Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.
(Manuel Bandeira no poema “O anel de vidro”)
Ao cabo e ao final, chegamos ao Z. O que fazer quando somos apresentados à última letra de nosso alfabeto, tonando-se ela, portanto, o mote para nossa derradeira crônica no que diz respeito ao abecedário Evoé!?
Escrever, é claro. E com alegria, certo de que a ideia do nosso ilustre editor será perpetuada em livros eletrônicos e/ou de papel mesmo. Lanço, então, meu primeiro desafio dessa que vos prometo ser de boa lavra. Maizena começa com Z ou S? Calma! Não precisa esquentar a cabeça agora nem correr para o dicionário mais próximo. Disso trataremos mais tarde. Porque a deixa dessa crônica, sua mola percussora, será o Z de Zorro! Isso mesmo! Aquela que trata do Robin Wood de capa e espada eternizado nas telinhas pelo saudoso Guy Williams. Isso nos anos sessenta e setenta do século passado.
Tecerei comentários a respeito de nosso herói logo que for possível, mas antes deixem-me esclarecer o significado de Zorro perante o dicionário de língua portuguesa: tal palavra é um substantivo masculino que indica – de acordo com o regionalismo do sul do País – a característica de uma pessoa manhosa, velhaca e astuta por assim dizer. Já em Portugal seu significado é ainda mais interessante, referindo-se a crianças enjeitas e abandonadas ou ainda filhos bastardos, nascidos fora do casamento.
Paro agora, de rompante, quando me vem à mente a grande figura de um quase primo meu, um dos sujeitos mais sensacionais que já conheci, mas que tem a desconcertante mania de ser velhaco no que se refere a abocanhar os livros alheios. Sério! O boa pinta não se faz de rogado quando o assunto é usurpar até as iluminuras de um romance qualquer. De mim, para servir de exemplo, nem bem sei quantos exemplares me levou o astuto. Mas não fiquem irritados, não. Uma vez que é bastante comum esse tipo de comportamento entre escritores. Eu mesmo sou danado para cometer esses pequenos delitos. Nesse aspecto sou réu confesso. Mas o caso de meu quase consanguíneo é digno de hospício e prisão, uma vez que o cabra é bom no que faz. Que o digam, cá para nós, os bibliotecários das bibliotecas Dolor Barreira e Menezes Pimentel. O homem é exímio no que faz, meus queridos. É de deixar o mais qualificado larápio desconcertados com suas artimanhas. Esconde livros entre seus próprios livros, pondo-os também nas cuecas visando com tal feito burlar os mais sofisticados sistemas de alarme antifurto. Pergunto eu e respondem-me vocês: Esse é ou não é um legítimo Zorro no que se refere às artimanhas e maneirismos do nosso substantivo comum. Aos menos avisados fica a dica para tomarem cuidado redobrado quando convidarem esse “vampiro” de livros a visitar suas bibliotecas. Uma raposa velha eu diria. Risos.
Vamos um pouco às nossas reminiscências infantis no que tendem as lembranças de dias que se foram e não voltarão mais nunca, porque o tempo não para. Zorro foi e é uma série de produção da Walt Disney (olhem o W e o Y aqui nos visitando). Baseado em um herói mascado, ela estreou no canal ABC em 10 de outubro de 1957 (feliz aniversário, musa que nasceu nesse mesmo dia e mês), tendo seu final ocorrido em 2 de junho de 1959. Como ainda não existiam transmissões ao vivo, os 78 episódios foram ao ar no Brasil entre janeiro de 1973 e março de 1974.
Daqueles tempos recordo de meu já saudoso pai a construir com as próprias mãos minhas espadas enferrujadas para que eu pudesse brincar de esgrima e duelos mil com meus amigos de pueris. Todos queríamos ser o Zorro, mas só um poderia reinar na pele que era incorporada pelo já ido Guy Williams (Ípsilon e dabliozinho insistentes, não?!). Era um tempo bom de solidão e solitude a representar o isolamento e a reclusão deste que viria a se tonar poeta não por sofrimento, mas, sim, por opção. Época de poucas ou nenhumas preocupações com a labuta do dia-a-dia. Momentos que se foram e não voltaram jamais. Prelibações maiores de uma estrela da vida inteira, posto que sejam infinitas as palavras de Manuel Bandeira quando afirmou: “Sou poeta menor, perdoai! Não faço versos de guerra. Não faço porque os não sei. Mas num torpedo-suicida darei de bom grado a vida na qual não lutei”. (Excertos do poema Testamento, de 1956). Um dos primeiros versos do Modernismo brasileiro, movimento encabeçado por Bandeira e os indeléveis Oswald e Mário de Andrade. O do Sul já que nós cearenses também tivemos nossos Mário de Andrade. Sim! Na plena efervescência do Modernismo brasileiro por aqui no Ceará também tivemos o nosso Mário de Andrade. Que fique, pois, registrada a informação.
E crendo ter sido mais salutar e saboroso desta vez, espero ter lhes proporcionado novamente algo digno de suas apreciações literárias. Despeço-me por aqui na certeza de que vou sentir saudades do abecedário de Kelsen Bravos, que tanto incitou a mim e ao Chico Araújo a terminarmos essa missão praticamente impossível no dizer de Carlos Emílio Correia Lima. Um imenso beijo! Um grande abraço! E fiquem com Deus. Ah! Ia me esquecendo. Risos. Maisena se grafa assim, com S. Porém, há uma exceção da regra que admite novos grafemas quando o tocante é a escrita de palavras homônimas. Aquelas que têm a mesma pronúncia, mas significados diferentes. Logo, maizena pode ser escrita com Z. Agora é tchau mesmo!
*Túlio Monteiro - Escritor, poeta, crítico literário, ensaísta, articulista do Evoé!