segunda-feira, 25 de setembro de 2017

DA REMODELAÇÃO DE FORTALEZA - Túlio Monteiro

Disciplinar a expansão urbana e aformosear a cidade. Tal objetivo visava, em um futuro breve, facilitar o escoamento do movimento urbano e, principalmente, obter uma nova planta que viesse a regulamentar e organizar a expansão de Fortaleza, o que só se consegue até 1930. O projeto topográfico constituía o sistema de traçado urbano em forma de xadrez, do centro até os subúrbios já existentes e os que haveriam de surgir. Tratava-se de um traçado que possuía três bulevares principais, as atuais avenidas do Imperador, Duque de Caxias e D. Manoel. O sistema de grandes avenidas resultava na devastação de grandes áreas e era concebido para fins de dominação e ordenamento da expansão urbana, o mesmo corrigia becos, desvios e ruas desalinhadas que facilitavam a ocorrência de motins urbanos, substituindo-os por vias alinhadas, longas e cruzadas em ângulo de 90º que favoreciam a vigília do poder sobre a cidade. 

O crescimento da exportação algodoeira para o mercado externo dinamizou a economia cearense e contribui para tornar Fortaleza o principal entreposto comercial do Ceará, face à sua condição de sede político-administrativo provincial, à construção da ferrovia Fortaleza-Baturité e às melhorias implementadas em seu porto. A estrutura social da cidade sofreu modificações com a emergência de novos grupos dominantes, a constituição de camadas médias afluentes compostas de profissionais liberais, além do surgimento de um contingente de trabalhadores pobres, ativos ou em disponibilidade, configurando-se assim, a formação de um mercado de trabalho urbano em Fortaleza.

Neste contexto de acontecimentos urbanos, surgiu as tentativas de remodelar a capital, embelezando-a e racionalizando-a. Assim Fortaleza buscava copiar de exemplos europeu, principalmente francês, diversos projetos urbanos. As noções de progresso e civilização tornaram-se eixos básicos dos discursos e práticas desses novos setores dominantes, autoproclamados como restauradores da situação de "atraso" em que o País estaria encerrado o que não impediu a resistência popular à construção desse modelo burguês.

Entretanto, o crescimento econômico não minimizou os efeitos produzidos pelos investimentos na sociedade, no controle da saúde, nos hábitos higiênicos e no comportamento da população, bem como nas alterações efetuadas no espaço e na arquitetura da cidade.

DAS AS REFORMAS URBANAS

A Santa Casa de Misericórdia

Estando totalmente entregue ao público em 1861, a Santa Casa de Misericórdia foi um dos principais empreendimentos realizados pela companha em meados do século 19. Encarada pelo saber médico como algo emergente que viria reagir em socorro aos vitimados por alguns flagelos do meio cultural e social, como foram as epidemias de febre amarela de 1851 e de cólera de 1862/4, até da seca de 1845.

A Santa Casa de Misericórdia está localizada entre o Passeio Público e a antiga Cadeia Pública, onde hoje é a Emcetur (cento comercial de artesanatos de Fortaleza).

Cemitério São João Baptista

O cemitério S. João Baptista, ou "Cemitério Novo", como chamavam outrora, recebeu a bênção para ser ativado em 5 de Abril de 1865. Após uma série de denúncias feitas pelos administradores locais, sanitaristas e higienistas, o antigo cemitério de São Casemiro, o "Cemitério Velho", foi condenado pelo seu excesso de lotação e, sobretudo, pela localização. A própria escolha do novo cemitério, a situar-se no bairro de Jacarecanga, remete-nos à lógica dos sanitaristas: por ser uma área distante da cidade de então, e por estar situada em posição oeste, ou seja, a sopravento, livre do vento espalhar a bactéria da cólera pela cidade.

A necessidade da construção de um novo cemitério deu-se quando o risco de uma epidemia provocada pela Cólera Morbus foi identificado por alguns sanitaristas da cidade, em virtude de estarem enterrados no antigo cemitério algumas das inúmeras vítimas da cólera que haviam padecido. Pelo fato de Fortaleza estar em constante crescimento urbano e, sobretudo, pela forte repercussão que teve o saber higienista na organização dos espaços urbanos em meados do século 19, o antigo cemitério de São Casemiro (popularmente conhecido como o do "Croatá"), que em 1849 fora construído para receber todos os mortos da cidade, e inclusive das áreas suburbanas, procurando, assim, evitar a existência dos cemitérios clandestinos, foi fechado em 1865 e, logo após demolido em 1877 para a construção da estação ferroviária que ligava Fortaleza a Baturité, em virtude do escoamento do algodão vindo daquelas bandas do interior.

Em 1880, foram exumados do Cemitério Velho os restos mortais de algumas das mais importantes e ilustres personalidades de nossa cidade para permaneceram no novo cemitério de São João Baptista. Dentre os mortos, os restos mortais de Pessoa Anta e Pe. Mororó, que por sua vez já havia sido exumado dos seus respectivos leitos funéreos existentes na Catedral até pelo menos 1845.

Sobre o aspecto social dos defuntos enterrados no cemitério São João Baptista, necessitamos nos referir à geografia interna deste logradouro, onde as famílias dos setores médios e populares encontram-se enterradas do meio do cemitério para o fim, enquanto as pessoas da elite encontram-se enterradas logo em seu início. Quanto aos estilos esculturais e arquitetônicas encontrados nos jazidos ali existentes, esses variam do Neoclássico ao Romântico (gótico e neo-barroco).

Estação Ferroviária

A atual praça Castro Carreira (popular Praça da Estação) era local onde as tropas coloniais e imperiais costumavam treinar suas milícias, sendo também local para o povo realizar seu esporte da cavalhada e torneios hípicos. Tal espaço era denominado "Campo dona Amélia", sendo que, a partir de 1871, em função da construção da estrada de ferro, recebe o popular nome de Praça da Estação e mesmo depois da praça ter sido rebatizada com o nome do médico e senador Castro Carreira. O que prevalece até hoje é o nome popular.

O sonho de construir uma estrada de ferro e sua estação central se concretizou através de um pacto associativo entre algumas personalidades locais e o governo da província. A obra que foi iniciada em 1871 e inaugura em grande estilo em 09 de junho de 1880, visando ligar inicialmente a cidade de Fortaleza ao município de Pacatuba. Entretanto, a obra se estendeu até Baturité passando a se denominar Companhia Cearense da Via-Férrea de Baturité. Anos depois, em 1878, já sob o comando do governo imperial, a malha viária é estendida, ligando o porto de Camocim à cidade de Sobral. 

Na construção da estação Eng. João Felipe, foi empregada como mão de obra exclusivamente os retirantes da seca de 1877, que para Fortaleza acorriam em decorrência daquela terrível calamidade.

A localização da estação foi considerada ideal, apesar das críticas, pois no local havia o cemitério São Casemiro, que foi demolido em função das obras, pois, segundo a tradição da época tal edificação deveria ser vista do mar e, formando ao longo da rua João Moreira um complexo arquitetônico de expressiva significação dos valores humanos e progressistas, compreendidos palas seguintes edificações públicas: o forte-quartel, o Passeio Público, a Santa Casa de Misericórdia e a Cadeia Pública. A intenção maior era de "iludir" o navegante que se aproximava que aqui também havia autoridade, espaço para lazer, saúde, segurança e progresso. 

Passeio Público

Surge o Passeio Público no local onde situava-se a Praça dos Mártires, que foi remodelada com o implante de bancos, canteiros, café-bar, réplicas de esculturas clássicas e 3 planos ou avenidas, uma para o desfrute das elites, a segunda para as classes médias e a terceira para os populares. O Passeio tornou-se a principal área de lazer e sociabilidade das grandes famílias da época, merecendo fotografia dos seus mais diversos ângulos, sendo ainda hoje ponto de diversão para todas as classes sociais da cidade.

O desenvolvimento comercial, de novos serviços, da industrialização, a supressão do trabalho escravo, as secas periódicas foram fatores que contribuíram para o crescimento populacional da capital do Ceará. Essa massa urbana preocupava os governantes e círculos de saber locais, que para discipliná-los e assim amenizar a tensão social, instalaram escola primária e oficinas para os detentos da Cadeia Pública (1882), empreenderam campanha para casamentos de amasiados (1885) e construíram o Asilo de Alienados São Vicente de Paula (1886) para retirar os loucos de circulação e ao Asilo de Mendicidade, inaugurado no mesmo ano, onde eram recolhidos os mendigos.

Teatro José de Alencar

Em 1910, no Governo Accioly, surgia na reformada Praça Marquês de Herval (hoje Praça José de Alencar), a maior obra arquitetônica de Fortaleza até o presente, o Theatro José de Alencar. O teatro, que era frequentado apenas pela elite cultural da cidade e constituía uma certa “ordem civilizatória”, coincidiu com a implantação do serviço canalizado de abastecimento de água e esgoto, sob pena de agrava-se o já alto índice de morbidade e mortalidade que assolava a cidade.

Mas a construção do teatro não escondeu os problemas do governo Nogueira Accioly, já que a cidade passava por explícita pobreza e estagnação, onde a maior parte da população vivia em dificuldades financeiras. O crescente descontentamento do povo eclodiu com os movimentos oposicionistas a Accioly. Uma verdadeira guerra civil nas ruas e praças, que culminou com a deposição do oligarca, tendo por um dos líderes o farmacêutico Rodolfo Teófilo, integrante de oposição a Accioly, e que se tornara célebre por ter vacinado em domicílio e gratuitamente grande parte da população. As eleições vieram logo após a revolta, com a vitória do candidato Franco Rabelo.

Praças Públicas

Contando com o apoio da população, Franco Rabelo procurou concentrar sua gestão na governabilidade da Capital, no pouco tempo em que durou, realizou diversos melhoramentos na Cadeia Pública, demostrava preocupação em disciplinar os contingentes mais pobres para salvaguardar a ordenação urbana, trabalhou a saúde pública, instalou o Instituto de Amparo à Infância, retomou o projeto de saneamento de água e esgoto e seu Governo teve uma importante participação de Ildefonso Albano, que tomou uma série de medidas de higiene pública. O Intendente Albano viabilizou o serviço de limpeza pública dividido a cidade em quatro distritos, proibiu a venda ambulante de qualquer objeto que causasse sujeiras nas ruas, trabalhou para conservação de calçamentos, criou uma banda municipal, realizou a abertura da Avenida Senna Madureira, reformulou a Praça General Tibúrcio, próximo ao Palácio do Governo, onde antes tinha-se apenas um depósito de materiais e que servia de pastagem para animais.

Já a energia elétrica chegou em 1914, através da Ceará Light and Power Co., eletrificando os bondes, antes puxados por burros, passando a cobrir pontos mais distantes da capital. À mesma época, em 1917, surgiu o primeiro cinema, o Cine-Theatro Majestic, localizado na Praça do Ferreira. A regeneração das praças, foi além do mero aformoseamento, facilitando a circulação e determinando novas regras de convívio e utilização do espaço público, além de estimular a prática de exercícios corporais nos jovens e estudantes, tida como benfazeja aos costumes e a saúde. Com a inauguração do serviço de abastecimento de água e esgotos, foi procedida a reformulação da Praça do Ferreira, a principal da cidade. A obra foi exigida por motivos higiênicos e estéticos, mas, sobretudo, para racionalizar a circulação de pedestres, bondes e automóveis.

No entanto, a partir da década de 1930, o espaço urbano de Fortaleza sofreu um crescimento desordenado e de forma espontânea que deu lugar a aglomerados de edificações precárias na periferia da cidade, algumas destas com características de favelas. Para as camadas dominantes, a expansão e a movimentação pública do perímetro central fez com que se transferissem do centro para áreas periféricas desocupadas, formando-se os primeiros bairros ricos.

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Túlio Monteiro - escritor, biógrafo, pesquisador, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.





quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Pedro, o distribuidor de bolachas - Chico Araujo


Um trabalhador comum, não mais que isso. 
Um trabalhador comum, empregado, recebedor de salário para suster sua família.
Laborioso comum, daquele tipo ciente da sua importância para o perfeito funcionamento da empresa – toda engrenagem precisa de todas as peças azeitadas – e da necessidade de seu trabalho em favor do dia a dia da mulher e dos filhos.
Pedro – nome originado no grego Pétros – literalmente “pedra”, um rochedo onde se pode fincar habitação com segurança. Pedro não era metáfora; foi a segurança de sua família por todo o tempo em que ela dele dependeu – “rochedo”, por princípio e, então, metaforicamente, “porto seguro”.
Em correspondência à responsabilidade que sabia ter em relação a sua linhagem, não a desapontou, provendo-a do necessário sem negar-se ao escorrer do suor no rosto, sem fugir às tarefas da labuta cotidiana.
Pedro, por valor dialético, de tão comum seria incomum. Simples, nas ações de maior complexidade, como a de dizer a seu primeiro descendente que sonhou em deixar a cidade interiorana em busca de abraçar, na capital, vida mais afortunada:
- Vai, meu filho. Vai e não apeie nunca de seu sonho. Estuda, porque nesse novo mundo pra onde você tá indo, quem procura o estudo vale muito. Vai, meu filho, faz seu caminho. Tem a minha bênção.
O filho veio, trazendo na bagagem toda a alegria da esperança que circunda um sonho, deixando na casa dos pais aquela saudade que só a sabem os genitores que amam em profunda sinceridade a sua descendência, os quais, por isso mesmo, oram em silêncio, várias vezes ao dia, contritos em suas crenças, pedindo a seu Deus Tudo transcorra em bênçãos e paz.
O filho veio, deixando nas lágrimas dos irmãos o desejo do reencontro para breve, cumprindo-se, então, a promessa de resgate de todos, assim que as condições permitirem.
Pedro, uma fortaleza.
Na sua terra, cidade interiorana, a dos monólitos, foi mesmo homem de trabalho, família e Fé. Na junção das três vertentes, brotou-lhe a consciência de que o homem não deve viver para si, pois, por existência em sociedade, seu dia a dia não lhe pertence; ao contrário, todo novo dia encaminha o homem ao encontro do seu semelhante, mesmo que em atitudes não percebidas, mesmo que sua consciência não o permita alcançar essa sua importância.
O trabalho realizado cotidianamente concede ao trabalhador o salário – quase nunca o desejado – que o leva à sobrevivência e à dos seus. No entanto, o resultado dos afazeres desenvolvidos, em profunda medida, extrapola a remuneração do laborioso e se imiscui na sociedade, em seus diversos campos de funcionamento. Em outras palavras, o trabalho realizado, diariamente, em empresas privadas e em órgãos públicos, se dimensiona em perspectiva social.
Pedro, também José (nome de origem no hebraico Yosef, significando “Ele acrescentará”, referindo-se a Deus), em algum momento de sua existência, atingiu essa consciência, e mesmo a explorou para a formação dos seus. E foi compreendido, suas lições foram aprendidas: todos os que resultaram daquela raiz, ramificaram e deram frutos geradores de novos e de outros frutos, compondo um processo natural de perpetuação de sua espécie. Pedro José acrescentou, com a benção de Deus, multiplicou, honrando o próprio nome.
Pedro José, consciente, simples e amável, tinha pelas crianças o carinho do pai agregador, aquele transformador de cada momento em uma ocasião especial para se festejar a vida e celebrar seu prosseguir em gestos simples ampliadores de felicidade, como comprar na padaria alguns pacotes de bolachas para distribuí-las pelo caminho, na volta para casa, após mais um dia de labuta, a crianças nas ruas de seu percurso.
O sorriso das crianças agradecendo aquele quase cotidiano alimento era mais uma lição de Pedro José: Não se deve deixar na fome quem tem fome.
Pedro José: rochedo, porto seguro; aquele que multiplicou, nos seus, a consciência douta da doação ao outro.
Não somos para nós mesmos!
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Chico Araujo publica toda quarta-feira no Evoé! A crônica "Pedro, o distribuidor de bolachas" foi escrita a 19 de setembro de 2017. Leia mais Chico Araujo no blog Vida, minha vida...

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

ASPECTOS SOBRE O SURGIMENTO DO CEARÁ - Túlio Monteiro

No presente artigo, Túlio Monteiro, dedicado pesquisador das literaturas e história do Ceará, inicia uma série de textos sobre a origem e desenvolvimento da Nação Alencarina. Boa leitura. (KB)


PERO COELHO DE SOUZA
Alguns meses antes da chegada de Pedro Álvares Cabral às terras brasileiras em abril de 1500, as plagas que um dia viriam a ser o estado do Ceará já haviam sido visitadas por outros europeus. Segundo suas próprias anotações náuticas, o espanhol Vicente Pinzón afirmou ter aportado em fins de janeiro e começo de fevereiro de 1500, em um local ainda desconhecido da América do Sul, que por ele foi batizado como Cabo de Santa Maria de la Consolacion, onde hoje está localizado o município de Aracati. Aproximadamente um mês após a partida de Pinzón, o também espanhol Diego de Leppe registrou em suas anotações ter aportado em uma enseada, que mais tarde seria denominada Mucuripe. Lá, às margens de um belo e tranqüilo rio, provavelmente o Pajeú, ele encontrou uma cruz que fora erguida em 4 de fevereiro de 1500 pela expedição de Vicente Pinzón. Entretanto, aquelas terras não puderam ser oficializadas como espanholas em virtude do Tratado de Tordesilhas, que dividia o Novo Mundo em duas partes distintas para Portugal e Espanha, cabendo aos portugueses tudo que houvesse ao leste de Tordesilhas. 

Com a chegada de Cabral, em 22 de abril de 1500, o Brasil foi dado como oficialmente descoberto. No entanto, por mais de cem anos as terras cearenses ainda permaneceriam intocadas, até que a expedição chefiada pelo açoriano Pero Coelho de Souza as reclamasse. Corria o anos de 1603.

A missão de Pero Coelho de Souza tinha por objetivos maiores combater os holandeses chefiados por Mombille, que haviam invadido a então Capitania do Ceará e fortificar as terras litorâneas existentes entre as Capitanias do Rio Grande(do Norte) e do Maranhão.

Mombille encontrava-se no interior da Capitania do Ceará. Pero Coelho de Souza, ao lado de 75 soldados portugueses (dentre eles o jovem Martim Soares Moreno, com aproximadamente 17 anos de idade) e cerca de 200 índios Potiguares comandados pelo chefe Caraquinguira, que havia sido convencido a lutar ao seu lado pelo língua-perito Pedro Cangatã, ergueu, em 10 de agosto de 1603, o Forte de São Lourenço, na margem esquerda do rio Jaguaribe. Depois de vários meses de sangrentas lutas, o capitão-mor português logrou vitória sobre o flamengo Mombille, partindo então para o Maranhão, onde também combateria os holandeses.

Com os homens cansados e debilitados, Pero Coelho de Souza montou acampamento em julho de 1604 às margens do rio Ceará. Convencido de que o local além de aprazível era um ponto bastante estratégico do litoral, o capitão-mor ordenou ao seu imediato Simão Nunes Corrêa que erguesse, na margem direita do rio, uma edificação denominada Fortim de São Tiago, que, segundo ele, seria o marco inicial do povoamento de Nova Lisboa. Estava nascendo a cidade de Fortaleza. 

Edificado o fortim, Pero Coelho de Souza partiu em direção à Capitania do Maranhão, afastando-se da Capitania do Ceará por 18 meses. O capitão-mor jamais conseguiu chegar ao Maranhão, tendo retornado após ter chegado ao delta do Parnaíba. No fortim haviam ficado vários de seus homens à espera de reforços e suprimentos vindos da Capitania de Pernambuco, suprimentos e reforços estes que nunca chegaram.

Ao retornar, no início de 1606, Pero Coelho encontrou seus homens debilitados e desejosos de retornarem à Capitania da Paraíba, de onde haviam saído em julho de 1603. Quase todos partiram, ficando Pero Coelho de Souza a defender as terras cearenses sediando-se no fortim de São Lourenço, às margens do rio Jaguaribe. Com ele permaneceram sua esposa, Dona Maria Tomásia, seus cinco filhos e 18 soldados fiéis ao seu mando. Por fim, em 1608, sentindo-se abandonado por Portugal, o capitão-mor daquela que ficou conhecida como a primeira expedição lusitana às terras cearenses, resolveu voltar à sua terra natal. O caminho de volta a Paraíba foi bastante difícil. Nele viriam a morrer dois dos filhos de Maria Tomásia e Pero Coelho, além de vários soldados.



MARTIM SOARES MORENO


"...sendo no ano de 1611 cheguei a Seará com seis homens em minha companhia e um Clérigo onde fui muito bem recebido, logo a poucos dias fiz Igreja e com retábulos que o levei se disse Missa, e se fizeram muitos Índios Cristãos." (Martim Soares Moreno)


Em fins de 1611, uma nova expedição portuguesa é enviada à Capitania do Ceará. Fazendo-se acompanhar por seis soldados e pelo padre Baltazar João Correia, Martim Soares Moreno, um ex-integrante da expedição de Pero Coelho de Souza, chega à Capitania. No dia 20 de janeiro de 1612, valendo-se da amizade que havia cultivado junto aos índios Potiguares durante os três anos que ali vivera, aquele que seria imortalizado por José de Alencar como o valente Guerreiro Branco do romance "Iracema", iniciou a construção do Forte de São Sebastião no mesmo lugar onde Pero Coelho havia edificado o Fortim de São Tiago, tendo ali também erguido a Igreja de Nossa Senhora do Amparo.

No ano de 1613, Martim Soares Moreno fez um minucioso reconhecimento da costa do Maranhão, obtendo dados sobre a ocupação francesa naquela região. Combateu os franceses entre 1613 e 1614, quando então voltou a Portugal, retornando ao Brasil em 1615 na expedição de Gaspar de Souza, para novamente combater os franceses.

De volta a Europa, em 1619 obteve uma Carta Régia que lhe dava o título de senhor da Capitania do Ceará. Retornando à Capitania somente em 1621, iniciou ferrenho combate aos holandeses invasores, expulsando-os do Ceará entre os anos de 1624 e 1625. Em 1631, tendo encerrado-se os dez anos de validade da Carta Régia que lhe dava poderes sobre o Ceará, foi combater os holandeses em Pernambuco.

Praticamente abandonado, o forte de São Sebastião foi invadido no dia 25 de outubro de 1637 por tropas holandesas chefiadas por Gedeon Morris Jonge. Entretanto, em 1644, índios cearenses atacaram o forte, dizimando todos os batavos que lá se encontravam.

Somente cinco anos depois, no dia 3 de abril de 1649, o holandês Matias Beck aportaria em terras cearenses. Seu objetivo maior era transferir o forte da Barra do Ceará para um local mais favorável, uma vez que dali não podiam ser vistos os navios ancorados na enseada do Mucuripe, que facilmente poderiam ser capturados por portugueses ou franceses. Naquele mesmo ano, sobre o morro Marajaik, foi erguido o forte Schoonenborch, assim batizado para homenagear o governador holandês de Pernambuco, Walter Van Schoonenborch. Entretanto, no dia 20 de maio de 1654, Matias Beck entregou o forte ao capitão português Álvaro de Azevedo Barreto, em cumprimento ao tratado de paz celebrado entre Portugal e Holanda, em 1º de junho daquele ano. Depois de ocupar o forte com quatro companhias de soldados e duas de índios, Álvaro de Azevedo Barreto ergueu no local uma pequena ermida. O forte de Schoonenborch, passaria a ser denominado, por ordem de Álvaro Azevedo Barreto, como a Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.

Estava selado o surgimento definitivo daquela que viria a ser a capital do estado do Ceará: a encantadora cidade de Fortaleza, anos antes surgida nas ribanceiras do rio e das águas que banham a Barra do Ceará. 

DOIS POEMAS PARA A BARRA DO CEARÁPÔR-DO-SOL NA BARRA DO CEARÁ

Vem do sertão o rio e junto ao mar se estende
Num plúmbeo refulgir de ofídio a rastejar,
E a água que vem do mar a água do rio fende,
E empresta à água do rio a agitação do mar.

Em seu surdo mover, sob a grama que as prende,
As dunas colossais ficam, de longe, a olhar
Os coqueiros em fila ante o áureo Sol, que acende
Purpurinos clarões de luz crepuscular.

Eis em toda a grandeza, em toda majestade,
Da Barra do Ceará o esplêndido sol-pôr,
De uma tão doce e tão serena claridade,

Que nos enche de paz, de quietude e langor.
- É por isso que eu fujo às vezes da cidade,
Para reviver aqui meus sonhos de amor.


Hermes Carleal (Poeta)

POSTAL / CANTO DE EXALTAÇÃO À BARRA DO CEARÁ

A Barra do Ceará
não é um lugar:
a Barra do Ceará
é uma canção.
no velho cais
há uma riqueza oculta
barcos que pousam
nos ventos da tarde
o rio desliza na paisagem
onde suave é a vida
no ritual da travessia
pôr-do-sol despenca seus matizes
pontilhados de emoção e encanto
coqueiros desenham-se românticos
no mar das goiabeiras.

Bernardo Neto (cantor e compositor cearense)

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Túlio Monteiro - escritor, biógrafo, pesquisador, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.                                                                                                                                  

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Além do meio... CHICO ARAUJO

O silêncio que os acompanhava semelhava um profundo abismo, daqueles que quanto mais se olha menos se sabe o fundo – mesmo que um ou outro falasse, esporadicamente. Pontualmente. Especificamente temática corporativa. Em verdade, verdadeira, uma falava. Arguto ouvia atento e questionava-se sobre o dito e quanto aos acontecidos. E então, o refeitório! Não, não... um refeitório... esquisito... para ele.

Espaço de alimentação diferente, mais espaçoso, de um branco que doía nos olhos, mesas espaçadas diametralmente, absolutamente no limite de 6 lugares para cadeiras em cada uma. Nada mais, nada menos. 6 específicos lugares, sem a possibilidade da improvisação de mais um que quisesse se achegar, se aconchegar.

Nenhum rosto conhecido. Nenhuma voz familiar. Ali, naquele lugar surpreendente, ele ainda em fase inicial de habituar-se, somente reconhecia a voz intervalada de D. Felícia.

Visivelmente ainda sob o forte impacto de não ter encontrado na empresa os antigos companheiros, sem proferir palavra, sentou-se à mesa indicada por D. Felícia – curiosamente a única mesa com dois lugares. Estava consternado. Profundamente. Seu silêncio ajudava a revelar o estado de espírito entre a perplexidade e a ebulição. Era, inequivocamente, observado pela mulher já sentada a sua frente.

Da cadeira na qual se pôs, observou o gesticular de sua companhia em direção a um garçom, cuja resposta ao gesto deu-se de maneira quase que antecipada.

- Traga-nos cardápio.

- Pois não, D. Felícia.

- Cardápio? Aqui não é refeitório, é restaurante. Não vou poder pagar essa comida, esse almoço.

- Senhor Arguto, não se preocupe. A comida daqui é bancada pela empresa. Nenhum de nós pagará o que se consumir aqui. Não posso dizer até quando, mas por enquanto podemos dizer que essa refeição é “gratuita”. 0800.

Foi um quase sorriso visto na expressão facial dela? Não houve como precisar. De qualquer maneira, parecia haver, entre os dois, naquele ambiente, um momento de menor tensão. E foi exatamente naquele instante de um quase sorriso o reconhecimento da pessoa conhecida tempos antes.

- Mas, D. Felícia... a senhora... a senhora é... Ester! Ester! Aquela moça que me recepcionou no dia em que eu cheguei para trabalhar na oficina...

Um sorriso não mais quase se abriu verdadeiro e farto nos lábios, olhos, rosto de Ester Felícia.

- Enfim, o senhor me reconheceu! Como vai, seu Arguto?

- Como certamente sabe, Ester, não muito bem.

- É, eu sei. E não discuto seus motivos.

- Você está muito diferente. Esse cabelo preso no alto, feito cocó, e esses óculos grandes para o formato do seu rosto... Você está muito diferente! E nunca sorri mais? Desde hoje cedo, quando nos falamos, até agora, só vi você rindo agora... Essa sua seriedade, esse seu jeito de falar, tão firme, quase agressivo... menina, quanta mudança... Você até usava cabelos soltos! Era amiga de todos, brincava bastante, tinha sempre um sorriso pronto pra todo mundo, uma palavra amiga...

- O senhor está certo. Eu era mesmo assim. E ainda sou. Mas não aqui. Aqui na empresa não sou mais a Ester; agora sou a D. Felícia. Desde que eu assumi a diretoria dos Recursos Humanos, fui instruída, pelo diretor geral, a mudar o comportamento, a maneira de vestir, o jeito de falar, o costume de tratar as pessoas, o modo de usar os cabelos. Foi uma agressão profunda que sofri da empresa e que aceitei infligir a mim mesma. Sofri muito, calada, naquele instante, mas me submeti, é essa a palavra, me submeti, para não prejudicar a minha família, necessitada do meu trabalho e do meu salário. Quiseram me dar só o “falso status” do título de diretora e eu não aceitei; finquei pé, dizendo querer melhoria de salário para assumir a função. Ganhei naquela negociação, meu salário melhorou bem, as condições de minha família – meus pais e dois irmãos – também, e isso me trouxe muita felicidade.

Em silêncio respeitoso e compenetrado, Sr. Arguto ouvia o surpreendente relato, e percebeu a mudança na fisionomia da novamente jovem Ester, quando ela dizia a última frase.

- O que foi, Ester? Alguma lembrança a entristeceu... Sua família está bem?

- Sim, sim. Minha família está bem. Foi somente uma lembrança ruim... Já passou... Nem tudo na vida acontece como desejamos, não é mesmo?

- Isso é verdade. E você voltou a ser a D. felícia.

- Que tal escolher seu almoço? Veja o que mais lhe agrada nesse cardápio.

O comentário dele estava plenamente certo: a moça Ester voltara a “ser” a D. Felícia. O semblante dela estava fechado, bastante sério, o tom de voz incisivo, sem qualquer lastro de carinho, afetividade. Ele percebeu a mudança, só não se deu conta de que no refeitório-restaurante entrara o diretor geral.

Comeram em silêncio, cada um ruminando seus pensamentos, cada qual incomodado com o olhar insistentemente contínuo do diretor geral. Arguto chegou a se perguntar se aquele olhar sofrido ali aconteceria também na sala onde começara a trabalhar desde aquela manhã. Ester Felícia constatou continuar sob a vista daquele homem.

Quando voltavam para as salas contíguas, arriscou a pergunta:

- Devo mesmo chamá-la de D. Felícia, ou posso tratá-la por Ester, já que a reconheci?

- Aqui dentro, para qualquer assunto, me chame de D. Felícia.

- Precisa mesmo tanto rigor assim?

- Em pouquíssimo tempo, muita coisa mudou, e eu sei que o senhor sabe disso. Não somente nessa empresa, mas em todo canto. Tem muita gente desempregada: muita gente sem o seu trabalho ou o meu, muita gente sem o seu salário ou o meu. Muita gente... Incluindo todo o pessoal dispensado da oficina, fechada integralmente em favor da terceirização... Todo o trabalho realizado nela, a partir de agora será feito em outro lugar, em outra oficina. Pelo que entendi, oficina de um amigo do dono dessa empresa aqui. Todas as máquinas daqui foram levadas para lá, não posso dizer a que preço, quais os valores acertados. Sei também que alguns funcionários que trabalhavam com você fizeram seleção para lá. Minoria. A maioria está no desemprego mesmo. Eu sinto muito, muito mesmo. Como já lhe disse pela manhã, conheço todos. E mesmo sei das necessidades de todos. Sinto muito mesmo, por eles, por você, pelas famílias.

Antes de cada um entrar novamente em suas salas, depois de pesado silêncio, Arguto perguntou:

- Por que eu fiquei, D. Felícia?

Olhando no olho daquele trabalhador a quem sabia ter ajudado, segura e feliz, Ester respondeu:

- Duas coisas, senhor Arguto, duas coisas: suas competências e sua idade. De todos os trabalhadores alocados na oficina, o único seguramente com competências outras a serem exploradas em outro setor era você. Também a sua idade. Confesso, eu mesma insisti para que não se desse sua dispensa, pois teria dificuldades em se recolocar noutra empresa, devido ao cenário existente hoje no país. As mudanças são profundas e vão além da política e da economia, indo mesmo pelo social e por muitas outras áreas. Na função que tenho hoje na empresa, tenho acesso às fichas de todo e qualquer trabalhador. Se os outros não deveriam ter sido dispensados, o senhor não poderia ser. E ainda bem que não foi.

- Então foram três coisas.

- Três coisas?

- Competências, idade e... Ester Felícia. Eu agradeço.

Algo maior envolveu os dois naquele instante, contudo, embora sentido, nenhum deles poderia explicar o que era, o que fosse, o que seria. Os olhos de ambos seguraram um profundo olhar em segundos intensos. Nenhuma palavra emergiu. Depois, os passos dela entrando na sala; os passos dele em caminho da sala na qual trabalharia – trabalharia? – por tempo que não sabia quanto.

Nela, já sentado na cadeira sem o abraço sentido pela manhã, fitou a tela diante de si, espreitou, pelos cantos dos olhos, as câmeras instaladas no recinto, intuiu olhar vigilante às suas costas.

A tarde se alargava sem nenhum trabalho efetivo para fazer – estranho isso. Numa empresa privada? – e a ociosidade lhe informava a necessidade de inevitável conversa a ter com sua família. Seria esse o prato a se consumir na hora do jantar? Sua família, seu ponto de equilíbrio. Seu porto seguro. A sua maior questão. O seu máximo lema. Aquele momento, dúvida e esperança.

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Chico Araujo publica toda quarta-feira no Evoé! A crônica "Além do meio..." foi escrita a 10 de setembro de 2017. Leia mais Chico Araujo no blog Vida, minha vida...

terça-feira, 12 de setembro de 2017

A Sagrada Literatura de Ricardo Kelmer

O escritor, compositor, produtor cultural  Ricardo Kelmer teve cesurada a venda do seu Indecências para o fim de tarde na página do FaceBook e na Amazon (no formato eBook). O livro é excelente! Divertido, sacana, escrachado, indecente, delicado, poético, ontológico, instigador, chocante, provocativo e provocador, o conjunto de seus 23 contos, com todos esses ingredientes profanos, constitui, portanto, uma Sagrada Literatura.

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro... Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres... Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual... Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta... A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai... Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

O livro pode ser encontrado em algumas livrarias, sites e no blog do autor. Quem tiver interesse, confira a relação de links no blogdokelmer.com/livros

II FLI7 promove o I Prêmio Literário Patativa do Assaré

Um acontecimento que já está agitando a cena literária neste segundo semestre de 2017 é a II Festa Literária Educadora 7 de Setembro - FLI7, que ocorre de 27 a 30 deste mês. Traz conferências, lançamentos, encontros literários e pedagógicos, shows, oficinas, concursos de poesia e vídeo (curta-metragem). Nomes como Luiz Ruffato, Gonçalo Tavares, Flávio Paiva, Socorro Acióli, Marina Colasanti, Thalita Rebouças, Lira Neto, Ana Miranda e Gilmar de Carvalho, Tâmara Bezerra, Mara Monteiro, André Neves, Sérgio Néo, entre outras personalidades literárias demonstram a expressão de alto nível do evento.

Durante a II FLI7, haverá a culminância do I Prêmio Literário Patativa do Assaré, cujas inscrições vêm ocorrendo desde o 25 de agosto e se encerram no dia 17 de setembro.

Publicação
O concurso resultará em um livro com os trinta poemas que obtiverem a mais alta pontuação. Para mais informações siga o link FLI7.

30 minutos – ou um fio de memória que segura mãe e filho em um choro de saudade – CHICO ARAUJO


A tarde já seguia para seu meio, quando o telefone celular trouxe Ednardo e A palo seco para o meu despertar da tão querida sesta.
Era minha mãe, impulsionada por inequívoca profunda necessidade de me contar sobre um achado. Tão gentil comigo, primeiro me perguntou se estava em casa. Como dissera que sim, me inquiriu se me atrapalhava. Porque lhe disse que não, ainda me questionou se eu não estava trabalhando – sempre ciente do cotidiano do professor, ela também professora por quase toda a vida – para, agora segura de não me estar sendo incômoda, iniciar sua narrativa: Estava aqui arrumando uns livros, quando encontrei esse: Quando eu voltar a ser criança.
E fez silêncio. Um silêncio que era um tempo para, de fato, eu responder se me lembrava. Fiquei repetindo em voz alta o título e o que me vinha à memória era uma capa de livro branca com alguma gravura no centro, mas isso não era uma certeza, antes uma inconsistente especulação – quantos livros já li com capas semelhantes a essa minha confusa quase lembrança? Minha mãe nos tirou do silêncio:
- Lembra não, né? Pois preste atenção no que vou ler.
Passou a ler para mim uma dedicatória que escrevi para meu pai em exemplar de Quando eu voltar a ser criança, um livro não escrito por mim, um livro de muitos impactos em minha vida (naquela época) de pai recente. Sim, pai recente, pois, de certa maneira, eu apenas iniciara minha história como pai, uma vez que dos cinco filhos que geraria, em 1986 apenas Aline já pisava seus espaços nesse mundo.
Pelo telefone, minha mãe me presenteou com a leitura da dedicatória que fiz para meu pai em presente dado a ele em 08 de agosto de 1986. Naquele Dia dos Pais, disse a ele, pela dedicatória, que a leitura daquele livro, em especial, me trouxera a compreensão do que significava “ser pai”, fato que me fizera compreender suas palavras, suas ações, sua maneira de ser Pai.
Minhas breves palavras escritas quando contava 26 anos de idade de certa maneira buscavam instigar meu Pai a se reconhecer – por muitas atitudes suas de carinho, atenção, respeito, incentivo, brincadeiras – nas páginas de Quando eu voltar a ser criança, não pelos fatos narrados em si, posto que, os contextos, outros, mas pela maneira amorosa que transbordava do personagem principal daquela obra, Janusz Korczak, em favor de crianças confinadas em um orfanato existente em Varsóvia durante a ocupação nazista. Janusz Korczak – personagem real, não ficcional –, médico e pedagogo, dedicou boa parte de sua vida a crianças desconhecidas, porém necessitadas de alguém que as guiasse, que delas cuidasse diante de tantas experiências difíceis por conta dos conflitos evidenciados no período da Segunda Guerra Mundial. O fim trágico de 200 delas foi o mesmo seu, por optar não abandoná-las.
Os contextos de meu Pai foram outros, todos bem distantes dos conflitos bélicos mundiais nos meados do século XX. Guerra, para ele, somente pelas notícias de jornais que desde jovem se acostumou a ler. Sua amorosidade, no entanto, em relação aos filhos e às crianças em geral, surgia na simplicidade de ser, simplicidade essa que acredito ter se fortificado nele a partir de sua própria experiência infantil, um desenho feito para ser realizado quando adulto.
Pelo telefone, hoje, dia 08 de setembro de 2017, minha mãe me presenteou com a leitura daquela dedicatória feita para meu pai no livro a ele dado em 08 de agosto de 1986. Pelo telefone, as lágrimas que ela chorava pela saudade sentida do companheiro de tantos e tantos anos foram as incentivadoras às que me escorreram dos olhos pelo rosto sensibilizado pela inundação de uma memória especialíssima de um semblante alegre e de uma voz tranquila que me repetia, junto a dedos da mão provocando cócegas: Olha ele rindo... Olha ele rindo... Olha ele rindo...
Até que eu ria!
Minha mãe e eu choramos juntos hoje à tarde, aproximados por uma ligação telefônica, enquanto nos preenchíamos, pela memória, da presença de um ser fundamental na vida de cada um. Ela chorava pelo marido já olhando por nós de outra dimensão; eu, pelo pai que eu gostaria muito tivesse tido a oportunidade de conhecer todos os netos. E bisnetos. E tivesse tido a oportunidade de fazê-los rir como fez a mim. E vivesse com eles a experiência da construção de uma arraia. E fosse com eles à praia e ficar fitando o mar quebrando suas ondas em espumas brancas. E pudesse dizer a eles todos o que disse a mim; pudesse-os orientar para o bem como me ensinou e aos meus irmãos.
Foram 30 minutos de conversa. Trinta minutos construindo a tessitura de um fio de memória e saudade. Um tecido indestrutível. Elos de longa história entre o bem... e o bem.
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Chico Araujo publica toda quarta-feira no Evoé! A crônica "30 minutos – ou um fio de memória que segura mãe e filho em um choro de saudade " foi escrita em 8 de setembro de 2017. Leia mais Chico Araujo no blog Vida, minha vida...

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

DIREITOS AUTORAIS: UMA VELA PARA DEUS OUTRA PARA O DIABO? - Túlio Monteiro

Na época atual, convencionou-se chamar de globalização tudo o que se refere ao encurtamento de distâncias e "interesses conjuntos"; das nações do Mundo. Balelas soltas ao vento para que o antropofágico império norte-americano derrube, através de sua tecnológica ditadura de ponta, as fronteiras e direitos dos povos desse planeta, à exceção dos deles, claro!

Por falar em direitos, nada melhor que os discutirmos na sua quintessência: a dos direitos autorais. Para começarmos, faz-se necessário saber o que são, como são e para que servem esses tais direitos que, última bandeira ainda asteada contra a tal ditadura a qual me referi há pouco, bravamente insistem, apesar de aviltados, em resistir aos dominadores poderios globalizantes.

É tido como direito autoral o domínio que pessoas físicas exercem sobre suas criações – comprovadamente inéditas – nos mais variados campos do intelecto humano, leia-se científicos, literários ou artísticos de modo abrangente. Ou seja, se eu crio, se você cria, temos o direito, pois, de registrarmos essas obras em entidades especializadas, qual filhos que colocamos no mundo, "patenteando-as"; como nossas. Há, no entanto, uma pequena diferença entre a comparação que fiz: filhos não delegamos a outros como mercadoria de escambo, já os direitos autorais podem ser transmitidos a um ou a novos titulares para que esses os explorem por um período nunca superior a 70 após a morte de seu autor. Ou seja, decorridos 70 anos de sua criação e registro, determinada obra deixará de pertencer ao seu autor ou herdeiro(s) deste, tornando-se obra de domínio público, por consequência, patrimônio da humanidade.

Mas, quem controla o cumprimento, limitando-nos ao Brasil, do respeito aos direitos autorais? De maneira um tanto capenga, até porque país nenhum consegue gerir esse processo de fiscalização de modo absolutamente eficaz, temos cá como órgão responsável por esse trabalho hercúleo o Escritório de Direitos Autorais da Fundação da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

Fundado em 1898, através da Lei 496 (Lei Medeiros de Albuquerque), da Primeira República do Brasil, o EDA-BN funciona como cartório de registro de obras intelectuais, hoje apoiado nos trâmites do artigo 7º da Lei 9.610/1998, que trata da regulamentação dos direitos contemporâneos do autor e seus conexos (herdeiros cíveis). Em outros termos resumindo, aos marinheiros de primeira viagem que trazem à luz suas produções intelectuais, convém o imediato registro de suas "crias" no EDA-BN, que emite um certificado comprovando a data e autor ou autores de uma ou mais obras, o que lhes delega poderes constitucionalmente reconhecidos sobre seus rebentos intelectuais. O EDA pode ser contactado no seu endereço, sito à Rua da imprensa, 16/1205, Centro, Rio de Janeiro - RJ, ou através, para os mais antenados, do site (eu prefiro sítio) da www.bn.br.

Permitam-me ser carrasco, entretanto, da Lei 9.610/1998, que afirma serem protegidas através dela as "criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro" (artigo 7º). Como essa Lei é imensa, sugiro aos nobres intelectuais de plantão uma acurada pesquisa sobre ela, que é dotada de quase 100 artigos, sem contar seus muitos incisos. Coisa pra ensandecer competentes advogados, imaginem nós, pobres artistas e executores do raciocínio direcionado ao inédito. Muito cuidado, portanto, quando de sua consulta. Há cascas de banana por todos os lados.

Uma vela para Deus outra para o Diabo, essa Lei que, como toda Lei que se preza, bate com uma mão e acaricia com a outra. Se o artigo 7º prevê que são obras intelectuais protegidas os textos gerados a partir de criações literárias, artísticas ou científicas, leia-se: livros, conferências, alocuções, sonorizações, ilustrações, desenho, pintura, escultura, fotografia, cenografia, músicas, sermões, cartas geográficas, arquitetura, compilações, antologias etc, o artigo 8º dessa mesma famigerada Lei faz questão de deixar claro em seu Inciso I que ideias, projetos, enciclopédias e compilações (aquele negócio de tirar um pedaço de uma criação anterior para inseri-lo em uma dissertação de Doutorado ou num artigo de jornal, convencionalmente chamado de epígrafe ou citação), mesmo que registrados no EDA, não são protegidos na forma da Lei. Entendeu? Tentarei ser mais claro usando a High-tecnology (Ugh!) norte-americana. Ou seja, juntou vários textos de vários autores num livro só, nem sempre precisará pagar direitos autorais desde que os mesmos tenham partido desda para melhor há mais de 70 anos. Grosso modo falando, juntou Pablo Neruda e Octávio Paz numa só edição (coletânea), não precisa pagar nada para os infelizes herdeiros.

Para finalizar, quase não acreditei que a controversa e pretensiosa Lei 9.610/1998, possa ter nascido, plena era da informática globalizante, descuidada dos estupros "autorais"; ocorridos, 24 horas por dia, na rede mundial de computadores, subtenda-se Internet. Num primeiro momento pasmei em saber que a legislação utilizada pela EDA não tem como fiscalizar o que se "baixa" sem pagamento de direitos autorais na Internet. No segundo seguinte a essa constatação, o alívio chegou ao descobrir que atualmente ninguém pode patrulhar eficientemente o que se faz nos computadores espalhados pelo Mundo. Ou seja, ainda não se descobriu um meio eficaz para punir um indivíduo que comete um crime autoral no Japão, utilizando-se de um provedor australiano, tendo como objeto desse crime o estudo de um cientista que se encontra na Inglaterra. Que legislação aplicar para punir o infrator japonês? A do seu país, a da Austrália ou a da Inglaterra? Quiçá, um tratado ou leis de usos e patentes dotados de jurisdição internacional. Até que isso procede. Nos últimos anos, surgiram alguns novos acordos internacionais promovidos pela Organização Mundial de propriedade Internacional - OMPI, com o intuito de começar a pôr ordem na casa. Tais acordos já estão repercutindo nas legislações nacionais dos países que aderem de forma cada vez mais representativa às suas posturas regulamentadoras. Tribunais Internacionais de Arbitragem também estão sendo criados para combater o mal maior do "samba do 'tudo pertence a todos'"; criado pela Internet: A reprodução e multiplicação indevidas de obras individuais, paralelamente buscando uma constitucionalidade que ampare e garanta os direitos legais da obra intelectual diante do atual quadro de digitalização que se instala no planeta. Haverá, pois, de chegar o dia, em que os royalties, os copyrights (pena não haver como evitar tais terminologias), serão defendidos e cobrados de forma absolutamente justa, satisfazendo interesseiros e interessados. Afinal, o que seriam dos iluminados criadores, não fossem as criaturas e os vis mortais que as admiram? Fico por aqui.

P.S.: Aos menos avisados, já existem mecanismos criados e batizados por aqui como “farejadores”, que interceptam textos ou excertos retirados indevidamente de textos e afins da rede internacional de computadores. Os plagiadores que se se cuidem.

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Túlio Monteiro - escritor, biógrafo, pesquisador, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A vida não é novela, é a vida, é a vida, é a vida... - Clauton Monteiro

Alguém já disse, em certo momento de lucidez, que um cartório de delegacia é a caixa de ressonância da sociedade. A história que segue demonstra o quão misteriosa é a maternidade.

O homem almofada - pastel sobre cartão de Paula Rego 

Certa manhã do longínquo ano de 2001, no famoso e grande Bom Jardim (por alguns chamado de Good Garden para glamourizar um dos bairros mais pobres da Capital Alencarina), adentra o 32º Distrito Policial uma senhora, com alguns hematomas pelo corpo. Sua frágil aparência induz qualquer um a lhe estimar 60 anos de idade.

Ao verificar os documentos apresentados por Maria das Dores (chamemos assim a nossa personagem de hoje), o escrivão, com espanto incomum para quem lida com árdua e cotidiana tarefa de ouvir os reclamos da sociedade, constata que aquela mulher agredida tem pouco mais de 30 anos. O relato dela foi dramático:

- Doutor, me ajude! Meu filho me agrediu, tomou meu dinheiro de diarista e foi comprar drogas.

Sob a égide do Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei 8069/1990, Roberto Chibatinha faz que lhe determina a lei:

- A senhora tem de ir ao IML fazer exame de corpo de delito. Tome a guia para o exame. Depois vá para a Delegacia da Criança e do Adolescente - DCA, é lá que tem de resolver o seu caso. O seu filho é de menor, estou encaminhando tudo para lá. - disse, resignando-se com as amarras lei.

***

Sem muita surpresa, Roberto Chibatinha vê Maria das Dores retornar uma semana depois, agora aos prantos:

- Doutor, pelo amor de Deus, dê um jeito no meu filho! Ao chegar em casa, ontem à noite, depois do meu trabalho de diarista, não encontrei o botijão de gás, meu filho vendeu para o traficante de drogas, eu quis saber quem era, ele me bateu e eu não sei quem vende drogas para meu filho...

Sem mais o quê, perguntou mais uma vez:

- A senhora foi ao IML fazer o exame?

(Afinal é o laudo pericial que comprova a materialidade do crime de lesão corporal. Reflete para si mesmo o escrivão.)

- A senhora foi à DCA?

Respostas negativas para ambas as perguntas.

***

Na terceira ida ao 32° Distrito Policial, a infeliz Maria das Dores apresenta um dos braços quebrados, várias escoriações pelo corpo e um relato assustador:

- Doutor, meu filho estava drogado, com o demônio no corpo, quebrou meu braço, me bateu e levou o restante do dinheiro, me ajude...

Sob a égide do Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei 8069/1990, o resignado Roberto Chibatinha faz o que lhe determina a lei:

- A senhora tem de ir ao IML fazer exame de corpo de delito. Tome a guia para o exame. Depois vá para a Delegacia da Criança e do Adolescente - DCA, é lá que tem de resolver o seu caso. O seu filho é de menor, estou encaminhando tudo para lá. - disse, abrigando-se na burocracia legal.

***

Porque vida não é novela, ao fim de alguns dias, Roberto Chibatinha recebe a determinação para apurar um homicídio. Envolvia um adolescente e sua mãe fora notificada. "Mais uma Maria das Dores", pensou o escrivão, que deveria tomar-lhe o depoimento em audiência prevista para as 10 horas. Já ia ler os autos, quando os policiais vão até sua sala e um deles diz:

- Macho, sabemos do depoimento marcado para as 10 horas. Mas essa senhora chegou aqui às 7 horas. Não para de chorar. Não dá para você ouvi-la antes?

Mesmo com agenda apertada, manda a senhora entrar... Para sua surpresa, era ela, a Maria das Dores agredida pelo filho três vezes. Aquela pobre senhora era testemunha ocular do homicídio do próprio rebento.

Ao reconhecer o escrivão, aos prantos, Maria das Dores suplica: "DOUTOR, TRAZ MEU FILHO DE VOLTA!".

Ante aquele pedido, atônito, quase sem chão, impotente, Chibatinha fez o que lhe restava, pediu uma luz ao Deus Pai. E como se repetisse o que lhe falassem ao ouvido, disparou para aquela senhora:

- Maria das Dores, você tem alguma religião? Acredita em Deus?

- Sim, doutor, sou evangélica. Sigo a lei de Deus. - respondeu aos prantos.

Roberto repetiu para ela o que jura ter ouvido de uma voz misteriosa:

- Peça conformação, pois Deus sabe o que faz. Essa mesma dor que a senhora está sentindo agora, dona Maria das Dores, imagine quantas mães poderiam sentir por causa de seu filho, pois, saiba, seu filho já é suspeito de ter matado três pessoas.

Fez-se um silêncio. Maria das Dores parou imediatamente de chorar. Depois disse:

- É mesmo, doutor, o senhor tem razão. Deus é quem sabe a hora de levar seus filhos, me dê um copo com água...

Em seguida, bastante serena, falou com riqueza de detalhes como se dera o homicídio de seu miserável filho.

***

Roberto Chibatinha assegura que esse fato foi o divisor de águas em sua profissão, pois a partir dele viu que seria impossível sentir ou compartilhar da dimensão da dor de qualquer vítima, que os mistérios da maternidade só a Deus pertence, que vida não é novela, é a vida, é a vida, é a vida... 

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Clauton Monteiro - escreve ocasionalmente no Evoé! Em suas crônicas, predominam as histórias do anti-herói Chibatinha, um controverso filósofo e poeta, cujo alcance permeia as circunstâncias do futebol, das rodas boêmias, dos botequins, parques e cadeias.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

CHICO ARAUJO - Quase o meio...

Não, não era nada simples o que acontecia, principalmente, talvez, por existir aquela extensa nuvem nebulosa se ampliando em sua consciência – uma sensação imperiosa de tempestade por vir dali a qualquer instante.


- Virarei arquivo de metal?

- Desculpe, não ouvi o que disse.

- Pensei alto.

Não sentia nem um pouco de fome, mas desejou profundamente fosse já o horário do almoço para sair dali. No entanto, a manhã tartarugava, acontecendo em compasso distinto dos fatos avalanchando. Pelo menos um lanche? Mas não tinha esse costume de comer nada pelo meio da manhã; fosse hora do almoço, poderia sair daquela sala, daquele ambiente que não compreendia e que, sentia, o sufocava. Queria, sim, pensar um pouco mais, tentar entender os últimos acontecimentos, contudo, para isso, deveria ficar sozinho, sabia.

Mesmo sem muita concentração, compreendeu as informações repassadas – não havia nada de complicado nelas, então acreditou que poderia desempenhar com tranquilidade o trabalho exigido pela nova função. Ficou, enfim, sozinho, e logo descobriu na tela do computador a palavra “músicas”. De repente, com simples dois toques, a sala foi invadida pelo som agradável de instrumentais. Aquele som ambiente e o fato de agora estar só permitiriam, sim, que refletisse sobre os fatos.

A cadeira confortável recebeu bem seu corpo. Relaxou-o nela, a cabeça em alvoroço. A cadeira, em verdade, como que o abraçou, ou, antes, foi ele que se deixou abraçar por ela sem perceber. Mas foi por pouco tempo seu quase relaxamento. Depois que o rapaz saiu da sala mais ainda se deu conta de que, naquela manhã, não estava fazendo nada. Estava ocioso e isso não considerava coisa do bem.

- Um... Quatro...

- ...

- Desculpe incomodar, mas a senhora não sabe aí se não tem alguma coisa pra eu fazer agora. Tô me sentindo inútil, não tô fazendo nada.

- Não se preocupe que na hora certa o senhor vai começar a fazer o que precisa ser feito. E creio que fará muito bem feito.

- Mas...

- Fique tranquilo. Aproveite a musiquinha que está tocando aí e apenas aguarde que já já o senhor terá o que fazer. Será que vai reclamar depois, querendo fazer menos?

- A senhora não poderia ser mais educada? Sempre fui homem de trabalho. A senhora não me conhece.

- Sei muito bem quem o senhor é; na verdade, sei quem são todos que trabalham aqui.

- Então a senhora poderia me dizer...

- Preciso desligar. Tenho o que fazer. Até breve.

Desligou o telefone sem mais nada dizer, deixando seu Arguto menos à vontade ainda. E a lembrança dos companheiros ali do trabalho voltou forte. O que estariam fazendo agora? Quem os estaria orientando? Como estaria tudo lá? Era muito esquisita aquela história de chegar no trabalho em uma função diferente da que fazia antes e ainda não poder falar com os colegas com quem convivera por tantos anos. Uma equipe que ajudara a formar! Era muito esquisito aquilo tudo...

Enquanto ficava pensando nos outros trabalhadores, se lembrando de muitas ocasiões vividas juntos, o tempo correu mais rápido e o estômago acabou por avisá-lo da hora do almoço. Então saiu da sala, refez todo o percurso cumprido na companhia daquela mulher estranha, agora em passos de volta num caminhar sozinho, até reconhecer a trilha do refeitório onde almoçava com quem conhecia e trabalhava.

- Fechado? Como assim, fechado?

Percebeu haver uma espécie de aviso em um papel colado no centro da porta do refeitório. Aproximou-se: FECHADO!!!

- Só isso? E desse jeito? Nenhuma informação que explique por que está fechado? E onde está todo o pessoal que almoçava comigo aqui? Onde estão almoçando agora? Aquela D. Felícia – Que nome! – deve saber.

Propôs-se ir à senhora que já entendia ser um calo em seu pé para perguntar sobre aquela situação, mas não precisou andar muito, pois ela já estava a sua procura e naquele ponto se encontraram:

- O senhor não almoça mais aí. Aliás, ninguém mais almoça aí. Venha que lhe mostro onde fará suas refeições a partir de hoje.

- Me responde somente uma coisa antes de irmos?

- O senhor não acha que pergunta demais?

- De onde venho, as pessoas sempre falam, são educadas, se comunicam, se tratam bem com afeição. Tratam-se quase em linguagem poética.

- Aqui não existe poesia, Sr. Arguto. Aqui se quer trabalho, entende? Trabalho. A empresa precisa produzir e se o senhor está aqui é porque faz parte da engrenagem que a faz funcionar e essa engrenagem precisa funcionar e bem.

- Na engrenagem dessa empresa que eu conhecia tinha uma oficina com muitos empregados e esses empregados almoçavam aqui. Esse refeitório não faz mais parte da engrenagem? Os empregados que almoçavam aqui, comigo, não fazem mais parte da engrenagem?

- O senhor pergunta muito mesmo, mas... é inteligente. Concluiu rapidamente a situação. Não existe mais oficina; os empregados nela não estão mais empregados nela.

- E para onde foi tudo mundo? Todo aquele pessoal foi transferido para que setor, para quais setores?

- Sr. Arguto, honestamente, não sei para onde aquele pessoal todo foi. A única coisa que sei é que nesse momento de terceirização a oficina daqui não existe mais, os empregados nela não estão mais empregados nela, a não ser o senhor, que restou aqui por ter sido promovido por algum motivo sobre o qual não conversei com a diretoria da empresa. Por algum motivo alguém tem novos planos para o senhor. Isso é o que interessa, é nisso que o senhor precisa se concentrar agora.

- Mas, D. Felícia...

- Vá almoçar, Sr. Arguto... Vá almoçar...

Ela parou de falar, deu meia volta, saiu. Não disse mais nada. Não deu mais nenhuma maior explicação. Ele ficou ali, estacado, meio que suspenso no ar, pasmado, pensamentos em confusão, distante de qualquer instrumental sereno, sem qualquer sensação poética. Estava dentro de uma realidade densa, exata, dura, ele falho, sem saber o próximo passo a dar. 

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Chico Araujo publica toda quarta-feira no Evoé! A crônica "Um dia que transcorre..." foi escrita entre 31 de agosto a 6 de setembro de 2017. Leia mais Chico Araujo no blog Vida, minha vida...

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

PLURILITERARIEDADE EM GUSTAVO BARROSO - Túlio Monteiro

A poesia da história repousa no fato quase milagroso de que, por esta mesma terra, por este mesmo chão familiar, já caminharam outros homens e mulheres, tão reais quanto nós, com pensamentos próprios, levados pelas próprias paixões, todos mortos agora, gerações e gerações completamente desaparecidas, da mesma forma que nós muito breve desapareceremos como fantasmas ao raiar do dia. George Macaulay Trevelyan



Discorrer sobre a vida e a obra de Gustavo Barroso é tarefa das mais agradáveis. Eclético, Gustavo Dodt Barroso, que nasceu em Fortaleza no dia 29 de dezembro de 1888 e fechou os olhos para esse mundo no Rio de Janeiro em 03 de dezembro de 1959, pesquisou e escreveu sobre inúmeros segmentos das artes e ciências humanas, gerando uma vasta literatura que trouxe à luz 128 livros publicados ao longo de seus quase 72 anos de existência sobre as terras deste planeta. Advogado, político, contista, museólogo, folclorista, ensaísta, cronista, arqueólogo, memorialista e romancista, o filho de Antônio Filinto Barroso e de Ana Dodt Barroso, nunca se conformou com a mediocridade dos que buscam dominar apenas um ou dois assuntos, uma ou duas ciências. Até porque, Gustavo Barroso habitou uma época em que ser polígrafo era mais que uma moda, era um dever àqueles que buscavam um lugar ao Sol no sempre complicado e megalomaníaco mundo intelectual. Em seu tempo, era obrigação de qualquer literato de boa cepa praticar com excelência a poesia, a prosa e o jornalismo diários, sem nunca relegar a um segundo plano a boêmia e o frequentar das rodas culturais. E esses costumes, essa ecleticidade, Gustavo Barroso praticou-os de forma brilhante e competente, seguindo à risca os conselhos do grande Alceu Amoroso Lima, que nos idos anos 1920 já afirmava:

“A unidade de uma carreira literária não está no assunto, mas no espírito. Pode-se mesmo dizer que unidade de assuntos, nos temperamentos propriamente literários, é sinal de pobreza. O escritor deve variar para renovar-se.”

Sempre em busca de encontrar a essência de nossa nobreza tupiniquim, que necessariamente tinha que ter suas raízes fincadas nas Europas Medieval e Monárquica – raciocínio lógico do antissemitismo de um Gustavo Barroso idealizador, ao lado de Plínio Salgado, da Aliança Integralista Brasileira –, o cearense que mais livros publicou até hoje fez muita coisa durante sua existência terrena: além de escritor, poeta e ferrenho pesquisador, foi também um boêmio de primeira linha, que adorava frequentar os cafés e bares literários daquele bucólico Rio de Janeiro do início do século XX, quase sempre acompanhado dos poetas Bastos Tigre e Emílio de Menezes. Com fama de bonitão e conquistador, João do Norte, pseudônimo favorito de Gustavo Barroso, só passou a direcionar seu intelecto aos assuntos mais sisudos da vida após a aclamada publicação, em 1912, de Terra de Sol – Natureza e Costumes do Norte, livro que enfoca com primazia as tradições e estruturas sociais do sertão cearense.

Dentre as inúmeras atividades intelectuais exercidas por Gustavo Barroso, a mais importante delas, sem dúvida, foi a criação, em 1922, do Museu Histórico Nacional, iniciativa que visou reunir e preservar um acervo museológico no que diz respeito à história do Brasil. Preocupado com a memória nacional de um País que ainda hoje peca nesse sentido, já em 1911, Gustavo Barroso assim se posicionava nas páginas do Jornal do Comércio:

“Já se faz necessário a criação de um Museu destinado a guardar relíquias do nosso passado, cultuando a lembrança dos nossos grandes feitos e dos nossos grandes homens. ”

Era 2 de agosto de 1922, plena época de ebulição do Movimento Modernista brasileiro, quando o Museu Histórico Nacional foi inaugurado por iniciativa de Epitácio Pessoa, então Presidente da República. A construção do Museu estava diretamente relacionada às comemorações do centenário da Independência brasileira de Portugal, tendo como primeiro evento a "Exposição Internacional do Brasil", manifestação cultural que funcionou como uma grande vitrine do progresso brasileiro, atendendo, assim, aos anseios das autoridades preocupadas em expor ao mundo uma nação centenária, desenvolvida e civilizada conforme os ditames e moldes europeus. Os visitantes que circulavam pelos pavilhões da tecnologia, comércio, indústria, ciências e transportes tinham a oportunidade de acompanhar a evolução do Brasil ao longo de cem anos de autonomia política executada de acordo com os padrões integralistas de então. A Gustavo Barroso coube a direção do Museu Histórico Nacional, atividade que ele exerceu de maneira vibrante e apaixonada entre 1922 e 1959, quando veio a falecer.

Incansável em sua luta pelo conhecimento, Gustavo Barroso brilhou também no campo da historiografia. De sua pena brotaram importantes textos que até hoje são referências obrigatórias aos pesquisadores desse campo. Foram trinta e quatro livros publicados nessa área entre 1918, com Tradições Militares e História do Palácio Itamarati, de 1953, sendo que, em 1962, por iniciativa do Magnífico Reitor da UFC, Antônio Martins Filho, foi publicado postumamente À Margem da História do Ceará.


À MARGEM DA HISTÓRIA DO CEARÁ: UM LIVRO, MUITAS VIAGENS

À Margem da História do Ceará é uma coletânea composta por setenta e seis artigos e crônicas que versam exclusivamente sobre a história do Ceará ocorrida entre 1608 – época em que os primeiros jesuítas e exploradores portugueses chegaram ao estado-berço de José de Alencar – e 1959, ano da morte de Gustavo Barroso.

Os textos contidos em À Margem da História do Ceará impressionam por sua variedade e longevidade. Escritos a mais de meio século, permanecem atualíssimos do ponto de vista histórico, sendo uma indispensável fonte de pesquisa às mais variadas ciências da humanidade, uma vez que abordam assuntos ligados à Literatura, Arquitetura, Religiosidade, Geografia, Sociologia, Climatologia e Forças Armadas, sem esquecer do velho e agradável espírito-brincalhão do povo cearense.

O leitor mais atento pode dividir os setenta e seis estudos contidos em À Margem da História do Ceará em textos que se costuram um ao outro formando núcleos temáticos que, por sua vez, alinhavam-se entre si formando uma cadeia de núcleos harmonicamente concatenados em um denso tecido histórico-literário. Melhor explicando: nenhum texto contido em À Margem da História do Ceará está “solto”, desconectado dos outros. O leitor mais arguto perceberá, através de uma leitura perspicaz, aspectos comuns entre os textos que formam um núcleo específico. É o caso do núcleo da Religiosidade, que trata da construção das igrejas de Almofala, Quixeramobim, do Seminário da Prainha e do Coração de Jesus, bem como dos homens místicos do Ceará dos séculos XIX e XX, a exemplo de Antônio Conselheiro, Padre Ibiapina, Padre Cerbelon Verdeixa, conhecido como Padre Canoa Doida, e, claro, de Padre Cícero Romão Batista.

Outros núcleos temáticos que compõem o corpo textual de À Margem da História do Ceará, são os núcleos Literário, Bélico, Geográfico, Político e Historiográfico, quase todos entremeados por abalizadas informações arquitetônicas, daí ser esse livro uma consulta obrigatória aos profissionais de engenharia e arquitetura interessados nas edificações executadas no Ceará ao longo de quase duzentos anos.

Todos os textos de À Margem da História do Ceará têm a característica comum do encantamento. Impossível iniciar a leitura de um deles sem se ir até o final, isso porque, a escrita de Gustavo Barroso possui um fluxo contínuo de leveza e literalidade absoluta. Em "História da Praça do Ferreira", por exemplo, Gustavo nos conduz com maestria pela história daquela praça que é considerada o coração e o símbolo da cidade de Fortaleza, trazendo-nos imagens quase reais do ano de 1825, que marca a chegada à capital cearense do boticário carioca Antônio Rodrigues Ferreira, que deu nome à praça, até o ano de 1957, quando o texto em questão foi escrito. Encantador também é "A Igreja dos Albanos", artigo que registra a história da construção e reformas da Igreja do Coração de Jesus e do poder do baronato do café no Ceará do século XIX.

São muitos os temas magistralmente abordados por Gustavo Barroso em seu À Margem da História do Ceará. Nele, estão presentes padres, místicos, loucos, "reis", latifundiários, patriarcas, matriarcas, poetas e heróis. Todos convivendo e conversando pacificamente entre si sobre anos e anos da rica e apaixonante história do Ceará. História escrita por negros, índios e europeus nas caatingas, serras e praias das terras de Alencar.

É leitura obrigatória, pois, À Margem da História do Ceará. Um livro destinado aos muitos segmentos do intelecto humano e aos que gostam de remexer nos folhiços do passado. Documento vivo que perpetua às gerações atuais e pósteras os costumes e peculiaridades das gerações que habitaram o solo cearense há muito, muito tempo antes delas.

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Túlio Monteiro - escritor, biógrafo, pesquisador, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.