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sábado, 7 de dezembro de 2019

Se for assim, eu só sei que vou à luta - por Kelsen Bravos*

a Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Aldir Blanc, João Bosco,
Ariano Suassuna, Zé Dantas, Gonzagão e Gonzaguinha



“Há mais coisas no céu e terra, Horácio,
do que foram sonhadas na tua filosofia”
(There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy)
William Shakespeare, Hamlet


O bom de estar num bate papo com amigos é a falta de compromisso com qualquer coisa a lembrar a mínima formalidade acadêmica. Dispensa-se justificar qualquer argumento com um arrazoado conceitual de uma determinada teoria de base para demonstrar resultados empíricos sobre o tema de responsa em pauta.

Aliás, tema de responsa em um papo com amigos caracteriza-se pela gratuidade. Surge assim de repente da telha de quem nem se sabe quem o propôs. Daí ganha volume e explode em acaloradas afirmações as mais estapafúrdias.

São as mais estapafúrdias afirmações, eu lhes asseguro, todas elas dotadas dos mais densos sentidos, mas seria um rotundo despropósito levá-los a sério num bate papo, pois transformaria uma descontraída conversa em muito grave conflito entre emoção e razão.

Foi, pois, numa dessas conversas estapafúrdias que surgiu o tema para esta nossa hebdomadária crônica. “O homem quando nasce já está predestinado a morrer” e ainda foi-lhe acrescida, em tom pomposo, “entre o céu e a terra existe muito mais coisas que nossa vã filosofia”. Teríamos aqui uma citação de Hamlet, uma peça que permanece viva há mais de quatrocentos anos?!

Fico a imaginar agora o tremendo fracasso que seria Shakespeare se em suas peças fosse explicar com um arrazoado a podridão do poder. Imaginem se ele deixasse prevalecer a formalidade racional do personagem Horácio (que exclama como formidavelmente estranha a presença do fantasma do rei Hamlet) e não a passionalidade do príncipe Hamlet (que diz “se é estranho, então, dê-lhe boas vindas” [pois] “há mais mistérios entre céu e terra, Horácio, do que foram sonhadas na tua filosofia”).

Se em vez disso, fosse Shakespeare tergiversar sobre os mistérios do pós-morte, para justificar a vingança do príncipe Hamlet pela morte de seu pai e punir os corruptos, sua obra prima seria um fracasso, como está correndo risco de sê-lo agora, por enfadonho, este meu texto.

Isto posto, explicitamos como pressuposto único, tácito e universal, para um bate papo com amigos, não duvidar da verdade alheia. Não se deve questionar, por exemplo, - como verdade absoluta! - que o resultado quebrado da soma de dois mais dois seja de fato a origem da teoria terraplanar olaviana. E pronto!

E como esta crônica quer ser um bate papo com amigos, vou me furtar de falar de “O homem quando nasce já está predestinado a morrer”, primeiro porque não há morte. Vide o exemplo de William Shakespeare, o Bardo de Avon está vivo até hoje! Segundo, porque, se há morte, não se sabe nem quando, nem onde, nem como ela se dará, é, pois, também, como tudo no mundo, uma estranha incerteza. E, sendo, estranha, nos resta dar-lhe boas vindas!

Incertezas, é claro, devem ocupar o precioso espaço e tempo em nossas conversas com amigos. Ou vocês acham que o Ariano Suassuna, um mestre na arte de prosear, desprezaria o “eu num sei, eu só sei que foi assim” para explicar o inexplicável, o aquilo que é incerto para as filosofias, para a racionalização estraga-prazer?!

Uma roda de conversas entre amigos, um bate papo, um “diz-que-disse macio que brota dos coqueirais”, como nos cantou o Poetinha, é uma paratopia, uma espécie de Pasárgada, um lugar, ao mesmo tempo, sagrado e profano que para que se institua bastam pelo menos dois iguais se reúnam, como tantos outros iguais, para contar mentiras a fim de suportar a barra da realidade, essa contumaz estraga prazeres.

Ultimamente alguns amigos estão bem criativos nas mentiras que inventam para a gente suportar a barra da vida. Vejam só vocês que pérolas:

O presidente da Fundação Palmares, uma organização social de defesa da política afirmativa da negritude, declara que a escravidão foi benéfica, que Zumbi dos Palmares foi um atraso. Eita que mentira, que lorota boa!

O presidente do país, que diz “margens flácidas” ao cantar Hino Nacional, declara que peixes não se contaminam com óleo tóxico vazado no mar porque são inteligentes e fogem. O seu ministro do meio ambiente concorda e exemplifica. E tem mais, o presidente acusa Leonardo DiCaprio, um ator hollywoodiano, de ser o responsável pelos incêndios na floresta amazônica. Mas são umas lorotas e tanto!

O presidente da Funarte declara que os Beatles eram comunistas, que Althusser escrevia as letras da canção dos “comunistas de Liverpool". Quanta criatividade! Fantástico!!!

Todos eles acreditam que a Terra é plana.

O quê?! Não são mentiras?! Oh, Tupã, se a invasão da realidade ao espaço sacroprofano da conversa com amigos significa um rotundo despropósito contra a catarse das emoções reprimidas pela dura lida da vida, o que se dirá de a delirante catarse fascista ter virado a realidade?

Para tentar sanar a nação de tão surreal situação, vou seguir é o exemplo de Gonzaguinha, e ir com a juventude que não foge da luta a troco de nada, vou é junto do bloco da mocidade que sabe que é negro o coro da gente, e que, apesar dos pesares ainda se orgulha de ser brasileiro, que não está na saudade e por isso luta e constrói a manhã desejada. Evoé!

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, cronista, compositor, poeta, editor do Evoé!
 

sábado, 30 de novembro de 2019

Que lacanagem... - por Kelsen Bravos*

a Freud, Sartre, Lacan, Agepê
aos cantor e compositores da música General da Banda:
  Blecaute, Tancredo Silva, José Alcides e Sátiro de Melo 


Sensação de queda abissal, ou afogamento, ou perseguição, ou mesmo a de - quando se deixa de fumar - perder a respiração por causa da fumaça do cigarro... quem nunca acordou em sobressalto pela madrugada por causa de uma sufocante sensação de angústia? São tantas as formas de o nosso inconsciente nos proporcionar relaxamento. Uma delas é esta de tensionar o sono a ponto de nos acordar movido por estresse e depois, ao tomar ciência da situação, sermos envolvidos por profundo alívio que nos pacifica e nos aninha no sono dos justos.

A ciência afirma que ao dormir toda vez se sonha. O sono e o sonho são objetos das mais diversas análises. Do ponto de vista místico, a literatura cabalística sobre o significado dos sonhos é sem fim. Do ponto de vista científico, na psicanálise, por exemplo, Freud dedica capital importância aos sonhos e conclui que ele realiza desejos. Sartre diz que o homem dorme e sonha para satisfazer os seus desejos e acorda para realizar os seus sonhos. Lacan diz que só acordamos para continuar sonhando.

Acontece que muito pouco lembramos do que sonhamos; mas, a julgar verdadeira a afirmação sartreana, estamos todos, quando em vigília, a realizar o que sonhamos e isso nos dá prazer, alívio e paz de espírito. É, portanto, necessário, imprescindível, dormir, e bem. Mas a considerar Lacan, os devaneios, a fantasia, a angústia da vigília, consciente ou não, é também um sonhar. Então, o desejo de dormir, mais do que a necessidade, é um fator bastante considerável e carregado de sentidos.

Existe, entretanto, quem, embora sinta-se dominado pelo desejo de dormir, não consiga fazê-lo. É o caso daquele ser sombrio para quem o sono e o sonhar há muito não acontecem. Talvez por isso se atole numa ideia fixa, por ter cristalizadas as emoções mais pavorosas, em razão de não aliviá-las nem em sonho, porque não dorme. Acordado, vive seus pesadelos e não relaxa nunca. Vê em todos os desconhecidos uma ameaça, desconfia até dos amigos mais próximos. Vivencia a sufocante angústia acordado, desde o levantar ao amanhecer até a hora de deitar para (tentar) dormir.

Na hora de dormir, confere a arma sob o travesseiro, a outra na mesa de cabeceira e a da cintura. Longe delas não consegue nem deitar. Com elas, pelo menos tenta cochilar; é, porém, em vão. A acidez do estômago, o refluxo, a dor no fígado, o inchaço no pâncreas, a próstata inflamada, a incontinência urinária, a latejante e dolorosa hemorroida não o deixam em paz. Tal situação vem sendo agravada desde a colocação da faixa auriverde tiracolar que transformou um mito em comandante-em-chefe de uma republiqueta.

Vive transtornado por não conseguir dormir. Sonolento nele, só o raciocínio, a inteligência. O resto de si é uma insônia só. Que procure um especialista, recomendam os mais chegados, mas ele não confia em ninguém, vê traição na proposta.

Após incontáveis tentativas, a Menina de Cabelos Longos conseguiu convencê-lo a se tratar - assim chama a sua mulher, inspirado pela música de Agepê, não só por suas religiosas madeixas mas também porque sua presença o faz desejar comer, beber, dormir e não pagar; pois sim, ela o venceu pelo cansaço e fê-lo se consultar com um especialista ligado ao seu líder espiritual, pastor Mequetrefe, e ressaltou que foi indicado pelo Asqueirós, o sabe-tudo, seu homem de confiança.

O tal profissional dizia-se especialista em Lacan; mas era de araque, fazia mesmo era lacanagem. Com o conhecimento que tinha, seria bem capaz de ser convidado a assumir algum ministério do governo. Talvez o da Conversa para Boi Dormir.

Logo na primeira sessão, o especialista levou o paciente a concluir que o seu gostar da música Menina dos Cabelos Longos, de Agepê, não tinha nada a ver com a esposa, mas com o recalque contra nordestinos, nortistas e com a necessidade vital de usar armas.

O fato se deu pela insistência do paciente em deixar claro que só aceitou conversar com ele por causa da Menina de Cabelos Longos e também porque se negou a deitar num divã, preferiu ir para sua alcova, porque lá estavam suas armas fiéis.

Conversa vai, conversa vem, ele pediu que cantasse pelo menos um trecho da música e dela só lembrou de “eu sei que no nordeste tem cabra da peste /e no norte tem faca de corte e calor/ mas vou levar cheio de bala/ um trezoitão [pá-pá-pá-pá] na mala e um ventilador. [Porra!]”.

Daí, revelou a realidade, não era por causa da Menina de Cabelos Longos que gostava da música, mas pelo trezoitão na mala. Em epifânico êxtase, gritou aliviado que era isso aí, era isso mesmo [porra!], era pelo trezoitão, pá-pá-pá-pá! Você é bom mesmo, vai acabar ganhando um ministério [Porra]!

Naquele dia conseguiu mais do que um cochilo, chegou a dormir e sonhar; mas o sono acabou em angústia, viu-se sufocado por alguma coisa que lhe prendia o pescoço e gritava repetidas vezes a palavra “calma” com a letra L bem pronunciada e um som de R no final: “callllmar”...

Ao revelar o sonho de angústia para o especialista em lacanagem, este fez cara de estou entendendo e pronunciou calllmar bem interrogativo. Pediu que repetisse várias vezes tentando imitar a voz do sonho:

Calllma, calama, calama, calamar, CALAMAR! CALAMAR! CALAMAR! CALAMAR!... repetiu a ponto de perder o sentido de tudo ao redor, como em transe hipnótico.

No alto da sua sapiência lacanagemética, o terapeuta perguntou qual era o seu maior medo. E afirmava, você tem um medo colossal. Qual é o seu maior medo? Responda para si mesmo! Admita para si mesmo! Quem estava sufocando você no sonho?

O paciente começou a se contorcer em surto, tentava livrar o pescoço de um aperto, e também tentava livrar a cintura, as pernas, um braço, se contorcia, a coisa que o envolvia parecia ter vários braços. Entrava em desespero ao tentar sem êxito alcançar os trezoitões. Já quase sem ar, num fio de voz, conseguiu falar: calamar, calamar, calamar…

Lula! - exclamou o terapeuta. É uma lula-colossal! Calamar é sinônimo de lula-colossal. Ao ouvir o nome Lula, o paciente adotou posição fetal, foi-se encolhendo, dobrando-se sobre si mesmo até travar, e cair num soluçante choro aliviador. O terapeuta o envolveu e lentamente o trouxe do transe. Estava completamente extenuado e feliz, porque aliviado.

Dormiu profundamente naquela noite. Na sessão seguinte, estava bem tranquilo. Sonhara com a lula-colossal sendo dominada por Moros - o deus da sorte, do destino e da morte, um demônio (daemon), segundo a mitologia grega. Moros me salvou, porra! - exultou em pleno alívio.

Feliz da vida começou a cantarolar a música General da Banda: "Chegou o general da banda, êh-êh... mourão, mourão, vara madura que não cai/mourão, mourão, mourão, cutuca por baixo que ele vai..."

Mas o especialista em lacanagem ao ouvir a música lhe revelou algo muito mais grave, disse-lhe que o nome científico de lula-colossal é Mesonychoteuthis hamiltoni.

A revelação lhe trouxe acidez do estômago, refluxo, dor no fígado, inchaço no pâncreas, próstata inflamada, incontinência urinária e intestinal, seguida de latejante e dolorosa hemorroida, por fim o colocou num surto irreversível, depois de gritar: HAMILTONI?! Porrrrrr...

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*Kelsen Bravos - professor, escritor, cronista, compositor, poeta, editor do Evoé!

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Das coisas da poesia cearense: Mário da Silveira – um breve texto em primeira pessoa - por Túlio Monteiro*




A riqueza de um homem.

Quando encontraram Mário da Silveira
na mortalha de suas vestimentas,
notaram que o jovem poeta,
coroado de rosas e de espinhos,
carregava consigo um de seus sonetos,
e eu, ao lê-lo, hoje,
noto que ele morreu ricamente,
tendo poesia sobre seu peito!




Tomo I

Permitam-me apresentar-me: Sou Mário da Silveira, poeta, trovador, boa gente e, sem desvelo, um boa praça gentil com as mulheres e sensível ao toque dos aromas femininos.

Nasci em Fortaleza, capital do Ceará aos dezessete de setembro de 1899, filho de Raimundo da Silveira Gomes e dona Teodolinda Matos da Silveira. Estudei no Colégio Nossa Senhora do Carmo e Instituto de Humanidades, onde fui alvo do suave vício pelas letras clássicas, o que me tornou um precoce no que se refere ao erudito. Tanto é que, mal completados dezesseis anos, publiquei pela Tipografia dos Irmãos Jatahy o livro No Silêncio da Noite: fragmentos.

Em 1919, proferi na Casa de Juvenal Galeno a conferência A Eterna Emotividade Helênica, que me tornaria conhecido em Fortaleza bem como no Rio de Janeiro, onde em breve passagem pela então capital do País, trabalhei como secretário do escritor João do Rio no Jornal A Pátria, onde cativei em forma de amizade as companhias de Ronald de Carvalho e Raul de Leoni que, à época, idealizavam o que viria a ser a Semana de Arte Moderna.

Mas, voltando à conferência na Casa de Juvenal Galeno, que foi prestigiada por um sem número de pessoas, decantei o período Helênico em seus três principais critérios bem aos moldes de um Fernando Pessoa. Onde o primeiro deles aplica-se ao conjunto da vida, no qual a temos por imperfeita por nos parecer que ela vem a falecer naquilo mesmo por que se definem, ou seja, naquilo mesmo que parece que deveria ser. Sendo assim, todo corpo é imperfeito e toda a vida é imperfeita porque dura, mas não dura para sempre. Já em relação ao prazer físico há outra imperfeição porque o envelhece o cansaço. Quem sente desta maneira a imperfeição da vida e quem assim se compara a ela própria, tem neste ideal de perfeição o Ideal Helênico, assim designado pelos gregos antigos, o povo que mais distintivamente o praticou, deixando-o como herança maior às civilizações pósteras.

Como segundo critério, destilei aos presentes a vida imperfeita no tocante à deficiência quantitativa de sua essência, quando a considero inferior a qualquer coisa ou princípio, no qual, em relação a ela, resida a superioridade dos deuses. Sendo esta inferioridade essencial no relevante ao corpo humano e seu prazer sexual. Sendo ele vil e terreno, morre e com ele também se vai o prazer dos chacras, uma vez que a juventude se esvai como fumo leve: foge, mas porque a vida seja breve, há sempre um dia a mais para quem ama. Murcha a beleza que vemos porque cresce na haste temporal. Pois só Deus e Alma que Ele criou e a Ele se assemelha são, perante à ótica do Cristianismo, a forma ideal de existência.

Crendo que havia me feito entender até o presente momento da minha explanação, findei a palestra com o terceiro Ideal helênico, que aborda a vida por imperfeita por a julgarmos, enquanto seres humanos passíveis da morte eminente, nos deixamos levar pela suprema negação de que a vida é uma absoluta imperfeição. E é deste conceito de imperfeição que nasce a forma do ideal que nos é mais familiarmente conhecida como budismo, que trata da vida como um mero substrato metafísico.

Mergulhado em meu ego um tanto elevado ante meus dezenove anos de idade, rio-me por dentro ao captar rostos estupefados diante do que ouviam. Estava eu tratando e gerenciando uma palestra sobre ideais gregos na capital cearense. Algo assim sobre a civilização helênica que foi, essencialmente, uma civilização artística que, de certa forma, negligenciou o lado prático da vida, coisa que, confesso, também me atingiu em cheio, uma vez que nunca parei quieto em um emprego sequer que fosse, doando-me, incontingente, aos versos e ao farfalhar das saias das donzelas alencarinas. Pois fazer arte é querer tornar o Mundo mais belo, isso porque a obra de arte, uma vez gerada, constitui-se em beleza objetiva e que sempre deve ser acrescentada àquelas que existem na Terra. Pois é mister haver um critério objetivo de beleza ou de perfeição. Ora, dos três critérios de perfeição só o dos gregos tem objetividade. Que impulso natural pode ter para criar obras de arte, formas que pertencem ao Mundo e à vida, quem, como o cristão, tem o mundo por pó e mal, a vida por vileza e pecado, ou quem, como o místico da Índia, tem toda a Aparência por ilusão absoluta, flor que nasceu murcha na haste da Mentira? Se a criação artística não procedesse de um instinto irreprimível nas comunidades civilizadas, nunca teria havido arte índia, nem cristã. Onde O cristão é metafisicamente feliz. Tem os olhos da alma postos naquela perfeição divina em que não há mudança nem cessação. Pesa-lhe pouco a vileza do mundo: viver e ver são para ele um mal-estar transitório. Ao índio nada dói o haver Mundo; volta para o lado o rosto, e contempla em êxtase o Todo a que nem o Nada falta. É, o índico, metafisicamente feliz também.

Findada a palestra, os paparicos de costume me foram dados. Ciente de que a maioria dos presentes nada entendeu, senti meu alter-ego massageado. Coisas de um poeta insano, com seu um metro e oitenta de altura e peso bem distribuído. Cativador de corações femininos que tremem em seus balouçantes vestidos esvoaçados. Tendo por companhia minha eterna bengala, usada apenas como acessório de minha beleza ímpar, despedi-me de meu anfitrião, o poeta Juvenal Galeno e dirigi-me à Praça do boticário Ferreira. É domingo e, como de costume, vestes sacerdotais farfalham abundantes por aquele logradouro. Hora dos flertes às donzelas mais atiradas, ou não! Pena mesmo, como disse, ser tão ligado ao Ideal helênico que negligenciei o lado capital da vida, uma vez que só possuo dos paletós: um no corpo e outro no varal. Rio-me! Mas vou à caça.


Tomo II
É chegado o ano de 1920. Meus neurônios e hormônios joviais não me deixam mais quieto. Preciso e necessito trilhar novos horizontes. Conhecer novas plagas e descobrir novos corpos e olhos femininos. Despeço-me de pai e mãe e embarco em um vapor marítimo rumo à capital do Brasil. Rio de Janeiro, aqui vou eu. Por promessa trabalhista, pasmem, recebi um convite do poeta João do Rio para trabalhar n’ A Pátria, periódico de linha Modernista que precedeu a Semana de Arte que ocorrerá em 1922. Desembarco na capital fluminense e me extasio. Tudo é novo ante meus olhos de jovem moço. As praias são lindas e as moçoilas mais liberais que as do Ceará. Faca e queijo nas mãos.

Meus contatos cariocas não poderiam ser melhores, pois João do Rio, um senhor de trejeitos afeminados, fez questão de apresentar-me à fina flor da poesia local. Agora no Rio, decido por aqui passar breve temporada de um ano, com pretensões de voltar ao Ceará em 1921, onde irei produzir com afinco a poesia que direi à época da Semana de Arte, uma vez que o convite já me foi feito por Raul de Leoni e Ronald de Carvalho.

E pelo Rio fico-me. Um ano de prazeres intelectuais e carnais. É insana a vida carioca. Suas noites não se comparam às das plagas cearenses. São extremamente ativas, cheias de mais vitalidade e mocidade. Por cá componho como um louco. Poesias saltam-me aos dedos e penas insanas, donde, certa manhã compus Laus Purissimae, composto não somente de versos polimétricos, mas também de versos livres – bem ao fazer Modernista – porém com características Simbolistas. Apresento-os, a seguir, a abertura desse poema helênico com setenta e sete versos livres:

Laus Purissimae

Para louvar-te,
Para dizer da tua Forma, eu deixo
Minhas antigas, bárbaras roupagens
De grego jônico, e venho
Como um dórico
Num metro novo,
Numa nova expressão de arte quase intangível,
Platonicamente serena
(Que é o sonho louco dos mediterrâneos)
Venho, repito,
Para eterno ciúme dos Deuses,
Anunciar a rodos os estetas
Que nem tudo se foi da Beleza-Perfeita;
Que tu chegaste, ó minha Palas-Atenas,
Ó Suma Reveladora,
Ó Quase-Fluida! Ó Leve! Ó Subjetiva!


No início do ano de 1921, decido-me por voltar ao Ceará. Despeço-me dos amigos e amores e embarco em mais vapor marítimo rumo ao torrão natal. É hora de novas publicações. Inveterado boêmio, não fumo, não bebo nem entro em jogatinas. Entretanto, o serpentear de saias sempre foi o meu fraco e a noite minha eterna companheira. Absorto e livre do trabalho braçal, amanheço como anoiteço tendo por amiga eterna minha bengala e o velho par de paletós. Ainda assim, a beleza um tanto ímpar que me foi dada compensam a falta de vinténs.
Mário da Silveira - única foto do poeta

Tarde-noite do dia 22 de julho de 1921. Como de costume, estou na Praça do Ferreira a conversar amenidades. Sentado em de seus muitos bancos e tendo por apoio a velha bengala, não percebo o seu aproximar. Ele vem lento e um tanto indeciso. Titubeia o meu executor. No entanto, sua fúria é maior. A vingança vem a cavalo e por conta de um assédio mal resolvido. Era bela a moça, porém comprometida com uma abastada figura alencarina.

Só recordo do cano da arma. Escuro. Uma Smith-Welson carregada com cinco balas em seu feroz tambor. Mal tive tempo de bramir a bengala e os cinco balaços me transpassaram o corpo. É agonizante a minha morte. Apinham-se curiosos enquanto meu carrasco foge. Foge Carlos Gondim, mas não escapará de apodrecer na Cadeia Municipal – atual EMCETUR – onde morrerá louco e arrependido por ter estragado a sua e acabado com a minha vida. Em meus bolsos nada. Apenas um poema alexandrino perfeito, posteriormente publicado em Coroa de Rosas e Espinhos, livro póstumo onde amigos do porte de Antônio Sales publicaram em minha homenagem. 500 exemplares apenas.

Em seu prefácio, Antônio Sales assim descreveu minha morte e vida:

Este punhado de versos e prosa foi tudo quanto se pode recolher da vida e produção literária de Mário da Silveira, tragicamente desaparecido, com vinte e dois anos de idade. É muito pouco, mas é o bastante para dar uma ideia de sua estranha e vigorosa mentalidade.

Pagando, porém, tributo à sentimentalidade da raça, ele conservava uma ingenuidade de criança e uma afetividade de moça, e, é desse subconsciente moral que lhe vinham as notas líricas de seu estro, onde o pensamento filosófico se alia tão estreitamente aos sentimentos passionais, como se vê dos dez formosos e vigorosos sonetos de COROA DE ROSAS E ESPINHOS.

A adversidade colhe-o cedo em suas garras, e só o largou inerte, no chão de uma praça pública, com o corpo traspassado de balas. É preciso crer na predestinação para compreender a fatalidade de seu destino.

Aos mais amigos, um soneto de despedida escrito de próprio punho por Mário da Silveira. Predestinação?

COROA DE ROSAS E ESPINHOS
Sedenta de ódio, cega de despeito,
Nesta penosa e transitória lida,
A alma dos homens, pérfida e atrevida,
Perde às cousas mais nobres o respeito.

Dizem: “Tudo o que sentes no teu peito
Há de um dia passar, - porque na vida
Tudo é incenso sutil, poeira diluída,
O que é terreno é efêmero e imperfeito.

Um grande amor é como o resto...A gente
Quando menos espera, logo sente
Apagar-se o clarão de Ignota chama.”

Eu sei que tudo é como fumo leve:
Foge: mas, porque a vida seja breve,
Há sempre um dia a mais para quem ama!

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*Túlio Monteiro - é poeta, contista, crítico literário, articulista do Evoé! Leia mais em Literatura com Túlio Monteiro.



quinta-feira, 6 de setembro de 2018

MONÓLOGO PARA UMA MORTE ANUNCIADA? Hemingway - Túlio Monteiro*


O meu é uma resposta aos que chamam ao suicídio um fim de covardes e de fracos, quando são unicamente os fortes que se matam! Sabem lá esses pseudo-fortes o que é preciso de coragem para friamente, simplesmente, dizer um adeus à vida, à vida que é um instinto de todos nós, à vida tão amada e desejada a despeito de tudo, embora esta vida seja apenas um pântano infecto e imundo!
(Flor Bela Espanca)



Diachos! Nessa última meia hora nada mais fiz que relembrar e remoer o meu passado. Seis décadas inteiras de impotência, neuroses, alcoolismo e depressão. Já não consigo raciocinar direito nem lembrar bem de como se datilografa um escrito, um rabisco que seja nessa velha Smith-Corona que já me acompanha há anos por cada atril nos quais ela bem quis e descansou.

Eis que por um momento me vem à mente o velho Fitzgerald, que já partiu há pelo menos vinte anos, quando disse-me em uma carraspana memorável que para cada livro escrito eu teria que ter uma nova mulher. E rio por dentro ao ter afirmado a ele e a outros da minha estirpe, que não me apaixono, mas, sim, caso-me! Sim, caso-me como mal tendo completado 20 anos e já servindo à Primeira Guerra Mundial como motorista de uma ambulância da Cruz Vermelha, decidi por me casar com a bela Elizabeth Hadley Richardson, com quem tive um filho. Foi por influência dela e da enfermeira Agnes Von Kurowsky, que me atendeu após um bombardeio do qual me restaram centenas de estilhaços de uma bomba que explodira próximo ao local onde eram resgatados alguns soldados americanos, que dediquei às duas, em 1929, Adeus às armas.

Mas as Guerra de 1918 chegou ao fim e o Condado de Oak Park, onde nasci, ficou muito monótono para um homem grande e robusto como eu, 1.96m, de altura por 118 quilos de peso. Era demasiado curto ficar escrevendo para o pequeno jornal de minha terá natal. Precisando, urgente, conhecer novos horizontes. Novas plagas, outros arrabaldes.

Sem pensar duas vezes, mudei-me com Elizabeth e o menino para a doce Paris, que sempre foi e será uma festa. Estava empregado como correspondente da revista canadense Toronto Star Weekly. Não fosse essa mudança, nunca teria conhecido vates do porte de Ezra Pond, Sherwood Anderson, Waldo Peirce, John Dos Passos, T. S. Eliot, James Joyce e Gertrude Stein. Estava formada, em plena depressão do pós-guerra dos “Loucos anos 1920”, a “Geração Perdida” da Rue de Ledeon, número 12, e seu inesquecível Café-Livraria Shakespeare and Company.

Droga! Já lá se vão quinze minutos e eu neste polimento monótono e cansativo!

Entretanto, o tempo passou e como todos os grupos de pensadores nós nos afastamos. Cartas eram nossas relíquias trocadas com frequência britânica. Alívio às dores da alma que já me escancaram o cérebro.

Em Paris, meu primeiro casamento se foi, tendo eu me apaixonado pela jornalista Pauline Pfeiffer, com quem casei em 1927 e tive mais dois filhos, nesta época já morando na Flórida e frequentando bares do submundo, dentre eles o Sloppy Joe's Bar, de Joe Russell, até então meu confidente e companheiro de farras.

Amante que sempre fui de esportes, na década de 1930 parti com Joe rumo a uma pescaria de Marlins nos mares cubanos de Fidel Castro e sua Revolução Socialista. Foi paixão à primeira vista me hospedar no Hotel Ambos Mundos, localizado na Vieja Havana, onde passaria as próximas duas décadas em intenso combate aos meus transtornos mentais e depressões profundas.

Na ilha de Guevara, duas arrebatadoras paixões poriam fim ao já combalido casamento com Pauline. Primeiro, foi com Jane Mason, que era casada e não mediu esforços para estar em minha cama. Era a famigerada década de 1930. Em 1936, contumaz apreciador de mulheres destemidas que sempre fui, surgiu-me às já velhas e cansadas retinas a figura destemida de Martha Gellhorn, jornalista de guerra que de passagem por Cuba partiria para a Espanha em busca da cobertura da Guerra Cívil daquele país. Com o coração livre e um novo romance que daria à luz Por quem os sinos dobram, de 1940, parti às terras dos loucos moinhos de Cervantes como jornalista do North American Newspaper Alliance e, claro, para os braços de Martha.

E toda a Segunda Guerra passei nas terras de Fidel ao lado de minha terceira esposa. Foram anos duros de chumbo, recessão e milhões de mortes. 1946 chegou e com ele a Paz aparente. Cuba, como as touradas espanholas, já não me agradavam mais. Precisava voltar ao meu ninho norte-americano, mais precisamente à cidade de Ketchun, no condado de Blaine, estado de Idaho. Martha e eu havíamos decidido por não mais dividirmos vidas, o que mais uma vez me levou a uma profunda tristeza de viver ao alcoolismo exacerbado.

Diacho de polimento bolorento!

Porém, entre minhas andanças por revistas e jornais, encontrei a frágil e tímida jornalista Mary Welsh, um oposto completo das mulheres arrebatadoras que haviam passado por minha vida nada monótona. O diabetes, alcoolismo, depressão e a maldita homocromatose se aliavam à minha perda de memória com rompantes de lucidez que me trazem à lembrança a personalidade dominadora de minha mãe Grace, que sempre insistiu em me recordar do fim trágico que meu pai havia posto à sua vida terrena.

Lá se vão vinte e cinco minutos de uma apavorante solidão, do qual sei que não sairei ileso. A mente alucinada como os exaustivos monólogos interiores de Faulkner em seu Palmeiras selvagens.

E falo comigo mesmo e com meus pares já idos. Atormenta-me a imagem das orelhas de Van Gogh e a quintessência do gênio incompreendido, o artista onde discursos sobre loucura e criatividade convergem de maneira ao já esperado.

É 2 de julho de 1961 e a manhã se anuncia entre os pássaros que teimam em piar ao surgir de um novo arrebol. Já à beira de meus sessenta e dois anos dentro dos próximos dias, sinto-me cansado! Já não consigo dedilhar minha velha máquina de escrever e isso se torna dor suprema em articulações e nervos sacrificados. Escrever em pé, à maneira de tantos outros loucos que passaram pela História é conservadorismo que não mais posso exercer. E isso dói como doem as faltas dos amores partidos. Mary dorme. Já não há mais amor de mim para com ela. Como também já não há mais amor pelo Pulitzer de Ficção de 1953, nem pelo Nobel de Literatura de 1954. Nada mais vale a pena. Filhos distantes, cada um se ocupando de sus afazeres diários. De mim, o pai, somente uma lembrança amarelecida feito velhos papeis de carta.

Já é manhã feita. E o tempo se arrasta agourento, feito os corvos de Poe. Fim do polir e azeitar de meu velho rifle de caça. Um calibre 22 da Abercrombie & Fitch de minha estima. Lembranças de caçadas indeléveis na África Central.

Ora de ir!

Partir aos braços de Morfeu e ao reencontro de amigos que se foram antes de mim. Que fique meu legado!

E Hemingway não quis...

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*Túlio Monteiro - escritor, poeta, crítico literário e articulista do Evoé!

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sem confetes - Chico Araujo*

Dos poemas de Túlio Monteiro constantes nessa antologia, “Poesia” tem natureza metalinguística. Nela, o poeta declara a seus leitores o que a poesia significa para ele: um espaço de expressão no qual as palavras são costuradas com o propósito de dar voz a um eu lírico múltiplo de vivências e sentimentos. Isso é o que depreendemos dos dois primeiros versos; dos quatro últimos, o desnudamento de certa ansiedade positiva para a escrita de seu mundo interior.

Por isso, acolhemos a poesia de Túlio Monteiro como meio de revelação, muita revelação. Por meio dela, um eu lírico expressa, expõe, põe à vista do leitor latências incontidas. A partir dela, esse eu lírico faz transbordar, principalmente, sentimentos e sensações já não possíveis de contenção.

Desejo, lembranças, paixão, saudade, dores, solidão são elementos formadores de suas temáticas em exploração poética, em versos compostos em linguagem simples, o que permite aos leitores interação rápida com sua poesia, mesmo nos momentos de maior sutileza expressiva, quando nos deparamos mais intensamente com sua subjetividade.

Em “Teus olhos no vinho”, por exemplo, os dois primeiros versos expõem ao leitor um momento em que o eu poético declina um momento de recordação e, devido a ele, o despertar de uma saudade em amplitude tanta que a lembrança dos olhos da pessoa querida e desejada perduram em seu rememorar, pois “teimam em boiar / no escarlate do vinho”. Vê-se, nesse instante, o registro de validação de alegria, posto que, devido a ele, “Um sorriso franco me chega ao peito / feito feitiço em noite de lua cheia...”.

A imagem da pessoa amada nesse poema é tecida, subjetivamente, como prazer, encantamento e felicidade a partir da utilização de palavras e expressões como “sorriso franco”, “feito feitiço em noite de lua cheia...“ (aqui se deduz a grandeza da pessoa amada, posto que associada à dimensão subjetiva proporcionada pela lua quando está cheia), “saudade do teu carinho”; no entanto, a dubiedade dos sentimentos também é pronunciada quando emerge alguma tristeza pelo distanciamento do ser amado em “nunca mais te terei / ao alcance de meu beijo.”.

Em “Saudades das estrelas no corpo” e “Há pó de estrelas pelas estradas”, lembranças e saudades dão vazão a sentimentos de paixão que transitam pelo padecimento do amor sentido e pelo prazer lembrado, porém perdido. Os versos “Um tempo nunca mais retornado / Relembra a paixão e o viver.”, do primeiro, dizem bem de uma lembrança em recorrência no existir do eu lírico, uma insistente lembrança que não maltrata, pois significa vida. O amargor da saudade, contudo, aparece nos últimos versos desse poema, quando se fala do amigo que foi embora, do tempo que não pode retornar, do “grande amor” agora inalcançável.

O segundo, logo em sua primeira estrofe, expressa experiências sentimentais saudosas e alegres, uma vez que “o pó de estrelas pelas estradas” é motivo de prazer que leva a uma sensação de espírito pacificado. Essas vivências são despertas novamente por lembranças, posto que vindas dos “últimos já quase oito anos.”, tempo em que a experiência amorosa foi pretendida para um sempre, ao serem considerados os versos “amantes que, mesmo antes de tê-las, / já éramos antes, hoje e depois.”. Essa vivência amorosa do eu lírico está sempre marcada por momentos de amor partilhado e, depois, pela solidão do amor rompido, mesmo que essa solidão emerja não a partir de fatos, mas de temores pela perda. É o que se intui dos versos “Tantas lembranças dessas estradas / estão retidas em minha mente / tão temorosas de serem lembradas / por medo que o peito não aguente / todas as dores de amor geradas / pelas ideias de te ver ausente.”

A poética de Túlio Monteiro também pontua acentos de Intertextualidades, como, por exemplo, em “Saudades das estrelas no corpo”, uma vez que a última estrofe retoma, em parte, frase e estrutura poética de Casimiro de Abreu em “Meus oito anos”. De modo semelhante, no mesmo seu poema, Monteiro, por intermédio do eu poético, associa versos da música “Como nossos pais” – exatamente “... já faz tempo eu vi você na rua / cabelo ao vento, gente jovem reunida...” –, do compositor e intérprete sobralense Belchior, como elementos intensificadores das lembranças existentes. Também no poema "Há pó de estrelas pelas estradas", no título e no primeiro verso, o poeta Túlio Monteiro dialoga com o poema Plenilúnio, de Raimundo Correia.

Concluindo, destaco, ainda, do poema “Cigana”, certa e resoluta entrega amorosa do eu lírico a sua amada, negando-se a qualquer intenção premonitória – verdadeira ou ardilosa – de uma cigana aparecida em seu caminho; novamente a lembrança se fazendo presente e marcando as sensações amorosas que sente enquanto se permite molhar-se em chuva em “Verde, cor favorita”, poema que se encerra com mais um exemplo de intertextualidade.

No mais, importa ainda declarar a sutileza amorosa do poeta Túlio Monteiro em seu poema “Primeiro poema para Aline Monteiro”. Nele, vê-se um eu lírico alegre, descontraído, distenso, brincando com as palavras e com o registro de letras em algumas delas, de forma cândida para enaltecer a vida de sua musa inspiradora para o poema, a qual trata por princesa, linda, pérola morena, expressões que servem para destacar, dela, uma beleza ímpar.


O que mais dizer desses poemas de Túlio Monteiro nessa antologia? Bem... agora deixo com você, ledor.
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*Chico Araujo - professor, poeta, compositor, contista, cronista, escreve articulista do Evoé! O título "Sem confetes" foi escrito entre 25 e 28 de agosto de 2018.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Antagônico medo de mulher - Kelsen Bravos


".. eu tenho um pouco de medo de... não.. de mulher... talvez..." (V.M)



A palavra antagonismo bem merecia não existir; não existisse, entretanto, qual seria a necessidade da inteligência e da capacidade de se comunicar para se entender? Pensem bem, pois estamos a falar da principal razão de ser humana: conviver em harmonia! Entretanto, asseguro-lhes, as responsáveis pelo avanço das relações são as discordâncias. Daí a importância das pendengas antagônicas.

Pendenga antagônica que se preze não se resolve no âmbito abstrato das convicções sem provas. Não, senhor! Não, senhora! Uma questão bem complexa só terá conclusão eficaz, se for lastreada por apelo empírico como a ilação de Vinícius de Moraes no Poema Enjoadinho: "Filhos... Filhos? / Melhor não tê-los! / Mas se não os temos / Como sabê-los?". Solução harmônica ideal, aquela sem ter comprovação da experiência nos fatos vividos da vida, não vale. Tem de ser empírica "Como dizia o Poeta": "quem já passou por essa vida e não viveu / Pode ser mais, mas sabe menos do que eu/ Porque a vida só se dá/ Pra quem se deu / Pra quem amou, pra quem chorou / Pra quem sofreu, ai / Quem nunca curtiu uma paixão / Nunca vai ter nada, não..."

É também do Poetinha - a quem Antônio Maria, com razão (e emoção!), chamava de Poesia - a frase entre aspas da epígrafe deste arremedo de crônica. Foi uma resposta de Vininha a Otto Lara Resende numa entrevista, em 1977, no quadro Painel, da ("pé de pato mangalô treis veis") tevê Globo.

"- De que você tem medo, Vinícius? - sonda Otto Lara Resende.
- Hem?... - entrediz o Poetinha.
- ... é um homem tão corajoso! - estimula Resende.
- ... Eu tenho um pouco de medo de, de... não.. de mulher, talvez... - responde reticente e sincero entre risos.

Lara ainda pergunta se ele sobreviveria sem mulheres, sem a presença feminina, ao que ele diz achar que não, que, para ele, mulher é fundamental. A entrefala segue maravilhosa. Vale mil crônicas! Quem sabe...

Fiquei, entretanto, surpreso do medo maior do Poesia. Logo ele, quem tanto se doou a mulheres. Ora! Isso requer coragem, muita coragem. Depois concluí ser o medo o antagônico mais radical da coragem, entre os quais não há conciliação, apenas a necessária convivência, pois um é a razão de ser do outro. O medo existe para a coragem e a coragem existe para o medo. Qualquer outra coisa nessa ou dessa relação - a covardia ou prepotência, por exemplo - é corruptela de ambos. Só o corajoso tem medo, o Poetinha está certo. Tenho esse medo.

Apenas imagino alguns dos motivos para o medo de Vinícius de mulher. Sei que ele esteve aqui para viver o seu grande amor. Se viveu, não sei; mas buscou viver, ah como buscou. Teve muita coragem para tanto. Dos motivos meus, tenho vaga ideia, pois é também medo com talvez e tudo; sobretudo, com a necessidade fundamental, imprescindível da mais que presença delas.

Essa prerrogativa de o universo feminino ser imprescindível não se restringe a mim, nem ao Poesia, nem a alguns homens, nem a algumas mulheres, pois a necessidade da fundamental presença feminina é universal ao gênero humano.

Desde sempre, dos mais primitivos tempos aos nossos dias, a mulher tem sido fundamental e imprescindível. Embora a subjugação ao ponto de vista do macho tenha prevalecido durante milênios, a mulher sempre foi - e é - superior, porque mais inteligente. A maior prova está no fato de quanto mais embrutecida, mais animal (menos racional) tenha sido uma era, menor era a expressão da mulher do ponto de vista da hierarquia social.

Ao longo da história, toda vez que a mulher se insurgiu contra a injusta condição a ela imposta, foi repelida de forma brutal. Foram imoladas como bruxas, libertinas, diabólicas, desagregadoras sociais, toda variedade e força dos preconceitos usaram contra as mulheres para lhes fenecer qualquer ímpeto e subjugá-las. Tamanha opressão lhes fortaleceu a inteligência para resistir com estratégias diversas. A mulher tem, por isso, essência antagônica, e por maior rival a sociedade machista, seja ela de qual cultura for.

O feminismo é o coletivo da essência antagônica da mulher organizada em movimento ativista. E, claro, se opõe ao mais machista dos sistemas, o mais reificador, o mais opressor, se opõe ao sistema capitalista e a sua pior expressão que é o consumismo, que torna a tudo e a todos descartáveis.

O feminismo alimenta a essência do meu medo, pois me dá coragem. A mulher coletivamente me dá o medo como alimento necessário à minha coragem para lutar por um mundo melhor, por um mundo mais feminino. Sou feminista, portanto, anticapitalista sou. Minha luta combate o consumismo que reifica as pessoas e as relações.

A sociedade de consumo tem hoje formas sutis de repressão, a banalização é uma delas. Banalizaram, por exemplo, a violência de forma tão contínua ao ponto já termos uma sociedade anestesiada ante o escândalo de um homicídio e dos mais profundos desrespeitos aos direitos humanos por parte de quem tem como obrigação essencial zelar por eles. Uma situação tão perversa que as pessoas ou nem ligam ou acham normal e até aderem.

Da mesma forma banalizaram a sensualidade, o sexo, banalizaram o tesão. Estão também a banalizar a mulher. Reduziram a mulher à bunda, a tetas. Antagônicas a isso, as mulheres, numa inteligente estratégia, tentam agora dar “voz” à bunda, querem emancipar a bunda. Exacerbam a bunda feminina no universo machista, onde a bunda já é tão banalizada; expõem a bunda, facilitam a bunda, mas quando os machos querem a propriedade da bunda, eles sofrem o impacto do não, pois a bunda faz parte do todo de um ser pensante. Que o “não” é “Não!" Merece respeito, senão é estupro. E é sim! Estão certas! Tomara que dê certo! Mas tomara que a sociedade de consumo não se aproprie disso e banalize o não.

Esse, digamos, Movimento de Emancipação da Bunda me dá um medo… Não sabem as feministas das sutilezas da opressão? Não sabem que a banalização é uma das mais sutis formas de repressão? Sim, claro, sabem sim. As mulheres sempre foram e são mais inteligentes. Por isso me causa espécie ver mulheres, em uma estratégia de princípios homeopatas (aquela de curar doenças com substâncias semelhantes), apoiarem sua luta em argumentos e fatos machistas, consumistas, reificadores. Se dizem anti-sexistas e anti-machistas, mas, de fato, estão a promover o sexismo, o machismo. Mesmo que seja uma arapuca para capturar machistas, é uma promoção.

Na arte, tal estratégia se expressa na tentativa de reverter a coisificação representada na mulher objeto (a beleza em série, modal, a mulher-sexy, a mulher-bunda e catervagens afins), explora exatamente a beleza artificial da mulher fatal de bunda sexy e seios fartos. Uma mulher só linda, sem essência. Uma coisa-linda que, contudo, diz não. É sim uma atitude de muita coragem; porém, por não se diferenciar do contexto capitalista, corre o risco de ser anestesiada digerida pelo sistema a que se opõe. Pode não passar do homeopático efeito placebo, por falta de tomada de consciência, e, observem, já está acontecendo. Mais dia menos dia é capaz de interessar Harvard.

De fato, Povo do Meu Bem-querer, a palavra antagonismo bem merecia não existir; não existisse, entretanto, qual seria a necessidade da inteligência e da capacidade de se comunicar para melhor conviver? A vida não é brincadeira, como nos disse tão corajosamente o Poesia: “é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida…” vamos pôr mais amor nas nossas relações, pois as pessoas não somos coisas, temos vontade, desejos e sonhos… por isso somos opostos e sempre os opostos se atraem, mas acima de tudo somos semelhantes e devemos cuidar para as nossas semelhanças não anularem as nossas diferenças, sem elas não haveria razão de ser. Um beijo azul. Evoé!

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Kelsen Bravos - professor, escritor, poeta, compositor, editor do Evoé!.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Nilto Maciel sempre intensamente vivo

Na foto, comigo e o Jorge Pieiro, no Centro Cultural Banco do Nordeste do Brasil (CCBNB), o querido Nilto Maciel, referência para todos nós, compartilhou sua densa e leve presença plena de estrada e história no fazer literário, no fazer da vida Literatura, no fazer da vida encontro por meio das relações e da Literatura.

Que seja cada vez mais lido, para que promova cada vez mais encontros das pessoas de si para si e de si com os outros. Amar é não deixar morrer, por nós, o Nilto Maciel estará sempre intensamente vivo.

 A seguir a participação do Nilto no programa Dois Pontos (criação de outro querido, o Felipe Barroso) com nossa mais talentosa e promissora escritora Tércia Montenegro em língua portuguesa (anotem!)



Fonte: TV Unifor.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Clubes de Leitura saudades


Vou nestes dias, republicar algumas ações importantes na seara do Livro, Leitura e Literatura no Ceará.

Protagonismo e Clubes de Leitura [Update]

29 ABR 2009 | por  em ARTIGOS às 21:50

[Update]
Começamos hoje [29 de abril de 2009] a segunda turma da ação do Projeto Clube da leitura, esse é o link da produção  feita por eles durante o dia. E como surgiram alguns interessados nesse projeto, semana que vêm eu farei um post mais detalhado explicando diretinho o funcionamento de um desses clubes. Aproveito para passar o links dos vídeos de uma “sessão” que passei logo após o almoço para todos:
[Fim do Update]
Hoje começou a primeira etapa de um importante projeto para o estímulo da formação de novos leitores chamada Clubes da Leitura do Ceará. A ideia é formar um clube em CADA um dos 184 municípios do Estado com acervo de livros e planejamento estratégico próprio.
Por que estou postando isso? Porque estou participando desse projeto como consultor convidado pela Secretaria de Educação adicionando algo a ele que antes não havia: Cultura digital. Nessa nova proposta, eu e meu companheiro Kelsen Bravos, esperamos conseguir que cada um dos municípios crie um clube e um blog da leitura, esses servirão de comunicação e ligação entre eles, divulgando ações que possam ser replicadas, experiências, opiniões, sugestões de leitura, entrevistas, podcasts e abrindo espaço para comentários e interação. Eles estarão ligados a um grande blog agregador oficial, dessa forma os clubes não se sentirão “isolados”, nem dependerão de reuniões semestrais ou anuais para demonstrar as ações e resultados.
Essa formação vai durar até o final do ano e é formada por seis etapas, sempre com duas turmas de cerca de cem técnicos representantes dos municípios cada. Começamos com a primeira turma que está passando por dois dias de ofinicas e palestras, depois repetimos tudo para a segunda turma.
Como forma a eles poderem visualizar melhor o alcance dessas ferramentas que são os blogs e a internet. Publiquei alguns dos textos produzidos hoje com o tema Carta para o amanhã, leitura etc.
Esse vai ser um grande desafio pois, em geral, nossa cultura é aversa a leitura e as mudanças, mas estamos confiantes de que o esforço vale a pena.
Quem tiver algum conselho, dica ou mesmo uma força para dar, pode usar o espaço do comentários. Vlw!

http://www.sedentario.org/artigos/protagonismo-e-clubes-de-leitura-15194
Fonte: Publicado por Régis Freitas no sedentário.org