quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Morreu o Nego, vem cá meu nego! - Antônio Edísio*

Olá, Povo do Meu Bem-querer! Tenho um amigo muito querido, um excelente profissional que tive o prazer de conhecer no trabalho depois de ter sido apresentado a ele por Vessillo Monte. Falo do Mestre Antônio Edísio de quem tenho a honra de publicar aqui um necrológio escrito para um amigo seu vizinho de bairro. Foi em 30 de agosto de 2017, a publicação original que Mestre Edísio fez no FaceBook. Li e me emocionei. Salvei o texto para publicá-lo aqui no Evoé! - à revelia do autor - em boa hora, para convidá-lo a escrever crônicas aqui. Uma homenagem à beleza do meu amigo, Antônio Edísio, à importância da amizade e ao Nego - que se encantou. Evoé! Boa leitura! (Kelsen Bravos)


MORREU O NEGO, VEM CÁ, MEU NEGO! - Antônio Edísio



"Acredito no homem que pelo trabalho constrói o seu futuro" - Autor desconhecido


O Conjunto Ceará, em especial a 4a. Etapa, a UV10-Unidade de Vizinhança 10 está de luto, pois morreu uma figura lendária.

No sábado, dia 26 de agosto, morreu um morador da comunidade, o Zezeu ou Nego, apelido que era mais conhecido entre os amigos.

Este maranguapense, conterrâneo do famoso humorista Chico Anysio, era um homem simples e alegre. Mesmo na sua luta pela sobrevivência e com problemas de saúde não se queixava, tratava bem a todos e os recebia na sua humilde quitanda com um bom humor, à sua maneira, sem apelar para piadas, só rindo e chamando todos de nego, por isso o seu apelido.

A sua morte causou muita tristeza aos seus amigos e àqueles que lhe conheceram.

É muito cômodo se reverenciar uma pessoa importante, de prestígio, mas um alcoólatra do bem, pobre e que vivia no seu recôndito, um pequeno quarto, solitário, onde se localizava a sua quitanda humilde, mas acolhedora, pois ele era gentil e prestativo, por ser generoso.

Passou um período no Centro, na rua Senador Pompeu, com sua venda de coco, sucos e tapiocas, atendendo a todos com o seu estilo brincalhão e usando do seu jargão, no cumprimento de nego.

Devido a problemas de saúde e com saudade dos amigos veio para o bairro e montou o seu comércio. Alugou um quarto, onde dormia e instalou a sua citada quitanda. Agora com outras opções de venda.

Sempre quando passava por lá o seu assunto preferido era futebol, pois além de ser boleiro era torcedor autêntico do Ceará. Ia ao seu comércio e ele sempre sorrindo dizia brincadeiras ao falar de futebol que deixavam os que estavam ali alegres e revigorados no espírito.

Assim era esse personagem benquisto e que tinha um humor espontâneo. Senti muito a sua partida e esse relato é um testemunho real e fiel.
Sou daqueles que acham uma pessoa dessas merecedora de honras, contrariando àqueles que estigmatizam pessoas, de forma preconceitosa e não conhecem as suas patologias.. Essas pessoas são de bom gênio, dóceis, de alma boa, solidárias e decentes, que não plantam o mal no coração. Muitos que já passaram assim dessa vida e ficaram esquecidos no anonimato dos simples confiem na justiça divina.

Nego, presto-lhe essa homenagem póstuma e rogo a Deus para lhe perdoar, pois a mim, todos os seus amigos e a sua família nos restam a certeza de que você tenha um repouso eterno e feliz.

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*Antônio Edísio - é pedagogo, revisor, cronista cearense de Senador Pompeu. Integra o Conselho Comunitário o Conjunto Ceará.

domingo, 9 de dezembro de 2018


UMA MENSAGEM DE NATAL, POR DIANA BARBOSA GOMES BRAGA

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Prometo te amar e te respeitar. Te prometo ser fiel na alegria na tristeza, na saúde e na doença...
Os votos de matrimônio deveriam ser votos de vida, mais do que ritos de uma cerimônia, essa promessa feita, em via de regra, no altar, deveria ser um compromisso assumido ao longo da vida para com aqueles que estão conosco, nossos familiares, com quem decidimos construir uma família, com as amizades.
Fidelidade e lealdade são coisas diferentes. A primeira atribuída ao compromisso assumido com alguém; a segunda para mim tem um sentido mais amplo e mais profundo, porque além de abranger a fidelidade, também trata do caráter, da honestidade. Se a primeira parece uma obrigação, o que não é, a segunda é o princípio de qualquer relacionamento.
Certa vez, ao me afastar de uma amiga e me reaproximar depois, ela me falou que temera que eu contasse à mãe dela assuntos que havia me confidenciado. Embora jamais isso tivesse passado pela minha cabeça, ou seja, trair sua confiança, entendera que a palavra que damos a alguém não pode ser quebrada. Com certeza muitas vezes passamos por situações em que nosso caráter é posto à prova, nem sempre conseguimos, decepcionamos não apenas o outro, mas a nós mesmos, porque carregar a culpa é uma conta cara. Ainda mais se nos lembram do ocorrido, esse perdão que nunca vem da expectativa que o outro tem de nós, da relação. Essa frustração mal resolvida é razão de muitos rompimentos.
A quem você estende a mão quando precisam? Se somente aos amigos e aqueles que você convive, ainda que seja uma atitude esperada para com os pares não exige de você desdobramentos e nem outras reconfigurações sobre relacionamentos. Conviver com pessoas difíceis não é simples, ainda mais quando te dão motivos pra desistires delas quase diariamente. Dirás, talvez, rompa! Os temperamentais são bons nisso, descartam, bloqueiam, abandonam. Corações ingratos. Não vale a pena ser inquilino de moradas assim, não era residência fixa, moravas de aluguel e não sabias. Eles não sabem o valor da inutilidade e perdem o significado de estar com alguém quando o interesse é a companhia e a convivência.
Corações generosos, ainda que falhos, põem flores na janela, arrumam a casa para o Natal, colocam piscas-piscas em plantas, insistem no amigo secreto, no almoço de Natal, compram presentes e mimos por haver consideração. Consegui me libertar de presentear pessoas que nunca se deram ao trabalho de retribuir gentilezas. Não o fazia por convenção, mas porque além de querer agradar eu não achava uma atitude legal deixar a pessoa de fora. Hoje, não mais! Naquele jogo de tabuleiro devo ter andado algumas casas de autoestima por mim e por quem sou.
Prometi-me a me dar e doar-me na medida em que recebo. Já chega de relações de pires na mão ou de fazer o jogo de Poliana contente. Sei o quanto me esforço e ajudo, mas escutei de uma pessoa próxima que era mesquinha porque não concordava com determinada postura. Na verdade, não gosto de gente folgada, espaçosa e invasiva. Ficar adulta requer mais que mudar de idade. Uma casa tem regras. E para bem conviver as pessoas sabem como A ou B reagem a determinadas situações. Então, evitar conflitos também é respeito. Não é nada elegante impor ao vizinho e aos que moram em casa meu repertório musical em último volume. Não basta ser fino com os de fora se não és com quem moras.
Não gosta dos barulhos de louças e panelas que vêm da cozinha? Acorda cedo e vem ajudar a pôr a mesa do café. Muito cômodo reclamar quando acordas tarde e não ajuda. É a mesma coisa quando ficas doente em casa. Observa! É justo e coerente seres tratado assim? Com quem você pode contar? Ao redor de uma mesa de bar e se patrocinas o lazer, é como mel para as abelhas. A sabedoria com o passar do tempo te mostra que amigos não são esses dos bons momentos. Os que te situam e te mostram teus erros e te criticam na tua frente são os melhores. Às vezes podes relutar, mas acatar aqueles que te aparam as arestas, que te podam, que te fazem enxergar o exagero ou que estás errada sem dúvida, te aprimoram. Não é preciso ser orgulhoso. E a teimosia também tem limites.
Então, dos votos de vida, a quem você prometeu amar, respeitar, ser fiel na alegria na tristeza, na saúde e na doença, tens conseguido cumprir? E com você? Com sua vida e felicidade? Com sua saúde física, mental e emocional? Qual desses presentes você vai ser dar? Qual deles você gostaria de encontrar na árvore de Natal? Quem sabe a mesa recheada de filhos superadas as diferenças e as vaidades. Quem sabe acompanhar alguém num momento difícil da vida, doença, desemprego, “aquele tô aqui, não estás só”. De quem esperar receber o cartão de boas festas e pra quem os vai mandar? Pra quem vais telefonar ao invés de ficar esperando o telefone tocar? Quem vai saber que você se importa e que ela é importante. Se a gente não se perdoa não consegue fazê-lo com o outro. Porque reconciliar é um processo, um caminho, amorosidade por nós mesmos, sem maiores julgamentos, porque ciclos precisam terminar para que outros, com mais leveza, comecem.  

Diana Barbosa Gomes Braga. Belém do Pará, Brasil. Dezembro de 2018.

domingo, 2 de dezembro de 2018


COROA DE NATAL, ADVENTO, PRESENÇA QUE É PRESENTE.

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Dos enfeites natalinos que mais tenho afeto, a coroa de natal tem significado especial, que para mim, é mais que tradição. Ela fica na sala de estar, na mesa de centro em destaque, todos a veem quando entram e quando me perguntam o que é, pois alguns a confundem com guirlanda, falo do seu significado e de que espero uma visita especial, que chegará em quatro semanas, representadas por cada vela. A chegada do Menino Jesus.
O ciclo da coroa de natal te mostra o eterno amor de Deus e que deve ser concretizado nas relações que temos. Utopia? Talvez seja! Não desisto fácil de ninguém, busco relações sólidas mesmo no ambiente de trabalho, mas constato que tempos difíceis são esses para manter amizades e amores, sem falar dos vínculos familiares pós eleição e não cito isso por acaso.
Enquanto retiro a coroa de natal guardada na caixa, tiro uma réstia de pó e a ponho na mesa, lembro deste ano que ainda não acabou, e que pôs à prova casamento, relações com enteados, amizades desfeitas, situações delicadas no trabalho, saúde. Quem de nós viveu o paraíso? Quem de nós viveu martírio? Quem enxugou lágrimas enquanto dirigia, no silêncio do quarto, na frente do computador ou no banheiro?  Não é fácil!
A vela acendida a cada domingo, aponta um caminho, um sentido religioso e cristão. A Luz que não se apaga não está na chama e nem vai aquecer ou te dar ânimo, se sua fé não existir. Enquanto as encaixo na coroa, lembro do compromisso de vida que fiz comigo, ser feliz! Nunca fico melancólica com a proximidade do Natal, ao contrário, talvez pela minha formação católica, vivo esse período com introspecção, porém festiva, literalmente gosto de colorir a casa e preparar listas de presentes e comilanças. Rabanadas a la Berenice não faltam! Ah, minha eterna avó!
Dou me conta que embora conviva diariamente com vários nem sempre fui presente. Essa tal internet que ora aproxima, sem dúvida, também cria muros. Levanta a mão quem não foi bloqueado ou quem, por ímpeto, não descartou alguém da sua vida. Perdemos pessoas, memórias e futuras histórias porque somos mal resolvidos e não sabemos lidar com problemas.
Já que moro longe dos meus, vê-los por chamada de vídeo é se fazer presença, mas sei deles realmente? Suas necessidades e anseios? Divido sonhos? Ainda sou da geração da carta e telefones fixo, à ficha e cartões telefônicos colecionáveis. E nessa época do ano, comprar cartão de boas festas para escrever algo era do mais alto apreço. Sem falar na frase por fora do envelope ao carteiro “vai com Deus”, “leva com carinho”, marcas de beijinhos e envelopes perfumados. O que trabalha no bairro é nosso amigo, Seu Reinaldo, testemunha de um amor à distância em tempos de telegramas, cartas e Embratel. O recebo em casa e mais que panetone e suco, a gente divide a memória e emoções. Falo especialmente com aqueles que viveram isso, dá saudade, né?! Veio a vontade de comprar cartões ou fazê-los, se fazer presente para tanta gente querida de forma gentil e delicada. Burlar a preguiça e a praticidade dos aplicativos de mensagens.
Há muito o que fazer nesse tempo de espera pelo Menino. Há reconciliações com a vida. Há diálogos e batalhas que precisamos realizar. Há ressignificações sobre quem somos e nossas relações... respiro fundo! Encontro porta retratos de natais antigos, os risos ecoam e enchem meus ouvidos. Meu coração também se aperta com a imagem daqueles que já não estão ao mesmo tempo que é afagado pelos que chegaram. 
Olho para o lado... há uma caixa de enfeites e uma árvore para organizar, quem sabe ao pendurar cada enfeite a gente arrume a vida. Quem sabe aprendamos no decorrer do advento e com a chegada D’Ele, que a presença é o melhor presente.

Diana Barbosa Gomes Braga, poeta, esposa e amiga fiel.


sábado, 1 de dezembro de 2018


A PRIMEIRA ESCADA ROLANTE DE FORTALEZA - OU ROLETA RUSSA CEARENSE
A escada rolante foi inventada em 1893, por Jesse Reno, em Nova IorqueEstados UnidosCharles Seeberger desenvolveu ainda mais as ideias de Wheeler, que então, juntamente com a Otis Elevator Company, usaram as melhores ideias de Reno e de Seeberger. O resultado foi a criação da escada rolante moderna.
Quando você está voltando cansado do trabalho e precisa pegar o metrô ou após aquelas compras prolongadas no shopping, nada melhor do que poder transitar entre andares no conforto de uma escada rolante. O que pouca gente sabe é que ela foi inventada e colocada em operação pela primeira vez na história há exatamente 125 anos, na cidade de Nova York. As coisas nessa época, porém, eram bem diferentes.
Conhecida como “elevador inclinado”, a primeira escada rolante foi instalada no dia 16 de janeiro de 1893 no Old Iron Pier, em Coney Island, Nova York. Neste local, a escada rolante ficou em operação por duas semanas, antes de ser deslocada para a Ponte do Brooklyn. Durante este período, estima-se que tenha transportado cerca de 75 mil pessoas.
A tecnologia desenvolvida há mais de 100 anos foi aperfeiçoada ao longo do tempo e hoje as soluções desenvolvidas pela indústria estão instaladas em todo o mundo em grande escala. Hoje, nos Estados Unidos, mais de 100 bilhões de pessoas/ano são transportadas por escadas rolantes. Na Europa são mais de 136 mil escadas rolantes instaladas.
No Brasil, o equipamento começou a ser produzido em 1947 e era mais habitual em lojas de departamentos. Com o surgimento de shopping centers e a construção de estações subterrâneas de metrô, as escadas rolantes foram se popularizando por aqui e hoje integram diferentes projetos.
É justamente no Metrô de São Paulo que está em operação a maior escada rolante do Brasil. Para vencer 12 metros de altura e cruzar dois níveis da estação República, na interligação da Linha 4 – Amarela com a Linha 3 – Vermelha do Metrô, ela possui quase 32 metros de comprimento.
Já no Ceará, ais precisamente em Fortaleza, a novidade das escadas rolantes desembarcou no final de 1957. E foi mais precisamente nas Lojas Brasileira – Lobrás, localizadas no térreo do Edifício Jereissati, que a Lobrás foi inaugurada no dia 09 de novembro de 1957, na esquina da Rua Major Facundo com Travessa Pará. A loja trouxe também a primeira escada rolante de Fortaleza, que despertou grande curiosidade da população. Em épocas natalinas, era comum as pessoas irem ao centro à noite (apesar das lojas estarem fechadas), somente para apreciar as vitrines.

Os mais aventureiros, no entanto, como todo moleque do Ceará que vaiou o Sol em plena Praça do Ferreira, se aventuravam com a mania nada salutar de descer a escada no sentido contrário, o que causava furor e quase sempre tombos espetaculares. Riu-se?! Pois vejam a presepada quando o assunto foi a chegada da primeira escada rolante em Sobral, a terceira maior cidade do Ceará, que até hoje carrega a pecha de ter buscado um dia ser a capital do Estado isso porque como Brasília – a capital do País – fica localizada no centro do Brasil, os sobralenses sempre metidos a bestas achavam que pelo fato da cidade em si estar localizada no centro do Ceará, merecia ser capital. Pode um negócio desses? Mas vamos à Sobral deste início de século 20, mais precisamente ao dia 24 de dezembro de 2012:
Um fato curioso aplacou-se sobre as terras de Ciro Gomes e abalou as redes sociais. Onde a primeira escada rolante da cidade causou estupor e tumulto generalizado na população local, tida como super antenada e altamente evoluída. Nos vídeos e fotos as pessoas se mostram curiosas, com medo e intrigadas com semelhante novidade até então desconhecida, ciscavam que nem pintos em lixo para experimentarem o progresso que chegava. Entre quedas relatadas e confirmadas as compras de Natal naquele final de ano lotaram a loja do Ponto da Moda, deixando as concorrentes a ver navios.
Verdade ou mentira, o fato é que a primeira escada rolante de Sobral virou motivo de chacota e muitos se perguntam como será a inauguração do primeiro shopping center de Sobral. O desenvolvimento da cidade é um fato concreto e, em breve, novas piadinhas serão deferidas aos acontecimentos em Sobral. É o preço que se paga pela cegada das novidades do novo milênio. Por essa nem Einstein que mandou uma comissão para comprovar a sua Teoria da Relatividade em Sobral aos 29 de maio de 1918, esperava.

Desavenças e rivalidades à parte, espero ter contado aos meus ledores mais uma engraçada página desse nosso Ceará de causos tão ímpares.
Para o amigo Eugênio Luiz, menino da Aldeota que adotou Sobral com seu novo lugar de habitação.
Túlio Monteiro, escritor e pesquisador metido a historiador. Fortaleza, novembro de 2018.




















quarta-feira, 28 de novembro de 2018


CAMELOS EM TERRAS ALENCARINAS? NO CEARÁ TEVE DISSO, SIM!



Certa vez o pintor francês François Biard em viagem pelo Brasil, escreveu em seus relatos que observara vários camelos a andar preguiçosamente pelas praias cearenses.
Um inveterado viajante, François Auguste Biard (1798 / 1882) chegou ao Rio de Janeiro em 1858 e logo cativou o ambiente da Corte, ingressando em sua intimidade. Contador de suas aventuras pelo mundo afora, cabia de ser excelente companhia, apesar de extremamente satírico e impiedoso crítico de tudo o que via. Percebia-se que estes artistas que chegavam, passavam a constituir atrativo cultural para uma elite social que vivia carente de estímulos que lhes ampliassem os horizontes intelectuais. E para isto os franceses possuíam condições de sobra, já que traziam as lições de Paris e, particularmente, dos recintos cortesãos. No caso de Biard, o exemplo é perfeito. Fora, na Corte do Rei Luís Felipe, retratista de grande prestígio e por esta razão obteve sempre os melhores favores de Dom Pedro II, que chegou a facilitar-lhe a instalação de seu ateliê numa sala do Palácio Imperial.
Foi censurado por infidelidade na descrição, posto que, no Ceará, não haviam camelos. Mas os animais de fato existiam naquelas plagas. Sim! Pasme o notável leitor que hora me prestigia. No Ceará imperial veio para cá uma leva de quatorze camelos pelos idos de 1859.
Comprados pelo governo imperial e vindos da Argélia como solução para o problema dos transportes no sertão, era pensamento das autoridades que, no Nordeste, o animal resistente à escassez de água e comida poderia ser boa pedida para tração e carga.
Foi então que o presidente da província José Martiniano de Alencar, pai do escritor José de Alencar, já pensando na aclimatação de camelos para aquele fim, incorporou em 1859 que a iniciativa do Barão de Capanema, importando do Norte da África quatorze deles, entre machos e fêmeas. Adaptaram-se e reproduziram-se facilmente no novo habitat, chegando ao número de vinte.
Porém, o pequeno rebanho sofreu com a falta de criadores especializados, apesar de terem vindo como tratadores dos mesmos quatro argelinos, mouros de turbantes que foram recebidos com certa reserva pela população, isso pelo fato de serem ferrenhos censores da religião cristã. A longa gestação das fêmeas, que dura cerca de um ano, ultrapassava os prazos pretendidos para a formação de criações maiores. Foi o fim do empreendimento.
Os animais que conseguiram se aclimatar foram utilizados, primeiro nas passeatas ou préstitos carnavalesco, depois viraram atração turística até suas mortes os alcançarem.

Sim, amigo, o Brasil, mais precisamente nosso Ceará Moleque, já chegou a importar até mesmo camelos da África na ação contra a seca no Nordeste. No dia 24 de julho de 1859, um barco francês que vinha de Argel desembarcou em Fortaleza 14 camelos e quatro argelinos, contratados para tratar os animais e ensiná-los a trabalhar na região.
Responsáveis pela ideia, o botânico Freire-alemão, o barão de Capanema e o poeta Gonçalves Dias tinham sido encarregados por d. Pedro II de encontrar soluções para a seca. Criaram, então, aquela que ficou conhecida como Comissão das Borboletas (1859/1861) Naquela época acreditava-se que o solo do Ceará escondia riquíssimas jazidas de pedras preciosas. Como o território era inexplorado, o desconhecimento dava margem a devaneios e fantasias, e não faltaram homens de notório saber a acreditar nos rumores.
O imperador D. Pedro II tinha um alto apreço pela ciência e pela pesquisa científica e motivado por algo mais do que a curiosidade de homem culto, o governante decidiu investir na exploração.

Entretanto, a expedição centrou fogo na circulação de mercadorias no Nordeste, que era feita em lombo de burro ou em carros de boi. Com a seca, os animais morriam, e o comércio parava.
Mais do que o comércio, a morte dos animais interrompia toda a ligação entre o sertão e o litoral. Foi então que Freire-Alemão, Capanema e Dias convenceram o governo imperial a substituir o boi e o cavalo por camelos, animais de carga mais resistentes à fome e à sede. Mas os camelos não resistiram à seca do Nordeste.
"História da Comissão Científica de Exploração", livro escrito por Renato Braga, não narra o fim dos camelos. Há registros de 1855 de discussão sobre a transposição das águas do rio São Francisco, onde o Deputado pela Província do Ceará, Marcos Antonio de Macedo escreveu relatório contestando geógrafos que achavam a obra inviável.

Prova irrefutável de que o Ceará é o estado brasileiro com mais esquisitices, essa dos camelos fica como mais uma dos homens e mulheres que um dia vaiaram o Sol em plena Praça do Ferreira e chacoteavam com os quimoeiros, carpideiras e gatos pingados da Fortaleza do século 19. Um grande abraço e até a próxima.
Túlio Monteiro, escritor, pesquisador e metido a historiador, novembro de 2018.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

POR MAIS FLORES NA JANELA! - DIana Barbosa Gomes Braga*

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Não sei vocês, mas recordas dos teus sonhos sobre casa, aqueles traçados com lápis de cor ou giz de cera, coloridas com canetinhas?

Ainda tento manter a casa com a cara de lar, ponho flores na janela para recordar a menina da infância que queria mais que um endereço para morar.

As flores suavizam a vida de quem olha a janela, seja por dentro ou por fora. E elas tem identidade, os mini cactos ensinam a resiliência e a florescer mesmo na aridez que a vida possa atravessar. Kalanchoe é ótima para presentear alguém que desejas prosperidade; mini rosas sempre lembram um afago n’alma e pedem beijos a beija-flores. E no Advento que se anuncia, a poinsenttia, traz a esperança de quem está para chegar em forma de Menino para que não percamos a esperança; voltar a ter fé em Deus e na humanidade.

Onde está sua caixa de correio e chegam contas, lá é seu endereço, mas lar é mais que isso. E o conforto da sua casa e a segurança não estão nos móveis e na TV 4k, nem no ar condicionado, nem na internet veloz e nem no banho quente. Esses luxos pagos pelo trabalho não garantem uma vida feliz, adianta cama vazia e sem calor de amor? Ninguém casa para estar só nas batalhas e nas alegrias do dia a dia. Ninguém precisa viver um comercial de margarina, mas se vive, oxalá! Embates e dificuldades sempre existirão, pois relações humanas pedem perseverança, confiança, significado e sentido; Do contrário, a gente passa a suportar e não conviver, deixa de dividir não apenas a TV na sala, mas o riso no meio do almoço de domingo.

Quando você fecha os olhos que pensamento vêm sobre sua casa? Olha ao redor e veja se sua casa é a morada que gostas de estar e pretende voltar diariamente? Se não consegues lembrar com um sorriso e há tristeza no olhar, é sinal que deixou de ser refúgio, conforto. E não falo só de materialismo. A gente habita ou mora junto, deixou de estar conectado com toda a parafernália tecnológica que usamos. Quem nunca passou Whats up avisando que o almoço está pronto ao invés de ir junto de alguém? E a rotina tem seu quê de charme, aquela rede ou poltrona preferida, aquele jeito de casa na ausência e a presença daquele que contigo constrói.

Lar é compromisso construído para que não desmorone. Parece ser simples, mas não é porque temos a mania de olhar a grama do vizinho, a vida nas redes sociais parece ser mais bonita e animada, enquanto isso a gente nem compra plantas, não cuida do cãozinho, não arruma a almofada e nem escuta a música que gosta. Dê atenção a você, aquilo que importa e precisa. Faça algo que comungue contigo.

Há muito de nós que desejamos o lar...
Há muito de nós que vimos a casa virá residência...
Mas todos desejamos o porto seguro.
Na janela a gente só não pode deixar a vida passar.
Nana BGB – de girassóis, violetas e cactos.
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*DIANA BARBOSA GOMES BRAGA, mulher, esposa, amiga e acima de tudo poeta.



sexta-feira, 23 de novembro de 2018





O PRIMEIRO CARRO DE FORTALEZA: MEMÓRIAS DE UM AUTOMÓVEL

Saímos aos pinotes, com uma barulheira infernal e soltando rolos de fumaça pelo pontiagudo calçamento da antiga Fortaleza. Quase púnhamos as tripas pela boca. As janelas enchiam-se de gente curiosa. Grupos formavam-se às esquinas. Corriam pessoas de toda parte. De repente, em frente ao Clube Iracema, o carro empacou, enguiçado, bufando. Rafael não lhe deu jeito. John Bernard sujou-se todo e nada conseguiu. Fui até à Praça do Livramento e arranjei, com um velhote que vendia água, dois jumentos que puxaram o automóvel até a garagem, com uns moleques que gritavam atrás: “Moço, me dá um tostão pra ajudar a empurrar”. (Gustavo Barroso).



Recordo que custei a polpuda quantia de 8:000$000 (oito contos de Réis). Mesmo sendo de segunda mão, fui importado dos Estados Unidos da América, em 1909, pelos senhores Meton de Alencar e Júlio Pinto, respectivamente sogro e genro, donos que eram da Empresa Auto Transporte Ltda.
A viagem no vapor de nome “Cearense” se deu sem nenhum alarde, tendo durado cerca de quinze longos dias entre maresias, sargaços e oxidações. Cheguei silencioso e sem funcionar adequadamente. Vinha eu para fazer história e nem sabia, pois iria trafegar de maneira um tanto precária, mas garbosa pelas únicas três avenidas de Fortaleza, onde não havia sinalizações e o que mais se via circular por elas eram bondes puxados a burros. Eram elas as Avenidas do Imperador, Dom Manoel e Duque de Caxias.
Relembro que meu trajeto entre a Alfândega, onde aportou o cargueiro “Cearense”, até às portas do Cassino Cearense (Cine Júlio Pinto), situado à Rua Major Facundo, número 64, se deu de maneira inusitada, uma vez que, sem funcionar, tive que ser rebocado por um jumento. E como somente minha estridente buzina funcionava juntamente aos meus faroletes, a população de então cismou porque cismou que eu era um veículo mal-assombrado.
Necessários foram vários dias até destrincharem o meu funcionamento. Depois de inúmeras tentativas, o dinamarquês John Petter Bernard e o Dr. Meireles conseguiram pôr-me em funcionamento. Entretanto, mal percorridos alguns metros dei a estancar, empacando de vez na Rua Formosa, bem em frente ao Clube Iracema, hoje sede da Secretaria de Finanças. Novo jumento e novo reboque até à frente do Cassino Cearense.
Como minhas andanças chamavam muita a atenção dos menos avisados, passaram a me testar durante a madrugada, onde quase sempre “dava o prego”, sendo necessário um desmancho quase que total, isso porque meu motor situava-se embaixo da lataria. A coisa era tão séria que em certa feita num desses desmontes lá pelas bandas da estrada de Messejana perderam a tampa do radiador. Fazer o quê se não havia loja de peças de reposição? A saída encontrada por Júlio Pinto foi, no mínimo, inusitada: anunciou nos jornais e outros periódicos da época que gratificaria generosamente quem encontrasse a tal tampa. O fato por si só gerou curiosidade da galhofa cearense e uma série de pessoas passou a procurar pela bendita, estrada de Messejana afora. Porém, como ninguém sabia a forma nem o tamanho da mesma, de tudo foi trazido às retinas incrédulas de Júlio Pinto e Meton de Alencar, sendo a mais curiosa delas um camburão de zinco totalmente enferrujado. Na encontrada a danada em questão, Peter Bernard improvisou uma. Ou seja, já se faziam, àquela época, as famosas gambiarras tão comuns nos dias de hoje.
E por tantos ajustes passei que praticamente fiquei irreconhecível. De tanto rodar pelas toscas ruas de uma Fortaleza descalça de asfalto, meus pneus se desgastaram. Também, não era para menos: até nos trilhos dos bondes me puseram a circular, tudo isso porque as bitolas dos mesmos eram exatamente iguais às de minhas rodas.
Resultado: nova troca e novas gambiarras. Sem pneus sobressalentes, os de borracha foram substituídos por rodas de madeira com aros de ferro, o que devidamente não foi bem aceito pelos transeuntes de então. Porém, continuei rodando nada incólume, diga-se de passagem. Mas se engana quem crê que percorri apenas as ruas daquela velha e saudosa Fortaleza. Não! Além de ir até Messejana, estrada do Arronches e seus arrabaldes, fui até Canindé durante suas tradicionais festas religiosas. Entretanto, é preciso esclarecer que semelhante viagem de mais de 100 quilômetros foi feita de maneira paulatina. Onde primeiro fui de trem até a cidade de Itapiúna e dali em diante por uma estrada carroçal.
Circulei, pois, por anos a fio. Sendo protagonista também do primeiro acidente automobilístico da cidade. Em uma barbeiragem, Rafael Dias Marques, na tentativa de desviar de transeunte, deu de frente com um muro, deixando apenas prejuízos materiais.












[1] RAMBLER: Em livre tradução do russo significa guerreiro ilustre. O Rambler 1909 – primeiro carro a possuir roda sobressalente – fabricado pela empresa americana Thomas Jeffery & Company.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

O PRIMEIRO RÁDIO DO CEARÁ - Túlio Monteiro*

Nós somos as cantoras do rádio,
levamos a vida a cantar.
De noite embalamos teu sono,
de manhã nós vamos te acordar.
Nós somos as cantoras do rádio,
nossas canções cruzando o espaço azul
vão reunindo num grande abraço
corações de Norte a Sul.

Carmen Miranda

1922, ano do centenário da Independência do Brasil e da Semana de Arte Moderna em São Paulo. Aqui pelo Ceará as comemorações foram bem singelas. Àquela época, Fortaleza era uma provinciana cidade de mais ou menos cem mil habitantes, isso por conta da anexação dos então municípios de Porongaba e Messejana – sim hoje são dois bairros de nossa capital, porém, há quase 100 anos, eram cidades. (Quem diria! Aquela província, hoje, é a sexta mais caótica e maior capital do País com uma população de 4.074.730! Milhões de almas logo ao amanhecer, a perambular, a trabalhar, dia após dia a testemunhar arrebóis matutinos e vespertinos a alaranjar nossos céus. Quem adivinharia?!)

Como já era de se imaginar, a Semana de Arte obteve um sucesso estrondoso em São Paulo, só perdendo em realização de eventos para as comemorações da Independência que ocorreram na então capital do Brasil, o Rio de Janeiro, por volta dos dias que antecederam e precederam o 15 de novembro de 1922. Aqui as comemorações foram modestas. Era tão pequenina a Fortaleza Descalça de Otacílio de Azevedo. A movimentação ficou por conta de muitos bondes elétricos lotados e o desfilar de dezenas de carros, alimentados a óleo diesel, por uma cidade quase totalmente livre de pavimentações, restavam-lhes amargurar pedras tocas das vias. Entre os quais estava um Ranbler vermelho de 1909, movido a diesel, o primeiro carro a circular em Fortaleza. e seu dono - vestido de preto - Clóvis Meton de Alencar.

Clóvis Meton de Alencar, um dos mais destemidos empreendedores de sua época, haja vista que dele foram as iniciativas de trazer para Fortaleza o primeiro automóvel, o primeiro cinema, a primeira fábrica de cimento e pregos[1]. Desbravador e homem de boa fortuna, Meton de Alencar, após visita à casa do então Ministro da Relações Exteriores, o também cearense Francisco Sá, nosso engenheiro metido a Professor Pardal, se encantou com um rádio que transmitia por ondas curtas as notícias de várias partes do Mundo. Corria o mês de setembro na capital Rio de Janeiro. Não deu outra: imediatamente Meton passou a procurar, infrutiferamente, peças para a construção daquele que viria a ser não só o primeiro rádio de Fortaleza, mas também o primeiro a ser construído no Brasil, segundo fontes seguras.

Para a realização de mais um ousado projeto, nosso Guglielmo Marconi percorreu as casas comerciais do Rio em busca da matéria-prima exigida no manual de instruções em forma de brochura com desenhos feitos à base de crayons de Conté, que ensinava como fazer um aparelho receptor para ouvir, direto de Paris, as irradiações emanadas da Torre Eiffel. Tamanha insistência e utilizando-se da lei de tentativas e acertos, Meton logrou êxito em seu dedicado planejamento, construindo de maneira caseira as bobinas, condensadores, soquetes, resistências e baterias. Era rudimentar a geringonça, mas que funcionava, funcionava.



Unidas as peças de fabricação própria às lâmpadas receptora 216 – A, de fabricação da “West Eletric”, empresa responsável pelas transmissões no Rio de Janeiro do alto do Corcovado – ainda sem o Cristo – das ondas curtas de alcance avaliadas entre 5.000 e 10.000 quilômetros, Meton de Alencar logrou êxito na fabricação de seu aparelho que fora montado em um pedaço de madeira e possuía 30cm de comprimento por 25cm de altura. Em quatro de outubro de 1922, diante de uma plateia compostas por amigos, ele sintonizou a Rádio Clube do Brasil, com sede no Rio de Janeiro, vindo a se tornar o primeiro homem a captar ondas de rádio no Norte e Nordeste brasileiros.

Hoje, Fortaleza conta com um sem número de rádios AM e FM, tendo como predecessora a velha e hoje extinta Ceará Rádio Clube, mais conhecida como PRE-9. Inaugurada que foi por outro mecenas, o libanês naturalizado cearense, João Demétrio Dummar, em 16 de agosto de 1932, sob o prefixo PRAT.

Fico por aqui na certeza de que trouxe à baila mais uma curiosidade sobre desbravadores e homens de visão que o Ceará já produziu e teima em produzir; esperando que vocês, nobres leitores, nobres leitoras, tenham realmente gostado das informações aqui contidas. Um abraço e até a próxima.

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Túlio Monteiro. Escritor, crítico literário e metido a historiador. Fortaleza, novembro de 2018. Antigas válvulas de rádio. Era preciso aquecer eletricamente o aparelho para só depois de alguns minutos o mesmo passar a funcionar.
[1] Para saber mais favor consultar: em Túlio Monteiro

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

O CEARÁ MOLEQUE DE MISTER HULL: SER OU NÃO SER BAITOLA - Túlio Monteiro

No Maranhão existe um termo exclusivo para designar os rapazes alegres, qualira. Dizem que a origem desse designativo, vem da época de sua colonização em que a fina burguesia e a alta sociedade introduziam a música clássica no ensino de seus herdeiros ainda imberbes. Entre os instrumentos da orquestra, a Lira tem um de porte mais avantajado. Em razão dessa sua forma e tamanho, dizem que os moçoilos optantes por tal peça de cameratas e bandas enfrentavam grande dificuldade ao se deslocarem, pois tinham de apoiar o peso do instrumento na lateral da região glútea, acarretando com isso um arrebitado "rebolado" e ao testemunhar a cena todos gritavam "Aí vai um homem (?) com a lira". Tal frase por redução virou co'alira, e depois, pela associação de arrebitado rebolado ao  andar de certos rapazes, virou um qualificativo, para muitos, pejorativo e de duplo sentido: qualira!
Sir Francis Reginald Hull
Mas qualira é um termo exclusivo lá do Maranhão. No Ceará, há também um termo bem original para qualificar tais rapazes alegres, o famoso "baitola". Sua origem está associada a um termo comum no meio ferroviário: "bitola", que significa o espaço paralelo que existe entre os trilhos, como forma de abalizar o caminhar das rodas de ferro fundido dos trens que ainda hoje circulam País afora. É, como se pode constatar, um termo bem técnico, porém, no Estado do Ceará, terra da molecagem que um dia vaiou o Sol em plena Praça do Ferreira por conta de o mesmo impedir que uma deliciosa chuva caísse nas Terras de Iracema, o vocábulo ganhou vida em pleno início do século 20 e tem a ver com um ilustre personagem cujo nome denomina uma das principais avenidas da capital alencarina. A história de baitola vem, portanto, de longas datas. Para buscá-la, vamos ao ano de 1892, início da Primeira República e período de vasto crescimento do Brasil.

Nessa época, em São Paulo, a empresa britânica de trens “São Paulo Railway” desembarcara suas primeiras levas de materiais pesados para a construção de uma das primeiras ferrovias brasileiras: A Santos / Jundiaí. Para amealhar mão-de-obra nativa, alguns técnicos ingleses foram enviados à Terra da Garoa com o intuito de executarem levantamentos topográficos e de localização no alto da Serra do Mar, por onde ainda hoje trafegam trens de carga ou de passageiros.

Em um desses primeiros desembarques dos vapores do porto de Santos, chegou uma sisuda, porém alegre figura inglesa de porte altivo e ferocidade sem fim no que dizia respeito a ser duro com seus comandados. Era Sir Francis Reginald Hull. Alto, forte, loiro e de modos para lá de refinados, Hull logo caiu nas graças de seus superiores por conta de seu modo britânico de conduzir as levas de operários que se amontoavam Serra do Mar afora.

Mister Hull permaneceu em São Paulo por mais ou menos três anos, onde depois de promovido ao cargo de Chefe da Terceira Secção executou brilhantemente três túneis, três viadutos compostos por pesadas estruturas metálicas, viadutos de pedra e cimento, além de mais de trinta eclusas abobadas. Emérito engenheiro, Reginald Hull após o término das obras em questão voltou para a Inglaterra, seu torrão natal. De 1895 a 1913 nada mais se soube dele, que, por certo, deve ter dado continuidade à sua vencedora carreira de engenharia civil.
Trem movido a vapor na Serra do Mar, São Paulo, início do século 20

Mas eis que, em 1913, desembarca no Porto do Mucuripe para trabalhar na Estrada de Ferro de Baturité – EFB, o nosso aclamado Francis Reginald Hull. Era uma época próspera para o meio ferroviário brasileiro e bem particularmente para o Ceará. Fundada em 5 de março de 1870, tendo como sócios o senador Tomás Pompeu de Sousa Brasil, Gonçalo Batista Vieira (Barão de Aquiraz), o engenheiro civil José Pompeu de Albuquerque Cavalcante, Joaquim da Cunha Freire (Barão de Ibiapaba) e o negociante inglês Henrique Brocklehurst, a EBP floresceu em berço esplêndido tendo como objetivo maior o escoamento da produção serrana de Pacatuba e Maranguape para o porto de Fortaleza. Posteriormente, após a assinatura do contrato com o Governo Provincial do Estado, o projeto, agora uma realidade, passou a ter como ponto final – ou inicial – a cidade de Baturité, à época a maior produtora de café do Ceará.

Foi então que Henrique Brocklehurst decidiu por mandar vir da Inglaterra para ampliar os domínios da empresa nosso já conhecido Mister Hull, que por aqui chegou com a pompa de sempre sendo recebido com honras de chefe de estado no porto do Mucuripe, como já dissemos no ano da graça de 1913.

Sempre portando um monóculo tipo “pinci-nez” e garbosamente bem-vestido, nosso personagem de trejeitos um tanto hilários chegou chegando. Vinha para pôr ordem na galhofa operária do Ceará, que costumava trabalhar, mas não sem antes se fartarem de generosas doses de cumbe. Pronto! Estava armado o circo. Um belo qualira, no dizer maranhense, somado à molecagem do cearense. Prato cheio para o que iremos narrar a seguir. E rio-me!

Apesar de seus trejeitos um tanto delicados, Hull, como já afirmamos, era enérgico quando o assunto era trabalho braçal. Não à toa foi chamado às pressas para colocar ordem na canalha. Trabalhadores, sim, porém sinceros admiradores da esculhambação tão cultuada na Terra de Alencar.

Apesar do exacerbado calor, verdadeira canícula, Hull, para se diferenciar, vestia-se como um lorde inglês, e como uma lorde inglês não se deixou abater pela molecagem que o cercava. Impôs ordem e deu um salto enorme para progresso local e contribuiu, de modo involuntário, para a fama do sarcasmo cearense. Por onde passava dando ordens aos seus comandados, era secretamente achincalhado. O motivo: seu português peculiar com entonações anglo-saxônicas era de morte!

Era enérgico o inglês! E se via um de seus comandados executando de maneira errada seus afazeres não se detinha às limitações de seu português anglófilo e imperava aos seus capatazes e comandados:

– Batam nessa “baitôla” corretamente, bando de incapazes! Querem ver um trem descarrilar?!

Sua insistência e preocupação com a bitola ["baitôla"] dos trilhos eram tantas que ao vê-lo se aproximar os da lida gritavam: "Lá vem o baitola! Olha o baitola!"...
 
Sorrio agora! Imaginando como devem ter sido engraçados os embates entre o sir "Baitôla" inglês e a Plebe cearense. Esperando, sobremaneira, que tenhamos vencido os certames! Né, não?!

Mas, como tudo tem começo e fim, Hull teve novamente de partir das plagas tupiniquins para voltar às suas origens inglesas. No entanto, sua paixão por terras brasileiras, principalmente a cearense, já estava a lhe atiçar o sangue e a libido.

No ano de 1921, ele desembarcou mais uma vez no Brasil, desta vez em terras baianas, Sim! Terras de negros retintos e, claro... deixemos para lá. Risos.

Desta vez como vice-cônsul da cidade Ilhéus e, logo após, superintendente geral da “The State of Bahia South Western Railway Company Limited”, onde desenvolveu um intenso trabalho no projeto e execução da construção da ferrovia que uniu Ilhéus à Vitória da Conquista e lhe valeu o reconhecimento público e participar em um romance de Jorge Amado no personagem do “coronel inglês”.

No entanto, Hull já havia adotado o Ceará como segundo torrão. Para lá retornando aos 6 de maio de 1933, desta vez definitivamente, como superintendente da “The Ceará Tramway Light & Power Co. Ltd.”, dividindo seu tempo com atividades de vice-cônsul do governo britânico no Ceará. Faleceu em 1951, no estado que sempre amou, hoje dando nome a uma importante avenida de Fortaleza.

Que o Ceará moleque nunca deixe de vingar.

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Túlio Monteiro, escritor, crítico literário e metido a memorialista. Novembro de 2018.





terça-feira, 13 de novembro de 2018

A INCRÍVEL TRAJETÓRIA DA FONTE DOS CAVALINHOS – NOSSA FONTANA DI TREVI - Túlio Monteiro



Hoje tratarei de um dos cartões postais mais antigos e simbólicos da cidade de Fortaleza: O Chafariz da Lagoinha. Peregrino como todos os monumentos do Ceará o são, tal edificação aportou em Fortaleza no ano de 1929 vindo da Alemanha encomendado que fora à empresa Herms Stoltz pelo então prefeito Álvaro Weyne (1881 – 1963).

Escolhida através de um catálogo, a estrutura era parte do projeto político de Weyne, então conhecido como o “prefeito das flores”, isso por conta de sua tentativa de embelezar a Fortaleza da Bélle-époque, que já possuía energia elétrica, mas ainda era abundantemente iluminada por combustores a gás. Por conta desse fato, um engenheiro inglês foi contratado especialmente para dar luz e vida à Fonte dos Cavalinhos, como posteriormente ficou conhecida tal peça, que foi esculpida em zinco e capeada em cobre. Sua descrição é de beleza singular sendo composta por três cavalos, três sereias (nereidas), oito cabeças de leões e quatro leões em forma de nuvens jorrando água por suas bocas.

Atualmente, a fonte se encontra instalada, desde 1984, na Praça Murilo Borges, mais conhecida como Praça do BNB, ode hoje fica a sede da Justiça Federal. Entretanto, sua estrutura está comprometida no seu todo. Oxidadas, as partes douradas contraíram tons verde-acinzentados, sem contar as visíveis marcas deixadas por pichadores inescrupulosos.

Outrossim, a nossa fonte peregrina já passeou pelos quatro cantos da cidade. Uma vez desmontada no início dos anos 1960, foi parar na Praça Clóvis Bevilacqua, mais conhecida como Praça do Direito, onde permaneceu até a metade da década, uma vez que, em 1965, foi requisitada pelo então Reitor da Universidade Federal do Ceará, Antônio Martins Filho. Mais uma vez desmontada e sendo sucateada, tornou-se então a Fonte dos Cavalinhos, sendo reerguida nos cruzamentos da Avenida da Universidade com Avenida 13 de Maio. Por lá ficou entre os anos de 1965 e 1966, onde os três cavalos foram devidamente batizados pelos heroicos universitários de então. Aos cavalinhos a fina flor da molecagem cearense – Sim! Aquela mesma que já vaiou o Sol – deu os epítetos de três dos mais fortes coronéis dos tempos de ditadura militar pesada. Passaram a se chamar então: Adauto Bezerra, César Cals e Virgílio Távora. A galhofa era grande e não faltavam aventureiros para jogar no interior da mesma, algumas moedas como a desejar sonhos inatingíveis.

Mas, como disse, nossa amiga fonte teve seus dias contados no cruzamento das aludidas avenidas, ainda descalças de suas sandálias de asfalto. Novamente desmontada a golpes de picareta, ela foi mutilada e parcialmente destruída sendo jogada às favas em um velho depósito da Superintendência Municipal de Obras e Viação (SUMOV), localizado na Avenida Sargento Hermínio, artéria que se localiza ironicamente no Bairro Álvaro Weyne. Por lá amargando um pungente ostracismo de quase duas décadas.

Em 1979, uma comissão nomeada pela prefeitura de Fortaleza e composta por nomes de peso como Ednardo Weyne, Zenon Barreto, Nirez, Honor Torres, Luciano Bandeira e Gilberto Brito, tentou, em vão, recuperar a aludida peça. Foram meses de análises químicas e estudos antropológicos. Tudo em vão. Tão depenada estava a coitada, que nada restou a não ser removê-la para o pátio Museu Histórico e Antropológico do Ceará, onde hoje funciona o Museu da Imagem e do Som (MIS). Mais uma década e meia de esquecimento.

O tempo avançou lento, indelével e inexorável como costuma ser. Até que, chegado o ano de 1983, quando após inúmeras tentativas frustradas já haviam sido feitas, o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) decidiu pela recuperação – dentro do possível – do Chafariz da Lagoinha. Sua reinauguração com a pompa que lhe é merecida ocorreu em 20 de julho de 1984, quando o Brasil efervescia em suas Diretas Já! e um sentimento de nativismo tomava conta de um País ávido por mudanças, coisa que não vemos mais hoje em dia.

Estava de volta à “vida”, pelo menos em parte, a sofrida fonte que em seus tempos áureos – anos 1930 – brilhava na Praça da Lagoinha como era e é mais conhecida a Praça Capistrano de Abreu, encantando gerações que pelas plagas da cidade de Alencar não mais caminham. No entanto, o descaso e abandono das autoridades competentes mais uma vez estão pondo em risco as estruturas quase seculares de nossa Fontana di Trevi. Está abandonado novamente o adorável monumento. Pelos seus canais de distribuição de água e sereias iluminadas já não corre a energia elétrica necessária ao seu embelezamento. Estando a mesma a padecer com seus vazamentos e oxidações desde o ano de 2013. Esperemos, pois, que as autoridades que hoje constroem VLT’s e viadutos Fortaleza afora incorporem o espírito inovador de Álvaro Weyne, devolvendo ao velho chafariz a beleza de outrora.

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Túlio Monteiro, escritor, crítico literário e metido a historiador, Fortaleza, novembro de 2018.