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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Resenhas: O fio das missangas, por Marlúcia Nogueira

Mia Couto, Fio das missangas
Cia das Letras, 2009, R$: 22 a 32
Entre os autores contemporâneos de língua portuguesa, destaca-se o nome do moçambicano Mia Couto como um dos escritores africanos mais lidos e premiados no mundo. Sua vasta produção literária inclui romances, contos, crônicas e poesias filiadas à tradição da melhor literatura de língua portuguesa.
O fio das missangas, publicado em 2003, é um livro que reúne vinte e nove pequenos contos que, mesmo sendo enredos independentes, mantém um elo entre si, à maneira de um colar.  Fazendo referência a algo banal, o livro fala de coisas discretas, delicadas e frágeis, que geralmente ficam ocultas (como um fio), mas que se revestem de grande importância. Por trás dessa aparente banalidade, os contos tratam temas fortes, como violência, morte, separação, traição, loucura, vingança, incesto, suicídio, responsáveis pelas maiores dores humanas.
Despretensiosas à primeira vista, essas narrativas trazem situações em que nos sentimos sem importância, diminuídos em nossa dignidade humana ou desencorajados da vida. A maior parte desses contos abordam a condição feminina, visto que nós, mulheres, somos, em muitos casos, relegadas a uma existência anulada, de submissão e abandono, como se pode sentir na seguinte fala de uma das personagens:  “Agora, estou sentada olhando a saia rodada, a saia amarfanhosa, almarrotada. E parece que me sento sobre a minha própria vida” (do conto “Saia almarrotada”). Contemplando a própria saia, que é um símbolo feminino, essa personagem reflete sobre sua condição de indivíduo coisificado, transformado em objeto que, depois do uso, é descartado exatamente como um “fio de missanga”.
Em outro trecho, a mesma personagem se apresenta: “A mim, quando me deram a saia de rodar, eu me tranquei em casa. Mais que fechada, me apurei invisível, eternamente noturna. Nasci para cozinha, pano e pranto. Ensinaram-me tanta vergonha em sentir prazer, que acabei sentindo prazer em ter vergonha.”. Como podemos perceber nessa fala, os contos do livro têm um conteúdo revelador, de denúncia do silenciamento imposto a mulheres do mundo inteiro, mas que para as africanas se torna mais intenso, já que residem em um continente explorado e massacrado sob diversos aspectos.
A escritura de Mia Couto é renovada, criativa e dinâmica porque apresenta muitos neologismos, construções sintáticas inusitadas e aforismos, revelando com isso uma proximidade com o estilo do escritor mineiro João Guimarães Rosa, de quem o autor é admirador confesso.


Marlúcia Nogueira
Autora da resenha


Cearense nascida em Aracoiaba, passei um bom tempo em Ocara, dando aulas de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Médio, e atualmente moro em Pacajus.
Apaixonada por livros desde criança, passava longas tardes na Biblioteca Pública Rui Barbosa, em Aracoiaba.
Graduada em Letras (UECE), com Especialização em Literatura e Formação do Leitor (UECE) e Mestrado em Literatura Brasileira (UFC), sou professora de Literatura nos cursos semipresenciais de Letras / Português, pela UFC.
Como professora efetiva pela SEDUC, no momento integro a equipe PAIC da 9ª CREDE – Horizonte, cuidando do eixo de Literatura Infantil e Formação de Leitores, com grande prazer.

sábado, 24 de julho de 2010

Da série: Resenhas literárias

Uma leitura indispensável
Kelsen Bravos

Raimundo Rocha, o mais velho dos novatos escribas cearenses de então, começou a escrever aos 59 anos. Aos sessenta e dois, publicou seu primeiro livro, Os olhos do meu anjo (2008). Uma antologia de contos cujos tramas e enredos são narrados ao sabor  de uma conversa de varanda por um contador de histórias primoroso. Seu estilo, apesar de seguir a tradição de Moreira Campos, Graciliano Ramos e Juarez Barroso, brilha por si só, é uma estrela a mais na constelação de nossos melhores contistas. Por vezes reflexivo, por vezes romântico, sempre bem-humorado, sem necessariamente fazer piada, Raimundo Rocha não abre mão de suas origens, seu texto está radicado na nordestinidade cearense. Por meio dos trejeitos e traquejos de sua gente, seus quereres, haveres e saberes, faz o leitor mergulhar nas sendas dos sentimentos humanos. 
Agora recebo o convite para o lançamento de Mundo: Mundinho - histórias nem sempre imaginadas. Há algum tempo Raimundo Rocha me entregou seus originais para leitura e anotações antes de encaminhá-los à editora. Queria repetir o feito no primeiro livro. Aceitei com prazer a tarefa; li o livro, mas não cumpri o envio de minhas anotações. Quando o texto me pega de primeira, entrego-me ao deleite da leitura apenas. Nesses casos, para garantir leitura mais cirúrgica, deixo as anotações para um segundo olhar.  O tempo, entretanto, me emboscou e raptou-me da segunda leitura do novo livro desse camarada boa praça, um vovozão amado, e um conquistador de novos amigos sem igual. Generoso, não me constrangeu pela minha falta (desculpa-me, amigo!) e ainda me manda carinhoso e-mail com o convite para o lançamento. Obrigado.

O título Mundo: Mundinho remete-nos ao título Grande sertão: veredas, em que do imenso universo do interior mineiro, Guimarães Rosa expressa-lhes as estreitas sendas. Raimundo Rocha reverencia esse clássico da literatura, parafraseando-lhe o título. Em vez de sertão há o mundo, em vez de veredas, o Mundinho, ou seja, do Mundo, ele nos apresenta o olhar, a memória, a intensidade de Raimundo, Raimundinho, Mundinho e confirma a sua radicalidade nordestina, cearense, expressa no primeiro livro. Bem como reafirma seu primoroso estilo. 

De leitura indispensável, Mundo: Mundinho - histórias nem sempre inventadas areja o cenário literário brasileiro.   

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Lançamento do livro Mundo: Mundinho - histórias nem sempre inventadas.
Autor: Raimundo Rocha.
Dia 29 de junho às 19h30min.
No Centro Cultural Oboé,
Rua Maria Tomásia, 531, Aldeota.
Forataleza - Ceará