quarta-feira, 23 de maio de 2018

Olhando com olhar que se alonga... - Chico Araujo*

O primeiro ato ao chegar: inspecionou o ambiente, à porta ainda do restaurante. Avaliou a quantidade de pessoas presente - queria estar distante de qualquer possibilidade do mínimo tumulto ou barulho -, a disponibilidade dos garçons - não pensava pudesse haver demora em seu atendimento -, a disposição das mesas - intentava sentar próximo à janela, para alongar seu olhar pela avenida que bem perto dali se abria em estrada. Entrou. Sentou-se à mesa onde pensara ficar.


- Bom dia.

- Bom dia.

- O senhor é bem pontual.

- Embora sempre tente, nem sempre consigo. As nuances da vida.

- Verdade. Não temos controle sobre sua dinâmica.

- Nos iludimos, apenas, quando julgamos que temos.

- Trago o de sempre?

- Sim, por favor.

O bom dia desejado ainda valia, mas em verdade verdadeira dali a meia hora a tarde sopraria seus ventos mais aquentados. Pelo costume e horário, dali a meia hora o ambiente teria um pouco mais de barulho, suportável, pois estava onde queria estar.

- Com licença. Sua cerveja, "véu de noiva", como gosta.

- Obrigado.

- Vai querer algum papel hoje?

- Não, não. Hoje vim acompanhado de um caderninho.

- Então, me dê licença. Fique à vontade. Precisando, é só chamar.

- Combinado.

O "combinado" foi dito com um leve sorriso seguido de ligeira mudança na ação de olhar. O objeto da atenção agora era novamente a avenida-estrada, o sabor da cerveja preferida já aprazível.

De imediato não lhe chegou vontade alguma de escrever. No entanto, a avenida-estrada, como nunca antes, prendia sua atenção, convidava-o a fixar-se no olhar para ela. Ela como que o encantava para deter-se naquele olhar que, a princípio, não tinha clareza sobre o porquê daquela detenção intensa e extensa.

No movimentar-se da Terra, o Sol ia anunciando a passagem do tempo, impondo mais claridade em certos lugares, instaurando sombras em outros. O dia, assim, prosseguia, enquanto a cerveja era sorvida, o barulho no ambiente criava vida, o calor se intensificava. Sinestesias. Olhava e olhando saboreava não somente a bebida, mas a própria atitude de permanecer olhando, percebendo que os sons lhe tocavam.

- O senhor me dá licença?

- Pois não?

- O senhor está aqui sozinho já faz um tempo... Posso sentar um pouco com o senhor?

- Mas há outros lugares livres no recinto!

- É verdade - disse ela já puxando a cadeira e se sentando -, mas gostaria mesmo de conversar um pouco com o senhor?

- Mas por quê?

- Curiosidade. O senhor, sempre que vem aqui, chega no mesmo horário, senta à mesma mesa, bebe o mesmo tipo de cerveja, come a mesma comida - aliás, daqui a pouco o garçom lhe perguntará se já pode fazer o pedido - e, o que chama mais a atenção, o senhor sempre fica olhando pela janela, creio que sempre para o mesmo lugar.

- A senhora está me observando? Quem é a senhora mesmo?

- A proprietária. Costumo ficar naquela sala ali em cima, por trás daquele vidro escuro. De lá vejo todo o movimento, observo as pessoas, observo os funcionários... Na verdade, tudo o que é possível. O senhor sempre está só, sempre olhando pra avenida, pensando, creio.

- Gosto de ficar assim e aqui. Fico olhando para a avenida e para a sequência dela, a estrada. As estradas costumam levar e trazer, mas há momentos em que elas nem trazem nem levam. Ficam como se não houvesse sentido em seu existir.

- Mas isso não é eterno. Haverá sempre um momento em que o fluxo naturalmente retornará.

- Os instantes de depois jamais podem ser iguais aos de antes. Toda a paralização de agora não será recomposta adiante. A diferença entre um momento e outro deve ser bem observada, avaliada, para que não se tenha a falsa ideia de que o que vem depois é melhor. Nem sempre é. A existência carece de equilíbrio.

- O senhor fala como se aquela estrada a qual olhamos agora não fosse exatamente aquela vista pelo seu olhar. A cada nova palavra sua chega-me a ideia de outra estrada, outro caminho, talvez não tão concreto como nossa visão vê agora... Quem sabe algo mais subjetivo, numa dimensão simbólica não alcançável de imediato...

- Nosso cotidiano nem sempre é, de fato, objetivo. Há muitas entrelinhas, muitas metáforas em cada novo dia. O Sol é um só; seus brilhos, no entanto, apresentam matizes e a percepção deles dependerá da percepção de cada um.

- Tal qual a noite...

- Tal qual a noite... Tal qual falas de quem fala - as minhas falas, por exemplo -... Tal qual ideias de quem as tem e as divulga... Metáforas exigem interpretação; elas dizem muito, mas não diretamente. E há discursos criados no sentido de que as entrelinhas não sejam facilmente compreendidas...

- Há de se ter atenção aos discursos...

- Sim... Há de se ter atenção aos discursos...

Naquele ponto, o diálogo silenciou, enquanto dois copos de cerveja eram novamente enchidos. Agora eram efetivamente dois olhares perscrutando a avenida-estrada... 

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*Chico Araujo
- professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Olhando com olhar que se alonga..." compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 16 e 19 de maio de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Ó de ódio -Que os anjos nunca digam amém! - Túlio Monteiro*


“Bem-vindos os que se reúnem no amor de Cristo...”

Domingo, sol das dez da manhã abrasando um dia que prometia ser de muito calor naquela cidade quase cortada pela Linha do Equador. Trópicos. A missa de batismo acabara de começar na igreja de paredes azuis entrecortadas por vitrais retratando anjos e santos caleidoscópios.

Pelos bancos de marrons, lentamente polidos pelos milhares de fundilhos que por eles passaram ao longo de tantos anos, famílias inteiras se espremiam acalantando nos colos pequenos inocentes ainda entrevados pela ausência da água benta que breve seria despejada sobre suas cabeças na pia batismal encravada sob a gigantesca nave daquela casa de Deus. Vinte ou mais metros de altura.

O estampido do primeiro tiro calou as ladainhas e rezas. Tinha destino certo: a cabeça do menino de sete meses que se encontrava nos braços de vitiligem da futura madrinha. Sangue e cérebro espalhados nas pequenas vestes brancas da criança e sobre a incredulidade dos que se encontravam no derredor.

Segundo tiro, terceiro...quarto. No chão sagrado do templo estavam mortos, cabeças também arrebentadas, a avó materna, o irmão de oito anos, e seu pai, autor dos disparos que haviam arrebatado quatro vidas. Suicídio ou ira pelo descaso com o qual o vinham tratando?

Tumulto!

Sobre os corpos, a mãe das crianças dilacerava gritos; os olhos derramando-se em um choro com cheiro e sabor de morte, representação suprema da mais profunda e plena dor que um ser humano possa vir a experimentar.

Fincadas nos candelabros do altar vazio, velas tremelicavam chamas gotejando lágrimas de cera em mistura lenta de sangues sobre os ladrilhos brancos e tão alvos quanto as asas dos anjos que adejavam aquele lugar agora maculado.

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*Túlio Monteiro – escritor, crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! O texto "Que os anjos nunca digam amém" foi escrito em março do Inverno de 2008. Agora integra o projeto Abecedário de Crônicas do Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro

sexta-feira, 18 de maio de 2018

N de noturno e Noel, de nevoeiro e nadir, de navegar... - Kelsen Bravos

Estava a buscar o tema em N para esta nossa conversa do "Abecedário de Crônica do Evoé!" e, entre uma conversa e outra aqui e ali, solicitava alguma sugestão. Numa dessas, minha amada prima Vanessa Monte, por quem tenho um bem-querer profundo, exclama: "estava escutando ainda agorinha sabe o quê? Noturnos de Chopin!". Respondi tê-lo descoberto, na discoteca de meu pai, no comecinho dos 1970, e o ouvia durante horas a fio. Os noturnos me diziam muito de mim. Sou um solitário sorumbático, um romântico incorrigível. Confessei-lhe ainda que toda vez que escuto "Três apitos", de Noel, lembro de Chopin. Soturno e noturno se encontram em mim. Ela, então, arrematou: "Dá um negócio legal isso aí"

Pois passei o dia sentindo a memória reverberar em mim os acordes de Chopin. Neste momento, estou a escutar os seus Noturnos, com destaque às três peças dedicadas à Madame Camille Pleyel. Marie era uma virtuosa pianista por quem o compositor Berlioz - grande amigo de Chopin - se apaixonou e com quem noivou, mas ela se casou foi com Camille Pleyel. Não sei mais dessa história. A bem da verdade, ela não me importa. Os Noturnos em mim têm outra dimensão. Tenho mais a ver com a de um romântico poeta muito soturno, junto ao piano do juízo, a fazer versos à mulher desejada, como canta Noel em Três apitos...

Todo romântico tem um tanto assim de amor platônico. Se apaixona demais, deseja muito, viaja na imaginação, sonha mil encantos sôfregos ao ponto de se sufocar e, quando chega a esse nível de verdade em si, vai em busca da realização da paixão; mas, quase sempre, ao compartilhar o seu amor, não é correspondido. Daí mergulha em profunda melancolia. Se for poeta, cria em qualquer expressão. O músico, por exemplo, pode fazer noturnos. Menestréis feito Vinícius e Noel transformam suas lancinantes dores em canções.

Meu dna romântico vem de meu pai, um incorrigível sonhador. Está bem velhinho o meu melhor amigo. Passa o dia ouvindo - horas a fio - "música clássica", dorme ouvindo-as e acorda com elas. Chopin decerto integra o repertório. É comum surpreender-lhe o olhar iluminado. Quem busca superficialmente saber para onde ele olha, dirá que está a mirar o nada. Engana-se, pois ele olha para dentro de si mesmo, onde um universo de sonhos o satisfaz. Sua imaginação é poderosa e a força de seu pensamento, mais potente ainda. O longo tempo da solidão de marinheiro embarcado só lhe adensou a capacidade de sonhar. Hoje, entretanto; a fragilidade do corpo de noventa anos lhe tolhe o impulso de cumprir a máxima sartreana de que sonhamos para satisfazer nossos desejos e acordamos para realizar nossos sonhos. Quando penso, porém, encontrá-lo rendido por essa condição humana, apenas surpreendo - com raridade! - um aborrecido instante e, até nesses momentos, ao lhe perguntar o habitual como vai, pai, a resposta vem com um sorriso: "Navegando..."

Tenho transformado o "Navegando..." de meu pai em mantra. Tamanha elasticidade de consciência de si mesmo, ante as circunstâncias, tem a ver com a sabedoria do povo do mar, cantada nos versos de Paulinho da Viola: "faça como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro, leva o barco devagar."

Vivemos um nebuloso tempo. As circunstâncias não são favoráveis. O país se esfacela, a Nação Brasileira tem seus direitos usurpados. A capacidade de realização de sonhos está oprimida, pois estirpada nos está sendo a esperança. Tenho paixão pelo socialismo como expressão democrática. A situação de nadir a que chegamos resulta da estratégia de quem gerou o nevoeiro e a turbulência; a nós, nos resta a tática de sobrevivência, resistência e desmonte dessa trágica realidade. Para tanto, devemos cumprir a sabedoria do velho marinheiro de levar o barco devagar e seguir, firmes e fortes, "Navegando..." Evoé!
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*Kelsen Bravos - professor, escritor, compositor, editor do Evoé!

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Nada, nunca, nenhum... - Chico Araujo*

O despertador os fez abrir os olhos na hora de sempre de sempre de sempre... 5 da manhã. Sem galo. Sem quintal.

Mario e Maria se levantaram sem quererem dar atenção a qualquer cansaço que tivesse se escondido neles desde a noite, quando se iludiram de que poderiam enganá-lo.

- Bom dia.

- Bom dia, bem.

O selinho foi seguido de arrastados dos chinelos partindo de cada lado da cama os quais soavam como sonos ainda não despertos, talvez no assombro do sonho não concluído.

Mario, à padaria. Maria, ao café.

No reencontro, o encontro de olhares cúmplices e apaixonados. Nas bocas, o pão quentinho com manteiga se misturando com o café fresquinho.

- Que foi, Mário?

- Nada.

- Nada? Parece estar com olhar distante, um olhar que é mesmo o pensamento sabe-se lá em que lugar.

- Nada não. Só querendo adivinhar como será o dia, o que é impossível.

- Deixa acontecer. O que é pra ser será.

- Não é cem por cento assim. Às vezes conseguimos interferir e mudar algum acontecimento. Se não fosse assim...

- Que nada! Só impressão sua.

- Será?

Jovens ainda, ainda eram somente os dois. Quem saberia dizer o futuro? Não ousavam, ainda, pensar muito adiante, embora entendessem não puderem viver sempre os dois, sem a própria família formada.

Saíram de casa juntos, de mãos dadas, como ocorria toda manhã.

- Nunca mesmo conseguimos interferir? Os acontecimentos apenas acontecem?

- Ainda está pensando nisso?

- Nunca é uma palavra de difícil compreensão e profunda extensão, não acha? Nunca é igual a jamais e jamais implica negação, um “não” bem grande. Pelo que diz, é um “não” possivelmente pra tudo.

- Acordou exagerado hoje, hem?

- Será? Veja, se “nunca” impera, jamais sairemos da condição em que nos encontramos, ficaremos sempre – outra palavrinha chata de tão determinante – onde estamos. Nem avançaremos nem retrocederemos. O ponto e as questões se repetirão exatos em suas mesmices.

- Está mesmo inquieto hoje.

- É, acho que estou mesmo, Maria. Mas se estou assim hoje e não estava ontem, isso significa que o seu nunca não é nada permanente, ininterrupto, eterno. Então, minha reflexão quanto a nossa interferência nas coisas passa a ter sentido.

- ...

Chegaram ao ponto de ônibus de mãos dadas como ocorria em cada manhã. O beijo rápido. A despedida para lugares opostos, como em toda manhã.

De maneira síncrona, descem de seus coletivos, exata hora e meia depois de terem entrado neles. Mais dez minutos, aproximadamente, de caminhada, cada um chega ao local de trabalho. Tem sido assim diariamente, desde que morando onde moram após o casamento.

Não eram trajetórias opostas, caminhos contrapostos na vida decidida pelos dois para serem um. Naquele instante da vida em parceria, nenhum abria mão do outro, da companhia do outro, da existência do outro.

Nenhum, nunca, jamais, desejaria o nada em suas vidas compartilhadas. As discordâncias faziam parte do tudo a envolvê-los e tudo era o que almejavam um para o outro.

Sabiam: nunca abririam mão dessa vivência participada.
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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Nada, nunca, nenhum..." compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito em 15 de maio de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Nunca feito o tempo das águas de antes - Túlio Monteiro*

O burburinho macio começava leve sobre as telhas vãs do meu quarto de menino, lentamente aumentando até virar som de águas fortes, potentes, respingos frios se esgueirando pelas frestas caindo sobre meu corpo na cama q5uente, levando-me a traçar planos para o dia seguinte, onde, ao lado dos amigos, tomaria banho de chuva na rua, sob os beirais e biqueiras das casas vizinhas.

E como eu dormia tranquilo, embalado pela inocência da criança que minha mãe vinha cobrir nas noites de inverno de minha infância simples, mas tão cheia do sossego que hoje busco incessantemente e quase sempre não encontro.

Encantava-me o deslizar de águas velozes no chão da rua de terra batida em que nasci, os olhos sorrindo rumo aos barquinhos de papel que eu e os amigos montávamos com folhas arrancadas, às escondidas, dos nossos cadernos escolares.

Não havia trovões, relâmpagos ou reclamações de nossos pais que nos retirassem da rua antes que a chuva passasse. E mesmo quando ela partia, ainda havia tempo para os jogos de bilas ou de bolas; cheiro de terra molhada invadindo narinas infantes, crianças criadas e crescidas nos arrabaldes dessa Fortaleza que tanto amo.

Hoje, homem feito, o dia amanheceu escuro e carregado de águas depois de uma noite inteira de chuvas. Já não tenho mais a tranqüilidade do menino que fui, nem o teto forrado do apartamento que habito deixa passar aqueles respingos que traziam consigo a certeza da felicidade plena. Não há mais tempo para banhos, bilas, bolas ou barquinhos brancos.

Tenho que levantar! Vestir-me, entrar no carro e dirigir até o trabalho, sustento da família, homem da casa, como meu pai um dia foi. Circularidade.

Na saída, ouvindo o barulho entediante dos limpadores no pára-brisas, percebo que não mais me encantam as águas que agora deslizam furiosas pelo chão de asfalto da rua em que moro; um céu gris pressagiando que o menino de riso farto se foi e a chuva que cai nunca mais o trará de volta.
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*Túlio Monteiro – escritor, crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! O texto "Nunca feito o tempo das águas de antes" foi escrito em março do Inverno de 2008. Agora integra o projeto Abecedário de Crônicas do Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro

sexta-feira, 11 de maio de 2018

M da mão de Mistério e outros emes... - Kelsen Bravos*

à Fabíola Líper e sua "De Andarluz", com Tim Fonteles 

O motivo desta nossa conversa em M aconteceu na Praia do Francês. Deu-se quando, ao fim da década de 1990, estive a trabalho por cerca de uma semana em Alagoas. Fui, a serviço de uma instituição nacional de formação profissional, participar de um evento de Comunicação & Marketing em cuja programação constavam encontros para repasse de experiências,  oficinas de formação, planejamento, atividades sociais e culturais.

Atividades sociais e culturais sim, pois, nesses eventos, sói aliar-se o útil ao agradável. Em comunicação e marketing, aproveita-se de tudo e tudo se avalia. Desse modo garantimos pelo menos dois dias para nos deleitar em passeios turísticos por lá. Eita Brasil de beleza sem fim! De Maceió a Marechal Deodoro, onde fica a praia-cenário de nossa grata lembrança, é um pulo de pouco mais de vinte minutos.

O caminho esclarece o porquê do nome Alagoas, existem dezenas delas naquele pequeno estado. Duas das quais, verdadeiros lagos, porque gigantes e navegáveis, Mundaú tem 23km² e Manguaba, 34km². Da Praia de Ponta Verde, onde estávamos hospedados, à do Francês, praticamente se sai do berço do lago de Mundaú para o de Manguaba. Um trajeto memorável.

Também inesquecível é o passeio de catamarã à Praia do Gunga, no município de Roteiro, a 82 km de Maceió, nome também da lagoa local. A bem da verdade, a Lagoa do Roteiro é uma laguna, pois na maré alta, suas verdes águas misturam-se com as azuladas águas do mar compondo um verde profundo. A praia fica na ponta de uma península, bem no encontro das águas, depois da qual se tem aberta a imensidão do Atlântico.

Recomendo ir antes até o Mirante do Gunga de onde se divisa: a paisagem de vasto coqueiral, a laguna, o mar e o desafiante e poético horizonte. Tenho até hoje em mim o calor e o cheiro desse visual e o sabor das ostras fresquinhas, servidas em tabuleiros, na praia do Gunga, logo ao se descer do catamarã que vai até a beira areia, mas este é assunto para um outro papo, pois o acontecimento em M, objeto dessa nossa prosa, se deu mesmo foi nas areias da famosa Praia do Francês.

O paredão de arrecifes, marca registrada da afamada praia, resguarda das ondas bravias do Atlântico os banhistas das cristalinas águas azul-turquesa das piscinas naturais formadas entre ele e a areia. Festejei estar na praia num dia de semana, pois havia espaço para deitar e rolar, uma raridade aos sábados e domingos.

Extasiado com tudo que via, mesmo estranhando a falta do iluminado verde-marinho do Ceará, pois verde mesmo por lá só o bem escuro como o da Praia do Gunga, nem vi se aproximarem de mim aquelas mulheres de indumentária típica. Uma delas se dirigiu ao nosso grupo e perguntou quem queria saber o que o futuro lhe reservava. Bastava deixá-la ler a mão para ter desvelados o povir e os fatos despercebidos do passado. Houve breve silêncio com troca de olhares entre as pessoas do grupo e depois os nãos.

As negativas se lastreavam nos mais batidos chavões. "O futuro a Deus pertence...", "o passado é imutável"... e congêneres. Eu num tive nem tempo pro sim ou pro não. Carente do verde-esmeralda do mar da minha terra natal, fiquei hipnotizado pelos reluzentes olhos daquela cigana. Eles se mexiam a reger a vez da fala em resposta de cada pessoa. Eram sempre acompanhados de um sorriso estonteante a complementar o sereno semblante no rosto daquela linda e misteriosa mulher. Quando seu olhar se deparou com o meu, arregalou os olhos revelando por um átimo um clarão, um brilho verde e intenso, depois do qual apurou bem a vista apertando as pálpebras, mirando-me as pupilas e falou com um sorriso sedutor e sotaque arrastado: "o moço me dê a sua mão para eu ler, não custa nenhuma fortuna, não."

A voz parecia um canto de sereia. Em meio a uma repentina ventania, vi-me arrebatado por tamanha beleza, senti o calor de suas mãos acariciando as minhas duas mãos, no dorso e na palma, aproximou seu corpo do meu, encostou o colo do seu coração nas minhas mãos, sentou-se puxando-me de tal modo que fiquei de joelhos a sua frente. Ainda ouvi dizer-me: "O moço tem um M desenhado bem forte em cada uma das mãos."

Seria Yemanjá aquela andaluza? Ou Iansã seria? A fina areia branca se alaranjou em redemoinho-de-poeira ao sol vespertino e não tive mais dúvidas. Iansã. Do movimento de seus lábios, em vez de sua fala, ouvi uma vozearia estonteante, mas mantive-me concentrado na beleza morena daquela moura andaluza enfeitada de sol e halo esmeralda a exalar excitante perfume de mulher excitada. Senti-me agarrado a ela a dançar flamenco ao som de atabaques no lugar de guitarras.

Do quase transe, fui retirado pelo sopro sorridente da cigana em minhas têmporas. Sobre as linhas de minha mão não sei, não ouvi nada inteligível. Queria saber era do telefone dela, o endereço, se o meu desejo era seu, se queria brincar de casar comigo, essas coisas simples e sinceras que só os de feitio romântico conseguimos fazê-las verdadeiras... ela respondia, entre sorrisos, qualquer afirmação de talvez, quem sabe... e expressando reprovação marota com os olhos, me fez ver o entorno de nós.

Estávamos cercados. Acabara de voltar por definitivo, creio, do arrebatamento onírico. Fiz menção de pegar a carteira para lhe pagar o que não soubera. Ela depressa me conteve o gesto com um sussurrado "espera mais um pouco, Moço Bonito, se avexe não". E se afastou para, com as outras, já atender uma "multidão".

De repente, todos pareceram se interessar em saber do futuro... muitos, antes de entrar na fila, se me chegaram respeitosos a fazer reverência solene. Os mais chegados batiam no meu ombro numa expressão de "aheeê!..." De fato todos pareciam dizer que há tempos desconfiavam haver algo muito especial em mim...

O que aquela andaluza revelara sobre mim, que já anda nas cabeças e, pior!, já anda nas bocas e eu não sei?!

Deu a hora de ir embora e não consegui saber o que revelara e nem conseguira ainda pagá-la. Bati a mão na carteira e lá dentro do bolso ao lado dela havia um bilhete: "pague e pergunte a uma próxima cigana e terá, Moço Bonito, o mistério revelado..."

Até agora não encontrei uma cigana próxima. O certo é que desde aquele dia nunca me faltou um bom contato com o mistério e nem deixo de levar dinheiro na carteira para uma andaluza, afinal "não é nenhuma fortuna". Evoé!

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, compositor, editor do Evoé!




quarta-feira, 9 de maio de 2018

O marido, a mulher, a mãe, o maio - Chico Araújo*

De acordo com a praxe anual, o marido foi ao médico, sozinho.

- Bom dia, doutor.

- Bom dia. Como o senhor está?

- Sinto-me bem.

- Nada de diferente?

- Não, nada. Pelo menos não que eu tenha percebido.

- Ótimo. Mas alguns dados de seu exame clínico estão apontando variações em relação aos anteriores. Vamos conferir, né?

- Certamente.

Exame de segurança feito, a primeira palavra:

- Aparentemente, tudo certo; não percebo anormalidade. Mas vamos ampliar essa investigação por conta dos exames clínicos. O senhor fará o seguinte...

Tudo feito de acordo com as orientações médicas, eis que no retorno ao especialista ouviu dele:

- Avalio que encontramos um problema em sua saúde; devemos, portanto, dar atenção especial a ele, para darmos boas condições a ela.

- E o que devo fazer?

- De imediato e por importante, não fique apenas com minha avaliação. Vá a outro perito e escute dele sua avaliação para o caso.

Foi, não a um, mas a dois outros. As palavras de um e outro mudavam aqui e ali, mas as avaliações se deram sempre no mesmo plano e as sugestões apontaram todas para o mesmo caminho.

O marido entendeu ser preciso caminhar de acordo com as opiniões especializadas.

A mulher, sabedora de todo o infortúnio, primeiro foi palavra tranquilizadora, acolhedora. E sem demora, as ações de força e garra estupendas puseram-se a falar e a orientar em tranquilidade, sob as orientações dos doutores.

Pela Fé, orou e pediu, pediu e orou, e mesmo não deixou de vigiar, de perscrutar, de inquirir, às vezes de maneira direta, outras de forma sutil, de soslaio, o marido, aquilatando o espírito dele diante do caso. Percebeu múltiplas sensações e as entendeu tanto quanto compreendia a necessidade de um porto se tornar seguro ao navegante meio que à deriva. Segurou-o.

E caminhou junto.

A mãe foi aos filhos. De suas interpretações e vivências, incitou:

- Eis um momento em que o pai mais que nunca precisa dos filhos. E esse momento chama-se agora e, mais ainda, agora mesmo, é esse instante. Atenção, apoio, respeito, carinho, amor... Se porventura não houve como demonstrá-los claramente até há pouco, desde agora precisa ser posto e exposto de maneira aberta, sem qualquer possibilidade de dúvida. Gestos, palavras, atitudes, sorrisos, serviços... Tudo isso precisa ser realizado desde já na exata medida necessária. Não mais, não menos; mas plenamente de forma verdadeiramente verdadeira, honesta, pura.

Os filhos ouviram a mãe e sinceramente aquiesceram. E foram dignos em toda a travessia agitada naquela inusitada turbulência. Por compreensão à mãe e por atenção às necessidades do pai, mais do que sempre foram, foram singularmente filhos.

A mãe tranquila quanto aos filhos, pois o sabiam ser, determinou-se altruísta ao marido em prática perfeita.

A mudança das marés, de tranquilas para inquietas, turbulentas, inaugurou-se em um dezembro; quando recomeçaram os sopros amenos dos ventos da bonança, abril já se encaminhava para ceder seu lugar ao maio, especialmente o mês das noivas, o mês das mães, o mês, enfim, também especialmente, de felicidades e bênçãos.

No maio, desordens em dissipação, a mulher pontua ao marido:

- Por tudo o que vemos e sabemos, o pior passou. Agora é seguir em frente, vivendo nova etapa na existência.

- Sim. “Vida que segue” em “andanças com Fé”.

E que assim seja.

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*Chico Araújoprofessor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "O marido, a mulher, a mãe, o maio" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 07 e 08 de maio de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 7 de maio de 2018

M de mala, menino, Mara... - Túlio Monteiro*


O tempo passa em meio a momentos que fazem um dia monótono.
Você perde tempo gastando as horas de modo descuidado.
Perambulando por aí, em sua terra natal; esperando
alguém ou algo que te mostre o caminho.
(Time. Pink Floyd)




Levantou-se e largou o lençol de cambraia de linho ali mesmo. Não aguentava mais aquela relação com cheiro de vou embora hoje. Estava realmente chateado em estar com idade tão tenra caminhando a passos largos rumo a lugar nenhum. Parecia o papel de seda das arraias que ditosamente revoavam as paisagens da sua infância de menino magrelo a correr mundo pelas veredas do lugar onde nascera. Fino e quase transparente.

Precisava se desgarrar dali, soltar amarras e, à sota-vento, partir rumo de algo mais engraçado que baús, televisões, contas para pagar e caras amarradas. Amores de papel crepom soltando suas cores em copos d´água verdes, vermelhos, amarelos e azuis. Simplesmente não dava mais. Era isso e pronto, que fossem às favas os livros que o cercavam, cachorros, gatos, inclusive naquele instante mesmo pensava como era ser um gato-pingado em tempos de carpideiras e quimoeiros a flertar com a loira desposada do Sol...essa tal Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Com seus fortes e rios entrecortantes: o Cocó de um lado e o Ceará de outro, Leste-Oeste de um barco há muito encalhado lá pelas bandas da velha Ponte do Ingleses. E riu um riso solto, quase louco e tenebroso de pensar como são as coisas. Enquanto os ingleses festejam até hoje o afundamento do Titanic, nós temos por aqui um tal de Mara Hope encalhado em um banco de areia sem servir para absolutamente nada.

Mas não arreparemos, não! Já que na voz da música, cantar parece com não morrer...tudo isso enquanto ele engomava mais uma vez a calça encardida que teimava em não desamarrotar. Tênis já tão caminhados com buracos nas solas. E lembrou Chaplin a comer solas de sapatos em cena de vida de artista. Dava não. Vestiu a calça, uma camiseta básica e saiu pela porta do lado com as manias que sempre o perseguiram desde criança. Transtorno obsessivo compulsivo, sapecou-lhe aos ouvidos um dia o médico de loucos que todos agora insistem em chamar de psiquiatras. Alcunha mais leve para quem tem problemas de autoestima e tem que tomar remédios controlados para não sair distribuindo sopapos pela rua afora. À noite reverteria a coisa. Daquela não passaria. Olhou para as malas e saiu.

Dia todo no mundo e mais um dia cinza por terminar. Chegou de volta, abriu o guarda-roupas e de lá retirou as peças que ainda lhe cabiam, todas com aquele odor de roupas com cheiro de mala. Estava decidido. Partiria antes que todos voltassem e assim o fez. Esqueceu a luz acesa e foi embora. Nunca mais retornou! O badalar do sino de ferro chamando os fiéis, de joelhos, para ouvir o encanto suave de suas palavras.
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*Túlio Monteiro - escritor, crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! O texto "M de mala, menino, Mara..." integra o projeto Abecedário de Crônicas do Evoé! Foi escrito em 2017 e publicado aqui, sob o título "Roupas com cheiro de mala, em 10.04.2017. Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

L de Liberdade - Kelsen Bravos*

Minha sexta-feira amanheceu promissora, pois ao conferir as mensagens das redes sociais, logo vi no WhatsApp de meu amado irmão os versos de Cecília Meireles, no final do "Romanceiro da Inconfidência": "Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda." Pensei em coincidências; elas, porém, não existem. Não, não foi à toa o meu irmão pautar meu dia logo cedo com a "liberdade", justo quando teria de publicar o tema em "L" neste Abecedário de Crônicas do Evoé!

Minha ideia era outra. Queria falar dos nomes das mulheres de minha família, da bisa Luíza Moura, da vó Luíza Bravos Monteiro, da mãe Lucimar, das tias Lenir, Leonildes, Laurisa, da tia Leléia (Ariléia), da minha companheira Lidiane Moura e filha Luísa Moura Bravos. Jogaria com os sentidos diversos de seus nomes a partir dos traços de personalidade e outros quetais. Lucimar, por exemplo, tem em si Luz (Lucis) e Mar, a luz do mar, o farol, guia e porto seguro para o marinheiro com quem casou, meu pai... Não. Nada disso! A postagem do meu irmão acabara com meu sonho nepotista. Estava eu preso à liberdade que todos entendem e ninguém consegue explicar.

Explicação mesmo de liberdade encontrei na filosofia, aliás, nem explicação é, trata-se da mais fundamental condição da existência humana: "O homem nasce condenado à liberdade", sintetiza Jean Paul-Sartre. Quem me conhece sabe o quanto  me importa esse conceito existencialista de liberdade. Quando o li, meu juízo deu um nó, jamais desatado. Ora se a liberdade é a nossa razão de ser, por que seria - e é! - uma condenação? Revivi essa questão enquanto me dirigia à casa de meu pai, o velho marinheiro. (Como vai, pai? "Navegando" - me responde com um fio de voz e um sorriso que desafia a negação da felicidade.) Nascemos totalmente dependente do outro, assim somos na infância, adolescência, adultícia e assim permanecemos até chegarmos ao - para usar uma expressão de meu amado pai - "ocaso de uma existência". Somos seres sociais, por isso estamos condenados à dependência da convivência, buscamos em vão nossa liberdade, cujo valor está em nos mover rumo a Utopia.

Depois de banhar meu pai e compartilhar prazeroso café da manhã com ele, olhando um bem no olho do outro, segui para uma reunião na Secretaria de Cultura. Na antessala do poeta Fabiano Piúba, vejo adentrar Fernando Piancó, ator, diretor teatral, produtor e gestor cultural, sob os cuidados de quem está o Teatro Carlos Câmara. Ao me ver, em vez de bom dia, declama "Ai que prazer não cumprir um dever./ Ter um livro pra ler / e não o fazer!..." Sim, Piancó estava ali a declamar "Liberdade" de Fernando Pessoa. Não há coincidências. Pensei. Ele declamou Liberdade no lançamento da XI Bienal Internacional do Livro do Ceará, e ajudou a tornar inesquecível aquele evento no palco do Carlos Câmara, em outubro de 2016. Disse-me que recentemente assim o fez também na inauguração da Biblioteca Comunitária das Quadras, convidado de seu conterrâneo, o cratense Ronaldinho Salgado, ser de luz de beleza intensa, jornalista e articulador cultural da Comunidade das Quadras aqui em Fortaleza. Piacó fez uma pausa e falou mais pra si: "Será que a meninada de lá, entendeu? Tomara que sim. Deve ter entendido sim. Se num entendeu está pensando." De liberdade todo mundo entende, difícil mesmo é explicar, Piancó...

Depois da reunião com o poeta Piúba, esticamos um pouco a conversa. Ele sempre gentil e atencioso - nem parece tão azafamado como é a sua agenda - deu cabimento a dois dedos de prosa comigo. No meio do papo, de repente, voz mansa, com os olhos a reluzir e sorriso a brilhar, me fez atentar para a música em coro vinda lá da Praça do Ferreira. "A ciranda que estão cantando... é de minha autoria!"

Pensei. A ciranda se dança em círculo. O círculo num tem começo e nem fim e nem saída. A ciranda não é de apenas um é de todos nós. A ciranda é uma manifestação de liberdade! Liberdade só pode ser concebida assim coletiva, de tal modo que a liberdade de um começa quando a do outro começa também, não tem fim, pois se há fim não é liberdade!

Saí dali com as boas palavras de nossa conversa e a alegria intensa, porém contida, do meu querido amigo Poeta, pela epifania de si mesmo ao ver-se Poesia plena reverberada pelo canto vindo da praça. Tudo em nosso breve diálogo teve o signo da liberdade, sobretudo,  leitura e literatura que sempre permeiam nossas conversas. 

Leitura, Literatura, Letramento como signos de liberdade. Com essa premissa foi que cheguei à Universidade Estadual do Ceará, onde fui ter com o Grupo de Pesquisa Literatura: Estudo, Ensino e (Re)Leitura do Mundo, liderado por Cleudene Aragão. Tratamos de Letramento e da importância da literatura como espaço de cultivo do espírito livre dentro e fora da escola. Estávamos sendo benditos, conforme Castro Alves, a nos mover pela utopia de semear livros à mão cheia, para fazer o povo pensar, e cultivar a cada leitura a chuva que faz um mar chamado Liberdade. 

Não é coincidência. Não há coincidência. A ficha caiu. É o signo de nossa prioridade cidadã, vital. Estão a usurpar o nosso bem comum mais caro. Por nos ser cara e necessária, a Liberdade está a unir a Nação Brasileira, porque está sob grave ameaça. Mas nos une pela desgraça que faz assomar em mim, a lucidez e indignação do Millôr Fernandes, em Relatório da Segunda Sessão Plenária da Conferência sobre Direitos Humanos, em Bucareste, 1958: Escorraçada de toda parte, vivendo esfomeada, tendo que subsistir sem morada certa, apunhalada aqui, estrangulada ali, não desejada em verdade a não ser por uns poucos e loucos humanistas e revolucionários através da História, é ridículo se representar a Liberdade como uma mulher bela, um facho eternamente aceso na mão, os traços finos, a fisionomia tranquila e altiva. A Liberdade é um cachorro vira-lata. 

Os brasileiros se somos livres, somos, pois, um cachorro vira-latas e a síntese de nós está injustamente enclausurada, ao arrepio da lei. Surreal situação a nos lembrar ser imprescindível ter bem viva a noção de enquanto houver um apenas de nós sem liberdade, todos estaremos sendo escorraçados, estrangulados, apunhalados, condenados a viver esfomeados, sem morada certa. A liberdade não existe em um só, é uma ciranda. Evoé!

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, compositor e editor do Evoé!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Lutas e liberdades - Chico Araujo*

Há algum tempo sentara-se naquele banco de sua preferência. Segundo ele, do assento podia investigar o que incitava chama para suas reflexões, em busca de compreender o mundo e suas vicissitudes, as pessoas e suas nuances, seus matizes.

O amigo se aproxima, já prevendo conversa não tão comum.

- Faz tempo que tá aqui?

- É possível. Não sei precisar... Não percebi bem quando exatamente cheguei.

- A postura é a mesma, né? Tá aí observando, inquirindo, se perguntando...

- Não consigo ser diferente. Minha existência tá marcada por ser assim.

- E isso é bom pra você, né?

- Nem sempre. Viver em sociedade obriga contatos, diálogos, revelação de posicionamentos... Não sou muito bom nisso e certamente minha postura atrapalha minha vivência social. As pessoas, em geral, costumam querer respostas ao que perguntam; nem sempre, porém, querem aprofundar as questões, então observam pouco, indagam pouco – até sobre elas mesmas, dinamizando postura de autorreflexão –, acostumando-se a se contentar com saberes fáceis, muitas vezes superficiais.

- Você não se encaixa nesse vasto grupo.

- Também tenho minhas culpas.

- O mais comum em você é o não tão comum ato reflexivo.

- Essa é uma questão importante, porque quem se permite à reflexão acaba por se distanciar das outras pessoas, não exatamente por saber mais, antes porque o ato reflexivo exige algum silêncio, ausência necessária de diálogo fora do próprio ato reflexivo.

- Você é uma das pessoas que se distancia das outras. É muito fácil pra mim ver você com esse semblante de agora, com esse olhar de agora, um olhar que sugere profunda análise sabe-se lá de que. Só dá pra saber se você disser, se você permitir o diálogo, a conversa. Esse nosso momento aqui é raro, porque embora eu veja muito você, não trocamos muitas palavras, não compartilhamos, com frequência, ideias.

- Tem razão.

- Só isso?

- Na verdade, não. O que estou tentando “ver” é de que lutas vivem as pessoas hoje. Vivemos um momento histórico no qual se tornou imperativo diluir, dissolver tudo rapidamente, de acordo com interesses específicos impostos por quem tem poder de fazer isso.

- As mídias.

- Não somente elas, mas elas certamente. Eu posso estar agora tentando convencê-lo de algo em que acredito, sem que perceba. Meu discurso pode ser organizado para realizar essa façanha: seleciono palavras, emprego verbos, construo frases, configuro contextos para, como resultado, adquirir sua concordância quanto ao que penso. Se eu consigo, ganho, a partir de você, a possibilidade real de que minha ideia vai adiante, se propagando e reverberando, tornando-se algo marcante na sociedade. Se eu consigo convencê-lo, é certa minha influência pelo menos em parte do universo social, a ponto de ousar transformá-lo.

- Você está fazendo isso comigo?

- Reflita.

- Bem, sua fala não é inocente.

- Não, não é, mas você somente alcançará a profundidade dela quando – e se – se permitir refletir sobre ela. Essa atitude parece, infelizmente, estar se despedindo da existência de muitas pessoas, mas muitas mesmo, a ponto de gerar mudanças profundas nos modos de viver. Se não reflito, aceito mais facilmente muito do me é dito, muito do que me é vendido, muito do que me é apresentado como verdade, sendo mentira. Fico passivo, enfim, e essa passividade determina minhas maneiras de existir, de ser, com influência quase certa naqueles mais próximos a mim, também pouco questionadores, no entanto crentes em mim. Veja que eu e você também somos mídias, principalmente quando assumimos a ação de propagar ideias, mensagens, ideologias a partir de nossas crenças, desejando, inclusive, a adesão de outros às crenças nossas.

- Mas isso sempre fez parte do funcionamento das civilizações.

- Nem por isso devemos aceitar a situação sem qualquer questionamento, sem nenhuma atividade de um perguntar e perguntar-se a respeito. Perguntar e perguntar-se em nenhuma hipótese significa negar algo só por negar, de maneira inconsciente; ao contrário, inquirir e inquirir-se implica postura consciente, de julgamento para aceitação ou negação de algo.

- E você está entendendo não existir nada disso em nossos dias.

- Não é que não exista. Existe, sim. O problema é que quanto mais pessoas não façam isso, não desenvolvam essa postura da perquirição, maior a dominação sobre elas. Nessa ocorrência, é legítima a questão: Que lutas essas pessoas que passam aqui estão lutando?

- Não será presunção sua querer saber exatamente sobre as lutas de cada um?

- Talvez. Mas há pouco você citou as mídias. Tenho me perguntado muito – e creio ser uma questão pertinente a todos – sobre a influência das diversas redes sociais, principalmente as virtuais, no nosso cotidiano. Há muitos estudos sérios sobre o tema. Sem me deter aqui neles, porém observando o que fazemos naquelas das quais participamos – postagens de imagens estáticas, vídeos, símbolos, comentários... – fico convicto da superficialidade em que estamos vivendo e, quanto mais superficiais, por óbvio, menos críticos somos e, por decorrência, muito mais manipulados. Não por acaso se vê tanto maniqueísmo moldando opiniões e existências.

- Acho que estou lhe entendendo.

- Em um mundo assim, quais liberdades? Preciso ser livre para ser, para viver, para dizer sobre essa minha vivência. Ser livre se dimensiona na possibilidade de eu poder decidir para mim mesmo – como indivíduo, também como ser social – valores, crenças, ideologias, vontades, posicionamentos...

- E você entende não haver isso nos dias de hoje.

- Repito: há, sim, pois há quem reflita, quem questione e se posicione. Em convivência, há exponencialmente muitos outros sem possibilidade de tudo isso, porque não lhes foi permitido desenvolver habilidades, competências mesmo, para até saberem que não sabem e que, por isso, estão apenas aceitando aquilo que lhes é imposto dia a dia.

- Sem liberdade não se existe...

- Sem liberdade, não se sabe que luta lutar... Não existe sujeito sem liberdade... Sem sujeito o que há é negação... é sujeição... é dominação...

A ausência de palavras a partir daquele ponto foi testemunhada pela praça, naquele instante exuberante nos cantos dos pássaros, na dinâmica do vento soprando sobre as árvores, sobre os bancos, sobre tudo... 

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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Lutas e Liberdades" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito no 15 de abril de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...
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15/04/2018