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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Das coisas da poesia cearense: Mário da Silveira – um breve texto em primeira pessoa - por Túlio Monteiro*




A riqueza de um homem.

Quando encontraram Mário da Silveira
na mortalha de suas vestimentas,
notaram que o jovem poeta,
coroado de rosas e de espinhos,
carregava consigo um de seus sonetos,
e eu, ao lê-lo, hoje,
noto que ele morreu ricamente,
tendo poesia sobre seu peito!




Tomo I

Permitam-me apresentar-me: Sou Mário da Silveira, poeta, trovador, boa gente e, sem desvelo, um boa praça gentil com as mulheres e sensível ao toque dos aromas femininos.

Nasci em Fortaleza, capital do Ceará aos dezessete de setembro de 1899, filho de Raimundo da Silveira Gomes e dona Teodolinda Matos da Silveira. Estudei no Colégio Nossa Senhora do Carmo e Instituto de Humanidades, onde fui alvo do suave vício pelas letras clássicas, o que me tornou um precoce no que se refere ao erudito. Tanto é que, mal completados dezesseis anos, publiquei pela Tipografia dos Irmãos Jatahy o livro No Silêncio da Noite: fragmentos.

Em 1919, proferi na Casa de Juvenal Galeno a conferência A Eterna Emotividade Helênica, que me tornaria conhecido em Fortaleza bem como no Rio de Janeiro, onde em breve passagem pela então capital do País, trabalhei como secretário do escritor João do Rio no Jornal A Pátria, onde cativei em forma de amizade as companhias de Ronald de Carvalho e Raul de Leoni que, à época, idealizavam o que viria a ser a Semana de Arte Moderna.

Mas, voltando à conferência na Casa de Juvenal Galeno, que foi prestigiada por um sem número de pessoas, decantei o período Helênico em seus três principais critérios bem aos moldes de um Fernando Pessoa. Onde o primeiro deles aplica-se ao conjunto da vida, no qual a temos por imperfeita por nos parecer que ela vem a falecer naquilo mesmo por que se definem, ou seja, naquilo mesmo que parece que deveria ser. Sendo assim, todo corpo é imperfeito e toda a vida é imperfeita porque dura, mas não dura para sempre. Já em relação ao prazer físico há outra imperfeição porque o envelhece o cansaço. Quem sente desta maneira a imperfeição da vida e quem assim se compara a ela própria, tem neste ideal de perfeição o Ideal Helênico, assim designado pelos gregos antigos, o povo que mais distintivamente o praticou, deixando-o como herança maior às civilizações pósteras.

Como segundo critério, destilei aos presentes a vida imperfeita no tocante à deficiência quantitativa de sua essência, quando a considero inferior a qualquer coisa ou princípio, no qual, em relação a ela, resida a superioridade dos deuses. Sendo esta inferioridade essencial no relevante ao corpo humano e seu prazer sexual. Sendo ele vil e terreno, morre e com ele também se vai o prazer dos chacras, uma vez que a juventude se esvai como fumo leve: foge, mas porque a vida seja breve, há sempre um dia a mais para quem ama. Murcha a beleza que vemos porque cresce na haste temporal. Pois só Deus e Alma que Ele criou e a Ele se assemelha são, perante à ótica do Cristianismo, a forma ideal de existência.

Crendo que havia me feito entender até o presente momento da minha explanação, findei a palestra com o terceiro Ideal helênico, que aborda a vida por imperfeita por a julgarmos, enquanto seres humanos passíveis da morte eminente, nos deixamos levar pela suprema negação de que a vida é uma absoluta imperfeição. E é deste conceito de imperfeição que nasce a forma do ideal que nos é mais familiarmente conhecida como budismo, que trata da vida como um mero substrato metafísico.

Mergulhado em meu ego um tanto elevado ante meus dezenove anos de idade, rio-me por dentro ao captar rostos estupefados diante do que ouviam. Estava eu tratando e gerenciando uma palestra sobre ideais gregos na capital cearense. Algo assim sobre a civilização helênica que foi, essencialmente, uma civilização artística que, de certa forma, negligenciou o lado prático da vida, coisa que, confesso, também me atingiu em cheio, uma vez que nunca parei quieto em um emprego sequer que fosse, doando-me, incontingente, aos versos e ao farfalhar das saias das donzelas alencarinas. Pois fazer arte é querer tornar o Mundo mais belo, isso porque a obra de arte, uma vez gerada, constitui-se em beleza objetiva e que sempre deve ser acrescentada àquelas que existem na Terra. Pois é mister haver um critério objetivo de beleza ou de perfeição. Ora, dos três critérios de perfeição só o dos gregos tem objetividade. Que impulso natural pode ter para criar obras de arte, formas que pertencem ao Mundo e à vida, quem, como o cristão, tem o mundo por pó e mal, a vida por vileza e pecado, ou quem, como o místico da Índia, tem toda a Aparência por ilusão absoluta, flor que nasceu murcha na haste da Mentira? Se a criação artística não procedesse de um instinto irreprimível nas comunidades civilizadas, nunca teria havido arte índia, nem cristã. Onde O cristão é metafisicamente feliz. Tem os olhos da alma postos naquela perfeição divina em que não há mudança nem cessação. Pesa-lhe pouco a vileza do mundo: viver e ver são para ele um mal-estar transitório. Ao índio nada dói o haver Mundo; volta para o lado o rosto, e contempla em êxtase o Todo a que nem o Nada falta. É, o índico, metafisicamente feliz também.

Findada a palestra, os paparicos de costume me foram dados. Ciente de que a maioria dos presentes nada entendeu, senti meu alter-ego massageado. Coisas de um poeta insano, com seu um metro e oitenta de altura e peso bem distribuído. Cativador de corações femininos que tremem em seus balouçantes vestidos esvoaçados. Tendo por companhia minha eterna bengala, usada apenas como acessório de minha beleza ímpar, despedi-me de meu anfitrião, o poeta Juvenal Galeno e dirigi-me à Praça do boticário Ferreira. É domingo e, como de costume, vestes sacerdotais farfalham abundantes por aquele logradouro. Hora dos flertes às donzelas mais atiradas, ou não! Pena mesmo, como disse, ser tão ligado ao Ideal helênico que negligenciei o lado capital da vida, uma vez que só possuo dos paletós: um no corpo e outro no varal. Rio-me! Mas vou à caça.


Tomo II
É chegado o ano de 1920. Meus neurônios e hormônios joviais não me deixam mais quieto. Preciso e necessito trilhar novos horizontes. Conhecer novas plagas e descobrir novos corpos e olhos femininos. Despeço-me de pai e mãe e embarco em um vapor marítimo rumo à capital do Brasil. Rio de Janeiro, aqui vou eu. Por promessa trabalhista, pasmem, recebi um convite do poeta João do Rio para trabalhar n’ A Pátria, periódico de linha Modernista que precedeu a Semana de Arte que ocorrerá em 1922. Desembarco na capital fluminense e me extasio. Tudo é novo ante meus olhos de jovem moço. As praias são lindas e as moçoilas mais liberais que as do Ceará. Faca e queijo nas mãos.

Meus contatos cariocas não poderiam ser melhores, pois João do Rio, um senhor de trejeitos afeminados, fez questão de apresentar-me à fina flor da poesia local. Agora no Rio, decido por aqui passar breve temporada de um ano, com pretensões de voltar ao Ceará em 1921, onde irei produzir com afinco a poesia que direi à época da Semana de Arte, uma vez que o convite já me foi feito por Raul de Leoni e Ronald de Carvalho.

E pelo Rio fico-me. Um ano de prazeres intelectuais e carnais. É insana a vida carioca. Suas noites não se comparam às das plagas cearenses. São extremamente ativas, cheias de mais vitalidade e mocidade. Por cá componho como um louco. Poesias saltam-me aos dedos e penas insanas, donde, certa manhã compus Laus Purissimae, composto não somente de versos polimétricos, mas também de versos livres – bem ao fazer Modernista – porém com características Simbolistas. Apresento-os, a seguir, a abertura desse poema helênico com setenta e sete versos livres:

Laus Purissimae

Para louvar-te,
Para dizer da tua Forma, eu deixo
Minhas antigas, bárbaras roupagens
De grego jônico, e venho
Como um dórico
Num metro novo,
Numa nova expressão de arte quase intangível,
Platonicamente serena
(Que é o sonho louco dos mediterrâneos)
Venho, repito,
Para eterno ciúme dos Deuses,
Anunciar a rodos os estetas
Que nem tudo se foi da Beleza-Perfeita;
Que tu chegaste, ó minha Palas-Atenas,
Ó Suma Reveladora,
Ó Quase-Fluida! Ó Leve! Ó Subjetiva!


No início do ano de 1921, decido-me por voltar ao Ceará. Despeço-me dos amigos e amores e embarco em mais vapor marítimo rumo ao torrão natal. É hora de novas publicações. Inveterado boêmio, não fumo, não bebo nem entro em jogatinas. Entretanto, o serpentear de saias sempre foi o meu fraco e a noite minha eterna companheira. Absorto e livre do trabalho braçal, amanheço como anoiteço tendo por amiga eterna minha bengala e o velho par de paletós. Ainda assim, a beleza um tanto ímpar que me foi dada compensam a falta de vinténs.
Mário da Silveira - única foto do poeta

Tarde-noite do dia 22 de julho de 1921. Como de costume, estou na Praça do Ferreira a conversar amenidades. Sentado em de seus muitos bancos e tendo por apoio a velha bengala, não percebo o seu aproximar. Ele vem lento e um tanto indeciso. Titubeia o meu executor. No entanto, sua fúria é maior. A vingança vem a cavalo e por conta de um assédio mal resolvido. Era bela a moça, porém comprometida com uma abastada figura alencarina.

Só recordo do cano da arma. Escuro. Uma Smith-Welson carregada com cinco balas em seu feroz tambor. Mal tive tempo de bramir a bengala e os cinco balaços me transpassaram o corpo. É agonizante a minha morte. Apinham-se curiosos enquanto meu carrasco foge. Foge Carlos Gondim, mas não escapará de apodrecer na Cadeia Municipal – atual EMCETUR – onde morrerá louco e arrependido por ter estragado a sua e acabado com a minha vida. Em meus bolsos nada. Apenas um poema alexandrino perfeito, posteriormente publicado em Coroa de Rosas e Espinhos, livro póstumo onde amigos do porte de Antônio Sales publicaram em minha homenagem. 500 exemplares apenas.

Em seu prefácio, Antônio Sales assim descreveu minha morte e vida:

Este punhado de versos e prosa foi tudo quanto se pode recolher da vida e produção literária de Mário da Silveira, tragicamente desaparecido, com vinte e dois anos de idade. É muito pouco, mas é o bastante para dar uma ideia de sua estranha e vigorosa mentalidade.

Pagando, porém, tributo à sentimentalidade da raça, ele conservava uma ingenuidade de criança e uma afetividade de moça, e, é desse subconsciente moral que lhe vinham as notas líricas de seu estro, onde o pensamento filosófico se alia tão estreitamente aos sentimentos passionais, como se vê dos dez formosos e vigorosos sonetos de COROA DE ROSAS E ESPINHOS.

A adversidade colhe-o cedo em suas garras, e só o largou inerte, no chão de uma praça pública, com o corpo traspassado de balas. É preciso crer na predestinação para compreender a fatalidade de seu destino.

Aos mais amigos, um soneto de despedida escrito de próprio punho por Mário da Silveira. Predestinação?

COROA DE ROSAS E ESPINHOS
Sedenta de ódio, cega de despeito,
Nesta penosa e transitória lida,
A alma dos homens, pérfida e atrevida,
Perde às cousas mais nobres o respeito.

Dizem: “Tudo o que sentes no teu peito
Há de um dia passar, - porque na vida
Tudo é incenso sutil, poeira diluída,
O que é terreno é efêmero e imperfeito.

Um grande amor é como o resto...A gente
Quando menos espera, logo sente
Apagar-se o clarão de Ignota chama.”

Eu sei que tudo é como fumo leve:
Foge: mas, porque a vida seja breve,
Há sempre um dia a mais para quem ama!

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*Túlio Monteiro - é poeta, contista, crítico literário, articulista do Evoé! Leia mais em Literatura com Túlio Monteiro.



sábado, 28 de outubro de 2017

A dona Rita me deixou o sorriso e na felicidade dela o meu assunto - Reginaldo Almeida Garça*

Reginaldo Almeida
Hoje, 28 de outubro, é aniversário do meu amigo Reginaldo Almeida de poesia cuja expressão se esplende no audiovisual. Fotógrafo, cinegrafista, produtor cultural, educador, um artista e tanto, desses com quem conversar faz o tempo passar sem ser notado e sempre lamentar-se quando acaba. Voz mansa, timbre de locutor de rádio, um tremendo boa praça para quem tem o privilégio de sua simpatia. Reparem bem na foto dele, digam-me se num é estar a ver Ernest Hemingway. Não é só na aparência, entretanto, que parece escritor, este texto dele sobre a lembrança da dona Rita, sua Mãe, e a Rádio Universitária FM é um primor de afeto. No dia 27 de julho, colhi o texto do FaceBook e lhe perguntei se podia publicá-lo aqui no Evoé! "E desde quando, Kelsen Bravos, você precisa de minha permissão para fazer isso, meu irmão?" Com um aval desses, espero seja esta a primeira de todas as inúmeras por vir... Evoé, irmão, feliz aniversári\O/! (KB)

A dona Rita me deixou o sorriso e na felicidade dela o meu assunto 

Há sete anos morreu dona Rita, minha Mãe. Foi a maior perda que já tive e com que tenho de aprender a lidar até hoje. Algo que me causou profundas mudanças de comportamento, inclusive, reafirmando antigas impressões e fazendo surgir novas formas de vivenciar a minha existência sobre a terra.

Não posso dizer que a morte de minha Mãe me fez um ser humano melhor, nem tampouco pior; no entanto, devo afirmar, com plena convicção, que esse episódio me permitiu entender o que é felicidade de verdade. Dito assim parece até que estou festejando a morte dela e, claro, não é isso; porém foi a partir da sua ausência que pude ter um parâmetro pelo qual eu vim entender o que realmente me fazia feliz. E hoje posso afirmar que era a convivência com ela o ponto alto de minha felicidade. Um momento pleno de luz era o simples fato de vê-la cantar e dançar ao ouvir a música, escolhida por ela, que pedíamos pelo telefone e que a Rádio Universitária FM atendia e agradecia "ao pedido de dona Rita Almeida".

Agora depois de ela ter partido, eu sei... era um dos meus momentos mais felizes de minha vida, ver Ela na sala de nossa casa cantando, dançando e repetindo o bordão de um dos locutores da rádio sempre quando uma canção realmente boa terminava: “Boniiiiiiiiiiiito”.

Funcionários da Rádio Universitária FM.
No dia 26 de julho de 2017, em um passeio com Júlia Garça, 11 anos de idade, entramos na sede da Rádio Universitária FM numa visita acompanhada por um funcionário muito gentil que nos levou pelos corredores, salas, estúdios e discoteca. Tive, então, a confirmação do que é felicidade e do poder positivo que ela nos causa.


Depois de irmos a mais alguns dos ambientes, chegamos a um dos estúdios onde estava sendo produzido o programa “Brasil Em todos os Tempos” que eu ouvia com Minha Mãe. Lá estava o mesmo locutor de voz potente e tão familiar para mim. Ao ser apresentado como visitantes, ele cumprimentou a mim e a Júlia e quando eu disse o meu primeiro nome, deu-se o seguinte diálogo:

 Você é o Reginaldo que mora no conjunto Jereissati?
– Sim, Reginaldo Almeida Garça.
– Rapaz, você é o Reginaldo da Dona Rita!?!
 Sim! Sou eu mesmo (já emocionado), surpreso, pois havia uns anos que eu não ligava mais pra pedir músicas...

Geraldo Oliveira e Reginaldo Almeida
Naquele momento, vieram todas as memórias guardadas de Dona Rita cantando, dançando e repetindo ao final das canções que ela escolhia e me falava pra eu pedir pra que pudéssemos ouvir, cantar e dançar na sala de nossa casa: Boniiiiiiiiiiiiiiiiiiiito...

Para não deixar dúvidas felicidade, pra mim, portanto, é: Ter plena consciência de que existem momentos intangíveis e impagáveis que ficam em nosso ser, e só são descritos como felicidade quando comparamos com os demais momentos de nossas vidas, ou seja, quase sempre depois!


Naquele 26 de julho, fui muito feliz com as memórias revisitadas e relatadas para Júlia, para o nosso amigo de longas datas Geraldo Oliveira e ao operador de som que também faz parte dessa história de Felicidade!



Funcionários da Rádio Universitária FM.
Obrigado a todos que fazem essa emissora de rádio que há muitos anos faz parte da minha história! 

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Reginaldo Almeida Garça - Fotógrafo, cinegrafista, produtor cultural, educador, coordenador de Audiovisual na ONG Caixeiro Viajante da Leitura.
Fotos do FaceBook de Reginaldo Almeida.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

DA REMODELAÇÃO DE FORTALEZA - Túlio Monteiro

Disciplinar a expansão urbana e aformosear a cidade. Tal objetivo visava, em um futuro breve, facilitar o escoamento do movimento urbano e, principalmente, obter uma nova planta que viesse a regulamentar e organizar a expansão de Fortaleza, o que só se consegue até 1930. O projeto topográfico constituía o sistema de traçado urbano em forma de xadrez, do centro até os subúrbios já existentes e os que haveriam de surgir. Tratava-se de um traçado que possuía três bulevares principais, as atuais avenidas do Imperador, Duque de Caxias e D. Manoel. O sistema de grandes avenidas resultava na devastação de grandes áreas e era concebido para fins de dominação e ordenamento da expansão urbana, o mesmo corrigia becos, desvios e ruas desalinhadas que facilitavam a ocorrência de motins urbanos, substituindo-os por vias alinhadas, longas e cruzadas em ângulo de 90º que favoreciam a vigília do poder sobre a cidade. 

O crescimento da exportação algodoeira para o mercado externo dinamizou a economia cearense e contribui para tornar Fortaleza o principal entreposto comercial do Ceará, face à sua condição de sede político-administrativo provincial, à construção da ferrovia Fortaleza-Baturité e às melhorias implementadas em seu porto. A estrutura social da cidade sofreu modificações com a emergência de novos grupos dominantes, a constituição de camadas médias afluentes compostas de profissionais liberais, além do surgimento de um contingente de trabalhadores pobres, ativos ou em disponibilidade, configurando-se assim, a formação de um mercado de trabalho urbano em Fortaleza.

Neste contexto de acontecimentos urbanos, surgiu as tentativas de remodelar a capital, embelezando-a e racionalizando-a. Assim Fortaleza buscava copiar de exemplos europeu, principalmente francês, diversos projetos urbanos. As noções de progresso e civilização tornaram-se eixos básicos dos discursos e práticas desses novos setores dominantes, autoproclamados como restauradores da situação de "atraso" em que o País estaria encerrado o que não impediu a resistência popular à construção desse modelo burguês.

Entretanto, o crescimento econômico não minimizou os efeitos produzidos pelos investimentos na sociedade, no controle da saúde, nos hábitos higiênicos e no comportamento da população, bem como nas alterações efetuadas no espaço e na arquitetura da cidade.

DAS AS REFORMAS URBANAS

A Santa Casa de Misericórdia

Estando totalmente entregue ao público em 1861, a Santa Casa de Misericórdia foi um dos principais empreendimentos realizados pela companha em meados do século 19. Encarada pelo saber médico como algo emergente que viria reagir em socorro aos vitimados por alguns flagelos do meio cultural e social, como foram as epidemias de febre amarela de 1851 e de cólera de 1862/4, até da seca de 1845.

A Santa Casa de Misericórdia está localizada entre o Passeio Público e a antiga Cadeia Pública, onde hoje é a Emcetur (cento comercial de artesanatos de Fortaleza).

Cemitério São João Baptista

O cemitério S. João Baptista, ou "Cemitério Novo", como chamavam outrora, recebeu a bênção para ser ativado em 5 de Abril de 1865. Após uma série de denúncias feitas pelos administradores locais, sanitaristas e higienistas, o antigo cemitério de São Casemiro, o "Cemitério Velho", foi condenado pelo seu excesso de lotação e, sobretudo, pela localização. A própria escolha do novo cemitério, a situar-se no bairro de Jacarecanga, remete-nos à lógica dos sanitaristas: por ser uma área distante da cidade de então, e por estar situada em posição oeste, ou seja, a sopravento, livre do vento espalhar a bactéria da cólera pela cidade.

A necessidade da construção de um novo cemitério deu-se quando o risco de uma epidemia provocada pela Cólera Morbus foi identificado por alguns sanitaristas da cidade, em virtude de estarem enterrados no antigo cemitério algumas das inúmeras vítimas da cólera que haviam padecido. Pelo fato de Fortaleza estar em constante crescimento urbano e, sobretudo, pela forte repercussão que teve o saber higienista na organização dos espaços urbanos em meados do século 19, o antigo cemitério de São Casemiro (popularmente conhecido como o do "Croatá"), que em 1849 fora construído para receber todos os mortos da cidade, e inclusive das áreas suburbanas, procurando, assim, evitar a existência dos cemitérios clandestinos, foi fechado em 1865 e, logo após demolido em 1877 para a construção da estação ferroviária que ligava Fortaleza a Baturité, em virtude do escoamento do algodão vindo daquelas bandas do interior.

Em 1880, foram exumados do Cemitério Velho os restos mortais de algumas das mais importantes e ilustres personalidades de nossa cidade para permaneceram no novo cemitério de São João Baptista. Dentre os mortos, os restos mortais de Pessoa Anta e Pe. Mororó, que por sua vez já havia sido exumado dos seus respectivos leitos funéreos existentes na Catedral até pelo menos 1845.

Sobre o aspecto social dos defuntos enterrados no cemitério São João Baptista, necessitamos nos referir à geografia interna deste logradouro, onde as famílias dos setores médios e populares encontram-se enterradas do meio do cemitério para o fim, enquanto as pessoas da elite encontram-se enterradas logo em seu início. Quanto aos estilos esculturais e arquitetônicas encontrados nos jazidos ali existentes, esses variam do Neoclássico ao Romântico (gótico e neo-barroco).

Estação Ferroviária

A atual praça Castro Carreira (popular Praça da Estação) era local onde as tropas coloniais e imperiais costumavam treinar suas milícias, sendo também local para o povo realizar seu esporte da cavalhada e torneios hípicos. Tal espaço era denominado "Campo dona Amélia", sendo que, a partir de 1871, em função da construção da estrada de ferro, recebe o popular nome de Praça da Estação e mesmo depois da praça ter sido rebatizada com o nome do médico e senador Castro Carreira. O que prevalece até hoje é o nome popular.

O sonho de construir uma estrada de ferro e sua estação central se concretizou através de um pacto associativo entre algumas personalidades locais e o governo da província. A obra que foi iniciada em 1871 e inaugura em grande estilo em 09 de junho de 1880, visando ligar inicialmente a cidade de Fortaleza ao município de Pacatuba. Entretanto, a obra se estendeu até Baturité passando a se denominar Companhia Cearense da Via-Férrea de Baturité. Anos depois, em 1878, já sob o comando do governo imperial, a malha viária é estendida, ligando o porto de Camocim à cidade de Sobral. 

Na construção da estação Eng. João Felipe, foi empregada como mão de obra exclusivamente os retirantes da seca de 1877, que para Fortaleza acorriam em decorrência daquela terrível calamidade.

A localização da estação foi considerada ideal, apesar das críticas, pois no local havia o cemitério São Casemiro, que foi demolido em função das obras, pois, segundo a tradição da época tal edificação deveria ser vista do mar e, formando ao longo da rua João Moreira um complexo arquitetônico de expressiva significação dos valores humanos e progressistas, compreendidos palas seguintes edificações públicas: o forte-quartel, o Passeio Público, a Santa Casa de Misericórdia e a Cadeia Pública. A intenção maior era de "iludir" o navegante que se aproximava que aqui também havia autoridade, espaço para lazer, saúde, segurança e progresso. 

Passeio Público

Surge o Passeio Público no local onde situava-se a Praça dos Mártires, que foi remodelada com o implante de bancos, canteiros, café-bar, réplicas de esculturas clássicas e 3 planos ou avenidas, uma para o desfrute das elites, a segunda para as classes médias e a terceira para os populares. O Passeio tornou-se a principal área de lazer e sociabilidade das grandes famílias da época, merecendo fotografia dos seus mais diversos ângulos, sendo ainda hoje ponto de diversão para todas as classes sociais da cidade.

O desenvolvimento comercial, de novos serviços, da industrialização, a supressão do trabalho escravo, as secas periódicas foram fatores que contribuíram para o crescimento populacional da capital do Ceará. Essa massa urbana preocupava os governantes e círculos de saber locais, que para discipliná-los e assim amenizar a tensão social, instalaram escola primária e oficinas para os detentos da Cadeia Pública (1882), empreenderam campanha para casamentos de amasiados (1885) e construíram o Asilo de Alienados São Vicente de Paula (1886) para retirar os loucos de circulação e ao Asilo de Mendicidade, inaugurado no mesmo ano, onde eram recolhidos os mendigos.

Teatro José de Alencar

Em 1910, no Governo Accioly, surgia na reformada Praça Marquês de Herval (hoje Praça José de Alencar), a maior obra arquitetônica de Fortaleza até o presente, o Theatro José de Alencar. O teatro, que era frequentado apenas pela elite cultural da cidade e constituía uma certa “ordem civilizatória”, coincidiu com a implantação do serviço canalizado de abastecimento de água e esgoto, sob pena de agrava-se o já alto índice de morbidade e mortalidade que assolava a cidade.

Mas a construção do teatro não escondeu os problemas do governo Nogueira Accioly, já que a cidade passava por explícita pobreza e estagnação, onde a maior parte da população vivia em dificuldades financeiras. O crescente descontentamento do povo eclodiu com os movimentos oposicionistas a Accioly. Uma verdadeira guerra civil nas ruas e praças, que culminou com a deposição do oligarca, tendo por um dos líderes o farmacêutico Rodolfo Teófilo, integrante de oposição a Accioly, e que se tornara célebre por ter vacinado em domicílio e gratuitamente grande parte da população. As eleições vieram logo após a revolta, com a vitória do candidato Franco Rabelo.

Praças Públicas

Contando com o apoio da população, Franco Rabelo procurou concentrar sua gestão na governabilidade da Capital, no pouco tempo em que durou, realizou diversos melhoramentos na Cadeia Pública, demostrava preocupação em disciplinar os contingentes mais pobres para salvaguardar a ordenação urbana, trabalhou a saúde pública, instalou o Instituto de Amparo à Infância, retomou o projeto de saneamento de água e esgoto e seu Governo teve uma importante participação de Ildefonso Albano, que tomou uma série de medidas de higiene pública. O Intendente Albano viabilizou o serviço de limpeza pública dividido a cidade em quatro distritos, proibiu a venda ambulante de qualquer objeto que causasse sujeiras nas ruas, trabalhou para conservação de calçamentos, criou uma banda municipal, realizou a abertura da Avenida Senna Madureira, reformulou a Praça General Tibúrcio, próximo ao Palácio do Governo, onde antes tinha-se apenas um depósito de materiais e que servia de pastagem para animais.

Já a energia elétrica chegou em 1914, através da Ceará Light and Power Co., eletrificando os bondes, antes puxados por burros, passando a cobrir pontos mais distantes da capital. À mesma época, em 1917, surgiu o primeiro cinema, o Cine-Theatro Majestic, localizado na Praça do Ferreira. A regeneração das praças, foi além do mero aformoseamento, facilitando a circulação e determinando novas regras de convívio e utilização do espaço público, além de estimular a prática de exercícios corporais nos jovens e estudantes, tida como benfazeja aos costumes e a saúde. Com a inauguração do serviço de abastecimento de água e esgotos, foi procedida a reformulação da Praça do Ferreira, a principal da cidade. A obra foi exigida por motivos higiênicos e estéticos, mas, sobretudo, para racionalizar a circulação de pedestres, bondes e automóveis.

No entanto, a partir da década de 1930, o espaço urbano de Fortaleza sofreu um crescimento desordenado e de forma espontânea que deu lugar a aglomerados de edificações precárias na periferia da cidade, algumas destas com características de favelas. Para as camadas dominantes, a expansão e a movimentação pública do perímetro central fez com que se transferissem do centro para áreas periféricas desocupadas, formando-se os primeiros bairros ricos.

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Túlio Monteiro - escritor, biógrafo, pesquisador, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.





quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Pedro, o distribuidor de bolachas - Chico Araujo


Um trabalhador comum, não mais que isso. 
Um trabalhador comum, empregado, recebedor de salário para suster sua família.
Laborioso comum, daquele tipo ciente da sua importância para o perfeito funcionamento da empresa – toda engrenagem precisa de todas as peças azeitadas – e da necessidade de seu trabalho em favor do dia a dia da mulher e dos filhos.
Pedro – nome originado no grego Pétros – literalmente “pedra”, um rochedo onde se pode fincar habitação com segurança. Pedro não era metáfora; foi a segurança de sua família por todo o tempo em que ela dele dependeu – “rochedo”, por princípio e, então, metaforicamente, “porto seguro”.
Em correspondência à responsabilidade que sabia ter em relação a sua linhagem, não a desapontou, provendo-a do necessário sem negar-se ao escorrer do suor no rosto, sem fugir às tarefas da labuta cotidiana.
Pedro, por valor dialético, de tão comum seria incomum. Simples, nas ações de maior complexidade, como a de dizer a seu primeiro descendente que sonhou em deixar a cidade interiorana em busca de abraçar, na capital, vida mais afortunada:
- Vai, meu filho. Vai e não apeie nunca de seu sonho. Estuda, porque nesse novo mundo pra onde você tá indo, quem procura o estudo vale muito. Vai, meu filho, faz seu caminho. Tem a minha bênção.
O filho veio, trazendo na bagagem toda a alegria da esperança que circunda um sonho, deixando na casa dos pais aquela saudade que só a sabem os genitores que amam em profunda sinceridade a sua descendência, os quais, por isso mesmo, oram em silêncio, várias vezes ao dia, contritos em suas crenças, pedindo a seu Deus Tudo transcorra em bênçãos e paz.
O filho veio, deixando nas lágrimas dos irmãos o desejo do reencontro para breve, cumprindo-se, então, a promessa de resgate de todos, assim que as condições permitirem.
Pedro, uma fortaleza.
Na sua terra, cidade interiorana, a dos monólitos, foi mesmo homem de trabalho, família e Fé. Na junção das três vertentes, brotou-lhe a consciência de que o homem não deve viver para si, pois, por existência em sociedade, seu dia a dia não lhe pertence; ao contrário, todo novo dia encaminha o homem ao encontro do seu semelhante, mesmo que em atitudes não percebidas, mesmo que sua consciência não o permita alcançar essa sua importância.
O trabalho realizado cotidianamente concede ao trabalhador o salário – quase nunca o desejado – que o leva à sobrevivência e à dos seus. No entanto, o resultado dos afazeres desenvolvidos, em profunda medida, extrapola a remuneração do laborioso e se imiscui na sociedade, em seus diversos campos de funcionamento. Em outras palavras, o trabalho realizado, diariamente, em empresas privadas e em órgãos públicos, se dimensiona em perspectiva social.
Pedro, também José (nome de origem no hebraico Yosef, significando “Ele acrescentará”, referindo-se a Deus), em algum momento de sua existência, atingiu essa consciência, e mesmo a explorou para a formação dos seus. E foi compreendido, suas lições foram aprendidas: todos os que resultaram daquela raiz, ramificaram e deram frutos geradores de novos e de outros frutos, compondo um processo natural de perpetuação de sua espécie. Pedro José acrescentou, com a benção de Deus, multiplicou, honrando o próprio nome.
Pedro José, consciente, simples e amável, tinha pelas crianças o carinho do pai agregador, aquele transformador de cada momento em uma ocasião especial para se festejar a vida e celebrar seu prosseguir em gestos simples ampliadores de felicidade, como comprar na padaria alguns pacotes de bolachas para distribuí-las pelo caminho, na volta para casa, após mais um dia de labuta, a crianças nas ruas de seu percurso.
O sorriso das crianças agradecendo aquele quase cotidiano alimento era mais uma lição de Pedro José: Não se deve deixar na fome quem tem fome.
Pedro José: rochedo, porto seguro; aquele que multiplicou, nos seus, a consciência douta da doação ao outro.
Não somos para nós mesmos!
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Chico Araujo publica toda quarta-feira no Evoé! A crônica "Pedro, o distribuidor de bolachas" foi escrita a 19 de setembro de 2017. Leia mais Chico Araujo no blog Vida, minha vida...

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Meu maior amigo foi meu patrão - CLAUTON MONTEIRO

Em uma data muito especial para ele e para nós, estreia Clauton Monteiro aqui no Evoé! Em sua crônica inaugural, lembra do pai. Nas que virão, entre outros assuntos, trará a figura do anti-herói Chibatinha, um controverso filósofo, poeta e boêmio cujo alcance permeia as circunstâncias do futebol, das rodas boêmias, dos botequins, parques e cadeias. Boa leitura!




Hoje se estivesse nesse plano, Cláudio Gadelha da Rocha, meu pai, completaria 90 (noventa) anos de idade. Passa um filme com cenas marcantes do que minha memória guarda do relacionamento com ele, que além de ser meu maior amigo, foi meu primeiro patrão.

Papai gostava muito de leitura e de se dedicar a escrever poemas, logicamente tendo como fonte de inspiração sua eterna amada, Leonildes Monteiro da Rocha, minha mãe. "Súplica ao luar", provavelmente, foi que mais expressou aquele amor infinito entre eles.. .

Entre as tantas lembranças, uma que nunca sairá da minha mente e nem do meu coração refere as considerações do seu Cláudio sobre o tempo. Fez versos, algumas prosas sobre o tema. Uma que fala da velocidade dos acontecimentos ainda hoje me faz refletir.

Mas sua palavra dialogada era sempre precisa. Lembro bem que eu, ainda adolescente, ansioso, doido para completar 18 anos para me documentar (pois naquele tempo, era quando se poderia tirar os documentos básicos: carteira de identidade, CPF, carteira de trabalho e título de eleitor) e ele em sua infinita sabedoria se aproximou de mim e disparou: 

"Meu filho, deixa de bobagem, você com essa ansiedade toda, mas o tempo passa depressa, quando você abrir os olhos, vai perceber que já passaram três vezes 18 anos"... e não é que já passei dessa constatação?

Hoje já tenho 56 anos de idade e só aumenta a saudade, daquele que foi um excelente marido, um pai exemplar, que sozinho, sustentou, alimentou um verdadeiro exército (afinal uma esposa, 12 filhos, a minha avó e minha tia... não éramos pouca gente).

Supria a todos sem falta com sua única fonte de renda, seu trabalho, honesto e cansativo, no ETECON - Escritório Técnico de Contabilidade Ltda, onde eu tive o privilégio de ser funcionário com registro em carteira de trabalho e tudo. Muito me honrava ajudá-lo, inclusive virando noites e entrando pela madrugada, para finalizarmos os balanços patrimoniais dos clientes do ETECON (ainda não tinha computador e outras tecnologias). Tudo para atender aos prazos estipulados pela Receita Federal.

E o que dizer dos ensinamentos para minha vida toda... destaco a seguinte frase que guia meus caminhos até hoje: "Meu filho, independente de sua profissão, dê o seu melhor, e honre cada centavo recebido, sempre trabalhando com honestidade e não querendo nada irregular"... e outra muito presente: 

"Meu filho, procure nunca ter duas coisas: DÚVIDAS e DÍVIDAS, caso tenha dúvidas, e elas surgirão, me pergunte ou procure saber com quem sabe mais do que eu. Quanto a dívidas, faça tudo para não contraí-las e viva com seus rendimentos do trabalho honesto.

Pois é, seu CLÁUDIO GADELHA DA ROCHA, sei que onde estiveres, estará olhando seus filhos e sua amada esposa, uma guerreira que lhe ajudou bastante em nossa trajetória, para que todos crescessem, dentro de um ambiente de união, honestidade e trabalho.

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CLAUTON MONTEIRO - 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

UM COFRE, UMA CÁPSULA DE 100 ANOS - Túlio Monteiro

Corria o ano de 1999, quando recebi o convite da Fundação Demócrito Rocha - Jornal O Povo para escrever um livro. Ele viria a fazer parte da Coleção Terra Bárbara, que tem por proposta maior bibliografar grandes vultos da cultura cearense. Imediatamente me comprometi a escrever sobre o perfil de Lopes Filho, poeta simbolista e um dos sete membros idealizadores da Padaria Espiritual, associação de jovens intelectos que por aqui quebraria normas, mudaria conceitos e influenciaria inúmeras pessoas Brasil afora. 

Os meses que se seguiram foram árduos. Nas inúmeras e agradabilíssimas peregrinações que fiz a bibliotecas particulares e públicas, fui apresentado a livros raros e acervos iconográficos de belezas indescritíveis. Conheci grandes personalidades do século XIX e, particularmente, a vida de Lopes Filho, conhecido como o padeiro espiritual Anatólio Gerval, autor do Phantos, primeiro livro de cunho simbolista cearense e, talvez, brasileiro. Isso porque Phantos foi lançado por aqui em 24 de julho de 1893, enquanto o Broquéis, de Cruz e Sousa veio à luz no Rio de Janeiro somente aos 28 de agosto daquele mesmo ano. Submeto, pois, ao julgo do leitor decidir quem realmente deva ser considerado o pai do Simbolismo brasileiro.

Foi numa silenciosa tarde de outubro que, envolvido pela magia dos livros da biblioteca da Academia Cearense de Letras, deparei-me com um exemplar da História da Literatura Cearense, lançada em 1958 por Dolor Barreira. Um rico livro que conta de maneira bastante interessante importantes fatos da nossa cultura. No capítulo destinado ao Centro Literário, grêmio contemporâneo da Padaria Espiritual, e do qual Lopes Filho também fez parte, deparei-me com uma nota de rodapé que me deixou extasiado. Nela, Dolor Barreira se refere ao término do século XIX e início do século XX, mais particularmente a uma confraternização ocorrida naquele dia 31 de dezembro de 1900, na casa de Pápi Jr. - então presidente do Centro Literário -, situada no número 22 da rua General Sampaio, à altura da Cadeia Pública de Fortaleza, hoje EMCETUR.

Naquela aprazível Fortaleza de pouco mais de cinquenta mil habitantes, o século XX chegou mansamente, ainda sem anunciar os avanços tecnológicos que trazia em seu bojo, nem as desgraças que a humanidade ignobilmente infligiria a si mesma. 

Grandes homens e mulheres estiveram presentes àquela festa. Dentre muitos podemos citar José Albano, Castro e Silva, Temístocles Machado, Faria Brito, Godofredo Maciel, Jovina Pápi e Rodrigues de Carvalho. 

No entanto, o ápice do evento viria a ocorrer poucos minutos antes da meia-noite, quando se propôs que daquela reunião fosse redigida uma ata na qual constaria os nomes de todos os presentes, bem como opiniões variadas sobre o fim de um e a chegada de outro século. A ideia foi tão bem aceita que, ainda naquela noite mesmo a ata ficou pronta. Deliberou-se, também, que um escrínio de mármore em forma de livro deveria ser confeccionado para que nele fosse encerrada aquela ata, juntamente com outros documentos e periódicos datados de 31 de dezembro de 1900 e 1 de janeiro de 1901. Uma ordem expressa foi ditada: Aquele escrínio só poderia ser aberto no dia 1 de janeiro de 2001, "para que as gerações vindouras possam avaliar com que devotamento o Ceará cultiva os cometimentos da inteligência", como bem declara um trecho da ata. 

Nos primeiros dias do século XX, o escrínio foi afixado em uma das paredes da Biblioteca Pública de Fortaleza, que à época situava-se na Praça Marquês de Herval, hoje Praça José de Alencar, exatamente onde fica o Teatro José de Alencar. Entretanto, ao longo desses quase cento e vinte anos a Biblioteca mudou de lugar por mais duas vezes, estando atualmente localizada na Avenida Presidente Castelo Branco, 255, ao lado do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

Garimpei por todo o ano de 2000 na esperança de encontrar tão valioso tesouro de nossa cultura. Visitei historiadores, estudei plantas arquitetônicas, pesquisei livros de história e nada, nada consegui encontrar. Simplesmente, caro leitor, aquele cofre sumiu. Talvez tenha sido destruído pelas mãos embrutecidas dos que derrubaram o prédio da primeira biblioteca ou pelo descaso de alguém que não sabia o valor da história de um povo. 

Hoje, no quase apagar desse vigésimo século e próximo do chegar de um novo milênio, já quase perdi as esperanças de encontrá-lo. A mim, creio que só resta divulgar o desejo daqueles homens e mulheres que, um dia, se importaram em documentar aos que viriam após eles as coisas que viveram quando por aqui passaram. Lamentando, porém, que se tenha perdido no tempo aquela cápsula repleta de tantos sentimentos.

Aos que até aqui se detiveram a ler o que escrevi, brindo-os com a íntegra daquela ata redigida há mais de quase cem anos. Por questão de economia, não relacionei as assinaturas que se seguem ao final da mesma. Reflitamos, pois, sobre o passado, o presente e sobre o futuro. 

Acta da sessão extraordinária realizada pelo Centro Literário, pelo término do XIX século e entrada do novo século.

Aos trinta e um dias do mês de Dezembro de mil novecentos, era cristã, pelas onze e meia da noite, o Centro Literário, desta cidade de Fortaleza, Capital do Estado do Ceará, reunido em sessão solene, em casa de seu Presidente, António Pápi Junior, na rua de General Sampaio n. 22, com a presença dos sócios efectivos abaixo assinados, e dos cavalheiros representantes de diversas associações também abaixo assinados, com a assistência das exmas. senhoras e visitantes; o sr. Presidente declarou aberta a sessão, e, numa breve mas significativa alocução, fez sentir que o seu fim era o Centro Literário celebrar condignamente a passagem do XIX século e o despontar do novo século, factos altamente expressivos para toda a humanidade, e, muito principalmente para aquelas pessoas que, como os moços do Centro Literário, vivem das ideias generosas que têm por expansão as manifestações da inteligência. Em seguida, concedeu a palavra ao orador, o sr. Raimundo de Farias Brito, que, deixando o salão onde se realizava a sessão, assomou à tribuna levantada na praça pública, onde, ante um auditório numeroso, fez um discurso eloquente, cheio de vida e de intensa vibração no historiar os estádios mais notáveis do século expirante. Perorou com o mesmo ardor e brilhantismo sobre o século XX; e, por uma coincidência feliz, às últimas palavras do notável orador cearense, soavam no relógio da Intendência Municipal e na Sé as doze badaladas da meia noite, hora extrema do século chamado da Luz. Uma salva de palmas prorrompeu da multidão, num concerto de profundo regozijo, e a música dos Aprendizes Marinheiros, oferecida gentilmente pelo ilustre Capitão de Marinha Ludgero Bento da Cunha Mota, comandante da Escola, entoou o hino brasileiro; girândolas e morteiros espoucaram no ar; queimando-se por fim uma salva de vinte e um tiros. Releva consignar aqui ecómios ao brilhantismo da decoração do edifício, seus departamentos, primando a bela alegoria feita aos dois maiores vultos da literatura pátria no século XIX, José de Alencar, o imortal cantor de Iracema, e Gonçalves Dias, o maior poeta da América do Sul, e galhardia de rua. Terminados os discursos, os sócios e demais circunstantes tomaram assento no lugar onde se realizava a sessão, usando da palavra o sr. Presidente para congratular-se com os circunstantes pela forma altamente significativa por que o Ceará intelectual sagrava este facto duplamente memorável que a todos congregava na ocasião. Foi deliberado por todos os presentes que, do ocorrido, se lavrasse a presente acta, que será encerrada em um escrínio de mármore em forma de livro, no qual se incluirão igualmente todos os jornais do dia 1 de Janeiro de 1901. Outrossim, ficou resolvido que se guardasse na Biblioteca Pública, colocado em uma das paredes do edifício, o mencionado escrínio, com a declaração de que só poderá ser aberto no dia 1 de janeiro de 2001, para que as gerações vindouras possam avaliar com que devotamento o Ceará cultiva os cometimentos da inteligência. Que este exemplo fique como um incentivo perene. Encarregou o sr. Presidente ao sócio Rodrigues de Carvalho para redigir a presente acta, que foi lavrada pelo sócio José Luís de Castro. Ceará, Fortaleza, 31 de Dezembro de 1900 - 1 de Janeiro de 1901. Eu, José de Abreu Albano, Secretário do Centro Literário, a subscrevo (assinado) José de Abreu Albano.
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Túlio Monteiro - escritor, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro. (Este artigo Um cofre uma cápsula - ora revisto e alterado - foi originalmente publicado na revista Singular em novembro de 2000.)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Estou aqui, mas, você, onde está? - Chico Araujo

Sempre digo que comecei a escrever com algum viés literário por volta dos doze anos de idade. Pretensão minha? Não. Sempre se começa em algum ponto do tempo, uns muito cedo, outros um pouco mais adiante (Pedro Nava somente navegou nas marés da escrita memorialista – portanto, escrita com inspiração literária – após interromper a carreira de médico). Sempre é essa a referência que minha memória me dá, quando especula sobre esse meu início. Como a memória costuma ser seletiva, não é preciso esse marco.

Sei que no início tal escritura formalizou-se pela aventura em poemas expressivos, no sentido de efetivar uma conversa comigo mesmo, acerca do que eu pensava e sentia naquele período de pré-adolescência. Foi uma época de não revelação ao público; os escritos dormiam em cadernos que eu guardava, distantes dos olhos que não os meus.

Certamente me desnudava muito naqueles poemas, mas hoje não tenho nenhum documento daqueles meus registros poéticos iniciais, por decorrência de um fato que reputo como infeliz: quando contava quinze anos, por conta de um comentário zombeteiro, sarcástico de um amigo, motivado por impulso negativo destruí aqueles meus arquivos.

Durante algum tempo nada mais escrevi. Felizmente, para mim, somente durante algum tempo. Quando a escrita me lembrou de minha necessidade de escrever, retomei canetas, lápis, máquinas de datilografia e papéis, tendo o cuidado de não incluir aquele amigo na minha lista de possíveis leitores. Não tenho receio de crítica, porém tenho muito asco do sarcasmo, do deboche, do escárnio feito a questões que se despontam sérias.

Segui em frente, fui vivendo experiências muitas no universo das artes e hoje estou aqui, mas, você, onde está?

Essa pergunta é somente mais uma reflexão, leitor. Refletirá comigo?

Somente estou hoje aqui onde me encontro porque em concomitância à possibilidade do ato de escrever vivi a felicidade de me encontrar com atos de leitura. Bem, é certo que os atos de leitura começaram a se evidenciar um pouco antes, sendo logo seguidos de ações de escrita – decerto é exatamente assim que ocorre com todos cujo dia a dia se constrói também com a vivência desses dois fatores, envolvendo a literatura ou não.

Há muitos anos, portanto, se deu meu primeiro contato com a magia da leitura. Tive esse encontro ainda na minha infância e sei que por causa desse acontecimento sou hoje como sou. Creio mesmo que se não tivesse com ela me envolvido, se não houvesse sido envolvido por ela, tudo em minha existência teria se dado de maneira bastante diferente.

Em minhas palavras não se veja qualquer laivo de arrogância, pois, sinceramente, não tenho nenhuma intenção de arrogante ser. No entanto, constato, todo dia, diferenças fundamentais entre pessoas que leem e entre outras cuja distância da leitura é evidente. Nesse segundo grupo, o saber costuma apresentar sérias limitações. Em diversos aspectos.

Um deles se localiza no conhecimento acadêmico, ambiente onde transito por meio do experimento do processo ensino-aprendizagem. Quem por ele resolve transitar, necessita de ter domínio amplo sobre leitura – técnicas e métodos – e fluência no ato de ler. Sem amplo domínio sobre esse saber, como compreender as nuances do fazer(-se) acadêmico?

Outro aspecto relevante assenta-se e se corrobora na experiência da leitura do mundo que nos cerca. Isso necessariamente significa não dever, o leitor, limitar-se à compreensão de informações advindas das palavras utilizadas nos textos escritos e divulgados pelos mais variados meios de comunicação diariamente. Mais amplamente, o leitor deve compreender além delas, além dos seus significados mais corriqueiros, a fim de que possa alcançar todas as pretensas intenções de quem as usou no texto criado. A leitura de mundo, assim, soma o conhecimento do que foi escrito com os conhecimentos que o leitor já possui acerca de sua própria experiência de vida, individual ou coletivamente, possibilitando-lhe um saber mais amplo sobre o mundo em que vive.

Nesse segundo aspecto, insere-se, entre outras, a capacidade de ler as questões político-econômico-sociais as quais fazem funcionar a sociedade. Bem ou mal. Julgo ser de profunda valia a maior e mais qualificada capacidade leitora referente a essas questões; uma vez competente nessa necessidade, pode, o leitor, com segurança, decidir o que fazer para sua vida ser realmente da maneira como precisa e deseja que ela seja, pode perceber o que ações governamentais lhe concedem não como benefício social nem humano, mas como sofrimento e perda, imediata ou futura – dessa consciência pode construir seus mecanismos de defesa e de enfrentamento.

Se “ler é desvendar o mundo”, a qualidade desse desvendamento possibilita uma nova “escrita” para ele. Uma nova escrita que não se limita ao uso de palavras – embora elas estejam indelevelmente amalgamadas à existência de cada um, sendo alguns desse “cada um” penalizados frequentemente por não as dominarem: é de senso comum a verdade de que recai sobre analfabetos e pouco letrados a infame condição de seres com experiências sociais inferiores, estas, ainda, com profundo poder de limitar-lhes as condições econômicas. No fim das contas, tornam-se pessoas sem direitos por não os saberem, sem voz por não a saberem proferir e ecoar – cidadãos sem o experimento da cidadania, alijados de decisões e de soluções para sua própria existência.

Da posição social que ocupo e a partir da qual falo, ainda sonho com aquele dia em que as pessoas se olharão com olhar pleno de cidadania, cada uma reconhecendo na outra a exata medida do seja, respeitando e sendo respeitada, reconhecendo e sendo reconhecida pela importância de serem humanas, cidadãs conscientes de seus limites e de suas potencialidades.

Leitor, estou aqui, mas, você, onde está?

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Chico Araujo publica todas as quartas-feiras no Evoé! Estou aqui, mas, você, onde está? foi escrito em 24 de julho de 2017. Leia mais Chico Araujo em Vida, Minha Vida...

quarta-feira, 19 de julho de 2017

De lá do passado - Chico Araujo

Meu reencontro por meios virtuais com George Farias, músico cearense hoje radicado em Boa Vista, além do imenso prazer gerado pelo próprio recente novo encontro, trouxe-me, inevitavelmente, o acordar, na memória, do tempo em que, ainda bem mais jovens do que somos hoje, percorria Fortaleza no entremeio de minha juventude.

Fui partícipe de muitas noites no para sempre querido Estoril, bar / restaurante da Vila Morena. Lá tive a oportunidade de tomar cerveja gelada servida pelo pitoresco garçom Baleia; também vivi a emoção de estar perto de artistas já em reconhecimento como Geraldo Azevedo, Luiz Melodia, Zé Ramalho, Quinteto Agreste; igualmente naquela bela casa pude ver e ouvir Patativa do Assaré declamando poemas de sua prodigiosa autoria, bem como ter contato com o poeta e psiquiatra Airton Monte. Naquele espaço, exposições de artes plásticas conviveram com a poesia, com a música, com a sedutora boemia.

Creio ter sido o Estoril o bar / restaurante mais frequentado pelos boêmios daqui e d’alhures, artistas e não artistas visitantes da capital do Ceará. Em posterior a ele e mesmo por muitos anos em concorrência amigável – frequentadores de um também eram presença constante no outro – volta-me a imagem do Cais Bar, ainda sem o calçadão. Nas areias que existiram ali em frente, pus meus pés descalços em belíssimas noites de lua – em maravilhosas noites sem ela também - recebendo no corpo os respingos do mar que quebrava e espumava nas pedras.

Naquele tempo não existia fartura de transporte público pela madrugada (e hoje há?). Mas existia o “corujão”, que se dizia transitar pela cidade a cada hora da antemanhã. Talvez por perder o horário – a noite nunca nos disse exatamente a que horas estávamos – ou mesmo por não existir de maneira assegurada o “de hora em hora” divulgado, comum era a caminhada pela Av. Abolição rumo ao Centro da cidade, dobrando na Av. Alberto Nepomuceno, depois subindo na Rua Dr. João Moreira e passando ao lado do Passeio Público, até atravessarmos, por dentro, a Praça da Estação, para subirmos, em seguida, pela Rua Castro e Silva, até se dá a desejada chegada à Rua Padre Mororó, nosso destino, visualizando, meio que turvamente (talvez a iluminação da época), o Cemitério São João Batista, eu sempre acompanhado de no máximo três amigos – os de sempre, que gostavam de música, poesia e cerveja... e de caminhar pela madrugada.

Reminiscências...

Do Estoril constantemente me volta à memória certa ocasião em que lá me encontrando em um lindo final de tarde / começo de noite, cerveja já servida pelo Baleia, violão deitado sobre a mesa aguardando seu tocador, chega-se a nós, vindo da Ponte Metálica, um casal, do qual ouvi, do músico – hoje muito conhecido na esfera do forró, sendo advogado também – amistoso pedido para sentar-se ali e tocar um pouco aquele violão que dormitava. Mas é claro! E não se dá para dizer quanto tempo levou aquela cantoria, pois para a mesa mais e mais gente se achegava.

Muitas vezes era assim: um desconhecido chegava e logo em seguida se tornava conhecido, uma conversa iniciada se tornava festiva, um violão adormecido despertava em acordes e vozes se somavam entoando canções populares.

Enquanto isso, o mar soprava até nós sua brisa mansa...
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Chico Araujo publica todas as quartas-feiras no Evoé! Madeleines foi escrito em 7 de julho de 2017. Leia mais Chico Araujo em Vida, Minha Vida...

segunda-feira, 19 de junho de 2017

BRINCADEIRA DE FOGUEIRA - Túlio Monteiro

Nesta crônica memorialista, Túlio Monteiro viaja às origens das adivinhas de Santo Antônio para falar dos festejos juninos de hoje.





“Danei a faca no tronco da bananeira.
Não gostei da brincadeira,
Santo Antônio me enganou ” 
(Antônio Barros)


Os versos simples acima fazem parte do cancioneiro popular dos festejos juninos brasileiros. Tempo de fartura, colheita de milhos, pé-de-moleque, aluá, paçoca, doces diversos e, claro, fogueiras e brincadeiras de adivinhação, principalmente nas noites de Santo Antônio, o coitado do santo casamenteiro que todo ano é pendurado de cabeça para baixo pelas moças casadoiras em busca de conseguir – no farfalhar das saias à beira da fogueira – um noivo ou marido para aquele ano ainda.

São tantos os jogos de adivinhação que os mesmos se tornam quase incontáveis. Tem o da bacia com água, onde os pretendentes a casamento se olham em um espelho d´água – ao lado da fogueira – para ver se enxergam o rosto da pessoa amada; o batismo de fogo, onde padrinhos e madrinhas de fogueira surgem do nada e ainda assim passam a vida inteira cumprimentando-se como se à pia batismal tivessem comparecido e tudo o mais.

São de minha infância as melhores lembranças de quadrilhas juninas e festejos, onde ainda vingavam em mim as crendices passadas de geração em geração. Como o da música popular que ajuda a dar nome à presente crônica:

Tem tanta fogueira tem tanto balão.
Tem tanta brincadeira

Todo mundo no terreiro faz adivinhação;

Meu São João eu não, meu são João eu não

Eu não tenho alegria.


Só porque não vem, só porque não vem
Quem tanto eu queria – (bis)

Danei a faca no tronco da bananeira
Não gostei da brincadeira
Santo Antônio me enganou.
Saí correndo lá pra beira da fogueira
Ver meu rosto na bacia, a água se derramou...


Poderíamos discorrer sobre inúmeras marmotas – usando o popularesco nordestino – para rirmos às pampas de tantas presepadas que são feitas nessas três festas juninas chamadas assim por ocorrerem justamente no mês de junho, que para o rico e popular folclore de minhas terras são as mais importantes do ano.

Mas uma parte especial da música de Antônio Barros que acabei de citar necessita ser analisada um pouco mais a fundo, já que a história da faca no tronco da bananeira é bem mais uma história de paz do que uma simples brincadeira de adivinhação amenizada pelos tempos e por nossos antepassados. Reza a lenda que, ao enfiarmos, na véspera da festa junina, uma faca virgem no tronco de uma bananeira qualquer e lá a deixarmos até a manhã do dia seguinte – os pretendentes homens a casamento depois de arrancá-las de lá, hão de encontrar a letra inicial do nome da mulher amada e com a qual unirá votos de matrimônio até o fim da vida.

Bom! Até aí, nada de suspeito é levado em consideração quanto ao verdadeiro objetivo do intento. Vejamos, pois, qual é ele. Nos dias de hoje, com os adventos de novas tecnologias os festejos estão mais, por assim dizer, amenos em relação aos que ocorriam 50 ou 70 anos atrás, onde os rapazes costumavam, além de vestirem a melhor roupa e colocarem a melhor colônia de cheiro para impressionar, enfiavam na barra da cintura uma faca do tipo peixeira para, em caso de briga, lançarem mão das mesmas e partirem para o ataque. Sim! A coisa era braba depois que alguns mais exaltados pela bebida viravam ferozes “bestas” no sentido mais nordestino do termo.

Pois eis que um dia, um anfitrião desses que usavam parabéluns nas mãos, já calejado das desavenças de todo ano, passou uma ordem: Só entravam no terreiro dele os homens que se livrassem das facas pelo menos durante a realização dos festejos, que sempre terminavam no alvorecer. Palavra de coronel dita, palavra de coronel respeitada. E lá se iam os rapazes procurar um local para guardarem suas preciosas armas onde pudessem se lembrar onde estavam no dia seguinte.

A essa altura, presumo, o nobre leitor já deve ter concluído de onde veio a brincadeira de enfiar a faca na bananeira que, coitada, por ser mais mole e largar uma nódoa danada quando perfurada, era a árvore preferida para se “guardar” as perigosas peixeiras.

O arremate desta crônica vou deixar um pouco ao seu imaginário, mas já afirmando que, em uma bela manhã de carraspana e festa de Santo Antônio, um jovem rapaz, ao retirar sua reluzente faca do tronco da bananeira nela enxergou justamente a letra inicial da moça com a qual passara a noite a dançar quadrilha, xote e forró de pé-de-serra. Muitos viram aquele feito e passaram a acreditar nele, uma vez que naquele ano mesmo o casal em questão contraiu matrimônio, gravidez e mais uns sete filhos depois do episódio.

Verdade ou não, foi assim que me disseram ter se iniciado essa tradição. Sendo de competência de nossos caros historiadores afirmarem ou contradizerem o que hora explano no papel. Mentira ou não, isso lá não interessa, uma vez que chegaram os festejos juninos, meu povo. Hora de preparar a boca e a barriga para as três festas mais famosas do Nordeste brasileiro. Anavantu!

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Túlio Monteiro escreve todas as segundas-feiras no Evoé! Leia também seus textos em Literatura com Túlio Monteiro.

terça-feira, 7 de março de 2017

Túlio Monteiro: DAS COISAS DE MENINO

Túlio Monteiro escreve aqui toda as segundas-feiras.


Fantasmas que são fantasmas sempre aparecem. Hoje, por volta de quatro e meia de uma madrugada alta, os meus teimaram em me importunar mais uma vez. Sempre os mesmos que habitavam meus pesadelos de criança, uma vez que, pasmem, nasci a menos de um quilômetro do antigo asilo para loucos de Parangaba. Tinha lugar pior para um escritor um tanto quanto aperreado nascer?

Ainda hoje, o prédio que habita meus pesadelos de infante está lá, imponente e insano na antiga Estrada dos Arronches, hoje avenida João Pessoa, por onde meus pés calçados em sandálias Havaianas sempre passavam aliados às minhas mãos, que sempre carregavam uma boa baladeira e um cacho ou dois de mamonas penduradas na lateral do calção, a caçar passarinhos por pura diversão. Na falta deles, os pobres calangos pagavam o pato do arteiro que fui. Eram os há muito já idos anos de 1970.

Tenha-se por Asilo São Vicente de Paulo, o único local onde os loucos legítimos, daqueles que jogam pedras na Lua e tentam voar ficavam trancafiados em cubículos minúsculos, contava minha avó materna quando queria me assustar por conta de alguma peraltice de moleque sem bicicletas ou aniversários.

Era e ainda é feio o danado do asilo. Prédio recuado e cercado por muros muito altos, de onde nunca se via os verdadeiros loucos, restando às imaginações minhas e de meus fiéis amigos escudeiros de infância difícil ouvir os uivos lancinantes dos que ficavam presos e sem possibilidade sequer remota de escaparem pelo portão da frente.

É fato histórico que o doutor Phillipe Pinel, famoso psiquiatra francês, por lá esteve em finais do século 18 para ocupar o cargo de diretor por haver logrado aprovação, em primeiro lugar, em concurso público. Nas mãos trazia seu certificado em papel amarelo pardo e na outra uma autorização para libertar os asilados, muitos deles algemados há mais de 30 anos.

Reza a lenda que, mal adentrou o recinto dirigiu-se ao carcereiro comunicando-se rispidamente com a seguinte frase: – “Sou o doutor Pinel e exijo que as portas dessas celas sejam imediatamente abertas”. Nos calabouços onde as trevas eram eternas, esquálidas figuras desvairadas, cabelos revoltos e imundos, entreolhavam-se como fantasmas.

– Mas, senhor, essas portas não são abertas há anos. Todos são loucos, a escória da sociedade. Se eles saírem se matarão uns aos outros e a nós também. Não farei isso – disse-lhe de supetão o carcereiro, branco como uma vela.

Ante a negativa do subordinado, o médico tomou-lhe o molho de chaves e foi abrindo as celas uma a uma. Em câmera lenta e com olhares fixos em Pinel, os loucos foram se espalhando, silenciosos, pelos corredores tão imundos quantos as celas. Em dado momento, um homem gigantesco tentava subir as paredes feito uma aranha, os braços e as pernas tentando alcançar o teto onde uma claraboia brilhava ao céu do meio-dia. Revolto e em penitência o maluco ajoelhou-se aos pés do psiquiatra dizendo-lhe que já fazia tempo que não via um raio de sol.

Essas histórias de trancoso misturadas à dura realidade dos fatos me eram contadas por minha avó materna, Dona Luíza Bravos Monteiro, como forma de aquietar o neto mais traquino que ela tinha à época em que morei em uma casa bem ao lado da dela. De onde a vi partir para nunca mais voltar aos 81 anos de idade, em 19 de dezembro de 1983.

Saudades daqueles tempos? Claro! Afinal, meu universo infantil era repleto de bilas, bolas de meia, arraias, passarinhos e amigos leais. Muitos deles ainda moram por lá e mesmo depois que parti para o mundo dos adultos, ainda ouço falar de alguns e de suas trajetórias de vida. No entanto, sempre que os sonhos ou pesadelos chegam, ainda somos moleques de calções curtos correndo soltos pelas ruas da minha velha Parangaba.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Túlio Monteiro: ENTRE PEIXES, MUSEUS E RELÓGIOS

Vai aqui mais uma crônica de Túlio Monteiro. Em breve, dele teremos também resenhas e ensaios literários. (KB)



ENTRE PEIXES, MUSEUS E RELÓGIOS

Túlio Monteiro*


 A Gentilândia é um daqueles lugares onde a cidade lembra o que foi lugar
onde se vive para conviver, para ver, para sentir, para ouvir, para andar, para conversar. 
Convivência experimentada no cotidiano, fruto das relações sociais alicerçadas pelo tempo. 
Por isso, ser gentilandino é um estado de espírito e quem já viveu na Gentilândia
sabe que éimprescindível voltar sempre. 
Elmo Vasconcelos Júnior
(curador do Memorial da Gentilândia) 


Começou assim: eram meados 1986 – século passado – quando parti do Farias Brito, colégio onde concluí o segundo grau, para as cadeiras de madeiras toscas do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. Tinha arriscado mais uma vez a Arquitetura já que tinha dado um chute no destino, qual ele poderia ter me tornado também Geólogo pela UNIFOR, mas os deuses do vernáculo cismaram porque cismaram de me enviesarem a vida para as bandas da escrita, crítica literária ou coisas que os valham. 

Outro mundo, outros seres, outros loucos. O impacto de ver tanta gente diferente demorou tanto a passar que lá se foram, no mínimo, uns dois meses para me acostumar com aquele mundaréu de cabeludos pirilampeando – se me faço entender – para um lado e para o outro. Restinho dos bichos soltos da geração riponga que estava dando lugar a umas tais “Diretas Já!”. Os ares eram outros, pois o sopro maldito da fuligem de armas militares da tal falada Ditadura que tomou, de um dia para outro, vinte anos de uma geração inteira que ainda assim não passou em brancas, porque não sincerizar, negras nuvens negras. Era hora de os facínoras recolherem-se às suas casernas. 

Eis que acabei por ir descobrindo coisas em conversas sempre repletas de imagens e símbolos, com interlocutores de todos os níveis de sabença. Viventes que me repassavam informações que só aprendidas na base do vamos destapar os segredos do Benfica? Fui, a princípio, sendo conduzido para depois me transformar no timoneiro desse barco chamado vida, passando a desconstruir e retelhar o casario da Gentilândia – reza a lenda que a família de João Gentil perdeu quase todos os imóveis do local nos jogos de cartas e outros azares – suas nuanças, calçadas, parapeitos e um anônimo peixe que até hoje sobrevive em seu silente mergulhar pétreo. Explico: Uma meia parede foi erguida para proteger o prédio do atual Museu de Arte da UFC – MAUC – inaugurado pelo então Reitor Antônio Martins Filho em 18 de julho do ano de 1961, onde antes funcionava o Colégio Santa Cecília. 

Pois bem. Voltemos ao ser aquático que lá está fixado pelo espírito moleque de algum pedreiro que, tendo descoberto alguns pedaços de pedra derivada de xisto percebeu que aquelas possuíam exatamente o formato de um peixe. Certamente para não perder a chacota e o chiste – talvez sabendo que naquele recém-construído edifício cultural iriam ficar expostas obras de grandes nomes da escultura e pintura cearense, quiçá nacionais, o laboral trabalhador meteu sua colher de ferro para cima e pronto – está lá para quem tiver a paciência de procurar em uma extensão de cinquenta metros da parede que cerca o MAUC pelo lado da avenida 13 de maio, quase esquina com avenida da Universidade, 2854, encontrar o que temei em chamar de pequeno sítio arqueológico acinzelado. 

Outros enigmas estão espalhados pelos arrabaldes da Gentilândia/Benfica, sendo tudo uma questão de procurar nas entrelinhas, nos espaços menos esperados podendo ser encontradas preciosidades iconográficas de real importância histórica. É o caso da torre dos quatro relógios da igreja dos Remédios, que fica bem em frente à faculdade de Ciências Sociais e ao lado do CETREDE. 

Aos 14 de agosto de 1910, foi concluída a pequena capela de Nossa Senhora dos Remédios, inaugurada com grande festa da qual participaram mais de duas mil pessoas – evento de grande aporte levando-se em conta que Fortaleza possuía exatos 65.816 habitantes – tendo sido a missa celebrada por Monsenhor Bruno Figueiredo, nascido em Aracati (CE), ordenado que havia sido desde 1875; educador de grande nome, Lente do Liceu do Ceará à época, sendo vigário-geral do Bispado do Ceará. 

De início e até 1927, a igreja dos Remédios era uma delicada ermida, até serem erigidos os atuais dois corredores laterais, custeados pelo ainda abastado benfeitor do Benfica Coronel João Gentil Alves de Carvalho. É daquela época, também, a instalação do relógio de quatro faces ainda hoje badalando as horas que marcam o compasso dos que deslizam a pé, em seus carros e nos agora nos chamados VLT’s (Veículos Leves sobre Trilhos), os metrôs, primos atuais dos antigos bondes com seus motorneiros a serpentear Fortaleza afora. 

Os quatro mecanismos têm sua história singular: foram projetados para serem instalados no monumento ao centenário da independência (1822/1922), cuja pedra fundamental foi lançada aos 23 de julho de 1922, na então Praça do Cristo Redentor, situada onde hoje é o início da avenida Monsenhor Tabosa e defronte ao Instituto Dragão do Mar de Arte e Cultura, inaugurado em 28 de abril de 1999 com seus 30 mil metros quadrados muito bem divididos em salas de cinema, teatro, cafés, anfiteatro, praça verde, planetário, salas de estudo sendo anexado à Biblioteca Pública Menezes Pimentel com seus 70 mil livros e 40 mil títulos diversos, hoje sendo todos digitalizados para as gerações pósteras. 

Voltemos aos relógios! Como era de se previr o Monumento ao Centenário da Independência não foi inaugurado no dia 7 de setembro 1922, mas, sim, na véspera de Natal daquele ano – por volta de cinco horas da tarde – numa provinciana e agradável Fortaleza de 104.852 almas como testemunhas. A obra fora encomendada pelo prefeito Ildefonso Albano que deixou a cargo do seu sucessor o coronel Adolfo Gonçalves Siqueira a finalização da obra, executada que foi pelos mestres de obras Antônio Machado, Domingos Reis e Severino Moura. Por ocasião dos festejos tomou a palavra o então arcebispo da capital Dom Manoel da Silva Gomes. Os marcadores das horas, como já sabemos permanecem na cúpula da Igreja dos Remédios, enquanto a Praça Comendador Machado – hoje Praça do Cristo Redentor – que também abriga o Teatro São José desde 1915, encontra-se abandonada e habitada pelos velhos novos excluidos que todos os dias chegam a metrópole. O motivo pelo qual o nobre quarteto simplesmente não ter sido instalado na torre em questão foi o movimento pendular causados pelos fortes ventos aracati que insistem em açoitar nossa cidade, vindos lá das bandas da África, oceano Atlântico por caminhos alísios soprados de lá para cá. Ventos Aracati – tupi-guarani – ventos bons que vêm do mar, todas as tardes, como uma brisa marítima que ganha força ao ter por canalizador o Rio Jaguaribe que desemboca no mar pelas cidades cearenses de Aracati e Fortim. Desde lá navegando o sertão jaguaribano. Esse Vento Aracati amigo que ora areja minha memória sobre o Benfica...

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*Túlio Monteiro - escritor, crítico literário e revisor