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quinta-feira, 22 de março de 2018

Apagão. Em meio ao caos, Luz, poesia e solidariedade de Juliana Holanda

Povo do Meu Bem-querer. A mim me comovem velhos e crianças em especial e tanto ou mais atitudes solidárias, de Amor gratuito, a nos mostrar valer a pena existir. Aqui tem um registro de Juliana Holanda de muito Amor e Solidariedade. Ela o fez no FaceBook, ao lê-lo, pedi para replicá-lo aqui tamanha beleza e bem que nos faz. Ela - Luz intensa! -, imaginem!, disse ser uma honra. Agradeci declarando que ela era muita beleza junta. Ao que, respondeu: "grata, de coração, grata aos ancestrais que me nutriam e nutrem de sensibilidade. ... Amanhã vou atrás de Dona Zezé... e ouvir os pássaros". (KB)

CADA VIDA NO PEDAÇO DESSE CHÃO IMPORTA

Juliana Holanda é de Oxum, trabalha na Secult-CE na
Coordenadoria de Patrimônio Histórico e Cultural.
"Apagão. Na parada do ônibus da Praça dos Leões aceno o 286. Sem entender o porquê, entro no ônibus com o trajeto mais longo. Subindo o degrau, agradeci aos Orixás pela escolha correta do dia. Ficaria inquieta dirigindo no engarrafamento, em meio a desinformação, por falha de conexão com as pessoas via redes sociais, e ao caos da cidade sem semáforos por tempo indeterminado. Ficaria a mercê das emoções e da lei dos homens. Como seria?
Sim, foi correta. Fiz a melhor opção: ônibus. Na mochila, o livro O que é Lugar de fala, da Djamila Ribeiro, do qual acabaria relendo algumas páginas. Na orelha do livro, Sueli Carneiro, registra:


Djamila nos brinda com a organização dessa bela e inspiradora coleção - Feminismos Plurais - na qual se expressa e afirma a diversidade da temática e de perspectivas que atravessam a reflexão, ação política e cultural de mulheres negras, indígenas e homens negros que trazem em comum a insurgência desses grupos subalternizados frente aos modos de subjetivação consagrados pelo racismo, sexismo e o desafio de construção de novos imaginários restituidores da plena humanidade de todas e todos.

Penso que desejo ainda compartilhar a leitura e discussão com tantas pessoas. A todo momento, entretanto, ouvia comentários sobre o possível motivo da falta de energia. ... 'culpa desse governo doido, sem pé nem cabeça' - dizia um usuário. Concordei com a desaprovação do rapaz que em seguida tiraria o fone tentando serenizar a sequência de más notícias dos últimos tempos. 

Já no terminal do Papicu, as selfies no breu traziam uma sensação de ineditismo. Como não registrar na memória a existência no meio do caos? Pego outro coletivo do qual desço na parada de ônibus da Cidade 2000. Percebo uma senhora, que parecia ter no máximo 1,40m, bolsa agarrada na axila (atitude e costume dos antigos) e a fala trêmula. Ela tentava dar um passo a mais. Não conseguia distinguir o calçamento e a calçada. Pior foi perceber que Dona Zezé não sabia para onde ir.

Antes de alcançá-La, ouvi recomendações de outros pedestres... 'Vai devagar'... naquela altura, insensíveis, insensatos e sei-lá-mais-o-quê pois não notaram a idade nem fragilidade daquele corpo franzino. Como essas pessoas não ofertariam ajuda? Se sou mais uma - e desço correndo sem perceber ao meu redor - como Dona Zezé ficaria? Coração aperta. O grisalho do cabelo Dela estava vistoso. A partir de então, éramos nós duas, de mãos dadas, pisando o chão sob a luz da tênue lua e das estrelas.

- Está nova. - dizia Ela olhando pro céu.

Mostrei as Três Marias da constelação de Orion, única que saberia identificar. Ela me chamou de Anjo. Respondi que eu era bem Pretinha. Ela riu, disse que não tinha preconceito e que torcia que existissem mais anjos pretos pelo mundo, só assim as pessoas entenderiam que somos iguais. Estava abraçada pela Sabedoria, sorrimos novamente.

Fui contando a cada quarteirão onde estávamos, dizendo o nome do comércio, detalhando a passada naquele contato surgido pela urgência. O ato a fez recordar das vivências pelo bairro. Caminhamos ainda uns quatro quarteirões até chegar a entrada de sua rua. Disse:

- Estamos perto da loja dos pássaros. 
- Entremos aqui, é por aqui mesmo, eles cantam que é uma beleza, venha pela manhã ouvir. - respondeu.

Recomendação anotada. O número da morada é 266 e chamo pela Dona Graça. Escuto o arrastado da chinela e um 'Graças a Deus, Dona Zezé!' é dito lá dos fundos. 'Minha fia, Deus te abençoe!' Respondo o de sempre: asé e a todos nós.

Dona Zezé aperta meu braço e diz. 'Que teu Deus te faça feliz' e afirma que pode ser minha bisavó. Sobe a calçada e entra aliviada pela chegada em segurança.

Estendendo a bênção, oro sim aos meus Deuses Xangô, Yansã e Obá para proteger nossos caminhos, na cidade e no interior, em especial a todas pessoas 'desassistidas', em especial nas periferias, nos quilombos, nas aldeias desse nordeste noturno sem luz. Cada vida no pedaço desse chão importa."

segunda-feira, 15 de maio de 2017

TAUAÇU DE MEU PEITO - Túlio Monteiro

Este dó de peito. Esta nota tão relapsa e ao mesmo tempo tão complexa me foi arrancada do nó – pomo de adão – há tempo. Eu que já gritei, esperneei e nunca tive tanto esquecimento em meu cérebro, hoje transtornado pelo tempo, digo: – Ora, se amar nunca me trouxe a exatidão do termo AMOR dentre os corações que habitei, por tantas mãos e corpos que já passei. Nunca me coube aportar meu barco condenado que fui a navegar por um mar de tormentas, de sargaços, sempre a desbancar-me em ondas gigantescas. Olhos fora d´água em gritos tão altos busca de um tauaçu que fosse para amarrar a jangada desse coração nada perene no que diz respeito a fixar amarras.

Entre sereias e Marias fui sempre Tritão pelas auroras de meu mar, cara donzela. O que fazer se nasci assim, um tanto curumim, um tanto alma velha. Velho senhor que se pensava dono de seus dons a esporear o tempo, açoitando meu destino aos quatro ventos. Faca nos dentes, arrebentando o que vinha pela frente. Até descobrir o que é a paixão e a morte, minha eterna companheira nesse ínterim chamado vida, pois de rede branca, cachorro latindo me esperando, nunca soube o que era varanda arrodeada de beirais e flores.

Sempre fui verde menino e remoto senhor a caminhar sobre as brasas de corações femininos; uns ferinos outros especialmente felinos. E fui gastando meu precioso tempo e o reliquioso tempo de outros entes queridos (?) de uma forma tal que o que me restou foi o absolutamente nada, um certo carma, nirvana, por fim, a qualquer instante me bater à porta, vamos lá, chegou tua hora. 

Um gosto de cânhamo me habita a língua e a boca, trazendo-me a certeza única que morrer não dói tanto quanto se estar vivo e inativo, já que só o que restou desse que bate no peito como alento são lembranças e lembranças são como cultivar ventos, tempestades, temporais e escassez.

Entram dias e saem dias sem nada do que previ aconteça. Estarei já eu morto vivendo no tal purgatório dos suicidas? Será que simplesmente já fui e naturalmente não sei disso ou estou mesmo louco vendo o porvir sem nada poder fazer? Perguntas! Para que servem tais substantivos femininos de interrogação, se o coração feminino já é um interrogatório sem defesa de causa?! Ah! As mulheres, entes, djinns e flores de jardins. Como foi bom dividir-me entre vocês nessas décadas a caminhar sem tréguas no campo de guerra vida. Perdi muitas batalhas e fui vencedor em tantas outras que se me chegasse a hora agora, diria eu àquela que sempre chega silenciosa, diáfana e medonha a sentar-se à beira de um lugar qualquer para nos esperar com a paciência de sempre: – Leva-me, então, pois se vim a esse mundo para coabitar-te frente a frente, cabeça a cabeça, desta vez tu perdeste mais que eu.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Pauta Livre: Com amor se paga?

Reproduzo aqui a coluna Pauta Livre, do publicitário Ricardo Alcântara, por sua ponderada análise da importância do ato de dizer.



Com amor se paga?


Há palavras vulgares e há palavras comuns. Coincidem, às vezes. “Porra”, por exemplo, não se diz na missa, mas é inevitável quando cai pela terceira vez aquela ligação 0800 após uma longa espera para ser atendido.

Há outras que, embora de uso corrente, têm sentido sublime e, porque são sublimes, vulgarizam-se facilmente pelo uso comum. Preciosas, mereciam ser mais poupadas, como fazem com elas os mais sensatos.

A palavra “Amor” talvez seja a mais castigada de todas elas. Fácil de pronunciar, muita responsabilidade atribui a quem o sente. Tão distante está de ser compreendida, embora nos habite tão intimamente o seu mistério.

Outro dia, ouvi o governador Cid Gomes falar de amor. Chamou minha atenção porque é raro observar esta palavra na fala de um político. Muito raramente mesmo encontram lugar para ela em seu discurso.

Por mais elástica sua capacidade de adulterar o sentido das coisas quando falam, os políticos parecem tomados de um inusitado pudor quando a evitam, o que é sensato: não parece mesmo verossímil na boca deles.

A palavra “amor”, o governador usou da pior maneira: para humilhar as pessoas – educadores, no caso. Nada mais paradoxal do que o esforço de conciliar humilhação e amor na mesma oração.

Para justificar as compensações precárias que seu governo está podendo oferecer no momento aos professores em greve – eis o contexto – ele disse que quem entra no serviço público não o faz por dinheiro, mas por amor.

Ora, homem, nos poupe do seu evangelho de ocasião! É evidente que nenhum professor desprovido de vocação, amor pela missão que abraçou, pode mesmo formar uma geração de bons cidadãos.

Mas é imprescindível à verdade mais rasa acrescentar ao que você falou um detalhe que muda de tal maneira a qualidade do que disse que melhor seria se tivesse evitado se expor assim, pilhado numa sandice.

É que, para servir com a devoção que você cobra, os educadores, além de amor, precisam ir às salas de aula com a tranquilidade de ter deixado em casa os filhos alimentados e bem vestidos. Afinal, isso também é amor.

Os educadores não estão exigindo viajar em jatinhos particulares com a família para servir ao Estado como devem. Querem apenas ser remunerados de modo compatível com a relevância do serviço que prestam.

Não se pode exigir, em nome do amor, que as pessoas abdiquem do necessário. A mais generosa impressão que se pode ter do que você disse é que a sua experiência pessoal com este sentimento é imatura e superficial.

Por que não te calas? Há quem colabore mais com outros recursos, que não a palavra. Pelo visto, seu ramo é outro. Faça o melhor que sabe nas condições que pode, mas evite expor em demasia a natureza confusa dos seus valores.









Pauta Livre. Também na TV União, de segunda a quinta, às 7:50.