, o poeta me liga cobrando comparecimento.

Flávio San, por sua vez, me intima com seu violão e poesia. Às vezes, o Doce Gigante se espanta com a rabugice minha e do Vessillo e nos interpela com voz mansa de padre em confessionário e mãos de maestro regendo em adágio: “poeta, poeta... calma, poeta... olha o coração (com as pontas dos dedos das duas mãos toca o próprio peito)..., o coração, poeta... vamos cantar!... ‘ponta de areia, ponto final’...”

Às vezes dá certo, outras vezes também. Quase sempre funciona, bem diferente do tempo em quando um dia convoquei o poeta para tomar satisfação com um sujeito cascudo e bocão instalado, segundo me revelou meu irmão Kelson, às margens da minha sagrada lagoa da Parangaba (topônimo tupy-guarany que significa Terra onde nasceu Kelsen Bravos).

Pois bem, ao lhe revelar do assédio que o tal sujeitinho andava fazendo aos coopistas e, sobretudo, às coopistas, ali às margens da sagrada lagoa, o poeta se alevantou e quase retumbante bradou: Vamos lá, Kelsen Bravos, pôr fim a este constrangimento.

Cuidei logo de encher um cooler com gelo e bastante cerveja, muita cerveja, pois a missão seria demorada. Tivemos, obviamente, de largar os editoriais afazeres cotidianos para nos dedicar à paladina missão de calar o sujeito cascudo e bocão a aterrorizar minha sagrada Lagoa da Parangaba. Vimos que lhe cabia mais um adjetivo: arredio.

Decidimos fazer ocupações libativas ao longo das margens da lagoa. Parávamos o carro, descarregávamos o cooler com as cervejas e nos acomodávamos junto ao que se parecia bancos. Em cada pouso ficávamos no mínimo uma hora.

Nada do sujeitinho. Saímos algumas vezes para renovar o estoque de cervejas no cooler. Ao voltar, vinha a notícia do alvoroço de sua ofensiva aparição. Quando foi necessário repor as cervejas, o poeta resolveu ficar.

Disse-lhe que já era quase noite, que podia ser perigoso. Talvez demorasse mais, devido o trânsito e tal... O poeta de olhos já vermelhos e boca espumante esbravejou: homem, por Deus, vá buscar mais cerveja e me deixa ficar aqui! Resolvi levar também pinga e cigarros. 

Voltei o mais rápido que pude. De fato minha preocupação eram os demais habitués noturnos das margens da lagoa. Encontrei o poeta cercado por vagabundos. Sempre me impressionou a capacidade de o poeta ganhar a simpatia de toda gente, fosse onde estivesse. Já haviam feito uma fogueira e estavam em animada conversa. Foi providencial eu ter comprado também a cachaça. Na fogueira, já assava um peixe pescado ali mesmo.

Nossos novos amigos enriqueceram nossas informações do tal cascudo e bocão. Era comum aparecer à noite. Pelo que nos falaram não era tão ameaçador assim. O papo varou a madrugada. A barra do dia já se iluminava. Como é lindo o amanhecer às margens da Lagoa da Parangaba.

Já passava das nove da manhã, estávamos o poeta e eu metidos dentro dágua até a cintura, quando ouvimos um alarido em um ponto das margens perto de onde estávamos. Mulheres corriam assustadas. É ele! gritei.

Fomos correndo por dentro dágua até o ponto onde uma multidão se concentrava. Nossos amigos noturnos haviam prendido o tal sujeito em flagrante delito. Sua sorte foi, por respeito, terem atendido o pedido do poeta. Deixem que eu resolvo a questão com ele.

Trouxeram-no até nosso acampamento. Soltem, podem soltar. Frente a frente com o Vessillo, o tal sujeito ficou estático e boquiaberto. Hirto. Tão absorto que nem parecia estar mais ali em espírito.

Neste instante, o meu celular toca. Do outro lado, a voz indignada do chairman querendo saber onde estávamos. Tentei explicar, mas achei melhor passar o telefone para o poeta, muito mais eloquente do que eu. Vessillo, o Lira. Ele quer falar contigo.

Ao ouvir o nome do chairman o tal sujeito cascudo e bocão pareceu bradar: O Lira?! E incontinenti correu para dentro da lagoa. Eu ainda gritei que o Lira queria caçar era jabuti e não jacaré; mas não adiantou, o cascudo e bocão nunca mais foi visto.  

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Conversa de Botequim: Cada cultura tem o Charles que merece

Há tempos sem ter tempo de ir ao Botequim, mantive um telecontato com o poeta. Numa entrecortada conversa, nem eu nem ele somos afeitos a conversa a distância, para se ter ideia do quanto tempo passamos sem papear o assunto mais atual foi o descalabro acontecido numa das culturas mais preconceituosas e politicamente hipócrita da Europa (desculpem-me a redundância):
- Ei, Vessillo Monte, meu poeta, fiquei indignado com esse oba-oba sobre o tal Charlie Hebdo. Cuidei logo de registrar: Je ne sui pas Charlie! E você?

- Moi?! Je suis Charles aussi; mas... ici. Este que conhecemos desde os anos de chumbo. Lembra? E começou a cantarolar: "Oba, oba, Charles, como é que vai, my friend, Charles? Charles, Anjo 45, protetor dos fracos e dos oprimidos, Robin Hood dos morros, rei da malandragem..." Este Charles, sim, poeta Kelsen Bravos, merece reconhecimento, pois aparece quando o poder público se omite.

- Boa, Vessillo Monte! Essa é a realidade com a qual também me identifico. A do Charles do Jorge ainda dos tempos quando ele era Ben. O Charles, Anjo 45. Como era mesmo que dizia a letra?
"Ôba, ôba, ôba Charles.
Como é que é, My friend Charles?
Como vão as coisas, Charles?...
Charles, Anjo 45,
Protetor dos fracos
E dos oprimidos,
Robin Hood dos morros,
Rei da malandragem,
Um homem de verdade
Com muita coragem.
Só porque um dia,
Charles marcou bobeira,
Foi sem querer tirar férias
Numa colônia penal...
Então os malandros otários
Deitaram na sopa
E uma tremenda bagunça
o nosso morro virou,
Pois o morro, que era do céu,
Sem o nosso Charles
Um inferno virou...
Mas Deus é justo
E verdadeiro,
E antes de acabar as férias,
Nosso Charles vai voltar.
Paz, alegria geral,
Todo morro vai sambar
antecipando o carnaval.
Vai ter batucada,
Uma missa em ação de graças.
Vai ter feijoada,
Whisky com cerveja,
E outras milongas mais...
Muitas queima de fogos
E saraivada de balas.
Pro ar,
Pra quando nosso Charles,
Voltar...
E o povo inteiro, feliz,
Assim vai cantar...
Ôba, ôba, ôba, Charles
Como é que é,
My friend Charles.
Como vão as coisas, Charles?
ôba ôba ôba charles...

domingo, 9 de novembro de 2014

Conversa de botequim: A padecer no Paraíso

Depois de conseguir acalmar o poeta Vessillo Monte que estava prestes a passar a limpo os eruditos ciclopes vesgos do Botequim, contei umas tantas presepadas que fizemos junto a bons amigos. Rimos, gargalhamos dobrado. E o poeta já com o semblante completamente normal me relata que a tricotar no Paraíso estavam algumas mulheres cumprindo a segunda coisa que mais lhes dá prazer e orgulho: conversar sobre os feitos dos filhos.

- Sem meu Albert, a ciência ainda estaria estagnada no absoluto, depois dele o relativo ganhou mais expressão e a teoria quântica, seus fundamentos. Sou tão orgulhosa dele! - falava Pauline efusiva.

- Parabéns, Pauline, as descobertas de seu filho contribuíram muito para o avanço da humanidade; mas devo dizer que meu querido Karl é o responsável pela reorganização mundial seja do ponto de vista social, econômico, histórico ou filosófico e a teoria política seria uma mera retórica sem ele. Motivo de orgulho, sim, tenho eu de meu filho!

- Muito bem, Henriette e Pauline, parabéns! - disse Rebecca entre risos; mas sem meu Levi, o mundo andaria nu ou mal vestido, pois seu blue jeans democratizou a moda em todos os continentes. Elevou a autoestima dos povos. Querem motivo maior de orgulho do que um filho que transformou o simples ato de vestir-se em um consenso mundial?!

- Parabéns, mesmo a todas vocês pelos seus brilhantes filhos; mas o meu Charles... ah, o meu Charles mudou o conceito da origem de todas as espécies, inclusive a humana. Querem algo mais importante?! - desafiou Susannah.

E assim seguiram-se várias corujices sobre os feitos de seus filhos, até notarem uma cada vez mais a se recolher silente (mulher repara em tudo). A ela as demais inquiriram: Você teve algum filho de feito famoso? O que ele fez? O que ele descobriu, Amalie?

- Meu filho... bem.. ele descobriu sim...
- O que mulher?! O que o teu filho descobriu?! Anda, fala logo! - perguntaram num tom de se é que tem algo a dizer...

- Bem, o meu filho descobriu a Mãe...
- Ah isso o meu também descobriu... todo filho descobre - responderam.
- Eh... - retrucou Amalie: mas nenhum deles é o Sigmundo Freud.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Conversa de Botequim: Ciclopes vesgos

No limite de extrapolar o "Sancte Socrates, ora pro nobis!", assim encontrei o poeta Vessillo Monte no Botequim. Cheguei bem depois dele. Tentei estimar o tempo verificando quantas garrafas de cerveja consumira. Meia cerveja, constatei. Estranhei a razão de seu aspecto tão, digamos, quase fora de controle. Ao pedir explicação, ele com as mãos fez um gesto para eu me calar. Escuta só, Bravos! - exclamou baixinho. Ouve essas mesas todas e me diga que não estou louco! Olhei ao redor. Diferente do costumeiro isolamento, estávamos no epicentro do animado alarido do Botequim. Das mesas vizinhas, selecionei escutar uma a uma. Concentrei-me na primeira delas, onde uma mocinha falava para as demais colegas em tom indignado:

... "Vocês estão cristalizando uma postura androcêntrica em cada gesto, em cada fala - e o discurso é um gesto, sim! Esse teu abraço e esse teu beijo, por exemplo, - apontava para duas que se afagavam - isto é discurso e revela uma forma de submissão fálico-castrativa, já dizia Simone de Beauvoir, [tomou um gole de cerveja], reforçando o que preconizava a grande stalinista Simone Weil, afiançada por Margareth Melies, que estudou a sexologia entre os povos primitivo-chauvinistas. [Sancte Socrates, ora pro nobis! - murmurava em súplica Vessillo Monte].  Uma reprodução de dependência inculcada na relação patrilinear dominadora. Vocês, nós todas, cara, precisamos nos emancipar dessa relação monogâmica e evoluir para a liberação bio-poligâmica, exogâmica, mais que matrilinear, fraterlinear igualitária e desoprimida, porque..."

Assustado e evitando saber o porquê dela para aquilo tudo, foquei a atenção em outra mesa:

... "Macho, e aí, perdeu a palestra do grupo de estudo, cara... Foi massa.... Essa tipologia aculturada toda veio abaixo. Ficou claro o quanto essa geração massificada tem de feudal, vivemos uma anomia estratificada em linhagens étnico-integradas nesse mundo globalizado, entrópico, morfogenético, morfostático, homeorrético, auto-amplificado e de anarcomarxismo retroativo. Nossa única salvação será uma imediata adoção da doutrina maoísta-pentecostalesa. Aleluia, companheiros!" - falou em êxtase com o efeito das próprias palavras. "É foda!" - anuiu o mais sóbrio deles. "Do caralho, meu!" - exultou um outro recém-chegado de um doutorado na USP.

"Sancte Socrates, ora pro nobis" - murmurava em súplica Vessillo Monte. "Gastei quase uma existência inteira lendo uma biblioteca todinha, oito mil volumes, em três línguas, além da portuguesa, para constatar que não adiantou nada! Kelsen Bravos, não entendo porra nenhuma do que esses efedepês estão falando! Eles parecem os vinte e oito volumes da enciclopédia Larrousse embriagados! Os verbetes estão todos embaralhados!" Pra mim, poeta, - comentei - eles conseguiram a proeza de ser ciclopes vesgos. "Sancte Socrates! Ora pro nobis!..."

Preocupado com a reação por advir daquele deplorável estado do poeta, ia sugerir sairmos dali, quando adentra o Botequim, o guru de todos cicloples vesgos. Os braços arqueados e as passadas de caubói em pleno duelo ao pôr do sol, harmonizavam-se com os coturnos e indumentária ao melhor estilo punk-Rambo, mas contrastavam com o rabo de cavalo contido em um ibérico cocó. "Hoje vou tomar todas! - esturrou. "Vou botar boneco muito! Estou mais anarquista do que o big brother Bakunin! Acabei de ler "A Utopia" que George Orwel escreveu em 1984!

Sancte Socrates! - exclamei. Ora pro nobis! - respondeu Vessillo Monte em litania, antes de definitivamente reagir...

___________________
Continua...


sábado, 18 de outubro de 2014

CONVERSA DE BOTEQUIM: Aécio fala em vão o sagrado nome de Minas

Seria impossível chegar a casa antes do início do debate entre presidenciáveis, ligo, então, para o poeta Vessillo Monte e o convido para um encontro extraordinário no Botequim. O destino conjurou mesmo para que fosse assim excepcional o 16 de outubro de 2014, pois o poeta não só aquiesceu como anunciou a vinda também do doce gigante Flávio San. Ele iria ter conosco depois de sair do trabalho. Chegara o dia de conhecê-lo pessoalmente. Grato encontro.

A conversa fluía divertida, quando vimos na televisão as imagens iniciais do tal debate. Pedimos para altear o som. Bem diferente de nossa conversa, a pugna entre Dilma e Neves começou tensa e foi gradativamente ficando irritante. Surpreso, constatei estar o poeta deveras interessado pelo contexto político eleitoral, ao ponto de tomar partido e indignar-se com a demagogia de Aécio Neves. San, o doce gigante, quedou sossegado ao perceber as mesas vizinhas, segundo ele, todas dilmadas - garantia de nenhum contratempo. Melhor assim - disse.

Apesar de tenso, o debate foi quase irrelevante em apresentação de programas e propostas da canditadura de cada um. Dilma reafirmando dar seguimento ao excelente caminho político adotado em sua gestão e Neves dizendo que faria a mesma coisa mas, segundo ele, de forma melhor.

Assim sendo, concluímos - como todas as pessoas de bom senso - ser melhor dar continuidade ao projeto de Brasil do atual governo. Mudar não vale a pena. Time que está ganhando não se muda. Até porque os projetos são bem distintos, embora Neves minta e omita o quanto de submissão da soberania nacional ao mercado tem o projeto de Brasil do PSDB.


A tensão do debate se deu pela exigência de se esclarecer questões atinentes a desvios de condutas e corrupções no histórico de cada um. Toda vez que Dilma Rousseff pedia esclarecimento, Aécio Neves fugia alegando ser mentira, que nunca ele cometera nepotismo, jamais arrombara a Saúde de Minas em cerca de 4,5 cinco bilhões, não havia ilegalidade no aeroporto de uso privado construído com verba pública, admitiu, entretanto, ter dirigido alcoolizado, e retrucou que Dilma ofendia Minas ao constrangê-lo com os pedidos de esclarecimentos. Alegou querer discutir propostas e não sua vida pessoal.

Neste momento Vessillo Monte se indigna e advoga ser necessário sim tal esclarecimento. Lembrou, citando Roma antiga, a razão do termo "candidato", palavra que vem de cândido cujo significado em latim quer dizer branco. Justamente a cor das roupas dos homens públicos romanos e de quem aspirava exercer função pública. Senadores, por exemplo, sempre se vestiam de branco a fim de à luz do dia ou à escuridão da noite, o branco se destacasse e todos soubessem dos passos dos homens públicos, afinal eram responsáveis pela gestão do Estado Romano.

Outrossim, de Aécio Neves e Dilma Rousseff nenhuma atitude nem o seu histórico podem ficar às escuras, afinal ambos são CAN-DI-DA-TOS! Quanto aos hábitos de cada um, eles têm de vir à luz, pois o Brasil traz no artigo quarto do seu Código Civil que ébrios contumazes, viciados em tóxicos, dementes sem discernimento, entre outros, são incapazes de assumir e exercer certos atos, o que se dirá do de governar a Nação Brasileira! Tem de esclarecer sim, CAN-DI-DA-TO!- esbravejou o poeta. 

O mais irritante foi Aécio Neves reiterada vezes falar em vão o sagrado nome de Minas, como se ele fosse Ela. Logo ele que lhe traiu a confiança depositada nas urnas! Minas Gerais é sim sagrada para todos nós brasileiros e conhece bem o dano causado por traidores da Nação Brasileira, Joaquim Silveíro dos Reis, por exemplo, inconfidente que traiu Tiradentes e a Conjuração Mineira.

Minas Gerais é Brasil. O povo mineiro é brasileiro. Vivemos uma democriacia de orientação laica, sagrada então é sua Nação.  Toda vez que o "serial big lie" Joaquim Aécio Silvério Neves dos Reis fala em vão o sagrado nome de Minas, todo o Nação Brasileira sente um forte nó na garganta! Vamos gritar e reafirmar  nossa libertação nas urnas!

Ao final do debate, vimos Dilma passar mal. Nesse instante, deve ter-lhe aflorado a Santa Ira, ressaltou Flávio San, alegando ser difícil qualquer pessoa de boa-fé suportar incólume tamanha desfaçatez. Até ele, o Doce Gigante, fleumático até para espantar moscas, ao ver a cara lisa do "serial big lie" Aécio Neves, ao fim do debate, apertou que partiu o copo, assutando-nos. Pediu descupas. Se eu estou indignado a este ponto imagino a presidenta. Aguentar tanta mentira, tanto cinismo não é fácil. Entendo perfeitamente a Dilma. - ponderou Flávio San.

Por compromissos de pai e marido zeloso, pouco depois do debate tive de me despetir mais cedo da libação. Flávio San efusivamente estendeu-me a mão. Lembrei-me do copo quebrado e lhe dei um forte abraço. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

CONVERSA DE BOTEQUIM: Panóptico.

Na conversa fiada que corria solta, Vessillo Monte rememora fatos ontológicos de gente merecedora de registro na memória de nosso Botequim. Lembramos vários. Um deles lhes conto assim:
Forjado no lesco-lesco do jornal da família, cumpriu longos estágios em todos os setores. Passou da manuteção das rotativas à presidência de um dos mais importante noticiosos do Brasil, condição para qual muito contribuiu. Varava os quatro cantos do mundo a sua fama de excelente negociador.
Todos declaram que ele deixava para o momento do até-logo o grande fecho e real interesse do contrato. Às vezes, seguia com os negociadores até o estacionamento...
Pois esse famoso empresário de comunicação do Ceará, depois de uma longa conversa com investidores, seguiu do estacionamento até um vicinal botequim tipo pé-sujo. Entrou com os figurões e pediu doses de uisque, sem parar de conversar, sempre olhando-os com atenção.
Ao vê-los entrar, Marquinhos, trabalhador gráfico de muitas histórias, evitando ser surpreendido da fuga do expediente para tomar umas cachacinhas, encolhe-se todo atrás de uma coluna, espremendo-se entre ela e o balcão.
Depois de duas rodadas de uisque, o patrão, que ficara de costas para ele, pagou a conta e seguiu com os empresários até o estacionamento. Onde deu dois tapinhas no ombro de cada um. Conta a lenda dos tapinhas que, se eles foram dados, os negociantes cederam aos argumentos do jornalista.
Espreguiçando-se para aliviar as caimbras em razão de tanto tempo encolhido, Marquinhos pede a conta. Ao que o dono do botequim informa já ter sido paga pelo patrão com acréscimo de mais duas.

CONVERSA DE BOTEQUIM: Um caso a troar.

O poeta Vessillo Monte me chega ao Botequim com um riso estranho, amacia a voz e diz:

- Ei, Bravos, meu poeta, temos de assumir nosso caso.

Miro bem o lânguido e verde olhar do poeta, avaliando o que viria depois dessa inusitada premissa.

Ao perceber meu riso de arre-égua contido pelo silêncio, o poeta continua:

- É que andam falando que temos um caso, pois só nos reunimos a sós no Botequim.

- Ora, Vessillo Monte, claro que temos um caso; e é a três! - respondo.

- A três, poeta?! Tipo ménage à trois?! - pergunta já anunciando a explosão da gargalhada.

- Sim, eu, você e a pessoa que anda a falar isso. Agora, pra ela, o caso vai troar!

- Vixe, poeta, ao nos encontrar, ela pensará como Napoleão em Waterloo: "Putaquelosparius! Lá vem os dois, tô arrombado!" - assevera Vessillo Monte.

- Fazer quê, né, poeta? Afinal: toda forma de amor vale a pena...

- Pelo visto, Kelsen Bravos, esse caso vai avançar para orgia...

- EVOÉ! POETA! EVOÉ!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Pelas ruas: SEMÁFORO

Seguíamos madrugada adentro pela vazia avenida. Quando, por hábito, paro ao vermelho do semáforo, Luana e Lidiane se surpreendem sem susto com uma menina pedinte à janela do carro. Misto de revolta e resignação, as meninas e o poeta Vessillo Monte cumprem gesto da mais possível e imediata solidariedade. Depois o poeta começa a cantar baixinho para nós enquanto silentes retomávamos o rumo do asfalto à procura de um oásis de humanidade em nossa deserta urbe. 
Uma menina igual a mil
Que não está nem aí
Tivesse a vida pra escolher
E era talvez ser distraída
O que ela mais queria ser
Ah, se eu pudesse não cantar
Esta absurda melodia
Pra uma menina distraída
Uma menina igual a mil
Do Morro do Tuiuti
Uma menina igual a mil
Que não está nem aí
Tivesse a vida pra escolher
E era talvez ser distraída
O que ela mais queria ser
Ah, se eu pudesse não cantar
Esta absurda melodia
Pra uma criança assim caída
Uma menina do Brasil
Que não está nem aí
Uma menina igual a mil
Do Morro do Tuiuti (Chico Buarque)

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

CONVERSA DE BOTEQUIM: Dos cânones boêmios

Incomodados com o alarido sem sentido da mesa ao lado, elegemos o poeta para missão diplomática de esclarecer os seus jovens ocupantes dos Cânones de um Concílio Boêmio, repleto de canções e diálogos libativos em decibéis amenos.

Vessillo Monte chega à porta que dá para o aprazível recanto verde do Botequim, bem diferente, aliás, do calor onde estávamos, e interpela os neófitos boêmios, cumprindo assim sua embaixada conciliatória:




- Ei, negada, dá pra falar mais baixo numa boa ou quer que eu tire o caso como pessoal?

A gargalhada foi geral.
___________
Todos cantamos juntos.

domingo, 21 de setembro de 2014

Conversa de Botequim: Das inerências...

Já íamos protestar contra esse mau gosto de os botequins ficarem o tempo todo com a televisão ligada, quando começa a propaganda eleitoral nada gratuita. Depois da conversa de uma candidata à presidência, afirmo ao Vessillo Monte o quão radical é a coerência da defesa dela ao casamento igualitário, homoafetivo.

- É, Bravos? Por que essa questão é mais tão coerente nela do que nos demais candidatos?
- Questão de inerência, poeta, questão de inerência... ela é Genro...
- De fato, Bravos, estás coberto de razão!

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Conversa de Botequim: Filosóficas

Aprazível, o papo singrava no cristalino leito da boa conversAfiada, quando irrompe Boquetim adentro, efusivo e parlapatão, um daqueles detentores de erudito repertório cuja profundidade é pireslesca. "Salve, poetas! Duas grandes figuras impolutas do conhecimento universal encontro eu cá neste templo da sabedoria!" - disse com ares de reitor. "Este daqui é a verdadeira Biblioteca da Babilônia, bradou sacolejando o ombro do poeta; e - apontado para mim - aquele ali nem parece ser negro!"

De muito bom humor, Vessillo Monte, saúda:

- Viiiiixe! Tudo bem, macho véi? Sentaí, mestre dos mestres!
- Mas só um pouquinho, porque estou indo comprar um presente para minha digníssima. - responde o chegante. E aí qual o rumo da prosa?
Olho para o poeta, e informo ao chegante que já nos preparávamos para ir a Schopenhauer.
- Vocês num templo do consumo?!... Inaugurou quando? Como é mesmo o nome?!
- Ainda não inaugurou - informei. Vamos lá para mostrar um slogan para a marca:
SHOPINRAUER - A representação de sua vontade!... Que tal?
- Genial! Não sabia que eram publicitários também. Muuuuuuito bom mesmo! - falou meneando todo o corpo, enquanto levava o copo à boca.
- Eh, amigo, na vida - diz entre risos o poeta Vessillo Monte - a gente faz tudo pra garantir a cerveja nossa de cada dia se divertindo...

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Tempos depois:
  • Vessillo Monteei, poeta Kelsen, parece que nosso amigo capotou. A gente deixa ele aí? Seria até bem feito. O cara achar que Schopenhauer é nome de um novo shopping em Fortaleza, é muito meio demais...


domingo, 14 de setembro de 2014

Conversa de Botequim: Dúvida atroz

Pensando em antecipar nosso hedomadário encontro, ligo para o Vessillo Monte.
- Bom dia, Kelsen Bravos! Por que me chamas tão cedo, poeta? Já leu os jornais? Viu aí a candidata que silva oferecendo a "Outra face a Ciro e Cid"?
- Vi, poeta, e me gerou dúvida atroz: qual das outras faces ela ofereceu?...
- Diz ela, que é a do "diálogo e a do respeito"...
- Ou seja, na linguagem da velha política, significa a face da circunstância, poeta, a da circunstância...
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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Conversa de Botequim: serenatas em bebunhol

Para Lidiane e Luana

Poeta, que horas são? Tarde, poeta, tarde! Exageramos na dose e agora? Como haveremos de entrar em casa?! Só uma boa e velha serenata. Mas estamos bêbados, poeta! A gente canta em língua estrangeira que é pra disfarçar. A língua mais bêbada que conheço, Vessillo Monte, é o espanhol! De fato, Bravos! Então vamos mandar assim: 

Si Dona Lídis e Luanita
Si fuerem de nossostros
las seguiríamos
por la tierra e por el mar
si por el mar, num buque
de guerra, si por la tierra
en un trem militar!

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Resultado: Voltamos ao Botequim!

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Conversa de botequim: Milagres...

Caminhávamos em direção ao Botequim, quando vimos um daqueles que pensa que Deus é surdo, livro santo numa mão e na outra mão o dedo em riste ordenava ao mendigo caído ao chão:

- LEVANTA-TE E ANDA!!!

Várias tentativas sem êxito, já irritado o poeta me diz que vai resolver essa palhaçada. Aproximou-se e cochichou ao homem caído. De repente, o pecador não só se levantou como saiu em desabalada carreira. Os fiéis todos se ajoelharam diante do poeta!

- Que milagre foi esse, Vessillo Monte?!

-  Bravos, meu poeta! Senti que o cara rescendia a mais vagabunda cachaça e lhe disse num bom cearês que o de bebo não tem dono!!!

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Conversa de Botequim: Verdades Estóricas...

Depois de um consumo em escala industrial, daqueles de enricar a Ambev, Luana nos encontrou no botequim e convidou a uma pizzeria (pronunciada em bom italiano, que a moça é poliglota!). Degustando um Spaghetti a Veneziana e erguendo uma taça de um bom francês, como queria, um Beaujolais, como recomendou Luana, Vessillo Monte assevera com profunda verdade factual, :

Poeta, Kelsen Bravos, meu querido! 

O precursor do movimento das massas foi mesmo o veneziano Marco Polo!

Eis uma verdade estórica! Evoé! - brindamos

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Lira, Getúlio, o celular, a fila e o Gigante

O fato aconteceu durante a sessão de autógrafos do volume três da biografia de Getúlio, em Fortaleza, na Livraria Cultura, localizada na esquina das avenidas Santos Dumont com Virgilio Távora. 

Depois de anunciar às pessoas na fila que a ligação era importante, Lira Neto fala ao celular:

Vessillo Monte, cadê você, meu caro?

- Ei, Lira Neto, já cheguei, estou no fim da fila, aqui na Praça Portugal! Em duas horas a gente se vê, poeta!

Eu e Henrique Cavaignac (na foto com o Lira) testemunhamos.



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Vessillo Monte and The honorable man.

Das mais prazerosas realizações boêmias, pousar numa mesa de bar com Vessillo Monte só é superada se estiver também presente Lira Neto. De certa forma, se estou apenas com um deles, o outro também se faz presente na conversa: vira tema e orelhas quentes. Tenho observado em fotos o quão meu amigo "paulista" anda por esses dias com suas conchas auditivas afogueadas. Vessillo e eu estamos nos vendo com mais frequência, pois sua Luana simpatizou comigo e me confiou cuidar de seu bom humor quando sozinho. São bate-papos sem fim em que rimos muito e socializamos nossas leituras de mundo.

Nem sempre, entretanto, há do que rir. A testa franzida e o olhar fulminante anunciam do vulcão em iminente erupção,Vessillo Monte não é brincadeira. Suspiro profundo e cumprimento: Ave, poeta! Evoé!!! Ao que ele retruca:

"Evoé, poeta? Evoé?! Rapaz, tá vendo o nível dos discursos feitos por aí. Esses cretinos demagogos a tanger as opiniões com ideias vazias, manipulando as emoções. O pior de tudo é essa tremenda falta de senso crítico, também com escolas sem literatura e, pior!, leituras sem reflexões, não podia ser diferente."

O poeta Vessillo Monte faz uma pausa e, num gesto largo, traga forte o cigarro e continua:

"Shakespeare já nos ensinava no Discurso de Marco Antônio ante o cadáver de Júlio César! Veja aí, poeta, o que é manipular a vontade da multidão só com discursos. Brutus - contextualiza Vessillo - para os romanos acabara de discursar revelando o quanto seu pai adotivo era um homem sem honra, ambicioso e cruel bem diferente daquele tido por todos como exemplar. Justificava assim tê-lo assassinado. Após a revelação de Brutus, puseram-se os romanos a execrar o ex-amado César."

Vessillo movimenta os ombros e se ajeita na cadeira, toma um gole de cerveja. "Marco Antonio, entretanto, toma a palavra e manda essa, poeta:

Amigos, romanos, concidadãos!

Estou aqui para sepultar César; não para glorificá-lo! O mal que o homem faz sobrevive a ele. Frequentemente o bem que fez é sepultado juntamente com seus ossos. Que assim seja com César!

O nobre Brutus disse que César era ambicioso e, se assim o foi, era um erro grave e César pagou-o gravemente. Mas estou aqui para falar nos funerais de César.

César sempre foi bom, justo e leal para comigo, mas Brutus disse que César era ambicioso! E Brutus... Brutus é um homem honrado, como são honrados todos os homens.

César trouxe para Roma escravos cujo resgate encheram de ouro os cofres da República! Neste particular, César foi ambicioso?!... Mas Brutus disse que César era ambicioso! E Brutus... Brutus é um homem honrado.

Quando os pobres de Roma deixavam ouvir suas vozes lamuriosas, César derramava lágrimas e moedas. A ambição deveria ter coração mais duro. Mas Brutus disse que César era ambicioso! E Brutus... Brutus é um homem honrado.

Todos vós vistes quando nas festas lupercais eu, por três vezes!, ofereci a coroa imperial a César e, por três vezes!, César a recusou. Chamais a isso ambição?! Mas Brutus disse que César era ambicioso! E Brutus... Brutus é um homem honrado.

Amigos, romanos, concidadãos, meu coração é um pássaro ferido que se alevantou, em voo, de meu peito. Por agora tenho que emudecer minhas palavras e encolher meus gestos até que ao meu peito ele retorne.

Com esse discurso, Marco Antônio mudou a opinião dos romanos quanto Júlio César e Brutus se deu mal, sobretudo, depois de ler o testamento cujo teor revelava metade dos seus bens destinado ao povo. Eis, poeta, como Shakespeare nos legou 'The honorable man'. Temos muito que aprender com o velho bardo. É bom vacinar as pessoas contra a epidemia demagógica desses dias. Evoé!"

Evoé! Poeta, evoé! - respondo.

Bem mais tranquilo, pergunta: "Quando é mesmo o lançamento do Getúlio do Lira? Vamos lá, né, poeta?"...








sábado, 16 de agosto de 2014

Kiki, mon Amour - por Vessillo Monte

Kiki: a solidão povoada
De família pobre, Alice Prin divertia-se provocando os homens. Seu pai, um rico comerciante, a abandonara recém-nascida, e sua mãe, com dezoito anos, instalara-se em Paris, vinda da Borgonha.

A pequena Alice foi criada por sua avó, tendo uma infância mergulhada quase na indigência.  Aos doze anos, foi juntar-se à sua mãe na capital, para aprender as primeiras letras.

Na grande metrópole, descobre algo mais sedutor: a vida nos cafés no bairro de Montparnasse, onde se reunia a fauna da boemia artística. Um grupo de pintores oriundos, em sua grande maioria, do leste europeu e tão pobres quanto ela, despertaram em Alice a curiosidade pelo sexo. Ainda menor de idade, foi surpreendida pela mãe posando seminua, sendo expulsa de casa para sempre. Desaparecia Alice e nascia Kiki de Montparnasse. Sobrevivia servindo de modelo em troca de comida e bebida, cantando temas eróticos em cabaret de má fama. Longe de se sentir envergonhada, considerava-se a mais feliz das mulheres: "Estava tão feliz que a pobreza não me afetava. A palavra autopiedade era como hebraico para mim. Simplesmente não significava nada." - confessa em suas Memórias.

Desinibida sexualmente, rompia todas as convenções moralistas dos trovejantes anos 1920.
 Man Ray com sua musa Kiki de Montparnasse
Foi amiga e amante de grandes artistas, sendo Man Ray o mais importante. Kiki conheceu o mestre surrealista da fotografia durante uma briga de bar. Algumas das melhores obras do americano, são fotos de Kiki desnuda. Sua personalidade provocativa, sua atitude liberal com relação ao corpo inspiraram o tímido Ray, que a plasmou como o ideal de liberdade dos artistas de Montparnasse.

Quando se separaram, oito anos depois, Kiki já era toda uma instituição entre os vanguardistas de Paris. Vivia em meio a intelectuais feito Breton, Gertrude Stein e Picasso. Para Ernest Hemingway, Kiki "era o mais próximo que uma pessoa podia estar de uma rainha..., por suposto, isso é muito diferente de se ser uma dama". A ocupação nazista de Paris pôs fim a seu reinado. A maioria dos artistas fugiu. Ela teve de sobreviver a duras penas, cantando em troca de algumas moedas. Isso não a incomodava: "a única coisa de que necessito é m pouco de pão e uma garrafa de vinho... e sempre encontrarei quem me ofereça isso". Mas já ninguém queria sua companhia. Viciada em álcool e barbitúricos, encontrava-se em franca decadência. Aos cinquenta e dois anos, foi fulminada por um infarto em plena rua defronte seu apartamento, localizado no coração de Montparnasse. Kiki, mon Amour, por mais que solitária, você morreu em casa. (Vessillo Monte)

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Vessillo Monte: Sou o mais poderoso (I, II e III)

SOU O MAIS PODEROSO – I

Vessillo Monte
Escritor, pesquisador, gigante(!) e monstro

“Sou o rei do mundo”. O grito foi lançado por um boxeador negro, de 22 anos, depois de ganhar, contra todos os prognósticos, o milionário e ambicionado título de campeão dos pesos pesados. O cenário era Miami, o momento, fevereiro de 1964. O jovem campeão cruzava o umbrais da História e não só o do esporte. Estava convicto de que o melhor ainda estava por vir. “América vá se acostumando comigo”. O tempo lhe daria razão. Em 10 anos seu desempenho nos ringues, sua surpreendente personalidade e seu compromisso público com os direitos dos negros e contra a guerra do Vietnã o transformaram em símbolo. 

O jovem, que naquela noite em Miami, derrotou o temível e poderoso campeão, ex-presidiário, Sonny Liston (também negro) era um recém chegado ao boxe profissional, e com uma pressa danada de converter-se no melhor de todos.

Nascido em 17 de janeiro de 1942, em Louisville, Kentucky, seu primeiro nome foi Cassius Marcelus Clay, e sua primeira e principal obsessão, abrir caminho a custa dos punhos. Clay percebeu muito cedo as injustiças que o rodeavam. Apesar de Kentucky não se localizar geograficamente no sul racista, a segregação imperava: serviços públicos, restaurantes, hospitais e escolas eram rigidamente separados entre brancos e negros.

Na sua própria família, a marginalização da comunidade negra era patente. Sua mãe trabalhava como doméstica diarista na casa de brancos, seu pai, pintor de anúncios, era muito participativo na luta pelos direitos participativos dos negros. Contudo, não foi a indignação nem o afã de justiça que levaram Clay, num primeiro momento, a esmurrar com rigor um saco de areia. Com 12 anos ele começou a treinar em um ginásio, por motivos bem menos nobres: descobrir e punir quem lhe havia roubado a bicicleta. Nunca revelou se pôde se vingar, porem tomou gosto pela disciplina que é exigida de um boxeador e começou a treinar como profissional. 

Foram anos de intensa dedicação, claro um prejuízo aos estudos. Só pôde obter seu diploma de 2º grau, graças a compreensão do diretor do colégio que adivinhou naquele jovem negro uma invencível determinação. Num país com escassas oportunidades para negros, Clay era muito consciente das suas escolhas. Á frente diria: “o esporte nesse pais é o caminho mais rápido para que um negro obtenha sucesso”.

No ginásio de Louisville, logo revelou as qualidades que o levariam ao topo: a rapidez, a forma de desconcertar o rival, bailando ao seu redor, os reflexos para esquivar-se dos golpes e a capacidade para manter a cabeça fria nos momentos difíceis. Aos 18 anos já tinha um histórico surpreendente que atraiu a atenção da mídia local.

O garotão belo, forte, alegre não temia as lentes da imprensa branca. Reforçou essa faceta de seu caráter e começou a desenvolver um estilo pessoal baseado no desafio continuo e num humor avacalhante. O público de Louisville, se indignava ante a verborragia provocativa do jovem Clay. “Cale a boca desse negro”. Clay com seu humor se autodenominou The Lips (bocão). Mais tarde o bocão obrigaria o mundo a reconhecê-lo como o maior de todos.

Em 1960, após ganhar o ouro na categoria peso médio, nos jogos olímpicos em Roma, a jovem promessa ingressou no circuito profissional, financiado por um grupo de empresários brancos de sua cidade natal. Esse fato marcou muito sua carreira, já que os boxeadores negros eram manipulados pela máfia. Clay em troca pôde escolher seu treinador (Angelo Dundee) e formar sua própria equipe. 

Isso possibilitou que Clay acumulasse 19 vitórias consecutivas, 15 delas por nocaute, até postar-se quatro anos depois adiante do gigante Sonny Liston, naquela noite em Miami Beach. “ Que sujeito mais feio ! a imbecilidade foi generosa com ele.” “Escute-me vou bater em você e te ensinar o que nunca ninguém te ensinou: a cair, seu merda.” 

Nas semanas que antecederam o combate Clay desferiu essas e outra “pérolas” contra o campeão. Todas as apostas eram contra o desafiante, também estava contra a indústria cultural indignada com a altivez confiança e negritude de Clay. Seu treinador, assustado, já escolhera o caminho mais rápido entre o ringue e o hospital.

Clay, habilidoso com rimas provocativas, ia ao encontro de Liston como um possesso, insultava-o, ofendia-o, e, inclusive anunciava o assalto em que ia derruba-lo. Muitos o tomaram por louco, até o próprio campeão, que descuidou-se em seu treinamento. Era isso que buscava o jovem Clay. Para o escritor Norman Maiiller, Clay inaugurou no boxe a era da psicologia: “ Sabia como fazer o oponente se sentir ridículo e assim leva-lo a cometer erros.” Aprendeu a fazer isso mesmo antes de adentrar no ringue, envolvia o adversário numa teia psicológica que o fazia perder metade do combate, antes mesmo desse haver começado.

SOU O MAIS PODEROSO – I I

Clay sempre insistiu nessa técnica de assédio contra seus adversários. Com Liston contou com o fator surpresa. Atordoado ante a rapidez e a violência dos golpes do aspirante, o campeão abandonou a luta no sexto assalto. Clay, coroado campeão, gritava no centro do ringue que havia surpreendido o mundo. Não seria a única vez. Entre os espectadores na primeira fila havia um muito especial, totalmente distinto dos habituais mafiosos e celebridades do cinema, TV e imprensa. Malcon X, um dos líderes da nação islâmica, que pregava a supremacia da raça negra.

Um dia depois do combate, Clay afirmou que eram amigos e que pertencia ao movimento. Se conheciam há anos. Clay considerava Malcon seu assessor espiritual amigo e mentor, ainda que não compartilhasse de muita de suas opiniões, como a de equiparar o branco ao demônio. Clay sempre contou com brancos no seu círculo intimo de amizades. O que encontrou na nação islâmica foi um discurso de orgulho que deu um novo sentido a sua existência, e possibilitou aceitar-se a si mesmo, após anos de segregação. “Agora já não sou cristão, sei a onde quero ir. Não tenho que ser o que os outros querem. Sou livre para ser o que quiser.” 

Clay deixava claro que ninguém ou nada iria decidir sobre sua negritude, sua religião ou sua História. Renunciou ao sobrenome Clay, herdado de seu bisavô escravo e rebatizou-se como Muhammad Ali.

O espanto na comunidade negra foi enorme. Um jovem de 22 anos, dono do cinturão de campeão do mundo, se rebelava contra o “establishment” e provocava a ira dos racistas brancos e da mídia, habituada aos domesticados boxeadores negros.

Incomodou, inclusive, o movimento pelos direitos civis dos negros. Luther King temia que a nação islâmica pela sua proposta de violência comprometesse sua luta. A jornalista afroamericana, Jil Nelson, admitiu: “O adorávamos pelos seus atos de desafio contra a obrigação de ser um bom negro, um bom cristão, à espera de recompensa pelo senhor branco”.

Para a escritora Tony Morrison, Ali, era um formoso guerreiro que representava uma nova atitude para os negros americanos. “Nunca gostei de boxe, mas ele era algo à parte: sua arte, sua coragem, sua força, eram invejáveis”.

Em 1965, Ali realizou sua primeira viagem à África mulçumana (Egito Nigéria e Gana). Retornou do continente negro como um ícone, um lutador mais importante que o próprio campeonato mundial. Ali derrotou todos os aspirantes ao título que o desafiaram, mas não foi seu magistral desempenho no ringue que o colocou novamente em evidência.

Em 1969, em plena escalada da guerra do Vietnã, foi convocado para prestar serviço militar. Graças a sua popularidade deveria exclusivamente apresentar-se em lutas de exibição para levantar o ânimo das tropas em combate no sudoeste asiático. “ Os vietcongues nada fizeram contra mim nem contra nenhum negro americano”, respondeu a um jornalista antes de objetar o governo americano que como mulçumano praticante sua crença o impedia de participar de guerras.

O Departamento de Justiça encarou a questão sobre outro ponto de vista, no ano seguinte foi considerado culpado de não servir ao seu país por razões politicas. Uma sentença que teria consequências desastrosas na vida de Ali. Em seu máximo apogeu físico, viu seu título lhe ser tomado e sofreu a proibição de não poder exercer sua profissão durante 3 anos e meio. Mas Ali voltaria. Não é isso o que os verdadeiros campeões fazem?

SOU O MAIS PODEROSO – I I I

A recusa de Ali foi vista como falta de patriotismo por muitos americanos que não sabiam o que pensar de um boxeador que seguia rompendo todos os padrões. O escritor Norman Mailler, em 1971, resumiu o que Ali, “o ego mais perturbador do século XX”, provocava nos seus compatriotas. “Provavelmente a figura mais importante depois do presidente. Não sabemos se estamos adiante de um demônio ou de um santo. Talvez, diante de ambos”. Outros elogiavam sua atitude. O filósofo e pacifista inglês Bertrand Russel prestou seu apoio a Ali, advertindo-o sobre as represálias que teria que suportar.

Nas universidades o jovem boxeador lotava auditórios com discursos contrários à guerra.

Ainda em 1971 a Suprema Corte de seu país reconheceu como válida a objeção de Ali à guerra por motivos religiosos. Decidido a recuperar o título, Ali fracassou na primeira tentativa contra Joe Frazier. Não desistiu. Obteve várias vitórias até ganhar crédito suficiente para 3 anos depois enfrentar o novo campeão, George Foreman. A luta ocorreu no Zaire e foi o grande acontecimento esportivo de 1974.

Ali tinha então 32 anos e seu adversário 25. Ante a força descomunal do jovem campeão, Ali surpreendeu todos com a nova técnica: aguentar os golpes demolidores do adversário até cansá-lo. No oitavo assalto assumiu o comando da luta e nocauteou Foreman.

Durante os anos seguintes, Ali continuou enfrentando pugilistas bem mais jovens. Perdeu novamente o título, para voltar a ganhá-lo em 1978. Aos 39 anos anunciou sua retirada dos ringues. Com 56 vitórias em 61 combates, Ali foi considerado o melhor boxeador do século XX.

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P.S – Agora, aqui pra nós, seu campeãozinho de merda se tu desse em cima da minha mulher eu ia de dar tanta porrada, que nem tua mãe te reconheceria depois, te derrubava no 1º round. Viu, Ali ? Sou um bocão melhor que você, nesse campo eu sou o mais poderoso.

Valeu, campeão, é uma honra ter vivido no mesmo século que você.

Com admiração,


Vessillo Monte.