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quarta-feira, 1 de junho de 2022

Que lunático o quê, terráqueo?! - Reginaldo A. Garça*

Crédito das fotos para Reginaldo A. Garça
 Eclipse lunar

Recentemente uma pessoa próxima me chamou de “lunático”. O engraçado é que foi com a intenção de me xingar de maluco ou algo assim...

Quando ouvi a palavra em questão ser proferida, fui imediatamente invadido por uma sensação inédita, tanto que eu não sabia se iniciava uma discussão mais acalorada, ou se ria do xingamento. Quem pensa em ofender alguém chamando-o de “lunático”?!

Ora! Se foi uma tentativa de me ofender, embora ainda querendo manter certo respeito, para evitar ser taxada de preconceituosa de alguma forma, a pessoa foi até inteligente. O caso é que eu repliquei a palavra mentalmente algumas vezes e depois a verbalizei pausadamente: Lu-ná-ti-co...

Isso deve ter causado algo nela, pois a pessoa ficou calada me olhando, e nesse momento ela devia estar pensando: "Eu o acertei e realmente é um 'lunático' e está se dando conta disso agora, ou vai retrucar com algo bem mais agressivo pra cima de mim."

Comecei, então, a repetir a palavra "lunático". E não parava de pronunciar a palavra “lunático” em voz alta, e cada vez que eu proclamava "lunático", tanto mais ela ficava confusa a ponto de essa confusão ficar mais e mais evidente em seu rosto! 

Deixei a pessoa sozinha, evidentemente sem ela entender muito bem o que havia acontecido comigo. Já em casa, fui rever todas as fotos que fiz da lua, (e aqui devo dizer que não foram poucas). Cada vez que eu as via, me dava conta, aos risos, de como algumas pessoas não sabem xingar.... 

 

O caso é que, depois de rever as fotos da lua, nas mais variadas situações em que ela se apresenta para nós, me voltou a questão de como alguém pode querer xingar o outro de "lunático".

De repente me dei conta de que gramática nunca foi o meu forte, então fui rever o conceito da palavra “lunático” e o Google me disse tratar-se de um “substantivo masculino, Indivíduo que é excêntrico ou maluco" e que, segundo sua etimologia (origem da palavra lunático), provém do "latim lunaticus”.

Essa informação mexeu comigo de forma muito mais profunda, pois a ideia de “xingar” alguém de “lunático” não era algo tão somente ligado a uma inaptidão da pessoa que tinha acabado de me “xingar” de “lunático”. Havia um consenso normativo que induzia as pessoas a fazerem dessa palavra um xingamento.

E aí eu pensei um pouco mais sobre o ocorrido desde o princípio da conversa, e cada vez mais me dava conta de que, diante da atual circunstância, ser chamado de “lunático”, para mim, estava longe de ser um “xingamento”.

Pelo contrário, diante dos fatos atuais vividos aqui no planeta Terra (que eu espero ainda seja redondo e levemente achatado nos polos), concluo que para mim xingamento mesmo, bem ofensivo e traumático, é ser chamado de “terráqueo”.

Então, eu me dei conta de que não havia terminado a discussão. Daí liguei para o meu camarada e, assim que ele atendeu, gritei em seu ouvido, em alto e bom som:

Terráqueooooooooooo!...

Pois eu sou desses, eu reajo!!! 

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*Reginaldo A. GarçaFotógrafo, cinegrafista, produtor cultural, educador e cronista, colaborador aqui do Evoé!

sábado, 7 de dezembro de 2019

Se for assim, eu só sei que vou à luta - por Kelsen Bravos*

a Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Aldir Blanc, João Bosco,
Ariano Suassuna, Zé Dantas, Gonzagão e Gonzaguinha



“Há mais coisas no céu e terra, Horácio,
do que foram sonhadas na tua filosofia”
(There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy)
William Shakespeare, Hamlet


O bom de estar num bate papo com amigos é a falta de compromisso com qualquer coisa a lembrar a mínima formalidade acadêmica. Dispensa-se justificar qualquer argumento com um arrazoado conceitual de uma determinada teoria de base para demonstrar resultados empíricos sobre o tema de responsa em pauta.

Aliás, tema de responsa em um papo com amigos caracteriza-se pela gratuidade. Surge assim de repente da telha de quem nem se sabe quem o propôs. Daí ganha volume e explode em acaloradas afirmações as mais estapafúrdias.

São as mais estapafúrdias afirmações, eu lhes asseguro, todas elas dotadas dos mais densos sentidos, mas seria um rotundo despropósito levá-los a sério num bate papo, pois transformaria uma descontraída conversa em muito grave conflito entre emoção e razão.

Foi, pois, numa dessas conversas estapafúrdias que surgiu o tema para esta nossa hebdomadária crônica. “O homem quando nasce já está predestinado a morrer” e ainda foi-lhe acrescida, em tom pomposo, “entre o céu e a terra existe muito mais coisas que nossa vã filosofia”. Teríamos aqui uma citação de Hamlet, uma peça que permanece viva há mais de quatrocentos anos?!

Fico a imaginar agora o tremendo fracasso que seria Shakespeare se em suas peças fosse explicar com um arrazoado a podridão do poder. Imaginem se ele deixasse prevalecer a formalidade racional do personagem Horácio (que exclama como formidavelmente estranha a presença do fantasma do rei Hamlet) e não a passionalidade do príncipe Hamlet (que diz “se é estranho, então, dê-lhe boas vindas” [pois] “há mais mistérios entre céu e terra, Horácio, do que foram sonhadas na tua filosofia”).

Se em vez disso, fosse Shakespeare tergiversar sobre os mistérios do pós-morte, para justificar a vingança do príncipe Hamlet pela morte de seu pai e punir os corruptos, sua obra prima seria um fracasso, como está correndo risco de sê-lo agora, por enfadonho, este meu texto.

Isto posto, explicitamos como pressuposto único, tácito e universal, para um bate papo com amigos, não duvidar da verdade alheia. Não se deve questionar, por exemplo, - como verdade absoluta! - que o resultado quebrado da soma de dois mais dois seja de fato a origem da teoria terraplanar olaviana. E pronto!

E como esta crônica quer ser um bate papo com amigos, vou me furtar de falar de “O homem quando nasce já está predestinado a morrer”, primeiro porque não há morte. Vide o exemplo de William Shakespeare, o Bardo de Avon está vivo até hoje! Segundo, porque, se há morte, não se sabe nem quando, nem onde, nem como ela se dará, é, pois, também, como tudo no mundo, uma estranha incerteza. E, sendo, estranha, nos resta dar-lhe boas vindas!

Incertezas, é claro, devem ocupar o precioso espaço e tempo em nossas conversas com amigos. Ou vocês acham que o Ariano Suassuna, um mestre na arte de prosear, desprezaria o “eu num sei, eu só sei que foi assim” para explicar o inexplicável, o aquilo que é incerto para as filosofias, para a racionalização estraga-prazer?!

Uma roda de conversas entre amigos, um bate papo, um “diz-que-disse macio que brota dos coqueirais”, como nos cantou o Poetinha, é uma paratopia, uma espécie de Pasárgada, um lugar, ao mesmo tempo, sagrado e profano que para que se institua bastam pelo menos dois iguais se reúnam, como tantos outros iguais, para contar mentiras a fim de suportar a barra da realidade, essa contumaz estraga prazeres.

Ultimamente alguns amigos estão bem criativos nas mentiras que inventam para a gente suportar a barra da vida. Vejam só vocês que pérolas:

O presidente da Fundação Palmares, uma organização social de defesa da política afirmativa da negritude, declara que a escravidão foi benéfica, que Zumbi dos Palmares foi um atraso. Eita que mentira, que lorota boa!

O presidente do país, que diz “margens flácidas” ao cantar Hino Nacional, declara que peixes não se contaminam com óleo tóxico vazado no mar porque são inteligentes e fogem. O seu ministro do meio ambiente concorda e exemplifica. E tem mais, o presidente acusa Leonardo DiCaprio, um ator hollywoodiano, de ser o responsável pelos incêndios na floresta amazônica. Mas são umas lorotas e tanto!

O presidente da Funarte declara que os Beatles eram comunistas, que Althusser escrevia as letras da canção dos “comunistas de Liverpool". Quanta criatividade! Fantástico!!!

Todos eles acreditam que a Terra é plana.

O quê?! Não são mentiras?! Oh, Tupã, se a invasão da realidade ao espaço sacroprofano da conversa com amigos significa um rotundo despropósito contra a catarse das emoções reprimidas pela dura lida da vida, o que se dirá de a delirante catarse fascista ter virado a realidade?

Para tentar sanar a nação de tão surreal situação, vou seguir é o exemplo de Gonzaguinha, e ir com a juventude que não foge da luta a troco de nada, vou é junto do bloco da mocidade que sabe que é negro o coro da gente, e que, apesar dos pesares ainda se orgulha de ser brasileiro, que não está na saudade e por isso luta e constrói a manhã desejada. Evoé!

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, cronista, compositor, poeta, editor do Evoé!
 

sábado, 30 de novembro de 2019

Que lacanagem... - por Kelsen Bravos*

a Freud, Sartre, Lacan, Agepê
aos cantor e compositores da música General da Banda:
  Blecaute, Tancredo Silva, José Alcides e Sátiro de Melo 


Sensação de queda abissal, ou afogamento, ou perseguição, ou mesmo a de - quando se deixa de fumar - perder a respiração por causa da fumaça do cigarro... quem nunca acordou em sobressalto pela madrugada por causa de uma sufocante sensação de angústia? São tantas as formas de o nosso inconsciente nos proporcionar relaxamento. Uma delas é esta de tensionar o sono a ponto de nos acordar movido por estresse e depois, ao tomar ciência da situação, sermos envolvidos por profundo alívio que nos pacifica e nos aninha no sono dos justos.

A ciência afirma que ao dormir toda vez se sonha. O sono e o sonho são objetos das mais diversas análises. Do ponto de vista místico, a literatura cabalística sobre o significado dos sonhos é sem fim. Do ponto de vista científico, na psicanálise, por exemplo, Freud dedica capital importância aos sonhos e conclui que ele realiza desejos. Sartre diz que o homem dorme e sonha para satisfazer os seus desejos e acorda para realizar os seus sonhos. Lacan diz que só acordamos para continuar sonhando.

Acontece que muito pouco lembramos do que sonhamos; mas, a julgar verdadeira a afirmação sartreana, estamos todos, quando em vigília, a realizar o que sonhamos e isso nos dá prazer, alívio e paz de espírito. É, portanto, necessário, imprescindível, dormir, e bem. Mas a considerar Lacan, os devaneios, a fantasia, a angústia da vigília, consciente ou não, é também um sonhar. Então, o desejo de dormir, mais do que a necessidade, é um fator bastante considerável e carregado de sentidos.

Existe, entretanto, quem, embora sinta-se dominado pelo desejo de dormir, não consiga fazê-lo. É o caso daquele ser sombrio para quem o sono e o sonhar há muito não acontecem. Talvez por isso se atole numa ideia fixa, por ter cristalizadas as emoções mais pavorosas, em razão de não aliviá-las nem em sonho, porque não dorme. Acordado, vive seus pesadelos e não relaxa nunca. Vê em todos os desconhecidos uma ameaça, desconfia até dos amigos mais próximos. Vivencia a sufocante angústia acordado, desde o levantar ao amanhecer até a hora de deitar para (tentar) dormir.

Na hora de dormir, confere a arma sob o travesseiro, a outra na mesa de cabeceira e a da cintura. Longe delas não consegue nem deitar. Com elas, pelo menos tenta cochilar; é, porém, em vão. A acidez do estômago, o refluxo, a dor no fígado, o inchaço no pâncreas, a próstata inflamada, a incontinência urinária, a latejante e dolorosa hemorroida não o deixam em paz. Tal situação vem sendo agravada desde a colocação da faixa auriverde tiracolar que transformou um mito em comandante-em-chefe de uma republiqueta.

Vive transtornado por não conseguir dormir. Sonolento nele, só o raciocínio, a inteligência. O resto de si é uma insônia só. Que procure um especialista, recomendam os mais chegados, mas ele não confia em ninguém, vê traição na proposta.

Após incontáveis tentativas, a Menina de Cabelos Longos conseguiu convencê-lo a se tratar - assim chama a sua mulher, inspirado pela música de Agepê, não só por suas religiosas madeixas mas também porque sua presença o faz desejar comer, beber, dormir e não pagar; pois sim, ela o venceu pelo cansaço e fê-lo se consultar com um especialista ligado ao seu líder espiritual, pastor Mequetrefe, e ressaltou que foi indicado pelo Asqueirós, o sabe-tudo, seu homem de confiança.

O tal profissional dizia-se especialista em Lacan; mas era de araque, fazia mesmo era lacanagem. Com o conhecimento que tinha, seria bem capaz de ser convidado a assumir algum ministério do governo. Talvez o da Conversa para Boi Dormir.

Logo na primeira sessão, o especialista levou o paciente a concluir que o seu gostar da música Menina dos Cabelos Longos, de Agepê, não tinha nada a ver com a esposa, mas com o recalque contra nordestinos, nortistas e com a necessidade vital de usar armas.

O fato se deu pela insistência do paciente em deixar claro que só aceitou conversar com ele por causa da Menina de Cabelos Longos e também porque se negou a deitar num divã, preferiu ir para sua alcova, porque lá estavam suas armas fiéis.

Conversa vai, conversa vem, ele pediu que cantasse pelo menos um trecho da música e dela só lembrou de “eu sei que no nordeste tem cabra da peste /e no norte tem faca de corte e calor/ mas vou levar cheio de bala/ um trezoitão [pá-pá-pá-pá] na mala e um ventilador. [Porra!]”.

Daí, revelou a realidade, não era por causa da Menina de Cabelos Longos que gostava da música, mas pelo trezoitão na mala. Em epifânico êxtase, gritou aliviado que era isso aí, era isso mesmo [porra!], era pelo trezoitão, pá-pá-pá-pá! Você é bom mesmo, vai acabar ganhando um ministério [Porra]!

Naquele dia conseguiu mais do que um cochilo, chegou a dormir e sonhar; mas o sono acabou em angústia, viu-se sufocado por alguma coisa que lhe prendia o pescoço e gritava repetidas vezes a palavra “calma” com a letra L bem pronunciada e um som de R no final: “callllmar”...

Ao revelar o sonho de angústia para o especialista em lacanagem, este fez cara de estou entendendo e pronunciou calllmar bem interrogativo. Pediu que repetisse várias vezes tentando imitar a voz do sonho:

Calllma, calama, calama, calamar, CALAMAR! CALAMAR! CALAMAR! CALAMAR!... repetiu a ponto de perder o sentido de tudo ao redor, como em transe hipnótico.

No alto da sua sapiência lacanagemética, o terapeuta perguntou qual era o seu maior medo. E afirmava, você tem um medo colossal. Qual é o seu maior medo? Responda para si mesmo! Admita para si mesmo! Quem estava sufocando você no sonho?

O paciente começou a se contorcer em surto, tentava livrar o pescoço de um aperto, e também tentava livrar a cintura, as pernas, um braço, se contorcia, a coisa que o envolvia parecia ter vários braços. Entrava em desespero ao tentar sem êxito alcançar os trezoitões. Já quase sem ar, num fio de voz, conseguiu falar: calamar, calamar, calamar…

Lula! - exclamou o terapeuta. É uma lula-colossal! Calamar é sinônimo de lula-colossal. Ao ouvir o nome Lula, o paciente adotou posição fetal, foi-se encolhendo, dobrando-se sobre si mesmo até travar, e cair num soluçante choro aliviador. O terapeuta o envolveu e lentamente o trouxe do transe. Estava completamente extenuado e feliz, porque aliviado.

Dormiu profundamente naquela noite. Na sessão seguinte, estava bem tranquilo. Sonhara com a lula-colossal sendo dominada por Moros - o deus da sorte, do destino e da morte, um demônio (daemon), segundo a mitologia grega. Moros me salvou, porra! - exultou em pleno alívio.

Feliz da vida começou a cantarolar a música General da Banda: "Chegou o general da banda, êh-êh... mourão, mourão, vara madura que não cai/mourão, mourão, mourão, cutuca por baixo que ele vai..."

Mas o especialista em lacanagem ao ouvir a música lhe revelou algo muito mais grave, disse-lhe que o nome científico de lula-colossal é Mesonychoteuthis hamiltoni.

A revelação lhe trouxe acidez do estômago, refluxo, dor no fígado, inchaço no pâncreas, próstata inflamada, incontinência urinária e intestinal, seguida de latejante e dolorosa hemorroida, por fim o colocou num surto irreversível, depois de gritar: HAMILTONI?! Porrrrrr...

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, cronista, compositor, poeta, editor do Evoé!

sábado, 23 de novembro de 2019

Pela matriarcal Nação Brasileira - por Kelsen Bravos*



a Luiz Carlos da Vila,
Rildo Hora, Sérgio Cabral (o pai),
à Estação Primeira de Mangueira

A um amigo online num grupo do whatsapp, de chofre, solicitei um mote para minha crônica semanal. Ele me respondeu que lhe pegara de calça curta. Excelente tema, exclamei. Um outro propôs “mais vale milicianos na mão do que uma embaixada nos EUA”. Recuperado, o primeiro emplacou “a valorização da família”. Um terceiro mandou juntar tudo e, sendo o meu coração um condomínio onde sempre cabe mais um, acolhi a todas as propostas.

Agora estou cá nesse engodo e o meu juízo não para de pensar na narrativa dos espetáculos de abertura e de encerramento da Olimpíada do Rio de Janeiro em 2016. Nunca me identifiquei tanto com um discurso. Pareceu-me ver sorrir o tão sonhado dia de graça em que felizes poesias estão a brindar porque o mal foi cortado pela raiz, tal qual nos diz o samba “Por um dia de Graça”, do Luiz Carlos da Vila.

Já na cerimônia de abertura, propôs e praticou a tolerância entre os povos, o respeito a imigrantes. Foi a primeira das Olimpíadas a acolher atletas refugiados. Eles representaram uma nação plural, ecumênica. Fez-se “a porta aberta ao irmão de qualquer chão, de qualquer raça”. O discurso trouxe também a sustentabilidade ambiental com treze mil sementes de duzentas e sete árvores nativas plantadas em tótens ecológicos por todos os integrantes dos 207 países participantes. De cada palma de mão, um palmo de chão recebeu sementes de felicidade que hão de formar a Floresta dos Atletas. O plantio definitivo, porém, por involuções políticas, só começou três anos depois. Antes tarde do que nunca.

Se a abertura afirmou a diversidade cultural brasileira, o encerramento, embora com sofridas restrições do governo golpista à proposta original, foi uma festa da raça brasileira, uma quizomba multicultural. Talvez tenha sido a última realização da Política Cultural desenvolvida no Brasil de 2002 a 2016, quando foi golpeada. Uma festa linda que fez desfilar a diversidade das expressões de todas as regiões da Nação Brasileira. Inesquecível e sem fim, pois sua narrativa ficou em aberto, para sua proposta permanecer eterna.

Em vez de terminar, todos os presentes deram continuidade à festa ao se misturarem a todos os artistas num congraçamento universal. Todo mundo, em estado de graça, caiu na quizomba, em louvação, a sambar. Foi sim um dia de graça. Aquele encerramento não acabou! Ficou aberto feito o fraterno desejo sem fim de meu sorório coração em acolher com irmandade e igualdade, com respeito às diferenças, à diversidade, ao multiculturalismo, à sustentabilidade ambiental, enfim, com o melhor jeito brasileiro de ser.

Na transmissão pelas tevês, a câmera ao subir e abrir o plano para o infinito fez o mundo inteiro ver “o não chorar e o não sofrer se alastrando”, e ouvir ecoar o emocionado canto de todos na harmonia da festa, e entendeu a necessidade de um áureo tempo de Justiça ao raiar a Liberdade. Até hoje, tem gente, feito eu, a festejar. A Nação Brasileira mostrou ao mundo ser possível a Utopia que sonhamos.

Mas, pegos de calças curtas, já vivíamos num país sequestrado pelo mais vil dos golpes que deu força à ascensão do velho novo fascismo. Fascismo sustentado pela falsa moral dos que falam em vão o nome de Deus e se apoiam na força das quadrilhas milicianas, que assassinam no campo e nas cidades, que estão nos mais escusos negócios seja contra a agricultura familiar e pela ascensão da cultura do agroveneno, seja no tráfico de drogas, de minerais, de madeiras, de influências para encobrir o malfeito dos cúmplices e cometer impunemente crimes de lesa-pátria.

Em nome da valorização da família, promovem o discurso preconceituoso, punitivo, excludente, racista como pilares de sustentação da célula social matriz. O núcleo familiar é machista e de expressão misógina. No lugar da Educação, a vazia disciplina, sinônimo da cega obediência, que mata a criatividade e sangra a diversidade. Impõem a arma e a intolerância como política de segurança, saciam a fome da besta da morte, para eliminar a diversidade, o diferente, a igualdade. Usam a pedagogia do medo e se auto proclamam missionários e agentes de Deus a quem todos devem cega obediência e temor.

Ao líder chamam de mito para lhe conferir poderes acima dos mortais. Um mito que está a matar o melhor do Brasil: a Nação Brasileira e toda a beleza de sua diversidade cultural. O poder no planalto central e no sudeste tem sim a expressão de um mito. Mas tão louca e sombria quanto a expressão das pinturas de Goya em que Saturno (Cronos) - por temor que eles lhe tirem o poder - devora os próprios filhos.

Tão louco quanto a imagem do mito Saturno a devorar os próprios filhos é o desmonte dos direitos sociais fundamentais, da cultura, do trabalho, da sanidade do Estado Democrático de Direito, ora em curso no país.

Mais louca do que a alegoria pintada por Goya é a imagem real dos helicópteros do vil Witzel a matar a infância das crianças cariocas, numa tática de terrorismo de estado importada de Israel (que a usa contra as crianças e a cultura palestina), para impor às gerações o medo e assim conquistar a rendição e cristalizar o respeito à cultura opressora. Uma estratégia fascista que há muito desvirtua Israel e está colocada em prática aqui contra a Nação Brasileira.

Aqui, pois, no Brasil o mito tem sua mossad (a temida polícia secreta de Israel). Um poder também secreto, porém, criminoso, miliciano, a quem preserva a todo custo, pois vale muito mais do que uma embaixada nos EUA, porque é quem mata os filhos da pátria que lhe ameaçam o poder.

Tamanha é a insensatez de tudo isso, que às vezes sinto ameaçada a minha crença na humanidade; mas nas minhas discussões com Tupã, me ilumino ao perceber que para separar o joio do trigo precisamos deixar que ambos cresçam e se fortaleçam, pois a separação precoce mataria os dois.

É por isso que mantenho bem vivo em meu espírito o discurso do encerramento da Olimpíada no Brasil e torço para as crianças, feito no samba "Os meninos da Mangueira", de Rildo Hora e Sérgio Cabral (o pai), recebam de presente de Natal, em vez de arminhas, um pandeiro e uma cuíca e corram para organizar uma linda bateria, e que a velha guarda se una aos meninos e que todos, unidos, possamos transformar o passado, o futuro e o presente numa quizomba e que a Nação Brasileira seja definitivamente uma sociedade matriacal, e, como canta Estação Primeira de Mangueira, tenha a cara de Cariri, a sua liberdade tenha a força do Dragão de Aracati e que prevaleçam as vozes das Dandaras, Marias, Mahins, Marielles, Malês. Evoé! 

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, cronista, compositor, poeta, editor do Evoé!

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Odeio mentir - por Kelsen Bravos*



A arte existe porque a vida não basta.
Ferreira Gullar

Além da leitura, um de meus prazeres é escrever. Gosto de crônicas. Para mim é o que seria, para muitos, ver o time do peito vencer um clássico na final do campeonato, ou a escola de samba ganhar mais um carnaval, ou conquistar bonito o festival de quadrilha junina. Algo assim quase tão bom quanto beijar sob luar à erma praia e, depois do silêncio de depois, jogar-se com a amada no mar, já no tudo de novo outra vez…

Nesses tensos dias cheios de construção do nada, sinto a imprescindível necessidade de escrever crônicas, porque pressupõe a leitura atenta do contexto, obriga-me a refletir sobre o estado de coisas e a dialogar com o tempo presente para construir sentidos e, quem sabe, legar um registro ficcional importante para ajudar a interpretar a realidade e, assim, evitar a repetição da iniquidade tão perversa desses dias cheios de nada a legar…

Por estar tão caótico o contexto, resolvi pedir sugestão de temas para facilitar minha necessidade de escrever. Integro vários grupos em mídias de relacionamento. Um dos quais com pessoas de quem fiquei amigo há décadas e que bem recente nos reencontramos. Quando nos conhecemos, éramos muito jovens, passamos poucas e boas juntos. As dificuldades, que não foram poucas, nos uniram. Superamos todas elas e aprendemos muito com isso.

Quase quarenta anos depois, já com um pé no clube dos sessentões, senhores profissionalmente bem sucedidos, alguns com solar brilho no olhar ao exibir a netalhada... Pois lhes digo que o reencontro trouxe aquela juventude de volta, alguns reeditam a mesma imaturidade ao se provocarem e se debaterem numa discussão com argumentos que - num sei não viu? - causam risos até neles mesmos, até porque é isto sim o que querem: voltar a ser meninos.

A mesa do bar em que nos encontramos é um portal que nos transporta para eutopia de nossa velha juventude. Na evolução de lá para cá, histórias mil cada um tem para contar. Todas elas importantes. Acontecimentos felizes outros não. Dramáticos, trágicos, feios e cheios de beleza, tudo assim junto e misturado, porque falamos de vida e vida de verdade não é novela.

Sou professor e trabalho pela emancipação social por meio da Cultura, notadamente, pela arte, a arte literária, a leitura e a escrita e sei que cada pessoa tem sua trajetória e a trajetória de cada ser é milenar a se considerar toda a ascendência, a ancestralidade de cada uma. A essa história milenar que trazemos no DNA chamamos dignidade. Eu tenho uma tremenda consideração por essas trajetórias. Ferir uma sequer significa desrespeitar a dignidade de todos. Adoro gente! Amo essa diversidade de veredas e amplos caminhos unidos que compõem a história da humanidade.

As trajetórias de meus amigos são diversas, os pensamentos também, há polarizações ideológicas. A maioria defende a satisfação de interesses mais imediatos. Têm uma visão pragmática um tanto quanto deturpada, pois, uma vez satisfeito o imediatismo, não importam as consequências subjacentes. Outros defendem a evolução e o aprimoramento das garantias de um estado de bem-estar social.

Gosto de lhes ouvir os argumentos; gosto mais ainda das histórias bem despretensiosas. Daí resolvi dentre os muito grupos a que integro nas redes sociais eleger o desses meus bons amigos de quem tanto gosto para me sugerirem motes para escrever a bendita crônica semanal. Esta é a terceira, à primeira um amigo sugeriu “cuspiu no prato”. A segunda o mesmo amigo mandou o tema “peixe inteligente”. Para esta, ele resolveu não propor para dar vez aos demais.

Acontece que ninguém sugeriu um mote sequer. Acessei o grupo e perguntei. Um deles me disse ter até medo ou receio (sim receio e não medo) de propor. Fiquei intrigado. Que será que será que aconteceu nas crônicas anteriores?! Tentei entabular uma conversa esclarecedora, mas recebi a reticente resposta de que eu precisaria ler nas entrelinhas, decifrar metáforas… Estaria meu bom amigo a me aplicar um “je ne sais quoi” verissimoniano?! Não cri e descartei tal possibilidade.

Propus pensarmos para que serve a arte e por que ela é tão odiamada. Ele respondeu que não sabia dizer; mas ela é imprescindível. Falei que minhas crônicas são apenas alegorias, que a arte imita a vida, que são ficcionais, que existe um contrato tácito entre autor e leitor de aceitarmos um mundo paralelo para entender o real. Por fim citei Gullar para o meu bom amigo: “a arte existe porque a vida não basta”. E, parodiando o poeta maranhense, falei que não escrevo para temer (ou recear), mas para livrar do temor (ou do receio).

Depois dessa conversa com o meu bom amigo, ficou-me renitente a questão da ficção e da realidade nesse contexto de pós-verdade em que qualquer história manipulada por interesses políticos, por mais absurda que seja, acaba considerada real, verdadeira, porque nem mais contestada é. Estamos imersos no reino do consumismo, onde impera o descartável e, no que deveria ser o campo das ideias, foge-se da verticalização das coisas. Os argumentos têm profundidade pireslesca. A leveza do pensar foi corrompida. O pior sentido da leveza do pensamento, o senso crítico zero, é soberano. Daí quanto mais rápida e fútil a comunicação, mais ela é cegamente viralizada. Qualquer imbecil vira “influencer”, sobretudo, se contar com uma legião de robôs. Então o tal “influencer”, segundo o apólogo de Trilussa, cresce em importância quanto mais são os zeros a segui-lo - e a viralizá-lo.

Nesse contexto absurdo, abcego e abmudo, o tal contrato discursivo entre autor e leitor sobre o mundo do faz de conta se liquefaz e evapora. Tudo no universo da pós-verdade é incontestável. Cochilei com essa frase retinindo em meu juízo. Acordei em sobressalto delirante, o fim do compromisso com a verdade trará o caos. A fusão entre ficção e realidade transformará em verdadeira a história do Coringa - agora com muita fidelidade difundida no cinema - haverá a supremacia anarquista, a pós-verdade vai parir o pós-caos, as peças da Dragonauta vão virar cantigas de ninar.

Para espairecer fui à vendinha do bairro, o Mercadinho Seu Luís. Lá histórias reais e divertidas lorotas são contadas à moda antiga. Peixe, pesa aí essas bananas para mim. Já que peso, Peixe. - respondeu com desânimo. Todos lá se tratam assim, peixe pra lá, peixe pra cá. Acho que por influência do filho policial do dono da venda. Eu prefiro chamar as pessoas pelo nome.

O Seu Luís, meu bom vizinho, é um figura simpática. Ninguém, porém, é perfeito. Eleitor do gozo Bozo, está depressivo. Sua antes sortida venda está de mal a pior. Os credores cada vez mais agressivos. Ele me olhou profundamente e me disse que hoje em dia ninguém respeita mais ninguém, que a situação não está boa, fez uma pausa longa: "do jeito que o senhor me avisou na época da eleição". Tive vontade de dizer: Peixe, procura o Sebrae; mas, penalizado, só consegui lhe falar que vai melhorar…

Odeio mentir.
 
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*Kelsen Bravos
- professor, escritor, cronista, compositor, poeta, editor do Evoé! 

sábado, 2 de novembro de 2019

Cuspiu no prato e na própria existência - por Kelsen Bravos*

Foi surpreendido com a definitiva viagem em que partiu na primeira estrela da manhã e nem era aquela a sua estrela guia. Demorou para cair na real. Até tomar consciência da nova situação, viveu a ilusão de sua vidinha cotidiana; para ele, vida de rei, tal qual a do poderoso leão alfa da savana africana. Sim, um poderoso rei leão! Era assim que se sentia e vivia tal ilusão, com ares aristocráticos, para amenizar sua dura rotina semanal.

Na realidade, seus hábitos eram simples, achava-se um generoso patrão, embora explorasse o trabalhador e de tudo fizesse para instituir de forma consuetudinária o logro da mais-valia, que as leis trabalhistas não o deixavam obter. Leis, aliás, para ele, antiquíssimas e desonestas com quem investia e movia a economia do país, pois quase não lhe deixavam opções contra os direitos dos trabalhadores (para que direito maior do que o de estar empregado?! E ele, a realeza, gerava empregos!). Essas leis trabalhistas lhe sonegavam os lucros! Sentia-se injustiçado! Pior, sentia-se perseguido pelas leis e pelos impostos! Passou a cometer uma série de contravenções fiscais e financeiras para potencializar cada vez mais o seu império. Ouvia a voz da própria consciência em reprovação: você virou um serial lawbreaker! Não tinha mais paz!

Daí desenvolveu uma mania de perseguição, um medo de ser lesado, pânico de ser descoberto, indiciado e condenado. O caso descambou de vez quando começou a ver em todos, e, sobretudo, nos plebeus - assim ele denominava os demais cidadãos; pois sim passou a ver em todos um inimigo, uma iminente ameaça capaz de cometer um latrocínio contra ele e os seus. Por tudo isso vivia em surto.

Não foi, portanto, à toa que se regozijou com as propostas de um candidato a presidente da república que confessava aos gritos que sim, sonegava mesmo! Que ia acabar com os impostos! Que ia liberar armas para os cidadãos de bem (ou de bens). Que bandido bom é bandido morto. Que vai matar “uns trinta mil e daí, porra?!” Que ia acabar com a mamata dos povos indígenas, dos quilombolas, dos LGBTs, das escolas com ideologia, com a presença de pobre na universidade, com aposentadoria, com a Amazônia. Devastaria a porra das árvores e, onde havia floresta, para salvar o país, incentivaria a mineração, exploraria o nióbio! A identificação foi tanta que se encantou e somou-se ao coro de “mito, mito, mito” em favor do candidato Messias B que, fazendo arminhas com as duas mãos, vociferava “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos!”

Fascinado, nem reparou que o nome Messias B significa falso Messias; o lado B do Messias. É o contrário do Messias. Essa marca do mal estava explícita nas bravatas do candidato. Até no lema de campanha, o candidato pronunciava em vão o nome de Deus. De nada adiantava alertá-lo, até porque ao constatar que o guru do Messias B era o mesmo astrólogo que
numa entrevista lhe proporcionara a revelação profissional, perdeu de vez o senso crítico. Vivia a repetir que Olavo, o mesmo “gênio” que lhe iluminou o caminho, era o guru do Messias B.

Na entrevista, o guru dissera que o melhor negócio do novo milênio seria investir em impressoras 3 D. Ele vislumbrou a oportunidade e com determinação desprezou tudo que até então houvera conquistado e virou empresário da área gráfica. Claro que não tinha capital para investir em impressoras 3 D; mas, decidido, iniciou com uma pequena empresa. Beneficiou-se de todos os programas de incentivo a microempreendedores e a pequenas empresas criados pelo governo de Luís Inácio Lula da Silva. Não só dos incentivos, mas também das circunstâncias favoráveis do mercado criadas pelas excelentes relações internacionais geradas pelo governo petista.

De microempreendedor tornou-se um bem sucedido pequeno empresário; mas já se considerava um leão alfa da savana africana, tal qual o mascote do seu time de futebol do coração. Logo logo esqueceu dos compromissos com os programas de incentivo, desprezou tudo quanto era ético e passou a burlar todas as leis, as mesmas que lhe asseguraram o sucesso. Passou a cuspir no prato que comia. Que ingrato! E só para viver uma vida fingida como se fosse real.

A vida real e a fingida cada vez mais se misturavam. A sua situação lembrava a dimensão do poema Autopsicografia em que Pessoa diz que o poeta finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Aos domingos, pois, a realeza gostava de se fingir plebeu para
tão completamente misturado a eles degustar feito um gourmet a mais popular das paneladas do mercado público. Virou um hábito sagrado. E foi exatamente no ciclo dominical da centésima septuagésima primeira semana após a inesperada e definitiva partida na primeira estrela da manhã, que nem era a sua estrela guia, que aconteceu o fato que o fez começar a tomar consciência de estar na erraticidade.

Essa tomada de consciência, esse momento epifânico se deu no mercado público, depois de insistir no pedido da desejada panelada. Era em vão, pois lhe ignoravam. Quando pareceu ser atendido, sentou-se à mesa em frente a um dos habitués dominicais feito ele. Tentou entabular uma conversa, mas o outro não largava o celular, fotografou o prato enviou a foto, seguida de uma mensagem de áudio que não deu para ouvir direito. Achou que a atenção que dera ao outro o distraiu a ponto de agora o prato que era seu estar sendo devorado por um estranho. Que insolência!!!

Indignado tentou cuspir no prato alheio. Não conseguiu cuspir. Insistiu em vão. Isso lhe deu um estranhamento. Começou a ouvir vozes em ladainha. O que as vozes diziam, pareceram-lhe vagamente familiar: E agora? Já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode… Tapou os ouvidos em vão; não conseguia se tocar… a luz apagou..., o povo sumiu, olhou para o lado, o mercado sumira, ... sozinho no escuro… tentou gritar, tentou gemer, tentou acordar, mas percebeu que não dormia… fechou os olhos e a imagem de sua amada suplicante apareceu em sua mente. Concentrou-se nela, viu que estava em uma alcova, de camisola, segurava uma cueca sua.

Ele meneou a cabeça e abriu os olhos. Estava num quarto estranho em cuja parede um cartaz informava: “Centro Espírita Prazeres do Além: Viúvas, passem momentos de prazer com seus falecidos maridos. Importante trazer uma cueca do defunto”.

A ficha caiu, quando viu alguém vestido com sua cueca, a beijar sua amada que sofregamente correspondia… Ao tentar falar, ouviu a ladainha… está sem mulher, está sem discurso, está sem carinhotudo acabou, tudo fugiu, tudo mofouE agora... 

Sentiu uma lancinante agonia e foi abduzido dali por um pé de vento que aumentou o vozerio em ladainha … e agora, você? ... que é sem nome, que zomba dos outrose agora

JOSÉ! Gritou ele, ao lembrar do poema de Drummond que fora obrigado a ler na escola. O tempo ficou estático. Mas José, sem parar de marchar, sempre seguido pelo rei Leão, respondeu que sim era ele… E-eu… eu morri?!... Não há morte… você cuspiu na existência que consumiu… vai ficar a vagar na erraticidade… a não ser que esclareça alguém para não cometer o mesmo erro que você…

Dito o que era para ser dito, José seguiu marchando ninguém sabe para onde. E ele, o rei leão, estava de volta ao mercado, chegou bem na hora em que o habitué da panelada gravava mais uma mensagem de áudio: “E aí, Memé, você tá vindo?”... Daí entendeu sua missão para sair da erraticidade e começou a lhe soprar ao ouvido: “Sebrae, procure o Sebrae…”

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, cronista, compositor, poeta, editor do Evoé! 

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

UM HOMEM DE CIÊNCIA - Epitácio Macário*

(Em memória do meu pai, Seu Raimundo Macário)


Episódio 1: a fama

I.

Desde que retornara do Maranhão, acompanhado da mulher e dos dez filhos, as histórias se multiplicavam a respeito de suas habilidades.

Já no meio da estrada, enquanto o pau-de-arara era consertado, as mulheres faziam o rancho debaixo das ingazeiras e as crianças brincavam de esconde-esconde na mata, ele criava fama junto aos homens, exímio que era na arte de confabular. Viajado, narrava com desenvoltura o cotidiano dos nordestinos que se amontoavam nas favelas lamacentas do Rio e de São Paulo, para onde iam fugindo da cerca, da seca e da fome. 

Dotado de perspicácia e de memória invejáveis, logo fez-se notar como leitor de mão, repetindo ao pé da letra os causos contados na espontaneidade da viagem e ardilosamente sistematizados em sua imaginação. Seguia um método lógico: ouvia as conversas, estabelecia algumas premissas pela oitiva dos pedaços de vida e daí deduzia todo o resto. Coisa simples para um atento observador da conduta humana.

A convicção traía-se, porém, no sorriso que escorregava no canto da boca ao cruzar o olhar com sua mulher que, de cenho franzido, reprovava sua atitude, ao mesmo tempo em que admirava a sua capacidade de deter a atenção dos pareceres. “Mais cedo ou mais tarde isto atrairia encrenca”, pensava ela. 

De fato, era o que viria a ocorrer na pracinha de uma pequena cidade maranhense, ao se apearem para o almoço. Um valentão irritou-se com a revelação dos segredos de sua jovem namorada e desafiou-o. Com a mão direita no cabo do facão, o vaqueiro estendeu-lhe a esquerda e sentenciou: “leia! Se errar...” A reticência reteve a respiração dos que se haviam aglomerado na roda. 

Sem tempo, Seu Raimundo Vitor, nascido Raimundo Macário, fitou os olhos do homem e enxergou a maldade que lhe cobria a alma. O braço estendido exibia rastros de lâminas e a camisa entreaberta deixava expostas as cicatrizes herdadas de um passado fácil de adivinhar. Então, antes da terceira expiração, pronunciou em tom firme: “não posso revelar seus feitos, caro amigo, pois não quero testemunhar em tribunal”, falou e virou de lado rumo aos dois polícias que chegavam para desmanchar a desavença. Olhando o chão, o homem foi saindo de fininho. 

Todos respiraram aliviados e a mulher fitou o céu num gesto de agradecimento.

II.

Apearam-se em São Benedito, para uma visita aos parentes, e o velho carro seguiu para o sertão, conduzindo passageiros e as histórias que presenciaram. Dois meses depois, Seu Raimundo, mulher e filhos completariam a viagem, chegando à localidade de Barra Nova, nas terras de Tamboril. Instalaram-se numa velha casa fora do povoado. 

Além das batalhas contra os percevejos (barbeiros) que infestavam as paredes de taipa, do trabalho árduo para fazer safra, alimentar e vestir mulher e filhos, tinha de desmanchar a fama que lhe imputavam. Cumpria acordo feito com a mulher que durante as sessenta noites no frio da Serra Grande relembrou a angústia daquele momento vivido na cidadezinha maranhense. Além do mais, lembrava ela: “os meninos estão crescendo; precisam de bom exemplo”. 

Mas, sabe como são boatos... Em Barra Nova eles só aumentaram.

III.

Contava-se de uma vez que ele enfrentou um bando de ciganos, portentosos no armamento, exuberantes no físico, montando possantes cavalos negros. Ao todo, eram mais de trezentas cabeças entre homens, mulheres e crianças que foram recepcionados no terreiro, a pé, porque, estranhamente, os animais estancaram no aceiro em linha tão reta que pareciam hipnotizados. Às esporadas na barriga, às chicotadas e aos gritos de “eia!” os corcéis negros reagiam em relinchos, ofegos e patas levantadas… mas nenhum passo à frente. 

Dizia-se que ele travara um duelo encarniçado com o líder daquela gente, fazendo-o rodopiar três vezes depois de cochichar em seu ouvido, ler algumas passagens num velho livro de capa preta gasta e apontar-lhe um sarrafo de jucá. Por um instante, é o que se popularizou, formou-se uma nuvem negra, ofuscando os olhares, inclusive deste narrador que era ainda muito criança. Depois, o que se seguiu foi uma reverência do ancião líder daquela gente que ordenava a montaria. Saíram em tropel, deixando marcas fundas das ferraduras na estrada de piçarra e uma densa poeira que encheu o desolado fim de tarde sertanejo.

Mesmo sem saber ao certo se ele trabalhava na linha preta ou na linha branca, todos aprovaram sua ação. Ora, duas vezes por ano - diziam no povoado - aquela gente passava pelo lugarejo, uma subindo para o Ipu e a outra descendo para Canindé, e deixavam uma subtração na miunça, nas latas de feijão, milho e arroz. “Bem feito! Rabos de burro!" – era o que dizia o povo da comunidade em silêncios, gestos e palavras. 

Em verdade, em verdade, eu vos digo, pelo tanto que lembro e presenciei, que o grupo não passava de trinta, em andrajos, puxando mulas sonolentas, exibindo tatuagens em pelancas, esquálidos. É bem possível que ele tenha declamado algum verso apreendido de oitiva, usado d’algum palavreado dos rituais de exorcismo de Padrinho Zé Bruno de Codó no Maranhão, ou utilizado alguma jinga impressionante, pois tinha longa experiência como magarefe nas festas de reisados. Mas sem dúvida, um olhar profundo, entre inocente e destemido, e algumas palavras escolhidas para o momento foram lançados naquele duelo. Isto ele sabia fazer como ninguém! 

Se tenho, pois, a certeza do que vi e aqui afirmo, sinto-me na obrigação, todavia, de advertir sobre as dúvidas que carrego há exatos 49 anos. Turvada por aquela poeira e pelo tempo está hoje minha lembrança, e os senões avolumam-se. Pois do que mais lembro – e já não posso garantir se de testemunho ou de oitiva – é dos cavalos paralisados em linha reta; ainda sinto o cheiro forte que exalavam, de suores e resfôlegos. E os rodopios do cigano velho sem que Seu Raimundo Vitor lhe tocasse um dedo?...


Além do mais, quem não se lembra daquela tarde de domingo, quando as mulheres já se enfileiravam na vereda da cacimba para fazer o asseio, trazer as cabaças cheias, empoarem-se e irem para o culto? Ninguém ali jamais esquecera, tampouco este narrador, aquele entardecer quando o sol é engolido pela torre de nuvens em cor chumbo e um vermelhidão se espraia a oeste, enquanto avoantes penetram o azul infinito dos céus. Sim, era um lusco-fusco enternecedor e morno no sertão dos Inhamuns, que fora interrompido abruptamente. 

Pois, quase hora do Ângelo, os devotos se arregimentavam em torno do rádio para o canto da Ave-Maria, quando se ouviu a gritaria da dezena e meia de filhos de Bibiano, organizados ao redor da panela de baião de dois. Dona Júlia, a mãe da família, surtou; apanhou uma faca e desembestou na carreira jurando suicidar-se.

Ele vinha dobrando o canto da cerca, montando seu jumento de cela, seguido por sua mulher e uma fileira de filhos, inclusive este narrador. Apeou-se e logo juntou-se a dúzia e meia de voluntários que entraram na mata para resgatar a mulher. Encontraram a coitada há dois quilômetros, encostada num pé de angico, delirando e com a faca em punho.

O primeiro a pronunciar-se foi Zé Mariquinha, cunhado dela por parte de marido, conhecido pela voz sonora de timbre grave. Esbravejou e em tom imperioso ordenou-a que largasse a faca. Ela respondeu com um olhar faiscante, a mão trêmula, os cabelos esfiapados, os lábios franzidos, uma espuma descia no canto da boca... Foi suficiente para fazê-lo calar e retroceder dois ou três passos, aumentando a distância de vinte metros, e acomodar-se atrás da touceira de mufumbo. 

O marido mantinha uma conduta entre indeciso e culpado, enquanto duas mulheres rezavam, choravam e se abraçavam. 

Foi então que Seu Raimundo Vitor afastou os homens com um gesto de mão, chamou as duas mulheres e foi tomando chegada. 

A uns cinco metros, os três acocoraram-se e ele começou a conversar com a suicida. Falou dos filhos que tinha e, certamente lembrando a variedade de condutas, riu sozinho. Contou causos curtos do cotidiano da comunidade, pronunciou sete vezes o nome do caçula dela – “ainda tão criança!”, “uma vida em germinação!”, exclamava – enquanto se aproximava. Quando a alcançou, ela já estava completamente desarmada e banhada em lágrimas.

Nada mais que isto fizera. Mas todos os que lá estavam, e principalmente os que não estavam, juraram que o ouviram proferir uma oração em língua desconhecida e viram mesmo o momento em que expulsara um espírito sujo do corpo de Dona Júlia. 

Este narrador é testemunha do esforço que ele fizera para desmanchar os boatos. Mas, na quadragésima vez em que teve de explicar o que acontecera, sapecou sua costumeira ironia: “morei no Maranhão por doze anos. Vi os rituais de exorcismo de Padrinho Zé Bruno de Codó. Eu não estava brincando, caro amigo!”. 

Desde então, sua fama deixou o campo do boato e cristalizou-se no imaginário daquele povo.

Doravante, passou a ser assediado por apostadores no bicho e na loteria, por pessoas enfermas e homens desconfiados de suas mulheres. Foi, também, muito procurado pelas moças noivas e velhos da comunidade que queriam saber como o INPS iria julgar seus processos de aposentadoria. Até caçadores, de indômita coragem, consultavam-no sobre caiporas e visagens que residem na mata densa.

E foi assim que Seu Raimundo Vitor, seresteiro, gritador de leilão, imbatível colhedor de arroz, brincante de reisado e contador de histórias passou a ser conhecido, também, como um homem de ciência.

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*Epitácio Macário - Educador com doutorado, mestrado (ambos pela UFC) e graduação em Pedagogia. Professor do Mestrado Acadêmico Serviço Social, Trabalho e Questão Social (MASS/UECE,  - instituição onde se graduou). Declara com convicção em seu perfil no FaceBook: "Sou professor por opção e por concurso público. Modo de vida não universalizável é frescura de rico." Autor de Estações (clique no título do livro para acessar o eBook), publicado em 2016 cheio de prazerosas crônicas e contos. 


Nota do editor do Evoé!

A literatura de Epitácio Macário (Mac) reverbera em sintonia com genial narrativa de um Ubaldo Ribeiro; mas sem o sarcasmo do autor de O albatroz azul. No lugar do sarcasmo, a narrativa de Mac envolve amor, muito amor à gente da qual descende a profunda Nação Brasileira. Ele nos universaliza os iguais.

Parabéns, amigo Epitário Macário, e obrigado pela honra de nos conceder autorização para publicar aqui "Um homem de ciência". Evoé! (KB)

quarta-feira, 7 de março de 2018

Dádivas - Chico Araujo*

Não, não era todo dia, pois os tempos pós-modernos não permitiam mais. Mas não poucas vezes acordou antes de todos e mesmo se levantou antes de todos e entre o sono no cedo da manhã, o cansaço ainda aceso do dia anterior e o desejo simples de apenas fazer, preparava o café matutino para aqueles que acordariam e se levantariam depois.

Quando a mediana fartura acontecia, de frutas batia no liquidificador a vitamina, ou na jarra providenciava o suco da preferência; ainda punha ovos à fritura, ou mesmo os fazia mexidos; também esquentava pães e coava o café que logo depois permaneceria quente na garrafa.

Nada pedia em troca. Apenas fazia.

Ia, então, ao encontro de cada um e os abençoava, os acarinhava, os beijava, deseja a todos um dia bom, tranquilo, pacífico, abençoado mesmo. Depois passava a pensar em si, no seu trabalho, no seu dia que também merecia ser abençoado, pacífico. Mas parece que saía de casa mais leve, mais inteira, mais disposta ao enfrentamento dos desafios a virem, certamente.

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Percebia, há alguns tempo, que algumas moedas lhe sumiam do bolso, que algumas cédulas lhe desapareciam da carteira. E achava estranho...

De primeiro, começou a se perguntar se não estava a fazer confusão com esses sumiços: - Será que não gastei mesmo e não me lembro? Que foi mesmo que comprei ontem? E com essas perguntas – sem respostas efetivas – ia se angustiando, se martirizando. Era-lhe muito doloroso faltarem-lhe as respostas desejadas.

Mas os dias passavam... Os sumiços acontecendo...

Foi numa manhã, após o banho e antes do café, que se chegou, muito sério e certamente triste, ao filho:

- Gostaria que me devolvesse a cédula que me tirou da carteira.

- Senhor?

- Você sabe. Você tirou uma cédula hoje da minha carteira enquanto eu tomava banho. Preciso que me devolva.

Cabeça baixa, entre a vergonha e o medo, o filho retirou a nota guardada no bolso da calça e a entregou ao pai. E então chorou. O pai ainda aguentou firme.

- Agora quero que me diga por que vem me tirando dinheiro. E quero que me diga a verdade.

Após alguns soluços pelo choro, o garoto conseguiu falar:

- Tem um menino lá na escola, na minha sala, que ele é muito pobre. Ele sai de casa sem comer nada, nem toma café da manhã. Eu levo o dinheiro pra gente merendar, porque nem todo dia tem merenda na escola. Aí eu pago merenda pra mim e pra ele.

O pai ainda aguentou firme e não derramou ali suas lágrimas – de tristeza e de medo. Olhando firme para o filho, com firmeza disse:

- A sua razão é nobre, o seu ato é pobre. Quando a gente pega algo de alguém sem a devida permissão, estamos roubando dessa pessoa o que para ela pode ser muito necessário. O dinheiro aqui em casa é pouco; eu ganho pouco e sua mãe também. Do pouquinho meu e do pouquinho dela fazemos de tudo para que nada falte a você e seus irmãos. O que você tirar de mim vai fazer falta a nós todos, a mim, a sua mãe, a seus irmãos. Você está roubando de todos nós e até de você, mesmo que por um momento tenha o dinheiro tirado só pra você mesmo e praquilo que considera importante.

A palavra "roubando" estourou na cabeça da criança com força e um choro menos controlado e muito mais soluçado se revelou. Foi uma arrebentação de represa. Muito triste, o pai, ainda em controle, disse:

- O que quero agora é que me prometa que nunca mais, mas nunca mais mesmo, fará isso de novo, nem comigo nem com mais ninguém.

- Prometo, papai.

- Esse dinheiro que ia levar hoje eu não posso lhe dar. Ele vai servir pra pagar uma conta na mercearia. Se por acaso não tiver merenda escolar hoje, você e seu amigo precisarão controlar a fome, pelo menos até chegar a hora do almoço.

- Tá certo, papai.

- Outra coisa: de hoje em diante, quando estiver precisando de dinheiro ou de qualquer outra coisa que não dependa somente de você, mas de mim, da sua mãe, dos seus irmãos ou de quem quer que seja, você vai "pedir", dizer qual a sua necessidade e "pedir". É assim que deve ser. O que não é nosso, para passar a ser nosso, tem que ser pedido, ou comprado com dinheiro honesto. Entendido?

- Sim, papai.

- Agora vá tomar seu café da manhã pra depois ir pra aula.

O garoto saiu em silêncio, cabisbaixo, triste, desconsertado mesmo, humilhado por sua própria ação. Comeu meio sem vontade, tentando entender porque não foi castigado por seu pai. Merecia uma surra bem dada. Mas não. O pai o pegou em flagrante e não o castigou. Como pode isso?

O filho não conseguia entender porque não houve castigo. A mãe, ali na cozinha, perto dele, sabia de tudo, já, mas não dizia nada. O pai decidira que era ele quem deveria falar com aquela criança. A mãe entendeu e aceitou. Permaneceu calada, triste também, muito triste e preocupada, mas atendeu ao desejo do marido e ficou calada. Mas dava para sentir o pesado ar circulando em torno de todos.

O filho tomou a benção à mãe quando saía para a escola.

- Deus o abençoe, meu filho, Deus o abençoe, livre e guarde das coisas ruins dessa vida – fez essa invocação sem que o menino visse as lágrimas escorrendo de seus olhos.

Estava já próximo ao portão, quando ouviu a voz do pai (que em dia normal teria saído mais cedo. Naquela manhã, precisou isolar-se um pouco no quarto, talvez para meditar sobre sua preocupação, quem sabe para deixar cair alguma lágrima pela aflição sentida):

- Filho, Deus o abençoe. Deus guie seus passos. Tenha boas aulas e aprenda, filho, aprenda tudo o que puder de bom, na escola e na vida.

O menino, enfim, seguiu para a escola, passos pesados no chão das ruas. Ainda levaria algum tempo para entender o que de fato acontecera naquela manhã; mas a lição recebida nunca se apagaria de sua memória e ele poderia aprender, a partir dela, como seria o restante de sua vida.

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Os tempos atuais são de velocidade e, certamente por isso, costuma-se, nas correrias diárias, não se perceber muito do que precisa ser observado. As pessoas, por exemplo, precisam ser observadas e, mais que isso, vistas.

Ele observa; por isso, vê. Não é hábito adquirido recentemente, mas herança pela formação, evidenciada a partir do pai e da mãe. Assimilou. Incorporou. Põe em prática.

Então foi comum levantar-se do banco do ônibus para ceder o assento a um senhor já com idade bem além da sua. Foi natural recolher do chão os livros do estudante, caídos da mão deste, quando em descida do coletivo. Nada extraordinário abrir a porta e dar passagem aos colegas que chegavam ao trabalho no mesmo momento que ele. Tampouco lhe caberia na esquisitice esperar que as pessoas saíssem de dentro do elevador para ele entrar.

Talvez não seja difícil reconhecer sua principal característica. Basta acompanhá-lo, por alguns dias, pois também afirmar a característica de alguém não deve ser de improviso, por uma primeira visão, ou mesmo uma visão rápida, superficial. Estar com ele, porém, pari passu, em trajetórias cotidianas, pode nos conceder visão adequada de qualidades suas.

Então não causou surpresa vê-lo abrir mão de seu lugar na fila do almoço em favor de pessoas com mais idade; também não acarretou estranheza quando se determinou ajudar colega em trabalho que já fizera tempos antes, mas que agora estava sob a responsabilidade do outro, ainda às voltas com a necessidade de compreensão para realizá-lo a contento.

Apenas é assim, apesar dos dias atuais.
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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Dádivas" foi escrito entre 18 e 27/02/2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

CEMITÉRIO, CATEDRAL E CASTRO E SILVA - Túlio Monteiro*

Eu, com a velha mania de flanar pelas ruas e avenidas dessa Cidade do Sol, um dia me deparei com a Castro e Silva, rua singela no centro de Fortaleza que mal conta com oito ou dez quarteirões. Cismado que sou em ler as placas das ruas, me veio a vontade de saber qual a história daquela. Confesso que não obtive muitas informações históricas além das quais muitos já sabem: os Castro e Silva são de uma linhagem nobre do estado do Ceará com origens em Portugal, como quase todos nós e que Castro nada mais significa que uma cividade (substantivo feminino antigo de cidade) ou citânia sendo um castro de maiores dimensões e importância, habitado continuamente. A designação "citânia" é comparada com o Cytian dos povoados fortificados nas ilhas Britânicas, ou seja, os castros ainda que em ruínas estão quase invariavelmente localizados no topo de montes que eram defesas naturais e permitam o controle tático dos campos em redor. Estes montes tinham sempre fontes pequenas ribeiras onde n´aqueles mais desprovidos de água eram construídos reservatórios pelas populações, provavelmente para resistir aos cercos medievais.

Mas, voltemos à nossa Castro e Silva cearense e a curiosidade que a mesma nos reserva enquanto rua pequena de nossa capital. E desta vez não tive que recorrer aos meus alfarrábios ou sistemas de comunicação de grande porte. Apenas a mente foi utilizada nesta que vos escrevo para as palavras que a em si tomaram o curso do projeto de Kelsen Bravos, de fazermos com ele e o Chico Araújo um Abecedário de Crônicas..

Em conversa com Bernardo Monteiro, meu pai, certo dia ele me perguntou: Quem é que nasce no cemitério e morre na catedral? Eu era apenas um moleque de dez ou dois anos quando afirmei não saber a resposta e ele foi instantâneo em dizer de que não se tratava apenas de uma simples adivinhação. Que eu procurasse a resposta, pois logo mais à noite, depois de um dia de labuta, ele iria buscar a resposta.

Olhemos bem para a época de tal pergunta e retornemos breves para nossas linhas. Não havia ainda a tal da internet nem tampouco o mundo era digital. Tudo ficava na ponta de um lápis em escrita fundamental do que se ia comentar. Foi então que tive a ideia de ir até à casa de meu tio Francisco Pereira da Silva pesquisar em seus grossos volumes da enciclopédia Delta-Larousse para tentar entender algo mais de uma rua que levava nome de gente. Sim! Digo levar gente para um nome de rua porque há cerca de 100 anos o poder público de Fortaleza teimou em numerar as ruas da cidade, bobagem que não demorou muito para ser reconhecida e voltou a estrutura à qual estamos acostumados a nos locomover.

Mas, para findarmos a estrutura desse “mistério” levantado por meu pai, retornemos à pergunta que origina o “C” dessa crônica: Quem é que nasce no cemitério e morre na catedral? Foi só à boca da noite que meu pai chegou de volta que me perguntou se eu havia evoluído no meu raciocínio sobre a referida pergunta, tendo por resposta minha algumas das palavras que vos escrevi anteriormente.

A resposta que tive do criador de meus dias foi simples e objetiva: quem nasce no cemitério e morre na catedral nada mais é que a rua Castro e Silva. Ponto! Isso porque, explicou-me meu velho, ela tem mão única no trânsito, iniciando-se no cemitério São João Batista, vindo por findar, em frente à Catedral Metropolitana de Fortaleza, sendo ela, talvez, a única a ter essa formação geográfica no Mundo todo.

Ficamos, então, com mais uma informação da nossa Fortaleza, tão pouca na memória de nosso povo. Um grande abraço e até o “D”.

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*Túlio Monteiro - Escritor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Boemia, Benfica, Belchior, Bienal - Kelsen Bravos*

Era o nono setembro da primeira década deste milênio. Gosto muito de setembro. Inaugura os bê-erre-ó-brós do ano; mas ainda tem a brisa amena de fim de inverno, algo parecido com o fim de outono e início da primavera no resto do mundo; não aqui, pois, no nosso Ceará, de modo amplo, há duas estações apenas, os nove meses de sol e os três meses de chuva. Se a quadra das águas é boa, o clima agradável permanece forte em agosto e vai até meados de setembro. Fortaleza fica, então, um paraíso.

Caminhar à beira-mar, nos fins de tarde até o chegar da noite, nesses agosto e setembro, proporciona sensação inesquecível de tão boa, fica fazendo parte da gente. Alguns só vão saber disso quando, bem longe daqui, derem por falta de alguma coisa em si mesmo. Vão ficar numa agonia de um num sei quê, até perceberem que a razão desse aperreio tem a ver com a falta em si da maresia aspergida pelo vento leste e o quebrar das ondas durante a caminhada na praia, sob o sol ameno das dezesseis até o sol-posto, com direito à água de coco geladinha, adoçada pelo contraste das gotas salgadas das brumas de espumas dos verdes mares bravios da terra natal.

O pôr do sol nos abduz e depois nos devolve a nós mesmos bem melhores. Uma experiência e tanto. Ela se potencializa, multiplica-se, torna-se plural, caso se esteja em muito boa companhia; e, se acontecer aquele hum-hum-hum-hum-hum... da canção Terral de Ednardo, ... aí tudo fica eterno.

Pois nesse nono setembro deste milênio, as meninas da Confraria do Café, nome de uma ação cultural - um bate-papo - que ocorria no espaço do café da extinta Livraria Lua Nova, me convidaram para falar de Boemia. Um profano sagrado tema para mim. Topei na hora.

Lembro delas avexadas com a pré-produção, se eu ia precisar disso e daquilo ou se num seria bem assim, seria assado. Eu lhes dizia sempre a mesma coisa: levarei uns textos, uns livros e o espírito boêmio. Levarei boêmios.

Acredito na simplicidade das coisas e na intensidade dos diálogos, mediados pela poesia. Queriam porque queriam saber do conteúdo e se o dito ia ser feito. Disse-lhes a mesma coisa, aliás, acrescentei um não sei. Quais os recursos vai usar? Gente. - eu respondia.

Ficavam num bem-humorado mas... num reticente ãh?!, num "Oi, como assim?!" de hoje (engraçado, hoje, até as falas, as expressões, os mungangos são carimbados, tudo igual de norte a sul do país golpeado...) A expectativa delas me deixou curioso. Lindas todas elas, cada uma a seu jeito; mas "cúmplices". O que estariam a preparar?

Chegou o dia, tive de abreviar minha caminhada boêmia à beira-mar. Rumei, sem me deixar abduzir pelo sol-posto, para um dos mais boêmios bairros de Fortaleza, o Benfica, mais precisamente o sonhado e boêmio PCdoB - Polo Cultural do Benfica, nosso Parnaso.

Quando entrei no Café que ficava no pavimento superior da Livraria Lua Nova, encontrei um cenário, segundo elas, boêmio. Capas dos discos do Waldick Soriano e congêneres, vitrolas com os vinis a tocar. Umas meninas com violões sentadas no chão e garrafas de bebida ao lado... elas caricaturaram como ninguém a boemia e os boêmios. A trilha sonora trazia Garçom, de Reginaldo Rossi. Era assim a interpretação delas da boemia; mas, me informaram, o convidado ilustre era eu, queriam me ouvir. Eu como convidado adorei tudo aquilo, dialogar é muito bom. Estava ali para isso.

Daí depois de chegar, sentar, ser apresentado, quis saber: Quem for boêmio ou boêmia, por favor levanta o braço. Fosse uma votação, a boemia estaria eleita por aclamação. Ao final do encontro, fiz a mesma pergunta, o número de adeptos reduziu bastante.

Falei que estávamos em um belo lugar boêmio, pois o lugar da boemia é onde o boêmio está. Costumo dizer que boemia é epifania que se constitui na gente. Ela está, portanto, em todos lugares e em lugar nenhum.

 Pedi que entendessem por boêmios aqueles que são contestadores, que têm o afã da liberdade, a emoção não lhes cabe em si, estão sempre - por mais que contidos - a transbordar de tristeza, de alegria, de inconformismo. Idealistas, por isso desconcertados do padrão. Daí a avidez com que vivem. Uma gente que por não caber em si reverbera arte e contestação em forma de poesia, música, dança, pintura, teatro, manifestos, política, enfim, na melhor acepção da palavra.

Por conta da intensa profusão de ideias, decorrentes dos infinitos questionamentos, não conseguem dormir, não cabem em si e buscam os encontros, buscam a noite, têm sede - uma imensa sede! - não a de vinho, mas de justiça, de liberdade. Daí a rebeldia, não aquela sem causa, mas a consequente rebeldia de, por exemplo, fazer o Polo Cultural do Benfica ser uma realidade, liberdade em expressão e expressão de liberdade.

Não podemos confundir boemia com a banalização da busca de satisfação, coordenada por interesses consumistas, seja de moda, de jeito igual de falar, de entorpecentes ou quaisquer drogas. Uma geração inteira a sublimar a insatisfação saciando os instintos, passando de homem a lobisomem e de lobisomem a lobo de si mesmo e da humanidade. A quem interessa uma juventude bêbada, sem causa, sem rumo?

Os boêmios somos resilientes, somos da estirpe que ficou de fora da Arca de Noé, mas tamanho é o nosso apego à Vida que chegamos a nado. Se por vezes um de nós esteve na segurança da Arca, enfrentou a sua imposição contra a livre expressão e a liberdade de ser, questionou a limitação de comportamento, a total anulação da idiossincrasia, pulou de volta ao revolto mar para viver todos os riscos das braçadas libertas.

Liberdade! Essa utopia nos move e cobra caro, mas sem lutar por ela melhor nem existir. Falei isso e falei que em vez da bebedeira melhor se embriagar de uma causa social, em vez de brincar de sofrência, melhor pisar no quente asfalto do dia a dia, em vez de fazer arte sem vivência, melhor viver o Cântigo Negro de José Régio, melhor ainda se alucinar e delirar com as experiências das coisas reais, como nos ensinou Belchior, se jogar no dilúvio da vida com toda coragem e medo.

Então li Vinícius, Antônio Maria, Airton Monte, citei Alfonsina Storni, Noel, Vessillo Monte, Lira Neto, Karlo Kardozo (ali presente), Ricardo Guilherme, Linda Dias, Ítalo Castelar, Baudelaire, Carlos Emílio Corrêa Lima, Fernanda Meireles, fosse hoje incluiria Vander Lee, Alexandre Lucas, Efigênia Alves, Inês Pinheiro Cardoso, Ivânia Maia, Everthon Damasceno, Telma Pacheco, Evaldo Lima, Sílvia Moura, Ricardo Kelmer, Lidiane Moura, Raquel Gadelha, Paulo Maranhão, Andrea Vasconcelos, Gláucia Lima, Gero Camilo, Cláudio Ivo, Lúcio Ricardo, Cleudene Aragão, Fabiano Piúba, Mileide Flores, Lourival Veras, Karla Gomes, Klévisson Viana, Marcus Rocha, Ellis Mário, Teddy Williams, Adriana Calaça, Almir e Júlia, Elias, Mara Monteiro, Marcos Renato Silva, Zé Bocca, Benita Prieto, Rosana Mont'Alverne, Elvira Nadai, Ruby Araújo, Nina Simone, Régis Freitas, Tino Freitas, Nelson Augusto, Túlio Monteiro, Chico Araujo... o tempo era pouco.

A energia presente na Confraria "Boêmia" do Café estava muito boa e intensa. Por fim, refiz a pergunta sobre quem ali era de fato boêmio. Uns disseram que o jeito deles era mais feliz. Aquiesci, pensando nos versos de Vinícius no Samba da Bênção. Muitas e muitos o eram sim, o brilho no olhar não negava. Preferiram, entretanto, ficar silentes ou responder que não, mas foi só da boca pra fora. Adorei isso, estavam já se levando bem mais a sério.

Incitei a todos e a todas a ampliarem esse papo, a replicarem a Confraria do Café, uma ação tão linda e numa livraria! Um clube de leitura. Conceito que defendo desde sempre e objetivamente desde 2002 como política pública. A Confraria do Café hiberna; mas os clubes de leitura estão espalhados Ceará adentro como espaço de promoção da leitura e convivência literária.

Na 12ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, da qual fui curador com Lira Neto e Cleudene Aragão, o Café Literário e a Fortaleza Boêmia, respectivamente, sob a tutela de Alan Mendonça, e Carlos Macêdo e Márcio Porto, foram um exemplar espaço boêmio. O Espaço Fortaleza Boêmia fez uma citação do Cais Bar - um dos muito redutos boêmios de Fortaleza que se desmancharam no ar, como o Cirandinha, o Estoril, a Estudantina (esta merece uma crônica à parte). Evocamos esses espaços na Bienal pela sensibilidade imensa de Fabiano Piúba e Mileide Flores, gestores de grande espírito público.

Não só o Café Literário e a Fortaleza Boêmia, a 12ª Bienal Internacional do Livro do Ceará inteira foi sim, por ser espaço de promoção do Livro, Leitura e Literatura e de convivência literária, um evento boêmio!, um imenso Clube de Leitura e muito mais. Sua arquitetura integrou Praça do Cordel, Mestres e Mestras da Cultura, Café Literário, Fortaleza Boêmia e Natércia Campos à feira de livros. Nossa proposta era oferecer modelos de espaços de convivência e fruição literária a serem replicados pós-bienal.

Até agora e por ora, estamos a cumprir a missão de dar exemplo de resiliência boêmia e convocar todos a unir forças por uma sociedade mais democrática, justa, amorosa e de respeito à Vida. Fico feliz porque, hoje, vemos eventos literários em espaços públicos e privados. Leitura e lançamento de livros, rodas de conversa, saraus literomusicais a ocuparem praças, a desligarem televisões em bares e proporcionar conversas estimuladas pela arte. É o que anda fazendo, a despeito disso, o Ricardo Kelmer. É o que anda fazendo, a despeito disso, Nelson Augusto. É o que faz, Inês Pinheiro Cardoso, com o seu Leituras na Praça, Ivânia Maia, nos Quintais, Andreia Vasconcelos, no Circo, Klévisson Viana, Lucarocas e o povo do Cordel, Alexandre Lucas, na Comunidade do Gesso em Juazeiro, Efigênia Alves em Jaguaribe, Paulo e Toinha Araújo em Lisieux e Sobral, com Iracema Sampaio, Adriana Mesquita, Andrea e Taffa, é o que faz Célia Monteiro, Isabel Nogueira, Noélia Melo em Tamboril... É o que faz e incentiva Lílian Martins, em seu programa de rádio. É o que precisamos fazer em toda a periferia de Fortaleza e em todas as cidades do Ceará. Temos gestores da Cultura Boêmios! Oxalá já seja prenúncio de novo tempo da delicadeza. Evoé!

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Kelsen Bravos - professor, escritor, poeta, compositor, editor do Evoé!