sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Boemia, Benfica, Belchior, Bienal - Kelsen Bravos*

Era o nono setembro da primeira década deste milênio. Gosto muito de setembro. Inaugura os bê-erre-ó-brós do ano; mas ainda tem a brisa amena de fim de inverno, algo parecido com o fim de outono e início da primavera no resto do mundo; não aqui, pois, no nosso Ceará, de modo amplo, há duas estações apenas, os nove meses de sol e os três meses de chuva. Se a quadra das águas é boa, o clima agradável permanece forte em agosto e vai até meados de setembro. Fortaleza fica, então, um paraíso.

Caminhar à beira-mar, nos fins de tarde até o chegar da noite, nesses agosto e setembro, proporciona sensação inesquecível de tão boa, fica fazendo parte da gente. Alguns só vão saber disso quando, bem longe daqui, derem por falta de alguma coisa em si mesmo. Vão ficar numa agonia de um num sei quê, até perceberem que a razão desse aperreio tem a ver com a falta em si da maresia aspergida pelo vento leste e o quebrar das ondas durante a caminhada na praia, sob o sol ameno das dezesseis até o sol-posto, com direito à água de coco geladinha, adoçada pelo contraste das gotas salgadas das brumas de espumas dos verdes mares bravios da terra natal.

O pôr do sol nos abduz e depois nos devolve a nós mesmos bem melhores. Uma experiência e tanto. Ela se potencializa, multiplica-se, torna-se plural, caso se esteja em muito boa companhia; e, se acontecer aquele hum-hum-hum-hum-hum... da canção Terral de Ednardo, ... aí tudo fica eterno.

Pois nesse nono setembro deste milênio, as meninas da Confraria do Café, nome de uma ação cultural - um bate-papo - que ocorria no espaço do café da extinta Livraria Lua Nova, me convidaram para falar de Boemia. Um profano sagrado tema para mim. Topei na hora.

Lembro delas avexadas com a pré-produção, se eu ia precisar disso e daquilo ou se num seria bem assim, seria assado. Eu lhes dizia sempre a mesma coisa: levarei uns textos, uns livros e o espírito boêmio. Levarei boêmios.

Acredito na simplicidade das coisas e na intensidade dos diálogos, mediados pela poesia. Queriam porque queriam saber do conteúdo e se o dito ia ser feito. Disse-lhes a mesma coisa, aliás, acrescentei um não sei. Quais os recursos vai usar? Gente. - eu respondia.

Ficavam num bem-humorado mas... num reticente ãh?!, num "Oi, como assim?!" de hoje (engraçado, hoje, até as falas, as expressões, os mungangos são carimbados, tudo igual de norte a sul do país golpeado...) A expectativa delas me deixou curioso. Lindas todas elas, cada uma a seu jeito; mas "cúmplices". O que estariam a preparar?

Chegou o dia, tive de abreviar minha caminhada boêmia à beira-mar. Rumei, sem me deixar abduzir pelo sol-posto, para um dos mais boêmios bairros de Fortaleza, o Benfica, mais precisamente o sonhado e boêmio PCdoB - Polo Cultural do Benfica, nosso Parnaso.

Quando entrei no Café que ficava no pavimento superior da Livraria Lua Nova, encontrei um cenário, segundo elas, boêmio. Capas dos discos do Waldick Soriano e congêneres, vitrolas com os vinis a tocar. Umas meninas com violões sentadas no chão e garrafas de bebida ao lado... elas caricaturaram como ninguém a boemia e os boêmios. A trilha sonora trazia Garçom, de Reginaldo Rossi. Era assim a interpretação delas da boemia; mas, me informaram, o convidado ilustre era eu, queriam me ouvir. Eu como convidado adorei tudo aquilo, dialogar é muito bom. Estava ali para isso.

Daí depois de chegar, sentar, ser apresentado, quis saber: Quem for boêmio ou boêmia, por favor levanta o braço. Fosse uma votação, a boemia estaria eleita por aclamação. Ao final do encontro, fiz a mesma pergunta, o número de adeptos reduziu bastante.

Falei que estávamos em um belo lugar boêmio, pois o lugar da boemia é onde o boêmio está. Costumo dizer que boemia é epifania que se constitui na gente. Ela está, portanto, em todos lugares e em lugar nenhum.

 Pedi que entendessem por boêmios aqueles que são contestadores, que têm o afã da liberdade, a emoção não lhes cabe em si, estão sempre - por mais que contidos - a transbordar de tristeza, de alegria, de inconformismo. Idealistas, por isso desconcertados do padrão. Daí a avidez com que vivem. Uma gente que por não caber em si reverbera arte e contestação em forma de poesia, música, dança, pintura, teatro, manifestos, política, enfim, na melhor acepção da palavra.

Por conta da intensa profusão de ideias, decorrentes dos infinitos questionamentos, não conseguem dormir, não cabem em si e buscam os encontros, buscam a noite, têm sede - uma imensa sede! - não a de vinho, mas de justiça, de liberdade. Daí a rebeldia, não aquela sem causa, mas a consequente rebeldia de, por exemplo, fazer o Polo Cultural do Benfica ser uma realidade, liberdade em expressão e expressão de liberdade.

Não podemos confundir boemia com a banalização da busca de satisfação, coordenada por interesses consumistas, seja de moda, de jeito igual de falar, de entorpecentes ou quaisquer drogas. Uma geração inteira a sublimar a insatisfação saciando os instintos, passando de homem a lobisomem e de lobisomem a lobo de si mesmo e da humanidade. A quem interessa uma juventude bêbada, sem causa, sem rumo?

Os boêmios somos resilientes, somos da estirpe que ficou de fora da Arca de Noé, mas tamanho é o nosso apego à Vida que chegamos a nado. Se por vezes um de nós esteve na segurança da Arca, enfrentou a sua imposição contra a livre expressão e a liberdade de ser, questionou a limitação de comportamento, a total anulação da idiossincrasia, pulou de volta ao revolto mar para viver todos os riscos das braçadas libertas.

Liberdade! Essa utopia nos move e cobra caro, mas sem lutar por ela melhor nem existir. Falei isso e falei que em vez da bebedeira melhor se embriagar de uma causa social, em vez de brincar de sofrência, melhor pisar no quente asfalto do dia a dia, em vez de fazer arte sem vivência, melhor viver o Cântigo Negro de José Régio, melhor ainda se alucinar e delirar com as experiências das coisas reais, como nos ensinou Belchior, se jogar no dilúvio da vida com toda coragem e medo.

Então li Vinícius, Antônio Maria, Airton Monte, citei Alfonsina Storni, Noel, Vessillo Monte, Lira Neto, Karlo Kardozo (ali presente), Ricardo Guilherme, Baudelaire, Carlos Emílio Corrêa Lima, Fernanda Meireles, fosse hoje incluiria Vander Lee, Alexandre Lucas, Efigênia Alves, Inês Pinheiro Cardoso, Ivânia Maia, Evaldo Lima, Ricardo Kelmer, Lidiane Moura, Paulo Maranhão, Andrea Vasconcelos, Gláucia Lima, Gero Camilo, Cláudio Ivo, Lúcio Ricardo, Cleudene Aragão, Fabiano Piúba, Mileide Flores, Lourival Veras, Karla Gomes, Klévisson Viana, Marcus Rocha, Ellis Mário, Teddy Williams, Adriana Calaça, Almir e Júlia, Elias, Mara Monteiro, Marcos Renato Silva, Zé Bocca, Benita Prieto, Rossana Mont'Alverne, Elvira Nadai, Nina Simone, Régis Freitas, Tino Freitas, Nelson Augusto, Túlio Monteiro, Chico Araujo... o tempo era pouco.

A energia presente na Confraria "Boêmia" do Café estava muito boa e intensa. Por fim, refiz a pergunta sobre quem ali era de fato boêmio. Uns disseram que o jeito deles era mais feliz. Aquiesci, pensando nos versos de Vinícius no Samba da Bênção. Muitas e muitos o eram sim, o brilho no olhar não negava. Preferiram, entretanto, ficar silentes ou responder que não, mas foi só da boca pra fora. Adorei isso, estavam já se levando bem mais a sério.

Incitei a todos e a todas a ampliarem esse papo, a replicarem a Confraria do Café, uma ação tão linda e numa livraria! Um clube de leitura. Conceito que defendo desde sempre e objetivamente desde 2002 como política pública. A Confraria do Café hiberna; mas os clubes de leitura estão espalhados Ceará adentro como espaço de promoção da leitura e convivência literária.

Na 12ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, da qual fui curador com Lira Neto e Cleudene Aragão, o Café Literário e a Fortaleza Boêmia, respectivamente, sob a tutela de Alan Mendonça, e Carlos Macêdo e Márcio Porto, foram um exemplar espaço boêmio. O Espaço Fortaleza Boêmia fez uma citação do Cais Bar - um dos muito redutos boêmios de Fortaleza que se desmancharam no ar, como o Cirandinha, o Estoril, a Estudantina (esta merece uma crônica à parte). Evocamos esses espaços na Bienal pela sensibilidade imensa de Fabiano Piúba e Mileide Flores, gestores de grande espírito público.

Não só o Café Literário e a Fortaleza Boêmia, a 12ª Bienal Internacional do Livro do Ceará inteira foi sim, por ser espaço de promoção do Livro, Leitura e Literatura e de convivência literária, um evento boêmio!, um imenso Clube de Leitura e muito mais. Sua arquitetura integrou Praça do Cordel, Mestres e Mestras da Cultura, Café Literário, Fortaleza Boêmia e Natércia Campos à feira de livros. Nossa proposta era oferecer modelos de espaços de convivência e fruição literária a serem replicados pós-bienal.

Até agora e por ora, estamos a cumprir a missão de dar exemplo de resiliência boêmia e convocar todos a unir forças por uma sociedade mais democrática, justa, amorosa e de respeito à Vida. Fico feliz porque, hoje, vemos eventos literários em espaços públicos e privados. Leitura e lançamento de livros, rodas de conversa, saraus literomusicais a ocuparem praças, a desligarem televisões em bares e proporcionar conversas estimuladas pela arte. É o que anda fazendo, a despeito disso, o Ricardo Kelmer. É o que anda fazendo, a despeito disso, Nelson Augusto. É o que faz, Inês Pinheiro Cardozo, com o seu Leituras na Praça, Ivânia Maia, nos Quintais, Andreia Vasconcelos, no Circo, Klévisson Viana, Lucarocas e o povo do Cordel, Alexandre Lucas, na Comunidade do Gesso em Juazeiro, Efigênia Alves em Jaguaribe, Toinha Araújo em Lisieux e Sobral, com Adriana Mesquita, Andrea e Taffa, é o que faz Célia Monteiro em Tamboril... É o que faz e incentiva Lílian Martins, em seu programa de rádio. É o que precisamos fazer em toda a periferia de Fortaleza e em todas as cidades do Ceará. Temos gestores da Cultura Boêmios! Oxalá já seja prenúncio de novo tempo da delicadeza. Evoé!

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Kelsen Bravos - professor, escritor, poeta, compositor, editor do Evoé!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Na bodega... de *cócoras com eles - CHICO ARAUJO*

Pois ele chegou chegando, como dizem hoje alguns mais jovens que eu.

- Como, exatamente?

- Primeiro entrou sem pedir a mínima licença, sem desejar boa tarde a ninguém, batendo as botas firme no chão como se soldado fosse e falando alto talvez para que toda a vizinhança da rua ouvisse a sua ordem:

- Bota aí um copo de pinga pra mim que hoje eu tô é arretado da vida e vou começar é pela quente.

- E o seu Luís serviu, invocado daquele jeito no estilo seu Lunga?

- Ia perder a venda? Também acho que seu Luís ficou foi meio assustado com aquele desconhecido chegando e vociferando. Seu Luís nem gosta de perder venda e também não gosta de se arriscar, né?

- E aí, no que deu?

- No que deu? Os dez que estávamos no bar paramos o que fazíamos e falávamos e ficamos olhando o desconhecido. Parecíamos onze apalermados, incluindo aqui o próprio seu Luís. O grandalhão nem botou pro santo; verteu o copo todo de uma talagada só e nem cuspiu nem avermelhou os olhos.

- Eita!

- Pois foi. Todo mundo atento a ele, ele percebeu. No silêncio, olhou pra cada um alguns segundos quase exatos, meio que assuntando, estudando. Aí olhou de novo pro seu Luís:

- Como é seu nome, bodegueiro?

- "Bodegueiro"? Chamou seu Luís de "bodegueiro"? Deu confusão...

- Deu não. Quem tava ali também ficou de boca aberta pela passividade do seu Luís, ele que não é de levar desaforo pra casa e acha que tudo é desaforo. Depois eu acho que entendi a falsa tranquilidade do "bodegueiro": ele estudava o desconhecido mal-educado; não sabia até onde um e outro poderia ir sem se criar problema sério.

- Luís. Todos me chamam de "seu Luís", ninguém aqui me chama de bodegueiro.

- Hummmm... Pois "seu Luís bodegueiro", eu sou Carlão. Só Carlão. E eu quero que o senhor me sirva agora uma dose da mesma pinga, mas só dois dedos, não mais que dois dedos desses meus, exatamente.

- O tal Carlão botou os dedos médio e indicador juntos colados ao copo e esperou que o seu Luís despejasse a cachaça. E antes de beber ordenou:

- Ô "seu Luís bodegueiro", bote aí uma dose igual a esses meus dez amigos que estão olhando pra mim. Bote aí que eu pago.

- Seu Luís encarou o tal Carlão e mandou o seguinte recado que fez todo mundo tremer um bocadinho, menos o desconhecido:

- Vou botar. Mas se me chamar mais uma vez de bodegueiro, o senhor sai do meu estabelecimento à força.

- Olhe, foram alguns segundos de silêncio, os dois se encarando, os outros dez observando os dois, até que o desconhecido deu uma sonora gargalhada e desculpou-se:

- Bem, bem, "seu Luís", o senhor me desculpe. Não queria aborrecê-lo. Se é dono de bodega e não gosta de ser chamado bodegueiro, não serei eu a chamá-lo assim. Então, seu Luís, pode abastecer o copo dos meus novos amigos com a bruta?

- Posso... Se eles quiserem. Se não quiserem, não pingo nem uma gota.

- Olhe, naquela hora pensei que as coisas fossem esquentar um bocadinho mais, que já estavam meio esquisitas. Ali no seu Luís, você sabe, tudo sempre foi na paz, nenhuma confusão até hoje, apesar da brutalidade do próprio dono. Mas naquela hora o negócio tava ficando esquisito demais. O tal Carlão que já se declarava amigo de todos os presentes olhou de novo cada um e jogou uma pergunta meio esquisita:

- E então, alguém aí vai recusar essa pinga?

- No novo silêncio que veio todo mundo olhou todo mundo, até eu me adiantar e dizer que aceitava a dose. Depois de mim todo mundo aceitou. Seu Luís, muito sério, botou as doses, todo mundo bebeu a que lhe coube e momentos depois o que se viu no bar foi um clima mais tranquilo, conversaria animada, gargalhadas e o tal do Carlão praticamente tomando conta de toda a falação, vozeirão que encobriu a fala dos outros. De repente ele olhou pro seu Luís e determinou:

- Seu Luís, o senhor agora suspenda a cachaça e sirva cerveja pra nós. Se preocupe não que eu pago.

- Eu olhei pro seu Luís e vi que ele me encarava, como que me dizendo de sua desconfiança daquele sujeito aparecido do nada. Um sujeito diferente de nós ali não só na voz e na arrogância sem disfarce, mas também nas roupas, nas botas, no corte de cabelo, no aparado da barba. O seu Luís foi colocando as garrafas de cerveja na longa mesa onde o Carlão abrigou todos e foi nessa hora que ouvimos a declaração impactante:

- Meus amigos, já percebi que vocês não se ligam muito em política. Já faz mais de uma hora e meia que estamos aqui e ninguém me reconheceu. Pois eu me apresento: sou Carlos Lopes de França – Carlão, para os amigos – e sou deputado federal.

- E isso é bom ou é ruim pra nós? Sei que ser deputado federal é muito bom pro senhor e pra sua família, mas é pra nós? Isso é bom, ou ruim pra nós? – levantou a voz um surpreso e sincero seu Luís.

- O tal deputado olhou firme pro seu Luís alguns segundos e falou não só para ele, mas para todos nós: Estou de mudança com minha família para essa cidade que possui melhores ares para a saúde de minha filha. Isso foi muito divulgado pela imprensa. Estou surpreso que não saibam disso. E afirmo estar à disposição de vocês para o que desejarem e precisarem.
- Houve novamente um breve silêncio, quebrado dessa vez pelo próprio seu Luís:

- Se é assim, senhor deputado Carlão, já posso trazer a próxima rodada de cervejas?

- O Carlão abriu o sorriso o mais aberto que pode e em meio a uma larga gargalhada disse apenas "Claro seu Luís, claro. Traga logo a próxima rodada de cervejas que estão bem no ponto do gelado. Ah, e veja também uns tira-gostos aí que o senhor tenha, que até agora não comemos nada".

- Eu tenho certeza de que vi o seu Luís sorrindo. Foi um sorriso rápido, bem ligeiro, mas eu tenho certeza de que vi. E eu nem me lembrava de que ele era capaz disso... Mas até agora não tenho certeza de que o sorriso tenha sido sincero, ou se foi irônico, ou se foi apenas desconfiança...
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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Na bodega... de cócoras com eles" foi escrito em 11/02/2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A BARRICA OU O BARRICA? NO CEARÁ TEM DISSO, SIM! - Túlio Monteiro*


Barrica: Óleo sobre tela - sem título

Abri o dicionário na busca aleatória de uma palavra iniciada com a letra B – como reza o projeto editorial de Kelsen Bravos para escrevermos um Abecedário de Crônicas – e me deparei com o substantivo feminino BARRICA, que nada mais significa para o “Aurélio” senão um tonel ou pipa pequena, de madeira, destinada a armazenar mercadorias em especial líquidos.

Imediatamente me remeti à história das Artes-Plásticas cearenses e voltei no tempo em época que eu trabalhava na FUNCET – Fundação de Cultura, Esporte e Turismo, àquele período regida pelo hoje saudoso poeta Barros Pinho, enquanto Fortaleza tinha como prefeito o médico Juraci Magalhães, na sua administração de 2001 a 2004. Bons tempos aqueles.

Lembro que a FUNCET estava instalada na rua Pereira Figueiras, número 4 e todos os eventos culturais de Fortaleza eram centralizados e decididos por lá. Eu, particularmente, era diretor da Galeria Antônio Bandeira e do Memorial Sinhá D’Amora, situados à rua Conde D’Eu, 560, prédio do antigo Mercado Central, então recuperado sob o projeto do arquiteto cearense Pepe Capelo como praça cultural coberta. Infelizmente, hoje sob a tutela do CCBNB – Centro Cultural Banco do Nordeste do Brasil, que tratou de remover de lá tanto a Galeria, quanto o Memorial, tão logo assumiu a direção do local.

Pois, bem! Mas de onde surge a pergunta que encabeça esta crônica? Eu respondo: Simples. Para além-Ceará, barrica é a barrica,  aquele substantivo comum feminino; mas para o Ceará e do Ceará para o mundo é o Barrica, substantivo próprio, cujo significado encapsula a arte pintora, ceramista, restauradora e desenhista, e representa o nome Guilherme Clidenor de Moura Capibaribe, homem nascido em 1913 no Crato e que viveu até o ano de 1993, quando se foi em Fortaleza. Clidenor adorava ser chamado de “Barrica” desde muito cedo por conta de ser gordinho e relativamente atarraxado, eis porque surgiu o nome que fez tal palavra deixar de ser substantivo feminino para nós e para a Cultura do Ceará. 


A importância de Barrica para o Ceará associa-se a de seus contemporâneos. Quando garoto aprendeu com o fotógrafo Valter Feliciano a técnica de pintar retratos e com o pintor e crítico de arte Carlos Cavalcante estudou pintura. Conviveu com os pintores Gerson Faria (1889 -1943), Pretextato de Bezerra (o TX) - autor do primeiro quadro modernista pintado no Ceará em 1936, fato que influenciou a tendência moderna de Barrica - e Otacílio de Azevedo (1896 - 1969).

Já homem feito, Barrica foi corresponsável por um divisor de águas nas artes cearenses quando juntou-se a nomes do porte de Antonio Bandeira (1922 - 1967), Aldemir Martins (1922 - 2006), Jean-Pierre Chabloz (1910 - 1984) e Estrigas (1919 - 2014) e fundou o primeiro grande movimento das Artes-Plásticas cearenses em 1941, e participou febrilmente do surgimento do agregador Centro Cultural de Belas Artes (CCBA), mais tarde transformado na Sociedade Cearense de Artes Plásticas (Scap), em 1944, que deu origem ao Salão de Abril de Artes Plásticas, hoje sexagenário.

Pois bem de novo! Mas o que tem a ver ter surgido do labirinto de minhas lembranças o tempo  em que ocupava um cargo de confiança na FUNCET? Eu respondo:  Complexo! É que logo na entrada daquela FUNCET, quem chegasse se deparava com um belíssimo armário todo construído em vidro contendo os pincéis, cavaletes, paletas, tubos de tintas e o último quadro – uma “marinha” ainda por ser terminada – do pintor Barrica. Eram os seus objetos de trabalho quando faleceu.

Lembro que quando a segunda prefeita de Fortaleza eleita assumiu, a Direção que eu ocupava  passou a não me pertencer mais. Chegou janeiro de 2005 e eu estava a passar todos os processos, regulamentos dos Salões de Abril dos Novos e Zé Pinto de Escultura, Memorial Sinhá D’Amora e, por fim, o acervo de quadros e esculturas contidos na FUNCET para uma moça quem me sucederia.

Relembro que fiz uma lista reunindo tudo o que ficava sob minha tutela, inclusive o acervo de nosso Barrica, quando a tristeza que me bateu machucou muito. Uma vez que havia posto os pés no chão e tomei consciência de que a equipe que eu gerenciava nunca mais iria se reunir novamente em sua completude. Saí de uma forma sincera e definitivamente, trancando a fechadura e pondo a chave por debaixo da porta, para não pensar em uma volta... Passaram-se uns dois anos até que eu tivesse coragem de voltar ao prédio da FUNCET, quando decidi que era hora de saber se tudo o que havia por lá havia sido conservado.

Surpresa!

Mal pus os pés na entrada, já me deparei com uma parede cor de gelo no lugar de onde antes repousavam as relíquias de Barrica. Busquei saber imediatamente o que havia ocorrido e recebi como resposta que as mesmas haviam sido “removidas” para dar mais espaço ao local. Aquilo doeu, minha gente! Isso porque não se sabe até hoje, quase 15 anos decorridos, onde foi parar tal acervo. Das coisas que Barrica deixou antes de partir nunca mais se soube e a última notícia que tive é a que seus descendentes haviam entrado com um processo para recuperar o que pudesse. Uma flagrante constatação de como parte da memória cultural do estado do Ceará está deixando de existir.

Fico por aqui, crendo estar cumprindo com o desafio lançado pelo escritor e agregador de talentos Kelsen Bravos. Quarta-feira é a vez de Chico Araújo!
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*Túlio Monteiro - Escritor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Antagônico medo de mulher - Kelsen Bravos


".. eu tenho um pouco de medo de... não.. de mulher... talvez..." (V.M)



A palavra antagonismo bem merecia não existir; não existisse, entretanto, qual seria a necessidade da inteligência e da capacidade de se comunicar para se entender? Pensem bem, pois estamos a falar da principal razão de ser humana: conviver em harmonia! Entretanto, asseguro-lhes, as responsáveis pelo avanço das relações são as discordâncias. Daí a importância das pendengas antagônicas.

Pendenga antagônica que se preze não se resolve no âmbito abstrato das convicções sem provas. Não, senhor! Não, senhora! Uma questão bem complexa só terá conclusão eficaz, se for lastreada por apelo empírico como a ilação de Vinícius de Moraes no Poema Enjoadinho: "Filhos... Filhos? / Melhor não tê-los! / Mas se não os temos / Como sabê-los?". Solução harmônica ideal, aquela sem ter comprovação da experiência nos fatos vividos da vida, não vale. Tem de ser empírica "Como dizia o Poeta": "quem já passou por essa vida e não viveu / Pode ser mais, mas sabe menos do que eu/ Porque a vida só se dá/ Pra quem se deu / Pra quem amou, pra quem chorou / Pra quem sofreu, ai / Quem nunca curtiu uma paixão / Nunca vai ter nada, não..."

É também do Poetinha - a quem Antônio Maria, com razão (e emoção!), chamava de Poesia - a frase entre aspas da epígrafe deste arremedo de crônica. Foi uma resposta de Vininha a Otto Lara Resende numa entrevista, em 1977, no quadro Painel, da ("pé de pato mangalô treis veis") tevê Globo.

"- De que você tem medo, Vinícius? - sonda Otto Lara Resende.
- Hem?... - entrediz o Poetinha.
- ... é um homem tão corajoso! - estimula Resende.
- ... Eu tenho um pouco de medo de, de... não.. de mulher, talvez... - responde reticente e sincero entre risos.

Lara ainda pergunta se ele sobreviveria sem mulheres, sem a presença feminina, ao que ele diz achar que não, que, para ele, mulher é fundamental. A entrefala segue maravilhosa. Vale mil crônicas! Quem sabe...

Fiquei, entretanto, surpreso do medo maior do Poesia. Logo ele, quem tanto se doou a mulheres. Ora! Isso requer coragem, muita coragem. Depois concluí ser o medo o antagônico mais radical da coragem, entre os quais não há conciliação, apenas a necessária convivência, pois um é a razão de ser do outro. O medo existe para a coragem e a coragem existe para o medo. Qualquer outra coisa nessa ou dessa relação - a covardia ou prepotência, por exemplo - é corruptela de ambos. Só o corajoso tem medo, o Poetinha está certo. Tenho esse medo.

Apenas imagino alguns dos motivos para o medo de Vinícius de mulher. Sei que ele esteve aqui para viver o seu grande amor. Se viveu, não sei; mas buscou viver, ah como buscou. Teve muita coragem para tanto. Dos motivos meus, tenho vaga ideia, pois é também medo com talvez e tudo; sobretudo, com a necessidade fundamental, imprescindível da mais que presença delas.

Essa prerrogativa de o universo feminino ser imprescindível não se restringe a mim, nem ao Poesia, nem a alguns homens, nem a algumas mulheres, pois a necessidade da fundamental presença feminina é universal ao gênero humano.

Desde sempre, dos mais primitivos tempos aos nossos dias, a mulher tem sido fundamental e imprescindível. Embora a subjugação ao ponto de vista do macho tenha prevalecido durante milênios, a mulher sempre foi - e é - superior, porque mais inteligente. A maior prova está no fato de quanto mais embrutecida, mais animal (menos racional) tenha sido uma era, menor era a expressão da mulher do ponto de vista da hierarquia social.

Ao longo da história, toda vez que a mulher se insurgiu contra a injusta condição a ela imposta, foi repelida de forma brutal. Foram imoladas como bruxas, libertinas, diabólicas, desagregadoras sociais, toda variedade e força dos preconceitos usaram contra as mulheres para lhes fenecer qualquer ímpeto e subjugá-las. Tamanha opressão lhes fortaleceu a inteligência para resistir com estratégias diversas. A mulher tem, por isso, essência antagônica, e por maior rival a sociedade machista, seja ela de qual cultura for.

O feminismo é o coletivo da essência antagônica da mulher organizada em movimento ativista. E, claro, se opõe ao mais machista dos sistemas, o mais reificador, o mais opressor, se opõe ao sistema capitalista e a sua pior expressão que é o consumismo, que torna a tudo e a todos descartáveis.

O feminismo alimenta a essência do meu medo, pois me dá coragem. A mulher coletivamente me dá o medo como alimento necessário à minha coragem para lutar por um mundo melhor, por um mundo mais feminino. Sou feminista, portanto, anticapitalista sou. Minha luta combate o consumismo que reifica as pessoas e as relações.

A sociedade de consumo tem hoje formas sutis de repressão, a banalização é uma delas. Banalizaram, por exemplo, a violência de forma tão contínua ao ponto já termos uma sociedade anestesiada ante o escândalo de um homicídio e dos mais profundos desrespeitos aos direitos humanos por parte de quem tem como obrigação essencial zelar por eles. Uma situação tão perversa que as pessoas ou nem ligam ou acham normal e até aderem.

Da mesma forma banalizaram a sensualidade, o sexo, banalizaram o tesão. Estão também a banalizar a mulher. Reduziram a mulher à bunda, a tetas. Antagônicas a isso, as mulheres, numa inteligente estratégia, tentam agora dar “voz” à bunda, querem emancipar a bunda. Exacerbam a bunda feminina no universo machista, onde a bunda já é tão banalizada; expõem a bunda, facilitam a bunda, mas quando os machos querem a propriedade da bunda, eles sofrem o impacto do não, pois a bunda faz parte do todo de um ser pensante. Que o “não” é “Não!" Merece respeito, senão é estupro. E é sim! Estão certas! Tomara que dê certo! Mas tomara que a sociedade de consumo não se aproprie disso e banalize o não.

Esse, digamos, Movimento de Emancipação da Bunda me dá um medo… Não sabem as feministas das sutilezas da opressão? Não sabem que a banalização é uma das mais sutis formas de repressão? Sim, claro, sabem sim. As mulheres sempre foram e são mais inteligentes. Por isso me causa espécie ver mulheres, em uma estratégia de princípios homeopatas (aquela de curar doenças com substâncias semelhantes), apoiarem sua luta em argumentos e fatos machistas, consumistas, reificadores. Se dizem anti-sexistas e anti-machistas, mas, de fato, estão a promover o sexismo, o machismo. Mesmo que seja uma arapuca para capturar machistas, é uma promoção.

Na arte, tal estratégia se expressa na tentativa de reverter a coisificação representada na mulher objeto (a beleza em série, modal, a mulher-sexy, a mulher-bunda e catervagens afins), explora exatamente a beleza artificial da mulher fatal de bunda sexy e seios fartos. Uma mulher só linda, sem essência. Uma coisa-linda que, contudo, diz não. É sim uma atitude de muita coragem; porém, por não se diferenciar do contexto capitalista, corre o risco de ser anestesiada digerida pelo sistema a que se opõe. Pode não passar do homeopático efeito placebo, por falta de tomada de consciência, e, observem, já está acontecendo. Mais dia menos dia é capaz de interessar Harvard.

De fato, Povo do Meu Bem-querer, a palavra antagonismo bem merecia não existir; não existisse, entretanto, qual seria a necessidade da inteligência e da capacidade de se comunicar para melhor conviver? A vida não é brincadeira, como nos disse tão corajosamente o Poesia: “é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida…” vamos pôr mais amor nas nossas relações, pois as pessoas não somos coisas, temos vontade, desejos e sonhos… por isso somos opostos e sempre os opostos se atraem, mas acima de tudo somos semelhantes e devemos cuidar para as nossas semelhanças não anularem as nossas diferenças, sem elas não haveria razão de ser. Um beijo azul. Evoé!

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Kelsen Bravos - professor, escritor, poeta, compositor, editor do Evoé!.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Antagônico - CHICO ARAUJO*

Ele dizia que sim, mas acabava no não. Afirmava que não, e descambava no sim. Era assim.

Em certa ocasião, convidou dois amigos para alguns chopes em um bar recém-inaugurado, pois já conhecera e afirmava ser simplesmente o mais aconchegante, exuberante, cativante espaço para libações alcoólicas em companhia de boas amizades e no saboreio de petiscos inigualáveis.

Foram os três extasiados na mais pura alegria, numa irmandade insuspeita, ao bar que, de antes para aquele instante transitou do melhor para o pior ambiente para confraternização franca e honesta.

- Amigos, não é por nada não, mas esse lugar aqui tá cheio demais pro meu gosto. A gente nem pode conversar à vontade; a impressão que dá é que todo mundo tá escutando a gente.

- Não entendi – disse um dos amigos –, foi você que nos trouxe para cá com estupendas referências.

- Posso cometer enganos, não posso? Sou humano, não sou?

- Tem todo o direito a enganos – disse o outro –, mas acho estranho endeusar um lugar, sugeri-lo e depois o demonizar. Além do mais, acho mesmo que você está exagerando; aqui até que tá bom...

- E esse chope... Tão achando aguado não?

- Pra mim está em ótima qualidade, bem encorpado e saboroso.

- Se você tá dizendo, então tá. Posso estar exagerando, como posso ter me equivocado.

Ficaram no bar por insistência dos amigos, que não quiseram arredar o pé de lá, até porque os tira-gostos pedidos estavam no ponto exato do sabor exigido por quem deseja... tira-gostos... e os chopes estavam, segundo eles, no ponto exato da temperatura ideal. Estranhamente, ele até sugeriu que procurassem outro bar. Ficou o trio, porém.

Houve um dia em que recebeu convite dos mesmos dois amigos para irem a um show musical de um dado artista nacional, conhecido, famoso, aceito como pelo menos bom em distintas camadas sociais. E ele:

- Vocês têm certeza de que querem ir a esse show?

- Claro! Por isso o estamos convidando para ir junto. Somos um trio, não somos?

- Somos um trio, mas vocês querem mesmo ver esse cara e ouvir essas musiquinhas que ele faz? É verdade isso?

- Não sei por que esse seu espanto; o cara é quase unanimidade nacional e você fica com implicância. Se não quer ir mesmo, é só dizer que não vai e pronto. Seus dois amigos aqui vão e você fica em casa, ou faz qualquer outro programa que lhe apeteça.

- Tudo bem, eu vou. Mas vou por vocês dois, pela companhia de vocês dois. Gosto muito de vocês e dessa nossa companhia. Mas que o cara é um chato e artista de pouca qualidade, isso ninguém pode mudar. Ninguém.

E foram. E estava concorrida a bilheteria do cineteatro, tanta gente querendo ver o "artista de pouca qualidade". Ele se impressionou com aquilo:

- Como é que pode toda essa gente comprando ingresso pra ver esse cara?

- Vai ver ele tem algum valor, mesmo que você não veja.

Mas foi só o show começar e ele se entregou à parceria com a multidão. Cantou junto – conhecia muitas músicas do "desqualificado" –, movimentou-se como se dançasse, sorriu, bateu palmas, até pareceu feliz. E nitidamente saiu do espetáculo extasiado.

Fazer o quê? Ele era assim. E embora vez em quando os amigos comentassem aquelas suas confusões, contradições, radicalismos antagônicos, sua tendência era não dar crédito a eles, até eles se afastarem e o deixarem sozinho em total companhia apenas dos pensamentos. Aí ele refletia e, algumas vezes, achava haver certeza no que fora falado pelos amigos, até o instante em que se encontrava novamente com sua condição máxima de considerar os amigos completamente equivocados.

Mas houve mesmo uma situação determinantemente marcante de sua condição de ser recheado de posições antagônicas. Entendeu que a melhor coisa a se fazer no Carnaval era ser... carnavalesco. E como o Carnaval estivesse bem próximo, saiu pelas lojas da cidade a procurar roupas as mais extravagantes possíveis para selecionar a melhor às festanças mominas.

Acabou por envolver os dois amigos nessa sua vivência, entusiasmados pelo entusiasmo dele com o Carnaval. E se acertaram. E decidiram vestir fantasias iguais, por sugestão dele. E no fim decidiram que se encontrariam no bar onde mais bebiam juntos – o “Bar dos Decididos”. De lá sairiam juntos para a brincadeira no Bloco dos Desgarrados, percorrendo ruas do Centro da cidade.

Na hora marcada não apareceu. Compreendera que Carnaval não era festa onde deveria marcar presença.

Pelo que soube, os amigos resolveram deixá-lo um pouco de lado a partir de então; mas depois começaram a sentir saudades dele e chegaram a pensar que talvez ele não merecesse ser tão ignorado.

De minha parte, sei que laranja cortada ao meio reparte-se em duas. Mas para saboreá-la bem, talvez o melhor corte seja em forma de cruz...

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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título Antagônico foi escrito em 12/02/2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Abecedário das Crônicas do Evoé!

Propus aos cronistas semanais deste Evoé! um prazeroso desafio: fazermos um Abecedário de Crônicas. A ideia consiste em escrever textos inspirados por palavra iniciada pela letra da semana, a começar pela letra A indo até a letra Z. Serão 26 semanas, três autores e 78 crônicas ao todo. O desafio começa no dia 12 de fevereiro e segue até a semana do dia 7 de agosto de 2018.


As publicações ocorrem na segunda, na quarta e sexta de cada semana. Na segunda-feira, publica-se a crônica de Túlio Monteiro; na quarta, a de Chico Araujo e, na sexta, a deste que ora vos fala: Kelsen Bravos. A única questão pétrea é ter como geratriz uma palavra iniciada com a letra da semana.

Já está publicada a prazerosa crônica de hoje (12/02) de Túlio Monteiro: "Anáguas, saias do meio e lençóis de núpcias", para ler clique no título da crônica.

Os cronistas em ordem alfabética:

Chico Araújo - pseudônimo de Francisco Sérgio Souza de Araújo, professor, poeta, cronista, contista, cantor e compositor.
Publicações: O menino e o outro menino (infantil, Editora e Gráfica LCR, 1997); O relógio de parede,(contos, Editora e Gráfica LCR, 2000);  Aziul - uma história de Luz e Sombras (infantil, EdCdC, 2008); Versos de setembro (poesia, Edição do Autor, 2008); entre outras coletâneas em prosa e poesia. É articulista do Evoé!



Kelsen Bravos - professor, editor, escritor, compositor, consultor na área do livro, leitura, literatura e cultura digital. Publicações: Batatão - a lenda da lagoa do Tapuio, O Grão e a Estrela Cadente, Toc teleco teco da vovó, Palavras ao vento, Família Pintassilgo, Serelepe e Bem-me-quer, Ventos da Esperança, Papai no trabalho, Papai no trânsito, Papai na comunidade e Cruck, crock, creck, crick, CRACK, todos voltados para crianças. Editor do blog Evoé!



Túlio Monteiro - Marcus Túlio Dias Monteiro - poeta, cronista e antologista cearense. Em 1995, trouxe à luz Agosto em Plenilúnio, uma coletânea de 50 poemas seus, tendo ganho, em setembro de 1999, o 2º Prêmio Ideal Clube de Literatura, com a crônica Dois Dedos de Prosa com Graciliano Ramos. Em 2002, pelas Edições Demócrito Rocha, publicou Sinhá D´Amora – Primeira-Dama das Artes Plásticas do Brasil, livro que narra a saga artística de Fideralina Amora Maciel, mais conhecida como Sinhá D´Amora, mulher de fibra que partiu de Lavras da Mangabeira, no interior do Ceará, para conquistar o mundo das Belas-Artes. Em 2004, organizou e publicou pela Coleção Terra da Luz, das Edições FUNCET, a Antologia de contos Cearenses, uma reunião de textos de 32 dos melhores contistas do Ceará nos últimos 150 anos.



ANÁGUAS, SAIAS DO MEIO E LENÇÓIS DE NÚPCIAS - Túlio Monteiro

Não sou fã de televisões. Isso é fato! Para mim, hoje, elas burrificam mais do que ensinam. Entretanto, por costume ou mesmo por curiosidade quase sempre que passo em frente a um desses palimpsestos do século 21 torna-se quase impossível não dar uma olhada, mesmo que rápida, para ver o que está a ser divulgado naquele momento.

Por conta disso, deparei-me com o fato de que a “Virgem Platinada” anda investindo pesado em novelas de época, arriscando-se até chegar à era Medieval com seus castelos, capas e espadas. Notei também que belos artistas passeiam para lá e para cá em seus impecáveis trajes exibindo belos corpos. Ah! Porém as mulheres são de tirar o fôlego com seus vestidos longos cobrindo-lhes até os pés, mas com decotes para fazer qualquer um querer viver em semelhante época de castidades, onde uma virgindade era defendida a ferro e fogo.

Foi em uma dessas clarezas súbitas da mente que lembrei de como funcionava o sistema para que uma virgindade fosse retirada nos tempos de nossos avós. Digamos, uns cento e poucos anos atrás. O que vou lhes narrar a partir de agora só acontecia nas famílias mais abastadas, onde muitas vezes os casamentos eram arranjados pelos pais dos noivos para unirem fortunas, garantindo assim um respeitoso aumento de patrimônio.

Pois bem, os nubentes se conheciam e passavam um tempo a namorar sob o olhar vigilante ora dos pais, ora de irmãos ou até mesmo de avós. Podiam, no máximo, trocar olhares, um tocar de mãos, sorrisos, tudo isso com hora marcada para o rapaz pôr o pé na estrada de volta para casa em tardes-noites dos finais de semana.

O tempo passava lento enquanto os preparativos para o casamento iam sendo executados amiúde. Da noiva era exigido tudo. Desde um significativo dote financeiro até a castidade mais absoluta. Isso mesmo, era necessária uma virgindade absoluta das moças casadoiras de então. Sem ela – a famigerada virgindade – nada feito. A bela caía na boca do povo e pronto: estava com a vida arruinada.

Era a época da Revolução Industrial, nascendo nesse tempo a sociedade de consumo. Por conta disso a burguesia estava com grande prestígio, afinal era uma época de prosperidade que influenciou a moda e para se destacarem como aristocratas de então, todos vestiam-se como mandava a regra..

As mulheres, para evidenciar seu caráter, vestiam-se da cabeça aos pés de modo amplamente recatado, usando acessórios torturantes. Os ombros dos vestidos ficaram estreitos, a cintura teve que baixar. Os espartilhos ficaram pontudos e as mangas chegavam até os pulsos. As saias eram redondas e o excesso de anáguas propiciou a criação de um novo tipo de armação para elas: a crinolina, que nada mais era que uma saia de aros de aço, uma tradução bem literal de hoop skirt. O termo se refere a uma série de aros flexíveis de um tipo específico de aço, que eram moldados no formato de uma armação de saia que imitava a silhueta da época. Essa belezinha, que tornou as várias camadas de anáguas dispensáveis e deu uma aliviada no peso das roupas, apareceu pela primeira vez em 1856. A patente é francesa, atribuída a Milliet de Besançon, e, ao contrário do primeiro mito em torno da crinolina, não há evidências que comprovem que ela tenha sido criada a pedido da Imperatriz Eugênia da França.

Era bem assim naquele tempo. Mas voltemos ao casamento e à tão esperada noite de núpcias de então. Ao noivo cabia ser digno, cavalheiro e mostrar aos outros a sua virilidade. Como fazer isso? Como comprovar que era virgem sua agora esposa? Como saber que realmente tinha sido o primeiro a desvendar os segredos dela? Foi simples a solução: não se sabe bem onde surgiu a tradição do “furo no lençol nupcial”, mas alguém teve a ideia de fazer um corte em determinada altura do lençol. No ritual, a noiva deitava-se primeiro, despia-se e cobria-se com o tal lençol. Até então, só era permitida entre quatro paredes a velha conhecida posição “papai-mamãe”, o que só propiciava ao noivo a penetração frontal e tradicional.

Pela manhã, era costume o noivo mostrar aos parentes mais próximos, o lençol manchado de sangue virginal como forma de comprovar a castidade de sua mulher. O que gerava uma festa de urras e palmas na casa onde se hospedava o casal.

Hoje os tempos são outros e as roupas seguem ditando a moda. E ao cabo de século e meio as mulheres avançaram, tomaram seus espaços e alinharam-se aos homens, podendo vestir o que bem entenderem. Afinal, vivemos uma época em que virgindade é uma coisa “careta” e ultrapassada; uma época em que a anágua, em vez de acessório, pode ser principal vestimenta de recato.

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*Túlio Monteiro - Escritor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

DILEMA - Chico Araujo*

Chegou e já avisou ao amigo que se encontrava em profundo dilema.

- Qual?

- Palavras.

- Palavras?

- Palavras!

- Pode explicar?

Faz alguns dias já. Mas aconteceu de repente. Eu estava com uma frase quase pronta, já ia registrá-la e, sem mais nem menos, ela me escapou.

- A frase...

- Não, a palavra que comporia a frase que por sua vez daria robustez ao texto.

- Por que não pôs outra? Há diversas maneiras de se dizer algo que se queira.

- Mas naquele instante somente haveria uma forma para eu declarar o que queria fosse declarado e para que assim acontecesse, na exata medida, sem tirar nem pôr, todo o pensamento plenamente ajustado, só com ela eu conseguiria. E ela estava ali, comigo, bem pertinho, mas de repente...

- De repente...

- ... de maneira inusitada desviou-se de seu rumo, embrenhou-se em outro destino, misturou-se em meio a outras disputantes daquela oportunidade e... sumiu... desapareceu de meu pensamento de tal maneira que até hoje não a encontrei. Esse fato, essa fuga tem me atrapalhado um bocado.

- Mas por quê?

- Porque como ela era a palavra exata, precisa, não existe outra para o seu lugar, então, o pensamento que existia, o próprio texto que escrevia não pode ter completude, não pode ter seu começo meio e fim. Começo ele teve e, de certa maneira, está em seu meio, mas não chegará ao seu fim, exatamente por causa dela, da fugitiva. Uma fugitiva a me afligir.

- Por que não tenta encontrar uma substituta no dicionário?

- Mas como? Se ela fugiu, se desapareceu ou mesmo se escondeu em algum lugar na minha cabeça entre tantas palavras e expressões coexistindo, como encontrar substituta? Simplesmente não sei nem mais qual era a palavra. O que sei é que ela era basilar, fundamental. Sem ela, necas de pitibiribas...

- Eis aí seu dilema.

- Sim. Não tenho como dar continuidade ao que escrevia, ao que pensava.

- Pois parte pra outra escrita.

- Seria uma alternativa; contudo, não tenho conseguido essa façanha, pois me persegue o desejo de encontrar a palavra ajustada. Tenho absoluta certeza – não mera convicção – de ter ela o significado essencial para o pensamento quase desenvolvido por completo. Sei da importância de tudo o que dizia. Os textos sempre precisam dessa característica: importância.

- Insisto que o melhor caminho talvez seja escrever um texto outro. Quem sabe não encontra no processo de escrita dele a fugitiva do anterior?

- Talvez tenha razão. Mas, onde foi se esconder aquela danada, a ponto de me deixar assim, prostrado, sem ação? Para mim vai ser difícil lidar com esse fato de não poder dizer aos possíveis leitores algo que me propunha dizer. Então, como dizer outro algo?

- Para seu próprio bem, será melhor tentar.

- ...
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*Chico Araujo (Sérgio Araujo) - publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Dilema" foi escrito no dia 31 de janeiro de 2017. Leia mais Chico Araujo no blog Vida, minha vida...

domingo, 4 de fevereiro de 2018

DEFININDO OS MONÓLOGOS DE ROBERT HUMPREY - Túlio Monteiro*

Robert Humphrey lançou em 1954 Stream of Consciousness in the Modern Novel, no qual definiu os quatro tipos mais recorrentes de técnicas de fluxo da consciência: monólogo interior direto, monólogo interior indireto, descrição por autor onisciente e solilóquio.
O francês Édouard Dujandin determinou o monólogo interior como sendo a apresentação da fala interior de uma personagem sem a intervenção do autor, através de notas ou comentários no corpo do texto. Algo extremamente próximo do pensamento mais íntimo e próximo do inconsciente humano. Partindo desse princípio. Robert Humphrey definiu de forma mais simples e moderna o monólogo interior como sendo a técnica usada na ficção para representar o conteúdo e os processos psíquicos do personagem, parcial ou inteiramente desarticulados, exatamente da maneira como esses processos existem em diversos níveis do controle consciente antes de serem formulados para fala deliberada.
Deve-se observar, sobretudo, que se trata de uma técnica para representar o conteúdo e os processos psíquicos em diversos níveis de controle consciente: isto é, de representar a consciência. Convém salientar que poderá lidar com o consciente, no entanto, em qualquer nível (não obrigatoriamente, aliás, raramente é uma expressão do pensamento mais íntimo mais próximo ao inconsciente; e que se preocupa com o conteúdo além dos processos da consciência e não apenas com um deles. Convém observar, ainda, que é parcial ou inteiramente inarticulada, pois que representa o conteúdo da consciência em sua fase incompleta, antes de ser articulado em palavras deliberadas. Esta é a diferença que distingue completamente o monólogo interior do monólogo dramático e solilóquio usados no palco de um teatro.

O MONÓLOGO INTERIOR DIRETO

Humphrey dividiu o monólogo interior em dois tipos: direto e indireto. O direto sempre se evidencia pela não interferência do autor, onde a personagem ignora a presença de uma plateia, nesse caso o leitor. Aqui o pensamento da personagem se revela ao leitor sem as tradicionais indicações de direção que o escritor costuma inserir na sua ficção. Termos explicativos como "pensou ele", "assim disse ela" ou " afirmou ele", que supõem a presença de alguém alheio à trama desaparecem por completo.
Torna-se conveniente esclarecer que a personagem em momento algum se dirige a outra pessoa. O que é lido deve ser percebido como um diálogo interior sincero da personagem consigo mesma, como se ela estivesse sozinha, teoricamente suprimindo-se a presença do leitor. O autor que utiliza-se do monólogo interior direto tem por objetivo final representar, através de palavras escritas, a consciência psicológica do ser humano, bem como suas diversas camadas e texturas.
Além do total "desaparecimento" do autor, que não deve desempenhar papel algum na trama, o texto deve sempre ser escrito em primeira pessoa, com os tempos verbais "misturando-se" entre si. Presente, passado e futuro fundem-se em aparente desconexão, compondo assim um monólogo interior direto. A personagem deve encontrar-se sozinha no ambiente. Caso ocorra a presença de outras personagens na cena, ela deve sempre acontecer de forma passiva, sem que as mesmas exerçam qualquer interferência sobre o desenrolar da trama ou exerçam o poder da fala.
A monotonia do cotidiano sertanejo e o ambiente desolado contidos em Vidas Secas, por exemplo, proporcionam um espaço perfeito para um romance fundeado nas técnicas de Fluxo da Consciência. A solidão do deserto nordestino brasileiro e o isolamento humano causado pelas as imensas distâncias geográficas, forneceram a Graciliano Ramos os ingredientes necessários à feitura de uma grande obra de tempo psicológico.
No entanto, quando Graciliano optou por não suprimir-se de sua onisciência, excluiu de Vidas Secas os monólogos interiores diretos. No entanto, isso não aconteceu por acaso. Sendo o universo verbal das personagens profundamente limitado e a comunicação entre eles ser reduzida a um mínimo indispensável de gestos e palavras, a presença de monólogos interiores diretos tornar-se-ia algo extremamente inverossímil. Personagens dotados de tão limitado grau de conversação, necessariamente possuem uma mesma limitação de pensamentos. Sabiamente, Graciliano Ramos evitou os monólogos interiores diretos, artifícios literários que, se utilizados em Vidas Secas, certamente dariam ao livro um caráter demasiadamente artificial.   
Mas Graciliano queria escrever um romance de tempo psicológico, que abordasse o truncado diálogo mental do sertanejo brasileiro. Consequentemente, percebeu a necessidade da inclusão de monólogos interiores no seu livro. Em contraponto à ausência de monólogos interiores diretos, o escritor valeu-se de uma imensa quantidade de monólogos interiores indiretos para expor ao leitor a mente de suas personagens, fato que será comprovado durante a análise que faremos de Vidas Secas no texto que dará sequência a este e que tratará dos monólogos interiores indiretos.
São Bernardo é diferente. Como bem exige o monólogo interior direto, esse romance é escrito em primeira pessoa, sendo a cronologia temporal bastante confusa. A linguagem psico-regionalista de São Bernardo reflete a problemática da desumanização que o homem capitalista necessariamente tem que se submeter quando decide que o “ter” é mais importante que o “ser”. Nesse romance, o latifundiário Paulo Honório expõe, ao longo de toda a trama, seus mais íntimos conflitos e dissabores. Mais uma vez o escritor alagoano tem nas mãos um riquíssimo cenário para a desenvoltura de um romance moldado segundo as técnicas de Fluxo da Consciência.
Tendo dado total “liberdade” de pensamentos e atitudes a Paulo Honório, Graciliano permitiu que sua personagem agisse por “conta própria” no decorrer da trama. À maneira de João Valério, personagem principal de Caetés, Paulo Honório decide-se por escrever um livro. Duas diferenças, no entanto, devem ser observadas entre os livros aqui referidos: João Valério pretendia escrever um romance que nunca passou do primeiro capítulo, enquanto Paulo Honório inicia e conclui uma espécie de autobiografia romanceada muito bem dilapidada.
Utilizando-se novamente do artifício de um livro sendo escrito dentro de outro – desta vez de forma bem mais madura que em Caetés –, Graciliano obteve inúmeras possibilidades para a inserção de monólogos interiores diretos em São Bernardo. A “autonomia” desfrutada por Paulo Honório permitiu que ele, sem nenhuma interferência do autor, pudesse caminhar livremente por entre as suas introspecções, selecionando e escrevendo no papel, à maneira de um autobiógrafo ególatra, tudo o que lhe parecia ter importância de ser lembrado.
O primeiro monólogo direto que pode ser encontrado em São Bernardo ocorre no momento em que Paulo Honório discute com seu braço direito, Casimiro Lopes, sobre as reformas iniciais da fazenda São Bernardo, que ele acabara de comprar:

Pensei que, em vez de aterrar o charco, era melhor chamar mestre Caetano para trabalhar na pedreira. Mas não dei contraordem, coisa prejudicial a um chefe.
Apanhei o pensamento que lhe escorregava pelos cabelos emaranhados, pela testa estreita, pelas maçãs enormes e pelos beiços grossos. Talvez ele tivesse razão. Era preciso mexer-se com prudência, evitar as moitas, Ter cuidado com os caminhos. E aquela casa esburacada, de pareces caídas...         

Podemos facilmente perceber o diálogo franco que Paulo Honório mentalmente mantém consigo. Apesar da presença de Casimiro Lopes, ele, ignorando o empregado e o leitor, detém-se em imaginar melhorias para a fazenda que acabara de adquirir.
Convencionaremos chamar marcas de pensamento, os verbos que Graciliano Ramos utiliza para remeter o leitor ao que se passa na psique de suas personagens. Todas as vezes que surgirem verbos grifados nos excertos extraídos dos romances aqui analisados, esses serão chamados de marcas de pensamento, o que também poderá ocorrer com palavras substantivas. No exemplo acima, o verbo pensei por si mesmo já demarca o que afirmamos. Já o verbo apanhei, nem sempre poderá ser catalogá-lo como uma marca de pensamento. Entretanto, no caso acima ele pode ser assim considerado por estar antecedendo o substantivo abstrato pensamento que, evidentemente, faz referências ao discurso psicológico de Paulo Honório. Essa regra se aplica às quatro técnicas de Fluxo da Consciência definidas por Humphrey.
Um outro exemplo de monólogo interior direto contido em São Bernardo merece destaque.
Isolado em um cômodo de sua casa na fazenda São Bernardo, Paulo Honório continua a escrever seu livro de memórias. Aliás, é nesse cômodo que se desenvolve toda a trama deste romance de Graciliano Ramos. Paulo Honório, em momento algum se ausenta do local ou trava contato direto com outra personagem. Quando isso acontece, sempre se realiza no nível de sua consciência, limitando a ação do romance às recordações que a personagem transcreve nas páginas do livro que escreve. Isso pode ser comprovado já no parágrafo de abertura de São Bernardo:

Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho.  
Voltemos ao monólogo interior direto do capítulo dezenove. Sentado à mesa, Paulo Honório dedica-se a recordar da esposa Madalena, recentemente falecida. Sempre que a sequência temporal muda do tempo presente para o passado, Paulo Honório encontra-se mergulhado em sua psique, ora recordando, ora questionando fatos ocorridos na sua vida. Esse discurso mental em forma de flashback sempre se caracterizará, no São Bernardo, como um outro tipo de marca de pensamento. Ou seja, todas as vezes que isso ocorrer, o Fluxo da Consciência estará presente em uma das quatro variantes. Comprovemos isso no exemplo que se segue:

Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão...
A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvidos. Também já não a vejo com os olhos.    

Dois fatores são importantes para a constatação do Fluxo da Consciência: o verbo recordar é uma marca de pensamento, pois imediatamente remete o leitor, como já afirmamos antes, à psique da personagem. Quando Paulo Honório afirma já não ver Madalena com os olhos, nem sua voz lhe chega mais aos ouvidos, deixa bastante claro que isso ocorre em sua mente, no espaço destinado às recordações.
Esse fluxo mental truncado, o confinamento da personagem a um cômodo da casa e a narrativa em flashback deixam claro que Paulo Honório está questionando a si mesmo sem perceber ou mesmo se importar com a presença de algum ouvinte, neste caso o leitor. Caso a presença do leitor fosse notada, não ocorreria aí um monólogo interior direto, mas, sim, um solilóquio. Sobre essa técnica de Fluxo da Consciência oportunamente discorremos mais adiante em estudo a ser publicado na próxima segunda-feira. Sigam meus textos, pois!

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*Túlio Monteiro - Escritor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.