Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

UM HOMEM DE CIÊNCIA - Epitácio Macário*

(Em memória do meu pai, Seu Raimundo Macário)


Episódio 1: a fama

I.

Desde que retornara do Maranhão, acompanhado da mulher e dos dez filhos, as histórias se multiplicavam a respeito de suas habilidades.

Já no meio da estrada, enquanto o pau-de-arara era consertado, as mulheres faziam o rancho debaixo das ingazeiras e as crianças brincavam de esconde-esconde na mata, ele criava fama junto aos homens, exímio que era na arte de confabular. Viajado, narrava com desenvoltura o cotidiano dos nordestinos que se amontoavam nas favelas lamacentas do Rio e de São Paulo, para onde iam fugindo da cerca, da seca e da fome. 

Dotado de perspicácia e de memória invejáveis, logo fez-se notar como leitor de mão, repetindo ao pé da letra os causos contados na espontaneidade da viagem e ardilosamente sistematizados em sua imaginação. Seguia um método lógico: ouvia as conversas, estabelecia algumas premissas pela oitiva dos pedaços de vida e daí deduzia todo o resto. Coisa simples para um atento observador da conduta humana.

A convicção traía-se, porém, no sorriso que escorregava no canto da boca ao cruzar o olhar com sua mulher que, de cenho franzido, reprovava sua atitude, ao mesmo tempo em que admirava a sua capacidade de deter a atenção dos pareceres. “Mais cedo ou mais tarde isto atrairia encrenca”, pensava ela. 

De fato, era o que viria a ocorrer na pracinha de uma pequena cidade maranhense, ao se apearem para o almoço. Um valentão irritou-se com a revelação dos segredos de sua jovem namorada e desafiou-o. Com a mão direita no cabo do facão, o vaqueiro estendeu-lhe a esquerda e sentenciou: “leia! Se errar...” A reticência reteve a respiração dos que se haviam aglomerado na roda. 

Sem tempo, Seu Raimundo Vitor, nascido Raimundo Macário, fitou os olhos do homem e enxergou a maldade que lhe cobria a alma. O braço estendido exibia rastros de lâminas e a camisa entreaberta deixava expostas as cicatrizes herdadas de um passado fácil de adivinhar. Então, antes da terceira expiração, pronunciou em tom firme: “não posso revelar seus feitos, caro amigo, pois não quero testemunhar em tribunal”, falou e virou de lado rumo aos dois polícias que chegavam para desmanchar a desavença. Olhando o chão, o homem foi saindo de fininho. 

Todos respiraram aliviados e a mulher fitou o céu num gesto de agradecimento.

II.

Apearam-se em São Benedito, para uma visita aos parentes, e o velho carro seguiu para o sertão, conduzindo passageiros e as histórias que presenciaram. Dois meses depois, Seu Raimundo, mulher e filhos completariam a viagem, chegando à localidade de Barra Nova, nas terras de Tamboril. Instalaram-se numa velha casa fora do povoado. 

Além das batalhas contra os percevejos (barbeiros) que infestavam as paredes de taipa, do trabalho árduo para fazer safra, alimentar e vestir mulher e filhos, tinha de desmanchar a fama que lhe imputavam. Cumpria acordo feito com a mulher que durante as sessenta noites no frio da Serra Grande relembrou a angústia daquele momento vivido na cidadezinha maranhense. Além do mais, lembrava ela: “os meninos estão crescendo; precisam de bom exemplo”. 

Mas, sabe como são boatos... Em Barra Nova eles só aumentaram.

III.

Contava-se de uma vez que ele enfrentou um bando de ciganos, portentosos no armamento, exuberantes no físico, montando possantes cavalos negros. Ao todo, eram mais de trezentas cabeças entre homens, mulheres e crianças que foram recepcionados no terreiro, a pé, porque, estranhamente, os animais estancaram no aceiro em linha tão reta que pareciam hipnotizados. Às esporadas na barriga, às chicotadas e aos gritos de “eia!” os corcéis negros reagiam em relinchos, ofegos e patas levantadas… mas nenhum passo à frente. 

Dizia-se que ele travara um duelo encarniçado com o líder daquela gente, fazendo-o rodopiar três vezes depois de cochichar em seu ouvido, ler algumas passagens num velho livro de capa preta gasta e apontar-lhe um sarrafo de jucá. Por um instante, é o que se popularizou, formou-se uma nuvem negra, ofuscando os olhares, inclusive deste narrador que era ainda muito criança. Depois, o que se seguiu foi uma reverência do ancião líder daquela gente que ordenava a montaria. Saíram em tropel, deixando marcas fundas das ferraduras na estrada de piçarra e uma densa poeira que encheu o desolado fim de tarde sertanejo.

Mesmo sem saber ao certo se ele trabalhava na linha preta ou na linha branca, todos aprovaram sua ação. Ora, duas vezes por ano - diziam no povoado - aquela gente passava pelo lugarejo, uma subindo para o Ipu e a outra descendo para Canindé, e deixavam uma subtração na miunça, nas latas de feijão, milho e arroz. “Bem feito! Rabos de burro!" – era o que dizia o povo da comunidade em silêncios, gestos e palavras. 

Em verdade, em verdade, eu vos digo, pelo tanto que lembro e presenciei, que o grupo não passava de trinta, em andrajos, puxando mulas sonolentas, exibindo tatuagens em pelancas, esquálidos. É bem possível que ele tenha declamado algum verso apreendido de oitiva, usado d’algum palavreado dos rituais de exorcismo de Padrinho Zé Bruno de Codó no Maranhão, ou utilizado alguma jinga impressionante, pois tinha longa experiência como magarefe nas festas de reisados. Mas sem dúvida, um olhar profundo, entre inocente e destemido, e algumas palavras escolhidas para o momento foram lançados naquele duelo. Isto ele sabia fazer como ninguém! 

Se tenho, pois, a certeza do que vi e aqui afirmo, sinto-me na obrigação, todavia, de advertir sobre as dúvidas que carrego há exatos 49 anos. Turvada por aquela poeira e pelo tempo está hoje minha lembrança, e os senões avolumam-se. Pois do que mais lembro – e já não posso garantir se de testemunho ou de oitiva – é dos cavalos paralisados em linha reta; ainda sinto o cheiro forte que exalavam, de suores e resfôlegos. E os rodopios do cigano velho sem que Seu Raimundo Vitor lhe tocasse um dedo?...


Além do mais, quem não se lembra daquela tarde de domingo, quando as mulheres já se enfileiravam na vereda da cacimba para fazer o asseio, trazer as cabaças cheias, empoarem-se e irem para o culto? Ninguém ali jamais esquecera, tampouco este narrador, aquele entardecer quando o sol é engolido pela torre de nuvens em cor chumbo e um vermelhidão se espraia a oeste, enquanto avoantes penetram o azul infinito dos céus. Sim, era um lusco-fusco enternecedor e morno no sertão dos Inhamuns, que fora interrompido abruptamente. 

Pois, quase hora do Ângelo, os devotos se arregimentavam em torno do rádio para o canto da Ave-Maria, quando se ouviu a gritaria da dezena e meia de filhos de Bibiano, organizados ao redor da panela de baião de dois. Dona Júlia, a mãe da família, surtou; apanhou uma faca e desembestou na carreira jurando suicidar-se.

Ele vinha dobrando o canto da cerca, montando seu jumento de cela, seguido por sua mulher e uma fileira de filhos, inclusive este narrador. Apeou-se e logo juntou-se a dúzia e meia de voluntários que entraram na mata para resgatar a mulher. Encontraram a coitada há dois quilômetros, encostada num pé de angico, delirando e com a faca em punho.

O primeiro a pronunciar-se foi Zé Mariquinha, cunhado dela por parte de marido, conhecido pela voz sonora de timbre grave. Esbravejou e em tom imperioso ordenou-a que largasse a faca. Ela respondeu com um olhar faiscante, a mão trêmula, os cabelos esfiapados, os lábios franzidos, uma espuma descia no canto da boca... Foi suficiente para fazê-lo calar e retroceder dois ou três passos, aumentando a distância de vinte metros, e acomodar-se atrás da touceira de mufumbo. 

O marido mantinha uma conduta entre indeciso e culpado, enquanto duas mulheres rezavam, choravam e se abraçavam. 

Foi então que Seu Raimundo Vitor afastou os homens com um gesto de mão, chamou as duas mulheres e foi tomando chegada. 

A uns cinco metros, os três acocoraram-se e ele começou a conversar com a suicida. Falou dos filhos que tinha e, certamente lembrando a variedade de condutas, riu sozinho. Contou causos curtos do cotidiano da comunidade, pronunciou sete vezes o nome do caçula dela – “ainda tão criança!”, “uma vida em germinação!”, exclamava – enquanto se aproximava. Quando a alcançou, ela já estava completamente desarmada e banhada em lágrimas.

Nada mais que isto fizera. Mas todos os que lá estavam, e principalmente os que não estavam, juraram que o ouviram proferir uma oração em língua desconhecida e viram mesmo o momento em que expulsara um espírito sujo do corpo de Dona Júlia. 

Este narrador é testemunha do esforço que ele fizera para desmanchar os boatos. Mas, na quadragésima vez em que teve de explicar o que acontecera, sapecou sua costumeira ironia: “morei no Maranhão por doze anos. Vi os rituais de exorcismo de Padrinho Zé Bruno de Codó. Eu não estava brincando, caro amigo!”. 

Desde então, sua fama deixou o campo do boato e cristalizou-se no imaginário daquele povo.

Doravante, passou a ser assediado por apostadores no bicho e na loteria, por pessoas enfermas e homens desconfiados de suas mulheres. Foi, também, muito procurado pelas moças noivas e velhos da comunidade que queriam saber como o INPS iria julgar seus processos de aposentadoria. Até caçadores, de indômita coragem, consultavam-no sobre caiporas e visagens que residem na mata densa.

E foi assim que Seu Raimundo Vitor, seresteiro, gritador de leilão, imbatível colhedor de arroz, brincante de reisado e contador de histórias passou a ser conhecido, também, como um homem de ciência.

__________________
*Epitácio Macário - Educador com doutorado, mestrado (ambos pela UFC) e graduação em Pedagogia. Professor do Mestrado Acadêmico Serviço Social, Trabalho e Questão Social (MASS/UECE,  - instituição onde se graduou). Declara com convicção em seu perfil no FaceBook: "Sou professor por opção e por concurso público. Modo de vida não universalizável é frescura de rico." Autor de Estações (clique no título do livro para acessar o eBook), publicado em 2016 cheio de prazerosas crônicas e contos. 


Nota do editor do Evoé!

A literatura de Epitácio Macário (Mac) reverbera em sintonia com genial narrativa de um Ubaldo Ribeiro; mas sem o sarcasmo do autor de O albatroz azul. No lugar do sarcasmo, a narrativa de Mac envolve amor, muito amor à gente da qual descende a profunda Nação Brasileira. Ele nos universaliza os iguais.

Parabéns, amigo Epitário Macário, e obrigado pela honra de nos conceder autorização para publicar aqui "Um homem de ciência". Evoé! (KB)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Eu sou aquele que come as flores do aniversário - Túlio Monteiro'



"Refratário aos mistérios e enigmas do encantado, em atração constante pelo mito, pela magia, pelo difuso, pela penumbra da inconsciência, possui a grande ciência do texto lírico, belo, inovador e ousado. Travestido de compadre do diabo, é, entretanto, um romeiro devoto, capaz de fazer promessas e vestir o balandrau do Pobrezinho de Assis. Finge regar os caminhos de Satã para vencê-lo de tocaia e ganhar as graças de Deus."  (Juarez Leitão)


Sábado. Cedo! 

Como de costume levanta-se, esticando músculos e ossos já utilizados, amiúde, por mais oito décadas. Passara a noite nu, porque o nu nunca lhe fora mais que beleza, liberdade corpórea, utilização da carne em prol da satisfação mútua dos corpos que, um dia, acolheram o seu em alcovas muito ou nada corretas... o que definitivamente não lhe importava- já que sexo nunca nada lhe mais fora que o prata emanado das estrelas e luas do caleidoscópio estridente de gozos bramidos noites adentro, pois todo homem que não presta e se preza faz sua mulher perder a vergonha, gemer e voltar sempre aos seus braços e beijos. Pois como a Lua excita a mente dos loucos, desperta o ciúme e a paixão dos poetas, levanta o nomadismo dos ciganos e faz com que o assassino vislumbre de longe a sua vítima, assim as mulheres e os homens livres de dogmas puritanos conduzem seus pares à sublimação e ao clímax ... a Eros e Tanatos. 

Não se queixava mais da vida, apesar de já ter perdido todos os "bicos" que fazia nos jornais, andando agora doente, os nervos escangalhados, o coração dando arrancos, muitas vezes infligindo-lhe noites de insônias rebeldes que o levavam a pensar em crimes, suicídios e outras coisas absurdas, satânicas até.

Sim! A velhice havia-lhe chegado qual grades intransponíveis. Olhos mirados nos espelhos da escrita, enxergava-se agora espectro, um velho sem família, sem parentes ou amigos. Um trapo, um bicho indefeso atirado aos abutres amontoados em colinas pontiagudas e labirínticas que certamente ocultam dragões, herdeiros, talvez, daquele que habitou - e por lá ainda durma pesado sono - as profundezas do Alto dos Angicos, pedaço do Ceará que o Coronel-garanhão Antônio José Nunes, em século já ido, arrebatou das mãos dos Tremembé.

Trinca-se o espelho da imagem envelhecida. Que se fossem, malditamente, para o mais abissal dos Infernos de Dante as lembranças de tempos, felicidades, sofrimentos e corpos passados. Valia-lhe mais o ali e o presente. 

Oito décadas e meia pelo setembro que se aproximava, já tantas vezes havia sentido a morte roçar-lhe sobre os ombros com seu car­rilhão de plumas eriçadas como a cauda de um réptil venenoso, que no mundo nada mais o assustava. Preferia repetir Fernando Pessoa e "exigir de si mesmo o que sabe que não poderia fazer. Pois não é outro o caminho da beleza". Ou Byron, "onde todas as coisas que nasceram, só nasceram para morrer. E a carne é uma erva que a morte ceifará". 

II

A manhã daquele sábado já deslizava para a tarde quando decidiu sair, deixando de lado o passado remoto que sempre teimava em aborrecer-lhe com coisas que só lhes serviam de entrave na vida. O dia estava quase pelo meio e flanar pelas ruas com ou sem saída da velha Gentilândia seria o remédio maior para o tédio que o invadia. Era o revelho dragão que mais uma vez deixava a Vila Cordeiro para serpentear os ares da cidade que escolhera para servi-lhe de caverna.

Voos tranquilos rumo ao centro da cidade, quase nunca repetia percursos, algo assim sem querer deixar pistas, rastros aéreos de seu Norte Verdadeiro: a Literatura! E como escrevia furiosamente bem aquele sábio dragão, riscando os céus da prosa e da poesia com a maestria pertinente apenas aos guardiães da literariedade de primeira linha.

Entretanto, no final daquela manhã de sábado, o monstro fabuloso resolveu parar seu bater de asas e mergulhar em direção ao chão. Seguiria andando, podendo, assim, ver e rever velhos conhecidos que o cumprimentavam quase em reverência sempre que seus pés e braços alados tocavam o solo infértil e relegado aos desprovidos de almas poéticas. Nessas horas, transmutava-se em humano, disfarçando-se para não dar na vista, nem ser perseguido pela legião de admiradores que arrebatara desde seus primeiros anos de escrita.

Entretanto, desistir de seu voo e descer ao solo tornou-se erro fatal. Ao tentar mudar de calçada, não percebeu que em sua direção um outro dragão se aproximava impiedoso, alta velocidade, urrando em voo rasante e nefasto.

Foi pego com a guarda baixa o maior dos dragões brasileiros.

A pancada sofrida por seu frágil disfarce humano lançou-o longe, o asfalto como campo de batalha recebendo gotas de seu sangue real. Sem lhe dar chances de defesa, seu algoz o atingira em cheio no tórax e cabeça, incapacitando-o de rufiar asas e voltar a sua toca, onde certamente curaria as feridas como tantas vezes já ocorrera em combates passados. Estava ferido de morte, o monstro áleo de Santana do Acaraú.

Ainda transmudado em corpo de homem, foi levado a hospitais onde bravamente agonizou por mais quase um dia, sob os cuidados dos sinceros amigos que sabiam de sua secreta identidade. Outros de sua estirpe? De uma casta linhagem que atravessou os séculos misturando-se entre homens co­muns para acalmá-los nas horas de mais angústia e ânsia por poesias e um pouco de paz? Nunca o saberemos!

Foi sepultado, como era de seu desejo, em solos da Fazenda do Dragão, encravada nas terras de São Francisco do Estreito, onde, segundo narra certa lenda, ele nascera em forma de gente.

Naquela mesma tarde, dizem os que por lá estavam presentes, um vento Aracati insistentemente soprava aos ouvidos dos iniciados um poema há muito escrito pelo Dragão que se fora:

O menino jaz atropelado:
Nossa Senhora, salve o menino!
Deixe que eu morra em seu lugar.
Deixe que eu morra por ti, menino.
Deixe que eu morra atropelado.
Nossa Senhora Salve o menino! . ..
(*"Desastre às 13h e 30 min". ln: As Tágides, (2001 ), de José Alcides Pinto)

_________________
Túlio Monteiro - é escritor premiado e crítico literário. Publica no Evoé! todas as segundas-feiras.

sábado, 24 de novembro de 2012

As instigantes cicatrizes da alma "Em compasso de espera", de Chico Araujo


Na X Bienal Internacional do Livro do Ceará durante o
lançamento de Em compasso de espera, no Café Java
(Fotos Arquivo pessoal de Chico Araujo)
Chico Araujo, apesar de seu aparente jeitão casmurro, é uma pessoa divertidíssima e inquieta. Poeta, compositor, intérprete, contista, cronista, graduado em Letras, com especialização em descrição da língua portuguesa, mestre em Literatura, professor universitário, consultor pedagógico, pai de cinco filhos e avô. O primeiro livro dele que li foi O Menino e Outro Menino (1998), depois Chico me deu o prazer de editar Aziul: uma história de sombras e de Luz (2007), ambos voltados para o público infanto-juvenil. Entre a edição de um e outro, publicou O relógio de parede (2000), seu primeiro livro em prosa para adultos, para o qual escrevi uma apresentação em que destaco o olhar atento do autor. Ele vê nos fatos mais corriqueiros o incomum e nos socializa em um texto de esmerado apuro formal a condição humana neles contida. Em Versos de setembro (2010), deixa fluir o seu lado lírico em poemas confessionais nos quais transborda a intensidade de seu amor e carinho. Agora o meu caro amigo Chico Araujo me instiga a escrever sobre este Em compasso de espera. Um livro de contos surpreendente.
O conto é o soneto da prosa. Esse é o critério que estabeleço ao ler um conto, uma, digamos, perfeita fusão de forma e conteúdo tal qual se vê em um soneto, daí a minha assertiva de ser o conto o soneto da prosa. É, pois, nessa premissa a base desta apresentação.
Recebi Chico Araujo em talk-show de lançamento
do livro Em compasso de espera, no Café Java, durante
a X Bienal Internacional do Livro do Ceará
Em compasso de espera surpreende não no apuro formal, embora o esmero no trato das palavras, construções frasais e demais recursos estilísticos, como a utilização do discurso indireto livre, sobejem em muito o dos livros anteriores. Com certeza esse tipo de apuro formal não me surpreendeu, porque lhe era previsível tal evolução. A surpresa formal, melhor usar o plural, as surpresas estão por conta da resignificação que Chico dá a textos clássicos como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, Aves de Arribação, de Antônio Sales, O Quinze, de Rachel de Queirós, As formigas, de Lygia Fagundes Teles, Os Sertões, de Euclides da Cunha, entre outros que vale o leitor tentar descobrir. Com tais intertextualidades, de forma sutil, Araujo aproveita cenários ou situações desses clássicos e os incorpora ao enredo de narrativas de cunho psicológico, centradas no mundo interior das personagens dos contos carregados de subjetividade deste Em compasso de espera.
Chico (Sérgio) Araujo fala sobre a escrita de seus livros
Essa reverente homenagem que Chico Araujo rende aos clássicos da literatura nacional por meio das referidas intertextualidades não restringe a leitura dos contos de Em compasso de espera a um público de maior repertório literário; mas ganham os leitores mais experientes com a explosão de sentidos causada pela polifonia desse sutil recurso estilístico que potencializa a temática das quinze narrativas focadas no universo subjetivo das personagens. Entretanto, este não é um livro para qualquer leitor ou para um leitor apressado. Passou longe de Chico Araujo a intenção de escrever um best-seller. O seu movimento argumentativo impulsiona o afastamento de uma realidade inútil para provocar a criação de uma outra melhor, sobressalta-se a intenção de fazer uma transgressão estética da realidade.  Cada conto, portanto, deve ser lido pausadamente. Ler e refletir e reler, pois o leitor (como faz o personagem Rafael no conto “Sentidos”) vai imergir em uma nova realidade mais verdadeira do que a real, vai imegir no mais absoluto de si mesmo e quando de lá emergir o fará como transgressão de si mesmo.
São das cicatrizes da alma de que tratam os quinze contos de Em compasso de espera.  Seja ela causada pelo corte lancinante do fútil pedestal da fama, como em “Dondinha”, ou pela progressão do pensamento propenso ao pânico, como em “Pela Madrugada”, seja pela seca marcando destinos e identidades, como em “O silêncio de cada um” (mesmo neste conto de cenário mais aberto, o foco é o interior, o “silêncio” de cada um).
De um modo geral, o grande tema de Em compasso de espera são as sendas do medo, que deve ser entendido como um sentido fundamental para vida. O medo, vértice de vários caminhos, o da coragem, o da prevenção, o da covardia, o do pânico. O medo urbano. A escuridão, o nadir, o desencontro de duas pessoas entre quatro paredes. O medo da solidão. O medo de uma classe, a visão da classe média urbana.
Chico Araujo registra a sociedade urbana adoentada pelo medo, a fim imergi-la em si mesma para, quem sabe, reagir ao ponto de se autotransgredir. Surpreendente e instigador, Em compasso de espera é um livro para ser lido sozinho e depois discutido em família ou em grupo, a dois, a três, a mais pessoas. Uma leitura para quem quer saber pela arte dos meandros psicológicos da classe média urbana do início do século XXI. Espero você, leitor, para uma conversa sobre cada um desses quinzes contos.

Kelsen Bravos
Escritor

segunda-feira, 14 de março de 2011

Literatura feminina na Cultura


O lançamento da antologia de contos Quantas de nós reúne sete expoentes da literatura feminina, as seis autoras, Thereza Leite, Vânia Vasconcelos, Cleudene Aragão, Carmélia Aragão, Inês Cardoso, Ruth de Paula, e a apresentadora, Tércia Montenegro. Uma plêiade assim de puro encantamento tem de ser prestigiada.  Ainda mais quando o livro protagonisa a mulher, seus sonhos, desejos, angústias,  é a eles que conduz o fio das narrativas. Leitor haverei de me enredar nesse fio para desvelar os mistérios ou me perder no esfíngico e abissal labirinto do universo feminino, prazerosamente.

Serviço

Quando?
Quarta-feira, 16 de março às 19 e  20h 
O quê? 
Lançamento do livro: Quantas de Nós
Editora: Independente
Quem?
Autoras: Thereza Leite, Vânia Vasconcelos, Cleudene Aragão, Carmélia Aragão, Inês Cardoso, Ruth de Paula e apresentadora Tércia Montenegro.
Onde?
Livraria Cultura
Unidade: Shopping Varanda Mall
Local: Mezzanino
Livraria Cultura – Shopping Varanda Mall
Endereço: Av. Av. Dom Luís,1010
CEP.:60160-230 – Fortaleza – CE
Tel.:(85) 4008-0800 / Fax.:(85) 4008-0801

sábado, 24 de julho de 2010

Da série: Resenhas literárias

Uma leitura indispensável
Kelsen Bravos

Raimundo Rocha, o mais velho dos novatos escribas cearenses de então, começou a escrever aos 59 anos. Aos sessenta e dois, publicou seu primeiro livro, Os olhos do meu anjo (2008). Uma antologia de contos cujos tramas e enredos são narrados ao sabor  de uma conversa de varanda por um contador de histórias primoroso. Seu estilo, apesar de seguir a tradição de Moreira Campos, Graciliano Ramos e Juarez Barroso, brilha por si só, é uma estrela a mais na constelação de nossos melhores contistas. Por vezes reflexivo, por vezes romântico, sempre bem-humorado, sem necessariamente fazer piada, Raimundo Rocha não abre mão de suas origens, seu texto está radicado na nordestinidade cearense. Por meio dos trejeitos e traquejos de sua gente, seus quereres, haveres e saberes, faz o leitor mergulhar nas sendas dos sentimentos humanos. 
Agora recebo o convite para o lançamento de Mundo: Mundinho - histórias nem sempre imaginadas. Há algum tempo Raimundo Rocha me entregou seus originais para leitura e anotações antes de encaminhá-los à editora. Queria repetir o feito no primeiro livro. Aceitei com prazer a tarefa; li o livro, mas não cumpri o envio de minhas anotações. Quando o texto me pega de primeira, entrego-me ao deleite da leitura apenas. Nesses casos, para garantir leitura mais cirúrgica, deixo as anotações para um segundo olhar.  O tempo, entretanto, me emboscou e raptou-me da segunda leitura do novo livro desse camarada boa praça, um vovozão amado, e um conquistador de novos amigos sem igual. Generoso, não me constrangeu pela minha falta (desculpa-me, amigo!) e ainda me manda carinhoso e-mail com o convite para o lançamento. Obrigado.

O título Mundo: Mundinho remete-nos ao título Grande sertão: veredas, em que do imenso universo do interior mineiro, Guimarães Rosa expressa-lhes as estreitas sendas. Raimundo Rocha reverencia esse clássico da literatura, parafraseando-lhe o título. Em vez de sertão há o mundo, em vez de veredas, o Mundinho, ou seja, do Mundo, ele nos apresenta o olhar, a memória, a intensidade de Raimundo, Raimundinho, Mundinho e confirma a sua radicalidade nordestina, cearense, expressa no primeiro livro. Bem como reafirma seu primoroso estilo. 

De leitura indispensável, Mundo: Mundinho - histórias nem sempre inventadas areja o cenário literário brasileiro.   

___________________
Lançamento do livro Mundo: Mundinho - histórias nem sempre inventadas.
Autor: Raimundo Rocha.
Dia 29 de junho às 19h30min.
No Centro Cultural Oboé,
Rua Maria Tomásia, 531, Aldeota.
Forataleza - Ceará