sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Zê de zéfini e outros zês! - Kelsen Bravos*

Este texto encerra uma fase do Abecedário de Crônicas do Evoé! Um projeto editorial só possível pela presença indelével de Chico Araujo e Túlio Monteiro. Esses dois estavam a alimentar semanalmente este blog com a sensibilidade de seus olhares encapsulada em textos de imensidão poética complementada por suas fidelíssimas redes de leitores e leitoras, cada vez mais amplas por conta da sedução de suas crônicas rasgadas de emoção. 

Com o evoluir dos dias, senti as crônicas começarem a dar lugar a ensaios e a textos não propriamente literários no sentido poético da prosa. Daí pensei em lhes propor não um tema mas um gancho para os seus inspirados ânimos. Aproveitei e me incluí também na ideia de fazermos um Abecedário de Crônicas.

A ideia era escrever textos inspirados pela letra inicial das palavras, a começar pela letra A indo até a letra Z. Seriam 26 semanas, três autores e 78 crônicas ao todo. A jornada começou no dia 12 de fevereiro e chega a esta segunda semana de agosto de 2018, neste dia 10, com este arremedo de crônica a comprovar como era a ideia original, como ela foi cada vez mais sendo e como agora chega à plenitude de sua razão de ser, pontuada com este Zê de Zéfini - como falava o personagem Bertoldo Brecha, do inesquecível ator Mário Tupinambá, da Escolinha do Professor Raimundo, criação humorística do genial Chico Anysio: "Zéfini - tá na boca do Brasi!" - dizia o bordão do personagem.


Pois sim, mas para quem pensa termos chegado à plenitude, ao zênite de nosso projeto, asseguro: não zerou aqui. Uma Antologia do Abecedário de Crônicas do Evoé será publicada em e-Book e terá lançamentos presenciais com livros impressos também. Anuncio ainda que, em outubro, iniciamos outro projeto editorial. Será mais curto, dois meses apenas, porém mais intenso. Quem sabe, com mais autores ou autoras? Hem?! Que tal? Alguma sugestão?

Nesse meio tempo, não nos daremos sueto, nem aos fãs e nem aos zoilos, pois haverá entrevistas, crônicas sobre o cenário - eleitoral, inclusive! -, atualizações literárias, resenhas e diálogos com os leitores. No meu caso, além disso, cumprirei com severidade, se não ficar zuruó antes, o caminho traçado pela necessidade de saúde. Explico o porquê do senão: 

Por conta de uns ziriguiduns a mais nos ziguezagues de um eletrocardiograma, desconfiam de um zás-trás na zona coronária, daí por excesso de zelo de meus bem-quereres, cuja zoada no meu juízo tem me deixado zonzo, estou a fazer exames e mais exames. Tudo aconteceu devido  a uma simples visita à oftalmologista, pois meus "zóim" estão assim meio zarolhos, mas de um jeito a ponto de me levarem à oftalmologista. A doutora pediu para eu ler as letrinhas lá onde ela disse haver letrinhas. Deixe de brincadeira, doutora, ponha primeiro as letrinhas onde elas devem estar. Hum-hum. Pode levantar e vir aqui para eu lhe dizer umas coisinhas, seu Kelsen Bravos. Ih, deu zebra, pensei. 

Dali a doutora me encaminhou a um cirurgião, não sem antes adiantar os exames pré-operatórios. Glicemia, ok! Colesterol, ok. Leucograma, ok. Coagulograma, ok. Eletrocardiograma, ziriguidum.

Mais zumbidos ao meu pé do ouvido, quando argumentava em zanga: o meu coração não pode ser interpretado por uma máquina binária cujos rabiscos revelam zureta expressão. Só consegui foi aumentar o zunzunzum; era ziziado de tudo quanto é lado, até pensei ser um cara querido; mas foi ela, sim, sempre ela, me rendeu quando concluiu: "zureta é tu, pai, pois são os rabiscos do teu coração!"

Em face a tamanho argumento capitulei, foi demais ver minha teimosia a zurzir os meus amores. Zumbri-me. Não deixaria uma teimosia minha zurupar os meus quereres de mim. Para deixar tudo zen, asseverei: Amanhã mesmo vou ao zoológico!  

Deveria ter ido mesmo. Não por causa da cardiologista, uma tremenda de uma - ai Zeus, como dizer isso sem ser zaragaiado por radicais? - melhor não dizer. Pois sim,  daí a Dra. Gostosa (cardiologista) disse: "quem autoriza se você faz ou não a cirurgia sou eu." Não consegui me conter. Aí não, doutora, peraí, que a senhora ainda num casou comigo não! Falei assim quase sem querer. Ela fez foi gostar... Não sei bem dizer como ocorreu, pois diante da beleza sou acometido de certas ausências. Quando dei por mim, ela estava animada a me falar mal do marido e tal... Eu disse: Dra. Gostosa, para, pois meu coração tem um fraco por mulher bonita!

Ela riu e passou (acho que por vingança) uma zodiacal série de exames. Não tem sido fácil. Fiquei de 15h45min até às 19h para ser atendido pelo Dr. Zé, a fim de fazer a ecodopler. Em sua sala, escutava a Jovem Pan. O volume lá nas alturas. Em pleno exame me perguntou se eu era nervoso. Disse-lhe: meus amigos me chamam de Kel-Zen... Ele às gargalhadas disse: "Boa-boa-boa-boa..." quase não para de dizer boa. Tive a impressão de ouvir vozes ao redor dele dizendo: zoa, zoa, zoa, zoa, zoa... Na rádio, uma voz feminina anuncia: "Agora vamos passar aaaaa falaaar dele: Gilmaaaaar Mendes!" Rolou uma vinhetinha de circo. Daí o Dr. Zé começa a assobiar a vinheta do Gilmar... Pensei: Onde vim me meter, ó Tupã?! Zeus, me acuda!

Bom explicar que antes, a enfermeira-auxiliar me pôs deitado de lado na maca e de costas para o médico. Ele, lá da mesa onde estava, pergunta: "E aí me conte o que já aconteceu de grave com você?" ... Pedi-lhe, serenamente: defina grave, doutor. Ele alterou a voz. "Grave é grave. Eu num quero dizer o que é grave para não induzir a resposta do paciente." Ok. O senhor está com tempo de ouvir, suponho. Agora, entendi por que fiquei das 15h45min até às 19 horas para ser atendido pelo senhor...

Com certeza, amigos, foi vingança da Dra. Gostosa. E ainda me falta fazer um tal teste de esforço, logo eu, que deixei de praticar Taiji Quan, por não gostar de esportes radicais. Depois conto o zurundundum desses exames, quem sabe nesta crônica ampliada já na versão eBook, pois, por ora, o nosso querido Abecedário de Crônicas se cumpriu! "É zéfini - tá na boca do Brasi!" Evoé!

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, cronista, compositor, poeta, editor do Evoé!


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Zerando a conta - Chico Araujo*

Zerar a conta, como você deve saber, leitor, significa encerrar uma dívida por meio de pagamento pertinente. Feito o pagamento, a dívida se encerra e a conta fica zerada. É isso o que faço agora, entregando ao gestor do blog, o queridíssimo amigo Kelsen Bravos, o último texto (a última crônica) acordado para a construção e desenvolvimento do Abecedário de Crônicas do Evoé. 


Evoé!

Encerra-se o Abecedário com a lógica da inserção nele de texto que contemple a letra “z”, a última do alfabeto. Sigo, declarando: nesse limite natural que o alfabeto me impõe, sinto-me alegre e com a sensação de "dever cumprido".

Mas há algo me inquietando, um algo que não está diretamente relacionado à produção desse texto: a zorra que vivenciamos no Brasil nesse momento histórico. Zorra que expõe a falta de zelo de nossos governantes para com a população, tratando-a de uma maneira profundamente aviltante, como se ela vivesse em uma zona na qual deveria ficar eternamente, sem possibilidade de movimento para ascensão e onde poderia cair no esquecimento deles. 

Tal atitude, interpreto-a como zombaria e desprezo.

A zombaria é de tal monta que se tem divulgado a saída de brasileiros – principalmente alguns com folga nas finanças – para outras plagas distantes dessa terra espetacular. Zarpam eles para outros países na esperança de conseguirem vida melhor; zarpam para aniquilarem a sensação de seres explorados negativamente por aqueles cuja maior importância na função de políticos seria a de trabalharem em benefício do povo, mas dele se afastam, renegam-no, esforçando-se para jogá-lo no esquecimento e na escuridão. Contundente sabotagem!

Será sempre muito relevante a qualquer um de nós "dar um zoom" para enxergar o mais próximo possível essa e outras situações. A função de político em nosso país não deveria possibilitar a perpetuação de nenhum deles nesse poder de tal maneira que enriquecem e mais enriquecem, pensando exclusivamente em acúmulo de riqueza para si, enquanto a população mais pobre e mesmo miserável fica a ver navios, muitas vezes zonza por se perceber em processo de exclusão.

Continuadamente, devido a esse contexto, muitos ficam zuruó, sofridos, perdidos, sem chão, ziguezagueando dia após dia, procurando um porto seguro que reiteradamente não se alcança. Distribuição melhor de renda certamente daria sustentação ao sonho do povo sentir-se cidadão e comprometido com a cidadania.

Pessoas comuns, "povo" que são, andam céticas quanto ao futuro do País e muito zangadas por não encontrarem oportunidades viabilizadoras de sua entrada nas categorias das camadas sociais onde a existência ocorre de forma mais adequada, mais tranquila. 

A carência acentuada que têm de quase tudo posto em evidência como meio de bem existir – moradia, alimentação, transporte, saúde, trabalho, lazer... – deixa colossal parte delas a transitar pela cidade como se zumbis fossem. É algo muito triste. Muita gente zoa delas, sentindo-se superior a elas. É outro algo muito triste.

Ziquizira é algo que acompanha muitos dessa população empurrada para o ostracismo num verdadeiro zanzar para um "não ser nada" na sociedade, um zero à "esquerda" nela.

Essa população precisa urgentemente poder viver, não apenas sobreviver enfrentando níveis intensos e profundos de pobreza e miséria.

E logo. E já. Até para que não tenham medo aqueles que a sabotam.
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Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Zerando a conta" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 8 de agosto de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Z de ZÊ - Túlio Monteiro*

Aquele pequenino anel que tu me deste,

– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.
(Manuel Bandeira no poema “O anel de vidro”)

Ao cabo e ao final, chegamos ao Z. O que fazer quando somos apresentados à última letra de nosso alfabeto, tonando-se ela, portanto, o mote para nossa derradeira crônica no que diz respeito ao abecedário Evoé!?

Escrever, é claro. E com alegria, certo de que a ideia do nosso ilustre editor será perpetuada em livros eletrônicos e/ou de papel mesmo. Lanço, então, meu primeiro desafio dessa que vos prometo ser de boa lavra. Maizena começa com Z ou S? Calma! Não precisa esquentar a cabeça agora nem correr para o dicionário mais próximo. Disso trataremos mais tarde. Porque a deixa dessa crônica, sua mola percussora, será o Z de Zorro! Isso mesmo! Aquela que trata do Robin Wood de capa e espada eternizado nas telinhas pelo saudoso Guy Williams. Isso nos anos sessenta e setenta do século passado.

Tecerei comentários a respeito de nosso herói logo que for possível, mas antes deixem-me esclarecer o significado de Zorro perante o dicionário de língua portuguesa: tal palavra é um substantivo masculino que indica – de acordo com o regionalismo do sul do País – a característica de uma pessoa manhosa, velhaca e astuta por assim dizer. Já em Portugal seu significado é ainda mais interessante, referindo-se a crianças enjeitas e abandonadas ou ainda filhos bastardos, nascidos fora do casamento.

Paro agora, de rompante, quando me vem à mente a grande figura de um quase primo meu, um dos sujeitos mais sensacionais que já conheci, mas que tem a desconcertante mania de ser velhaco no que se refere a abocanhar os livros alheios. Sério! O boa pinta não se faz de rogado quando o assunto é usurpar até as iluminuras de um romance qualquer. De mim, para servir de exemplo, nem bem sei quantos exemplares me levou o astuto. Mas não fiquem irritados, não. Uma vez que é bastante comum esse tipo de comportamento entre escritores. Eu mesmo sou danado para cometer esses pequenos delitos. Nesse aspecto sou réu confesso. Mas o caso de meu quase consanguíneo é digno de hospício e prisão, uma vez que o cabra é bom no que faz. Que o digam, cá para nós, os bibliotecários das bibliotecas Dolor Barreira e Menezes Pimentel. O homem é exímio no que faz, meus queridos. É de deixar o mais qualificado larápio desconcertados com suas artimanhas. Esconde livros entre seus próprios livros, pondo-os também nas cuecas visando com tal feito burlar os mais sofisticados sistemas de alarme antifurto. Pergunto eu e respondem-me vocês: Esse é ou não é um legítimo Zorro no que se refere às artimanhas e maneirismos do nosso substantivo comum. Aos menos avisados fica a dica para tomarem cuidado redobrado quando convidarem esse “vampiro” de livros a visitar suas bibliotecas. Uma raposa velha eu diria. Risos.

Vamos um pouco às nossas reminiscências infantis no que tendem as lembranças de dias que se foram e não voltarão mais nunca, porque o tempo não para. Zorro foi e é uma série de produção da Walt Disney (olhem o W e o Y aqui nos visitando). Baseado em um herói mascado, ela estreou no canal ABC em 10 de outubro de 1957 (feliz aniversário, musa que nasceu nesse mesmo dia e mês), tendo seu final ocorrido em 2 de junho de 1959. Como ainda não existiam transmissões ao vivo, os 78 episódios foram ao ar no Brasil entre janeiro de 1973 e março de 1974.

Daqueles tempos recordo de meu já saudoso pai a construir com as próprias mãos minhas espadas enferrujadas para que eu pudesse brincar de esgrima e duelos mil com meus amigos de pueris. Todos queríamos ser o Zorro, mas só um poderia reinar na pele que era incorporada pelo já ido Guy Williams (Ípsilon e dabliozinho insistentes, não?!). Era um tempo bom de solidão e solitude a representar o isolamento e a reclusão deste que viria a se tonar poeta não por sofrimento, mas, sim, por opção. Época de poucas ou nenhumas preocupações com a labuta do dia-a-dia. Momentos que se foram e não voltaram jamais. Prelibações maiores de uma estrela da vida inteira, posto que sejam infinitas as palavras de Manuel Bandeira quando afirmou: “Sou poeta menor, perdoai! Não faço versos de guerra. Não faço porque os não sei. Mas num torpedo-suicida darei de bom grado a vida na qual não lutei”. (Excertos do poema Testamento, de 1956). Um dos primeiros versos do Modernismo brasileiro, movimento encabeçado por Bandeira e os indeléveis Oswald e Mário de Andrade. O do Sul já que nós cearenses também tivemos nossos Mário de Andrade. Sim! Na plena efervescência do Modernismo brasileiro por aqui no Ceará também tivemos o nosso Mário de Andrade. Que fique, pois, registrada a informação.

E crendo ter sido mais salutar e saboroso desta vez, espero ter lhes proporcionado novamente algo digno de suas apreciações literárias. Despeço-me por aqui na certeza de que vou sentir saudades do abecedário de Kelsen Bravos, que tanto incitou a mim e ao Chico Araújo a terminarmos essa missão praticamente impossível no dizer de Carlos Emílio Correia Lima. Um imenso beijo! Um grande abraço! E fiquem com Deus. Ah! Ia me esquecendo. Risos. Maisena se grafa assim, com S. Porém, há uma exceção da regra que admite novos grafemas quando o tocante é a escrita de palavras homônimas. Aquelas que têm a mesma pronúncia, mas significados diferentes. Logo, maizena pode ser escrita com Z. Agora é tchau mesmo!

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*Túlio Monteiro - Escritor, poeta, crítico literário, ensaísta, articulista do Evoé!

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Y, icônico Y! - Kelsen Bravos*

Reparem bem na letra Y. A depender do tipo de fonte - palavra com que a tipografia designa a forma das letras -, o ípsilon pode parecer uma muleta, uma feição de caprino, uma baladeira. Baladeira, para quem não sabe, é estilingue, uma espécie de funda, uma arma (sim, é arma!) feita geralmente com a forquilha (Y) de um galho de árvore.

A expressão baladeira é bem cearense, como o era também um capitão de infantaria que, nos idos de 1933, escondia sua identidade no pseudônimo Coronel Y para, em crônicas publicadas na Gazeta do Rio, sentar a pua nos militares metidos a políticos durante a Constituinte dos anos 1930. Para ele, a contribuição das Forças Armadas deveria ser específica sobre assuntos militares e, por excelência, a defesa nacional. Numa de suas crônicas vaticinou a própria sina: “O militar-político é uma espécie de lobisomem, um homem de existência dupla e misteriosa, que mete medo.” O tal capitão viria a se tornar um famigerado personagem da história militar e política brasileira. Refiro-me ao marechal de guerra e depois o primeiro presidente após o fatídico 1964: Humberto de Alencar Castello Branco, cuja biografia escrita por Lira Neto, "Castello - a marcha para a ditadura", bem está a merecer uma nova edição revista e ampliada.

Ao ler sobre o tal pseudônimo no qual se entrincheirava, associei de imediato a imagem da baladeira. Não há nenhuma explicação em lugar algum sobre o porquê do Y, para designar o "coronel" cronista. Apenas presumi tal associação por ser a baladeira muito presente na vida dos cearenses em criança, servia para caçar passarinho e também para brincar de guerra, quando geralmente, para utilizá-la, o "combatente" deveria entrincheirar-se a fim de evitar ser também alvejado. Quanta bobagem socializar esta digressão durante a leitura de páginas tão infelizes de nossa história... Este Abecedário de Crônicas do Evoé! tem feito coisas que até Tupã duvida.

Voltemos à letra em pauta. Não consigo olhá-la sem me transportar para frente de um altar católico. Sim, o Y é uma letra crucificada. Os braços abertos, pregados pelas mãos à cruz, sustentam o corpo decaído, a cabeça pendida sobre o braço direito (daí ser o lado mais grosso do Y), as pernas unidas parecem uma só. Não sou católico, sou cristão convicto dos ensinamentos do evangelho de Jesus. A cruz é um símbolo de uma igreja e não do evangelho, aliás, chega até a esvaziar a ideologia cristã; gosto, entretanto, de ver nas igrejas católicas a cruz sem o corpo de Jesus. Ouvi de minha amiga Glauba Rocha ser esse também um bem querer do padre Glaubo, seu irmão. Ele, numa homilia, revelou aos fiéis o seu motivo: "a ausência de Jesus significa ele estar ressuscitado e livre entre nós e não pregado na cruz".  Bonito, né?

É belo também o símbolo taoísta, onde predomina o Y, definido Yin e Yang, cuja união significa harmonia entre os opostos. Yin feminino com o yang masculino. O positivo e o negativo e por aí vai. Ambos formam o todo. Prefiro, Povo do Meu Bem-querer, a relação cromossômica entre o X e o Y sobre a qual aprendi de corpo e alma, com uma coleguinha de escola, na prática, serem determinantes dos gêneros masculino e feminino. Esses alossomos, quando heterossomos (xy), definem o masculino, quando não são distintos (xx) definem o feminino. Vejam bem o masculino tem 50% de si feminino, enquanto o feminino nada tem de masculino. Isso explica muitas coisas também inexplicáveis, sobre as quais não se consegue senão apenas sentir, por exemplo, que homem sem a mulher é um ser incompleto e a mulher sem homem é só uma circunstância; mas, unidos, ambos são muito mais que dois. Evoé!

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, compositor, editor do Evoé!




quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Y - Chico Araujo*

Eis que chegou o momento de ficar frente a ela. Confesso que muito antes desse momento me flagrei me preocupando com ele. De mim para mim se impunham questões sempre me encaminhando a incertezas quanto a como lidar com a situação: o que dizer e como dar forma linguística ao que pudesse dizer são duas das que me afligiram. Hoje, nesse exato agora, preciso enfrentar a situação e, mais que enfrentá-la, preciso superá-la.

Vou ao desafio.

Desafio mesmo, porquanto ela nunca me disse muita coisa. Não me lembro de nenhum instante em que tenha me dedicado a ela anteriormente; agora que ela consta oficialmente do abecedário da língua portuguesa, sou chamado a validá-la no "Abecedário de Crônicas do Evoé!".

Sendo a vigésima quinta letra do alfabeto português, localizando-se entre "X" e "Z", "Ypsilon" (ou i-grego) costuma marcar presença em antropônimos – e derivações suas – oriundos de outras línguas, também em topônimos e, ainda, em siglas, símbolos e palavras representativas de unidades de medida de valor internacional. Mais ainda, o “Y” é utilizado para designar o cromossomo determinante do sexo masculino.

Exemplo de antropônimo iniciado pelo “Y” em nossas plagas vemos em Yan, substantivo masculino designativo de pessoa do sexo masculino. No entanto, o Yan português / brasileiro deriva de Yang, termo que, no pensamento oriental, designa o princípio masculino, considerado ativo, celeste, quente e luminoso, que convive com o yin, em posição oposta

É certo que antropônimos iniciados com “Y” têm certa abundância na língua portuguesa, embora apresentem etimologia em outra língua. Yuri, Yago, Ygor, Yanni, Youssef, Yudi e Yves constituem outros exemplos, bem como Yasmin, Yara, Yasmim, Yohanna, Yumi, Yolanda, Yanka, Yoko, Yonara.

Em terras brasileiras, é incomum topônimo iniciado com “Y”. Em pesquisa feita na WEB por esse que aqui escreve, localizei apenas Yolanda, identificada como distrito do município de Ubiratã, no Paraná. Não mais.

Também no território nacional, localizando-se na Região Norte, encontra-se o povo Yanomami. Esse etnônimo trata-se de denominação cunhada por antropólogos para identificar a sociedade indígena de caçadores-agricultores, cujas terras foram bastante cobiçadas – e mesmo invadidas – devido a suas riquezas minerais.

Não é, de fato, muito usual em nossa língua a utilização do “Y” como letra de existência marcante nas palavras, excetuando as designativas de antropônimos. Pelo menos até agora; em tempos adiante, poderemos observar se ela se tornará efetiva, ou se permanecerá em pouco uso.


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*Chico Araujo - professor, poeta, compositor, contista, cronista, escreve todas as quartas aqui no Evoé! O título "Y" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé! e foi escrito no dia 2 de agosto de 2018.

Citações:
1 Yang, por sua vez, também é palavra derivada, de “Yáng” (mandarim), conforme se lê em http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=Yan
2. Acesso em 02/08/2018. ² Informação colhida em https://www.dicionariodenomesproprios.com.br/nomes-masculinos/y/.

3. Acesso em 02/08/2018. ³ Informação colhida em https://www.dicionariodenomesproprios.com.br/nomes-femininos/y/
4. Acesso em 02/08/2018. 4 Informação localizada em https://www.geografos.com.br/distritos/distrito-yolanda.php. Acesso em 02/08/2018.
5 Para mais informações, via WEB, a respeito do povo Yanomami, visite-se o sítio eletrônico https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Yanomami#Nome. Acesso em 02/08/2018.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Y DE A, E, I, O, U, YPSLONE - Túlio Monteiro*

Convidei a comadre Sebastiana
Pra cantar e xaxar na paraíba
Ela veio com uma dança diferente
E pulava que só uma guariba
E gritava a, e, I, o, u, ypslone
(Jackson do Pandeiro)



Olá, ledores, ledoras! Cá estamos nós em mais uma empreitada literária, desta vez em busca do Y. O famigerado Y que a tantos desagrada, sendo por muitos excomungado em detrimento de seu quase desuso no abecedário tupiniquim. Pois bem, queira Deus que desta vez os agrade novamente.

Desafiado que fui por Kelsen Bravos, que depois de me dar um WO na letra W, eis que me encontro em pouca consonância com danado do Y. Letrinha malvada que de nada ou pouco adianta para o nosso amado vernáculo. Tendo sua origem no alfabeto fenício ao chegar aos gregos ela se transformou em nosso conhecido U. Daí até chegar à Última Flor do Lácio foi meramente um pulo.

Pareço estar enchendo linguiça e bem o estou ante a pouca feitura que pode-se retirar de tão famigerada consoante. É sabido também que o acordo ortográfico de 1990 não "restaurou" o y. A doutrina é exatamente a mesma: k, w, y continuam só para usos especiais. O AO de 1990 apenas incluiu as três especiais na listagem das letras com a finalidade de deixar clara a sua posição na ordenação sequencial do conjunto do alfabeto.

Pois bem, dadas essas informações, nos remetamos, pois, à crônica de fato: o que dizermos sobre uma letra desconcertante que só acresce dificuldade ao dificílimo alfabeto brasileiro. Pergunto eu e respondem se puder e se quiser os prezados leitores: para que serve o Y em nosso alfabeto senão para aperrar a cabeça dos Pasquale Cipro Neto dessa vida insana.

Fica difícil transcorrer sobre algo tão insosso, mas como assim propôs Kelsen Bravos, vamos tentar trazer um pouco de alento aos que hora nos matem antenados com o mundo virtual que nos cerca. Fico ensimesmado ante certos despropósitos ortográficos, quando o assunto é nossa língua-pátria. Deter-me-ei, entretanto, a tecer comentários sobre a Geração Y como forma de dar mais sustância a essa crônica que, confesso, não será uma das minhas mais prolixas.

Tal geração se caracteriza por ter vivenciado muitos avanços tecnológicos, crescimento de diversos países, que acabaram tornando-se potências mundiais. As crianças da geração Y cresceram tendo o que muitos de seus pais não tiveram, como TV a cabo, videogames, computadores, vários tipos de jogos e muito mais. Por terem esse contato todo com a tecnologia, acabaram ficando conhecidos por serem pessoas folgadas, distraídas, insubordinadas e superficiais, em sua grande parte.

Os Millennials também são conhecidos por terem grande ambição, e é normal encontrar jovens dessa geração que trocam de emprego frequentemente, porque no emprego anterior não eram desafiados e não tinham oportunidade de crescer profissionalmente.

As empresas, sempre interessadas com o tipo de público que querem atingir, fazem diversas pesquisas de mercado para saberem qual o produto que a geração Y está interessada, como eles querem ser atendidos, o que eles estão procurando, pois é um público geralmente muito exigente, sempre antenados em novas tecnologias e novos produtos.

A geração Y é um público ávido por inovações, querem ter sempre a televisão mais moderna, o smartphone do momento, todos os produtos mais tecnológicos possíveis. Em contrapartida, a geração Y também ficou conhecida por ser a geração mais preocupada com o meio ambiente, uma vez que seus pais não se preocuparam tanto, eles estão muito interessados em deixar um bom lugar para seus filhos viverem.

Temos então um panorama mais ou menos destrinchado no que se refere à Geração Y, porém creio que nunca definiremos no sentido estrito ao que se refere ou significa tal escabrosa letra, que serve mais para enfeitar e menos para definir.

Segundo o significado das letras de nosso alfabeto, o Y trata de pessoas que têm intuição à flor da pele, além de simpatia, percepção e força espiritual. Muito independentes, os de Y adoram conquistar títulos, pessoas e fãs, sendo organizados como ninguém. São responsáveis e leva o maior jeito para ser chefe, pois sabem comandar um grupo como ninguém. Com tudo isso, não é de admirar que tenham um estilo todo próprio de fazer as coisas e não estejam nem aí para o que os outros pensem ou digam.

Bem amigos e amigas, juro que tentei tirar leite de pedra. E não me julguem mal se tentei encher a linguiça e suas paciências. Mas é que há assuntos que simplesmente não rendem o que deveriam. "E quanto à epígrafe desta crônica?", decerto me perguntará o editor. Bem sei que num falei dela, mas que o Jackson do Pandeiro deu um lugar e tanto ao tal Y, ah isso deu. Fico por aqui e até a próxima letra. Saudações literárias.

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*Túlio Monteiro -  Escritor, poeta, crítico literário, ensaísta, articulista do Evoé!

sábado, 28 de julho de 2018

O Eclipse da Lua e o Cachorro na Rua - Teddy Williams*


Ontem a noite vivi um caso engraçado
quando olhava p'ra lua,
um cachorro ao meu lado
Colorido, talvez
Pequinês bem franzino
que do nada pulava e uivava latindo.

Parecia - pensei - que estava surtando
com a tal da maldita doença da lua.

Vi depois um sorriso, cada vez que pulava
foi então que mudei o que antes pensava:
ao olharmos a lua, em enorme alegria
eu queria uivar,
o cachorro o fazia!

E ficamos nós dois a olhar, encantados
admirando a lua como apaixonados.

Foi depois que escrevi terminando a procura:
O eclipse da lua
e o cachorro na rua.


(grato às fontes inspiradoras)


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*Teddy Williams - contador de histórias, menestrel, compositor e poeta bissexto. Um enluarado.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

W CHEGAMOS AO W - Túlio Monteiro*

Última flor do Lácio, inculta e bela,

És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

(Olavo Bilac, no soneto “Língua Portuguesa”).

Eia que o W é a bola a ser cantada. Desafiado desta vez pelo seu Francisco Pereira da Silva, meu tio, vou ter que me virar em preencher as lacunas de mais uma letrinha difícil de ser comentada em crônica.

Sabemos que a letra W é a vigésima terceira letra do alfabeto português, sendo a décima oitava consoante. É utilizada em 0,01% das palavras portuguesas, sendo utilizada apenas em antropónimos originários de outras línguas e seus derivados; em topónimos originários de outras línguas e seus derivados e em siglas, símbolos e mesmo em palavras adotadas como unidades de medida de curso internacional.

Pois bem, voltando ao desafio lançado por meu tio nonagenário, vamos ao que realmente interessa. Em conversa telefônica com ele o ouviu dizer que estava sentindo dores nas costas e no quadril o que seria um bom mote para ser levado em conta com relação ao formato de uma aranha emborcada, de patinhas para cima. Ora, nada mais cômico que comparar uma letra a um animal peçonhento e abominado por tantas pessoas. Assim como o ípsilon que tem um formato fálico o W enquanto aranhinha pode nos remeter, por exemplo, à teoria do professor doutor Horácio Dídimo.

Tímido e de poucas palavras, Horácio Dídimo costuma conversar sobre literatura infantil, tema que lhe rendeu o doutorado em Minas Gerais, sempre se referindo à estrutura trinitária de sua literatura: som, silêncio e sentido.
Mesmo quando escreve livros como A estrela azul e o almofariz, lançado pela coleção Alagadiço novo, ou uma tese de doutorado como Ficções lobatianas: Dona Aranha e seis aranhinhas no sítio do pica-pau amarelo, Horácio Dídimo o faz como quem procura no verso simples e na ideia concisa a alegria de uma criança em desbravar o universo de Monteiro Lobato, Lewis Carroll, Christian Andersen ou dos irmãos Grimm.
De fato, ele próprio fã de toda essa turma, desde sempre esteve envolvido com a literatura infantil. Fosse no choque que levou quando soube pelo rádio da morte de Monteiro Lobato - morria para o pequeno Dídimo quem ele considerava um membro de sua família -, fosse como professor universitário, através de suas aulas na disciplina de literatura infantil na UFC. Disciplina essa que acabou incentivando-o a escrever para crianças.
Assim, o poeta pessimista e irônico de livros como Tempo de Chuva, redescobriu a esperança e a alegria em sua obra e passou também a publicar títulos como O passarinho carrancudo, Histórias do mestre Jabuti, Festa no mercadinho e As reinações do rei.
Então, depois de mais essa viajada na maionese, voltemos um pouco às origens da letra hora questionada. Surgida a partir dos primeiros símbolos da baixa Mesopotâmia, ela era de início um ideograma para representar objetos a serem contados ou catalogados. Sistema de ideogramas esse que facilitava por demais o entendimento dos mais diversos idiomas. Sanando assim, a possibilidade de armazenar, registrar dados e representar a História.

Com o passar das eras, os fenícios aprimoraram esses símbolos reduzindo-os para quantidade de apenas 22, o que facilitava por demais suas atividades mercantis em relação aos Oriente Médio, Ásia Menor, árabes, etruscos e gregos.

E foram os gregos quem adotaram a simbologia fenícia por volta do século VIII a. C., acrescentando mais dois sons vocálicos, passando o mesmo a possuir 24 letras dentre elas o nosso amargo W.

Por fim, já no pós Idade Média surgiu o alfabeto português como o conhecemos hoje. Estava formado o padrão para a resolução alfabética da Última Flor do Lácio.

Nosso conhecido e ilustre poeta brasileiro Olavo Bilac (1865 – 1918) já dizia em um de seus sonetos “língua Portuguesa” da última flor do lácio. É comum por nós usarmos a expressão em nosso dia a dia. Porém, muita gente ainda não sabe do que realmente se trata a tão usada expressão. O poeta retrata em seu primeiro verso “a última flor do lácio inculta e bela”, se referindo ao nosso idioma português como a última língua derivada do latim vulgar falado no Lácio, que é uma região da Itália. As línguas latinas também chamadas de neolatinas ou românicas também se originam do latim e são elas as mais faladas e conhecidas: Italiano, Espanhol, Francês e Português. Já o termo “inculta” se refere ao latim vulgarmente falado por camponeses, soldados e as classes mais populares, que assim se diferenciava do latim clássico falado por pessoas de classes superiores. Para Olavo Bilac nosso idioma ainda continuava a ser belo mesmo originando de uma linguagem popular. Não conhecer a raiz cultural brasileira é marca registrada de nosso povo, enaltecemos muito a cultura exterior e esquecemos que nosso Brasil mesmo sendo um País novo em relação aos países europeus tem uma rica e invejável cultura, diversidade, literatura e por aí vai... Cometemos uma falta grande quando desmerecemos nossa história e como amante da nossa literatura não posso me furtar em sentir uma enorme tristeza em vê-la tão esquecida.
Enfim, amados ledores e ledoras, creio ter extinto meu vernáculo no que diz respeito ao velho dáblio, acreditando mais uma vez ter cumprido os objetivos do abecedário Evoé!. Abraços literários.
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*Túlio Monteiro - escritor, ensaísta e crítico literário.

X, cromossômico X! - Kelsen Bravos*

A letra xis do nosso alfabeto tem inúmeras acepções. Todas elas tão ricas em sentidos, um turbilhão de signos, sem dúvidas, fina expressão metafórica. Quem não admite ter utilizado a expressão xis da questão? Quem não há de reconhecer ter, na descoberta de seu valor nas provas de matemática, a redenção para gozar as merecidas férias? Mas xis, dos tempos de escola, lembro muito o dos cromossomos.

Sei, daquele tempo, que, dos 23 pares de cromossomos, os atinentes à sexualidade envolviam o par de xis ou a dupla x e y. Explico já o porquê do "envolviam", pois a ciência parece ter avançado a ponto de desconsiderar tamanha descoberta e alegar ser apenas um gene o definidor da diferença entre o masculino e feminino. Um tal de TDF (Fator Determinante dos Testículos), obviamente, só presente nos indivíduos de sexo masculino, é, segundo eles, o grande responsável pela clássica distinção. Vocês imaginam a tamanha desgraça para uma das mais preciosas metáforas do xis os cientistas estadunidenses proporcionam com essa descoberta em 1988? Uma lástima! Pois eu a ignorarei para todo o sempre, porque para mim o que define a sexualidade são as combinações dos cromossomos alossomos, heterossomos x e y, sendo a mulher xx e o homem xy, o TDF é outra questão e ponto final!

Fiquei craque no x, cromossômico x, quando cursava o segundo grau (hoje ensino médio). Não lembro se estava no segundo ou no terceiro ano. Foi graças a um professor de biologia. O cara era um misto de canastrão com idiota metido a conquistador barato. Só andava de branco, metido a doutor. A gente vê cada coisa no magistério, viu? Pois, creiam, sou de uma tal maneira agradecido a ele por ter gabaritado as questões de Biologia do vestibular. Deixem-me contar...

Sempre tive o hábito de estudar, antes das aulas, o assunto programado para elas. Em casa nunca me faltaram os livros didáticos de referência. À proporção que estudava descobria novas fontes bibliográficas, pedia a meu pai e, com prazer, ele providenciava. Demonstrava satisfação ao me ver estudar noite adentro. Quando levantava de madrugada para beber água, ele passava pela mesa de estudo e me dizia ser hora de dormir, mas não insistia. Às vezes conversava um pouco comigo e depois me recomendava não menosprezar o sono (ainda hoje - benza Deus! - me fala isso.) 

Estudava beneditinamente todas as matérias escolares. Mesmo nas férias. Era um prazer. Então as aulas dos professores me serviam ou para confirmar minhas certezas ou para dirimir minhas dúvidas. Raramente levava cadernos ou livros para escola. Um bloco de rascunhos, uma agenda para anotações esparsas ou rabiscos poéticos. Livros mesmo eram de literatura, em sentido amplo, sem ter a ver com o currículo escolar. Se uma aula, para usar uma gíria em xis mais recente, caminhava para xablau (caos), eu mergulhava ali mesmo no livro extra-escola de então e me "ausentava" da aula.

Pois nem pensei duas vezes em mergulhar na leitura extra, quando o tal professor de biologia começou a falar da definição da sexualidade, dos órgãos reprodutores, dos cuidados com os órgãos genitais e se deteve na questão de quão importante era a tal primeira vez para as meninas, por isso elas deveriam buscar alguém com experiência. Falava em tom jocoso e de autopromoção. Ouvi risinhos das meninas. Escárnios da rapaziada. Que efedepê, pensei. Daí peguei meu livro de então e nele me ausentei daquela aula.

Meu gesto feriu os brios do professor. Ele perguntou irritado sobre o livro. Não estava a ler nenhum romance. Ou era o best-seller Xadrez Básico (preparava-me para a competição de xadrez estudantil da qual fui vice-campeão) ou era O Governo de João Goulart - As lutas sociais no Brasil (1961-1964), publicado pela Civilização Brasileira, de autoria de Moniz Bandeira, um livro difícil - àquela época - mas intrigante, leitura dividida com meu pai.

"Ou para de ler ou sai da aula!" Fiz não ouvir. "Ou para de ler ou sai da aula, mocinho!" Silêncio. Sem nada dizer, me levantei e me dirigi à saída. Ficava ao lado da lousa. "Se não consegue respeitar a minha aula, não merece estar nela, seu moleque! Onde já se viu negligenciar a minha aula! Você devia procurar um médico!" E você, um circo, pois lá é que é lugar de palhaço! "Você vai ser expulso!" Antes de sair ouvi um colega gritar: "Ele é atleta!" (Eu fazia parte da seleção de handebol da escola, base da seleção cearense, pagava meus estudos assim).

Uma colega, logo após, também saiu de sala em solidariedade a mim e me avisou: "Ele disse que vai reprovar você." Dei de ombros. Ela parou na minha frente e me olhou de x a y e eu senti os xx dela bem quentes. Lábios entumecidos. Colo ofegante. Um perfume úmido rescendia dela. Éramos feromônios em sintonia. Demos um jeito de sair da escola e fomos para a sessão de cinema das cinco dar mais sentido a seu batom.

Fiquei, pela primeira vez, de recuperação. Ela também. Resignado, aproveitei para me dedicar, como nunca, à matéria. Vocês nem imaginam quão estimulante foi estudar com ela. Entregamo-nos de corpo e alma à Biologia. Após a prova de recuperação, comparamos nossas performances: gabaritamos as respostas! Nunca fizera uma prova tão consciente. Ela tirou dez! Qual foi minha surpresa ao me ver reprovado de ano em Biologia com uma nota zero! De imediato, solicitei audiência com a direção. Um dos diretores era professor de Biologia, pedi a revisão dele da minha prova. Dez! Contei-lhe então todo o ocorrido. Vou quebrar a banca desse pulha! Falei ali mesmo. Talvez pela minha índole pacífica, a direção não viu ameaça. Nem eu. Ela, eu não sei.

Saímos da sala da diretoria, ao passar pelo pátio, lá estava o tal professor todo vestido de branco, era assim um doutor cheio de banca, daqueles de não dar mão a pobre nem carregar embrulho, em meio a uma roda risonha das bazófias dele. Ao me ver, falou mais alto: "eu não disse, olha o reprovado!"

Minha colega xx, determinada, íntegra, doce, percebeu-me o par y em desvario. Atinou iminente desatino. Desde esse dia, convenci-me do equilíbrio feminino ter a ver com a pertinência cromossômica dos dois xises. O masculino é de rompante, desequilibra-se facilmente. Reparem bem se não é o Y um X-saci. Para se pôr em pé precisa do xis ali , bem ao lado. Ela nem acreditava nessa tamanha força do x, cromossômico x! Nos últimos dias, a convencera crer, porém... Hoje vejo o quanto faz sentido a descoberta dos cientistas estadunidenses... pois é... agora eu sei, foi o tal TDF. Ele desatinou. Evoé!

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, compositor, editor do Evoé!

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Xucro - Chico Araujo*

Tenho me arriscado aqui no contar histórias, algumas com invencionices, outras sem. Tenho gostado, sem pleitear unanimidade e considerando, a partir de Nietzsche e Rodrigues, que onde ela graça, burrice existe. Ou não? Um pouco não me importo; a vivência da escrita, o estímulo para fazê-la, a expectativa de haver um parco – mesmo que único – comentário a ela me inflama motivação. Vou tecendo. E me arriscando.

Pois veja que dessa vez a história não tem demora, apesar de o personagem ser existente em variados contextos, materializando muitos fatos. Vamos.

Subiu. Como cedo ainda a manhã, no ônibus poucas pessoas. Em chegando à roleta, o cobrador outra vez expressou Bom dia, mas, de volta, o silêncio, a sisudez, o arranco na borboleta – rotina. Seguiu o ônibus, seguiu o cobrador, seguiu ele.

Desceu. Ponto-parada, o caminho de ontem e de antes, o trabalho avocando. Na contradição de uma pressa lenta, não desviou da senhora no sentido oposto. No quase atropelo, a reclamação madurona esnobada no nem olhar desdenhoso. Seguia ele.

Na entrada, empurrão na porta, agredindo pé do segurança gritante de um “Eita” considerável de imponente. Sem abalo, os passos seguintes.

Na sala, os companheiros. Nenhum qualquer Bom dia – todos no costume.

Na precisão, nunca medo da pergunta, assim direta, sem floreio:

- Você pode me dizer como fazer isso? – e apontava para uma planilha como novidade.

Em atenção, a colega:

- Posso.

Ensinado, nada de um ligeiro agradecer. Nada de sorriso. Em suma, nada. Apenas o cumprimento da tarefa.

Em vendo aquele desenrolar, alguém arrisca:

- É um xucro mesmo!

Sem reação. Um solene ignorar do dito e do sugerido.

Em atendimento a telefonema, iniciava a conversa com um Diga forte e insolente. No uso de banheiro, ignorava os apelos de descarga e manutenção de limpeza. Na hora de um cafezinho, tomava a frente de quem chegara antes, sem exclamação de licença. No almoço, sem respeito à preferência pela ordem de chegada.

Assim como de manhã, a tarde.

Em retorno à casa, arrastava para dentro do ônibus quem lhe estivesse pelo caminho e, se conseguisse lugar para sentar, não o oferecia a quem mais precisasse, e se não houvesse cuidado, alguém poderia descer em ponto-parada não desejado.

Era assim. Não se sabia até quando seria, se haveria mudança na sua maneira de ser.

Era assim. Um exemplo de como não ser.

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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Xucro" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito a 23 de julho de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

W.O de Túlio Monteiro - Nota do Editor

No jogo do Abecedário de Crônicas do Evoé, o radical amante da Língua Portuguesa Túlio Monteiro se viu em palpos de aranha por não descobrir afinidade poética com o tal W. Resultado: o poeta perdeu por WO.

Perder por WO, para quem não sabe, é uma expressão utilizada no meio esportivo, que significa vitória pela ausência do adversário. O termo vem do inglês "walkover" cuja livre tradução pode ser "vitória fácil". Portanto, caros leitores, a partida da letra W do Abecedário de Crônicas do Evoé! ficou assim:

Dabliú W x O Túlio Monteiro

A editoria recebeu, entretanto, cartinha irônica do Dabliú concedendo uma revanche ao Poeta. Ei-la:

Caro editor,

Concedo revanche ao poeta. Imagino tenha ele imaginação. Todos sabemos, por exemplo, que o silêncio, ausência de som, antecede a expressão sonora. Eu sou a prova inconteste da expressão da ausência, significo "vitória fácil" sobre a falta de imaginação, por isso, psra comprovar se o Poeta é poeta, concedo-lhe a revanche.

Com distinta consideração,

Dabliú.

Enviei a nota ao Poeta. Parece que aceitou. Aguardemos.