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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Flávio Paiva escreve sobre a futura gestão da Cultura em Fortaleza

Flávio Paiva

"Fortaleza precisa ir além da superficialidade da cultura de massa e das manifestações ancoradas nos limites da subordinação a domínios numéricos. Precisa fugir do fatalismo da nossa ignorância e isso não é uma questão de classe. Vivemos em uma cidade que não se conhece e, por conseguinte, não se reconhece, nem se faz respeitar. Ao propor uma política de cultura para a atuação da Secultfor, Magela Lima [futuro titular da Secretaria de Cultura de Fortaleza - SecultFor] naturalmente abrirá um portal de busca para o desenvolvimento de um conceito sociocultural de cidade, dando vazão a encontros de olhares, revelações de impulsos sensíveis e organizações de contextos." (Leia mais...)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Mossa de ouroboros

Certa feita, Tom Jobim declarou que no Brasil alguém fazer sucesso até parece crime. Pelo visto, procede a reflexão desse mestre cuja inveja de muitos em nosso país não o reconhece de vez como um dos maiores músicos do mundo. Mas pior do que a inveja fruto do despeito é aquela fundamentada na falta de escrúpulos de pessoas foscas a querer roubar a luz dos bons. Lamentavelmente, a matéria do Caderno 3 do Diário do Nordeste (edição de 12/06/2012) dá vazão a esse tipo de caráter e esplende um autor oportunista, um fracasso editorial, que acusa de forma frouxa o trabalho de fôlego muito bem sucedido de Lira Neto.

A acusação apresentada é a de falta de ineditismo, quando o próprio imputado afirma que o pioneirismo de sua investigação foi ir aonde ninguém jamais fora na apuração dos fatos e comprovação das fontes. Tal critério profissional mexeu com a vaidade acadêmica de alguém que trata a pesquisa histórica como um feudo de sua posse, como registra a matéria supracitada: ... “para Machado, ‘um jornalista pode fazer ótimos trabalhos de história, desde que aceite as regras desse campo.’... e chama de ignorantes os jornalistas que resenham o livro de Lira Neto ao afirmar que o espaço dado à divulgação da biografia
“tem a ver também com a ignorância dos próprios jornalistas, que compram gato por lebre”, vocifera Machado.

Acontece que os “ignorantes” que resenharam o livro “Getúlio – a biografia” são, entre outros, Otávio Frias Filho (diretor de redação da Folha de São Paulo); Boris Fausto (professor, cientista político e considerado o maior historiador do Brasil), Marly Motta (
doutora em História e pesquisadora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil - CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas) e Maria Celina D’Araújo (doutora em Ciência Política). Machado, é óbvio, não encontrou eco às suas provocações em lugar nenhum.  Surpreendentemente o Diário do Nordeste dá vazão a um discurso rancoroso, invejoso e sem fundamento.

Há muitos excelentes trabalhos escritos sobre Getúlio, há até romances biográficos de qualidade questionável
e outros ficcionais muito bons como “Agosto”, de Rubem Fonseca; mas a biografia escrita por Lira Neto tem a garantia de qualidade de um jornalista criteriosíssimo na apuração dos fatos, incansável na comprovação das fontes, cuja folha de serviços é exemplar e uma referência para todos; tem também a garantia de um excelente escritor já vencedor do mais importante prêmio literário do país, o Prêmio Jabuti (pela biografia O Inimigo do Rei, sobre José de Alencar) e finalista em mais duas (Maysa - só numa multidão de amores e Castelo - a marcha para o poder).

Li e recomendo sim o primeiro volume de
“Getúlio - a biografia”. É um livro para se ler, para se ter na cabeceira e para presentear aos amigos. Uma leitura obrigatória (e prazerosa) sobre o Brasil do século passado, fundamental, portanto, para se entender o Brasil de hoje.

As agressões do jornalista Machado na verdade não fazem mossa nenhuma nem ao caráter nem à obra de Lira Neto, mas definem com clareza a natureza mesquinha e provinciana do agressor. Faz bem Lira Neto ao não conferir importância nenhuma a esse tipo de ouroboros e nem aos ecos que por ventura venha a ter.

Fonte: Diário do Nordeste

sábado, 1 de outubro de 2011

Linguagem na web: Moda da vez é o ´internetês´

Foto de Wasleska Santiago.
Quando a tecnologia digital invade as escolas, o desafio é tentar mediar a linguagem da Internet com o saber formal
"Phynna", "9dade", "rhycca", "fika", "futibô" e "xau". Esse novo linguajar, que de longe nem parece o português, está correndo solto nas redes sociais da Internet. Por praticidade, modismo ou movimento natural e dinâmico da comunicação, a polêmica está em questão: qual o futuro da língua em meio a tantos neologismos e variáveis?

Com a invasão das tecnologias digitais nas escolas, o desafio agora, para professores e alunos, é tentar achar o equilíbrio entre os saberes, aquele vivenciado no cotidiano - nas ruas e lan houses, por exemplo - e o formal, tão exigido nos vestibulares e concursos públicos. Leia mais...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Conselho Municipal de Política Cultural:

Saiu no Caderno 3 do Diário do Nordeste


Cultura e mediações


26/10/2010 
Tomam posse amanhã os representantes eleitos para constituir o primeiro Conselho Municipal de Cultura de Fortaleza, um órgão colegiado que vai reunir membros do poder público e da sociedade civil na proposição e na fiscalização de ações culturais
Amanhã, às 19 horas, o Mercado dos Pinhões será palco de um acontecimento marcante para a história das políticas públicas voltadas à cultura em Fortaleza. Nesta quarta, representantes do poder público e da sociedade civil se reúnem para efetivar a criação do Conselho Municipal de Cultura. "O conselho é um instrumento democrático, um espaço em que a prefeitura deverá compartilhar das formulações e das ações voltadas para a cultura com a comunidade artística e a sociedade civil", explica Márcio Caetano, Secretário Executivo da Secretaria de Cultura de Fortaleza.

Escolhidos por indicação e eleições diretas, os 44 conselheiros são divididos entre 21 membros do poder público - dentre eles, representantes de cada uma das secretarias do município - e 23 da sociedade civil, com representantes de todas as linguagens artísticas.

Histórico
O conselho é fruto de uma série de discussões em torno do fortalecimento de políticas públicas na área da cultura. Desde a primeira Conferência Municipal de Cultura, ocorrida em 2005, exigiu-se a formulação de articulações entre as instâncias federal, estadual e municipal. Na segunda edição da conferência, consolida-se o compromisso de criação, dentre outros, da Secretaria de Cultura do Município, fundada efetivamente em 2007, e do Conselho Municipal de Cultura, estruturado durante o ano de 2009 e instalado neste ano.

Demandas
"A missão do conselho é dar legitimidade e transparência à gestão municipal. Nós conselheiros temos por dever propor, consultar, fiscalizar e deliberar. De agora em diante, as propostas da gestão não poderão ser efetivadas sem a nossa análise", conta Kelsen Bravos, editor, escritor e eleito conselheiro representante da área de literatura.

Para ele, a escolha dos nomes foi sensata, permitindo um trabalho coeso. "Fortaleza foi feliz nessa escolha. São pessoas realmente representativas e que exercem uma liderança em seus setores".

Segundo Kelsen Bravos, o setor da literatura, por ele representado, é constituído, na verdade, por uma união de sujeitos há muito articulados. O editor acredita que, assim como a literatura, as outras linguagens também já vinham produzindo suas próprias conferências e agora terão a chance de compartilhar suas proposições e demandas.

A articulação efetiva do conselho começa a ser feita a partir da posse, mas algumas demandas já podem ser adiantadas. O desenvolvimento do Plano Municipal de Cultura e do Fundo Municipal de Cultura são as prioridades do órgão, além de demandas como a descentralização da cultura municipal e a reforma orçamentária da pasta, de 0,6% para 1,5%

"Fortaleza não foi apenas dividida em seis regionais, mas em seis municípios. Nossa cidade é muito diversa e por isso precisamos lutar por essa descentralização e pelas melhorias orçamentárias". Outra proposta do conselho, de acordo com Kelsen, é o fortalecimento da identidade cultural de Fortaleza. "Estamos a alguns poucos anos de uma Copa do Mundo e precisamos nos articular para que sejamos anfitriões e não simples prestadores de serviço, subservientes. Temos uma rica cultura, que precisa ser discutida e fortalecida, principalmente", defende o conselheiro.

A cerimônia é aberta ao público e terá como atração musical a banda Baque Lírico.

Fique por dentro Conselho EstadualA Secretaria de Cultura do Estado do Ceará prorrogou a data da assembleia e da entrega de documentação necessária à eleição de Membros Temporários, Titulares e Suplentes que deverão representar entidades no Conselho Estadual de Cultura. As vagas disponíveis se referem aos seguintes setores: Artes Cênicas, Literatura, Música, Audiovisual, Artes Visuais e Tradições Populares. Para se candidatar às vagas de membros temporários, é preciso enviar à Secult um ofício endereçado ao secretário de Cultura, solicitando assento no conselho estadual; o currículo do indicado; a ata da assembleia que o elegeu representante das entidades; além de currículo e estatuto da entidade. As inscrições seguem até o dia 05 de novembro. A eleição dos membros temporários acontecerá em Assembleia Geral marcada para o dia 12 de novembro, às 9horas, no Theatro José de Alencar.

MAIS INFORMAÇÕES
Posse do Conselho Municipal de Política Cultural. Amanhã, às 19 horas, no Mercado dos Pinhões (Praça Visconde de Pelotas - Centro. entre as ruas Nogueira Acioli e Gonçalves Ledo). Contatos: 3105.1392

MAYARA DE ARAÚJOESPECIAL PARA O CADERNO 3

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Um universo chamado Benfica

Lira Neto    27 de agosto de 2010
Amanhã, monitorado por um bom amigo, o professor Kelsen Bravos, o ônibus do Percursos Urbanos parte do centro da cidade em direção ao Benfica. Por isso mesmo, gostaria de estar aí, para escolher uma cadeira próxima a uma das janelas, um lugar qualquer que me permitisse uma visão privilegiada do trajeto.

Afinal, aquele bairro faz parte indissolúvel de minha vida.

Se eu ainda morasse em Fortaleza, ou se pelo menos estivesse por aí neste final de semana, já teria um programa certo para a tarde de amanhã, sábado. Caminharia pela Floriano Peixoto até chegar em frente ao edifício Raul Barbosa, ali onde está a sede do Centro Cultural Banco do Nordeste. Lá, pontualmente às quatro da tarde, subiria no ônibus com a tabuleta "Percursos Urbanos" instalada no parabrisas. Seria mais um dos passageiros desta que é uma das ideias mais geniais - e mais simples - de que já ouvi falar em relação ao mapeamento afetivo de uma cidade.

A cada novo sábado o ônibus do "Percursos Urbanos" faz um itinerário diferente. São viagens temáticas, que percorrem a essência, a memória e os aspectos menos evidentes de uma Fortaleza que não está retratada em previsíveis cartões postais. Porém, uma Fortaleza que pode ser tão bela - e muito mais verdadeira - quanto aquela que consta dos slogans políticos e do catálogo tão pouco criativo dos guias turísticos.

Um mediador, sempre íntimo ao tema, conduz o percurso, sugerindo olhares menos óbvios e menos apressados sobre a paisagem da cidade. No trajeto, revelam-se matizes, desvendam-se segredos, descobrem-se novidades que na verdade sempre estiveram ali, bem diante de nós, mas que o imperativo do cotidiano impede-nos de parar, compreender, contemplar. É mesmo como se um novo mapa simbólico, uma cartografia irresistivelmente inusitada, se desenhasse sobre o traçado de pedra e asfalto que compõem as já tão conhecidas ruas e avenidas da cidade.

De 2008 para cá, os passageiros do Percursos Urbanos, entre tantas outras viagens, já excursionaram, por exemplo, pelo universo das lendas urbanas de Fortaleza, à espreita dos indícios do célebre Cão da Itaoca e da terrível Perna Cabeluda. Já percorreram o roteiro das manifestações arquitetônicas de uma Fortaleza despudoradamente cafona, com direito a paradas obrigatórias em frente à catedral de pretensão gótica construída debaixo de um sol de rachar, à inacreditável Casa do Português e seu desenho bizarro e, é claro, à estátua gigantesca e estrábica de Nossa Senhora de Fátima plantada à margem da avenida 13 de Maio.

O ônibus do Percursos Urbanos já trafegou também pela geografia sentimental de escritores como Moreira Campos, Ciro Colares, Gustavo Barroso. Já revisitou o espírito de uma Fortaleza insubmissa, conferindo os cenários de revoltas populares e sublevações históricas. Já flanou pela Fortaleza boêmia, pela Fortaleza dos maçons, pela Fortaleza de Fausto Nilo, e por tantas outras Fortalezas mais ou menos conhecidas - e desconhecidas.

Como a Fortaleza dos dançarinos de salão, a Fortaleza do bumba-meu-boi, a Fortaleza das lagoas aterradas, a Fortaleza de mangues estrangulados. Mas também a buliçosa Fortaleza da imprensa alternativa dos anos 70, a Fortaleza da "belle epòque" cabocla, a Fortaleza dos trabalhadores do mar e, quando se imagina que até para a criatividade há algum limite, a Fortaleza dos caçadores de ETs.

Amanhã, monitorado por um bom amigo, o professor Kelsen Bravos, o ônibus do Percursos Urbanos parte do centro da cidade em direção ao Benfica. Por isso mesmo, gostaria de estar aí, para escolher uma cadeira próxima a uma das janelas, um lugar qualquer que me permitisse uma visão privilegiada do trajeto.

Afinal, aquele bairro faz parte indissolúvel de minha vida. Foi nele que passei alguns dos melhores anos de juventude, orbitando entre o prédio da antiga Escola Técnica Federal, o Centro de Humanidades da Uece, a constelação de equipamentos culturais em torno da torrinha cor de rosa da reitoria da UFC e, é claro, a buliçosa feirinha da Gentilândia. Um perímetro universitário que alguns amigos tratavam, com carinho e certa ironia de inspiração ideológica, como PCdoB: Pólo Cultural do Benfica.

Foi ali que estudei, perambulei, namorei, deixei a barba e o cabelo crescer, descobri-me poeta marginal e anarquista juvenil. Foi ali que participei de passeatas pueris, bebi numa miríade de botecos sujos, conheci gente bacana e um pessoal nem tanto assim. Ali, escrevi para revistas literárias efêmeras e fiz amigos perenes. Desafiei professores obtusos e aprendi com alguns - poucos, é verdade - mestres geniais. O verdadeiro aprendizado estava nas ruas, na atmosfera utópica com que conduzíamos nossas existências tão ingênuas e, ao mesmo tempo, tão idealistas.

Éramos jovens. Fazíamos mil revoluções por minuto nas mesas do Esquina Azul, do Bar das Letras, do Jazz Blues Bar e, mais tarde, do Pertinho do Céu. Embriagávamo-nos de vinho barato e boa literatura no Bosque da Letras, fazíamos xixi no pedestal da estátua da praça e, quase todo dia, víamos Moreira Campos de paletó e gravata dirigindo o seu fusquinha. Como gostávamos do velhinho. Gostávamos mais ainda de seus contos cheios de silêncios, interditos e sofisticadas sacanagens.

Hoje, tantos anos depois, o melhor de tudo é saber que a história de amor entre o bairro e várias gerações de fortalezenses não se esgota nesse tipo de reminiscência, na simples nostalgia. Soube que, agora mesmo, tramita na Câmara Municipal de Fortaleza um projeto que oficializa a criação do "Pólo Cultural do Benfica". Vão institucionalizar, portanto, o epíteto brincalhão de PCdoB. Ótimo. Mas torço para que isso não signifique um simples batismo solene com base em um trocadilho que, um dia, soava genial, mas que hoje perdeu em frescor e sentido.

Seja como for, amanhã, caros leitores, se estiverem a bordo do ônibus do Percursos Urbanos em direção ao Benfica, bem na hora em que passarem diante do Centro de Humanidades da Uece, perguntem ao Kelsen Bravos a respeito da nossa grande frustração daquele tempo de estudantes. Nunca conseguimos sequestrar, de verdade, a estátua de São Tomás de Aquino instalada à entrada do prédio, como tanto idealizávamos. O plano era rocambolesco. Alta madrugada, eu, Kelsen e o gigante Vessillo Monte roubaríamos a imagem do expoente da filosofia escolástica para colocar outra em seu lugar: a de Exu, que pretendíamos comprar em uma loja de artigos de macumba.

Que pena. Jamais cometemos tão sonhada heresia.


Fonte: Diário do Nordeste e Blog do Lira Neto

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Lira Neto e o gigante

Abaixo crônica de Lira Neto sobre Vessillo Monte. Desde que os apresentei um ao outro, tenho de aturá-los. Depois de ler para o Vessillão o texto do Lira, leitura entrecortada por nossas gargalhadas, ele me mandou dizer ao Lira: "Gostei do 3x4." Riu e mandou essa "...quem ia gostar dessa era a Dona Maroca..." (sua avó paterna). 


Logo abaixo há m link com uma crônica que fiz dando conta de onde Vessillo Monte estava no 11 de Setembro de 2001.





Eu conheço um gigante

Avesso a qualquer espécie de convencionalismo, politicamente incorretíssimo, inimigo número um do bom-mocismo, contestador profissional, o cinquentão Vessillo Monte hoje pode ser confundido, pelos mais desavisados, com um sujeito de maus-bofes, um troglodita, mitômano, a mais intolerável e intolerante das criaturas

Lembro do dia em que um sujeito, pós-doutor, professor de uma universidade federal, entrou furibundo em minha sala. Vinha bufando. Parecia um possesso. Diante de minha mesa de editor, ele brandia os originais do texto que escrevera para uma coletânea de artigos acadêmicos que iríamos publicar em forma de livro. O material havia sido devolvido a ele pela editora no dia anterior, como de praxe, para que aprovasse e tivesse ciência de todas as padronizações e correções gramaticais sugeridas pelo pessoal da revisão.

Olhei de relance para as páginas que o professor sacudia no ar e vi que elas estavam, de cima a baixo, rabiscadas de caneta vermelha. O revisor fora minucioso, compreendi. "Quem fez isso no meu texto?", gritava o arrebatado professor. "Quem se atreveu?", cobrava-me explicações.

Pedi que sentasse, mandei vir água e cafezinho. Então folheei aquelas cerca de duas dúzias de páginas, escritas no mais inconfundível jargão acadêmico. Percebi de imediato o motivo de tanta fúria. Além das habituais questões de gramática e estilo, o revisor apontara uma série de graves imprecisões históricas que comprometiam sobremaneira o conteúdo do texto. O conceituado professor, uma sumidade entre os pares, sentira-se agredido. "Quem esse revisorzinho pensa que é?", exaltava-se. "Ele por acaso é historiador? Qual a titulação dele?", indagou.

Como eu já estava acostumado àquele tipo de cena, sugeri que o professor fosse conversar pessoalmente com o próprio revisor, que estava sentado logo ali na sala ao lado, separada da minha apenas por uma parede de vidro. Ele foi. Saiu soltando faísca pelo caminho. Pela vidraça, acompanhei o resto do drama. Pareciam dois peixes briguentos, barbatanas eriçadas, dentro de um aquário.

Olhei o relógio. Uma hora depois, ele e o revisor ainda conversavam. Mas, como eu previra, o professor foi paulatinamente se acalmando. Passou a ouvir, mais do que falar. Porque já era próximo do meio-dia e parecia reinar a calma na sala ao lado, saí para almoçar. Quando voltei, duas horas depois, os dois permaneciam lá, agora conversando animadamente. Por causa do vidro espesso, eu não podia escutar o que diziam, mas pelos respectivos semblantes sabia que haviam chegado a bom termo. Ao final, o professor retornou à minha sala. "De onde saiu esse cara que trabalha aí ao lado?", indagou-me, com incontido entusiasmo. "O cara é um gigante!", definiu. O "gigante" em questão havia convencido não só o pós-doutor a reescrever o texto, mas ainda lhe sugerira bibliografia mais robusta e também um novo enfoque para certas passagens do trabalho original. O nome do gigante era Vessillo Monte.

Já falei dele aqui, uma ou duas vezes, nestas minhas despretensiosas crônicas semanais. Mas nunca considerei o bastante. Para fazer-lhe a devida justiça, eu sempre quis assim, uma crônica inteira só para ele. Aliás, a história de Vessillo Machado Monte daria um livro. Talvez, quem sabe, uma biografia em vários volumes. Vessillo é uma dos caras mais brilhantes que já conheci em toda a minha vida. O mais presepeiro, o mais iconoclasta, o mais desabusado também.

Tive a sorte de conhecê-lo quando eu ainda era um jovem recém-chegado à faculdade. Ali, Vessillo já era o dono do pedaço. Ele era aluno do curso de História, mas frequentava como ouvinte outros cursos também, pelo simples prazer de travar intermináveis pugnas intelectuais com os professores, saindo-se sempre vitorioso de todas as contendas. Sua enorme versatilidade fazia-o dissertar, por horas, sobre literatura, filosofia, história, artes e, também, sobre uma de suas maiores paixões, a música de Noel Rosa.

Vessillo sempre teve uma dessas inteligências vastas, ecléticas e luminosas, como as que não se encontram mais hoje em dia, nesse mundo de especialistas. Àquela época de estudantes, uma vez, testemunhei um professor medalhão do curso de Letras, professor de teoria literária, chamá-lo a um canto após a aula e implorar-lhe para que nunca mais aparecesse ali, pois temia estar se desmoralizando diante do resto da turma. Vessillo acabou dando uma banana para a faculdade e tratou de continuar sendo o autodidata que sempre foi. Sua biblioteca de estudante era uma das mais espantosas nas quais eu já havia batido o olho até então.

A esse tempo, além de tudo, Vessillo era um homem bonito. Vi dezenas de mulheres lindas, justamente as garotas mais cobiçadas de toda a universidade, atirarem-se sôfregas a seus pés. No boteco ao lado do campus, turmas inteiras de marmanjos e donzelas pagavam-lhe noitadas homéricas de cigarro e cerveja, só para vê-lo declamar poesia e para ouvi-lo contar as histórias mirabolantes de suas muitas aventuras amorosas. A maioria das quais, aqui, impublicáveis.

Avesso a qualquer espécie de convencionalismo, politicamente incorretíssimo, inimigo número um do bom-mocismo, contestador profissional, o cinquentão Vessillo Monte hoje pode ser confundido, pelos mais desavisados, com um sujeito de maus-bofes, um troglodita, mitômano, a mais intolerável e intolerante das criaturas. É verdade que realmente ninguém sabe ser, quando quer, tão desagradável e irascível quanto ele. Fala alto, solta palavrões cabeludos a três por dois, descuidou-se da aparência física. Mas, para quem o conhece a fundo, sabe que na verdade ele é um lord vestido na falsa pele de cão hidrófobo.

Desde que o conheço - e lá se vão cerca de trinta anos - Vessillo tem sido sempre um dos leitores prévios de qualquer livro que publico. Tudo o que escrevo passa obrigatoriamente por seu crivo rigoroso. Ele tem sempre uma extraordinária sugestão a dar, uma necessária correção de rumo a fazer, um imperativo puxão de orelha a providenciar.

Certa vez, por alguns breves instantes, botei o olho nos manuscritos do livro que Vessillo diz escrever há pelo menos vinte anos. Por vezes, as "Crônicas do Céu e do Inferno", de Vessillo Monte, me fazem lembrar "Uma história oral do nosso tempo", a obra monumental que Joe Gould jurava estar escrevendo para Joseph Mitchell. A diferença é que o livro de Vessillo existe, assim creio eu; o de Gould, não.

Fortaleza nem imagina que tem um gênio perambulando anônimo por suas ruas calorentas. Ele não dirige, não toma táxi, não gosta de andar de ônibus. É um andarilho contumaz, por isso pode ser visto, suando em bicas pela avenida 13 de Maio, sempre com um livro ensebado debaixo do braço, a cabeça quase careca fervilhando de ideias sob o sol, o desaforo pronto na língua para qualquer transeunte que se ponha no caminho. Já foi atropelado, entrou em brigas, perdeu os dentes, a família quis interná-lo em hospício, tem parafusos de metal na perna reconstituída em uma mesa de cirurgia.

Se cruzarem com ele, não o tenham na conta de um lunático, um simples boêmio errante, uma alucinação em forma de gente. O nome dele é Vessillo Monte. E, saibam, ele é mesmo um gigante.
Fonte: Blog do Lira Neto


Textos associados: Evoë no 11 de Setembro

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Entrevista histórica sobre Padre Cícero


Melhor entrevista, até então, do excelente biógrafo Lira Neto sobre o livro "Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão". Li e ouvi todas as demais. Esse resultado advém, com certeza, da qualidade do entrevistador, José Anderson Sandes, que leu de fato o livro, foi além do encanto proporcionado pela obra, demonstrou conhecimento do fato por outras leituras, levantou temas polêmicos, instigou o pesquisador a dar esclarecedoras respostas. Parabéns ao jornal Diário do Nordeste pela histórica entrevista em três partes.

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