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quarta-feira, 7 de junho de 2017

Esse texto tá muito longo... vou esperar o filme - Chico Araujo

Wassily Kandinsky - pintor russo

Em tempos de redes sociais tantas e tantas – difundindo, em muitas ocasiões, superficialidades humanas em larga escala - e do presentíssimo aplicativo WattsApp no dia a dia das pessoas, apesar de muito mais permissivo que o limitador Twitter (a cento e quarenta caracteres), ler algum texto escrito mais extenso e, em alguns casos, com certa profundidade temática tornou-se algo irritantemente pouco verossímil até em boa parte da sociedade letrada.

Quem gosta de expressar-se por meio da escrita, fazendo mesmo dela seu mecanismo de análise, de proposição de questões, de busca de compreensão de sua existência na sociedade de que faz parte tem sofrido, de certa maneira, com a velocidade a mais proposta para a passagem do tempo – que ele não se permite concessão para quem deseje ficar um pouco mais entretido em sua incursão leitora.

Bom dia. Boa tarde. Boa noite. Carinhas enviando beijos em formato de coração por meio de “emojis”; “emojis” cujos olhos expressam formato de coração; “emojis” com carinhas alegres, tristes, chorando, rindo... Coração pulsando. Mãos batendo palmas. Feição que chora de rir. Mão que indica sinal de positivo. Cabeça que se revela em cor azul, demonstrando uma famigerada dor de cabeça. Exemplos de três expressões corriqueiras e de alguns ícones de nossa comunicação em dias atuais. Creio ser válido dizer que quase todos nós somos usuários deles.

Tempo de comunicação rápida; a velocidade de tudo para tudo e para todos. Quem não usa, está alienado, não faz parte.

Faço parte! 


Mas me questiono muito e mesmo muito questiono alguns: ficar tanto tempo nas redes não é alienante? Me arrisco: muitas vezes... sim. Porque pluralmente nesse contexto do “muitas vezes”, navegamos entre as ondas de uma e outra, de outra e mais outra e em algumas somos informados pela... desinformação! Nestas, um intenso jogo de linguagens babelísticas nos confundem e nos levam, por propósito, a lugar algum – um lugar algum que se metamorfoseia em lugar nenhum. 
Nestas, aquilo que transparece vertical, profundo, nada mais é que indução a braçadas pelo superficial. Sem olhar atento, curioso, desconfiado, as braçadas são realmente dadas e esse nadar pela superfície deixa-nos sempre nesse nadar pela superfície. A indução bem construída envolve-nos e nos chega com a pretensão de nos formar. Abdução do que importa, do que interessa.

E o que interessa? É bom que tanto você quanto eu saibamos, leitor; esse texto já se organiza como muito longo [será?] e, no caso dele, creio que não haverá filme. 
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Chico Araujo publica toda quarta-feira no Evoé! Este texto foi escrito em 29/05/2017. Leia mais texto de Chico Araujo no blog Vida, Minha Vida.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

VELHINHOS VIRAM PLANTAS - Túlio Monteiro

Reparou na inocência
Cruel das criancinhas.
Com seus comentários desconcertantes?
Adivinham tudo 
E sabem que a vida é bela.
“Só as mães são felizes” (Cazuza)


A metamorforse de Narciso - Salvador Dalí

Eu não sei o que meu corpo aporta já que tantos foram os portos e corpos aos quais ele já lançou âncoras. Já traí até mesmo meu melhor amigo e nunca contem isso para ele, pobre alma sem calefação nenhuma. Ri um riso louco de Rimbaud cada vez que chorei em lugares sórdidos em meio à outra solidão. Hoje estou à exaustão.

Você já viu um milagre? Reparou como os senhorezinhos e as mamães velhinhas vão virando plantinhas porque sabem que ela já está chegando, fria, cadavérica, em espasmos lentos, senta-se, cruza as pernas, lê o bom livro dos mortos e espera, espera, espreita e ri aquele sorriso banguela. Só as crianças são felizes em suas tribos e inocências. Menininhos e menininhas são felizes em seus quartos sem medos de sombras ou assombrações. Reze, filhinho... que papai do céu te protegerá. O caramba. Hoje estou à satisfação.

Já fui passarinho em beirais repletos de amigos, quando no lado negro da vida eu já ouvia Lou Reed, Floyd e Ramones. Dava, não. Tinha que não me chamar Carlos, mas vim para ser gauche na vida, tanto é que nasci “torto” canhoto, canho, cânhamo, corda de pescoço. Enforcado. Sei não, hoje estou à anti-razão.

E como ainda é cedo, bela flor. Queres partir por quê? Qual rumo queres dar à tua ida à-toa na vida. Nada sério, espero! Fique mais um minuto. Vou pôr a nossa música que ainda assim teima em sempre tocar para lembrar de você. Fica, meu codinome. Fica, meu outro nome... aquele que só nós dois sabemos e saberemos. Talvez nunca mais nos vejamos, pense nisso. Reflita e não pule. Às gargalhadas digo, sim: hoje estou à não paixão.

Flores noturnas

E esse badalar de carrilhão me enche o saco e os ouvidos a cada quinze minutos, em um balançar de horas que não levam a absolutamente nada a não ser direto para os braços dela: a inexorável que nos transforma em velhos que viram plantas, fraldas e falta de força nas pernas dantes tão ágeis e corredeiras. E as pernas ligeiras de moleque de rua de meu pai já não são as mesmas, já não correm e brigam na rua contra os meninos bem maiores que ele. Sempre foi macho, aquele homem que me fez e passou a vida dizendo para não mentir, para não errar, para não seguir por caminhos tortos, para nunca parar de procurar. Está virando uma plantinha, meu velho e eu junto com ele eu também. Alhures! Definitivamente hoje estou NÃO!

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Túlio Monteiro escreve todas as segundas-feiras aqui no Evoé.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Para onde vão no passo a passo do dia a dia? - Chico Araujo

*Chico Araujo
16/05/2017



A bem da verdade, a pergunta que intitula esse breve texto insistentemente me acompanha. Insurge-se e se impõe como pensamento dominador que não consigo afastar de pronto; ela somente vai se dissipando quando, por necessidade dos meus próprios passos, vou trilhando a minha sina.

Enquanto não, ela me faz olhar e olhar e olhar o ir e vir das pessoas nas ruas e avenidas e praças por onde vou também passando... Ela me vai martelando o juízo, insistente, sem-cerimônia: “Para onde vão essas pessoas em seus dias”?

Há inegável desencontro de caminhadas nos destinos vários de tanta gente transitando por espaços diversos a cada novo dia, a cada nascer de manhã nova. Intimamente, ruminando na aflição da não resposta, construo forte desejo de que todos consigam alcançar o lugar para onde se projetam. Inclusive eu.

Não duvido de que esse meu pensar sobre supostas e possíveis direções diversas devam-se apenas ao fato de que essas tantas pessoas as quais vejo passar umas pelas outras – algumas vezes seus corpos se esbarrando na velocidade de cada passar – se desencontram por não haver ponto de incidência a envolvê-las em um momento delas... entre si. Cada uma vai ao abraço do que lhe cabe abraçar. Inclusive eu.

Então, eis que me distancio delas, naturalmente, para deitar sobre o chão as marcas de meus próprios rastros. É nesse instante em que, aflito por não saber resposta para a pergunta insinuantemente constante, desejo, em oração singular, que cheguem em paz onde precisem chegar. Inclusive eu.

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Chico Araujo, poeta, ficcionista, compositor, intérprete, escreve aqui toda quarta-feira.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

TAUAÇU DE MEU PEITO - Túlio Monteiro

Este dó de peito. Esta nota tão relapsa e ao mesmo tempo tão complexa me foi arrancada do nó – pomo de adão – há tempo. Eu que já gritei, esperneei e nunca tive tanto esquecimento em meu cérebro, hoje transtornado pelo tempo, digo: – Ora, se amar nunca me trouxe a exatidão do termo AMOR dentre os corações que habitei, por tantas mãos e corpos que já passei. Nunca me coube aportar meu barco condenado que fui a navegar por um mar de tormentas, de sargaços, sempre a desbancar-me em ondas gigantescas. Olhos fora d´água em gritos tão altos busca de um tauaçu que fosse para amarrar a jangada desse coração nada perene no que diz respeito a fixar amarras.

Entre sereias e Marias fui sempre Tritão pelas auroras de meu mar, cara donzela. O que fazer se nasci assim, um tanto curumim, um tanto alma velha. Velho senhor que se pensava dono de seus dons a esporear o tempo, açoitando meu destino aos quatro ventos. Faca nos dentes, arrebentando o que vinha pela frente. Até descobrir o que é a paixão e a morte, minha eterna companheira nesse ínterim chamado vida, pois de rede branca, cachorro latindo me esperando, nunca soube o que era varanda arrodeada de beirais e flores.

Sempre fui verde menino e remoto senhor a caminhar sobre as brasas de corações femininos; uns ferinos outros especialmente felinos. E fui gastando meu precioso tempo e o reliquioso tempo de outros entes queridos (?) de uma forma tal que o que me restou foi o absolutamente nada, um certo carma, nirvana, por fim, a qualquer instante me bater à porta, vamos lá, chegou tua hora. 

Um gosto de cânhamo me habita a língua e a boca, trazendo-me a certeza única que morrer não dói tanto quanto se estar vivo e inativo, já que só o que restou desse que bate no peito como alento são lembranças e lembranças são como cultivar ventos, tempestades, temporais e escassez.

Entram dias e saem dias sem nada do que previ aconteça. Estarei já eu morto vivendo no tal purgatório dos suicidas? Será que simplesmente já fui e naturalmente não sei disso ou estou mesmo louco vendo o porvir sem nada poder fazer? Perguntas! Para que servem tais substantivos femininos de interrogação, se o coração feminino já é um interrogatório sem defesa de causa?! Ah! As mulheres, entes, djinns e flores de jardins. Como foi bom dividir-me entre vocês nessas décadas a caminhar sem tréguas no campo de guerra vida. Perdi muitas batalhas e fui vencedor em tantas outras que se me chegasse a hora agora, diria eu àquela que sempre chega silenciosa, diáfana e medonha a sentar-se à beira de um lugar qualquer para nos esperar com a paciência de sempre: – Leva-me, então, pois se vim a esse mundo para coabitar-te frente a frente, cabeça a cabeça, desta vez tu perdeste mais que eu.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

UM LUGAR LIMPO E BEM ILUMINADO - Túlio Monteiro


O velho sentado na penumbra riscou o pires com o copo.
O garçom jovem foi até ele... mais uma dose!
(Ernest Hemingway – em Well-Lighted Place)

– O que foi, poeta? Está com nojo de mim? – Berrou-me asperamente o poeta Mário Gomes com sua argúcia de sempre.

Sempre de paletó e mangas longas, barba por fazer e livros e mais livros às mãos e sovacos, o poeta que morreu em um ano e foi sepultado no outro, fitou-me com aquele olhar esverdeado de sempre, saindo-se com mais uma de suas ácidas tiradas:

– Pare de me achar sujo e me dê um dinheiro, poeta. Pois se dinheiro trouxesse felicidade você estava morrendo de rir agora e não aqui, no velho Flórida Bar tomando essas cervejas quentes que o Bayma serve a troco de nada. Vamos lá que eu tenho pressa de chegar à Praça do Ferreira para as confabulações de sempre.

Não tinha jeito! Era puxar uma cadeira e ficar por minutos contemplando as sandices absolutamente cruciais do Mário. E olhe, menino, que o homem tinha livros dentro da cabeça, como se cirurgia tivesse feito e costurado lá por dentro coisas de deliciar-se comendo lagartas para excrementar borboletas. Tome conversa jogada fora com o talvez último dos grandes poetas de rua de Fortaleza: o velho Mário Gomes. Isso já no século 21. 

E haja poesia junto com palavrões. Passasse um rabo de saia ele já ia cofiando o bigode e dizendo as paparicagens típicas de um poeta louco de amores desde os tempos em que cursara arte dramática na Universidade federal do Ceará para aprender como se achegar a uma bela mulher. Ficou pelo caminho o curso de ator em detrimento do autor de Lamentos do Ego e Violenta Orgia Universal, para citar apenas dois de seus livros.

– Olhe, poeta, já fui assim bonitinho que nem você, mas me enveredei por caminhos nunca dantes imagináveis. Você conheceu o “Barba Azul” e o “Buraco da Gia”? Não?! Pense em uns cabarés desgraçados. Lá peguei de tudo e de tudo passei. Conheci amigos cachorros e cachorros amigos. Aderi ao Fome Zero e estou aqui, sem nada. Sentenciou-me o homem em um rápido estalar de língua, acertando o copo de pinga exatamente no centro de sua goela. Mira perfeita. O velho olhou a praça através do copo, depois se virou para os garçons.

– Mais uma dose, disse, apontando para o copo. – O garçom que tinha pressa em vê-lo pelas costas veio atendê-lo já com meu consentimento de cabeça de que podia pendurar mais uma por minha conta. 

A tarde sempre se tornava noite nos desvarios das sabenças de Mário. O cabra tinha cultura para dar e vender, mas não tinha o maldito vil metal e por isso mesmo era descartado das grandes rodas pelos escribas janotinhas sempre muito cheirosos e alinhados.

Com um tapa na mesa de metal, Mário levantou-se, balançou para um lado e para o outro, sungando as calças velhas para confidenciar-me: Poeta, mais uma vez obrigado... mas aquele trocado que você disse que ia me dar...olhe que dinheiro não traz felicidade...

Estava na hora de seu plantão noturno na Praça do Ferreira, onde morava. Foi a derradeira vez que troquei palavras com Mário Gomes. Dali para frente, nossos destinos foram outros, totalmente outros. Ele entrou para a eternidade falecendo no dia 31 de dezembro de 2014, sepultando-se no cemitério da Parangaba, em 1º de janeiro de 2015. Aos seus amigos e principalmente inimigos ele deixou o seguinte poema:


Quando eu morrer

Irão distribuir minhas camisas,
Minhas calças, minhas meias, meus sapatos.
As cuecas jogarão fora.
Ninguém usa cueca de defunto.
Irão vasculhar minha gaveta.
Vão encontrar muita poesia,
Documentos e documentários.
Só sei dizer
Que foi gostoso viver.
Sentir o amor e proteção de minha mãe.
De conhecer meus irmãos, meus amigos.
De ver de perto as mulheres.
Só posso deixar escrito:
“Obrigado, vida”. 

(MG)

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Túlio Monteiro - escreve aqui todas as segundas-feiras.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

ESPERANÇA EM FLAGRANTE DELITO - Ana Carolina Bittencourt e Cláudio Fontenele

Surpreender um turbilhão de sentidos no cotidiano, eis o que mais me encanta na crônica. Aqui vai um exemplo em pelo menos duas linguagens, a fotografia e a escrita, uma multiplicando a metáfora da outra. A foto de Marília Vieira e o texto de Ana Carolina Bittencourt e Cláudio Fontenele se amalgamam em poética metamorfose para revelar, a la Rubem Braga, colorida borboleta no cinza da metrópole. (KB)


ESPERANÇA EM FLAGRANTE DELITO

O semáforo ficou verde.
por todos os lados. Motoristas frenéticos.
Atraso.
Pais deixando seus filhos nas escolas.
Ônibus lotado.
Foto: MaríliaVieira
Não existe ciclovia, então o ciclista se arrisca na selva.
Faixa de pedestres bloqueada. Xingamentos.
Obra na pista.
Fumaça, muita fumaça.
O semáforo ficou vermelho.
Buzinas. Mais xingamentos.
Carros caindo no mesmo buraco, como numa coreografia ensaiada.
Murmúrios.
Carros parados. Vidros fechados para os panfletos e os pedintes.
Sinal verde.
Motos sobem as calçadas, driblando e aumentando o caos.
A quase duas quadras dali, crianças arrastam suas mochilas, abrem os seus livros, exibem seus lápis coloridos e relatam seus passeios de final de semana.
Mas ela parece estar ali, quase fazendo parte do cenário.
Se você observar bem, ela criou asas!
Ela é livre!
Ela preferiu abrir um livro.
O seu nome eu talvez nunca venha a saber, mas resolvi chamá-la de Esperança.

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Escritora e escritor:

Ana Carolina Bittencourt
Cláudio Fontenele

segunda-feira, 1 de maio de 2017

EU NÃO POSSO DEIXAR DE DIZER, MEU AMIGO! - Túlio Monteiro

Você não sente nem vê por que o que era jovem e novo hoje é antigo. Ele passou por aqui, deixou dito ao que vinha e pôs o pé na estrada. Largou o corpo que tantas vezes ocupou velhas roupas coloridas e foi... partiu, talvez, na mesma cauda de cometa que o trouxe até nós há exatos 70 anos. Como se chamava Belchior, o mesmo nome de um dos três reis magos guiados por uma estrela até encontrar o menino que anunciaria uma nova mudança, ele deve estar seguindo uma nova luz para onde anunciará a sua Alucinação aos jovens. Alegrando-os e alertando-os com seu eterno violão. Por aqui, sua ausência nos traz outra vez os recados que cantou. Menos mal, pois uma nova mudança está acontecendo nesse País e mais uma vez vamos precisar deles como nunca, nós e eles, os jovens, que não têm mais tempo nem de se apaixonar.

Cuidemos aqui de cumprir seus recados. Deixemos que se vá sozinho e assim decida a sua velha-nova vida. Quem sabe se ladeie de Poe, poeta louco que talvez o tenha vindo buscar para trocar letras e farpas com Dante sobre seus Infernos alucinantes, sob a luz de cigarro após cigarro às gargalhadas, rindo dos que por aqui ficaram e agora vão tentar decifrar o que tanto Belchior cantou.

Sou da geração que primeiro viu a que vinha o Pessoal do Ceará nos iniciados anos 1970. Cantei ao som de Fagner, Ednardo e Belchior. Talvez morresse jovem em alguma curva do caminho chamando sempre meus bem amados corações. Quem sabe algum punhal de amor traído completaria meu destino passional.

Não cabe agora falar de como vivi as coisas que aprendi nos discos nem tudo que aconteceu comigo, pois viver é sempre melhor que lembrar. Por isso é que sigo buscando novas invenções há 52 anos vividos e ainda tão vívidos. Comprovação mesmo tenho é o do que sempre vem de novo - e como vem! - e vejo como o-de-novo está vindo de maneira lancinante feito faca e a palo seco. Cenário que nos diz que apesar termos feito tudo que fizemos, vivemos como nossos pais; mas, apesar de tudo, ainda espero o novo que sempre vem, porque também pra mim alucinação é suportar a dor de todo dia. E suportar a dor de todo dia seria pior sem o amigo Belchior.

Daí eu não posso deixar de dizer a meu amigo: que teu olhar tenha sido suficientemente lacrimoso, que tenhas passado por todos bagaços de cana do engenho e não precisas ter mais medo de avião, porque na íntegra és agora eterna asa ritmada. Valeu, Belchior!

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Túlio Monteiro escreve todas as segundas-feiras aqui no Evoé!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

VIDA DE DOR - Túlio Monteiro

Tem piedade de mim! Deixa-me ao menos
Desfrutar um momento de prazer,
Pois que é meu fado despontar na aurora
E ao crepúsculo morrer!… 
Vida de Flor – Fagundes Varela 


Hoje estava a relembrar-me de alguns poetas de lida e de linho. Conheci muitos. Dos que vestiam a mesma roupa, sempre, aos janotas dos clubes e saraus modernosos, cheios de perfumes e firulas a declamar e decantar suas musas, seus feitos bravios, suas conquistas e metais raros. 

Como atravessei o século 20 e já estou no 21, não foram poucos os bardos que vi passarem dessa para melhor. Uns em cortejos dignos de garbosos féretros outros na mais completa solidão de alguns gatos pintados e carpideiras de última hora. O certo é que ela sempre vem, incólume e silenciosa. Senta-se e espera com seu rosto magro que os tolos sepultem o que sobrou de um poeta, lambendo os beiços por ter levado mais um ou uma que cismou em desafiá-la, cada qual ao seu modo. Para quê citar ou não citar nomes? Simples! Com muitos só troquei um bom dia e de outros fui amigo até hoje mesmo depois de suas idas sem vindas nem vidas. Mas é melhor deixar os mortos em seus descansos finais para darmos mais fluidez nesse mero texto ora a homenagear um amigo. Ainda vivo, diga-se de passagem. 

Mais um desses sujeitos simpáticos que conheci vendendo ou distribuindo sua poesia pelas ruas e praças de Fortaleza nos idos anos 1990, já de bengala às mãos feito um Chaplin com ares de cearense da gema. Falo de Jorge Furtado, que até no nome não foi poupado no que se diz respeito à sua beleza. Sempre risonho é outra dessas figuras ímpares que te fazer sorrir e não rir de suas estripulias. A exemplo de já ter espalhado sua passagem mais de umas vinte vezes o que de início, qual a fábula do garoto e seus cordeiros, sempre nos deixava tristes, enlutados e pensando como faríamos para dar conta de outro Mário Gomes. 

Brincadeira dele, sim! Sempre teve essa mania de dizer morto, o velho Jorge. E pode anotar aí, que de tanto falar nesse tom de decoreba um dia ele acaba acertando e ninguém vai acreditar. Creio que só vamos encontrar o Jorge da mesma forma que foi encontrado o Nilto Maciel, uns três dias depois e, ainda assim, por acaso. 

Está cansado, só e doente Jorge Furtado. Ossos fustigados. Dia desses me falou que está sendo muito bem amparado pelo pessoal da Casa do Cantador de Fortaleza, mais conhecida como ASCAN – Associação dos Cantadores do Nordeste, lá para os lados do Carlito Pamplona. 

Traços de quem sabe das dores que deveras sente, mas não perde a piada de revés; aquela que chega em tom de chiste e sempre enrola a gente com o jeito moleque de cearense de ser. Findo-me, pois, a admirar e suscitar as dores que afligem o poeta ao escrever os versos abaixo em pleno vigor de sua capacidade intelectual em detrimento de sua saúde física. Mas, enfim, eles são assim mesmo, eternizam-se em seus escritos: 


POEMA DE RESISTÊNCIA
Luto contra o tédio e a solidão que me assedia na madrugada insone.
O fardo do meu fado é enfadonho.
A cidade está em caos!
Os meus já se tornaram crônicos.
Sou um paiol de conflitos preste a explodir,
A guerra que travo comigo mesmo me esmaga os ossos
e me dilacera os nervos, mas a poesia me serve de paliativo,
enquanto o fim não entra em cena.
(Jorge Furtado - 2017)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Roupas com cheiro de mala - Túlio Monteiro

O tempo passa em meio a momentos que fazem um dia monótono.
Você perde tempo gastando as horas de modo descuidado.
Perambulando por aí, em sua terra natal; esperando alguém ou algo que te mostre o caminho.
(Time. Pink Floyd)


Levantou-se e largou o lençol de cambraia de linho ali mesmo. Não aguentava mais aquela relação com cheiro de vou embora hoje. Estava realmente chateado em estar com idade tão tenra caminhando a passos largos rumo a lugar nenhum. Parecia o papel de seda das arraias que ditosamente revoavam as paisagens da sua infância de menino magrelo a correr mundo pelas veredas do lugar onde nascera. Fino e quase transparente.

Precisava se desgarrar dali, soltar amarras e, à sota-vento, partir rumo de algo mais engraçado que baús, televisões, contas para pagar e caras amarradas. Amores de papel crepom soltando suas cores em copos d´água verdes, vermelhos, amarelos e azuis. Simplesmente não dava mais. Era isso e pronto, que fossem às favas os livros que o cercavam, cachorros, gatos, inclusive naquele instante mesmo pensava como era ser um gato-pingado em tempos de carpideiras e quimoeiros a flertar com a loira desposada do Sol...essa tal Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Com seus fortes e rios entrecortantes: o Cocó de um lado e o Ceará de outro, Leste-Oeste de um barco há muito encalhado lá pelas bandas da velha Ponte do Ingleses. E riu um riso solto, quase louco e tenebroso de pensar como são as coisas. Enquanto os ingleses festejam até hoje o afundamento do Titanic, nós temos por aqui um tal de Mara Hope encalhado em um banco de areia sem servir para absolutamente nada. 

Mas não arreparemos, não! Já que na voz da música, cantar parece com não morrer...tudo isso enquanto ele engomava mais uma vez a calça encardida que teimava em não desamarrotar. Tênis já tão caminhados com buracos nas solas. E lembrou Chaplin a comer solas de sapatos em cena de vida de artista. Dava não. Vestiu a calça, uma camiseta básica e saiu pela porta do lado com as manias que sempre o perseguiram desde criança. Transtorno obsessivo compulsivo, sapecou-lhe aos ouvidos um dia o médico de loucos que todos agora insistem em chamar de psiquiatras. Alcunha mais leve para quem tem problemas de autoestima e tem que tomar remédios controlados para não sair distribuindo sopapos pela rua afora. À noite reverteria a coisa. Daquela não passaria. Olhou para as malas e saiu.

Dia todo no mundo e mais um dia cinza por terminar. Chegou de volta, abriu o guarda-roupas e de lá retirou as peças que ainda lhe cabiam, todas com aquele odor de roupas com cheiro de mala. Estava decidido. Partiria antes que todos voltassem e assim o fez. Esqueceu a luz acesa e foi embora. Nunca mais retornou! O badalar do sino de ferro chamando os fiéis, de joelhos, para ouvir o encanto suave de suas palavras.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Túlio Monteiro: VERDE-CARINHO

De verde-carinho hoje amanheci vestido. Eram olhos tão belos. Os belos olhos cor de esmeraldas me deram aquela estrela há tanto tempo ardendo em seu frio noturno, chamuscando de prata pingos gelados – lágrimas de anjos – que até hoje insisto em fitar ante o sobressalto de uma nesga de céu seja qual se fizer presente em noites sem nuvens livres de chuvas.

E aquele jeito de amar desesperado sempre em meus sonhos já tão distantes daquela tarde de arrebol perfeito, beira do mar por testemunha de um amor que surgiu com a mesma força e velocidade que se foi. Ela me dizendo que eu era o fim do mundo e que nossas horas e dias seriam misturas d’ almas tão fortes que nunca mais nos esqueceríamos um do outro. E não deu outra. Se ela lembra ou não daquele julho, basta-me a mim lembrar-me. Só vinte anos de amor a correr-me nas veias tão novas sem medo da morte e nem sequer que ela me viesse a chegar tão cedo.

Misturamos nossos corpos, nos doamos, nos demos centímetros a centímetro assim de um jeito tão esquisito e castanho-carícia que meus olhos se tornaram dela desde aquele abril, daquele octogésimo terceiro. Deixei a virgindade de lado e tornei-me livre naqueles braços de um aperto tão sem par que nunca mais esqueci aquele jeito de amar desesperado, chorado e vivido.

E um dia, como praxe é aos jovens em início de vida, ela se foi. Falou-me de coisas relativas a ser passional e capaz de matar por amor. Como se eu soubesse o que era ser passional ou se me importasse em morrer por suas mãos e unhas afiadas. E aquela noite pintada de verde-carinho se foi tão lindamente como as estrelas que nos viram por tantas vezes, deitados nas pedras daquela praia que coroamos como nossa. Por vezes lá estive novamente. Em outros julhos, outros dezembros e por muitas vezes procurei, em vão, tentar vê-la com os mesmos olhos de início. Como se os olhos do início pudessem voltar assim, do nada, da mais distante escura-cor-louvor de um século há tanto tempo nos idos anos 1980.



O casarão bonito que ela habitava àquele tempo ainda está lá, em pé, e as pedras toscas que cobriam a terra fofa daquela vila sem saída e um cheiro de chamar luar ainda ecoa entre os beijos que por lá trocamos. Éramos, sim, um. E hoje tudo o que eu queria era ver, derradeira vez que fosse, aquele olhar poderoso de índia cearense. Aqueles olhos de verde-carinho que me disseram adeus e nunca mais pude contemplar.

segunda-feira, 27 de março de 2017

OS VELHOS COM CABELOS NAS NARINAS - Túlio Monteiro

Nasci em plena quartelada de 1964, crescendo entre fardas, ameaças e caças Mirrage a cortar os céus, esses, sim, pássaros de aço a empestear feito inseticida os ares do meu País. Logo naqueles anos tão filhos disso e filhos daquilo, e eu queria só ser menino e aprender o total do que me vinha às retinas e às narinas – um cheiro de gasolina de avião.

Onde voas assim tão alto, sou nada mais que um pássaro no chão. Descobri-me tão cedo poeta. Entretanto, onde queria ternura, vinham-me notícias de torturas em retas e rimas pessoalmente absorvidas pela brutalidade imposta, àquele tempo de rosas de Hiroshima, quando os coqueiros de minha infância não pareciam obuses e ouvia nas rodas da comuna de meu avô paterno um amargo sibilar de um tal A.I 5. Que porcaria devia ser esse tal Ato Institucional, perguntei ao Marxista meu avô. A resposta: esqueça que não interessa a menino de bilas e baladeiras que corre feito um maluco pelas ruas. Ruas da minha Parangaba de antes. Mangueiras por testemunhas de minhas coisas do que se chama por aqui de malinagens. 

O velho com cabelos nas narinas morreu. Ele se foi e não me revelou o que diabos era ditadura. Preferi não ver o velho e seu terno no caixão, nariz cheio de algodões. A morte é mesmo uma droga. E cresci. Virei gente, como se fala por cá. Vi que o amor era tão cego quanto a injusta justiça desse Brasil de ouro tão cabisbaixo. Vieram as Diretas Já! E o menino-homem já um tanto passado na casca do alho descobriu que as arestas um tanto insuspeitas eram por demais suscetíveis ao suborno que chegou aqui nas caravelas que trouxera Dom João VI com o rabo entre as pernas, tangido que foi por Napoleão Bonaparte. 

Onde havia um rapaz com vinte anos redondos, surgiu o questionador de coisas sem entender o senso nem o humor do que irradiavam aos quatro ventos com Betinho, Tancredo Neves, Ziraldo e companhia. Daquele tempo até hoje, muitos fatos estão inconclusos. Não encontraram, por exemplo, no helicóptero caído no mar, o velhinho macho com cabelos nas narinas que botou o Brasil nos trilhos com a Constituição de 1988. Singelo grito morto e amordaçado de um País que já estava levantando-se. Cada cultura tem o Odisseu que merece, o grego se perdeu por dez anos. O nosso Ulysses está perdido a vinte cinco.

O mar sob o céu do Brasil, caros, está virando saudade e o Rio São Francisco quase não está indo mais bater no meio dele, tantos recortes foram feitos, desde sua foz, e vêm tornando sua paisagem árida. Umas “legitimadas” outras surrupiadas e desviadas na marra pelos tais canais do trabalhador. Obra dos novos coronéis, velhos com cabelos nas narinas, de fraques e termos alinhados. O Rio Doce já era, acabou-se. E as morenas dos olhos rasos d’água sentam olhando para a sequidão que se alastra, queimando plantações por mares de areia, calor e dentes podres.

Hoje, onde havia aquele rapaz, há um ser que pensa e imagina as brutalidades que estão por vir, a cavalo galopante, sabendo que o deus Sol forma um elo e que o certo é saber que o certo está sempre certo. E que a bandeira Positivista, o panteão de nossa pátria está ameaçado novamente de ser rasgado e jogado ao fogo amigo que vai – e afirmo que vai – destronar nosso cretino Chefe Geral desta Nação Tupiniquim.

Já ouço as vozes da manhã que mais uma vez cisma em vir, segundo a segundo, rumo ao fim de meus dias em forma de pedidor de coisas e solicitações ásperas e deselegantes. Tantos brasileiros estão sendo riscados do mapa depois de mais um carnaval, que não consigo imaginar o doloroso que vai ser dos tantos milhões de brasileiros em busca do pão seu de cada dia. Preparem-se os fracos, os fortes estarão a sobreviver, pois como reza a cartilha capitalista desde que descobriram que árvores serviriam para gerar o maldito bicho chamado dinheiro. Só ele compra, dá e tira.