quarta-feira, 12 de setembro de 2018

CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA III: QUEM TEM MEDO DE VIRGÍNIA WOOLF?! - Túlio Monteiro*

O efeito da morte sobre aqueles que continuam
vivos é sempre estranho, e muitas vezes terrível,
pela destruição de desejos inocentes.
(Virgínia Woolf)

Ah, essas malditas pedras!

Nasci pelo janeiro de 1882, em Kensington, bairro de Londres situado em zona limítrofe com o Hyde Park, lugar habitado em minha contemporaneidade pelos terríveis atos criminosos de Jack, o estripador. Cresci com as hostis histórias de mulheres sendo desencarnadas por um maníaco nunca descoberto.

Preciso confessar, no entanto, que vim ao mundo em berço esplêndido. Nunca me faltando qualquer coisa que fosse do ponto de vista material ou cultural. Filha de Sir Leslie Stephen e Julia Prinsep Jackson, fui criada e educada em uma família austera, já que meu pai era um editor de renome, bem como foi escritor, historiador, ensaísta e biógrafo. A ele devo minha rígida educação, fato que me levou já aos nove anos a publicar o Hyde Park Gate News, um pequeno jornal de tiragem caseira destinado a divertir literatos do porte de Thomas Hardy, Alfred Tennyson e Henry James, sendo este último um dos fundadores do Realismo literário e amigo pessoal de Gustave Flaubert.

Pena que, desde cedo, eu já apresentava crises depressivas. Talvez por conta de meus meios-irmãos por parte de pai em seu primeiro casamento terem me tocado intimamente quando eu ainda era uma criança. Vis lembranças de irmãos que vi morrerem antes de mim. Seleta vingança. Ao Inferno com eles. Decerto que as crises de insônia e desespero de meu pai, bem como seus casos de autodúvida e estresses diários contribuíram para meu fracasso social. Isso é fato! Mas, voltemos à pena!

Impressionada pela literalidade e pelo trabalho de editor do monumental Dictionary of National Biography, obra-prima de meu pai e também por sua vasta biblioteca particular, desde cedo manifestei a expressão de tornar-me escritora. Porém, a arrebatadora morte de minha mãe logo aos meus 13 anos de idade e os insistentes assédios de meus irmãos levaram-me em 1885 ao meu primeiro colapso nervoso. Médicos apostos no número 22 do Hyde Park Gate. Ao meu pai e aos meus consultores nunca revelei os motivos de minhas crises nervosas. Para quê? Se de nada resolveriam meus incontáveis apelos em plena era vitoriana onde as mulheres eram meros abrigos de filhos a serem nascidos e procriados?! O silêncio seria meu abrigo até nos íntimos escritos. E casei-me! Sim! Como filha do recém-nomeado Cavaleiro da Mais Honorável Ordem do Banho, período em que escrevi a perder de vista ensaios para o jornal The Guardian, conheci Leonard Woolf, amigo íntimo de meu irmão legítimo Thoby Stephen. Foi por assim dizer uma válvula de escape para uma criatura de trinta anos e já dada como de certa idade em tempos de começo do século 20. Emancipação! Felicidade plena e a fundação, em 1917, da Editora Hogarth Press, que revelou escritores do porte de T.S. Eliot, um tal Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

Filhos? Não os tive! A bem da verdade, meu sobrinho Quentin Bell, foi um seleto ouvinte de minha trajetória sexual. Forçada que fui por meus irmãos a libertinagens mil, tornei-me um tanto arredia aos carinhos masculinos. O que transformou meu casamento com Leonard em um grande erro e fracasso, levando-me a dar-lhe liberdade para aventuras extraconjugais em detrimento de aparências e nada mais.

E foi assim minha cara e minha cruz onde assinalo que, apesar de não termos um “casamento com sexo”, no sentido estrito, eu e Leonard Woolf fizemos esforços e desafiamos as evidências para forjar uma relação verdadeiramente humana. Mas sem nenhuma paixão. Se havia uma paixão, entre os dois, era o culto à boa literatura e à boa conversa com os amigos, como o economista (bissexual) John Maynard Keynes. Eu, por minha vez, embora admirasse homens talentosos, tinha mais intimidade com mulheres, como Vita Sackville-West e Ethel Smyth. Aqui me confesso homossexual assumida! Lampejos de uma alma aturdida e sacrificada pelos beijos e carícias de meus malditos irmãos por parte de pai.

Era 1941! Enquanto Leonard se ocupava na luta contra os nazistas, eu preparava os frutos de minhas inserções pelo mundo do Fluxo da Consciência de Édouard Dujardin e Willian James, técnica literária em que se procura transcrever o complexo processo de pensamento de um personagem, com o raciocínio lógico entremeado por impressões pessoais momentâneas e exibindo os processos de associação de ideias, onde a característica não-linear deste processo de pensamento leva frequentemente a rupturas na sintaxe e na pontuação.

Mas as crises sexuais e existenciais nunca me deram trégua. E apesar de conviver e muito bem com a sociedade britânica de então, meus fantasmas me assombravam soberbamente. Não me largavam os malditos! Invadindo-me as têmporas para lá de cansadas. Atormentando-me noite e dia entre corpos femininos e masculinos. Crivo das cores. Abordagem maior de um ser humano coberto de erros e pecados. Seria eu a única a pecar em desvelo de um santo corpo? Nunca irei saber!

É manhã de 28 de março de 1941!

Nossa casa em Londres, no Hyde Park, foi destruída pelos bombardeios de Hitler e nada mais me resta de sobriedade. Temo por mim e corro à pena para mais um desabafo a Leonard, meu fiel companheiro de vida e descasos. Teimo em escrever-lhe mais uma missiva, mas ao mesmo tempo sinto-me livre após anos de torturas íntimas; E escrevo:

Querido Leonard,

Tenho certeza de que enlouquecerei novamente. Sinto que não podemos passar por outro daqueles tempos terríveis. E, desta vez, não vou me recuperar. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Por isso estou fazendo o que me parece ser a melhor coisa a fazer. Você tem me dado a maior felicidade possível. Você tem sido, em todos os aspectos, tudo o que alguém poderia ser. Não acho que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes, até a chegada dessa terrível doença. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando a sua vida, que sem mim você poderia trabalhar. E você vai, eu sei. Veja que nem sequer consigo escrever isso apropriadamente. Não consigo ler. O que quero dizer é que devo toda a felicidade da minha vida a você. Você tem sido inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer que – todo mundo sabe disso. Se alguém pudesse me salvar teria sido você. Tudo se foi para mim, menos a certeza da sua bondade. Não posso continuar a estragar a sua vida. Não creio que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes do que nós.
V.

Após isso, o desenlace final me aguarda. Visto o casaco em desalinho e caminho rumo às margens do Rio Ouse, tão perto que fica de minha casa. Quanto ao meu corpo? Só depois de três semanas foi encontrado por um grupo de escoteiros perto da Ponte Southease. Já era abril e cinzas virei.

Enfim as benditas/malditas pedras surtiram efeito!

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*Túlio Monteiro - é poeta, contista, crítico literário, articulista do Evoé! Leia mais em Literatura com Túlio Monteiro.



segunda-feira, 10 de setembro de 2018

MONÓLOGO DE UMA MORTE ANUNCIADA II: Florbela Espanca - Túlio Monteiro*

Dorme, dorme, alma sonhadora,
Irmã gémea da minha!
Tua alma, assim como a minha,
Rasgando as nuvens pairava
Por cima dos outros,
À procura de mundos novos,
Mais belos, mais perfeitos, mais felizes.

Criatura estranha, espírito irrequieto,
Cheio de ansiedade,
Assim como eu criavas mundos novos,
Lindos como os teus sonhos,
E vivias neles, vivias sonhando como eu.
Dorme, dorme, alma sonhadora,
Irmã gémea da minha!
Já que em vida não tinhas descanso,
Se existe a paz na sepultura:
A paz seja contigo!

(À Memória de Florbela Espanca, do espólio de Fernando Pessoa)

Hoje é meu aniversário!

Trinta e seis anos completos de tormentas e espasmos psicóticos que teimam em não me deixar em paz um momento sequer desta minha existência terrena iniciada no Alentejo, desde que rompi do ventre de minha mãe Antônia.

Sempre fui tanto singular, dizia meu pai José Maria, o antiquário por profissão e divulgador do Vistascópio de Edison nas terras portuguesas por amor à sétima arte. O que dizer e não dizer de uma filha fecundada de maneira tão ímpar quanto eu, uma vez que Mariana, minha estéril mãe e verdadeira esposa de meu pai, permitiu o enlace conjugal do mesmo com mama Antônia?! Mas que bela caricatura sou eu: filha de uma vistosa e bela criada de servir que também trouxe à luz Apeles, meu amado irmão, dois e poucos anos mais novo que eu. Fazer o quê se as correntes escravocratas ainda imperavam no meu Portugal de fins do século dezenove, e amas de leite eram criaturas presentes em quase todos os lares?

Fui capturada cedo pelo mundo das Belas Letras. Enquanto ainda frequentava a escola primária de Vila Viçosa do Alentejo, já arriscava meus primeiros versos, sendo que em 1907, aos 13 anos, redigi “Mamã”, meu primeiro conto dedicado a Antônia, minha mãe de parto que viria a falecer no ano seguinte vitimada por uma sequência de incansáveis ataques de nevrose. Maldita herança materna!

A morte de mamãe foi o gatilho à minha mudança para a cidade de Évora, onde fui uma das primeiras mulheres a cursar por completo escola Liceal. Foi requisitando livros do Liceu de Évora que conheci alguns monstros sagrados na Literatura Mundial, a exemplo de Dumas, Balzac, Garrett, Camilo Castelo Branco e Guerra Junqueiro.

Os joviais anos escolares passaram rápidos até que em 1913 decidi por casar-me com Alberto Moutinho, meu colega de Liceu. Não tínhamos posse, o que nos levou a morarmos precariamente na Vila de Redondo, passando a residir, a partir de quinze, na casa de meu pai em Évora mesmo.

Em 1916, já trabalhando como jornalista para O Século de Lisboa, para A Voz Pública e Notícias de Évora, retornamos à Vila de Redondo, onde organizei uma detalhada coletânea de meus escritos, publicando-os sob o título de Trocando Olhares. Não foi um sucesso de público, o que me levou a uma crise de neurose, mal que me acompanharia por toda a existência.

Com a chegada de 1917, concluí o Curso Complementar de Letras e matriculei-me na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, de onde fui uma das únicas catorze mulheres a lograr aprovação. Felicidade, enfim!

Entretanto, veio o famígero ano de dezoito, a Primeira Grande Guerra e meu aborto involuntário, o que me agrediu de maneira profunda os ovários e pulmões. Neurose e a culpa jogada sobre os ombros de Alberto. Estava se findando o meu casamento e a alma de poeta carecia de novos amores, novas aventuras por corpos nunca dantes desnudados.

Dezenove e vinte foram anos de uma certa paz interior. No primeiro, publiquei duzentos exemplares de meus sonetos no Livro de Mágoas. Desapareceu rápido das prateleiras, vindo a se tornar obra rara. Já no segundo, e ainda casada por aparências com Alberto, conheci o Antônio José Marques Guimarães, alferes da Artilharia da Guarda Republicana. Paixão arrebatadora, mas impossível de ser vivida plenamente, o que me levou, após mais de seis meses de traição a separar-me oficialmente de Alberto, permitindo-me com isso casar-me com Antônio Guimarães, passando a residir na cidade do Porto e, no ano seguinte, em Lisboa, onde Guimarães se tornou chefe do gabinete do Ministro do Exército.

Tudo parecia divino, não fossem as incessantes tentativas de gravidez sem sucesso e a ascensão meteórica de meu marido, o que me resignava a ser uma mera coadjuvante em um mundo plenamente machista e cheio de preconceitos. Confesso-lhes: fui até onde minha alma de poeta aguentou! Esforcei-me, os Céus sabem quanto, para manter viva a chama do amor que havia de mim para com Antônio. Até publiquei, em janeiro de vinte e três, meu segundo livro de sonetos, o Livro Sóror da Saudade. Novas e excelentes vendas o que me acalantou o regaço de poeta nada pudica em relação aos males do coração e desejos febris por ser amada.

Não me perguntem como, mas desde de vinte e um que já caíra de amores pelo médico Mário Pereira Lage. Ao contrário do rompante entre mim e Antônio, fui mais regrada e secreta no tocante a esse novo amor. Foram quatro os anos em que nos relacionamos amiúde em encontros joviais para uma mulher de trinta e qualquer coisa.

Veio 1925 e com ele a definitiva separação de Antônio. Casei-me, pois, com Mário em Matosinhos, região do Porto, onde passamos a residir. Mário e sua abastada condição me davam asas a uma livre produção literária. Tinha ao meu dispor penas e papeis, o que me levou a colaborar, a partir de vinte e sete, no Civilização e Figueirinhas do Porto e no D. Nuno de Vila Viçosa. Tudo parecia tão bem naquele primeiro semestre. Até que “Ela” se apresentou novamente fria e tenebrosa ante meus olhos: em junho, nas proximidades da freguesia de Belém, meu único irmão o aeronauta Apeles Espanca sofreu um fatídico acidente aéreo. Devastação total de Minh´alma de sonhar-te! Crises nervosas, neuroses, pensamentos pessimistas me invadiram a mente. À pena corri e escrevi quase que de uma vez só a série de contos póstumos As Máscaras do Destino. Mais um ser amado tinha-se ido!

Sem filhos, sem disposição aos textos e sem a compreensão de meu marido tentei por cabo à minha vida em 1928, Exaurida, nada mais me dava prazer a não ser o fazer de minha autobiografia iniciada em trinta e interrompida bruscamente por mais duas infames tentativas de partir para sempre.

Contudo, ainda reuni forças para colaborar jornal feminino e feminista Portugal Feminino, no Primeiro de Janeiro do Porto e Revista Civilização, Tentativas insanas de me reencontrar naqueles outubro e novembro de um trinta demoníaco. Nada resolvia! Nem os carinhos parcos de um Mário já deveras distante me calavam alto o coração quando, no início de dezembro, o fatal diagnóstico de um severo edema pulmonar me arrebatou de vez a vontade de viver.

Era manhã do dia oito de dezembro, dia de meu trigésimo sexto aniversário, quando o maldito Veronal enfim fez efeito...
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*Túlio Monteiro - é poeta, contista, crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé!  Leia mais em Literatura com Túlio Monteiro.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

MONÓLOGO PARA UMA MORTE ANUNCIADA? Hemingway - Túlio Monteiro*


O meu é uma resposta aos que chamam ao suicídio um fim de covardes e de fracos, quando são unicamente os fortes que se matam! Sabem lá esses pseudo-fortes o que é preciso de coragem para friamente, simplesmente, dizer um adeus à vida, à vida que é um instinto de todos nós, à vida tão amada e desejada a despeito de tudo, embora esta vida seja apenas um pântano infecto e imundo!
(Flor Bela Espanca)



Diachos! Nessa última meia hora nada mais fiz que relembrar e remoer o meu passado. Seis décadas inteiras de impotência, neuroses, alcoolismo e depressão. Já não consigo raciocinar direito nem lembrar bem de como se datilografa um escrito, um rabisco que seja nessa velha Smith-Corona que já me acompanha há anos por cada atril nos quais ela bem quis e descansou.

Eis que por um momento me vem à mente o velho Fitzgerald, que já partiu há pelo menos vinte anos, quando disse-me em uma carraspana memorável que para cada livro escrito eu teria que ter uma nova mulher. E rio por dentro ao ter afirmado a ele e a outros da minha estirpe, que não me apaixono, mas, sim, caso-me! Sim, caso-me como mal tendo completado 20 anos e já servindo à Primeira Guerra Mundial como motorista de uma ambulância da Cruz Vermelha, decidi por me casar com a bela Elizabeth Hadley Richardson, com quem tive um filho. Foi por influência dela e da enfermeira Agnes Von Kurowsky, que me atendeu após um bombardeio do qual me restaram centenas de estilhaços de uma bomba que explodira próximo ao local onde eram resgatados alguns soldados americanos, que dediquei às duas, em 1929, Adeus às armas.

Mas as Guerra de 1918 chegou ao fim e o Condado de Oak Park, onde nasci, ficou muito monótono para um homem grande e robusto como eu, 1.96m, de altura por 118 quilos de peso. Era demasiado curto ficar escrevendo para o pequeno jornal de minha terá natal. Precisando, urgente, conhecer novos horizontes. Novas plagas, outros arrabaldes.

Sem pensar duas vezes, mudei-me com Elizabeth e o menino para a doce Paris, que sempre foi e será uma festa. Estava empregado como correspondente da revista canadense Toronto Star Weekly. Não fosse essa mudança, nunca teria conhecido vates do porte de Ezra Pond, Sherwood Anderson, Waldo Peirce, John Dos Passos, T. S. Eliot, James Joyce e Gertrude Stein. Estava formada, em plena depressão do pós-guerra dos “Loucos anos 1920”, a “Geração Perdida” da Rue de Ledeon, número 12, e seu inesquecível Café-Livraria Shakespeare and Company.

Droga! Já lá se vão quinze minutos e eu neste polimento monótono e cansativo!

Entretanto, o tempo passou e como todos os grupos de pensadores nós nos afastamos. Cartas eram nossas relíquias trocadas com frequência britânica. Alívio às dores da alma que já me escancaram o cérebro.

Em Paris, meu primeiro casamento se foi, tendo eu me apaixonado pela jornalista Pauline Pfeiffer, com quem casei em 1927 e tive mais dois filhos, nesta época já morando na Flórida e frequentando bares do submundo, dentre eles o Sloppy Joe's Bar, de Joe Russell, até então meu confidente e companheiro de farras.

Amante que sempre fui de esportes, na década de 1930 parti com Joe rumo a uma pescaria de Marlins nos mares cubanos de Fidel Castro e sua Revolução Socialista. Foi paixão à primeira vista me hospedar no Hotel Ambos Mundos, localizado na Vieja Havana, onde passaria as próximas duas décadas em intenso combate aos meus transtornos mentais e depressões profundas.

Na ilha de Guevara, duas arrebatadoras paixões poriam fim ao já combalido casamento com Pauline. Primeiro, foi com Jane Mason, que era casada e não mediu esforços para estar em minha cama. Era a famigerada década de 1930. Em 1936, contumaz apreciador de mulheres destemidas que sempre fui, surgiu-me às já velhas e cansadas retinas a figura destemida de Martha Gellhorn, jornalista de guerra que de passagem por Cuba partiria para a Espanha em busca da cobertura da Guerra Cívil daquele país. Com o coração livre e um novo romance que daria à luz Por quem os sinos dobram, de 1940, parti às terras dos loucos moinhos de Cervantes como jornalista do North American Newspaper Alliance e, claro, para os braços de Martha.

E toda a Segunda Guerra passei nas terras de Fidel ao lado de minha terceira esposa. Foram anos duros de chumbo, recessão e milhões de mortes. 1946 chegou e com ele a Paz aparente. Cuba, como as touradas espanholas, já não me agradavam mais. Precisava voltar ao meu ninho norte-americano, mais precisamente à cidade de Ketchun, no condado de Blaine, estado de Idaho. Martha e eu havíamos decidido por não mais dividirmos vidas, o que mais uma vez me levou a uma profunda tristeza de viver ao alcoolismo exacerbado.

Diacho de polimento bolorento!

Porém, entre minhas andanças por revistas e jornais, encontrei a frágil e tímida jornalista Mary Welsh, um oposto completo das mulheres arrebatadoras que haviam passado por minha vida nada monótona. O diabetes, alcoolismo, depressão e a maldita homocromatose se aliavam à minha perda de memória com rompantes de lucidez que me trazem à lembrança a personalidade dominadora de minha mãe Grace, que sempre insistiu em me recordar do fim trágico que meu pai havia posto à sua vida terrena.

Lá se vão vinte e cinco minutos de uma apavorante solidão, do qual sei que não sairei ileso. A mente alucinada como os exaustivos monólogos interiores de Faulkner em seu Palmeiras selvagens.

E falo comigo mesmo e com meus pares já idos. Atormenta-me a imagem das orelhas de Van Gogh e a quintessência do gênio incompreendido, o artista onde discursos sobre loucura e criatividade convergem de maneira ao já esperado.

É 2 de julho de 1961 e a manhã se anuncia entre os pássaros que teimam em piar ao surgir de um novo arrebol. Já à beira de meus sessenta e dois anos dentro dos próximos dias, sinto-me cansado! Já não consigo dedilhar minha velha máquina de escrever e isso se torna dor suprema em articulações e nervos sacrificados. Escrever em pé, à maneira de tantos outros loucos que passaram pela História é conservadorismo que não mais posso exercer. E isso dói como doem as faltas dos amores partidos. Mary dorme. Já não há mais amor de mim para com ela. Como também já não há mais amor pelo Pulitzer de Ficção de 1953, nem pelo Nobel de Literatura de 1954. Nada mais vale a pena. Filhos distantes, cada um se ocupando de sus afazeres diários. De mim, o pai, somente uma lembrança amarelecida feito velhos papeis de carta.

Já é manhã feita. E o tempo se arrasta agourento, feito os corvos de Poe. Fim do polir e azeitar de meu velho rifle de caça. Um calibre 22 da Abercrombie & Fitch de minha estima. Lembranças de caçadas indeléveis na África Central.

Ora de ir!

Partir aos braços de Morfeu e ao reencontro de amigos que se foram antes de mim. Que fique meu legado!

E Hemingway não quis...

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*Túlio Monteiro - escritor, poeta, crítico literário e articulista do Evoé!

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sem confetes - Chico Araujo*

Dos poemas de Túlio Monteiro constantes nessa antologia, “Poesia” tem natureza metalinguística. Nela, o poeta declara a seus leitores o que a poesia significa para ele: um espaço de expressão no qual as palavras são costuradas com o propósito de dar voz a um eu lírico múltiplo de vivências e sentimentos. Isso é o que depreendemos dos dois primeiros versos; dos quatro últimos, o desnudamento de certa ansiedade positiva para a escrita de seu mundo interior.

Por isso, acolhemos a poesia de Túlio Monteiro como meio de revelação, muita revelação. Por meio dela, um eu lírico expressa, expõe, põe à vista do leitor latências incontidas. A partir dela, esse eu lírico faz transbordar, principalmente, sentimentos e sensações já não possíveis de contenção.

Desejo, lembranças, paixão, saudade, dores, solidão são elementos formadores de suas temáticas em exploração poética, em versos compostos em linguagem simples, o que permite aos leitores interação rápida com sua poesia, mesmo nos momentos de maior sutileza expressiva, quando nos deparamos mais intensamente com sua subjetividade.

Em “Teus olhos no vinho”, por exemplo, os dois primeiros versos expõem ao leitor um momento em que o eu poético declina um momento de recordação e, devido a ele, o despertar de uma saudade em amplitude tanta que a lembrança dos olhos da pessoa querida e desejada perduram em seu rememorar, pois “teimam em boiar / no escarlate do vinho”. Vê-se, nesse instante, o registro de validação de alegria, posto que, devido a ele, “Um sorriso franco me chega ao peito / feito feitiço em noite de lua cheia...”.

A imagem da pessoa amada nesse poema é tecida, subjetivamente, como prazer, encantamento e felicidade a partir da utilização de palavras e expressões como “sorriso franco”, “feito feitiço em noite de lua cheia...“ (aqui se deduz a grandeza da pessoa amada, posto que associada à dimensão subjetiva proporcionada pela lua quando está cheia), “saudade do teu carinho”; no entanto, a dubiedade dos sentimentos também é pronunciada quando emerge alguma tristeza pelo distanciamento do ser amado em “nunca mais te terei / ao alcance de meu beijo.”.

Em “Saudades das estrelas no corpo” e “Há pó de estrelas pelas estradas”, lembranças e saudades dão vazão a sentimentos de paixão que transitam pelo padecimento do amor sentido e pelo prazer lembrado, porém perdido. Os versos “Um tempo nunca mais retornado / Relembra a paixão e o viver.”, do primeiro, dizem bem de uma lembrança em recorrência no existir do eu lírico, uma insistente lembrança que não maltrata, pois significa vida. O amargor da saudade, contudo, aparece nos últimos versos desse poema, quando se fala do amigo que foi embora, do tempo que não pode retornar, do “grande amor” agora inalcançável.

O segundo, logo em sua primeira estrofe, expressa experiências sentimentais saudosas e alegres, uma vez que “o pó de estrelas pelas estradas” é motivo de prazer que leva a uma sensação de espírito pacificado. Essas vivências são despertas novamente por lembranças, posto que vindas dos “últimos já quase oito anos.”, tempo em que a experiência amorosa foi pretendida para um sempre, ao serem considerados os versos “amantes que, mesmo antes de tê-las, / já éramos antes, hoje e depois.”. Essa vivência amorosa do eu lírico está sempre marcada por momentos de amor partilhado e, depois, pela solidão do amor rompido, mesmo que essa solidão emerja não a partir de fatos, mas de temores pela perda. É o que se intui dos versos “Tantas lembranças dessas estradas / estão retidas em minha mente / tão temorosas de serem lembradas / por medo que o peito não aguente / todas as dores de amor geradas / pelas ideias de te ver ausente.”

A poética de Túlio Monteiro também pontua acentos de Intertextualidades, como, por exemplo, em “Saudades das estrelas no corpo”, uma vez que a última estrofe retoma, em parte, frase e estrutura poética de Casimiro de Abreu em “Meus oito anos”. De modo semelhante, no mesmo seu poema, Monteiro, por intermédio do eu poético, associa versos da música “Como nossos pais” – exatamente “... já faz tempo eu vi você na rua / cabelo ao vento, gente jovem reunida...” –, do compositor e intérprete sobralense Belchior, como elementos intensificadores das lembranças existentes. Também no poema "Há pó de estrelas pelas estradas", no título e no primeiro verso, o poeta Túlio Monteiro dialoga com o poema Plenilúnio, de Raimundo Correia.

Concluindo, destaco, ainda, do poema “Cigana”, certa e resoluta entrega amorosa do eu lírico a sua amada, negando-se a qualquer intenção premonitória – verdadeira ou ardilosa – de uma cigana aparecida em seu caminho; novamente a lembrança se fazendo presente e marcando as sensações amorosas que sente enquanto se permite molhar-se em chuva em “Verde, cor favorita”, poema que se encerra com mais um exemplo de intertextualidade.

No mais, importa ainda declarar a sutileza amorosa do poeta Túlio Monteiro em seu poema “Primeiro poema para Aline Monteiro”. Nele, vê-se um eu lírico alegre, descontraído, distenso, brincando com as palavras e com o registro de letras em algumas delas, de forma cândida para enaltecer a vida de sua musa inspiradora para o poema, a qual trata por princesa, linda, pérola morena, expressões que servem para destacar, dela, uma beleza ímpar.


O que mais dizer desses poemas de Túlio Monteiro nessa antologia? Bem... agora deixo com você, ledor.
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*Chico Araujo - professor, poeta, compositor, contista, cronista, escreve articulista do Evoé! O título "Sem confetes" foi escrito entre 25 e 28 de agosto de 2018.

sábado, 18 de agosto de 2018

LAMPEJOS: DIOGUINHO E AS CORES DO ARCO IRIS - Túlio Monteiro*

Eis que me chega, através de correspondência eletrônica, o mais novo e ainda inédito livro do irisante poeta Diogo Fontenelle. São exatamente 363 poemas. Trezentos e sessenta e três gotas prismáticas das mais encantadoras emoções do universo infantil, com minucioso apuro formal, desde a definição da cabalística quantidade de poemas, em que os extremos somados equivalem ao cerne. Vale ressaltar que Dioguinho me confiou Lampejos ainda em sua matriz para uma breve apreciação; arrebatado, porém, por tão sinestésico conteúdo, decidi desenvolver o presente artigo sem querer me deter aos traços acadêmicos que costumam permear minha escrita analítica. 

Óbvio que algumas técnicas aprendidas no transcorrer de minha formação em Letras na Universidade Federal do Ceará virão à tona no percurso literário deste ensaio sobre a enlevada expressão de um dos maiores bardos da Literatura da Infância no Ceará. 

Bom. Mas iniciemos nosso passeio que, prometo, será brando como as variantes do Azul na vasta e rica obra de Diogo Fontenelle. 

Lembro que tudo começou em uma conversa via messenger que tive com Dioguinho. Entre as muitas reflexões que costumam ter os poetas, ele falou-me de um novo livro que está às vésperas de ser publicado, tendo o mesmo sido sacramentado por Fontenelle com o doce epíteto de Lampejos. Edição que desde já, aviso, será de grande valia para a Literatura praticada nas terras de Alencar desse começo de século 21.

De modo similar a Marcel Proust no seu imortal Em busca do tempo perdido, Dioguinho lança mão de todos os artifícios que possui para nos presentear com uma coletânea de poemas da mais fina estampa. Algo assim para ser degustado como a buscar o sabor das madeleines que o menino Proust tomava no chá da tarde com sua mãe, Jeanne Well. Assim, pois, feito Proust, Fontenelle mergulha em suas referências afetivas para reviver e reafirmar a absolutamente salutar infância, em poemas repletos de sonhos dourados do sol da manhã que tanto cativam o filho de D. Carmelita. Se não, comprovemos no poema “O meu jeito menino de ser’:

Como um veterano ator ancião sem texto nem direção,
Surpreendo-me qual menino aprendiz a cada santo dia.
Ainda sigo a girar pião pelas manhãs da cor de açafrão,
Sigo a erguer castelos de sonho ao soprar da tarde fria.
Ainda sigo a preludiar a invernia pelos estios do sertão,
Sigo a empinar arraias pelo céu nublado do além-mar,
Sigo a garimpar afetos pelo horizonte cinza do coração,
Sigo a cavalgar a solidão da brava madrugada sem luar,
Sigo a dourar meu olhar ao luzir da infantil imaginação.

Como Proust, que, em seu livro autobiográfico, lança mão da peripécia de utilizar-se do personagem Charles Swann, Diogo Fontenelle viaja pelas translúcidas imagens que marcaram sua infância, adolescência e idade adulta, transformando Lampejos em um livro autobiográfico que eu diria obra completa sem mais necessidade de outros números pósteros, não fosse pela eloquência de um Dioguinho que passa a impressão de ser capaz de produzir por toda a eternidade poesias da mais simpática e cativante semeadura. 

À maneira Proustiana, Fontenelle nos brinda com reminiscências que tratam da mesma solidão que sofreu o bardo francês nos já idos anos finais do século 19. Observemos para uma análise mais comparativa “Fora do tempo, dentro do meu tempo”:

Vivo à mercê das forças de encantamento magistral.
São coisas sem raízes que me salvam da rude solidão,
Coisas fora do tempo, mas dentro do tempo pessoal,
Coisas fora da razão, mas dentro da bela imaginação.
É o olhar inalcançável de uma criancinha adormecida
Que me ilumina ao encontro de centauros e dragões.
É o vagalumear inalcançável de uma estrela foragida
Que me acolhe ao tanger de sinos, violinos e violões.
É o meu coração sonhar adentro em sempre partida.

Proust recorda a infância através de madeleines molhadas em uma simples xícara de chá, que o transporta para Combray, uma pequena vila que frequentava quando criança. Já as lembranças do menino Dioguinho nos remetem ao seu bairro de infância, o Parque Araxá, de maneira singela, porém bela:


O meu bairro Parque Araxá
Para Juracy Mendonça, um sempre menino do Parque Araxá

Era a Fortaleza pequenina de uns cinquenta anos atrás,
O Parque Araxá era o bairro classe média de bons ares
Com chalés ajardinados de flores boa-noite da cor lilás,
Ruas estreitas e incertas salpicadas de verdes pomares
A nutrir risonhos canteiros de rosas e frutas da estação.
Foi-se o meu Parque Araxá da Nossa Senhora das Dores,
Com as procissões de junho e anjos de asas de algodão.
Esse bairro foi batizado por sua água cristal sem odores
E ficou assim, sempre encantado no meu infantil sonhar
Entre as lembranças de avozinhas a fiar rendas brancas,
Entre os pregões matinais dos verdureiros a cantarolar,
Entre as benzedeiras a curar bebê com orações francas.

Caso algum purista veja exagero de minha parte ao “comparar a obra de um monstro da Literatura Universal com a de um mortal cearense”. Recomendo ler o restante deste artigo para conferir que muitas são as características comuns entre os dois, presentes na arte de Fontenelle, com certeza decorrentes das suas leituras aprofundadas da obra de Proust. 

O memorialismo, por exemplo, é definitivamente o campo dos sonhos dos escritores aqui em questão. Vamos deixar de lado, por enquanto, as recordações infantis para nos deter em outras questões mais aprofundadas da mente humana, pois, uma vez que, quando nada subsiste de um passado antigo, após a morte dos seres, após a destruição das cores, apenas o cheiro e o sabor - mais frágeis, mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis - permanecerão ainda por muito tempo, como fantasmas a fazer-se lembrados à espera sobre a ruína de todo o resto, carregando sobre a sua gotinha sem vacilações outra gotinha quase impalpável, chamada de edifício imenso da memória. E foi de um desses edifícios imaginários, que Fontenelle trouxe à luz Sonhos de menino, sonhos de hoje:


Os sonhos de menino rasgavam a noite rumo ao dia,
Os sonhos de hoje rasgam o dia rumo à noite serena
Com o apiedado Senhor a velar a eternidade fugidia.
Sonhos de menino bailavam no jardim qual açucena,
Sonhos de hoje são as rosas idas em livros de poesia.
Os sonhos de menino anunciavam luz de primavera,
Sonhos de hoje tangem perfumes suaves do poente.
Sonhos de menino e de hoje encantam a atmosfera,
Norteiam as frotas à luz do farol de poesia clemente.


Em busca do tempo perdido – No caminho de Swann, Proust trata, principalmente, da memória, da família, do amor e de todos os sentimentos. Uma vez para que Combray era um lugar muito triste, assim como as suas ruas, cujas casas construídas com pedras enegrecidas da região, precedidas de degraus exteriores, encimadas por frontões que faziam descer a sombra à frente delas. Eram tão escuras que era preciso, mal o dia começava a declinar, erguer as cortinas nas salas. 

Não podemos deixar de atentar nossos leitores sobre o fato de ser Charles Swann o alter-ego do próprio Proust, peripécia de que Fontenelle se vale por várias vezes em seu Lampejos, quando se faz criança a rememorar as brincadeiras e fatos – corriqueiros ou não – de sua infância. Como Swann no capítulo que trata de seu amor por Odete, Dioguinho relembra amores antigos entre cartas e camafeus de outrora:

Meu outro eu

Engavetadas no ébrio criado-mudo,
Tropeço em velhas cartas de amor.
Eis outro mundo paralelo desnudo,
Sombra de mim mesmo ao sol-pôr.

Fui outro sem que ninguém me visse,
Fui outro além deste que sou agora.
Traí-me duas vezes por pura sandice,
Sou duas incompletudes sem aurora.

Outra característica marcante na obra de Diogo Fontenelle é a temática das cores, onde o azul é a cor favorita do nosso poeta, o que não subtrai seu apego às outras habitantes do arco íris. Sua verve pertence definitivamente ao lugar mais alto da atual geração de poetas cearenses. Uma vez poesia sempre poesia. Essa é uma meta de Fontenelle que às vezes passa horas a burilar seus versos de modo a deixá-los acessíveis aos menos dotados de veia poética sem, no entanto, pecar por falta de zelo e qualidade dos seus escritos. 

E são essas cores e suas nuanças que permeiam seu mais novo livro, onde ele passeia maneiro por entre suas reminiscências de homem-menino eterno a prelibar cada um dos versos e rimas escandidas. Analisemos os versos do poema que se segue para termos um pequeno exemplo do que nosso poeta costuma empregar aos seus versos:

Travessia pelo azul e pelo cinza

Voo pelo azul do tempo qual um dócil beija-flor:
Eis que estou no colo de minha mãe a cantarolar,
Luzente canto de ouro filigranado em doce amor.
Era um tempo de sonho no meu peito a marolar.

Voo pelo cinza do tempo qual passarinho ferido:
Eis que estou febril na cama com mamãe ao lado
A orar para Santo Antoninho com amor reluzido.

Para atestar a influência da obra do autor de Em busca do Tempo perdido em Fontenelle, vamos considerar o excerto de Marcel Proust, no qual podemos notar como a luz e as cores dominam a pena do autor francês quando, “vestindo-se” de Swann, expõe sensações em primeira pessoa e na condição de narrador onisciente, as recordações pueris de um Proust visivelmente, tal qual Fontenelle, influenciado por sua mãe. Vejamos:

Em Combray, todos os dias desde o fim da tarde, muito antes do momento em que seria preciso me deitar e ficar, sem dormir, longe de minha mãe e de minha avó, o quarto de dormir se tornava o ponto fixo e doloroso de minhas preocupações. Para me distrair nas noites em que me julgavam muito infeliz, haviam inventado de me dar uma lanterna mágica, com a qual cobriam minha lâmpada, enquanto esperávamos a hora de jantar; e, à maneira dos primeiros arquitetos e mestres vidraceiros da era gótica, a lanterna substituía a opacidade das paredes por irisações impalpáveis, aparições sobrenaturais multicores, onde eram pintadas legendas como num vitral vacilante e instantâneo. Porém, isso fazia aumentar ainda mais a minha tristeza, pois a mudança de iluminação destruía o hábito do meu quarto, graças ao qual, salvo o suplício de me deitar, ele se me tornava suportável. Agora, não o reconhecia mais e sentia-me inquieto, como num quarto de hotel ou de um chalé, ao qual tivesse chegado pela primeira vez ao descer de um trem.

Ao passo sacudido de seu cavalo, Golo, cheio de um desígnio atroz, saía da pequena floresta triangular que aveludava de um verde sombrio a encosta de uma colina, e avançava, aos solavancos, para o castelo da infeliz Genevieve de Brabant. Esse castelo era recortado conforme uma linha curva que era apenas o limite de uma das ovais de vidro inseridas no caixilho que deslizava à frente da lanterna. Não passava de um muro de castelo e tinha diante dele um campo aberto onde meditava Genevieve, que usava um cinto azul. O castelo e o campo eram amarelos e eu não esperava o momento de vê-los para saber a sua cor, pois, antes dos vidros do caixilho, a sonoridade vermelho-dourada do nome de Brabant mostrara-o em toda a sua evidência..

Com essas breves assertivas espero ter elaborado uma abordagem livre dos excessos que costumam atingir a pena dos críticos quando o assunto trata de novas obras de amigos do quilate de Dioguinho Fontenelle. Acreditando ter sido justo nessa pequena análise comparativa a que me propus construir. No mais é desejar que Lampejos venha para ficar e se tornar livro referencial aos que aqui estão e aos que ainda virão a nascer. Vida longa à escrita de Diogo Fontenelle.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

UM HOMEM DE CIÊNCIA - Epitácio Macário*

(Em memória do meu pai, Seu Raimundo Macário)


Episódio 1: a fama

I.

Desde que retornara do Maranhão, acompanhado da mulher e dos dez filhos, as histórias se multiplicavam a respeito de suas habilidades.

Já no meio da estrada, enquanto o pau-de-arara era consertado, as mulheres faziam o rancho debaixo das ingazeiras e as crianças brincavam de esconde-esconde na mata, ele criava fama junto aos homens, exímio que era na arte de confabular. Viajado, narrava com desenvoltura o cotidiano dos nordestinos que se amontoavam nas favelas lamacentas do Rio e de São Paulo, para onde iam fugindo da cerca, da seca e da fome. 

Dotado de perspicácia e de memória invejáveis, logo fez-se notar como leitor de mão, repetindo ao pé da letra os causos contados na espontaneidade da viagem e ardilosamente sistematizados em sua imaginação. Seguia um método lógico: ouvia as conversas, estabelecia algumas premissas pela oitiva dos pedaços de vida e daí deduzia todo o resto. Coisa simples para um atento observador da conduta humana.

A convicção traía-se, porém, no sorriso que escorregava no canto da boca ao cruzar o olhar com sua mulher que, de cenho franzido, reprovava sua atitude, ao mesmo tempo em que admirava a sua capacidade de deter a atenção dos pareceres. “Mais cedo ou mais tarde isto atrairia encrenca”, pensava ela. 

De fato, era o que viria a ocorrer na pracinha de uma pequena cidade maranhense, ao se apearem para o almoço. Um valentão irritou-se com a revelação dos segredos de sua jovem namorada e desafiou-o. Com a mão direita no cabo do facão, o vaqueiro estendeu-lhe a esquerda e sentenciou: “leia! Se errar...” A reticência reteve a respiração dos que se haviam aglomerado na roda. 

Sem tempo, Seu Raimundo Vitor, nascido Raimundo Macário, fitou os olhos do homem e enxergou a maldade que lhe cobria a alma. O braço estendido exibia rastros de lâminas e a camisa entreaberta deixava expostas as cicatrizes herdadas de um passado fácil de adivinhar. Então, antes da terceira expiração, pronunciou em tom firme: “não posso revelar seus feitos, caro amigo, pois não quero testemunhar em tribunal”, falou e virou de lado rumo aos dois polícias que chegavam para desmanchar a desavença. Olhando o chão, o homem foi saindo de fininho. 

Todos respiraram aliviados e a mulher fitou o céu num gesto de agradecimento.

II.

Apearam-se em São Benedito, para uma visita aos parentes, e o velho carro seguiu para o sertão, conduzindo passageiros e as histórias que presenciaram. Dois meses depois, Seu Raimundo, mulher e filhos completariam a viagem, chegando à localidade de Barra Nova, nas terras de Tamboril. Instalaram-se numa velha casa fora do povoado. 

Além das batalhas contra os percevejos (barbeiros) que infestavam as paredes de taipa, do trabalho árduo para fazer safra, alimentar e vestir mulher e filhos, tinha de desmanchar a fama que lhe imputavam. Cumpria acordo feito com a mulher que durante as sessenta noites no frio da Serra Grande relembrou a angústia daquele momento vivido na cidadezinha maranhense. Além do mais, lembrava ela: “os meninos estão crescendo; precisam de bom exemplo”. 

Mas, sabe como são boatos... Em Barra Nova eles só aumentaram.

III.

Contava-se de uma vez que ele enfrentou um bando de ciganos, portentosos no armamento, exuberantes no físico, montando possantes cavalos negros. Ao todo, eram mais de trezentas cabeças entre homens, mulheres e crianças que foram recepcionados no terreiro, a pé, porque, estranhamente, os animais estancaram no aceiro em linha tão reta que pareciam hipnotizados. Às esporadas na barriga, às chicotadas e aos gritos de “eia!” os corcéis negros reagiam em relinchos, ofegos e patas levantadas… mas nenhum passo à frente. 

Dizia-se que ele travara um duelo encarniçado com o líder daquela gente, fazendo-o rodopiar três vezes depois de cochichar em seu ouvido, ler algumas passagens num velho livro de capa preta gasta e apontar-lhe um sarrafo de jucá. Por um instante, é o que se popularizou, formou-se uma nuvem negra, ofuscando os olhares, inclusive deste narrador que era ainda muito criança. Depois, o que se seguiu foi uma reverência do ancião líder daquela gente que ordenava a montaria. Saíram em tropel, deixando marcas fundas das ferraduras na estrada de piçarra e uma densa poeira que encheu o desolado fim de tarde sertanejo.

Mesmo sem saber ao certo se ele trabalhava na linha preta ou na linha branca, todos aprovaram sua ação. Ora, duas vezes por ano - diziam no povoado - aquela gente passava pelo lugarejo, uma subindo para o Ipu e a outra descendo para Canindé, e deixavam uma subtração na miunça, nas latas de feijão, milho e arroz. “Bem feito! Rabos de burro!" – era o que dizia o povo da comunidade em silêncios, gestos e palavras. 

Em verdade, em verdade, eu vos digo, pelo tanto que lembro e presenciei, que o grupo não passava de trinta, em andrajos, puxando mulas sonolentas, exibindo tatuagens em pelancas, esquálidos. É bem possível que ele tenha declamado algum verso apreendido de oitiva, usado d’algum palavreado dos rituais de exorcismo de Padrinho Zé Bruno de Codó no Maranhão, ou utilizado alguma jinga impressionante, pois tinha longa experiência como magarefe nas festas de reisados. Mas sem dúvida, um olhar profundo, entre inocente e destemido, e algumas palavras escolhidas para o momento foram lançados naquele duelo. Isto ele sabia fazer como ninguém! 

Se tenho, pois, a certeza do que vi e aqui afirmo, sinto-me na obrigação, todavia, de advertir sobre as dúvidas que carrego há exatos 49 anos. Turvada por aquela poeira e pelo tempo está hoje minha lembrança, e os senões avolumam-se. Pois do que mais lembro – e já não posso garantir se de testemunho ou de oitiva – é dos cavalos paralisados em linha reta; ainda sinto o cheiro forte que exalavam, de suores e resfôlegos. E os rodopios do cigano velho sem que Seu Raimundo Vitor lhe tocasse um dedo?...


Além do mais, quem não se lembra daquela tarde de domingo, quando as mulheres já se enfileiravam na vereda da cacimba para fazer o asseio, trazer as cabaças cheias, empoarem-se e irem para o culto? Ninguém ali jamais esquecera, tampouco este narrador, aquele entardecer quando o sol é engolido pela torre de nuvens em cor chumbo e um vermelhidão se espraia a oeste, enquanto avoantes penetram o azul infinito dos céus. Sim, era um lusco-fusco enternecedor e morno no sertão dos Inhamuns, que fora interrompido abruptamente. 

Pois, quase hora do Ângelo, os devotos se arregimentavam em torno do rádio para o canto da Ave-Maria, quando se ouviu a gritaria da dezena e meia de filhos de Bibiano, organizados ao redor da panela de baião de dois. Dona Júlia, a mãe da família, surtou; apanhou uma faca e desembestou na carreira jurando suicidar-se.

Ele vinha dobrando o canto da cerca, montando seu jumento de cela, seguido por sua mulher e uma fileira de filhos, inclusive este narrador. Apeou-se e logo juntou-se a dúzia e meia de voluntários que entraram na mata para resgatar a mulher. Encontraram a coitada há dois quilômetros, encostada num pé de angico, delirando e com a faca em punho.

O primeiro a pronunciar-se foi Zé Mariquinha, cunhado dela por parte de marido, conhecido pela voz sonora de timbre grave. Esbravejou e em tom imperioso ordenou-a que largasse a faca. Ela respondeu com um olhar faiscante, a mão trêmula, os cabelos esfiapados, os lábios franzidos, uma espuma descia no canto da boca... Foi suficiente para fazê-lo calar e retroceder dois ou três passos, aumentando a distância de vinte metros, e acomodar-se atrás da touceira de mufumbo. 

O marido mantinha uma conduta entre indeciso e culpado, enquanto duas mulheres rezavam, choravam e se abraçavam. 

Foi então que Seu Raimundo Vitor afastou os homens com um gesto de mão, chamou as duas mulheres e foi tomando chegada. 

A uns cinco metros, os três acocoraram-se e ele começou a conversar com a suicida. Falou dos filhos que tinha e, certamente lembrando a variedade de condutas, riu sozinho. Contou causos curtos do cotidiano da comunidade, pronunciou sete vezes o nome do caçula dela – “ainda tão criança!”, “uma vida em germinação!”, exclamava – enquanto se aproximava. Quando a alcançou, ela já estava completamente desarmada e banhada em lágrimas.

Nada mais que isto fizera. Mas todos os que lá estavam, e principalmente os que não estavam, juraram que o ouviram proferir uma oração em língua desconhecida e viram mesmo o momento em que expulsara um espírito sujo do corpo de Dona Júlia. 

Este narrador é testemunha do esforço que ele fizera para desmanchar os boatos. Mas, na quadragésima vez em que teve de explicar o que acontecera, sapecou sua costumeira ironia: “morei no Maranhão por doze anos. Vi os rituais de exorcismo de Padrinho Zé Bruno de Codó. Eu não estava brincando, caro amigo!”. 

Desde então, sua fama deixou o campo do boato e cristalizou-se no imaginário daquele povo.

Doravante, passou a ser assediado por apostadores no bicho e na loteria, por pessoas enfermas e homens desconfiados de suas mulheres. Foi, também, muito procurado pelas moças noivas e velhos da comunidade que queriam saber como o INPS iria julgar seus processos de aposentadoria. Até caçadores, de indômita coragem, consultavam-no sobre caiporas e visagens que residem na mata densa.

E foi assim que Seu Raimundo Vitor, seresteiro, gritador de leilão, imbatível colhedor de arroz, brincante de reisado e contador de histórias passou a ser conhecido, também, como um homem de ciência.

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*Epitácio Macário - Educador com doutorado, mestrado (ambos pela UFC) e graduação em Pedagogia. Professor do Mestrado Acadêmico Serviço Social, Trabalho e Questão Social (MASS/UECE,  - instituição onde se graduou). Declara com convicção em seu perfil no FaceBook: "Sou professor por opção e por concurso público. Modo de vida não universalizável é frescura de rico." Autor de Estações (clique no título do livro para acessar o eBook), publicado em 2016 cheio de prazerosas crônicas e contos. 


Nota do editor do Evoé!

A literatura de Epitácio Macário (Mac) reverbera em sintonia com genial narrativa de um Ubaldo Ribeiro; mas sem o sarcasmo do autor de O albatroz azul. No lugar do sarcasmo, a narrativa de Mac envolve amor, muito amor à gente da qual descende a profunda Nação Brasileira. Ele nos universaliza os iguais.

Parabéns, amigo Epitário Macário, e obrigado pela honra de nos conceder autorização para publicar aqui "Um homem de ciência". Evoé! (KB)

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Zê de zéfini e outros zês! - Kelsen Bravos*

Este texto encerra uma fase do Abecedário de Crônicas do Evoé! Um projeto editorial só possível pela presença indelével de Chico Araujo e Túlio Monteiro. Esses dois estavam a alimentar semanalmente este blog com a sensibilidade de seus olhares encapsulada em textos de imensidão poética complementada por suas fidelíssimas redes de leitores e leitoras, cada vez mais amplas por conta da sedução de suas crônicas rasgadas de emoção. 

Com o evoluir dos dias, senti as crônicas começarem a dar lugar a ensaios e a textos não propriamente literários no sentido poético da prosa. Daí pensei em lhes propor não um tema mas um gancho para os seus inspirados ânimos. Aproveitei e me incluí também na ideia de fazermos um Abecedário de Crônicas.

A ideia era escrever textos inspirados pela letra inicial das palavras, a começar pela letra A indo até a letra Z. Seriam 26 semanas, três autores e 78 crônicas ao todo. A jornada começou no dia 12 de fevereiro e chega a esta segunda semana de agosto de 2018, neste dia 10, com este arremedo de crônica a comprovar como era a ideia original, como ela foi cada vez mais sendo e como agora chega à plenitude de sua razão de ser, pontuada com este Zê de Zéfini - como falava o personagem Bertoldo Brecha, do inesquecível ator Mário Tupinambá, da Escolinha do Professor Raimundo, criação humorística do genial Chico Anysio: "Zéfini - tá na boca do Brasi!" - dizia o bordão do personagem.


Pois sim, mas para quem pensa termos chegado à plenitude, ao zênite de nosso projeto, asseguro: não zerou aqui. Uma Antologia do Abecedário de Crônicas do Evoé será publicada em e-Book e terá lançamentos presenciais com livros impressos também. Anuncio ainda que, em outubro, iniciamos outro projeto editorial. Será mais curto, dois meses apenas, porém mais intenso. Quem sabe, com mais autores ou autoras? Hem?! Que tal? Alguma sugestão?

Nesse meio tempo, não nos daremos sueto, nem aos fãs e nem aos zoilos, pois haverá entrevistas, crônicas sobre o cenário - eleitoral, inclusive! -, atualizações literárias, resenhas e diálogos com os leitores. No meu caso, além disso, cumprirei com severidade, se não ficar zuruó antes, o caminho traçado pela necessidade de saúde. Explico o porquê do senão: 

Por conta de uns ziriguiduns a mais nos ziguezagues de um eletrocardiograma, desconfiam de um zás-trás na zona coronária, daí por excesso de zelo de meus bem-quereres, cuja zoada no meu juízo tem me deixado zonzo, estou a fazer exames e mais exames. Tudo aconteceu devido  a uma simples visita à oftalmologista, pois meus "zóim" estão assim meio zarolhos, mas de um jeito a ponto de me levarem à oftalmologista. A doutora pediu para eu ler as letrinhas lá onde ela disse haver letrinhas. Deixe de brincadeira, doutora, ponha primeiro as letrinhas onde elas devem estar. Hum-hum. Pode levantar e vir aqui para eu lhe dizer umas coisinhas, seu Kelsen Bravos. Ih, deu zebra, pensei. 

Dali a doutora me encaminhou a um cirurgião, não sem antes adiantar os exames pré-operatórios. Glicemia, ok! Colesterol, ok. Leucograma, ok. Coagulograma, ok. Eletrocardiograma, ziriguidum.

Mais zumbidos ao meu pé do ouvido, quando argumentava em zanga: o meu coração não pode ser interpretado por uma máquina binária cujos rabiscos revelam zureta expressão. Só consegui foi aumentar o zunzunzum; era ziziado de tudo quanto é lado, até pensei ser um cara querido; mas foi ela, sim, sempre ela, me rendeu quando concluiu: "zureta é tu, pai, pois são os rabiscos do teu coração!"

Em face a tamanho argumento capitulei, foi demais ver minha teimosia a zurzir os meus amores. Zumbri-me. Não deixaria uma teimosia minha zurupar os meus quereres de mim. Para deixar tudo zen, asseverei: Amanhã mesmo vou ao zoológico!  

Deveria ter ido mesmo. Não por causa da cardiologista, uma tremenda de uma - ai Zeus, como dizer isso sem ser zaragaiado por radicais? - melhor não dizer. Pois sim,  daí a Dra. Gostosa (cardiologista) disse: "quem autoriza se você faz ou não a cirurgia sou eu." Não consegui me conter. Aí não, doutora, peraí, que a senhora ainda num casou comigo não! Falei assim quase sem querer. Ela fez foi gostar... Não sei bem dizer como ocorreu, pois diante da beleza sou acometido de certas ausências. Quando dei por mim, ela estava animada a me falar mal do marido e tal... Eu disse: Dra. Gostosa, para, pois meu coração tem um fraco por mulher bonita!

Ela riu e passou (acho que por vingança) uma zodiacal série de exames. Não tem sido fácil. Fiquei de 15h45min até às 19h para ser atendido pelo Dr. Zé, a fim de fazer a ecodopler. Em sua sala, escutava a Jovem Pan. O volume lá nas alturas. Em pleno exame me perguntou se eu era nervoso. Disse-lhe: meus amigos me chamam de Kel-Zen... Ele às gargalhadas disse: "Boa-boa-boa-boa..." quase não para de dizer boa. Tive a impressão de ouvir vozes ao redor dele dizendo: zoa, zoa, zoa, zoa, zoa... Na rádio, uma voz feminina anuncia: "Agora vamos passar aaaaa falaaar dele: Gilmaaaaar Mendes!" Rolou uma vinhetinha de circo. Daí o Dr. Zé começa a assobiar a vinheta do Gilmar... Pensei: Onde vim me meter, ó Tupã?! Zeus, me acuda!

Bom explicar que antes, a enfermeira-auxiliar me pôs deitado de lado na maca e de costas para o médico. Ele, lá da mesa onde estava, pergunta: "E aí me conte o que já aconteceu de grave com você?" ... Pedi-lhe, serenamente: defina grave, doutor. Ele alterou a voz. "Grave é grave. Eu num quero dizer o que é grave para não induzir a resposta do paciente." Ok. O senhor está com tempo de ouvir, suponho. Agora, entendi por que fiquei das 15h45min até às 19 horas para ser atendido pelo senhor...

Com certeza, amigos, foi vingança da Dra. Gostosa. E ainda me falta fazer um tal teste de esforço, logo eu, que deixei de praticar Taiji Quan, por não gostar de esportes radicais. Depois conto o zurundundum desses exames, quem sabe nesta crônica ampliada já na versão eBook, pois, por ora, o nosso querido Abecedário de Crônicas se cumpriu! "É zéfini - tá na boca do Brasi!" Evoé!

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, cronista, compositor, poeta, editor do Evoé!


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Zerando a conta - Chico Araujo*

Zerar a conta, como você deve saber, leitor, significa encerrar uma dívida por meio de pagamento pertinente. Feito o pagamento, a dívida se encerra e a conta fica zerada. É isso o que faço agora, entregando ao gestor do blog, o queridíssimo amigo Kelsen Bravos, o último texto (a última crônica) acordado para a construção e desenvolvimento do Abecedário de Crônicas do Evoé. 


Evoé!

Encerra-se o Abecedário com a lógica da inserção nele de texto que contemple a letra “z”, a última do alfabeto. Sigo, declarando: nesse limite natural que o alfabeto me impõe, sinto-me alegre e com a sensação de "dever cumprido".

Mas há algo me inquietando, um algo que não está diretamente relacionado à produção desse texto: a zorra que vivenciamos no Brasil nesse momento histórico. Zorra que expõe a falta de zelo de nossos governantes para com a população, tratando-a de uma maneira profundamente aviltante, como se ela vivesse em uma zona na qual deveria ficar eternamente, sem possibilidade de movimento para ascensão e onde poderia cair no esquecimento deles. 

Tal atitude, interpreto-a como zombaria e desprezo.

A zombaria é de tal monta que se tem divulgado a saída de brasileiros – principalmente alguns com folga nas finanças – para outras plagas distantes dessa terra espetacular. Zarpam eles para outros países na esperança de conseguirem vida melhor; zarpam para aniquilarem a sensação de seres explorados negativamente por aqueles cuja maior importância na função de políticos seria a de trabalharem em benefício do povo, mas dele se afastam, renegam-no, esforçando-se para jogá-lo no esquecimento e na escuridão. Contundente sabotagem!

Será sempre muito relevante a qualquer um de nós "dar um zoom" para enxergar o mais próximo possível essa e outras situações. A função de político em nosso país não deveria possibilitar a perpetuação de nenhum deles nesse poder de tal maneira que enriquecem e mais enriquecem, pensando exclusivamente em acúmulo de riqueza para si, enquanto a população mais pobre e mesmo miserável fica a ver navios, muitas vezes zonza por se perceber em processo de exclusão.

Continuadamente, devido a esse contexto, muitos ficam zuruó, sofridos, perdidos, sem chão, ziguezagueando dia após dia, procurando um porto seguro que reiteradamente não se alcança. Distribuição melhor de renda certamente daria sustentação ao sonho do povo sentir-se cidadão e comprometido com a cidadania.

Pessoas comuns, "povo" que são, andam céticas quanto ao futuro do País e muito zangadas por não encontrarem oportunidades viabilizadoras de sua entrada nas categorias das camadas sociais onde a existência ocorre de forma mais adequada, mais tranquila. 

A carência acentuada que têm de quase tudo posto em evidência como meio de bem existir – moradia, alimentação, transporte, saúde, trabalho, lazer... – deixa colossal parte delas a transitar pela cidade como se zumbis fossem. É algo muito triste. Muita gente zoa delas, sentindo-se superior a elas. É outro algo muito triste.

Ziquizira é algo que acompanha muitos dessa população empurrada para o ostracismo num verdadeiro zanzar para um "não ser nada" na sociedade, um zero à "esquerda" nela.

Essa população precisa urgentemente poder viver, não apenas sobreviver enfrentando níveis intensos e profundos de pobreza e miséria.

E logo. E já. Até para que não tenham medo aqueles que a sabotam.
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Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Zerando a conta" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 8 de agosto de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Z de ZÊ - Túlio Monteiro*

Aquele pequenino anel que tu me deste,

– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.
(Manuel Bandeira no poema “O anel de vidro”)

Ao cabo e ao final, chegamos ao Z. O que fazer quando somos apresentados à última letra de nosso alfabeto, tonando-se ela, portanto, o mote para nossa derradeira crônica no que diz respeito ao abecedário Evoé!?

Escrever, é claro. E com alegria, certo de que a ideia do nosso ilustre editor será perpetuada em livros eletrônicos e/ou de papel mesmo. Lanço, então, meu primeiro desafio dessa que vos prometo ser de boa lavra. Maizena começa com Z ou S? Calma! Não precisa esquentar a cabeça agora nem correr para o dicionário mais próximo. Disso trataremos mais tarde. Porque a deixa dessa crônica, sua mola percussora, será o Z de Zorro! Isso mesmo! Aquela que trata do Robin Wood de capa e espada eternizado nas telinhas pelo saudoso Guy Williams. Isso nos anos sessenta e setenta do século passado.

Tecerei comentários a respeito de nosso herói logo que for possível, mas antes deixem-me esclarecer o significado de Zorro perante o dicionário de língua portuguesa: tal palavra é um substantivo masculino que indica – de acordo com o regionalismo do sul do País – a característica de uma pessoa manhosa, velhaca e astuta por assim dizer. Já em Portugal seu significado é ainda mais interessante, referindo-se a crianças enjeitas e abandonadas ou ainda filhos bastardos, nascidos fora do casamento.

Paro agora, de rompante, quando me vem à mente a grande figura de um quase primo meu, um dos sujeitos mais sensacionais que já conheci, mas que tem a desconcertante mania de ser velhaco no que se refere a abocanhar os livros alheios. Sério! O boa pinta não se faz de rogado quando o assunto é usurpar até as iluminuras de um romance qualquer. De mim, para servir de exemplo, nem bem sei quantos exemplares me levou o astuto. Mas não fiquem irritados, não. Uma vez que é bastante comum esse tipo de comportamento entre escritores. Eu mesmo sou danado para cometer esses pequenos delitos. Nesse aspecto sou réu confesso. Mas o caso de meu quase consanguíneo é digno de hospício e prisão, uma vez que o cabra é bom no que faz. Que o digam, cá para nós, os bibliotecários das bibliotecas Dolor Barreira e Menezes Pimentel. O homem é exímio no que faz, meus queridos. É de deixar o mais qualificado larápio desconcertados com suas artimanhas. Esconde livros entre seus próprios livros, pondo-os também nas cuecas visando com tal feito burlar os mais sofisticados sistemas de alarme antifurto. Pergunto eu e respondem-me vocês: Esse é ou não é um legítimo Zorro no que se refere às artimanhas e maneirismos do nosso substantivo comum. Aos menos avisados fica a dica para tomarem cuidado redobrado quando convidarem esse “vampiro” de livros a visitar suas bibliotecas. Uma raposa velha eu diria. Risos.

Vamos um pouco às nossas reminiscências infantis no que tendem as lembranças de dias que se foram e não voltarão mais nunca, porque o tempo não para. Zorro foi e é uma série de produção da Walt Disney (olhem o W e o Y aqui nos visitando). Baseado em um herói mascado, ela estreou no canal ABC em 10 de outubro de 1957 (feliz aniversário, musa que nasceu nesse mesmo dia e mês), tendo seu final ocorrido em 2 de junho de 1959. Como ainda não existiam transmissões ao vivo, os 78 episódios foram ao ar no Brasil entre janeiro de 1973 e março de 1974.

Daqueles tempos recordo de meu já saudoso pai a construir com as próprias mãos minhas espadas enferrujadas para que eu pudesse brincar de esgrima e duelos mil com meus amigos de pueris. Todos queríamos ser o Zorro, mas só um poderia reinar na pele que era incorporada pelo já ido Guy Williams (Ípsilon e dabliozinho insistentes, não?!). Era um tempo bom de solidão e solitude a representar o isolamento e a reclusão deste que viria a se tonar poeta não por sofrimento, mas, sim, por opção. Época de poucas ou nenhumas preocupações com a labuta do dia-a-dia. Momentos que se foram e não voltaram jamais. Prelibações maiores de uma estrela da vida inteira, posto que sejam infinitas as palavras de Manuel Bandeira quando afirmou: “Sou poeta menor, perdoai! Não faço versos de guerra. Não faço porque os não sei. Mas num torpedo-suicida darei de bom grado a vida na qual não lutei”. (Excertos do poema Testamento, de 1956). Um dos primeiros versos do Modernismo brasileiro, movimento encabeçado por Bandeira e os indeléveis Oswald e Mário de Andrade. O do Sul já que nós cearenses também tivemos nossos Mário de Andrade. Sim! Na plena efervescência do Modernismo brasileiro por aqui no Ceará também tivemos o nosso Mário de Andrade. Que fique, pois, registrada a informação.

E crendo ter sido mais salutar e saboroso desta vez, espero ter lhes proporcionado novamente algo digno de suas apreciações literárias. Despeço-me por aqui na certeza de que vou sentir saudades do abecedário de Kelsen Bravos, que tanto incitou a mim e ao Chico Araújo a terminarmos essa missão praticamente impossível no dizer de Carlos Emílio Correia Lima. Um imenso beijo! Um grande abraço! E fiquem com Deus. Ah! Ia me esquecendo. Risos. Maisena se grafa assim, com S. Porém, há uma exceção da regra que admite novos grafemas quando o tocante é a escrita de palavras homônimas. Aquelas que têm a mesma pronúncia, mas significados diferentes. Logo, maizena pode ser escrita com Z. Agora é tchau mesmo!

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*Túlio Monteiro - Escritor, poeta, crítico literário, ensaísta, articulista do Evoé!

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Y, icônico Y! - Kelsen Bravos*

Reparem bem na letra Y. A depender do tipo de fonte - palavra com que a tipografia designa a forma das letras -, o ípsilon pode parecer uma muleta, uma feição de caprino, uma baladeira. Baladeira, para quem não sabe, é estilingue, uma espécie de funda, uma arma (sim, é arma!) feita geralmente com a forquilha (Y) de um galho de árvore.

A expressão baladeira é bem cearense, como o era também um capitão de infantaria que, nos idos de 1933, escondia sua identidade no pseudônimo Coronel Y para, em crônicas publicadas na Gazeta do Rio, sentar a pua nos militares metidos a políticos durante a Constituinte dos anos 1930. Para ele, a contribuição das Forças Armadas deveria ser específica sobre assuntos militares e, por excelência, a defesa nacional. Numa de suas crônicas vaticinou a própria sina: “O militar-político é uma espécie de lobisomem, um homem de existência dupla e misteriosa, que mete medo.” O tal capitão viria a se tornar um famigerado personagem da história militar e política brasileira. Refiro-me ao marechal de guerra e depois o primeiro presidente após o fatídico 1964: Humberto de Alencar Castello Branco, cuja biografia escrita por Lira Neto, "Castello - a marcha para a ditadura", bem está a merecer uma nova edição revista e ampliada.

Ao ler sobre o tal pseudônimo no qual se entrincheirava, associei de imediato a imagem da baladeira. Não há nenhuma explicação em lugar algum sobre o porquê do Y, para designar o "coronel" cronista. Apenas presumi tal associação por ser a baladeira muito presente na vida dos cearenses em criança, servia para caçar passarinho e também para brincar de guerra, quando geralmente, para utilizá-la, o "combatente" deveria entrincheirar-se a fim de evitar ser também alvejado. Quanta bobagem socializar esta digressão durante a leitura de páginas tão infelizes de nossa história... Este Abecedário de Crônicas do Evoé! tem feito coisas que até Tupã duvida.

Voltemos à letra em pauta. Não consigo olhá-la sem me transportar para frente de um altar católico. Sim, o Y é uma letra crucificada. Os braços abertos, pregados pelas mãos à cruz, sustentam o corpo decaído, a cabeça pendida sobre o braço direito (daí ser o lado mais grosso do Y), as pernas unidas parecem uma só. Não sou católico, sou cristão convicto dos ensinamentos do evangelho de Jesus. A cruz é um símbolo de uma igreja e não do evangelho, aliás, chega até a esvaziar a ideologia cristã; gosto, entretanto, de ver nas igrejas católicas a cruz sem o corpo de Jesus. Ouvi de minha amiga Glauba Rocha ser esse também um bem querer do padre Glaubo, seu irmão. Ele, numa homilia, revelou aos fiéis o seu motivo: "a ausência de Jesus significa ele estar ressuscitado e livre entre nós e não pregado na cruz".  Bonito, né?

É belo também o símbolo taoísta, onde predomina o Y, definido Yin e Yang, cuja união significa harmonia entre os opostos. Yin feminino com o yang masculino. O positivo e o negativo e por aí vai. Ambos formam o todo. Prefiro, Povo do Meu Bem-querer, a relação cromossômica entre o X e o Y sobre a qual aprendi de corpo e alma, com uma coleguinha de escola, na prática, serem determinantes dos gêneros masculino e feminino. Esses alossomos, quando heterossomos (xy), definem o masculino, quando não são distintos (xx) definem o feminino. Vejam bem o masculino tem 50% de si feminino, enquanto o feminino nada tem de masculino. Isso explica muitas coisas também inexplicáveis, sobre as quais não se consegue senão apenas sentir, por exemplo, que homem sem a mulher é um ser incompleto e a mulher sem homem é só uma circunstância; mas, unidos, ambos são muito mais que dois. Evoé!

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, compositor, editor do Evoé!