Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 15 de março de 2018

ANOTAÇÕES ANTES DE CHEGAR AO MAR ... - Carlos Emílio Corrêa Lima*

Os primeiros indícios das emanações dessa região de Java vieram-me num sonho onde ecoou como uma ostra perturbada por si mesma a frase sem cordéis, solta no espaço: “Java comeu seu cavalo.”

Esta região da grande ilha (dizem ser esta ilha na verdade um pequeno e velho planeta caído há milhares de séculos no Oceano Pacífico) era dedicada ao culto dos dragões e dos antepassados. Uma região demorada onde o tempo esculpia variações desconhecidas de colinas e de si mesmo. Dizem os primeiros relatos gravados pelos etnólogos da escola dinamarquesa que foi precisamente nesta área bem ao norte da ilha que canta com todos os seus minerais silenciosos, que aquela Terra chegada aqui nessa camada do universo pariu os primeiros seres humanos. Aqui, neste lugar em que escrevo, os avós de argila das atuais oleiras que vendem nas ruas meândricas da vila suas esculturas mitológicas bafejadas pela encosta da montanha cujas formas não têm equivalência nem se repetem musicalmente em nenhuma outra parte de outras ilhas da Terra, nos pátios desta cidade, essas mulheres que sempre se vestem de vestidos vermelhos, que vivem reclusas, oleiras cantoras mágicas, que quase jamais saem da sombra dos imensos e curvos telhados em forma de dragões trançados estilizados de palha, bambu e madeiras exceto em dias de feira, dias que parecem extremamente cavados e equilibrados pelo sol. Os maridos delas, seus irmãos, os cunhados, seus filhos e os pais deles também, todos eles, não sabem encontrar essa argila especial, retirá-la das garras invisíveis da terra, soprar sobre ela palavras evocadas do princípio, mover e moldá-la, para manifestá-la. Somente elas, que descendem da parte mais funda da cratera por onde os homens e as mulheres que depois as geraram foram paridos pela terra que caiu do céu, essa terra de montanhas de jade e borboletas gigantescas, verdadeiras tendas vivas aéreas, que trouxeram as cores, as frequências, aragens e presenças indissolúveis que ainda não existiam na Terra no oscilante e pulsante passado, somente essas mulheres sabem destas histórias entoadas também pelos ventos nas pontas dos istmos mais avançados sobre o mar, muitas já completamente perdidas não fossem as esculturas linguísticas que elas disseminam no espaço quando cantam seus versos vibratórios sobre os veios dizentes e secretos dos solos argilosos de onde extraem toda a força e os movimentos de suas mãos e seus gritos-filões, imensos alaridos de modelagem que transportam em coro quando descem da montanha com as massas úmidas e fortes extraídas do silencioso interior do território que veio do mais alto veio de diamante do céu num comprido rio de ruídos de cristal cadente que ainda reboa e ressente-se em toda as partes cientes tácteis do universo .

Antes do escaneamento dos anais da Sociedade Etnológica Dinamarquesa não havia sido notada a lacuna deixada por dois volumes da revista da entidade, que agora encontram-se na velha estante helicoidal em forma de serpente da biblioteca do monastério astronáutico, que é um transatlântico brancamente vedado que jamais ancora nos portos das ilhas ou continentes. Nele, neste navio mantido isolado em algum ponto desconhecido do Oceano Índico preservam-se em segredo todos os registros dos mitos da velha humanidade derrotada, mitos que não podem mais ser sabidos, relembrados, tinidos, bigornados, faiscados. Foram mais de trezentos pequenos planetas e retorcidos volumosos asteróides (ostras-meteoros com suas pérolas mentais dinamando suas reentrâncias radioativas tonais) que desabaram em sucessivos-simultâneos momentos em muitas partes do quase infinito gelatinoso mar primicial, cuja tonalidade e conteúdo não era da consistência e essência desse azul escuro e esverdeado rumoroso de agora. Esse novo mar atual é um novo tipo de sangue geral de diferentes salinidades, densidades, velocidades e profundidades que se prepara para seres ainda mais desconhecidos e reversivos que ainda não foram criados nem gerados nesse mundo, mas que era então de um sangue marítimo cetáceo manifesto bem mais anterior e recessivo, quando ainda não haviam sequer seres para ele , que ele neles vermelho circulasse, se infiltrasse, seu líquido habitante, que tal proeza márgica fosse fenômeno assim somente então para o tempo mais adiante, quando da multiplicação dos corpos. Tudo ainda não era este nosso atual futuro, futuro de hoje, do tempo presente, o mais distante e veloz de todos os futuros, que aqui passo a relatar, futuro à Leste de tudo. Acabrunhado e atônito, fugi das cidades desnucleadas onde ficara muito tempo estonteado diante de metais intensíssimos, lisos e prontos para serem ocupados pela mente geral, arrancados que foram também à mais remota escuridão, mas os quais destinam-se ao desvio de nossa atenção para assuntos muito distantes, sem vinhos das lendas das ilhas imensas , ilhas todas que caíram do céu, ilhas de jade, tório, ferro, molibdênio e granito com os seus grandes estampidos-invólucros, as grandes histórias-maremotos e suas flores-território, flores-oceânicas, templos de quedas colossais, fugi dessas cidades para sempre.

Java terá sido o primeiro planeta-escultura a cair sobre o universal mar de hemoglobina, o mar de púrpura de antes da existência dos seres, submarinos, terrestres e aéreos, e de todos os homens - e de suas navegações - pois nada vivia e flutuava de qualquer modo e intensidade sobre ele, ele ainda era totalmente exterior, vermelho e total, líquido da vida geral, à espera da queda orquestrada de todos os meteoros e planetas de ouro sobre ele, um ser escutando infinitamente espumoso a chegada das clavas celestes, das ilhas que cairiam do céu. Java foi a primeira a cair, a ilha que canta para o mar escarlate anterior, quando nele mergulha. A ilha que fendeu e fecundou o plasma original. Solidificantou-se ainda mais (pois com o impacto não chegara a se fragmentar), do alto proclamada. Ilha astral ajustada ao mar, o qual foi mudando de cor desde então, quando ferido em muitos de seus pontos por todos os meteoros, que foi se azulando em lentamente remota gradação. Ao que, dessa ilha-meteoro, por uma estranha rachadura em sua superfície, brotaram os primeiros seres móveis viventes, que, saídos da gruta-mãe, da cachoeira, se adentraram através dos rios, na sua floresta.

São essa esculturas cantadas que vejo ritualmente agrupadas nas platibandas dos mercados das pequenas vilas de ruas meândricas nas encostas da grande montanha da ilha de Java e que vou trocando por diminutas ostras com estas mulheres atentas. Dizem que esses cantos-esculturas ressuscitam os cavalos e que alimentam diretamente as estrelas. Antes que elas novamente caiam sobre o grande mar, dessa vez de agora, temporariamente azul, da Terra.

________________________
*Carlos Emílio Corrêa Lima - contista, editor, crítico literário, mestre em literatura pela UFC.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

CEM ANOS DEPOIS - Túlio Monteiro





Chegou a desolação da primeira fome.
Vinha seca e trágica, surgindo no fundo
sujo dos sacos vazios, na descarnada
nudez das latas raspadas.
(Rachel de Queiroz “O Quinze”)


– Eita, homem! Que sequidão é essa?!

– Sei lá, mas pelo piado desse bem-te-vi o negócio vai ser brabo pelo resto do ano. Dessa vez falta água de até nas vazantes dessa terra desgraçada e miserável.

E o calor transcorria seco, rasgado e modorrento pelos ares nada úmidos daquele interior perdido no tempo. Parecia fogo em brasa. E como onde há fumaça há fogo por lá também havia. Restos de bois e cabritos magros abandonados por Deus e até mesmo pelo diabo naquela torridão de chão que já se alastrava até a capital.

Caminhavam cabisbaixos em número de três contando os mosaicos formados pelo barro que havia surgido onde antes havia água para uma boa pescaria regada a uma pinga de cabeça, coisa que só eles sabiam o que era. Largaram tudo e rumaram para a cidade mais próxima. Pior do que ali não podia estar – dizia o que aparentemente era mais esperto dos miolos.

– Diachos! Nem meu burro velho escapou comendo palma. Taí o resultado desse ano de 15. Gente morrendo de fome e nós no meio delas. Se pelo menos pai tivesse sobrevivido aos maus-tratos das dores nas pernas ele ia dar uma luz de pra onde a gente ir.

No caminho, léguas e légua já percorridas, uma casinha de taipa ou a sombra de um bom juazeiro sempre serviam de abrigo ali pelo meio-dia, quando ficava impossível de caminhar sem rumo, ou pelo faro como dizia o menos servido de raciocínio.

– Foi aqui onde nasci e me criei. Pai e mãe, avô e vó, todos eram agricultores. Não tenho vontade de deixar, de sair e ir para cidade não tenho vontade, não. Fui criado na agricultura e queria viver por aqui mesmo até quando Deus quiser.

– Cala a boca e anda, irmão. Eu te falei pra não trocar tua bezerra por esse tal de telefone celular que taí, na tua matalotagem, sem servir pra nada. Nem eletricidade tinha mais lá em casa quando tu fez essa bela troca com aquele galego dos diabos, que apareceu por lá cheio de porcarias pra vender e pra trocar. Mas, não, você foi na dele e deu no que deu. Tá lá, a casa fechada. Cadeado na meia porta sujeito a qualquer um invadir nossa morada de barro batido que pai fez pra a gente morar em cima daquele lajedo. Burro!

Deve ser um segredo guardado a sete chaves pelos centenários sertanejos que ainda habitam aquela região, mas muitos comentam ao pé do ouvido que há, com certeza, uma profecia sertaneja preconizando que a cada cem anos uma devastadora estiagem irá assolar todas as redondezas. A seca sempre virá destruindo e queimando tudo, tangendo da vida animais e plantas, amedrontando o homem mais destemido e demonstrando todas as fragilidades dos viventes diante das forças revoltosas da natureza. Reza uma lenda, que isto estava escrito num pedaço de umburana, guardado dentro de um alforje carcomido e escondido numa gruta nas proximidades da divisa entre Canindé e Poço Redondo. Conto assim porque assim me contaram, porque assim ouvi falar.

Com o mormaço por companheiro, o terceiro irmão que até ali não havia aberto a boca, saiu-se com essa lembrança. Coisa passada de ouvido a ouvido por gerações inteiras sobre almas penadas e gente morta de sede.

– Vocês lembram de quando vô ficava proseando com os amigos e falou que já fazia tempo que uma tal de seca de 1915 tinha quase acabado com esse nosso Ceará? Vinha ele e tio Abinêr conversando por uma estrada e começaram a conversar sobre o assunto, e foi quando um deles parou e disse espantado: “Danou-se, cumpade, pois se dizem que uma das maiores secas foi a de 1915, a que vem aí vai ser em 2015, que é quando completa cem anos”. E seguiram caminho acima, visivelmente preocupados, sem trocar mais nenhum pé de palavra.

– Para de conversa, besta dos diachos, e anda sem falar tanta porcaria. Tá vendo aquele pé de Juá lá na frente? – Disse o irmão mais velho, atalhando a vista com a palma da mão para encobrir o tremeluzir do vento quente que tracejava ilusões de ótica nas vistas cansadas daqueles três andarilhos.

– Vamos parar por lá hoje pra mode descansar. Quem sabe num tem uma alma viva numa casa qualquer pra nos dar uma noite de descanso e um pouco de água e comida?!

Com efeito, a seca de 1915 foi uma das mais terríveis que já se espalhou pela região nordestina. Foi a inclemência da devastação de tudo acima e abaixo da terra, do desespero do homem e da dizimação dos rebanhos, da fome e da sede alastradas em progressão alarmante, das muitas e muitas levas de retirantes abandonando seus lugarejos já quase mortos. Foi nessa estiagem que, para impedir que os retirantes se dirigissem à capital, o governo cearense criou campos de concentração nos arredores das grandes cidades, nos quais recolhia os flagelados. A varíola fez centenas de mortos no Campo do Alagadiço, próximo a Fortaleza, lugarejo onde em 1829 nasceu José de Alencar.

Lá se espremiam mais de 8 mil pessoas, sem a presença de condições sanitárias, que recebiam alguma comida e permaneciam vigiados por soldados. A segregação dos miseráveis era lei, mas chegou um momento em que o flagelo em massa era tão chocante, com uma média de 150 mortes diárias, que o governo do Estado ordenou, em 18 de dezembro 1915, como contam os arquivos dos jornais da época, a dispersão dos flagelados, ou “molambudos”, como eram também conhecidos. O que era ruim ficou pior ainda.

Dados informam que durante semelhante estiagem teriam morrido pelo menos 100 mil nordestinos. Outros 250 mil migraram para escapar da “velha do chapelão” – como a fome era conhecida no imaginário do semiárido.

Segredos de alforje ou não, parecia que a velha profecia voltava a se realizar e os três irmãos, enfim, chegaram ao precioso pé de Juazeiro onde pessoas não havia, mas a sombra que por lá se agigantava deu guarida aos caminhantes e suas pernas já cansadas de tantas léguas tiranas. Ficariam por ali até à noite quando a fresca da madrugada, enfim, resfriava um pouco o enfado de um dia inteiro a caminhar no rumo da tão sonhada cidade de Fortaleza, onde tinham parentes que, quem sabe, os socorreriam ante tamanha necessidade.

A tarde veio, a noite chegou e o silêncio só era quebrado agora pelos piados das corujas rasga-mortalhas que teimavam em sair à noite à caça de roedores, esses sim, uma verdadeira peste nos descampados do sertão jaguaribano.

Uma pequena fogueira tinha sido acesa para assar um velho pedaço de charque que ainda teimava em sobrar nas mochilas carregadas às costas pelos três irmãos. O mais velho, soturno e quase sempre calado quando a noite chegava estava lá com seus medos de visagens, quando se saiu com uma solução pensada e repensada milhares de vezes.

– Amanhã bem cedo vamos tratar de pegar uma dessas pistas para a gente dar um rumo melhor da cidade. Andando por esses torrões sem eira nem beira não vamos chegar é em lugar nenhum. – Afirmou, tendo por concordância o balançar de cabeças de seus irmãos mais novos.

Dito e feito! Pelo amanhecer do dia e com o calor já comendo de esmola, rumaram para a rodovia mais próxima de que tinham notícias. Má escolha. Os poucos caminhões e carros que passavam se recusavam terminantemente a lhes dar carona e o solo abrasador do asfalto só aquecia mais as laterais cheias de seixos. O máximo que tinham conseguido era um pouco de água que um caminhoneiro resolveu lhes dar juntamente com carnes enlatadas retiradas da carga que, às pressas, rumava em sentido contrário ao seu.

Mais um dia de sequidão e solidão conseguiram, por fim, caronas mal-ajambradas em cima de um caminhão que conduzia uma carga de caixas de mantimentos para Fortaleza. Enfim, chegariam à cidade da luz onde, sem saberem, dois milhões e meio de pessoas se apinhavam num indo e vindo de transeuntes a caminho do trabalho ou à procura desse.

Tinham que encontrar os parentes que pelo que sabiam também não andavam bem das finanças, mas haveriam de lhes dar um norte, um trabalho qualquer para ajudar a tocar a vida. Como estava indo para a Governador Sampaio descarregar, o caminhoneiro os deixou no centro de onde poderiam encontrar condução para o bairro que eles buscavam. Desceram e agradeceram com o gestual típico do povo interiorano para, rotos, desapareceram em meio à multidão de pernas que se apressavam em mais uma manhã de segunda-feira causticante. Estavam na cidade grande, onde nenhum deles jamais tinha pisado. Uma sensação de perda ficará para trás ao mesmo tempo que, abismados com tantas pessoas e prédios, se interrogavam como chegariam ao endereço contido em um velho pedaço de papel. De casa, só as lembranças perdurariam, enquanto se engendravam pelas ruas da capital do Sol em busca talvez de nada.

___________________
Túlio Monteiro escreve todas as segundas-feiras, aqui no Evoé! Leia também seus textos em Literatura com Túlio Monteiro.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Da série Nilto Maciel: O cabra que virou bode


Nilto Maciel sempre intensamente vivo

Na foto, comigo e o Jorge Pieiro, no Centro Cultural Banco do Nordeste do Brasil (CCBNB), o querido Nilto Maciel, referência para todos nós, compartilhou sua densa e leve presença plena de estrada e história no fazer literário, no fazer da vida Literatura, no fazer da vida encontro por meio das relações e da Literatura.

Que seja cada vez mais lido, para que promova cada vez mais encontros das pessoas de si para si e de si com os outros. Amar é não deixar morrer, por nós, o Nilto Maciel estará sempre intensamente vivo.

 A seguir a participação do Nilto no programa Dois Pontos (criação de outro querido, o Felipe Barroso) com nossa mais talentosa e promissora escritora Tércia Montenegro em língua portuguesa (anotem!)



Fonte: TV Unifor.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Newton Silva - o contista - nos apresenta Os encantos de dona Orlanda

Charge-persona de Newton Silva

Newton Silva por Newton Silva
Miniconto nitroglicerinado, provocado pelo acaso, costurado pelo destino, consumado pela vingança, engendrado pelo Newton Silva, Os encantos de Dona Orlanda foi um dos agraciados para coletânea do Prêmio de Literatura Unifor, edição 2013. Precisa se unir a mais uns tantos num livro de contos deste camarada que, além de um genial chargista, é, como mesmo afirma, poeta bissexto e cronista. A literatura anda carecendo de seu talento. Ponto.

Leia o conto clicando em Orlanda.