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sexta-feira, 25 de maio de 2018

Ó de orla, de ola e muito oh! entre um e outro... - Kelsen Bravos

A orla de Fortaleza me traz lembranças tantas. É tão linda a beira-mar, tão cantada em verso e prosa, a ponto de se ter a impressão de a metrópole se resumir ao cenário das velas do Mucuripe,  onde só sorrisos respondem entre luzes que se escondem, do farol novo encantado ou do velho apagado... mas num é mesmo, é bem mais! Entretanto, minha cidade vive a colocar à margem seus demais cenários e, pior, seus filhos e filhas.

Sobre essa marginalização, uma vez meu compadre, afilhado, amigo e amado irmão Lira, numa conversa vespertina à beira-mar, sob o verde do finado Cais Bar, onde hoje está o Centro Cultural Belchior, me disse que quem lhe disse o que me disse sobre Fortaleza ser uma "porca velha, aquela que devora os próprios filhos", fora o compositor Antônio José Forte, tão irritado estava com a Capital cearense o seu talentoso filho músico.

A origem dessa perversa porca velha está na sua histórica elite econômica e política, cuja formação lastreia-se no preconceito, na bajulação e na corrupção. Jáder de Carvalho, em seu roman a clef  "Aldeota", chama a atenção ao narrar como o Ceará, um estado com uma precária indústria manufatureira de algodão, conseguiu erguer na capital um luxuoso bairro só comparável ao da alta burguesia industrial paulista da época. Uma história de crimes contra a economia pública, por meio de sonegação, contrabando, evasão fiscal, conchavos políticos, bajulações, subornos, apadrinhamentos e catervagens afins.

O poeta se entrincheirou na ficção, para revelar a realidade, mãe da "porca velha" Some-se a isso uma índole autoritária e preconceituosa a imitar a metrópole da moda, no vestir, no "pensar" (na reprodução mal lida do pensar) e no agir caricato. O resultado nada mais é senão uma ridícula, grotesca e perversa repulsa a tudo que lhes lembre a origem cabocla, mestiça, misturada e verdadeira de filhos e filhas da terra.

Forjou-se uma cultura para dar sustentação a tamanha aberração social. Fortaleza ganhou a antonomásia de "Loura Desposada do Sol". Que loura o quê, cara pálida?! É morena, mestiça e ... quase... livre. A literatura mitifica uma elite cultural, a bem da verdade fútil e artificial; mas reproduzida e comentada de modo superficial entre os incultos poderosos. Raras são as honestas exceções, como Adolfo Caminha o foi. As expressões literárias, em maioria, estão eivadas de preconceitos e de um olhar de cima para baixo para o povo, com misto de mangofa, pena e certa simpatia pela ingênua índole do povo simples. Vemos  a fartura dessa mazela social confirmadas em cantorias, cordéis, dramaturgias, crônicas e contos  e romances cearenses, desde sua origem.

Não é à toa o autodesprezo do cearense por suas expressões mais legítimas, que faz, por exemplo, um fenômeno como Xico da Silva ser considerado um primitivista quando na verdade criou um estilo; assim bem o fez, de certa forma, também Francisco Magalhães Barbosa, o escultor Zé Pinto, hoje ignorado. Como ignoradas são as expressões legítimas de nossa Cultura Profunda. Nessa vertente, me orgulha ser contemporâneo de Nonato Araújo, Francisco Almeida,  Cizin (Cícero Simplício), Descartes Gadelha, Zé Tarcísio, pela memória de Sérvulo Esmeraldo, Leonilson, Aldemir Martins e Antônio Bandeira, Deus os livre da porca velha!

Não fora a construção de políticas públicas como a dos Mestres da Cultura, o etnocídio em curso já estaria por finalizar sua missão. Precisou termos os governos de esquerda de Lula e Dilma para se imprimir uma política de reconhecimento e valorização da cultura brasileira profunda. Por cá no Ceará, fomos exemplo para a formulação de certas políticas nacionais; tudo, agora, sob ameaça golpista.

Em Fortaleza, essa política de valorização da Cultura ainda não se realiza com o vigor necessário, apesar de todos avanços da gestão municipal, tudo ainda é incipiente. A continuidade de ações de políticas públicas de uma gestão para outra demonstra compromisso e respeito da atual administração municipal. Devemos aproveitar a oportunidade e dialogar para buscar construir o ideal. Temos espaços culturais muito bons, para além da orla, temos os Cucas, temos as praças (temos?), temos escolas, bibliotecas públicas municipais e comunitárias, temos ateliês, museus... e temos artistas em potencial latentes que precisam dialogar com outros artistas como os vivos já citados até aqui e mais gente feito Calé Alencar, Alan Mendonça, Carri Costa, Ricardo Guilherme, Izaíra Silvino, Fabíola Líper, Carlos Emílio Corrêa Lima, Gilmar de Carvalho, Pingo de Fortaleza, Parayba, Preto Zezé, Oswald Barroso, Cláudio Ivo, Klévisson Viana, Rouxinol do Rinaré, Rejane Reinaldo, Ivânia Maia, Pedro Gonçalves, Fabiano Piúba, Guilherme Sampaio, Mileide Flores, Evaldo Lima, Felipe Barroso, Cleudene Aragão, Túlio Monteiro, Sérgio Araujo, Lira Neto, Tino Freitas, Almir Mota, Gylmar Chaves, Silvia Moura, Pedro Domingues, Jane Azeredo, Elvis Matos, Ellis Mário, Ednardo, Rogério Soares, Rodger, Gladson Carvalho, Marcus Rocha, Luciano Bezerra, Fausto Nilo, Wolney Oliveira, Romeu Duarte, Rosemberg Cariry, Mário Mesquita, Tarcísio Lima, Jáder, Clébio Viriato, Ângela Escudeiro, Dora Andrade, Anália Timbó, Mona Gadelha, Ricardo Kelmer, Dalwton Moura... uma ação por uma Fortaleza Mestiça Amante da Sua Gente, que contemple para além da orla e una, e esplenda, por meio de políticas públicas de cultura, ciência, tecnologia, inovação e educação, seus cidadãos e suas cidadãs.

Por falar em orla e em educação e tecnologia, torço muito para que o Acquario se realize. Ele é  um investimento para além do turismo, será também um laboratório oceanográfico. Em um estado de extenso litoral, em um pais continental, é importante, é estratégico é fundamental investir em conhecimento e tecnologia marinha.

Ouvi dizer que vão colocar uma ola gigante na orla. Será um colosso a enfeitar o cenário do cartão postal da Fortaleza praieira e grande atração turística.  Sou meio resistente a essa miamização de Minha Cidade. Um amigo querido, um publicitário, me disse certa vez sobre isso "ah se fosse pelo menos como Miami, seria ótimo", lá tudo funciona. Tomara, então, aqui funcione também, mas do nosso bom jeito e que nós, os nativos, sejamos de fato os anfitriões e não os alijados da orla. Que possamos expressar todo o vigor de nossa cultura mestiça e dialoguemos, coluna ereta, de igual para igual com o mundo. Evoé!

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, compositor

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

DA REMODELAÇÃO DE FORTALEZA - Túlio Monteiro

Disciplinar a expansão urbana e aformosear a cidade. Tal objetivo visava, em um futuro breve, facilitar o escoamento do movimento urbano e, principalmente, obter uma nova planta que viesse a regulamentar e organizar a expansão de Fortaleza, o que só se consegue até 1930. O projeto topográfico constituía o sistema de traçado urbano em forma de xadrez, do centro até os subúrbios já existentes e os que haveriam de surgir. Tratava-se de um traçado que possuía três bulevares principais, as atuais avenidas do Imperador, Duque de Caxias e D. Manoel. O sistema de grandes avenidas resultava na devastação de grandes áreas e era concebido para fins de dominação e ordenamento da expansão urbana, o mesmo corrigia becos, desvios e ruas desalinhadas que facilitavam a ocorrência de motins urbanos, substituindo-os por vias alinhadas, longas e cruzadas em ângulo de 90º que favoreciam a vigília do poder sobre a cidade. 

O crescimento da exportação algodoeira para o mercado externo dinamizou a economia cearense e contribui para tornar Fortaleza o principal entreposto comercial do Ceará, face à sua condição de sede político-administrativo provincial, à construção da ferrovia Fortaleza-Baturité e às melhorias implementadas em seu porto. A estrutura social da cidade sofreu modificações com a emergência de novos grupos dominantes, a constituição de camadas médias afluentes compostas de profissionais liberais, além do surgimento de um contingente de trabalhadores pobres, ativos ou em disponibilidade, configurando-se assim, a formação de um mercado de trabalho urbano em Fortaleza.

Neste contexto de acontecimentos urbanos, surgiu as tentativas de remodelar a capital, embelezando-a e racionalizando-a. Assim Fortaleza buscava copiar de exemplos europeu, principalmente francês, diversos projetos urbanos. As noções de progresso e civilização tornaram-se eixos básicos dos discursos e práticas desses novos setores dominantes, autoproclamados como restauradores da situação de "atraso" em que o País estaria encerrado o que não impediu a resistência popular à construção desse modelo burguês.

Entretanto, o crescimento econômico não minimizou os efeitos produzidos pelos investimentos na sociedade, no controle da saúde, nos hábitos higiênicos e no comportamento da população, bem como nas alterações efetuadas no espaço e na arquitetura da cidade.

DAS AS REFORMAS URBANAS

A Santa Casa de Misericórdia

Estando totalmente entregue ao público em 1861, a Santa Casa de Misericórdia foi um dos principais empreendimentos realizados pela companha em meados do século 19. Encarada pelo saber médico como algo emergente que viria reagir em socorro aos vitimados por alguns flagelos do meio cultural e social, como foram as epidemias de febre amarela de 1851 e de cólera de 1862/4, até da seca de 1845.

A Santa Casa de Misericórdia está localizada entre o Passeio Público e a antiga Cadeia Pública, onde hoje é a Emcetur (cento comercial de artesanatos de Fortaleza).

Cemitério São João Baptista

O cemitério S. João Baptista, ou "Cemitério Novo", como chamavam outrora, recebeu a bênção para ser ativado em 5 de Abril de 1865. Após uma série de denúncias feitas pelos administradores locais, sanitaristas e higienistas, o antigo cemitério de São Casemiro, o "Cemitério Velho", foi condenado pelo seu excesso de lotação e, sobretudo, pela localização. A própria escolha do novo cemitério, a situar-se no bairro de Jacarecanga, remete-nos à lógica dos sanitaristas: por ser uma área distante da cidade de então, e por estar situada em posição oeste, ou seja, a sopravento, livre do vento espalhar a bactéria da cólera pela cidade.

A necessidade da construção de um novo cemitério deu-se quando o risco de uma epidemia provocada pela Cólera Morbus foi identificado por alguns sanitaristas da cidade, em virtude de estarem enterrados no antigo cemitério algumas das inúmeras vítimas da cólera que haviam padecido. Pelo fato de Fortaleza estar em constante crescimento urbano e, sobretudo, pela forte repercussão que teve o saber higienista na organização dos espaços urbanos em meados do século 19, o antigo cemitério de São Casemiro (popularmente conhecido como o do "Croatá"), que em 1849 fora construído para receber todos os mortos da cidade, e inclusive das áreas suburbanas, procurando, assim, evitar a existência dos cemitérios clandestinos, foi fechado em 1865 e, logo após demolido em 1877 para a construção da estação ferroviária que ligava Fortaleza a Baturité, em virtude do escoamento do algodão vindo daquelas bandas do interior.

Em 1880, foram exumados do Cemitério Velho os restos mortais de algumas das mais importantes e ilustres personalidades de nossa cidade para permaneceram no novo cemitério de São João Baptista. Dentre os mortos, os restos mortais de Pessoa Anta e Pe. Mororó, que por sua vez já havia sido exumado dos seus respectivos leitos funéreos existentes na Catedral até pelo menos 1845.

Sobre o aspecto social dos defuntos enterrados no cemitério São João Baptista, necessitamos nos referir à geografia interna deste logradouro, onde as famílias dos setores médios e populares encontram-se enterradas do meio do cemitério para o fim, enquanto as pessoas da elite encontram-se enterradas logo em seu início. Quanto aos estilos esculturais e arquitetônicas encontrados nos jazidos ali existentes, esses variam do Neoclássico ao Romântico (gótico e neo-barroco).

Estação Ferroviária

A atual praça Castro Carreira (popular Praça da Estação) era local onde as tropas coloniais e imperiais costumavam treinar suas milícias, sendo também local para o povo realizar seu esporte da cavalhada e torneios hípicos. Tal espaço era denominado "Campo dona Amélia", sendo que, a partir de 1871, em função da construção da estrada de ferro, recebe o popular nome de Praça da Estação e mesmo depois da praça ter sido rebatizada com o nome do médico e senador Castro Carreira. O que prevalece até hoje é o nome popular.

O sonho de construir uma estrada de ferro e sua estação central se concretizou através de um pacto associativo entre algumas personalidades locais e o governo da província. A obra que foi iniciada em 1871 e inaugura em grande estilo em 09 de junho de 1880, visando ligar inicialmente a cidade de Fortaleza ao município de Pacatuba. Entretanto, a obra se estendeu até Baturité passando a se denominar Companhia Cearense da Via-Férrea de Baturité. Anos depois, em 1878, já sob o comando do governo imperial, a malha viária é estendida, ligando o porto de Camocim à cidade de Sobral. 

Na construção da estação Eng. João Felipe, foi empregada como mão de obra exclusivamente os retirantes da seca de 1877, que para Fortaleza acorriam em decorrência daquela terrível calamidade.

A localização da estação foi considerada ideal, apesar das críticas, pois no local havia o cemitério São Casemiro, que foi demolido em função das obras, pois, segundo a tradição da época tal edificação deveria ser vista do mar e, formando ao longo da rua João Moreira um complexo arquitetônico de expressiva significação dos valores humanos e progressistas, compreendidos palas seguintes edificações públicas: o forte-quartel, o Passeio Público, a Santa Casa de Misericórdia e a Cadeia Pública. A intenção maior era de "iludir" o navegante que se aproximava que aqui também havia autoridade, espaço para lazer, saúde, segurança e progresso. 

Passeio Público

Surge o Passeio Público no local onde situava-se a Praça dos Mártires, que foi remodelada com o implante de bancos, canteiros, café-bar, réplicas de esculturas clássicas e 3 planos ou avenidas, uma para o desfrute das elites, a segunda para as classes médias e a terceira para os populares. O Passeio tornou-se a principal área de lazer e sociabilidade das grandes famílias da época, merecendo fotografia dos seus mais diversos ângulos, sendo ainda hoje ponto de diversão para todas as classes sociais da cidade.

O desenvolvimento comercial, de novos serviços, da industrialização, a supressão do trabalho escravo, as secas periódicas foram fatores que contribuíram para o crescimento populacional da capital do Ceará. Essa massa urbana preocupava os governantes e círculos de saber locais, que para discipliná-los e assim amenizar a tensão social, instalaram escola primária e oficinas para os detentos da Cadeia Pública (1882), empreenderam campanha para casamentos de amasiados (1885) e construíram o Asilo de Alienados São Vicente de Paula (1886) para retirar os loucos de circulação e ao Asilo de Mendicidade, inaugurado no mesmo ano, onde eram recolhidos os mendigos.

Teatro José de Alencar

Em 1910, no Governo Accioly, surgia na reformada Praça Marquês de Herval (hoje Praça José de Alencar), a maior obra arquitetônica de Fortaleza até o presente, o Theatro José de Alencar. O teatro, que era frequentado apenas pela elite cultural da cidade e constituía uma certa “ordem civilizatória”, coincidiu com a implantação do serviço canalizado de abastecimento de água e esgoto, sob pena de agrava-se o já alto índice de morbidade e mortalidade que assolava a cidade.

Mas a construção do teatro não escondeu os problemas do governo Nogueira Accioly, já que a cidade passava por explícita pobreza e estagnação, onde a maior parte da população vivia em dificuldades financeiras. O crescente descontentamento do povo eclodiu com os movimentos oposicionistas a Accioly. Uma verdadeira guerra civil nas ruas e praças, que culminou com a deposição do oligarca, tendo por um dos líderes o farmacêutico Rodolfo Teófilo, integrante de oposição a Accioly, e que se tornara célebre por ter vacinado em domicílio e gratuitamente grande parte da população. As eleições vieram logo após a revolta, com a vitória do candidato Franco Rabelo.

Praças Públicas

Contando com o apoio da população, Franco Rabelo procurou concentrar sua gestão na governabilidade da Capital, no pouco tempo em que durou, realizou diversos melhoramentos na Cadeia Pública, demostrava preocupação em disciplinar os contingentes mais pobres para salvaguardar a ordenação urbana, trabalhou a saúde pública, instalou o Instituto de Amparo à Infância, retomou o projeto de saneamento de água e esgoto e seu Governo teve uma importante participação de Ildefonso Albano, que tomou uma série de medidas de higiene pública. O Intendente Albano viabilizou o serviço de limpeza pública dividido a cidade em quatro distritos, proibiu a venda ambulante de qualquer objeto que causasse sujeiras nas ruas, trabalhou para conservação de calçamentos, criou uma banda municipal, realizou a abertura da Avenida Senna Madureira, reformulou a Praça General Tibúrcio, próximo ao Palácio do Governo, onde antes tinha-se apenas um depósito de materiais e que servia de pastagem para animais.

Já a energia elétrica chegou em 1914, através da Ceará Light and Power Co., eletrificando os bondes, antes puxados por burros, passando a cobrir pontos mais distantes da capital. À mesma época, em 1917, surgiu o primeiro cinema, o Cine-Theatro Majestic, localizado na Praça do Ferreira. A regeneração das praças, foi além do mero aformoseamento, facilitando a circulação e determinando novas regras de convívio e utilização do espaço público, além de estimular a prática de exercícios corporais nos jovens e estudantes, tida como benfazeja aos costumes e a saúde. Com a inauguração do serviço de abastecimento de água e esgotos, foi procedida a reformulação da Praça do Ferreira, a principal da cidade. A obra foi exigida por motivos higiênicos e estéticos, mas, sobretudo, para racionalizar a circulação de pedestres, bondes e automóveis.

No entanto, a partir da década de 1930, o espaço urbano de Fortaleza sofreu um crescimento desordenado e de forma espontânea que deu lugar a aglomerados de edificações precárias na periferia da cidade, algumas destas com características de favelas. Para as camadas dominantes, a expansão e a movimentação pública do perímetro central fez com que se transferissem do centro para áreas periféricas desocupadas, formando-se os primeiros bairros ricos.

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Túlio Monteiro - escritor, biógrafo, pesquisador, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.





segunda-feira, 21 de agosto de 2017

EU VENHO DAS DUNAS BRANCAS - Túlio Monteiro

Fonte: Dunas do Cocó/FaceBook

Eu venho das dunas brancas
Onde eu queria ficar
Deitando os olhos cansados
Por onde a vista alcançar

Meu céu é pleno de paz
Sem chaminés ou fumaça
(...)
(TERRAL - Ednardo - excertos)



PARTE I

Será que alguém aqui sabe o que é uma tijubina ou um muricizeiro? Acho meio difícil para
Tijubina
quem tem menos 30 anos conhecer esses dois personagens da nossa vegetação de restinga. Uma vez que clubes aquáticos e até, pasmem, campos de golfe já invadiram seus lugares de origem. Não se assombre, não. No Ceará não tem só o Porto das Dunas! Temos o Aquiraz Riviera Clube de Golfe – dentre outros – como atração assim para, digamos, gringo ver. O cearense de classe média por lá é hostilizado mesmo. Experimente um dia entrar em um lugar desses para você ver o que é bom.

Pois é! Lá onde fica o Aquiraz Riviera era vegetação pura de restinga, toda a área que envolve o Porto das Dunas com seus Alphavilles também era de dunas que ajudavam os ventos vindos da África até três – eu disse só três – décadas atrás. Só que hoje, a especulação imobiliária tomou conta daquele pedação de Ceará, litoral que se perde de vista e tornava Fortaleza bem mais amena no que diz respeito ao forte calor que faz por aqui quando a quadra invernosa vai embora ali por março/abril.

Mas, voltemos às tijubinas e aos muricizeiros e deixemos o resto mais para adiante. Se aprochegue aí e vamos ver o que sai hoje dessa caneta ardente que nem o cano do fuzil de Lampião.

Corria o ano de 1976, quando meu pai, seu Bernardo Monteiro, chegou em casa todo serelepe dizendo que tinha feito a compra de uma ação do LUXOU ATLÉTICO CLUBE DE FORTALEZA, na verdade o primeiro clube de praia para a classe média/média de Fortaleza – hoje abandonado às moscas na avenida Dioguinho 2222, Praia do Futuro. Imagine, menino, eu que só sabia o que era tomar banho em água parada na Lagoa da Parangaba ou da Maraponga, ainda assim aos domingos, quando o velho enchia seu Fuscão verde de moleques da rua em que nasci para irmos nadar em águas ainda relativamente limpas. Foi uma alegria só. 

– Tem piscina para crianças, para adultos, piscina de saltos e até piscina olímpica com 50 metros de comprimento, dizia ele com os olhos brilhando de alegria pela aquisição feita em longas 24 parcelas a tirar de vista.

E foi em um domingo daquele mesmo 1976 que eu, ele e minha mãe fomos pela primeira vez a um clube social. Imagine o tempo que levamos para escolher as roupas certas, os apetrechos a levar. De nove da matina, você que me lê, até às cinco da tarde debaixo de sol e dentro das piscinas que eu podia entrar foi um regozijo só. Chovesse ou fizesse sol, não havia domingo que escapasse. Só quem escapava mesmo éramos eu e alguns amigos de infância para explorar o entorno do clube que não tinha nada a não ser quilômetros de dunas para se olhar e nenhuma sombra para proteção. Havíamos descoberto uma espécie de paraíso. 

Criado em subúrbio, eu lá sabia que existia aquele mundo cheio de uns calanguinhos coloridos que corriam feito a peste pelas areias escaldantes do lugar. Se escondendo embaixo de pequenas plantas que insistiam em nascer sobre a areia de praia que as cercava. Confesso que demorou um bom tempo para eu capturar com vida um dos coloridos répteis que por ali passeavam. Junto com ele levei enrolados em uma velha camisa sem mangas frutos amarelos mais ou menos do tamanho de uma pequena uva, só que eram amarelos e expeliam um cheiro peculiar que até hoje não me foge às narinas. 

Mostrei-os ao meu pai, que sempre teve e tem uma resposta na ponta da língua para as coisas do sertão e litoral. – Bom, a esses calanguinhos a gente chama de tijubinas e são coloridos assim para se camuflarem no meio das folhas que eles encontram tanto na praia quanto no interior e esses frutos nada mais são que muricis que dão um suco muito gostoso. Invenção dos índios que por aqui já habitavam muito antes da gente. Eu ficava maravilhado com a inteligência do meu velho.

Soltamos a tijubina, apesar de meus protestos, e levamos os muricis para casa onde lembro até hoje do suco grosso que ele provê. Tempos leves, tempos muito leves.




PARTE II

Mas o inexorável tempo passa e a gente cresce e envelhece certos sonhos. O LUXOU, clube onde conheci também Eloisa, minha companheira já de tantos anos, fechou e com ele cessaram as idas domingueiras para os lados da Praia do Futuro que nem barracas tinha ainda nos anos 1970.

Mudemos, agora, o rumo da prosa para coisas mais atuais e perigosas.

Fortaleza fica situada entre as fozes de dois grandes rios, um a Leste e o outro a Oeste, respectivamente o Cocó e o Ceará. Assim foi escolhida a nossa capital justamente por se situar entre dois grandes rios que proveram de água doce os colonizadores portugueses, holandeses, espanhóis e sei lá mais quantas nacionalidades vieram em busca das velhas pedras preciosas e novas terras a conquistar no que eles chamaram de Novo Mundo. Mas o negócio começou tão esculhambado por aqui que até a data de fundação de nossa cidade ainda gera controvérsias, tantas foram as invasões, guerras, disputas territoriais, chacinas indígenas e reinvindicações de posse.

Depois disso, atrocidades e mais atrocidades foram impetradas à capital Alencarina. Comecemos com os espigões da praia de Iracema que foram “construídos” ainda nos anos 1930 para que as águas do Atlântico dessem uma trégua em suas potentes ondas e navios de médio e grande porte pudessem atracar para deixar e levar cargas de exportação e importação. 

Em 1929, o Departamento de Portos, Rios e Canais tinha planos de realizar estudos sobre o porto de Fortaleza. Esta tarefa coube ao engenheiro Augusto Hor Meyll. Com base nos estudos feitos em Fortaleza, o Dr. Hor Meyll apresentou, a 21 de janeiro de 1930, o seu projeto de construção do porto de Fortaleza. A enseada do Mucuripe oferecia vantagens extraordinárias, inclusive o fato de esta localizar-se a seis quilômetros da capital. Na época, Meyll disse em frase que ficou famosa "Ou temos o porto na Enseada de Mucuripe, ou nunca teremos um porto em Fortaleza." Aí, começou uma esculhambação que vamos chamar aqui de assoreamento. Ou seja, com a construção do porto, o mar recuou centenas de metros praticamente acabando com a zona de praia usada pela elite fortalezense. Deve ter sido engraçado, ver os ricos chegando para trocar seus trajes de banho em cabinas particulares que ficavam trancadas à beira do mar e ter que caminhar, sei lá, um quilômetro para chegar ao salgado sabor do mar. Bem, mas Getúlio Vargas, com o Decreto-Lei 544, de 7 de julho de 1938, decidiu sobre a localização do novo porto de Fortaleza definindo a Enseada do Mucuripe como o novo local, sendo as obras iniciadas em 1939. E quem quisesse e achasse ruim que fosse reclamar na Corte do Rio de Janeiro.

E tome o assoreamento, que nada mais é que o acúmulo de sedimentos (areia, terra, rochas), lixo e outros materiais levados até o leito dos cursos d'água pela ação da chuva, do vento ou do ser humano, onde em alguns casos, o curso d'água pode até deixar de existir em decorrência desse fenômeno.

Foi o que deu origem à Praia Mansa, nos arredores do porto e ao buraco causado onde hoje se tem como medida paliativa – eu afirmo: paliativa – o Aterro da Prainha, uma vez que apenas foi completado com areia do mar para evitar que o mesmo tomasse conta da Rua Eduardo Girão e “cortasse” o acesso para o lado mais Leste de Fortaleza. O que, inevitavelmente irá acontecer em alguns anos. Basta esperar.

Daí o efeito dominó só vem se alastrando para as bandas do Oeste. Praias como Barra do Ceará, Dois Coqueiros, Iparana e mais recentemente Icaraí estão totalmente destruídas pela ação de projetos mal calculados. Dizem que a quebradeira já chegou na Tabuba e no Cumbuco. Tudo porque autoridades incompetentes resolveram criar o Porto do Pecém e mais uma vez pensar SEM nas consequências que isso traria ao litoral de Fortaleza e praias adjacentes.

Trocando em miúdos. Fortaleza e região metropolitana estão fadadas a ficar sem praias habitáveis em poucos anos. Uma década, no máximo. Estando toda essa região de litoral “espremida” entre grosseiros erros de engenharia advindos dos últimos – pasmem – apenas 80 anos. Nessa batida e não estou sendo exagerado, o Piauí que cuide do Delta do Parnaíba, pois é para lá que os assoreamentos do Porto do Pecém se dirigirem.


PARTE III 

Bem, tendo exposto o campo de guerra que se tornou o litoral Oeste de Fortaleza, vamos ao arremate dessas tragédias anunciadas. Só que agora focando o lado Leste, ainda quase intacto. Mas que agora virou alvo definitivo da exploração imobiliária. Isso mesmo! A bola da vez agora são as Dunas do Cocó e regiões limítrofes. Justamente onde estão as derradeiras dunas intactas do litoral Fortalezense, localizadas em terras pertencentes aos grupos Edson Queiroz e M. Dias Branco. 

Foi aprovado em nossa Câmara de Vereadores um projeto para a exploração imobiliária das Dunas do Cocó. Os do lado Leste que se prepararem, pois os menos favorecidos serão sumariamente destituídos de seus terrenos e casas, bem como quaisquer bens que tenham em seu poder. Ou seja, RUA aos de menor calibre. 

A exploração agora é Lei parlamentar e só falta o aval de nosso Prefeito para que os projetos imobiliários comecem a pipocar para aqueles lados começando a pôr fim em uma preciosidade ambiental que possui mais de 1500 anos de idade, uma floresta fechada e intacta com mais de 150 espécies vegetais e dezenas de espécies animais dentre elas raposas, tamanduás, tatus, caranguejos, aves, macacos, lagartos e serpentes que põem o ambiente em total equilíbrio com a natureza local. 

Convém lembrar que as Dunas do Cocó exercem importante papel no clima da cidade de Fortaleza e região metropolitana, uma vez que através delas as águas captadas das chuvas são filtradas e jogadas no estuário do rio Cocó responsável por dois terços da água pluvial da metrópole, que traz importante valor de limpeza aos poços artesanais que ainda existem e resistem por toda a capital. Ou seja, prejudicarão, também, o lençol freático de Fortaleza que já não anda mais lá essas coisas todas. Percebem a gravidade dos fatos? 

Tudo isso sem contar, que destruídas e “colonizadas” as dunas, muito mais do que água será perdido. Falo de ecoturismo, refiro-me ao clima mais ameno, aos ventos que serão retidos por conta de arranha-céus a serem construídos em regime de mutirão mesmo, dada à pressa e valorização lucrativa que nosso último verde-puro possui. 

E para arrematar esses escritos, faço-me valer de artigo produzido pelo articulista do SOS Mata Atlântica, Mário Mantovani, que, já em 2010, aventava para a radical exploração das Dunas do Cocó por empreiteiras e construtoras. Mostrando que a guerra ia ser longa e uma das partes – como sempre o lado mais fraco – iria perder e perder feio para os capitalistas que se importam apenas com suas contas bancárias não relevando que suas próprias gerações futuras perderão, e muito, com a destruição das Dunas do Cocó que nada mais são que parte do que resta da Mata Atlântica brasileira. Ele conclui afirmando que Fortaleza precisa de áreas protegidas, de dunas vegetadas, de paisagens para a fruição, contemplação e lazer da população. Confira As dunas de Fortaleza, escrito por Mantovani.

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Túlio Monteiro - escritor, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.



Artigo escrito pelo diretor de políticas públicas da Fundação Mario Mantovani: 

As dunas de Fortaleza

2010 é o ano da Biodiversidade. A perda de habitats é a principal causa da extinção de espécies. A criação de unidades de conservação com a participação e envolvimento da população torna-se uma prioridade para alcançar um desenvolvimento sustentável. Fortaleza deu o exemplo protegendo suas dunas remanescentes, mas esta conquista está ameaçada. 

A paisagem de Fortaleza se sobressai pelo belo encontro das dunas, lagoas interdunares, vegetação de restingas com o verde do mar. Esta paisagem, característica da Mata Atlântica, convida ao turismo sustentável, às caminhadas ao entardecer, e é cenário dos passeios noturnos de bicicleta de Fortaleza, contribuindo para a melhoria da qualidade vida. Pouco resta desta paisagem livre de ocupação humana em Fortaleza, nos últimos 30 anos a cidade perdeu mais de 90% de sua área verde. 

A sociedade reconheceu a importância ecológica dos remanescentes de Mata Atlântica para o equilíbrio climático da cidade, valorizou a paisagem e a área por integrarem o sistema da Bacia do rio Cocó. Por ser essencial na mitigação dos impactos e pressões sofridas pelo principal parque de Fortaleza, o Parque do Cocó. O reconhecimento por parte da população do valor ambiental das dunas, ainda remanescentes em Fortaleza, motivou uma mobilização e articulação com repercussões nacionais. A sociedade fez sua parte: blogs, páginas na internet, manifestações nas ruas e mais de três mil assinaturas pleitearam a criação de uma unidade de conservação capaz de proteger e evitar a ocupação desordenada das dunas vegetadas do bairro do Cocó. As dunas são consideradas áreas de preservação permanente protegidas pelo Código Florestal e pela Resolução CONAMA 303/2002, que define duna como unidade geomorfológica de constituição predominante arenosa, com aparência de cômoro ou colina, produzida pela ação dos ventos, situada no litoral ou no interior do continente, podendo estar recoberta, ou não, por vegetação. Portanto, são áreas definidas pela legislação federal e foram definitivamente demarcadas e protegidas com a aprovação da Lei Municipal 9502 em dezembro de 2009, de autoria do vereador e ambientalista João Alfredo, que, sintonizado com os anseios da população, criou a Área de Relevante Interesse Ecológico das Dunas do Cocó. 

Esta luta foi uma vitória de todos os ambientalistas, de toda a sociedade, da cidade de Fortaleza, e de todos os que compreendem a urgência de uma nova sociedade sustentável, uma sociedade tecida com os nós da solidariedade, do compromisso com o futuro e com a qualidade de vida, em que a natureza não pode ser tratada como um mero recurso econômico, mas que deve ser incluída como bem e valor ser protegido e integrado a um projeto de desenvolvimento sustentável. 

Com tristeza e indignação recebemos a notícia que o Presidente do Tribunal de Justiça, em decisão liminar, retirou a eficácia da proteção das dunas, com argumento que a Lei, legitimamente aprovada com apoio de mobilização da população, entra em conflito com o Plano Diretor. Não existe cidade sustentável, objetivo maior do Plano Diretor, sem equilíbrio ambiental, como assistimos nos desastres recentes de Santa Catarina e de Angra dos Reis. A proteção do meio ambiente consiste no caminho para alcançarmos uma sociedade mais justa, equilibrada e com qualidade de vida e a construção de uma cidade sustentável. O dever de criar unidades de conservação encontra fundamento constitucional: “incumbe ao Poder Público: definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção” 

Vamos fazer valer esse dever do estado e direito do cidadão, os ambientalistas questionam judicialmente a decisão. Esperamos que a Justiça abra os olhos para a beleza e para o meio ambiente. Fortaleza precisa de áreas protegidas, de dunas vegetadas, de paisagens para a fruição, contemplação e lazer da população. (https://www.sosma.org.br/1170/as-dunas-de-fortaleza/)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

De lá do passado - Chico Araujo

Meu reencontro por meios virtuais com George Farias, músico cearense hoje radicado em Boa Vista, além do imenso prazer gerado pelo próprio recente novo encontro, trouxe-me, inevitavelmente, o acordar, na memória, do tempo em que, ainda bem mais jovens do que somos hoje, percorria Fortaleza no entremeio de minha juventude.

Fui partícipe de muitas noites no para sempre querido Estoril, bar / restaurante da Vila Morena. Lá tive a oportunidade de tomar cerveja gelada servida pelo pitoresco garçom Baleia; também vivi a emoção de estar perto de artistas já em reconhecimento como Geraldo Azevedo, Luiz Melodia, Zé Ramalho, Quinteto Agreste; igualmente naquela bela casa pude ver e ouvir Patativa do Assaré declamando poemas de sua prodigiosa autoria, bem como ter contato com o poeta e psiquiatra Airton Monte. Naquele espaço, exposições de artes plásticas conviveram com a poesia, com a música, com a sedutora boemia.

Creio ter sido o Estoril o bar / restaurante mais frequentado pelos boêmios daqui e d’alhures, artistas e não artistas visitantes da capital do Ceará. Em posterior a ele e mesmo por muitos anos em concorrência amigável – frequentadores de um também eram presença constante no outro – volta-me a imagem do Cais Bar, ainda sem o calçadão. Nas areias que existiram ali em frente, pus meus pés descalços em belíssimas noites de lua – em maravilhosas noites sem ela também - recebendo no corpo os respingos do mar que quebrava e espumava nas pedras.

Naquele tempo não existia fartura de transporte público pela madrugada (e hoje há?). Mas existia o “corujão”, que se dizia transitar pela cidade a cada hora da antemanhã. Talvez por perder o horário – a noite nunca nos disse exatamente a que horas estávamos – ou mesmo por não existir de maneira assegurada o “de hora em hora” divulgado, comum era a caminhada pela Av. Abolição rumo ao Centro da cidade, dobrando na Av. Alberto Nepomuceno, depois subindo na Rua Dr. João Moreira e passando ao lado do Passeio Público, até atravessarmos, por dentro, a Praça da Estação, para subirmos, em seguida, pela Rua Castro e Silva, até se dá a desejada chegada à Rua Padre Mororó, nosso destino, visualizando, meio que turvamente (talvez a iluminação da época), o Cemitério São João Batista, eu sempre acompanhado de no máximo três amigos – os de sempre, que gostavam de música, poesia e cerveja... e de caminhar pela madrugada.

Reminiscências...

Do Estoril constantemente me volta à memória certa ocasião em que lá me encontrando em um lindo final de tarde / começo de noite, cerveja já servida pelo Baleia, violão deitado sobre a mesa aguardando seu tocador, chega-se a nós, vindo da Ponte Metálica, um casal, do qual ouvi, do músico – hoje muito conhecido na esfera do forró, sendo advogado também – amistoso pedido para sentar-se ali e tocar um pouco aquele violão que dormitava. Mas é claro! E não se dá para dizer quanto tempo levou aquela cantoria, pois para a mesa mais e mais gente se achegava.

Muitas vezes era assim: um desconhecido chegava e logo em seguida se tornava conhecido, uma conversa iniciada se tornava festiva, um violão adormecido despertava em acordes e vozes se somavam entoando canções populares.

Enquanto isso, o mar soprava até nós sua brisa mansa...
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Chico Araujo publica todas as quartas-feiras no Evoé! Madeleines foi escrito em 7 de julho de 2017. Leia mais Chico Araujo em Vida, Minha Vida...

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Túlio Monteiro: ENTRE PEIXES, MUSEUS E RELÓGIOS

Vai aqui mais uma crônica de Túlio Monteiro. Em breve, dele teremos também resenhas e ensaios literários. (KB)



ENTRE PEIXES, MUSEUS E RELÓGIOS

Túlio Monteiro*


 A Gentilândia é um daqueles lugares onde a cidade lembra o que foi lugar
onde se vive para conviver, para ver, para sentir, para ouvir, para andar, para conversar. 
Convivência experimentada no cotidiano, fruto das relações sociais alicerçadas pelo tempo. 
Por isso, ser gentilandino é um estado de espírito e quem já viveu na Gentilândia
sabe que éimprescindível voltar sempre. 
Elmo Vasconcelos Júnior
(curador do Memorial da Gentilândia) 


Começou assim: eram meados 1986 – século passado – quando parti do Farias Brito, colégio onde concluí o segundo grau, para as cadeiras de madeiras toscas do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. Tinha arriscado mais uma vez a Arquitetura já que tinha dado um chute no destino, qual ele poderia ter me tornado também Geólogo pela UNIFOR, mas os deuses do vernáculo cismaram porque cismaram de me enviesarem a vida para as bandas da escrita, crítica literária ou coisas que os valham. 

Outro mundo, outros seres, outros loucos. O impacto de ver tanta gente diferente demorou tanto a passar que lá se foram, no mínimo, uns dois meses para me acostumar com aquele mundaréu de cabeludos pirilampeando – se me faço entender – para um lado e para o outro. Restinho dos bichos soltos da geração riponga que estava dando lugar a umas tais “Diretas Já!”. Os ares eram outros, pois o sopro maldito da fuligem de armas militares da tal falada Ditadura que tomou, de um dia para outro, vinte anos de uma geração inteira que ainda assim não passou em brancas, porque não sincerizar, negras nuvens negras. Era hora de os facínoras recolherem-se às suas casernas. 

Eis que acabei por ir descobrindo coisas em conversas sempre repletas de imagens e símbolos, com interlocutores de todos os níveis de sabença. Viventes que me repassavam informações que só aprendidas na base do vamos destapar os segredos do Benfica? Fui, a princípio, sendo conduzido para depois me transformar no timoneiro desse barco chamado vida, passando a desconstruir e retelhar o casario da Gentilândia – reza a lenda que a família de João Gentil perdeu quase todos os imóveis do local nos jogos de cartas e outros azares – suas nuanças, calçadas, parapeitos e um anônimo peixe que até hoje sobrevive em seu silente mergulhar pétreo. Explico: Uma meia parede foi erguida para proteger o prédio do atual Museu de Arte da UFC – MAUC – inaugurado pelo então Reitor Antônio Martins Filho em 18 de julho do ano de 1961, onde antes funcionava o Colégio Santa Cecília. 

Pois bem. Voltemos ao ser aquático que lá está fixado pelo espírito moleque de algum pedreiro que, tendo descoberto alguns pedaços de pedra derivada de xisto percebeu que aquelas possuíam exatamente o formato de um peixe. Certamente para não perder a chacota e o chiste – talvez sabendo que naquele recém-construído edifício cultural iriam ficar expostas obras de grandes nomes da escultura e pintura cearense, quiçá nacionais, o laboral trabalhador meteu sua colher de ferro para cima e pronto – está lá para quem tiver a paciência de procurar em uma extensão de cinquenta metros da parede que cerca o MAUC pelo lado da avenida 13 de maio, quase esquina com avenida da Universidade, 2854, encontrar o que temei em chamar de pequeno sítio arqueológico acinzelado. 

Outros enigmas estão espalhados pelos arrabaldes da Gentilândia/Benfica, sendo tudo uma questão de procurar nas entrelinhas, nos espaços menos esperados podendo ser encontradas preciosidades iconográficas de real importância histórica. É o caso da torre dos quatro relógios da igreja dos Remédios, que fica bem em frente à faculdade de Ciências Sociais e ao lado do CETREDE. 

Aos 14 de agosto de 1910, foi concluída a pequena capela de Nossa Senhora dos Remédios, inaugurada com grande festa da qual participaram mais de duas mil pessoas – evento de grande aporte levando-se em conta que Fortaleza possuía exatos 65.816 habitantes – tendo sido a missa celebrada por Monsenhor Bruno Figueiredo, nascido em Aracati (CE), ordenado que havia sido desde 1875; educador de grande nome, Lente do Liceu do Ceará à época, sendo vigário-geral do Bispado do Ceará. 

De início e até 1927, a igreja dos Remédios era uma delicada ermida, até serem erigidos os atuais dois corredores laterais, custeados pelo ainda abastado benfeitor do Benfica Coronel João Gentil Alves de Carvalho. É daquela época, também, a instalação do relógio de quatro faces ainda hoje badalando as horas que marcam o compasso dos que deslizam a pé, em seus carros e nos agora nos chamados VLT’s (Veículos Leves sobre Trilhos), os metrôs, primos atuais dos antigos bondes com seus motorneiros a serpentear Fortaleza afora. 

Os quatro mecanismos têm sua história singular: foram projetados para serem instalados no monumento ao centenário da independência (1822/1922), cuja pedra fundamental foi lançada aos 23 de julho de 1922, na então Praça do Cristo Redentor, situada onde hoje é o início da avenida Monsenhor Tabosa e defronte ao Instituto Dragão do Mar de Arte e Cultura, inaugurado em 28 de abril de 1999 com seus 30 mil metros quadrados muito bem divididos em salas de cinema, teatro, cafés, anfiteatro, praça verde, planetário, salas de estudo sendo anexado à Biblioteca Pública Menezes Pimentel com seus 70 mil livros e 40 mil títulos diversos, hoje sendo todos digitalizados para as gerações pósteras. 

Voltemos aos relógios! Como era de se previr o Monumento ao Centenário da Independência não foi inaugurado no dia 7 de setembro 1922, mas, sim, na véspera de Natal daquele ano – por volta de cinco horas da tarde – numa provinciana e agradável Fortaleza de 104.852 almas como testemunhas. A obra fora encomendada pelo prefeito Ildefonso Albano que deixou a cargo do seu sucessor o coronel Adolfo Gonçalves Siqueira a finalização da obra, executada que foi pelos mestres de obras Antônio Machado, Domingos Reis e Severino Moura. Por ocasião dos festejos tomou a palavra o então arcebispo da capital Dom Manoel da Silva Gomes. Os marcadores das horas, como já sabemos permanecem na cúpula da Igreja dos Remédios, enquanto a Praça Comendador Machado – hoje Praça do Cristo Redentor – que também abriga o Teatro São José desde 1915, encontra-se abandonada e habitada pelos velhos novos excluidos que todos os dias chegam a metrópole. O motivo pelo qual o nobre quarteto simplesmente não ter sido instalado na torre em questão foi o movimento pendular causados pelos fortes ventos aracati que insistem em açoitar nossa cidade, vindos lá das bandas da África, oceano Atlântico por caminhos alísios soprados de lá para cá. Ventos Aracati – tupi-guarani – ventos bons que vêm do mar, todas as tardes, como uma brisa marítima que ganha força ao ter por canalizador o Rio Jaguaribe que desemboca no mar pelas cidades cearenses de Aracati e Fortim. Desde lá navegando o sertão jaguaribano. Esse Vento Aracati amigo que ora areja minha memória sobre o Benfica...

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*Túlio Monteiro - escritor, crítico literário e revisor


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Conversando.com - na Livraria Feira do Livro

No dia 25 de abril de 2013, o Quintal Literário, projeto aprovado no edital PROCULTURA para Programação Cultural de Livrarias, recebeu no aconchegante espaço do quintal da Livraria Feira do Livro, no bairro Montese, o ilustre Professor e vereador de Fortaleza pelo PCdoB, Evaldo LimaO encontro, em meio às comemorações dos 287 anos da capital cearense, teve por tema Fortaleza: sua história, sua gente e foi mediado por Kelsen Bravos que, como sempre, transformou o formal em conversa agradável e descontraída, típico de bate-papo entre amigos.





Fonte: http://www.livrariafeiradolivro.com.br/

terça-feira, 21 de maio de 2013

FORTALEZA E O DEUS CRIADOR DO LIXO

Abro espaço aqui (à revelia dele) para a brilhante e sensível reflexão de Oswald Barroso (publicada no Facebook) sobre a estratégia de ocupação e uso do solo em Fortaleza. Oswald chama a atenção para a necessidade de romper com a lógica perversa do mercado e valorizar espaços comunitários que privilegiem a felicidade do ser humano por meio da convivência pacífica, segura, natural e ecologicamente correta.
Raimundo Oswald Cavalcante Barroso

O manto é pintado com as cores das boas intenções: é preciso rever a lei de ocupação e uso do solo da cidade, para adequá-la aos novos tempos. Hoje, Fortaleza está descentralizada, o centro antigo já não comporta a demanda de bens e serviços exigidos pela população. É necessário criar novos centros, abrir amplas vias de acesso cruzando a cidade em toda a sua extensão, ampliar espaços de oferta de emprego e renda, retirar as barreiras para o crescimento do comércio, expandi-lo a novas áreas, como algumas da arte e da cultura, se quisermos o fim da miséria e o progresso.

A estratégia, porém, é perversa, os resultados desastrosos. Não precisa ser vidente para adivinhar a cidade desenhada embaixo desse manto. Quem o veste é o mercado, esse novo deus, que pede licença para oferecer seu lixo aos consumidores, seus devotos, e entupir as fontes de vida que, ainda, nos permitem respirar. Em defesa desse deus se alinham quase todos, direita e ex-esquerda, porque só dele se espera o milagre de pôr fim à fome no mundo. Então é preciso estender seus domínios, nem que se tenha de varrer os pobres cidade afora, para o bem deles mesmos. Toda causa exige sacrifícios.

Nesta Fortaleza, transformada em um inferno, como em outras grandes metrópoles, não há lugar para comunidades residenciais, nem mesmo de classe média, expulsa pela insegurança e pela poluição sonora e atmosférica. Morar só é possível em grandes edifícios, onde não há interlocução com outros seres a não ser porteiros e seguranças. Possibilitar às novas gerações conviver com plantas e animais, só com eles trancafiados, nos parques, aquários e zoológicos. Melhorar o transporte coletivo, diminuir o número de carros, nem pensar, melhor é isentar os impostos para atrair a indústria automobilística.

A política da prefeitura para o centro privilegia o velho “rapa”. Comércio só para quem pode. Quando fala em residências, traduz como kitinetes para comerciários e estudantes. Isto não cria vida comunitária, talvez estimule outro tipo de comércio, o da prostituição. Os vereadores, em sua maioria, estão mais preocupados em agradar sua clientela, ou seja, àqueles que financiaram suas campanhas. Afinal, política também é comércio. E onde há lugar para a dona de casa, mãe de família, para as crianças, às árvores e os bichos? Nos balcões das lojas de comércio, responderiam, nossas autoridades, para guardar a coerência. Desta cidade estou me retirando até para pensar melhor.

(Oswald Barroso)

Fortaleza, 21 de maio de 2013.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Por uma Fortaleza de leitores

Fabiano dos Santos 
A leitura é um ato criativo de construção de sentidos que conjuga individualidade e pluralidade. Mas ler é também uma prática cultural e social de atribuição de sentidos e significados. Nesta perspectiva, podemos afirmar que ler não é um consumo passivo, senão uma forma de participação e de construção de sua própria história e de sua sociedade. Aliás, Paulo Freire já nos ensinou há muito tempo que aprendemos a ler para podermos escrever nossa própria história. Daí que os atos de ler e escrever são práticas de liberdade. Este é o sentido da prática de ler e de reler o mundo. Sendo assim, a leitura e a escrita são antes de tudo uma interpretação do mundo em que se vive e uma possibilidade de lançarmos palavras sobre este mundo, para que possamos falar, interpretar e escrever sobre ele. Ler e escrever nesta perspectiva são também libertar-se. 
Por que estou começando assim esta nossa conversa? (Fonte: Jornal O Povo)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Bora pra "1ª Mostra Bora! Ceará Cultural Criativo"?


Razões para ir há de sobra ao Passeio Público; mas duas são bastantes. A primeira delas o alto nível da programação de três domingos a contar do dia 25/11, que envolve 15 atrações individuais ou de grupos. Todas elas de Fortaleza sempre iniciando às 14h.  A segunda é ter à frente o Alan Mendonça, compositor, produtor cultural e pessoa das mais bacanas, criteriosíssimo em tudo que faz.
A intenção da 1ª Mostra Bora! Ceará Autoral Criativo é, segundo informa Alan Mendonça,  "levar o que há de mais representativo da nossa música autoral contemporânea para o povo em muito desacostumado a ir até os lugares oficiais desta música. Seguindo a máxima 'se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé', retomamos a praça e cantamos pro povo". 
Para efetivar sua intenção Mendonça inscreveu seu projeto no III Edital de Concurso Público / Prêmio de Música na Cidade de Fortaleza 2010, da Prefeitura Municipal de Fortaleza, publicado pela Secretaria de Cultura. Pronto, foi contemplado e agora apresenta cinco pockets shows a cada domingo. Fazem os mini-shows Edinho Vilas Boas, Jefferson Portela, Jânio Florêncio, Marco Leonel Fukuda, Renegados, Daniel Sombra, Simone Sousa, Aparecida Silvino, Fulô da Aurora, Felipe Breier, Lídia Maria, Joyce Custódio, Osvaldo Zarco, Argonautas e Davi Silvino.
            A realização do evento fica por conta da Radiadora Cultural e do Instituto Bora! Ceará Autoral Criativo. A coordenação geral de produção da Mostra Bora! Ceará Autoral Criativo, claro, é do compositor e produtor cultural Alan Mendonça.

Confira como serão os shows de cada domigo:
25/11
2/12
9/12
Marco L. Fukuda
Joyce Custódio
Osvaldo Zarco
Lídia Maria
Simone Sousa
Argonautas
Daniel Sombra
Jânio Florêncio
Jefferson Portela
Edinho Vilas Boas
Felipe Breier
Aparecida Silvino
Davi Silvino
Fulô da Aurora
Renegados

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Fortaleza sedia I Feira Brasileira do Cordel





A Literatura de Cordel está com a corda toda. Gênero literário surgido no Nordeste, o Cordel teve em Leandro Gomes de Barros (1865-1918), paraibano de Pombal, seu primeiro grande difusor e seu criador mais ilustre. Autor de clássicos que se imortalizaram em mais de um século, a exemplo de Juvenal e o Dragão, O Cachorro dos Mortos e A Donzela Teodora, Leandro é a referência maior da atual geração de cordelistas, na qual brilham nomes como o de Klévisson Viana, Rouxinol do Rinaré, Arievaldo Viana e Marco Haurélio.

É justamente Klévisson Viana, cearense de Quixeramobim, poeta popular, editor e ilustrador, o idealizador da I Feira Brasileira de Cordel, que terá como palco o Centro Cultural Dragão do Mar, um 
dos mais respeitáveis espaços culturais de Fortaleza. Entre os dias 17 e 19 de julho, a capital cearense receberá alguns dos mais representativos criadores da poesia popular, entre os quais os baianos Bule-Bule e Marco Haurélio, os paraibanos Chico Pedrosa e Chico Salles, o carioca Fábio Sombra e o pernambucano Marcelo Soares. O Ceará estará muito bem representado nas vozes dos consagrados repentistas Geraldo Amâncio e Zé Maria de Fortaleza, além de rodas de declamação com Paulo de Tarso, Rouxinol do Rinaré, Francisco Melchíades, Lucarocas, Arievaldo Viana, Evaristo Geraldo e o curador do evento, Klévisson Viana.

A primeira edição da feira homenageará os cem anos de nascimento de Joaquim Batista de Sena, um dos maiores cordelistas de todos os tempos  e estarão expostos à venda folhetos e livros de várias editoras, como Tupynanquim, Nova Alexandria, Luzeiro, Conhecimento, Hedra, Coqueiro, além das entidades apoiadoras, como a ABC (Academia Brasileira de Cordel), CECORDEL (Centro de Cordelistas do Nordeste) e ILGB (Instituto Leandro Gomes de Barros).
A realização do evento se tornou possível a partir da seleção do projeto da AESTROFE (Associação de Trovadores, Folheteiros e Escritores do Ceará) pelo Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel, no ano de 2010.

SERVIÇO:
I FEIRA BRASILEIRA DO CORDEL
Data: 17, 18 e 19 de julho
Horário: Das 16h às 21h30
Local: Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
Informações: 3217-2891 | 9675-1099
aestrofe@gmail.com