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sexta-feira, 23 de novembro de 2018





O PRIMEIRO CARRO DE FORTALEZA: MEMÓRIAS DE UM AUTOMÓVEL

Saímos aos pinotes, com uma barulheira infernal e soltando rolos de fumaça pelo pontiagudo calçamento da antiga Fortaleza. Quase púnhamos as tripas pela boca. As janelas enchiam-se de gente curiosa. Grupos formavam-se às esquinas. Corriam pessoas de toda parte. De repente, em frente ao Clube Iracema, o carro empacou, enguiçado, bufando. Rafael não lhe deu jeito. John Bernard sujou-se todo e nada conseguiu. Fui até à Praça do Livramento e arranjei, com um velhote que vendia água, dois jumentos que puxaram o automóvel até a garagem, com uns moleques que gritavam atrás: “Moço, me dá um tostão pra ajudar a empurrar”. (Gustavo Barroso).



Recordo que custei a polpuda quantia de 8:000$000 (oito contos de Réis). Mesmo sendo de segunda mão, fui importado dos Estados Unidos da América, em 1909, pelos senhores Meton de Alencar e Júlio Pinto, respectivamente sogro e genro, donos que eram da Empresa Auto Transporte Ltda.
A viagem no vapor de nome “Cearense” se deu sem nenhum alarde, tendo durado cerca de quinze longos dias entre maresias, sargaços e oxidações. Cheguei silencioso e sem funcionar adequadamente. Vinha eu para fazer história e nem sabia, pois iria trafegar de maneira um tanto precária, mas garbosa pelas únicas três avenidas de Fortaleza, onde não havia sinalizações e o que mais se via circular por elas eram bondes puxados a burros. Eram elas as Avenidas do Imperador, Dom Manoel e Duque de Caxias.
Relembro que meu trajeto entre a Alfândega, onde aportou o cargueiro “Cearense”, até às portas do Cassino Cearense (Cine Júlio Pinto), situado à Rua Major Facundo, número 64, se deu de maneira inusitada, uma vez que, sem funcionar, tive que ser rebocado por um jumento. E como somente minha estridente buzina funcionava juntamente aos meus faroletes, a população de então cismou porque cismou que eu era um veículo mal-assombrado.
Necessários foram vários dias até destrincharem o meu funcionamento. Depois de inúmeras tentativas, o dinamarquês John Petter Bernard e o Dr. Meireles conseguiram pôr-me em funcionamento. Entretanto, mal percorridos alguns metros dei a estancar, empacando de vez na Rua Formosa, bem em frente ao Clube Iracema, hoje sede da Secretaria de Finanças. Novo jumento e novo reboque até à frente do Cassino Cearense.
Como minhas andanças chamavam muita a atenção dos menos avisados, passaram a me testar durante a madrugada, onde quase sempre “dava o prego”, sendo necessário um desmancho quase que total, isso porque meu motor situava-se embaixo da lataria. A coisa era tão séria que em certa feita num desses desmontes lá pelas bandas da estrada de Messejana perderam a tampa do radiador. Fazer o quê se não havia loja de peças de reposição? A saída encontrada por Júlio Pinto foi, no mínimo, inusitada: anunciou nos jornais e outros periódicos da época que gratificaria generosamente quem encontrasse a tal tampa. O fato por si só gerou curiosidade da galhofa cearense e uma série de pessoas passou a procurar pela bendita, estrada de Messejana afora. Porém, como ninguém sabia a forma nem o tamanho da mesma, de tudo foi trazido às retinas incrédulas de Júlio Pinto e Meton de Alencar, sendo a mais curiosa delas um camburão de zinco totalmente enferrujado. Na encontrada a danada em questão, Peter Bernard improvisou uma. Ou seja, já se faziam, àquela época, as famosas gambiarras tão comuns nos dias de hoje.
E por tantos ajustes passei que praticamente fiquei irreconhecível. De tanto rodar pelas toscas ruas de uma Fortaleza descalça de asfalto, meus pneus se desgastaram. Também, não era para menos: até nos trilhos dos bondes me puseram a circular, tudo isso porque as bitolas dos mesmos eram exatamente iguais às de minhas rodas.
Resultado: nova troca e novas gambiarras. Sem pneus sobressalentes, os de borracha foram substituídos por rodas de madeira com aros de ferro, o que devidamente não foi bem aceito pelos transeuntes de então. Porém, continuei rodando nada incólume, diga-se de passagem. Mas se engana quem crê que percorri apenas as ruas daquela velha e saudosa Fortaleza. Não! Além de ir até Messejana, estrada do Arronches e seus arrabaldes, fui até Canindé durante suas tradicionais festas religiosas. Entretanto, é preciso esclarecer que semelhante viagem de mais de 100 quilômetros foi feita de maneira paulatina. Onde primeiro fui de trem até a cidade de Itapiúna e dali em diante por uma estrada carroçal.
Circulei, pois, por anos a fio. Sendo protagonista também do primeiro acidente automobilístico da cidade. Em uma barbeiragem, Rafael Dias Marques, na tentativa de desviar de transeunte, deu de frente com um muro, deixando apenas prejuízos materiais.












[1] RAMBLER: Em livre tradução do russo significa guerreiro ilustre. O Rambler 1909 – primeiro carro a possuir roda sobressalente – fabricado pela empresa americana Thomas Jeffery & Company.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Poesia na Bagagem: o cancioneiro do esteta Carlos Gildemar Pontes - TÚLIO MONTEIRO*

livro
PARTE 1


DAS COISAS DE UMA ANTOLOGIA



Antes de identificarmos o conceito de antologia poética, torna-se necessário desmembrar o termo em si. Original e etimologicamente falando, o conceito de antologia provem do grego anthos, onde seu significado seria “coleção de flores”. Algo assim bem diferente no que se refere ao termo em relação à poesia.

Contudo, a palavra originada do grego tem um importante recurso em seu significado: a palavra “coleção”. Ou seja, do ponto vista artístico literário, antologia seria um conjunto, uma coleção formada a partir de diversas obras, diversos livros, diversas criações. Onde o ponto estético nada mais é que explorar uma mesma temática de uma mesma autoria ou de um determinado período. Centrando forças em uma raiz similar em todas as produções de uma determinada coleção, ou melhor, coletânea. Ou como diz Adriano Espínola: “há, em uma antologia, uma variedade de tons que oscila da indignação à ironia, da gravidade à leveza, da alegria à tristeza. Tudo urdido com naturalidade e maestria”.

Atentando para uma linha do tempo, Meleágro, um jovem poeta grego foi um dos primeiros executores do que se tem hoje como antologia poética, onde, àquela época, as sentenças definiam os poetas de então como “silvas”, “florilégios” ou colecionadores de “flores”. Estranho, não?! Por certo. Entretanto, a partir do século18 nossa aludida locução passou a ter sentido de “coleção”.

E é exatamente na área da botânica que o termo “antologia” começa a derivar a palavra coleção. Isso porque, nesta área científica, a sentença remete a uma “coleção” de flores, violetas...acácias. Senão, vejamos o Hai-Cai que segue e é de autoria do escritor Carlos Gildemar Pontes, poeta de obra singular que será mais aprofundadamente analisado ao decorrer do presente estudo literário:



HAI CAI

No vaso partido
As flores perdem as cores
Perdem o sentido.



No que abrange a Literatura, uma antologia literária, em prosa ou verso, é formada a partir de uma coleção de textos escolhidos a esmero, seja por um determinado autor ou crítico literário, sendo essa obra organizada em um volume único ou posteriormente em novos tomos. Os poemas ou contos escolhidos se comportam em uma temática comum, remetendo-se a um determinado autor ou período histórico; onde um exemplo bastante seguido na atualidade está na junção de poemas, contos ou crônicas temporais para formatar um determinado apanhado de trabalhos literários. Em um passado próximo, Carlos Drummond de Andrade nos presenteou com um sem número de antologias quer de sua autoria ou da lavra de outros poetas seus contemporâneos. Já na atualidade temos um Luiz Fernando Veríssimo como exponencial que é reconhecido por seus muitos livros de antologias.

Apesar das inúmeras coletâneas de contos e crônicas existentes, é na poesia que as antologias se proliferam com voracidade ímpar. Selecionado, como já dissemos, por um determinado autor ou estudioso da Literatura, elas seguem um critério arbitral e individual. Uma antologia poética, no entanto, também pode apresentar uma coletânea de autores e não somente os poemas de um só. Para que essa junção se dê, basta que ele ou eles abordem uma temática comum ou relativas a um mesmo período de produção. Um exemplo clássico a ser dado são os dos movimentos literários ocorridos através de determinadas gerações. Leiam-se Romantismo, Simbolismo, Realismo e Concretismo para citarmos apenas alguns. A seguir, um exemplo de versos Concretistas do poeta Carlos Gildemar Pontes:

SERTANEJO



No gozo de tuas mãos sangrentas
Calejadas de enxada
E apertadas pela fome
Faz desabar
                 na terra
                            toda pancada
                                               derivada
                                                           de
                                                             emoção.
Nas
      ruas
             pisadas

Nos campos sorvidos
                                 está a sepultura
                                                        do
                                                           teu
                                                               suor.

Apesar de ser chamada de antologia mesmo sem haver comentários do compilador, o trabalho fica mais completo se ele o fizer, de forma a contextualizar os textos, classificando-os de acordo com seu gênero ou tema, e defender suas opções de escolha – isso pode ser feito, inclusive, em um prefácio, notas ou comentários que antecedam cada parte da antologia selecionada. Senão, vejamos o que diz o escritor e ensaísta Adriano Espínola na quarta de capa da coletânea Poesia na bagagem, do escritor e professor cearense Carlos Gildemar Pontes:

Em boa hora, Carlos Gildemar Pontes reúne seus melhores poemas neste volume denominado Poesia na bagagem. De pronto, o que percebemos é a variedade rítmica, formal e temática dos textos. O poeta aqui vai do haicai ao poema longo e confessional; dos versos rimados aos brancos; do enfoque social ao íntimo; da natureza à feitura do próprio poema. Também há, nesta antologia, uma variedade de tons, que oscila da indignação à ironia, da gravidade à leveza, da alegria à tristeza. Tudo urdido com naturalidade e maestria.



Mas para que servem as antologias além de guardarem em seus bojos imprescindíveis e caras informações sobre determinado autor, autores ou épocas? Simples: eles servem para abrigar os textos mais importantes de determinadas gerações de pensadores, de estetas...de sonhadores!

Para esse fim e para o fim pedagógico, as antologias despontam de árduos trabalhos de pesquisa para se tornarem eternas. Além disso, são importantes para orientar corretamente as análises de obras de determinado escritor caso ele tenha produzido muitas obras, ou exista uma carência com relação ao tempo disponível para estudá-lo.

Apesar de suas vantagens, acredita-se que as antologias possam ser um obstáculo à leitura completa dos textos literários, ou seja, estudam-se as antologias, mas não se busca conhecer a obra integralmente. É importante, por isso, que os estudantes de Literatura que usam antologias para se posicionar quanto a um determinado autor ou estilo literário, não ignorem as obras por completo, e as respeitem. Pode-se dizer que, vista dessa forma, a antologia servirá como um guia para o leitor chegar até a obra integral. 


PARTE 2


POESIA NA BAGAGEM: O CANCIONEIRO DO ESTETA CARLOS GILDEMAR PONTES


A poesia é a síntese do Absoluto. Parte indissolúvel da sua beleza. E o Absoluto é o todo, a completude, o elo das somas, o grau e a integridade da perfeição. Mas, como a poesia pode ser síntese de algo acabado, se o conceito de absoluto não está pronto, neste nível de compreensão das formas e das subjetividades? Simples, a poesia é o caminho da inteligibilidade do cosmos. É a harmonia em movimento, uma passagem que permite seres, como nós, atingirem o além da compreensão conceitual no nosso atual estágio de permanência, nesta evolução. CARLOS GILDEMAR PONTES

E eis que veio à luz nesse 2018 de intempéries, Poesia na bagagem, do escritor, poeta e ensaísta Carlos Gildemar Pontes. Nada mais salutar que poesia para os dias sombrios que o Brasil assiste, atônito, com seus habitantes a não crerem que o retrocesso que está acontecendo é verdadeiro, real e nada saudável. Ministérios serão extintos e a Cultura – prima pobre dos podres poderes – ficará à míngua, a mendigar, porta em porta, livros, filmes, peças teatrais e afins. Sorte a nossa termos seres especiais como Gildemar, que luta com unhas, dentes e golpes de artes marciais – sim! Além de poeta o homem é faixa preta de karatê –, para que osversoslivres ou metrificados não percam a ternura jamais.

Acompanho a escrita do nosso poeta desde os tempos de acadêmico do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará, quanto em 1984 ele lançou Lesco-lesco, a lida cotidiana. Recordo da estreia de Gildemar com um certo carinho e saudade, visto que eu contava apenas 19 anos de idade e era recém-chegado ao Bosque de Letras do Benfica. O lançamento, que na verdade não existiu de fato, pois à época e como eu ele ainda era um iniciante na feitura e costura da poesia, foi, no mínimo, diferente. Em tempos de “filipetas” e portas de banheiro ou de salas de aula, Gildemar saiu Bosque afora a escrever à base de pincel atômico a frase: “você sabe o que é lesco-lesco?”. Se chocou ou agiu de maneira interpelativa em outros pares não sei. No entanto, por onde quer que eu caminhasse, fosse indo às salas de aula, fosse nos banheiros, lá estava a pergunta a me rodear. Não teve jeito, corri ao velho “Aurélio” para saber o que diabos significa o termo em questão. Simples assim: trabalho pesado e diário; a dura faina de todos os dias para uns, ou ato sexual para os mais afoitos. Ri-me como ainda rio. Com vocês Lesco-lesco:


LESCO-LESCO

Qualquer coisa
Todo dia
Lesco-Lesco
Quem diria!

Qualquer coisa
Monstruosa
Lesco-Lesco
Em verso e prosa.

Qualquer coisa
Enigmática
Lesco-Lesco
Na gramática.

Qualquer coisa
Faz sentido
Lesco-Lesco
Meu amigo.

Toda coisa
Qualquer
Lesco-Lesco
Toda Poesia.

Como bom poema, este acima não especifica o todo pelas partes, deixando ao nobre ledor a análise dos versos em questão.

E Carlos Gildemar Pontes foi amadurecendo sua poesia como fruta saborosa tirada do pé. Como os bons vinhos, sua estética foi se afiando com o passar dos anos, fazendo-o nos brindar com um sem número de versos, uns mais bem acabados que os outros. Poeta de mão cheia e boa tessitura, Gildemar passeia pela Última Flor do Lácio com maestria ímpar. Quer seja no campo da metrificação e escansão, quer seja o da versificação livre.

De sua pena afiada brotam pérolas como “Noite”, poesia com a qual o crítico literário Adriano Espínola em tom de sabedoria pura disse ao Gildemar que com ela ele iria até o fim do mundo. Senão, vejamos:


NOITE

eu sou a noite
canto no ouvido dos bêbados
choro no berço dos mortos
racho cabeças inocentes
eu sou noite

sou escura e cruel
sou fria e de aluguel
sou as ruas e os becos

e também os homens secos
eu noite
mordo a língua dos culpados
cuspo sangue nos mercados

cato migalhas, mesmo assim
bordo fios de cetim
noite, água a escorrer nas coxias
afogando estrelas em precipício

levando a tormenta dos sonhos
lavando a bagana dos vícios
a noite não dorme


mas adormece os loucos
os homens são poucos
são apenas sombras

sou eu a noite
e varro os vultos medonhos
transformo meninas em feras

e como-as durante as eras
sou eu a mãe das corujas
das velhas por trás das janelas
dos gatos ligados calados

nos ratos coitados tão sujos
sou hoje e amanhã serei também
depois e além
planejo as notícias do dia

sou triste sou alegria
folia amante dos boêmios
alimento dos poeta que plantei

madrugada vivo a vagar
nos palácios ou nos covis
nas cantigas de ninar
nos alentos infantis

eu sou a noite
a conspiração dos detentos
a armadilha dos sonolentos
a tentação.

E Carlos Gildemar Pontes, leitor insaciável no dizer da professora Albetânia Bezerra Alves, caminha por seu Poesia na bagagem, nos servindo uma antologia que parece não ter fim tamanha é a qualidade de seu apanhado. Seguindo-se ao Lesco-lesco, a lida cotidiana, ele nos apresenta sua criação nas décadas posteriores, onde trouxe à vida Metafísica das partes, 1991; O olhar de Narciso, 1995. Livros nos quais já podemos notar um amadurecimento maior no tocante ao fabricar de versos, coisa típica dos homens de Letras.


Basta-nos notar o tom mais severo com que Gildemar trata de sua escrita, buscando e rebuscando a palavra mais correta e amiúde na construção de seu fazer literário. Coisa que ele executa com maestria na poesia carro-chefe de Metafísica das partes, de 1991:


METAFÍSICA DAS PARTES
parte considerável de nós
traz inúmera solidão desde menino
partes de nós ficaram pelo caminho
parte de nós uma nau errante
partes do coração distante

parte considerável de nós segue firme
partes se dissipam sem destino
parte das partes não voltará
partes da parte que fica seguirão

uma das partes nada sabe
outra parte nada teme
uma não tem leme

uma outra tem uma solução
outra uma imensidão
parte do coração errante

parte considerável de nós
se aquieta se aprofunda
partes se confundem

de todas as partes repartidas
nos perdemos
de todas as partes que ficaram

nós sonhamos
à parte olhamos parados
para partes que partem
deixando partes de nós
partidas.

Eis um Gildemar centrado e concentrado naquilo que sai de seus punhos marciais. Poesia engajada com a vida e a política social do Mundo e do País. Algo assim jovial, porém eterno. Sentimento puro ante à sequidão das fogueiras e arrabaldes da vida. Poesia tem que ser viva, nunca antes ou dantes morta. Poesia, vida e Arte maior. Compromissos que nenhum poeta que se preze pode deixar de carregar em seu saco de matalotagens, pois o poeta brasileiro, assim como os nordestinos, é antes de tudo um forte.

Saúdo, então, o meu amigo Carlos Gildemar Pontes, por quem tenho orgulho de cativar a sinceridade de poder escrever o que bem me venha à telha, certo de seu crivo será essencial sempre. Saúdo, pois, Poesia na bagagem, valentemente publicado pela carioca Editora Gramma, lamentando apenas que a tiragem de 500 exemplares seja tão curta ante o preciosismo poético que carrega o livro em questão. O livro possui 300 páginas de um navegar ora por mares tranquilos, ora por mares de sargaços e bravios. Despeço-me, assim, com a poesia “Capitão-de-mar-e-rua”:
 
CAPITÃO-DE- MAR-E-RUA
cubro-me com o vento da noite
e só, durmo sob do vento o açoite
sonho com o amanhã em cama de neve

para fugir das torturas que me pousam leves
ó se o meu deus soubesse onde estou agora
me faria do alimento satisfeito

me faria sonolento do meu leito
que espero ter, antes da boa hora
mas aqui desta sarjeta, pobre e sujo

cubro-me com o manto da noite escura
e acordo com a fome, nobre amiga
esperando que ela não mais me persiga
bem queria esta no mar, ser um marujo
cair da proa e guardar no mar as amarguras.

_____________
Túlio Monteiro - scritor, crítico literário e um apaixonado por Literatura. Fortaleza, terra de Iracema e Moacir. Novembro de 2018.




segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Das coisas da poesia cearense: Mário da Silveira – um breve texto em primeira pessoa - por Túlio Monteiro*




A riqueza de um homem.

Quando encontraram Mário da Silveira
na mortalha de suas vestimentas,
notaram que o jovem poeta,
coroado de rosas e de espinhos,
carregava consigo um de seus sonetos,
e eu, ao lê-lo, hoje,
noto que ele morreu ricamente,
tendo poesia sobre seu peito!




Tomo I

Permitam-me apresentar-me: Sou Mário da Silveira, poeta, trovador, boa gente e, sem desvelo, um boa praça gentil com as mulheres e sensível ao toque dos aromas femininos.

Nasci em Fortaleza, capital do Ceará aos dezessete de setembro de 1899, filho de Raimundo da Silveira Gomes e dona Teodolinda Matos da Silveira. Estudei no Colégio Nossa Senhora do Carmo e Instituto de Humanidades, onde fui alvo do suave vício pelas letras clássicas, o que me tornou um precoce no que se refere ao erudito. Tanto é que, mal completados dezesseis anos, publiquei pela Tipografia dos Irmãos Jatahy o livro No Silêncio da Noite: fragmentos.

Em 1919, proferi na Casa de Juvenal Galeno a conferência A Eterna Emotividade Helênica, que me tornaria conhecido em Fortaleza bem como no Rio de Janeiro, onde em breve passagem pela então capital do País, trabalhei como secretário do escritor João do Rio no Jornal A Pátria, onde cativei em forma de amizade as companhias de Ronald de Carvalho e Raul de Leoni que, à época, idealizavam o que viria a ser a Semana de Arte Moderna.

Mas, voltando à conferência na Casa de Juvenal Galeno, que foi prestigiada por um sem número de pessoas, decantei o período Helênico em seus três principais critérios bem aos moldes de um Fernando Pessoa. Onde o primeiro deles aplica-se ao conjunto da vida, no qual a temos por imperfeita por nos parecer que ela vem a falecer naquilo mesmo por que se definem, ou seja, naquilo mesmo que parece que deveria ser. Sendo assim, todo corpo é imperfeito e toda a vida é imperfeita porque dura, mas não dura para sempre. Já em relação ao prazer físico há outra imperfeição porque o envelhece o cansaço. Quem sente desta maneira a imperfeição da vida e quem assim se compara a ela própria, tem neste ideal de perfeição o Ideal Helênico, assim designado pelos gregos antigos, o povo que mais distintivamente o praticou, deixando-o como herança maior às civilizações pósteras.

Como segundo critério, destilei aos presentes a vida imperfeita no tocante à deficiência quantitativa de sua essência, quando a considero inferior a qualquer coisa ou princípio, no qual, em relação a ela, resida a superioridade dos deuses. Sendo esta inferioridade essencial no relevante ao corpo humano e seu prazer sexual. Sendo ele vil e terreno, morre e com ele também se vai o prazer dos chacras, uma vez que a juventude se esvai como fumo leve: foge, mas porque a vida seja breve, há sempre um dia a mais para quem ama. Murcha a beleza que vemos porque cresce na haste temporal. Pois só Deus e Alma que Ele criou e a Ele se assemelha são, perante à ótica do Cristianismo, a forma ideal de existência.

Crendo que havia me feito entender até o presente momento da minha explanação, findei a palestra com o terceiro Ideal helênico, que aborda a vida por imperfeita por a julgarmos, enquanto seres humanos passíveis da morte eminente, nos deixamos levar pela suprema negação de que a vida é uma absoluta imperfeição. E é deste conceito de imperfeição que nasce a forma do ideal que nos é mais familiarmente conhecida como budismo, que trata da vida como um mero substrato metafísico.

Mergulhado em meu ego um tanto elevado ante meus dezenove anos de idade, rio-me por dentro ao captar rostos estupefados diante do que ouviam. Estava eu tratando e gerenciando uma palestra sobre ideais gregos na capital cearense. Algo assim sobre a civilização helênica que foi, essencialmente, uma civilização artística que, de certa forma, negligenciou o lado prático da vida, coisa que, confesso, também me atingiu em cheio, uma vez que nunca parei quieto em um emprego sequer que fosse, doando-me, incontingente, aos versos e ao farfalhar das saias das donzelas alencarinas. Pois fazer arte é querer tornar o Mundo mais belo, isso porque a obra de arte, uma vez gerada, constitui-se em beleza objetiva e que sempre deve ser acrescentada àquelas que existem na Terra. Pois é mister haver um critério objetivo de beleza ou de perfeição. Ora, dos três critérios de perfeição só o dos gregos tem objetividade. Que impulso natural pode ter para criar obras de arte, formas que pertencem ao Mundo e à vida, quem, como o cristão, tem o mundo por pó e mal, a vida por vileza e pecado, ou quem, como o místico da Índia, tem toda a Aparência por ilusão absoluta, flor que nasceu murcha na haste da Mentira? Se a criação artística não procedesse de um instinto irreprimível nas comunidades civilizadas, nunca teria havido arte índia, nem cristã. Onde O cristão é metafisicamente feliz. Tem os olhos da alma postos naquela perfeição divina em que não há mudança nem cessação. Pesa-lhe pouco a vileza do mundo: viver e ver são para ele um mal-estar transitório. Ao índio nada dói o haver Mundo; volta para o lado o rosto, e contempla em êxtase o Todo a que nem o Nada falta. É, o índico, metafisicamente feliz também.

Findada a palestra, os paparicos de costume me foram dados. Ciente de que a maioria dos presentes nada entendeu, senti meu alter-ego massageado. Coisas de um poeta insano, com seu um metro e oitenta de altura e peso bem distribuído. Cativador de corações femininos que tremem em seus balouçantes vestidos esvoaçados. Tendo por companhia minha eterna bengala, usada apenas como acessório de minha beleza ímpar, despedi-me de meu anfitrião, o poeta Juvenal Galeno e dirigi-me à Praça do boticário Ferreira. É domingo e, como de costume, vestes sacerdotais farfalham abundantes por aquele logradouro. Hora dos flertes às donzelas mais atiradas, ou não! Pena mesmo, como disse, ser tão ligado ao Ideal helênico que negligenciei o lado capital da vida, uma vez que só possuo dos paletós: um no corpo e outro no varal. Rio-me! Mas vou à caça.


Tomo II
É chegado o ano de 1920. Meus neurônios e hormônios joviais não me deixam mais quieto. Preciso e necessito trilhar novos horizontes. Conhecer novas plagas e descobrir novos corpos e olhos femininos. Despeço-me de pai e mãe e embarco em um vapor marítimo rumo à capital do Brasil. Rio de Janeiro, aqui vou eu. Por promessa trabalhista, pasmem, recebi um convite do poeta João do Rio para trabalhar n’ A Pátria, periódico de linha Modernista que precedeu a Semana de Arte que ocorrerá em 1922. Desembarco na capital fluminense e me extasio. Tudo é novo ante meus olhos de jovem moço. As praias são lindas e as moçoilas mais liberais que as do Ceará. Faca e queijo nas mãos.

Meus contatos cariocas não poderiam ser melhores, pois João do Rio, um senhor de trejeitos afeminados, fez questão de apresentar-me à fina flor da poesia local. Agora no Rio, decido por aqui passar breve temporada de um ano, com pretensões de voltar ao Ceará em 1921, onde irei produzir com afinco a poesia que direi à época da Semana de Arte, uma vez que o convite já me foi feito por Raul de Leoni e Ronald de Carvalho.

E pelo Rio fico-me. Um ano de prazeres intelectuais e carnais. É insana a vida carioca. Suas noites não se comparam às das plagas cearenses. São extremamente ativas, cheias de mais vitalidade e mocidade. Por cá componho como um louco. Poesias saltam-me aos dedos e penas insanas, donde, certa manhã compus Laus Purissimae, composto não somente de versos polimétricos, mas também de versos livres – bem ao fazer Modernista – porém com características Simbolistas. Apresento-os, a seguir, a abertura desse poema helênico com setenta e sete versos livres:

Laus Purissimae

Para louvar-te,
Para dizer da tua Forma, eu deixo
Minhas antigas, bárbaras roupagens
De grego jônico, e venho
Como um dórico
Num metro novo,
Numa nova expressão de arte quase intangível,
Platonicamente serena
(Que é o sonho louco dos mediterrâneos)
Venho, repito,
Para eterno ciúme dos Deuses,
Anunciar a rodos os estetas
Que nem tudo se foi da Beleza-Perfeita;
Que tu chegaste, ó minha Palas-Atenas,
Ó Suma Reveladora,
Ó Quase-Fluida! Ó Leve! Ó Subjetiva!


No início do ano de 1921, decido-me por voltar ao Ceará. Despeço-me dos amigos e amores e embarco em mais vapor marítimo rumo ao torrão natal. É hora de novas publicações. Inveterado boêmio, não fumo, não bebo nem entro em jogatinas. Entretanto, o serpentear de saias sempre foi o meu fraco e a noite minha eterna companheira. Absorto e livre do trabalho braçal, amanheço como anoiteço tendo por amiga eterna minha bengala e o velho par de paletós. Ainda assim, a beleza um tanto ímpar que me foi dada compensam a falta de vinténs.
Mário da Silveira - única foto do poeta

Tarde-noite do dia 22 de julho de 1921. Como de costume, estou na Praça do Ferreira a conversar amenidades. Sentado em de seus muitos bancos e tendo por apoio a velha bengala, não percebo o seu aproximar. Ele vem lento e um tanto indeciso. Titubeia o meu executor. No entanto, sua fúria é maior. A vingança vem a cavalo e por conta de um assédio mal resolvido. Era bela a moça, porém comprometida com uma abastada figura alencarina.

Só recordo do cano da arma. Escuro. Uma Smith-Welson carregada com cinco balas em seu feroz tambor. Mal tive tempo de bramir a bengala e os cinco balaços me transpassaram o corpo. É agonizante a minha morte. Apinham-se curiosos enquanto meu carrasco foge. Foge Carlos Gondim, mas não escapará de apodrecer na Cadeia Municipal – atual EMCETUR – onde morrerá louco e arrependido por ter estragado a sua e acabado com a minha vida. Em meus bolsos nada. Apenas um poema alexandrino perfeito, posteriormente publicado em Coroa de Rosas e Espinhos, livro póstumo onde amigos do porte de Antônio Sales publicaram em minha homenagem. 500 exemplares apenas.

Em seu prefácio, Antônio Sales assim descreveu minha morte e vida:

Este punhado de versos e prosa foi tudo quanto se pode recolher da vida e produção literária de Mário da Silveira, tragicamente desaparecido, com vinte e dois anos de idade. É muito pouco, mas é o bastante para dar uma ideia de sua estranha e vigorosa mentalidade.

Pagando, porém, tributo à sentimentalidade da raça, ele conservava uma ingenuidade de criança e uma afetividade de moça, e, é desse subconsciente moral que lhe vinham as notas líricas de seu estro, onde o pensamento filosófico se alia tão estreitamente aos sentimentos passionais, como se vê dos dez formosos e vigorosos sonetos de COROA DE ROSAS E ESPINHOS.

A adversidade colhe-o cedo em suas garras, e só o largou inerte, no chão de uma praça pública, com o corpo traspassado de balas. É preciso crer na predestinação para compreender a fatalidade de seu destino.

Aos mais amigos, um soneto de despedida escrito de próprio punho por Mário da Silveira. Predestinação?

COROA DE ROSAS E ESPINHOS
Sedenta de ódio, cega de despeito,
Nesta penosa e transitória lida,
A alma dos homens, pérfida e atrevida,
Perde às cousas mais nobres o respeito.

Dizem: “Tudo o que sentes no teu peito
Há de um dia passar, - porque na vida
Tudo é incenso sutil, poeira diluída,
O que é terreno é efêmero e imperfeito.

Um grande amor é como o resto...A gente
Quando menos espera, logo sente
Apagar-se o clarão de Ignota chama.”

Eu sei que tudo é como fumo leve:
Foge: mas, porque a vida seja breve,
Há sempre um dia a mais para quem ama!

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*Túlio Monteiro - é poeta, contista, crítico literário, articulista do Evoé! Leia mais em Literatura com Túlio Monteiro.



quarta-feira, 12 de setembro de 2018

CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA III: QUEM TEM MEDO DE VIRGÍNIA WOOLF?! - Túlio Monteiro*

O efeito da morte sobre aqueles que continuam
vivos é sempre estranho, e muitas vezes terrível,
pela destruição de desejos inocentes.
(Virgínia Woolf)

Ah, essas malditas pedras!

Nasci pelo janeiro de 1882, em Kensington, bairro de Londres situado em zona limítrofe com o Hyde Park, lugar habitado em minha contemporaneidade pelos terríveis atos criminosos de Jack, o estripador. Cresci com as hostis histórias de mulheres sendo desencarnadas por um maníaco nunca descoberto.

Preciso confessar, no entanto, que vim ao mundo em berço esplêndido. Nunca me faltando qualquer coisa que fosse do ponto de vista material ou cultural. Filha de Sir Leslie Stephen e Julia Prinsep Jackson, fui criada e educada em uma família austera, já que meu pai era um editor de renome, bem como foi escritor, historiador, ensaísta e biógrafo. A ele devo minha rígida educação, fato que me levou já aos nove anos a publicar o Hyde Park Gate News, um pequeno jornal de tiragem caseira destinado a divertir literatos do porte de Thomas Hardy, Alfred Tennyson e Henry James, sendo este último um dos fundadores do Realismo literário e amigo pessoal de Gustave Flaubert.

Pena que, desde cedo, eu já apresentava crises depressivas. Talvez por conta de meus meios-irmãos por parte de pai em seu primeiro casamento terem me tocado intimamente quando eu ainda era uma criança. Vis lembranças de irmãos que vi morrerem antes de mim. Seleta vingança. Ao Inferno com eles. Decerto que as crises de insônia e desespero de meu pai, bem como seus casos de autodúvida e estresses diários contribuíram para meu fracasso social. Isso é fato! Mas, voltemos à pena!

Impressionada pela literalidade e pelo trabalho de editor do monumental Dictionary of National Biography, obra-prima de meu pai e também por sua vasta biblioteca particular, desde cedo manifestei a expressão de tornar-me escritora. Porém, a arrebatadora morte de minha mãe logo aos meus 13 anos de idade e os insistentes assédios de meus irmãos levaram-me em 1885 ao meu primeiro colapso nervoso. Médicos apostos no número 22 do Hyde Park Gate. Ao meu pai e aos meus consultores nunca revelei os motivos de minhas crises nervosas. Para quê? Se de nada resolveriam meus incontáveis apelos em plena era vitoriana onde as mulheres eram meros abrigos de filhos a serem nascidos e procriados?! O silêncio seria meu abrigo até nos íntimos escritos. E casei-me! Sim! Como filha do recém-nomeado Cavaleiro da Mais Honorável Ordem do Banho, período em que escrevi a perder de vista ensaios para o jornal The Guardian, conheci Leonard Woolf, amigo íntimo de meu irmão legítimo Thoby Stephen. Foi por assim dizer uma válvula de escape para uma criatura de trinta anos e já dada como de certa idade em tempos de começo do século 20. Emancipação! Felicidade plena e a fundação, em 1917, da Editora Hogarth Press, que revelou escritores do porte de T.S. Eliot, um tal Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

Filhos? Não os tive! A bem da verdade, meu sobrinho Quentin Bell, foi um seleto ouvinte de minha trajetória sexual. Forçada que fui por meus irmãos a libertinagens mil, tornei-me um tanto arredia aos carinhos masculinos. O que transformou meu casamento com Leonard em um grande erro e fracasso, levando-me a dar-lhe liberdade para aventuras extraconjugais em detrimento de aparências e nada mais.

E foi assim minha cara e minha cruz onde assinalo que, apesar de não termos um “casamento com sexo”, no sentido estrito, eu e Leonard Woolf fizemos esforços e desafiamos as evidências para forjar uma relação verdadeiramente humana. Mas sem nenhuma paixão. Se havia uma paixão, entre os dois, era o culto à boa literatura e à boa conversa com os amigos, como o economista (bissexual) John Maynard Keynes. Eu, por minha vez, embora admirasse homens talentosos, tinha mais intimidade com mulheres, como Vita Sackville-West e Ethel Smyth. Aqui me confesso homossexual assumida! Lampejos de uma alma aturdida e sacrificada pelos beijos e carícias de meus malditos irmãos por parte de pai.

Era 1941! Enquanto Leonard se ocupava na luta contra os nazistas, eu preparava os frutos de minhas inserções pelo mundo do Fluxo da Consciência de Édouard Dujardin e Willian James, técnica literária em que se procura transcrever o complexo processo de pensamento de um personagem, com o raciocínio lógico entremeado por impressões pessoais momentâneas e exibindo os processos de associação de ideias, onde a característica não-linear deste processo de pensamento leva frequentemente a rupturas na sintaxe e na pontuação.

Mas as crises sexuais e existenciais nunca me deram trégua. E apesar de conviver e muito bem com a sociedade britânica de então, meus fantasmas me assombravam soberbamente. Não me largavam os malditos! Invadindo-me as têmporas para lá de cansadas. Atormentando-me noite e dia entre corpos femininos e masculinos. Crivo das cores. Abordagem maior de um ser humano coberto de erros e pecados. Seria eu a única a pecar em desvelo de um santo corpo? Nunca irei saber!

É manhã de 28 de março de 1941!

Nossa casa em Londres, no Hyde Park, foi destruída pelos bombardeios de Hitler e nada mais me resta de sobriedade. Temo por mim e corro à pena para mais um desabafo a Leonard, meu fiel companheiro de vida e descasos. Teimo em escrever-lhe mais uma missiva, mas ao mesmo tempo sinto-me livre após anos de torturas íntimas; E escrevo:

Querido Leonard,

Tenho certeza de que enlouquecerei novamente. Sinto que não podemos passar por outro daqueles tempos terríveis. E, desta vez, não vou me recuperar. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Por isso estou fazendo o que me parece ser a melhor coisa a fazer. Você tem me dado a maior felicidade possível. Você tem sido, em todos os aspectos, tudo o que alguém poderia ser. Não acho que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes, até a chegada dessa terrível doença. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando a sua vida, que sem mim você poderia trabalhar. E você vai, eu sei. Veja que nem sequer consigo escrever isso apropriadamente. Não consigo ler. O que quero dizer é que devo toda a felicidade da minha vida a você. Você tem sido inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer que – todo mundo sabe disso. Se alguém pudesse me salvar teria sido você. Tudo se foi para mim, menos a certeza da sua bondade. Não posso continuar a estragar a sua vida. Não creio que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes do que nós.
V.

Após isso, o desenlace final me aguarda. Visto o casaco em desalinho e caminho rumo às margens do Rio Ouse, tão perto que fica de minha casa. Quanto ao meu corpo? Só depois de três semanas foi encontrado por um grupo de escoteiros perto da Ponte Southease. Já era abril e cinzas virei.

Enfim as benditas/malditas pedras surtiram efeito!

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*Túlio Monteiro - é poeta, contista, crítico literário, articulista do Evoé! Leia mais em Literatura com Túlio Monteiro.



segunda-feira, 10 de setembro de 2018

MONÓLOGO DE UMA MORTE ANUNCIADA II: Florbela Espanca - Túlio Monteiro*

Dorme, dorme, alma sonhadora,
Irmã gémea da minha!
Tua alma, assim como a minha,
Rasgando as nuvens pairava
Por cima dos outros,
À procura de mundos novos,
Mais belos, mais perfeitos, mais felizes.

Criatura estranha, espírito irrequieto,
Cheio de ansiedade,
Assim como eu criavas mundos novos,
Lindos como os teus sonhos,
E vivias neles, vivias sonhando como eu.
Dorme, dorme, alma sonhadora,
Irmã gémea da minha!
Já que em vida não tinhas descanso,
Se existe a paz na sepultura:
A paz seja contigo!

(À Memória de Florbela Espanca, do espólio de Fernando Pessoa)

Hoje é meu aniversário!

Trinta e seis anos completos de tormentas e espasmos psicóticos que teimam em não me deixar em paz um momento sequer desta minha existência terrena iniciada no Alentejo, desde que rompi do ventre de minha mãe Antônia.

Sempre fui tanto singular, dizia meu pai José Maria, o antiquário por profissão e divulgador do Vistascópio de Edison nas terras portuguesas por amor à sétima arte. O que dizer e não dizer de uma filha fecundada de maneira tão ímpar quanto eu, uma vez que Mariana, minha estéril mãe e verdadeira esposa de meu pai, permitiu o enlace conjugal do mesmo com mama Antônia?! Mas que bela caricatura sou eu: filha de uma vistosa e bela criada de servir que também trouxe à luz Apeles, meu amado irmão, dois e poucos anos mais novo que eu. Fazer o quê se as correntes escravocratas ainda imperavam no meu Portugal de fins do século dezenove, e amas de leite eram criaturas presentes em quase todos os lares?

Fui capturada cedo pelo mundo das Belas Letras. Enquanto ainda frequentava a escola primária de Vila Viçosa do Alentejo, já arriscava meus primeiros versos, sendo que em 1907, aos 13 anos, redigi “Mamã”, meu primeiro conto dedicado a Antônia, minha mãe de parto que viria a falecer no ano seguinte vitimada por uma sequência de incansáveis ataques de nevrose. Maldita herança materna!

A morte de mamãe foi o gatilho à minha mudança para a cidade de Évora, onde fui uma das primeiras mulheres a cursar por completo escola Liceal. Foi requisitando livros do Liceu de Évora que conheci alguns monstros sagrados na Literatura Mundial, a exemplo de Dumas, Balzac, Garrett, Camilo Castelo Branco e Guerra Junqueiro.

Os joviais anos escolares passaram rápidos até que em 1913 decidi por casar-me com Alberto Moutinho, meu colega de Liceu. Não tínhamos posse, o que nos levou a morarmos precariamente na Vila de Redondo, passando a residir, a partir de quinze, na casa de meu pai em Évora mesmo.

Em 1916, já trabalhando como jornalista para O Século de Lisboa, para A Voz Pública e Notícias de Évora, retornamos à Vila de Redondo, onde organizei uma detalhada coletânea de meus escritos, publicando-os sob o título de Trocando Olhares. Não foi um sucesso de público, o que me levou a uma crise de neurose, mal que me acompanharia por toda a existência.

Com a chegada de 1917, concluí o Curso Complementar de Letras e matriculei-me na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, de onde fui uma das únicas catorze mulheres a lograr aprovação. Felicidade, enfim!

Entretanto, veio o famígero ano de dezoito, a Primeira Grande Guerra e meu aborto involuntário, o que me agrediu de maneira profunda os ovários e pulmões. Neurose e a culpa jogada sobre os ombros de Alberto. Estava se findando o meu casamento e a alma de poeta carecia de novos amores, novas aventuras por corpos nunca dantes desnudados.

Dezenove e vinte foram anos de uma certa paz interior. No primeiro, publiquei duzentos exemplares de meus sonetos no Livro de Mágoas. Desapareceu rápido das prateleiras, vindo a se tornar obra rara. Já no segundo, e ainda casada por aparências com Alberto, conheci o Antônio José Marques Guimarães, alferes da Artilharia da Guarda Republicana. Paixão arrebatadora, mas impossível de ser vivida plenamente, o que me levou, após mais de seis meses de traição a separar-me oficialmente de Alberto, permitindo-me com isso casar-me com Antônio Guimarães, passando a residir na cidade do Porto e, no ano seguinte, em Lisboa, onde Guimarães se tornou chefe do gabinete do Ministro do Exército.

Tudo parecia divino, não fossem as incessantes tentativas de gravidez sem sucesso e a ascensão meteórica de meu marido, o que me resignava a ser uma mera coadjuvante em um mundo plenamente machista e cheio de preconceitos. Confesso-lhes: fui até onde minha alma de poeta aguentou! Esforcei-me, os Céus sabem quanto, para manter viva a chama do amor que havia de mim para com Antônio. Até publiquei, em janeiro de vinte e três, meu segundo livro de sonetos, o Livro Sóror da Saudade. Novas e excelentes vendas o que me acalantou o regaço de poeta nada pudica em relação aos males do coração e desejos febris por ser amada.

Não me perguntem como, mas desde de vinte e um que já caíra de amores pelo médico Mário Pereira Lage. Ao contrário do rompante entre mim e Antônio, fui mais regrada e secreta no tocante a esse novo amor. Foram quatro os anos em que nos relacionamos amiúde em encontros joviais para uma mulher de trinta e qualquer coisa.

Veio 1925 e com ele a definitiva separação de Antônio. Casei-me, pois, com Mário em Matosinhos, região do Porto, onde passamos a residir. Mário e sua abastada condição me davam asas a uma livre produção literária. Tinha ao meu dispor penas e papeis, o que me levou a colaborar, a partir de vinte e sete, no Civilização e Figueirinhas do Porto e no D. Nuno de Vila Viçosa. Tudo parecia tão bem naquele primeiro semestre. Até que “Ela” se apresentou novamente fria e tenebrosa ante meus olhos: em junho, nas proximidades da freguesia de Belém, meu único irmão o aeronauta Apeles Espanca sofreu um fatídico acidente aéreo. Devastação total de Minh´alma de sonhar-te! Crises nervosas, neuroses, pensamentos pessimistas me invadiram a mente. À pena corri e escrevi quase que de uma vez só a série de contos póstumos As Máscaras do Destino. Mais um ser amado tinha-se ido!

Sem filhos, sem disposição aos textos e sem a compreensão de meu marido tentei por cabo à minha vida em 1928, Exaurida, nada mais me dava prazer a não ser o fazer de minha autobiografia iniciada em trinta e interrompida bruscamente por mais duas infames tentativas de partir para sempre.

Contudo, ainda reuni forças para colaborar jornal feminino e feminista Portugal Feminino, no Primeiro de Janeiro do Porto e Revista Civilização, Tentativas insanas de me reencontrar naqueles outubro e novembro de um trinta demoníaco. Nada resolvia! Nem os carinhos parcos de um Mário já deveras distante me calavam alto o coração quando, no início de dezembro, o fatal diagnóstico de um severo edema pulmonar me arrebatou de vez a vontade de viver.

Era manhã do dia oito de dezembro, dia de meu trigésimo sexto aniversário, quando o maldito Veronal enfim fez efeito...
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*Túlio Monteiro - é poeta, contista, crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé!  Leia mais em Literatura com Túlio Monteiro.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

MONÓLOGO PARA UMA MORTE ANUNCIADA? Hemingway - Túlio Monteiro*


O meu é uma resposta aos que chamam ao suicídio um fim de covardes e de fracos, quando são unicamente os fortes que se matam! Sabem lá esses pseudo-fortes o que é preciso de coragem para friamente, simplesmente, dizer um adeus à vida, à vida que é um instinto de todos nós, à vida tão amada e desejada a despeito de tudo, embora esta vida seja apenas um pântano infecto e imundo!
(Flor Bela Espanca)



Diachos! Nessa última meia hora nada mais fiz que relembrar e remoer o meu passado. Seis décadas inteiras de impotência, neuroses, alcoolismo e depressão. Já não consigo raciocinar direito nem lembrar bem de como se datilografa um escrito, um rabisco que seja nessa velha Smith-Corona que já me acompanha há anos por cada atril nos quais ela bem quis e descansou.

Eis que por um momento me vem à mente o velho Fitzgerald, que já partiu há pelo menos vinte anos, quando disse-me em uma carraspana memorável que para cada livro escrito eu teria que ter uma nova mulher. E rio por dentro ao ter afirmado a ele e a outros da minha estirpe, que não me apaixono, mas, sim, caso-me! Sim, caso-me como mal tendo completado 20 anos e já servindo à Primeira Guerra Mundial como motorista de uma ambulância da Cruz Vermelha, decidi por me casar com a bela Elizabeth Hadley Richardson, com quem tive um filho. Foi por influência dela e da enfermeira Agnes Von Kurowsky, que me atendeu após um bombardeio do qual me restaram centenas de estilhaços de uma bomba que explodira próximo ao local onde eram resgatados alguns soldados americanos, que dediquei às duas, em 1929, Adeus às armas.

Mas as Guerra de 1918 chegou ao fim e o Condado de Oak Park, onde nasci, ficou muito monótono para um homem grande e robusto como eu, 1.96m, de altura por 118 quilos de peso. Era demasiado curto ficar escrevendo para o pequeno jornal de minha terá natal. Precisando, urgente, conhecer novos horizontes. Novas plagas, outros arrabaldes.

Sem pensar duas vezes, mudei-me com Elizabeth e o menino para a doce Paris, que sempre foi e será uma festa. Estava empregado como correspondente da revista canadense Toronto Star Weekly. Não fosse essa mudança, nunca teria conhecido vates do porte de Ezra Pond, Sherwood Anderson, Waldo Peirce, John Dos Passos, T. S. Eliot, James Joyce e Gertrude Stein. Estava formada, em plena depressão do pós-guerra dos “Loucos anos 1920”, a “Geração Perdida” da Rue de Ledeon, número 12, e seu inesquecível Café-Livraria Shakespeare and Company.

Droga! Já lá se vão quinze minutos e eu neste polimento monótono e cansativo!

Entretanto, o tempo passou e como todos os grupos de pensadores nós nos afastamos. Cartas eram nossas relíquias trocadas com frequência britânica. Alívio às dores da alma que já me escancaram o cérebro.

Em Paris, meu primeiro casamento se foi, tendo eu me apaixonado pela jornalista Pauline Pfeiffer, com quem casei em 1927 e tive mais dois filhos, nesta época já morando na Flórida e frequentando bares do submundo, dentre eles o Sloppy Joe's Bar, de Joe Russell, até então meu confidente e companheiro de farras.

Amante que sempre fui de esportes, na década de 1930 parti com Joe rumo a uma pescaria de Marlins nos mares cubanos de Fidel Castro e sua Revolução Socialista. Foi paixão à primeira vista me hospedar no Hotel Ambos Mundos, localizado na Vieja Havana, onde passaria as próximas duas décadas em intenso combate aos meus transtornos mentais e depressões profundas.

Na ilha de Guevara, duas arrebatadoras paixões poriam fim ao já combalido casamento com Pauline. Primeiro, foi com Jane Mason, que era casada e não mediu esforços para estar em minha cama. Era a famigerada década de 1930. Em 1936, contumaz apreciador de mulheres destemidas que sempre fui, surgiu-me às já velhas e cansadas retinas a figura destemida de Martha Gellhorn, jornalista de guerra que de passagem por Cuba partiria para a Espanha em busca da cobertura da Guerra Cívil daquele país. Com o coração livre e um novo romance que daria à luz Por quem os sinos dobram, de 1940, parti às terras dos loucos moinhos de Cervantes como jornalista do North American Newspaper Alliance e, claro, para os braços de Martha.

E toda a Segunda Guerra passei nas terras de Fidel ao lado de minha terceira esposa. Foram anos duros de chumbo, recessão e milhões de mortes. 1946 chegou e com ele a Paz aparente. Cuba, como as touradas espanholas, já não me agradavam mais. Precisava voltar ao meu ninho norte-americano, mais precisamente à cidade de Ketchun, no condado de Blaine, estado de Idaho. Martha e eu havíamos decidido por não mais dividirmos vidas, o que mais uma vez me levou a uma profunda tristeza de viver ao alcoolismo exacerbado.

Diacho de polimento bolorento!

Porém, entre minhas andanças por revistas e jornais, encontrei a frágil e tímida jornalista Mary Welsh, um oposto completo das mulheres arrebatadoras que haviam passado por minha vida nada monótona. O diabetes, alcoolismo, depressão e a maldita homocromatose se aliavam à minha perda de memória com rompantes de lucidez que me trazem à lembrança a personalidade dominadora de minha mãe Grace, que sempre insistiu em me recordar do fim trágico que meu pai havia posto à sua vida terrena.

Lá se vão vinte e cinco minutos de uma apavorante solidão, do qual sei que não sairei ileso. A mente alucinada como os exaustivos monólogos interiores de Faulkner em seu Palmeiras selvagens.

E falo comigo mesmo e com meus pares já idos. Atormenta-me a imagem das orelhas de Van Gogh e a quintessência do gênio incompreendido, o artista onde discursos sobre loucura e criatividade convergem de maneira ao já esperado.

É 2 de julho de 1961 e a manhã se anuncia entre os pássaros que teimam em piar ao surgir de um novo arrebol. Já à beira de meus sessenta e dois anos dentro dos próximos dias, sinto-me cansado! Já não consigo dedilhar minha velha máquina de escrever e isso se torna dor suprema em articulações e nervos sacrificados. Escrever em pé, à maneira de tantos outros loucos que passaram pela História é conservadorismo que não mais posso exercer. E isso dói como doem as faltas dos amores partidos. Mary dorme. Já não há mais amor de mim para com ela. Como também já não há mais amor pelo Pulitzer de Ficção de 1953, nem pelo Nobel de Literatura de 1954. Nada mais vale a pena. Filhos distantes, cada um se ocupando de sus afazeres diários. De mim, o pai, somente uma lembrança amarelecida feito velhos papeis de carta.

Já é manhã feita. E o tempo se arrasta agourento, feito os corvos de Poe. Fim do polir e azeitar de meu velho rifle de caça. Um calibre 22 da Abercrombie & Fitch de minha estima. Lembranças de caçadas indeléveis na África Central.

Ora de ir!

Partir aos braços de Morfeu e ao reencontro de amigos que se foram antes de mim. Que fique meu legado!

E Hemingway não quis...

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*Túlio Monteiro - escritor, poeta, crítico literário e articulista do Evoé!

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Z de ZÊ - Túlio Monteiro*

Aquele pequenino anel que tu me deste,

– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.
(Manuel Bandeira no poema “O anel de vidro”)

Ao cabo e ao final, chegamos ao Z. O que fazer quando somos apresentados à última letra de nosso alfabeto, tonando-se ela, portanto, o mote para nossa derradeira crônica no que diz respeito ao abecedário Evoé!?

Escrever, é claro. E com alegria, certo de que a ideia do nosso ilustre editor será perpetuada em livros eletrônicos e/ou de papel mesmo. Lanço, então, meu primeiro desafio dessa que vos prometo ser de boa lavra. Maizena começa com Z ou S? Calma! Não precisa esquentar a cabeça agora nem correr para o dicionário mais próximo. Disso trataremos mais tarde. Porque a deixa dessa crônica, sua mola percussora, será o Z de Zorro! Isso mesmo! Aquela que trata do Robin Wood de capa e espada eternizado nas telinhas pelo saudoso Guy Williams. Isso nos anos sessenta e setenta do século passado.

Tecerei comentários a respeito de nosso herói logo que for possível, mas antes deixem-me esclarecer o significado de Zorro perante o dicionário de língua portuguesa: tal palavra é um substantivo masculino que indica – de acordo com o regionalismo do sul do País – a característica de uma pessoa manhosa, velhaca e astuta por assim dizer. Já em Portugal seu significado é ainda mais interessante, referindo-se a crianças enjeitas e abandonadas ou ainda filhos bastardos, nascidos fora do casamento.

Paro agora, de rompante, quando me vem à mente a grande figura de um quase primo meu, um dos sujeitos mais sensacionais que já conheci, mas que tem a desconcertante mania de ser velhaco no que se refere a abocanhar os livros alheios. Sério! O boa pinta não se faz de rogado quando o assunto é usurpar até as iluminuras de um romance qualquer. De mim, para servir de exemplo, nem bem sei quantos exemplares me levou o astuto. Mas não fiquem irritados, não. Uma vez que é bastante comum esse tipo de comportamento entre escritores. Eu mesmo sou danado para cometer esses pequenos delitos. Nesse aspecto sou réu confesso. Mas o caso de meu quase consanguíneo é digno de hospício e prisão, uma vez que o cabra é bom no que faz. Que o digam, cá para nós, os bibliotecários das bibliotecas Dolor Barreira e Menezes Pimentel. O homem é exímio no que faz, meus queridos. É de deixar o mais qualificado larápio desconcertados com suas artimanhas. Esconde livros entre seus próprios livros, pondo-os também nas cuecas visando com tal feito burlar os mais sofisticados sistemas de alarme antifurto. Pergunto eu e respondem-me vocês: Esse é ou não é um legítimo Zorro no que se refere às artimanhas e maneirismos do nosso substantivo comum. Aos menos avisados fica a dica para tomarem cuidado redobrado quando convidarem esse “vampiro” de livros a visitar suas bibliotecas. Uma raposa velha eu diria. Risos.

Vamos um pouco às nossas reminiscências infantis no que tendem as lembranças de dias que se foram e não voltarão mais nunca, porque o tempo não para. Zorro foi e é uma série de produção da Walt Disney (olhem o W e o Y aqui nos visitando). Baseado em um herói mascado, ela estreou no canal ABC em 10 de outubro de 1957 (feliz aniversário, musa que nasceu nesse mesmo dia e mês), tendo seu final ocorrido em 2 de junho de 1959. Como ainda não existiam transmissões ao vivo, os 78 episódios foram ao ar no Brasil entre janeiro de 1973 e março de 1974.

Daqueles tempos recordo de meu já saudoso pai a construir com as próprias mãos minhas espadas enferrujadas para que eu pudesse brincar de esgrima e duelos mil com meus amigos de pueris. Todos queríamos ser o Zorro, mas só um poderia reinar na pele que era incorporada pelo já ido Guy Williams (Ípsilon e dabliozinho insistentes, não?!). Era um tempo bom de solidão e solitude a representar o isolamento e a reclusão deste que viria a se tonar poeta não por sofrimento, mas, sim, por opção. Época de poucas ou nenhumas preocupações com a labuta do dia-a-dia. Momentos que se foram e não voltaram jamais. Prelibações maiores de uma estrela da vida inteira, posto que sejam infinitas as palavras de Manuel Bandeira quando afirmou: “Sou poeta menor, perdoai! Não faço versos de guerra. Não faço porque os não sei. Mas num torpedo-suicida darei de bom grado a vida na qual não lutei”. (Excertos do poema Testamento, de 1956). Um dos primeiros versos do Modernismo brasileiro, movimento encabeçado por Bandeira e os indeléveis Oswald e Mário de Andrade. O do Sul já que nós cearenses também tivemos nossos Mário de Andrade. Sim! Na plena efervescência do Modernismo brasileiro por aqui no Ceará também tivemos o nosso Mário de Andrade. Que fique, pois, registrada a informação.

E crendo ter sido mais salutar e saboroso desta vez, espero ter lhes proporcionado novamente algo digno de suas apreciações literárias. Despeço-me por aqui na certeza de que vou sentir saudades do abecedário de Kelsen Bravos, que tanto incitou a mim e ao Chico Araújo a terminarmos essa missão praticamente impossível no dizer de Carlos Emílio Correia Lima. Um imenso beijo! Um grande abraço! E fiquem com Deus. Ah! Ia me esquecendo. Risos. Maisena se grafa assim, com S. Porém, há uma exceção da regra que admite novos grafemas quando o tocante é a escrita de palavras homônimas. Aquelas que têm a mesma pronúncia, mas significados diferentes. Logo, maizena pode ser escrita com Z. Agora é tchau mesmo!

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*Túlio Monteiro - Escritor, poeta, crítico literário, ensaísta, articulista do Evoé!

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Y DE A, E, I, O, U, YPSLONE - Túlio Monteiro*

Convidei a comadre Sebastiana
Pra cantar e xaxar na paraíba
Ela veio com uma dança diferente
E pulava que só uma guariba
E gritava a, e, I, o, u, ypslone
(Jackson do Pandeiro)



Olá, ledores, ledoras! Cá estamos nós em mais uma empreitada literária, desta vez em busca do Y. O famigerado Y que a tantos desagrada, sendo por muitos excomungado em detrimento de seu quase desuso no abecedário tupiniquim. Pois bem, queira Deus que desta vez os agrade novamente.

Desafiado que fui por Kelsen Bravos, que depois de me dar um WO na letra W, eis que me encontro em pouca consonância com danado do Y. Letrinha malvada que de nada ou pouco adianta para o nosso amado vernáculo. Tendo sua origem no alfabeto fenício ao chegar aos gregos ela se transformou em nosso conhecido U. Daí até chegar à Última Flor do Lácio foi meramente um pulo.

Pareço estar enchendo linguiça e bem o estou ante a pouca feitura que pode-se retirar de tão famigerada consoante. É sabido também que o acordo ortográfico de 1990 não "restaurou" o y. A doutrina é exatamente a mesma: k, w, y continuam só para usos especiais. O AO de 1990 apenas incluiu as três especiais na listagem das letras com a finalidade de deixar clara a sua posição na ordenação sequencial do conjunto do alfabeto.

Pois bem, dadas essas informações, nos remetamos, pois, à crônica de fato: o que dizermos sobre uma letra desconcertante que só acresce dificuldade ao dificílimo alfabeto brasileiro. Pergunto eu e respondem se puder e se quiser os prezados leitores: para que serve o Y em nosso alfabeto senão para aperrar a cabeça dos Pasquale Cipro Neto dessa vida insana.

Fica difícil transcorrer sobre algo tão insosso, mas como assim propôs Kelsen Bravos, vamos tentar trazer um pouco de alento aos que hora nos matem antenados com o mundo virtual que nos cerca. Fico ensimesmado ante certos despropósitos ortográficos, quando o assunto é nossa língua-pátria. Deter-me-ei, entretanto, a tecer comentários sobre a Geração Y como forma de dar mais sustância a essa crônica que, confesso, não será uma das minhas mais prolixas.

Tal geração se caracteriza por ter vivenciado muitos avanços tecnológicos, crescimento de diversos países, que acabaram tornando-se potências mundiais. As crianças da geração Y cresceram tendo o que muitos de seus pais não tiveram, como TV a cabo, videogames, computadores, vários tipos de jogos e muito mais. Por terem esse contato todo com a tecnologia, acabaram ficando conhecidos por serem pessoas folgadas, distraídas, insubordinadas e superficiais, em sua grande parte.

Os Millennials também são conhecidos por terem grande ambição, e é normal encontrar jovens dessa geração que trocam de emprego frequentemente, porque no emprego anterior não eram desafiados e não tinham oportunidade de crescer profissionalmente.

As empresas, sempre interessadas com o tipo de público que querem atingir, fazem diversas pesquisas de mercado para saberem qual o produto que a geração Y está interessada, como eles querem ser atendidos, o que eles estão procurando, pois é um público geralmente muito exigente, sempre antenados em novas tecnologias e novos produtos.

A geração Y é um público ávido por inovações, querem ter sempre a televisão mais moderna, o smartphone do momento, todos os produtos mais tecnológicos possíveis. Em contrapartida, a geração Y também ficou conhecida por ser a geração mais preocupada com o meio ambiente, uma vez que seus pais não se preocuparam tanto, eles estão muito interessados em deixar um bom lugar para seus filhos viverem.

Temos então um panorama mais ou menos destrinchado no que se refere à Geração Y, porém creio que nunca definiremos no sentido estrito ao que se refere ou significa tal escabrosa letra, que serve mais para enfeitar e menos para definir.

Segundo o significado das letras de nosso alfabeto, o Y trata de pessoas que têm intuição à flor da pele, além de simpatia, percepção e força espiritual. Muito independentes, os de Y adoram conquistar títulos, pessoas e fãs, sendo organizados como ninguém. São responsáveis e leva o maior jeito para ser chefe, pois sabem comandar um grupo como ninguém. Com tudo isso, não é de admirar que tenham um estilo todo próprio de fazer as coisas e não estejam nem aí para o que os outros pensem ou digam.

Bem amigos e amigas, juro que tentei tirar leite de pedra. E não me julguem mal se tentei encher a linguiça e suas paciências. Mas é que há assuntos que simplesmente não rendem o que deveriam. "E quanto à epígrafe desta crônica?", decerto me perguntará o editor. Bem sei que num falei dela, mas que o Jackson do Pandeiro deu um lugar e tanto ao tal Y, ah isso deu. Fico por aqui e até a próxima letra. Saudações literárias.

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*Túlio Monteiro -  Escritor, poeta, crítico literário, ensaísta, articulista do Evoé!

sexta-feira, 27 de julho de 2018

W CHEGAMOS AO W - Túlio Monteiro*

Última flor do Lácio, inculta e bela,

És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

(Olavo Bilac, no soneto “Língua Portuguesa”).

Eia que o W é a bola a ser cantada. Desafiado desta vez pelo seu Francisco Pereira da Silva, meu tio, vou ter que me virar em preencher as lacunas de mais uma letrinha difícil de ser comentada em crônica.

Sabemos que a letra W é a vigésima terceira letra do alfabeto português, sendo a décima oitava consoante. É utilizada em 0,01% das palavras portuguesas, sendo utilizada apenas em antropónimos originários de outras línguas e seus derivados; em topónimos originários de outras línguas e seus derivados e em siglas, símbolos e mesmo em palavras adotadas como unidades de medida de curso internacional.

Pois bem, voltando ao desafio lançado por meu tio nonagenário, vamos ao que realmente interessa. Em conversa telefônica com ele o ouviu dizer que estava sentindo dores nas costas e no quadril o que seria um bom mote para ser levado em conta com relação ao formato de uma aranha emborcada, de patinhas para cima. Ora, nada mais cômico que comparar uma letra a um animal peçonhento e abominado por tantas pessoas. Assim como o ípsilon que tem um formato fálico o W enquanto aranhinha pode nos remeter, por exemplo, à teoria do professor doutor Horácio Dídimo.

Tímido e de poucas palavras, Horácio Dídimo costuma conversar sobre literatura infantil, tema que lhe rendeu o doutorado em Minas Gerais, sempre se referindo à estrutura trinitária de sua literatura: som, silêncio e sentido.
Mesmo quando escreve livros como A estrela azul e o almofariz, lançado pela coleção Alagadiço novo, ou uma tese de doutorado como Ficções lobatianas: Dona Aranha e seis aranhinhas no sítio do pica-pau amarelo, Horácio Dídimo o faz como quem procura no verso simples e na ideia concisa a alegria de uma criança em desbravar o universo de Monteiro Lobato, Lewis Carroll, Christian Andersen ou dos irmãos Grimm.
De fato, ele próprio fã de toda essa turma, desde sempre esteve envolvido com a literatura infantil. Fosse no choque que levou quando soube pelo rádio da morte de Monteiro Lobato - morria para o pequeno Dídimo quem ele considerava um membro de sua família -, fosse como professor universitário, através de suas aulas na disciplina de literatura infantil na UFC. Disciplina essa que acabou incentivando-o a escrever para crianças.
Assim, o poeta pessimista e irônico de livros como Tempo de Chuva, redescobriu a esperança e a alegria em sua obra e passou também a publicar títulos como O passarinho carrancudo, Histórias do mestre Jabuti, Festa no mercadinho e As reinações do rei.
Então, depois de mais essa viajada na maionese, voltemos um pouco às origens da letra hora questionada. Surgida a partir dos primeiros símbolos da baixa Mesopotâmia, ela era de início um ideograma para representar objetos a serem contados ou catalogados. Sistema de ideogramas esse que facilitava por demais o entendimento dos mais diversos idiomas. Sanando assim, a possibilidade de armazenar, registrar dados e representar a História.

Com o passar das eras, os fenícios aprimoraram esses símbolos reduzindo-os para quantidade de apenas 22, o que facilitava por demais suas atividades mercantis em relação aos Oriente Médio, Ásia Menor, árabes, etruscos e gregos.

E foram os gregos quem adotaram a simbologia fenícia por volta do século VIII a. C., acrescentando mais dois sons vocálicos, passando o mesmo a possuir 24 letras dentre elas o nosso amargo W.

Por fim, já no pós Idade Média surgiu o alfabeto português como o conhecemos hoje. Estava formado o padrão para a resolução alfabética da Última Flor do Lácio.

Nosso conhecido e ilustre poeta brasileiro Olavo Bilac (1865 – 1918) já dizia em um de seus sonetos “língua Portuguesa” da última flor do lácio. É comum por nós usarmos a expressão em nosso dia a dia. Porém, muita gente ainda não sabe do que realmente se trata a tão usada expressão. O poeta retrata em seu primeiro verso “a última flor do lácio inculta e bela”, se referindo ao nosso idioma português como a última língua derivada do latim vulgar falado no Lácio, que é uma região da Itália. As línguas latinas também chamadas de neolatinas ou românicas também se originam do latim e são elas as mais faladas e conhecidas: Italiano, Espanhol, Francês e Português. Já o termo “inculta” se refere ao latim vulgarmente falado por camponeses, soldados e as classes mais populares, que assim se diferenciava do latim clássico falado por pessoas de classes superiores. Para Olavo Bilac nosso idioma ainda continuava a ser belo mesmo originando de uma linguagem popular. Não conhecer a raiz cultural brasileira é marca registrada de nosso povo, enaltecemos muito a cultura exterior e esquecemos que nosso Brasil mesmo sendo um País novo em relação aos países europeus tem uma rica e invejável cultura, diversidade, literatura e por aí vai... Cometemos uma falta grande quando desmerecemos nossa história e como amante da nossa literatura não posso me furtar em sentir uma enorme tristeza em vê-la tão esquecida.
Enfim, amados ledores e ledoras, creio ter extinto meu vernáculo no que diz respeito ao velho dáblio, acreditando mais uma vez ter cumprido os objetivos do abecedário Evoé!. Abraços literários.
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*Túlio Monteiro - escritor, ensaísta e crítico literário.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

O GRANDE XIS da Questão - Túlio Monteiro*

O título que leva este artigo me lembra um conto de fada que se passou não há muito tempo, e que desejo contar por muitas razões; porque acho-o interessante, porque me livra dos embaraços de um começo, e me tira de uma grande dificuldade, dispensando-me da explicação que de qualquer modo seria obrigado a dar. Há de haver muita gente que não acreditará no meu conto fantástico; mas isto me é indiferente, convencido como estou de que escritos ao correr da pena são para serem lidos ao correr dos olhos. (José de Alencar).

Olá, meu povo do bem querer. Dando continuidade ao abecedário do Evoé! cá estamos com mais uma tentativa de crônica para seu crivo semanal. Senão vejamos: eu bem que poderia discorrer sobre a Xuxa, mas como nunca fui por demais simpático à musa de olhos azuis, prefiro ficar por aqui mesmo no “X” da questão de como deve ser o corpo de uma crônica dentro dos padrões acadêmicos. Há quem diga que uma crônica não comporta um simples diálogo que seja, devendo a mesma discorrer apenas sob o foco da primeira pessoa do singular onde autor e leitor dialogam de forma clara e incisiva sobre a arte da boa verve.

Quando se fala em crônica, muitas são as questões levantadas na tentativa de enquadrá-la como gênero textual. O que é crônica? Quais suas características? O que diferencia a crônica do conto? É literatura ou jornalismo? Se após um século e meio de sua prática ao Brasil, ainda não se chegou a respostas definitivas, é porque a crônica é descompromissada demais para aceitar limites rígidos. Essa, por exemplo, não ambiciona acrescentar novas respostas àquelas já dadas, nem mesmo defender uma única definição como exata. 

A crônica nasceu na França, dentro dos jornais de sua época. Com o desenvolvimento da imprensa, passou a fazer parte dessas publicações aparecendo pela primeira vez em 1799, no Journal de Débats, em Paris. Quando surgiu, era uma miscelânea de ninharias publicada na parte baixa da página do jornal. Já na segunda metade do XIX, o folhetim deixa de ter essa cara e passa a ser chamado de crônica. Por hospedar-se no jornal, seu primeiro suporte, a crônica chega ao Brasil após o surgimento da imprensa brasileira, em 1808, com a vinda da família real portuguesa que impulsionou o País a modernizar-se para atender às necessidades da Corte de comunicar-se com seus súditos. Apenas em 1852, a crônica chegou aos jornais brasileiros pelas mãos de Francisco Otaviano, publicada no Jornal do Commércio, em uma seção chamada Folhetim.

As crônicas da segunda metade do século XIX eram muito parecidas com os textos publicados nos jornais franceses e, com o passar do tempo, as produzidas no Brasil foram ganhando características próprias e gradualmente se diferenciando dos textos com sentido documentário originados na França. Em terras tupiniquins, ganhou um caráter mais literário, fazendo uso de linguagem mais leve e envolvendo poesia, lirismo e fantasia através da pena de autores como Machado de Assis e José de Alencar, entre outros. Hoje os textos de Machado, por exemplo, nos parecem grandes demais para serem classificados como crônicas, o que se justifica pelos espaços ociosos nos jornais da época, no entanto, é uma situação muito distante de nossa atual realidade jornalística. Nas décadas de 1950 e 1960, afloraram cronistas brasileiros reconhecidos em nossa literatura como grandes escritores. Escrevendo para publicações como a Revista Cruzeiro e o jornal Correio da Manhã, os autores Rubem Braga, Raquel de Queiroz, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond, Nelson Rodrigues e Manuel Bandeira, que, aos poucos, foram dando à crônica brasileira um teor mais literário em substituição ao tom jornalístico original. Com isso o gênero foi se transferindo das gráficas para o prelo das editoras reunido em coletâneas saborosas de serem lidas.

Mas afinal o que diabos é uma crônica, amados ledores e ledoras? Segundo o dicionário Houaiss: Crônica é um registro de fatos históricos em ordem cronológica em um pequeno texto geralmente baseado em fatos do cotidiano, sendo que o primeiro significado diz respeito à sua origem histórico-narrativa, anterior à chegada ao jornal. Já o segundo e o terceiro significados atribuídos ao termo tentam definir a crônica que buscamos aqui entender. No entanto se um verbete de dicionário fosse suficiente para explicá-la, a questão não estaria alimentando mais de 150 anos de discussões e teses em torno do gênero. Se buscarmos a resposta nos teóricos da literatura encontraremos, por exemplo, um gênero literário, de prosa, ao qual menos importa o assunto, em geral efêmero, do que as qualidades de estilo; menos o fato em si do que o pretexto ou a sugestão que pode oferecer ao escritor para divagações borboleantes e intemporais. Manuel Bandeira também entendeu assim a crônica ao se referir aos textos de Rubem Braga “quando tem assunto é muito bom; quando não tem, é espetacular”.

Mas afinal o que diferencia uma crônica de um conto? A única conclusão indiscutível aqui é que a linha que separa os dois gêneros é muito tênue. Fernando Sabino escreveu que "crônica é tudo que o autor chama de crônica" e Mário de Andrade que “conto é tudo aquilo que o autor chamar de conto”. Diz-se sobre o conto que ele é mais ‘denso’ que a crônica, mas na prática não é possível medir tal ‘densidade’ e com isso alguns textos oscilam em diferentes classificações. Algumas histórias (vamos chamar assim) de Luís Fernando Veríssimo, por exemplo, foram classificadas tanto como contos quanto como crônicas, é o caso de "Santinho", "Minhas Férias", "Relógio Digital" e "Sementinhas" que pertencem simultaneamente à coletânea O nariz e outras crônicas, da coleção Para Gostar de Ler e à coletânea de contos O Santinho, da coleção Literatura em Minha Casa. Ou seja, assim como a crônica, o conto também é um fragmento da realidade, um recorte. No entanto, no conto, o narrador onisciente revela ao leitor não apenas o que viu acontecer aos personagens, como ocorre geralmente na crônica, mas também os sentimentos desses personagens, suas sensações e suas opiniões a respeito da situação vivenciada. Se imaginado como uma fotografia, o conto extrapola da moldura.

Este mero escriba, por exemplo, deixou de participar de certames envolvendo crônicas e contos porque muitas vezes vi contos serem aprovados como crônicas que se passavam por formas exóticas de escrita. Ora, tenhamos paciência! Se usarmos esses pesos e essas medidas, até bulas de remédios podem ser consideradas crônicas dadas às suas características sui generis de se apresentar ao leitor mais ávido de informações. Risos que se transformam em gargalhadas.

Mas, afinal, como digerirmos e diferenciamos o gênero crônica do gênero conto? Deixem-me, pois, tentar, digamos assim, diferenciar um do outro de maneira didática, se é que isso é possível: O conto geralmente trata de uma situação que se desenrola sem pausas, onde tudo deve ser muito simples, sem grandes complicações psicológicas e sem peripécias. O seu foco é levar o leitor ao desfecho, que também é o clímax da história. Tudo nesse tipo de narrativa se passa em um tempo curtíssimo, são apenas algumas horas ou alguns dias. Já a crônica trata do cotidiano, mas o reveste de fantasia. Normalmente é uma narrativa leve, breve e de fácil digestão, afinal deve ser digerida por todo tipo de leitor, pois apresenta fatos que tornam a leitura interessante, como novidades, surpresas e assuntos variados do dia a dia das pessoas. A crônica também pode trabalhar com o humor, propondo uma análise crítica de alguma situação por meio da ironia. Podemos encontrar várias crônicas em jornais, sendo o meio jornalístico um dos modos mais importantes de divulgação das crônicas.

A crônica, na maioria dos casos, é um texto curto e narrado em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está "dialogando" com o leitor. Isso faz com que a crônica apresente uma visão totalmente pessoal de um determinado assunto: a visão do cronista que pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia. 

Já o conto é a forma narrativa, em prosa, de menor extensão (no sentido estrito de tamanho), ainda que contenha os mesmos componentes do romance. Entre suas principais características, estão a concisão, a precisão, a densidade, a unidade de efeito ou impressão total, onde o mesmo precisa causar um efeito singular no leitor; muita excitação e emotividade.

Fica difícil, amados, dar-lhes um ponto final aos questionamentos desse “X” da questão. Uma vez que os debates sobre o que vem a diferenciar uma da outra pouco nos é afeito. Deixo, porém a minha visão do que venha a ser crônica dentro dos padrões estéticos que me foram ensinados em meus anos de acadêmico de Letras: crônica, no meu entender, não suporta os diálogos maçantes que o conto possui, tendo que ser ela – como já os vislumbrei em crônicas passadas – uma escrita de tiro rápido ou fast shot quando nos remetemos ao inglês.

Eu, particularmente, tento bater bola nos dois gêneros em questão. Confidenciando-lhes que quando logrei êxito máximo no 2º Prêmio Ideal Clube de Literatura, no ano de 1999, onde a categoria era crônica o fiz com um conto de minha autoria intitulado "Dois dedos de prosa com Graciliano Ramos". Ou seja, driblei os acadêmicos de plantão com a velha história das bulas de remédio.

Sem querer encerrar o assunto, meus caros, minhas caras, detenho-me por aqui, certo de que deixei mais dúvidas que respostas. Afinal, esse é o grande mote que move os moinhos de um cronista: o de apresentar sem mesmo ou nunca apresentar. Saudações literárias.

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*Túlio Monteiro - escritor, ensaísta e crítico literário.