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quarta-feira, 14 de março de 2018

NOTÍCIA: Café com Poesia no CEJA José Walter - 2108 apresenta a eterna poesia de Belchior

O CEJA José Walter realiza mais um Café com Poesia, na edição deste 14 de março de 2018, faz homenagem ao grande rapaz latino-americano Belchior. Uma iniciativa da responsabilidade do Grupo de Linguagens e Códigos com apoio do Núcleo Gestor/Saps e todos os professores, funcionários e alunos da escola em mais um evento da "Arte na Educação como meta para nossa ESCOLA DIFERENTE".

A programação traz nomes emblemáticos da cena cultural. Palestras, saraus, bate-papos, um evento, sem dúvida, de alto nível, digno do homenageado e do público. Merece ser replicado em todos os lugares. Confira:

 PROGRAMAÇÃO

Manhã - 9 h

Palestra:

TEMA: Diálogos poético em A Palo Seco
Profa. Kelly Medeiros (Mestra e doutoranda em Literatura Brasileira - UFC)

Participação Musical
João Barbosa (músico, cantor, menestrel)

Café Especial (Espaço de Convivência)
Momento de divulgação de livros e cds dos autores


Tarde - 15 h

Palestra:

TEMA: O poeta Italiano Dante Alighieri e a Divina Comédia Humana na obra de Belchior

Sarau literomusical com Ricardo Kélmer - jornalista, escritor e agitador cultural
Autor e organizador do livro Para Belchior com amor

Participação Musical
Alexassandro Santos (músico, artesão e poeta)

Café Especial (Espaço de Convivência)
Momento de divulgação do livros e autógrafo dos autores
Noite - 19 h

Palestra:

TEMA: Um depoimento apaixonado pelo coração selvagem do ídolo Belchior

Cleudene Aragão - doutora em linguística, professora da UECE, gestora cultural e escritora.
Autor e organizador do livro Para Belchior com amor

Participação Musical
Antônio Carlos Lima (funcionário administrativo e nosso Tom Jobim)

Café Especial (Espaço de Convivência)
Momento de divulgação do livros e autógrafo dos autores presentes



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 Para ler mais clique Evoé!

quarta-feira, 19 de julho de 2017

De lá do passado - Chico Araujo

Meu reencontro por meios virtuais com George Farias, músico cearense hoje radicado em Boa Vista, além do imenso prazer gerado pelo próprio recente novo encontro, trouxe-me, inevitavelmente, o acordar, na memória, do tempo em que, ainda bem mais jovens do que somos hoje, percorria Fortaleza no entremeio de minha juventude.

Fui partícipe de muitas noites no para sempre querido Estoril, bar / restaurante da Vila Morena. Lá tive a oportunidade de tomar cerveja gelada servida pelo pitoresco garçom Baleia; também vivi a emoção de estar perto de artistas já em reconhecimento como Geraldo Azevedo, Luiz Melodia, Zé Ramalho, Quinteto Agreste; igualmente naquela bela casa pude ver e ouvir Patativa do Assaré declamando poemas de sua prodigiosa autoria, bem como ter contato com o poeta e psiquiatra Airton Monte. Naquele espaço, exposições de artes plásticas conviveram com a poesia, com a música, com a sedutora boemia.

Creio ter sido o Estoril o bar / restaurante mais frequentado pelos boêmios daqui e d’alhures, artistas e não artistas visitantes da capital do Ceará. Em posterior a ele e mesmo por muitos anos em concorrência amigável – frequentadores de um também eram presença constante no outro – volta-me a imagem do Cais Bar, ainda sem o calçadão. Nas areias que existiram ali em frente, pus meus pés descalços em belíssimas noites de lua – em maravilhosas noites sem ela também - recebendo no corpo os respingos do mar que quebrava e espumava nas pedras.

Naquele tempo não existia fartura de transporte público pela madrugada (e hoje há?). Mas existia o “corujão”, que se dizia transitar pela cidade a cada hora da antemanhã. Talvez por perder o horário – a noite nunca nos disse exatamente a que horas estávamos – ou mesmo por não existir de maneira assegurada o “de hora em hora” divulgado, comum era a caminhada pela Av. Abolição rumo ao Centro da cidade, dobrando na Av. Alberto Nepomuceno, depois subindo na Rua Dr. João Moreira e passando ao lado do Passeio Público, até atravessarmos, por dentro, a Praça da Estação, para subirmos, em seguida, pela Rua Castro e Silva, até se dá a desejada chegada à Rua Padre Mororó, nosso destino, visualizando, meio que turvamente (talvez a iluminação da época), o Cemitério São João Batista, eu sempre acompanhado de no máximo três amigos – os de sempre, que gostavam de música, poesia e cerveja... e de caminhar pela madrugada.

Reminiscências...

Do Estoril constantemente me volta à memória certa ocasião em que lá me encontrando em um lindo final de tarde / começo de noite, cerveja já servida pelo Baleia, violão deitado sobre a mesa aguardando seu tocador, chega-se a nós, vindo da Ponte Metálica, um casal, do qual ouvi, do músico – hoje muito conhecido na esfera do forró, sendo advogado também – amistoso pedido para sentar-se ali e tocar um pouco aquele violão que dormitava. Mas é claro! E não se dá para dizer quanto tempo levou aquela cantoria, pois para a mesa mais e mais gente se achegava.

Muitas vezes era assim: um desconhecido chegava e logo em seguida se tornava conhecido, uma conversa iniciada se tornava festiva, um violão adormecido despertava em acordes e vozes se somavam entoando canções populares.

Enquanto isso, o mar soprava até nós sua brisa mansa...
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Chico Araujo publica todas as quartas-feiras no Evoé! Madeleines foi escrito em 7 de julho de 2017. Leia mais Chico Araujo em Vida, Minha Vida...

segunda-feira, 8 de maio de 2017

UM LUGAR LIMPO E BEM ILUMINADO - Túlio Monteiro


O velho sentado na penumbra riscou o pires com o copo.
O garçom jovem foi até ele... mais uma dose!
(Ernest Hemingway – em Well-Lighted Place)

– O que foi, poeta? Está com nojo de mim? – Berrou-me asperamente o poeta Mário Gomes com sua argúcia de sempre.

Sempre de paletó e mangas longas, barba por fazer e livros e mais livros às mãos e sovacos, o poeta que morreu em um ano e foi sepultado no outro, fitou-me com aquele olhar esverdeado de sempre, saindo-se com mais uma de suas ácidas tiradas:

– Pare de me achar sujo e me dê um dinheiro, poeta. Pois se dinheiro trouxesse felicidade você estava morrendo de rir agora e não aqui, no velho Flórida Bar tomando essas cervejas quentes que o Bayma serve a troco de nada. Vamos lá que eu tenho pressa de chegar à Praça do Ferreira para as confabulações de sempre.

Não tinha jeito! Era puxar uma cadeira e ficar por minutos contemplando as sandices absolutamente cruciais do Mário. E olhe, menino, que o homem tinha livros dentro da cabeça, como se cirurgia tivesse feito e costurado lá por dentro coisas de deliciar-se comendo lagartas para excrementar borboletas. Tome conversa jogada fora com o talvez último dos grandes poetas de rua de Fortaleza: o velho Mário Gomes. Isso já no século 21. 

E haja poesia junto com palavrões. Passasse um rabo de saia ele já ia cofiando o bigode e dizendo as paparicagens típicas de um poeta louco de amores desde os tempos em que cursara arte dramática na Universidade federal do Ceará para aprender como se achegar a uma bela mulher. Ficou pelo caminho o curso de ator em detrimento do autor de Lamentos do Ego e Violenta Orgia Universal, para citar apenas dois de seus livros.

– Olhe, poeta, já fui assim bonitinho que nem você, mas me enveredei por caminhos nunca dantes imagináveis. Você conheceu o “Barba Azul” e o “Buraco da Gia”? Não?! Pense em uns cabarés desgraçados. Lá peguei de tudo e de tudo passei. Conheci amigos cachorros e cachorros amigos. Aderi ao Fome Zero e estou aqui, sem nada. Sentenciou-me o homem em um rápido estalar de língua, acertando o copo de pinga exatamente no centro de sua goela. Mira perfeita. O velho olhou a praça através do copo, depois se virou para os garçons.

– Mais uma dose, disse, apontando para o copo. – O garçom que tinha pressa em vê-lo pelas costas veio atendê-lo já com meu consentimento de cabeça de que podia pendurar mais uma por minha conta. 

A tarde sempre se tornava noite nos desvarios das sabenças de Mário. O cabra tinha cultura para dar e vender, mas não tinha o maldito vil metal e por isso mesmo era descartado das grandes rodas pelos escribas janotinhas sempre muito cheirosos e alinhados.

Com um tapa na mesa de metal, Mário levantou-se, balançou para um lado e para o outro, sungando as calças velhas para confidenciar-me: Poeta, mais uma vez obrigado... mas aquele trocado que você disse que ia me dar...olhe que dinheiro não traz felicidade...

Estava na hora de seu plantão noturno na Praça do Ferreira, onde morava. Foi a derradeira vez que troquei palavras com Mário Gomes. Dali para frente, nossos destinos foram outros, totalmente outros. Ele entrou para a eternidade falecendo no dia 31 de dezembro de 2014, sepultando-se no cemitério da Parangaba, em 1º de janeiro de 2015. Aos seus amigos e principalmente inimigos ele deixou o seguinte poema:


Quando eu morrer

Irão distribuir minhas camisas,
Minhas calças, minhas meias, meus sapatos.
As cuecas jogarão fora.
Ninguém usa cueca de defunto.
Irão vasculhar minha gaveta.
Vão encontrar muita poesia,
Documentos e documentários.
Só sei dizer
Que foi gostoso viver.
Sentir o amor e proteção de minha mãe.
De conhecer meus irmãos, meus amigos.
De ver de perto as mulheres.
Só posso deixar escrito:
“Obrigado, vida”. 

(MG)

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Túlio Monteiro - escreve aqui todas as segundas-feiras.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Vessillo Monte and The honorable man.

Das mais prazerosas realizações boêmias, pousar numa mesa de bar com Vessillo Monte só é superada se estiver também presente Lira Neto. De certa forma, se estou apenas com um deles, o outro também se faz presente na conversa: vira tema e orelhas quentes. Tenho observado em fotos o quão meu amigo "paulista" anda por esses dias com suas conchas auditivas afogueadas. Vessillo e eu estamos nos vendo com mais frequência, pois sua Luana simpatizou comigo e me confiou cuidar de seu bom humor quando sozinho. São bate-papos sem fim em que rimos muito e socializamos nossas leituras de mundo.

Nem sempre, entretanto, há do que rir. A testa franzida e o olhar fulminante anunciam do vulcão em iminente erupção,Vessillo Monte não é brincadeira. Suspiro profundo e cumprimento: Ave, poeta! Evoé!!! Ao que ele retruca:

"Evoé, poeta? Evoé?! Rapaz, tá vendo o nível dos discursos feitos por aí. Esses cretinos demagogos a tanger as opiniões com ideias vazias, manipulando as emoções. O pior de tudo é essa tremenda falta de senso crítico, também com escolas sem literatura e, pior!, leituras sem reflexões, não podia ser diferente."

O poeta Vessillo Monte faz uma pausa e, num gesto largo, traga forte o cigarro e continua:

"Shakespeare já nos ensinava no Discurso de Marco Antônio ante o cadáver de Júlio César! Veja aí, poeta, o que é manipular a vontade da multidão só com discursos. Brutus - contextualiza Vessillo - para os romanos acabara de discursar revelando o quanto seu pai adotivo era um homem sem honra, ambicioso e cruel bem diferente daquele tido por todos como exemplar. Justificava assim tê-lo assassinado. Após a revelação de Brutus, puseram-se os romanos a execrar o ex-amado César."

Vessillo movimenta os ombros e se ajeita na cadeira, toma um gole de cerveja. "Marco Antonio, entretanto, toma a palavra e manda essa, poeta:

Amigos, romanos, concidadãos!

Estou aqui para sepultar César; não para glorificá-lo! O mal que o homem faz sobrevive a ele. Frequentemente o bem que fez é sepultado juntamente com seus ossos. Que assim seja com César!

O nobre Brutus disse que César era ambicioso e, se assim o foi, era um erro grave e César pagou-o gravemente. Mas estou aqui para falar nos funerais de César.

César sempre foi bom, justo e leal para comigo, mas Brutus disse que César era ambicioso! E Brutus... Brutus é um homem honrado, como são honrados todos os homens.

César trouxe para Roma escravos cujo resgate encheram de ouro os cofres da República! Neste particular, César foi ambicioso?!... Mas Brutus disse que César era ambicioso! E Brutus... Brutus é um homem honrado.

Quando os pobres de Roma deixavam ouvir suas vozes lamuriosas, César derramava lágrimas e moedas. A ambição deveria ter coração mais duro. Mas Brutus disse que César era ambicioso! E Brutus... Brutus é um homem honrado.

Todos vós vistes quando nas festas lupercais eu, por três vezes!, ofereci a coroa imperial a César e, por três vezes!, César a recusou. Chamais a isso ambição?! Mas Brutus disse que César era ambicioso! E Brutus... Brutus é um homem honrado.

Amigos, romanos, concidadãos, meu coração é um pássaro ferido que se alevantou, em voo, de meu peito. Por agora tenho que emudecer minhas palavras e encolher meus gestos até que ao meu peito ele retorne.

Com esse discurso, Marco Antônio mudou a opinião dos romanos quanto Júlio César e Brutus se deu mal, sobretudo, depois de ler o testamento cujo teor revelava metade dos seus bens destinado ao povo. Eis, poeta, como Shakespeare nos legou 'The honorable man'. Temos muito que aprender com o velho bardo. É bom vacinar as pessoas contra a epidemia demagógica desses dias. Evoé!"

Evoé! Poeta, evoé! - respondo.

Bem mais tranquilo, pergunta: "Quando é mesmo o lançamento do Getúlio do Lira? Vamos lá, né, poeta?"...








sexta-feira, 18 de junho de 2010

Lira Neto e o gigante

Abaixo crônica de Lira Neto sobre Vessillo Monte. Desde que os apresentei um ao outro, tenho de aturá-los. Depois de ler para o Vessillão o texto do Lira, leitura entrecortada por nossas gargalhadas, ele me mandou dizer ao Lira: "Gostei do 3x4." Riu e mandou essa "...quem ia gostar dessa era a Dona Maroca..." (sua avó paterna). 


Logo abaixo há m link com uma crônica que fiz dando conta de onde Vessillo Monte estava no 11 de Setembro de 2001.





Eu conheço um gigante

Avesso a qualquer espécie de convencionalismo, politicamente incorretíssimo, inimigo número um do bom-mocismo, contestador profissional, o cinquentão Vessillo Monte hoje pode ser confundido, pelos mais desavisados, com um sujeito de maus-bofes, um troglodita, mitômano, a mais intolerável e intolerante das criaturas

Lembro do dia em que um sujeito, pós-doutor, professor de uma universidade federal, entrou furibundo em minha sala. Vinha bufando. Parecia um possesso. Diante de minha mesa de editor, ele brandia os originais do texto que escrevera para uma coletânea de artigos acadêmicos que iríamos publicar em forma de livro. O material havia sido devolvido a ele pela editora no dia anterior, como de praxe, para que aprovasse e tivesse ciência de todas as padronizações e correções gramaticais sugeridas pelo pessoal da revisão.

Olhei de relance para as páginas que o professor sacudia no ar e vi que elas estavam, de cima a baixo, rabiscadas de caneta vermelha. O revisor fora minucioso, compreendi. "Quem fez isso no meu texto?", gritava o arrebatado professor. "Quem se atreveu?", cobrava-me explicações.

Pedi que sentasse, mandei vir água e cafezinho. Então folheei aquelas cerca de duas dúzias de páginas, escritas no mais inconfundível jargão acadêmico. Percebi de imediato o motivo de tanta fúria. Além das habituais questões de gramática e estilo, o revisor apontara uma série de graves imprecisões históricas que comprometiam sobremaneira o conteúdo do texto. O conceituado professor, uma sumidade entre os pares, sentira-se agredido. "Quem esse revisorzinho pensa que é?", exaltava-se. "Ele por acaso é historiador? Qual a titulação dele?", indagou.

Como eu já estava acostumado àquele tipo de cena, sugeri que o professor fosse conversar pessoalmente com o próprio revisor, que estava sentado logo ali na sala ao lado, separada da minha apenas por uma parede de vidro. Ele foi. Saiu soltando faísca pelo caminho. Pela vidraça, acompanhei o resto do drama. Pareciam dois peixes briguentos, barbatanas eriçadas, dentro de um aquário.

Olhei o relógio. Uma hora depois, ele e o revisor ainda conversavam. Mas, como eu previra, o professor foi paulatinamente se acalmando. Passou a ouvir, mais do que falar. Porque já era próximo do meio-dia e parecia reinar a calma na sala ao lado, saí para almoçar. Quando voltei, duas horas depois, os dois permaneciam lá, agora conversando animadamente. Por causa do vidro espesso, eu não podia escutar o que diziam, mas pelos respectivos semblantes sabia que haviam chegado a bom termo. Ao final, o professor retornou à minha sala. "De onde saiu esse cara que trabalha aí ao lado?", indagou-me, com incontido entusiasmo. "O cara é um gigante!", definiu. O "gigante" em questão havia convencido não só o pós-doutor a reescrever o texto, mas ainda lhe sugerira bibliografia mais robusta e também um novo enfoque para certas passagens do trabalho original. O nome do gigante era Vessillo Monte.

Já falei dele aqui, uma ou duas vezes, nestas minhas despretensiosas crônicas semanais. Mas nunca considerei o bastante. Para fazer-lhe a devida justiça, eu sempre quis assim, uma crônica inteira só para ele. Aliás, a história de Vessillo Machado Monte daria um livro. Talvez, quem sabe, uma biografia em vários volumes. Vessillo é uma dos caras mais brilhantes que já conheci em toda a minha vida. O mais presepeiro, o mais iconoclasta, o mais desabusado também.

Tive a sorte de conhecê-lo quando eu ainda era um jovem recém-chegado à faculdade. Ali, Vessillo já era o dono do pedaço. Ele era aluno do curso de História, mas frequentava como ouvinte outros cursos também, pelo simples prazer de travar intermináveis pugnas intelectuais com os professores, saindo-se sempre vitorioso de todas as contendas. Sua enorme versatilidade fazia-o dissertar, por horas, sobre literatura, filosofia, história, artes e, também, sobre uma de suas maiores paixões, a música de Noel Rosa.

Vessillo sempre teve uma dessas inteligências vastas, ecléticas e luminosas, como as que não se encontram mais hoje em dia, nesse mundo de especialistas. Àquela época de estudantes, uma vez, testemunhei um professor medalhão do curso de Letras, professor de teoria literária, chamá-lo a um canto após a aula e implorar-lhe para que nunca mais aparecesse ali, pois temia estar se desmoralizando diante do resto da turma. Vessillo acabou dando uma banana para a faculdade e tratou de continuar sendo o autodidata que sempre foi. Sua biblioteca de estudante era uma das mais espantosas nas quais eu já havia batido o olho até então.

A esse tempo, além de tudo, Vessillo era um homem bonito. Vi dezenas de mulheres lindas, justamente as garotas mais cobiçadas de toda a universidade, atirarem-se sôfregas a seus pés. No boteco ao lado do campus, turmas inteiras de marmanjos e donzelas pagavam-lhe noitadas homéricas de cigarro e cerveja, só para vê-lo declamar poesia e para ouvi-lo contar as histórias mirabolantes de suas muitas aventuras amorosas. A maioria das quais, aqui, impublicáveis.

Avesso a qualquer espécie de convencionalismo, politicamente incorretíssimo, inimigo número um do bom-mocismo, contestador profissional, o cinquentão Vessillo Monte hoje pode ser confundido, pelos mais desavisados, com um sujeito de maus-bofes, um troglodita, mitômano, a mais intolerável e intolerante das criaturas. É verdade que realmente ninguém sabe ser, quando quer, tão desagradável e irascível quanto ele. Fala alto, solta palavrões cabeludos a três por dois, descuidou-se da aparência física. Mas, para quem o conhece a fundo, sabe que na verdade ele é um lord vestido na falsa pele de cão hidrófobo.

Desde que o conheço - e lá se vão cerca de trinta anos - Vessillo tem sido sempre um dos leitores prévios de qualquer livro que publico. Tudo o que escrevo passa obrigatoriamente por seu crivo rigoroso. Ele tem sempre uma extraordinária sugestão a dar, uma necessária correção de rumo a fazer, um imperativo puxão de orelha a providenciar.

Certa vez, por alguns breves instantes, botei o olho nos manuscritos do livro que Vessillo diz escrever há pelo menos vinte anos. Por vezes, as "Crônicas do Céu e do Inferno", de Vessillo Monte, me fazem lembrar "Uma história oral do nosso tempo", a obra monumental que Joe Gould jurava estar escrevendo para Joseph Mitchell. A diferença é que o livro de Vessillo existe, assim creio eu; o de Gould, não.

Fortaleza nem imagina que tem um gênio perambulando anônimo por suas ruas calorentas. Ele não dirige, não toma táxi, não gosta de andar de ônibus. É um andarilho contumaz, por isso pode ser visto, suando em bicas pela avenida 13 de Maio, sempre com um livro ensebado debaixo do braço, a cabeça quase careca fervilhando de ideias sob o sol, o desaforo pronto na língua para qualquer transeunte que se ponha no caminho. Já foi atropelado, entrou em brigas, perdeu os dentes, a família quis interná-lo em hospício, tem parafusos de metal na perna reconstituída em uma mesa de cirurgia.

Se cruzarem com ele, não o tenham na conta de um lunático, um simples boêmio errante, uma alucinação em forma de gente. O nome dele é Vessillo Monte. E, saibam, ele é mesmo um gigante.
Fonte: Blog do Lira Neto


Textos associados: Evoë no 11 de Setembro

sábado, 12 de maio de 2007

Evoé!

Às vezes ficamos assim malemolentes, depois que tomamos um bom vinho. E um bom vinho para um boêmio é – antes de tudo – razão para um encontro libativo. Livre daqueles exagerados comentários sobre as características organolépticas da bebida. Esses discursos são uma antilibação. Acabam com quaisquer possibilidades de diálogo.

Encerro essa arrogante trelência, dizendo: Que vinho que nada! Sou viciado mesmo é em gente! Porque é o que sou. Em tudo que penso e faço o que me predomina é a essência humana.

Às vezes há quem refute esse meu vício, afirmando que ser humano é ter todos os defeitos, é não lutar contra a natureza animal que nos habita. E baseia seu argumento elegendo como máxima a “sábia” fábula do escorpião.

Aquela que dá conta de um aracnídeo desses que pediu “carona” a um ser anfíbio (um sapo), para transpor um rio sobre as costas dele. No meio do caminho, o tal escorpião crava-lhe o venenoso esporão no lombo de seu benemérito Caronte. O anfíbio, impactado com tamanha traição, para tentar entendê-la pergunta por que tamanha perfídia. Ouve como resposta que escorpião é naturalmente traiçoeiro, e não resistiu lutar contra a própria natureza.

A fábula tem a sabedoria do bom observador que tenta explicar o comportamento humano, fazendo analogia entre a natureza do lacrau e do humano. Mas é de fato um desmedido equívoco, por dois motivos: primeiro, porque mais do que comparar o humano com o inumano, tenta explicar um pelo outro. Grande tolice! O ser humano de verdade domina o animal que é em si mesmo. Ao fazer isso, substitui pela solidariedade a competição – circunstância até compreensível entre os animais, porque eles competem por sobrevivência. Daí o paradoxo no exemplo do escorpião. Por sobrevivência, ele não deveria matar o seu benfeitor; mas fê-lo exatamente para sobreviver. O paradoxo é uma criação humana. Coitado do bichinho, o que ele tem a ver com a covardia do bípede racional? A resposta a essa questão é o segundo ponto: nada. É pura transferência, sublimação do atraso de quem ainda tem medo da plenitude de ser humano.

A essa plenitude prefere a barbárie da competição, espaço mais aético que existe, do ninguém por ninguém, do cada um por si. Daí perder-se no entremundo do racional e do irracional. Querer conquistar destruindo, logrando, tirando vantagem, lucrando, matando quem lhe mostra num gesto o caminho: a solidariedade.

Ora pois o humano de verdade não acumula, porque o excedente ele comunga. E o bom vinho é um eloquente exemplo de comunhão, vem sempre acompanhado do pão que é repartido entre todos, por isso todos desse pão que compartilham são companheiros. A libação antes de tudo e por excelência é um ato de companheirismo, de solidária comunhão, jamais de competição ou exibição organoléptica.

A libação é um ato boêmio e a boemia é o primeiro estágio da evolução humana, pois o boêmio ama o próximo como a si mesmo. Até chegar o dia de transformar o próprio sangue em vinho e o próprio corpo em pão.

Evoé!!!!

Kelsen Bravos