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segunda-feira, 16 de maio de 2022

Poética - Kelsen Bravos



Kelsen Bravos
Por um poema
que transmude o doer
do poema calo
         que não soa
                            sua
                                      dor
         no talo do canavial.

Por um poema
que transmude o doer
do poema fábrica
         que ávida
                            apita
                                      grita
         justas queixas.
Por um poema
que transmude o doer
do poema estiva
         que só
                            carrega
                                      descarrega
                  sal.
Por um poema
que transmude este doer
do poema sozinho
         que subverteu
                            a ordem
                                      o descaminho.


Um poema-amor, enfim,
Que reponha até no poema-fome
O fazer-prazer do trabalho
Expressão do poema-homem.

Sim! Um poema-chão-semente
que rebente
dos calos da dor
do perdido ser
feito poema-rio
                   alegrando o mar.


sábado, 24 de novembro de 2012

As instigantes cicatrizes da alma "Em compasso de espera", de Chico Araujo


Na X Bienal Internacional do Livro do Ceará durante o
lançamento de Em compasso de espera, no Café Java
(Fotos Arquivo pessoal de Chico Araujo)
Chico Araujo, apesar de seu aparente jeitão casmurro, é uma pessoa divertidíssima e inquieta. Poeta, compositor, intérprete, contista, cronista, graduado em Letras, com especialização em descrição da língua portuguesa, mestre em Literatura, professor universitário, consultor pedagógico, pai de cinco filhos e avô. O primeiro livro dele que li foi O Menino e Outro Menino (1998), depois Chico me deu o prazer de editar Aziul: uma história de sombras e de Luz (2007), ambos voltados para o público infanto-juvenil. Entre a edição de um e outro, publicou O relógio de parede (2000), seu primeiro livro em prosa para adultos, para o qual escrevi uma apresentação em que destaco o olhar atento do autor. Ele vê nos fatos mais corriqueiros o incomum e nos socializa em um texto de esmerado apuro formal a condição humana neles contida. Em Versos de setembro (2010), deixa fluir o seu lado lírico em poemas confessionais nos quais transborda a intensidade de seu amor e carinho. Agora o meu caro amigo Chico Araujo me instiga a escrever sobre este Em compasso de espera. Um livro de contos surpreendente.
O conto é o soneto da prosa. Esse é o critério que estabeleço ao ler um conto, uma, digamos, perfeita fusão de forma e conteúdo tal qual se vê em um soneto, daí a minha assertiva de ser o conto o soneto da prosa. É, pois, nessa premissa a base desta apresentação.
Recebi Chico Araujo em talk-show de lançamento
do livro Em compasso de espera, no Café Java, durante
a X Bienal Internacional do Livro do Ceará
Em compasso de espera surpreende não no apuro formal, embora o esmero no trato das palavras, construções frasais e demais recursos estilísticos, como a utilização do discurso indireto livre, sobejem em muito o dos livros anteriores. Com certeza esse tipo de apuro formal não me surpreendeu, porque lhe era previsível tal evolução. A surpresa formal, melhor usar o plural, as surpresas estão por conta da resignificação que Chico dá a textos clássicos como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, Aves de Arribação, de Antônio Sales, O Quinze, de Rachel de Queirós, As formigas, de Lygia Fagundes Teles, Os Sertões, de Euclides da Cunha, entre outros que vale o leitor tentar descobrir. Com tais intertextualidades, de forma sutil, Araujo aproveita cenários ou situações desses clássicos e os incorpora ao enredo de narrativas de cunho psicológico, centradas no mundo interior das personagens dos contos carregados de subjetividade deste Em compasso de espera.
Chico (Sérgio) Araujo fala sobre a escrita de seus livros
Essa reverente homenagem que Chico Araujo rende aos clássicos da literatura nacional por meio das referidas intertextualidades não restringe a leitura dos contos de Em compasso de espera a um público de maior repertório literário; mas ganham os leitores mais experientes com a explosão de sentidos causada pela polifonia desse sutil recurso estilístico que potencializa a temática das quinze narrativas focadas no universo subjetivo das personagens. Entretanto, este não é um livro para qualquer leitor ou para um leitor apressado. Passou longe de Chico Araujo a intenção de escrever um best-seller. O seu movimento argumentativo impulsiona o afastamento de uma realidade inútil para provocar a criação de uma outra melhor, sobressalta-se a intenção de fazer uma transgressão estética da realidade.  Cada conto, portanto, deve ser lido pausadamente. Ler e refletir e reler, pois o leitor (como faz o personagem Rafael no conto “Sentidos”) vai imergir em uma nova realidade mais verdadeira do que a real, vai imegir no mais absoluto de si mesmo e quando de lá emergir o fará como transgressão de si mesmo.
São das cicatrizes da alma de que tratam os quinze contos de Em compasso de espera.  Seja ela causada pelo corte lancinante do fútil pedestal da fama, como em “Dondinha”, ou pela progressão do pensamento propenso ao pânico, como em “Pela Madrugada”, seja pela seca marcando destinos e identidades, como em “O silêncio de cada um” (mesmo neste conto de cenário mais aberto, o foco é o interior, o “silêncio” de cada um).
De um modo geral, o grande tema de Em compasso de espera são as sendas do medo, que deve ser entendido como um sentido fundamental para vida. O medo, vértice de vários caminhos, o da coragem, o da prevenção, o da covardia, o do pânico. O medo urbano. A escuridão, o nadir, o desencontro de duas pessoas entre quatro paredes. O medo da solidão. O medo de uma classe, a visão da classe média urbana.
Chico Araujo registra a sociedade urbana adoentada pelo medo, a fim imergi-la em si mesma para, quem sabe, reagir ao ponto de se autotransgredir. Surpreendente e instigador, Em compasso de espera é um livro para ser lido sozinho e depois discutido em família ou em grupo, a dois, a três, a mais pessoas. Uma leitura para quem quer saber pela arte dos meandros psicológicos da classe média urbana do início do século XXI. Espero você, leitor, para uma conversa sobre cada um desses quinzes contos.

Kelsen Bravos
Escritor

segunda-feira, 28 de março de 2011

Carlos Emílio Barreto Corrêa Lima na Academia Brasileira de Letras


"Na fímbria do fantástico" é o tema da terceira conferência do ciclo "Gêneros literários: um olhar atual"


A convite da Academia Brasileira de Letras o escritor, poeta, editor, ensaísta e mestre em Literatura Brasileira, Carlos Emílio Corrêa Lima, proferirá a conferência Na fímbria do fantástico, no dia 29 de março, de 2011, durante o Ciclo de Conferência Gêneros Literários: um olhar atual, promovido pela Academia Brasileira de Letras, no teatro R. Magalhães Jr., no Rio de Janeiro. No site da Academia Brasileira de Letras. Fonte: www.academia.org.br

quinta-feira, 24 de março de 2011

O Grão e a Estrela Cadente



Narração improvisada do enredo do livro O Grão e a Estrela Cadente, de autoria de Kelsen Bravos, ao som do violão de Luciano Albuquerque, imagens de Washington Forte e participação especial de Luísa e Lidiane Moura.

Zona Poética Liberada (ZPL) Especial para Criança, em outubro de 2009. Curadoria de Antonio Filho.

A ZPL, concepção e produção de Carlos Emílio Corrêa Lima, e acontece no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Parabéns, Antonio Maria! Se ainda entre nós, faria 90 anos (17/03/1921)


Crônica
 Mulher dos outros*
Antônio Maria**

Dia claro. Primeiras horas do dia claro. Havíamos bebido e procurávamos um café aberto, para uma média, com pão-canoa. Quase todos estavam fechados ou não tinham ainda leite ou pão. Fomos parar em Ipanema, num cafezinho, cujo dono era um português e nos conhecia de nome de notícia. Propôs-nos, em vez de café, um vinho maduro, que recebera de sua terra, "uma terrinha (como disse) ao pé de Braga". Não se recusa um vinho maduro, sejam quais forem as circunstâncias. Aceitamo-lo. Nossa grata homenagem a José Manuel Pereira, que nos deu seu vinho.

Nesse café, além de nós, havia um casal, aos beijos. As garrafas vazias (de cerveja) eram quatro sobre a mesa e seis sob. Beijavam-se, bebiam sua cervejinha e voltavam a beijar-se. Não olhavam para nós e pouco estavam ligando para o resto do mundo. Em dado momento, entraram dois rapazes e pediram aguardente no balcão.
Ambos disseram palavrões, em voz alta. O casal dos beijos e da cerveja parou com as duas coisas. Outros palavrões e o cabeça do casal protestou:
Antonio Maria

— Pára com isso, que tem senhora aqui!
Um dos rapazes dos palavrões:

— Não chateia!

— Não chateia o quê? Pára com isso agora!

Um dos rapazes do palavrão:

— E essa mulher é tua mulher?

— Não é, mas é mulher de um amigo meu!

A briga não foi adiante. Todos rimos. O dono da casa, os rapazes dos palavrões, o casal. Está provado que: quem sai aos beijos com mulher de amigo não tem direito a reclamar coisa alguma.


____________________________________
  *Publicada originalmente no jornal Última Hora – Rio de Janeiro, de 23-08-1960, foi extraída do livro “Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria”, Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 2002, organização de Joaquim Ferreira dos Santos, pág. 115.



** Antônio Maria Araújo de Morais (Recife17 de março de 1921 — Rio de Janeiro15 de outubro de 1964) foi um cronista, comentarista esportivo, poeta e compositor brasileiro, nascido em Pernambuco. Leia mais

sábado, 24 de julho de 2010

Da série: Resenhas literárias

Uma leitura indispensável
Kelsen Bravos

Raimundo Rocha, o mais velho dos novatos escribas cearenses de então, começou a escrever aos 59 anos. Aos sessenta e dois, publicou seu primeiro livro, Os olhos do meu anjo (2008). Uma antologia de contos cujos tramas e enredos são narrados ao sabor  de uma conversa de varanda por um contador de histórias primoroso. Seu estilo, apesar de seguir a tradição de Moreira Campos, Graciliano Ramos e Juarez Barroso, brilha por si só, é uma estrela a mais na constelação de nossos melhores contistas. Por vezes reflexivo, por vezes romântico, sempre bem-humorado, sem necessariamente fazer piada, Raimundo Rocha não abre mão de suas origens, seu texto está radicado na nordestinidade cearense. Por meio dos trejeitos e traquejos de sua gente, seus quereres, haveres e saberes, faz o leitor mergulhar nas sendas dos sentimentos humanos. 
Agora recebo o convite para o lançamento de Mundo: Mundinho - histórias nem sempre imaginadas. Há algum tempo Raimundo Rocha me entregou seus originais para leitura e anotações antes de encaminhá-los à editora. Queria repetir o feito no primeiro livro. Aceitei com prazer a tarefa; li o livro, mas não cumpri o envio de minhas anotações. Quando o texto me pega de primeira, entrego-me ao deleite da leitura apenas. Nesses casos, para garantir leitura mais cirúrgica, deixo as anotações para um segundo olhar.  O tempo, entretanto, me emboscou e raptou-me da segunda leitura do novo livro desse camarada boa praça, um vovozão amado, e um conquistador de novos amigos sem igual. Generoso, não me constrangeu pela minha falta (desculpa-me, amigo!) e ainda me manda carinhoso e-mail com o convite para o lançamento. Obrigado.

O título Mundo: Mundinho remete-nos ao título Grande sertão: veredas, em que do imenso universo do interior mineiro, Guimarães Rosa expressa-lhes as estreitas sendas. Raimundo Rocha reverencia esse clássico da literatura, parafraseando-lhe o título. Em vez de sertão há o mundo, em vez de veredas, o Mundinho, ou seja, do Mundo, ele nos apresenta o olhar, a memória, a intensidade de Raimundo, Raimundinho, Mundinho e confirma a sua radicalidade nordestina, cearense, expressa no primeiro livro. Bem como reafirma seu primoroso estilo. 

De leitura indispensável, Mundo: Mundinho - histórias nem sempre inventadas areja o cenário literário brasileiro.   

___________________
Lançamento do livro Mundo: Mundinho - histórias nem sempre inventadas.
Autor: Raimundo Rocha.
Dia 29 de junho às 19h30min.
No Centro Cultural Oboé,
Rua Maria Tomásia, 531, Aldeota.
Forataleza - Ceará


terça-feira, 17 de março de 2009

Dois Pontos: Literatura



Tive o prazer de recepcionar a equipe de acadêmicos e profissionais do curso de Comunicação da UNIFOR, orientada pelo professor e escritor Felipe Barroso. Eles vieram gravar o programa Dois Pontos que sempre reúne dois escritores num bate-papo descontraído. Ao meu lado está Túlio Monteiro. A gravação foi num cantinho de minha casa batizado Largo da Boemia, onde costumo me confraternizar com os amigos.

Para assistir clique aqui