Mostrando postagens com marcador Conversa de Botequim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conversa de Botequim. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Conversa de Botequim: Da arte de privilegiar interesses sociais

A política é a arte do impossível pela razão, pode-se dizer também que é a arte de compatibilizar interesses. A qualidade política lastreia-se nos princípios ideológicos. São eles que definem os interesses a serem defendidos e compatibilizados. Os nossos interesses são os públicos. Interesses que consolidam políticas públicas sociais, para a maioria da população. A favor da população, negociemos tudo, menos os princípios; senão a política vira isto que está implícito nesta alegoria:

"Eu disse ao meu sobrinho:
'Você casaria com a garota que eu escolher?'
Ele disse: 'NÃO!'
Eu disse: 'Ela é filha de Bill Gates.'
Ele prontamente: 'Neste caso, claro que sim!'

Liguei para Bill Gates e disse: 'Quero casar sua filha com meu sobrinho!'
Bill Gates disse: 'NÃO!'
Eu disse: 'Ele é diretor do Banco Mundial.'
Bill Gates: 'Neste caso, SIM!'

Liguei para o presidente do Banco Mundial: 'Quero que você nomeie meu sobrinho como diretor do Banco.'
Ele disse: 'NÃO!'
Eu disse: 'Ele é genro de Bill Gates!'
'Ok, ok. Ele começa na próxima semana!' "

É exatamente assim que funciona a MÁ política. Continuemos fazendo a boa política e lutando a boa luta! Viva a Democracia!

segunda-feira, 29 de junho de 2015

‘Os demônios do Demônio’, por Eduardo Galeano

Muçulmanos, judeus, mulheres, homossexuais, índios, negros, estrangeiros e pobres: em ensaio de 2005, escritor discorre sobre as diferentes faces do Demônio, descritas pela antítese de cada um desses ‘anjos do mal’
Publicado originalmente no site da revista Le Monde DiplomatiqueOpera Mundi, reproduzido pela Contioutra da versão Geledes e ora replicado aqui no Evoé!
Esta é uma modesta contribuição à guerra do Bem contra o Mal. Entre os diversos semblantes do Príncipe das Trevas, só estão os demônios que existem há muito, muito tempo, e que há séculos ou milênios continuam ativos no mundo.
O Demônio é mulçumano
A experiência prova que a ameaça do inferno é sempre mais eficaz que a promessa do Céu. Benditos sejam os inimigos
Dante já sabia que Maomé era terrorista. Por alguma razão o colocou em um dos círculos do inferno, condenado à pena de prisão perpétua. “O vi partido”, celebrou o poeta em A Divina Comédia , “desde a barba até a parte inferior do ventre…”. Mais de um Papa já tinham comprovado que as hordas muçulmanas, que atormentavam a Cristandade, não eram formadas por seres de carne e osso, eram um grande exército de demônios que aumentava quanto mais sofria com os golpes das lanças, das espadas e dos arcabuzes.
Hoje em dia, os mísseis fabricam muito mais inimigos que os inimigos das entranhas. Porém, que seria de Deus, afinal de contas, sem inimigos? O medo impera, as guerras existem para desbaratar o medo. A experiência prova que a ameaça do inferno é sempre mais eficaz que a promessa do Céu. Benditos sejam os inimigos. Na Idade Média, cada vez que o trono tremia, por bancarrota ou fúria popular, os reis cristãos denunciavam o perigo muçulmano, desatavam o pânico, lançavam uma nova Cruzada, o santo remédio. Agora, há pouco tempo, George W. Bush foi reeleito presidente do planeta graças o oportuno aparecimento de Bin Laden, o grande Satã do reino, que as vésperas das eleições anunciou, pela televisão, que ia comer todas as crianças.
Lá pelo ano de 1564, o especialista em demonologia Johann Wier teria contado os demônios que estavam trabalhando na terra, a tempo integral, a favor da perdição das almas cristãs. Eram sete milhões quatrocentos e nove mil cento e vinte sete, que agiam divididos em setenta e nove legiões.
Muita água fervente passou, depois daquele censo, debaixo das pontes do inferno. Quantos são, hoje em dia, os enviados do reino das trevas? As artes do teatro dificultam as contas. Estes falsos continuam usando turbantes, para ocultar seus cornos, e longas túnicas tampam os rabos do dragão, suas asas de morcego e a bomba que carregam debaixo do braço.
galeano2014
O Demônio é judeu
A colossal carnificina organizada por Hitler culminou uma longa história de perseguição e humilhação
Hitler não inventou nada. Há mil anos, os judeus são os imperdoáveis assassinos de Jesus e os culpados de todas as culpas. Como? Jesus era judeu? E judeus eram também os doze apóstolos e os quatro evangelistas? O que você disse? Não pode ser. As verdades reveladas estão além das dúvidas e não exigem mais evidências do que a própria existência. As coisas são como se diz que são, e se diz porque se sabe: nas sinagogas o Demônio dá aulas, e os judeus desde há muito se dedicam a profanar hóstias e a envenenar águas bentas. Por causa deles aconteceram bancarrotas econômicas, crises financeiras e derrotas dos militares; são eles que trouxeram a febre amarela e a peste negra e todas as outras pestes.
A Inglaterra os expulsou, nenhum escapou, no ano de 1290, porém isso não impediu Chaucer, Marlowe e Shakespeare, que nunca tinham visto um judeu, fossem obedientes à caricatura tradicional e reproduzissem personagens judeus segundo o modelo satânico de parasita sanguessuga e o avaro usurário. Acusados de servir ao Maligno, estes malditos andaram durante séculos de expulsão em expulsão e de matança em matança. Depois da Inglaterra foram sucessivamente expulsos da França, Áustria, Espanha, Portugal e de numerosas cidades suíças, alemães e italianos. Os reis católicos Izabel e Fernando expulsaram os judeus e também os muçulmanos porque sujavam o sangue. Os judeus haviam vivido na Espanha durante treze séculos. Levaram com eles as chaves de suas casas. Há quem as guardem ainda. Nunca mais voltaram.
A colossal carnificina organizada por Hitler culminou uma longa história de perseguição e humilhação. A caça aos judeus tem sido sempre um esporte europeu. Agora, os palestinos, que jamais a praticaram, pagam a culpa.
O Demônio é mulher
“Toda a bruxaria provém da luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável”
O livro Malleus Maleficarum, também chamado O martelo das bruxas, recomenda o mais ímpio exorcismo contra o demônio que tem seios e cabelos compridos.
Dois inquisidores alemães, Heinrich Kramer e Jakob Sprenger, o escreveram, a pedido do Papa Inocêncio VIII, para enfrentar as conspirações demoníacas contra a Cristandade. Foi publicado pela primeira vez em 1486 e até o final do século XVIII foi o fundamento jurídico e teológico dos tribunais da Inquisição em vários países.
Os autores afirmavam que as bruxas, do harém de Satanás, representavam as mulheres em estado natural: “Toda bruxaria provém da luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável”. E demonstravam que “esses seres de aspecto belo, cujo contato é fétido e a companhia mortal” encantavam os homens e os atraíam com silvos de serpentes, rabos de escorpião, para aniquilá-los. Os autores advertiam aos incautos: “A mulher é mais amarga que a morte. É uma armadilha. Seu coração, uma rede; e correias, seus braços”.
Esse tratado de criminologia, que enviou milhares de mulheres às fogueiras da Inquisição, aconselhava que todas as suspeitas de bruxaria fossem submetidas à tortura. Se confessassem, mereceriam o fogo. Se não confessassem também, porque só uma bruxa, fortalecida por seu amante, o Demônio, nos conciliábulos das bruxas, poderia resistir a semelhante suplício sem soltar a língua.
O papa Honório III sentenciara que o sacerdócio era coisa de machos: – As mulheres não devem falar. Seus lábios têm o estigma de Eva, que provocou a perdição dos homens.
Oito séculos depois, a Igreja Católica continua negando o púlpito às filhas de Eva.
O mesmo pânico faz com que os mulçumanos fundamentalistas as mutilem o sexo e lhes cubram a cara.
E o alívio pelo perigo conjurado leva os judeus mais ortodoxos a começar o dia sussurrando: “Graças, Senhor, por não me ter feito mulher”.
O Demônio é homossexual
Em nenhum lugar do mundo se levou em conta os muitos homossexuais condenados ao suplício ou a morte pelo delito de sê-lo
Desde 1446, os homossexuais iam para a fogueira em Portugal. Desde 1497 eram queimados vivos na Espanha. O fogo era o destino merecido pelos filhos do inferno, que surgiam do fogo.
Na América, ao contrário, os conquistadores preferiam jogá-los aos cachorros. Vasco Núnez de Balboa, que entregou muitos deles para a refeição dos cães, acreditava que a homossexualidade era contagiosa. Cinco séculos depois, ouvi o Arcebispo de Montevidéu dizer o mesmo. Quando os conquistadores apontaram no horizonte, só os astecas e os incas, em seus impérios teocráticos, castigavam a homossexualidade com a pena de morte. Os outros americanos a toleravam e em alguns lugares a celebravam, sem proibição ou castigo.
Essa provocação insuportável devia desencadear a cólera divina. Do ponto de vista dos invasores, a varíola, o sarampo e a gripe, pestes desconhecidas que matavam índios como moscas, não vinham da Europa, mas sim do Céu. Assim, Deus castigava a libertinagem dos índios que praticavam a anormalidade com toda a naturalidade.
Nem na Europa, nem na América, nem em nenhum lugar do mundo se levou em conta os muitos homossexuais condenados ao suplício ou a morte pelo delito de sê-lo. Nada sabemos dos longínquos tempos e pouco ou nada sabemos dos tempos de agora.
Na Alemanha nazista, estes “degenerados culpados de aberrante delito contra a natureza” eram obrigados a exibir a estrela amarela. Quantos foram para os campos de concentração? Quantos lá morreram? Dez mil? Cinqüenta mil? Nunca se soube. Ninguém os contou, quase ninguém os mencionou. Tampouco se soube quantos foram os ciganos exterminados.
No dia 18 de setembro de 2002, o governo alemão e os bancos suíços resolveram “retificar a exclusão dos homossexuais entre as vítimas do Holocausto”. Levaram mais de meio século para corrigir essa omissão. A partir dessa data os homossexuais que tinham sobrevivido em Auschwitz e em outros campos, se é que ainda haja algum vivo, puderam reclamar uma indenização.
O Demônio é índio
Os conquistadores cumpriram a missão de devolver a Deus o ouro, a prata e outras várias riquezas que o Demônio havia usurpado
Os conquistadores descobriram que Satã, quando expulso da Europa, tinha encontrado refúgio na América. Nas ilhas e nas praias do mar do Caribe, beijadas dia e noite por seus lábios flamejantes, habitadas por seres bestiais que andavam nus, tal como o Demônio os havia colocado no mundo, que cultuavam o sol, a terra, as montanhas, os mananciais e outros demônios disfarçados de deuses, que chamavam de jogo ao pecado carnal e o praticavam sem horário nem contrato, que ignoravam os dez mandamentos e os sete sacramentos e os sete pecados capitais, que não conheciam a palavra pecado nem temiam o inferno, que não sabiam ler nem tinham nunca ouvido falar do direito de propriedade, nem de nenhum direito e que, como se tudo isso fosse pouco, tinham o costume de comerem uns aos outros. E crus.
A conquista da América foi uma longa e difícil tarefa de exorcismo. Tão arraigado estava o Demônio nestas terras, que quando parecia que os índios se ajoelhavam devotamente ante a Virgem, estavam na realidade adorando a serpente que ela amassava com o pé; e quando beijavam a Cruz não estavam reconhecendo ao Filho de Deus, mas estavam celebrando o encontro da chuva com a terra.
Os conquistadores cumpriram a missão de devolver a Deus o ouro, a prata e outras várias riquezas que o Demônio havia usurpado. Não foi fácil recuperar o tesouro. Ainda bem que de vez em quando recebiam alguma pequena ajuda de lá de cima. Quando o dono do inferno preparou uma emboscada em um desfiladeiro, para impedir a passagem dos espanhóis em busca da prata de Cerro Rico de Potosi, um arcanjo baixou das alturas e lhe deu uma tremenda surra.
O Demônio é negro
Supunha-se que a leitura da Bíblia podia facilitar a viagem dos africanos do inferno para o paraíso, mas a Europa esqueceu de ensiná-los a ler.
Como a noite, como o pecado, o negro é inimigo da luz e da inocência.
Em seu célebre livro de viagens, Marco Pólo fala dos habitantes de Zanzibar. “Tinham uma boca muito grande, lábios muito grossos e nariz como o de um macaco. Caminhavam nus, totalmente negros e para quem de qualquer outra região que os visse acreditaria que eram demônios”.
Três séculos depois, na Espanha, Lúcifer, pintado de negro, trepado numa carroça em chamas, entrava nos pátios das comédias e nos palcos das feiras. Santa Tereza de Jesus, que viveu para combatê-lo, apesar disso nunca pode entendê-lo. Uma vez ficou ao lado e viu “um negrinho abominável”. Outra vez ela viu que do seu corpo negro saía uma chama vermelha, quando se sentou em cima de seu livro de orações e queimou os textos do ofício religioso.
Uma breve história do intercâmbio entre África e Europa: durante os séculos XVI, XVII e XVIII, a África vendia escravos e comprava fuzis. Trocava trabalho pela violência. Os fuzis punham ordem no caos infernal e a escravidão iniciava o caminho da redenção. Antes de serem marcados com ferro quente, na cara e no peito, todos os negros recebiam uma boa unção de água benta. O batismo espantava o demônio e dava alma a esses corpos vazios. Depois, durante os séculos XIX e XX, a África entregava ouro, diamantes, cobre, marfim, borracha e café e recebia Bíblias.Trocava produtos por palavras. Supunha-se que a leitura da Bíblia podia facilitar a viagem dos africanos do inferno para o paraíso, mas a Europa esqueceu de ensiná-los a ler.
O Demônio é estrangeiro
O imigrante está disponível para ser acusado como responsável pelo desemprego, a queda do salário, a insegurança pública e outras temíveis desgraças
O “culpômetro” indica que o imigrante vem roubar-nos o emprego e o “perigosímetro” acende a luz vermelha. Se for pobre, jovem e não for branco, o intruso, que veio de fora, está condenado, a primeira vista, por indigência, inclinação ao tumulto ou por ter aquela pele. De qualquer maneira, se não é pobre, nem jovem, nem escuro, deve ser mal recebido, porque chega disposto a trabalhar o dobro em troca da metade.
O pânico diante da perda do emprego é um dos medos mais poderosos entre todos os medos que nos governam nestes tempos de medo. E o imigrante está sempre disponível para ser acusado como responsável pelo desemprego, a queda do salário, a insegurança pública e outras temíveis desgraças.
Em outros tempos, a Europa distribuía para o mundo soldados, presos e camponeses mortos de fome. Estes protagonistas das aventuras coloniais passaram à história como agentes viajantes de Deus. Era a Civilização lançada nos braços da barbárie.
Agora a viagem se faz na contramão. Os que chegam, ou tentam chegar do sul em direção ao norte, não trazem nenhuma faca entre os dentes nem fuzil no ombro. Vêm de países que foram oprimidos até a última gota de seu sugo e não têm a intenção de conquistar nada além de um trabalho ou trabalhinho. Esses protagonistas das desventuras parecem, muito mais, mensageiros do Demônio. É a barbárie que toma de assalto a Civilização.
O Demônio é pobre
Os bens de poucos sofrem a ameaça dos males de muitos
Se lambem enquanto você come, espiam enquanto você dorme: os pobres espreitam. Em cada um se esconde um delinquente, talvez um terrorista. Os bens de poucos sofrem a ameaça dos males de muitos. Nada de novo. Tem sido assim desde quando os donos de tudo não conseguem dormir e os donos de nada não conseguem comer.
Submetidas a um acossamento durante milhares de anos, as ilhas da decência estão encurraladas pelos turbulentos mares da vida desgraçada. Rugem as ondas sucessivas que forçam viver em sobressalto perpétuo. Nas cidades de nosso tempo, imensos cárceres que prendem os prisioneiros ao medo, as fortalezas dizem ser casas e as armaduras simulam ser trajes.
Estado de sítio. Não se distraia, não baixe a guarda, desconfie: você está estatisticamente marcado, mais cedo ou mais tarde terá que sofrer algum assalto, seqüestro, violação ou crime. Nos bairros malditos espreitam, ocultos, remoendo invejas, tragando rancores, os autores de sua próxima desgraça. São vagabundos, pobres diabos, bêbados, drogados, carne de cárcere ou bala, pessoas sem dentes, sem rumo e sem destino.
Ninguém os aplaude, porém os ladrões de galinha fazem o que podem imitando, modestamente, os mestres que ensinam ao mundo as fórmulas do êxito. Ninguém os compreende, porém eles aspiram serem cidadãos exemplares, como esses heróis de nosso tempo que violam a terra, envenenam o ar e a água, estrangulam salários, assassinam empregos e sequestram países.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Conversa de Botequim: Era um sujeito cascudo e bocão

Passar algum tempo sem encontrar o Vessillo Monte constitui grave penitência. Seu refinado bom humor e o inversamente proporcional mau humor me são essenciais. Aliás, o bem-humorado de fato rebenta do mal-humorado. Não é à toa que, sim, todo comediante (se for do bom mesmo) tem em si perene ranzinzice, cujo antítodo consiste em dar à sua irascibilidade vazão com efeito risível, senão vira neurastenia crônica. O bom humor, portanto, prevalece entre mim e o poeta Vessillo Monte, pois somos dois rabugentos.

Devo fazer alguma falta também, porque mesmo em companhia do mais fleugmático dos seres, o Doce Gigante Flávio San, gentil e delicado até ao espantar moscas, o poeta me liga cobrando comparecimento.

Flávio San, por sua vez, me intima com seu violão e poesia. Às vezes, o Doce Gigante se espanta com a rabugice minha e do Vessillo e nos interpela com voz mansa de padre em confessionário e mãos de maestro regendo em adágio: “poeta, poeta... calma, poeta... olha o coração (com as pontas dos dedos das duas mãos toca o próprio peito)..., o coração, poeta... vamos cantar!... ‘ponta de areia, ponto final’...”

Às vezes dá certo, outras vezes também. Quase sempre funciona, bem diferente do tempo em quando um dia convoquei o poeta para tomar satisfação com um sujeito cascudo e bocão instalado, segundo me revelou meu irmão Kelson, às margens da minha sagrada lagoa da Parangaba (topônimo tupy-guarany que significa Terra onde nasceu Kelsen Bravos).

Pois bem, ao lhe revelar do assédio que o tal sujeitinho andava fazendo aos coopistas e, sobretudo, às coopistas, ali às margens da sagrada lagoa, o poeta se alevantou e quase retumbante bradou: Vamos lá, Kelsen Bravos, pôr fim a este constrangimento.

Cuidei logo de encher um cooler com gelo e bastante cerveja, muita cerveja, pois a missão seria demorada. Tivemos, obviamente, de largar os editoriais afazeres cotidianos para nos dedicar à paladina missão de calar o sujeito cascudo e bocão a aterrorizar minha sagrada Lagoa da Parangaba. Vimos que lhe cabia mais um adjetivo: arredio.

Decidimos fazer ocupações libativas ao longo das margens da lagoa. Parávamos o carro, descarregávamos o cooler com as cervejas e nos acomodávamos junto ao que se parecia bancos. Em cada pouso ficávamos no mínimo uma hora.

Nada do sujeitinho. Saímos algumas vezes para renovar o estoque de cervejas no cooler. Ao voltar, vinha a notícia do alvoroço de sua ofensiva aparição. Quando foi necessário repor as cervejas, o poeta resolveu ficar.

Disse-lhe que já era quase noite, que podia ser perigoso. Talvez demorasse mais, devido o trânsito e tal... O poeta de olhos já vermelhos e boca espumante esbravejou: homem, por Deus, vá buscar mais cerveja e me deixa ficar aqui! Resolvi levar também pinga e cigarros. 

Voltei o mais rápido que pude. De fato minha preocupação eram os demais habitués noturnos das margens da lagoa. Encontrei o poeta cercado por vagabundos. Sempre me impressionou a capacidade de o poeta ganhar a simpatia de toda gente, fosse onde estivesse. Já haviam feito uma fogueira e estavam em animada conversa. Foi providencial eu ter comprado também a cachaça. Na fogueira, já assava um peixe pescado ali mesmo.

Nossos novos amigos enriqueceram nossas informações do tal cascudo e bocão. Era comum aparecer à noite. Pelo que nos falaram não era tão ameaçador assim. O papo varou a madrugada. A barra do dia já se iluminava. Como é lindo o amanhecer às margens da Lagoa da Parangaba.

Já passava das nove da manhã, estávamos o poeta e eu metidos dentro dágua até a cintura, quando ouvimos um alarido em um ponto das margens perto de onde estávamos. Mulheres corriam assustadas. É ele! gritei.

Fomos correndo por dentro dágua até o ponto onde uma multidão se concentrava. Nossos amigos noturnos haviam prendido o tal sujeito em flagrante delito. Sua sorte foi, por respeito, terem atendido o pedido do poeta. Deixem que eu resolvo a questão com ele.

Trouxeram-no até nosso acampamento. Soltem, podem soltar. Frente a frente com o Vessillo, o tal sujeito ficou estático e boquiaberto. Hirto. Tão absorto que nem parecia estar mais ali em espírito.

Neste instante, o meu celular toca. Do outro lado, a voz indignada do chairman querendo saber onde estávamos. Tentei explicar, mas achei melhor passar o telefone para o poeta, muito mais eloquente do que eu. Vessillo, o Lira. Ele quer falar contigo.

Ao ouvir o nome do chairman o tal sujeito cascudo e bocão pareceu bradar: O Lira?! E incontinenti correu para dentro da lagoa. Eu ainda gritei que o Lira queria caçar era jabuti e não jacaré; mas não adiantou, o cascudo e bocão nunca mais foi visto.  

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Conversa de Botequim: Cada cultura tem o Charles que merece

Há tempos sem ter tempo de ir ao Botequim, mantive um telecontato com o poeta. Numa entrecortada conversa, nem eu nem ele somos afeitos a conversa a distância, para se ter ideia do quanto tempo passamos sem papear o assunto mais atual foi o descalabro acontecido numa das culturas mais preconceituosas e politicamente hipócrita da Europa (desculpem-me a redundância):
- Ei, Vessillo Monte, meu poeta, fiquei indignado com esse oba-oba sobre o tal Charlie Hebdo. Cuidei logo de registrar: Je ne sui pas Charlie! E você?

- Moi?! Je suis Charles aussi; mas... ici. Este que conhecemos desde os anos de chumbo. Lembra? E começou a cantarolar: "Oba, oba, Charles, como é que vai, my friend, Charles? Charles, Anjo 45, protetor dos fracos e dos oprimidos, Robin Hood dos morros, rei da malandragem..." Este Charles, sim, poeta Kelsen Bravos, merece reconhecimento, pois aparece quando o poder público se omite.

- Boa, Vessillo Monte! Essa é a realidade com a qual também me identifico. A do Charles do Jorge ainda dos tempos quando ele era Ben. O Charles, Anjo 45. Como era mesmo que dizia a letra?
"Ôba, ôba, ôba Charles.
Como é que é, My friend Charles?
Como vão as coisas, Charles?...
Charles, Anjo 45,
Protetor dos fracos
E dos oprimidos,
Robin Hood dos morros,
Rei da malandragem,
Um homem de verdade
Com muita coragem.
Só porque um dia,
Charles marcou bobeira,
Foi sem querer tirar férias
Numa colônia penal...
Então os malandros otários
Deitaram na sopa
E uma tremenda bagunça
o nosso morro virou,
Pois o morro, que era do céu,
Sem o nosso Charles
Um inferno virou...
Mas Deus é justo
E verdadeiro,
E antes de acabar as férias,
Nosso Charles vai voltar.
Paz, alegria geral,
Todo morro vai sambar
antecipando o carnaval.
Vai ter batucada,
Uma missa em ação de graças.
Vai ter feijoada,
Whisky com cerveja,
E outras milongas mais...
Muitas queima de fogos
E saraivada de balas.
Pro ar,
Pra quando nosso Charles,
Voltar...
E o povo inteiro, feliz,
Assim vai cantar...
Ôba, ôba, ôba, Charles
Como é que é,
My friend Charles.
Como vão as coisas, Charles?
ôba ôba ôba charles...

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

CONVERSA DE BOTEQUIM: Ave, Manoel de Barros...

Ave, Manoel de Barros...

silêncio - olhem pro Sol
bem direto e fixamente
verão
Por fim a poesia se (li)brotou do corpo casulo

(Kelsen Bravos, 13/11/2014)

domingo, 9 de novembro de 2014

Conversa de botequim: A padecer no Paraíso

Depois de conseguir acalmar o poeta Vessillo Monte que estava prestes a passar a limpo os eruditos ciclopes vesgos do Botequim, contei umas tantas presepadas que fizemos junto a bons amigos. Rimos, gargalhamos dobrado. E o poeta já com o semblante completamente normal me relata que a tricotar no Paraíso estavam algumas mulheres cumprindo a segunda coisa que mais lhes dá prazer e orgulho: conversar sobre os feitos dos filhos.

- Sem meu Albert, a ciência ainda estaria estagnada no absoluto, depois dele o relativo ganhou mais expressão e a teoria quântica, seus fundamentos. Sou tão orgulhosa dele! - falava Pauline efusiva.

- Parabéns, Pauline, as descobertas de seu filho contribuíram muito para o avanço da humanidade; mas devo dizer que meu querido Karl é o responsável pela reorganização mundial seja do ponto de vista social, econômico, histórico ou filosófico e a teoria política seria uma mera retórica sem ele. Motivo de orgulho, sim, tenho eu de meu filho!

- Muito bem, Henriette e Pauline, parabéns! - disse Rebecca entre risos; mas sem meu Levi, o mundo andaria nu ou mal vestido, pois seu blue jeans democratizou a moda em todos os continentes. Elevou a autoestima dos povos. Querem motivo maior de orgulho do que um filho que transformou o simples ato de vestir-se em um consenso mundial?!

- Parabéns, mesmo a todas vocês pelos seus brilhantes filhos; mas o meu Charles... ah, o meu Charles mudou o conceito da origem de todas as espécies, inclusive a humana. Querem algo mais importante?! - desafiou Susannah.

E assim seguiram-se várias corujices sobre os feitos de seus filhos, até notarem uma cada vez mais a se recolher silente (mulher repara em tudo). A ela as demais inquiriram: Você teve algum filho de feito famoso? O que ele fez? O que ele descobriu, Amalie?

- Meu filho... bem.. ele descobriu sim...
- O que mulher?! O que o teu filho descobriu?! Anda, fala logo! - perguntaram num tom de se é que tem algo a dizer...

- Bem, o meu filho descobriu a Mãe...
- Ah isso o meu também descobriu... todo filho descobre - responderam.
- Eh... - retrucou Amalie: mas nenhum deles é o Sigmundo Freud.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Conversa de Botequim: Ciclopes vesgos

No limite de extrapolar o "Sancte Socrates, ora pro nobis!", assim encontrei o poeta Vessillo Monte no Botequim. Cheguei bem depois dele. Tentei estimar o tempo verificando quantas garrafas de cerveja consumira. Meia cerveja, constatei. Estranhei a razão de seu aspecto tão, digamos, quase fora de controle. Ao pedir explicação, ele com as mãos fez um gesto para eu me calar. Escuta só, Bravos! - exclamou baixinho. Ouve essas mesas todas e me diga que não estou louco! Olhei ao redor. Diferente do costumeiro isolamento, estávamos no epicentro do animado alarido do Botequim. Das mesas vizinhas, selecionei escutar uma a uma. Concentrei-me na primeira delas, onde uma mocinha falava para as demais colegas em tom indignado:

... "Vocês estão cristalizando uma postura androcêntrica em cada gesto, em cada fala - e o discurso é um gesto, sim! Esse teu abraço e esse teu beijo, por exemplo, - apontava para duas que se afagavam - isto é discurso e revela uma forma de submissão fálico-castrativa, já dizia Simone de Beauvoir, [tomou um gole de cerveja], reforçando o que preconizava a grande stalinista Simone Weil, afiançada por Margareth Melies, que estudou a sexologia entre os povos primitivo-chauvinistas. [Sancte Socrates, ora pro nobis! - murmurava em súplica Vessillo Monte].  Uma reprodução de dependência inculcada na relação patrilinear dominadora. Vocês, nós todas, cara, precisamos nos emancipar dessa relação monogâmica e evoluir para a liberação bio-poligâmica, exogâmica, mais que matrilinear, fraterlinear igualitária e desoprimida, porque..."

Assustado e evitando saber o porquê dela para aquilo tudo, foquei a atenção em outra mesa:

... "Macho, e aí, perdeu a palestra do grupo de estudo, cara... Foi massa.... Essa tipologia aculturada toda veio abaixo. Ficou claro o quanto essa geração massificada tem de feudal, vivemos uma anomia estratificada em linhagens étnico-integradas nesse mundo globalizado, entrópico, morfogenético, morfostático, homeorrético, auto-amplificado e de anarcomarxismo retroativo. Nossa única salvação será uma imediata adoção da doutrina maoísta-pentecostalesa. Aleluia, companheiros!" - falou em êxtase com o efeito das próprias palavras. "É foda!" - anuiu o mais sóbrio deles. "Do caralho, meu!" - exultou um outro recém-chegado de um doutorado na USP.

"Sancte Socrates, ora pro nobis" - murmurava em súplica Vessillo Monte. "Gastei quase uma existência inteira lendo uma biblioteca todinha, oito mil volumes, em três línguas, além da portuguesa, para constatar que não adiantou nada! Kelsen Bravos, não entendo porra nenhuma do que esses efedepês estão falando! Eles parecem os vinte e oito volumes da enciclopédia Larrousse embriagados! Os verbetes estão todos embaralhados!" Pra mim, poeta, - comentei - eles conseguiram a proeza de ser ciclopes vesgos. "Sancte Socrates! Ora pro nobis!..."

Preocupado com a reação por advir daquele deplorável estado do poeta, ia sugerir sairmos dali, quando adentra o Botequim, o guru de todos cicloples vesgos. Os braços arqueados e as passadas de caubói em pleno duelo ao pôr do sol, harmonizavam-se com os coturnos e indumentária ao melhor estilo punk-Rambo, mas contrastavam com o rabo de cavalo contido em um ibérico cocó. "Hoje vou tomar todas! - esturrou. "Vou botar boneco muito! Estou mais anarquista do que o big brother Bakunin! Acabei de ler "A Utopia" que George Orwel escreveu em 1984!

Sancte Socrates! - exclamei. Ora pro nobis! - respondeu Vessillo Monte em litania, antes de definitivamente reagir...

___________________
Continua...


sábado, 18 de outubro de 2014

CONVERSA DE BOTEQUIM: Aécio fala em vão o sagrado nome de Minas

Seria impossível chegar a casa antes do início do debate entre presidenciáveis, ligo, então, para o poeta Vessillo Monte e o convido para um encontro extraordinário no Botequim. O destino conjurou mesmo para que fosse assim excepcional o 16 de outubro de 2014, pois o poeta não só aquiesceu como anunciou a vinda também do doce gigante Flávio San. Ele iria ter conosco depois de sair do trabalho. Chegara o dia de conhecê-lo pessoalmente. Grato encontro.

A conversa fluía divertida, quando vimos na televisão as imagens iniciais do tal debate. Pedimos para altear o som. Bem diferente de nossa conversa, a pugna entre Dilma e Neves começou tensa e foi gradativamente ficando irritante. Surpreso, constatei estar o poeta deveras interessado pelo contexto político eleitoral, ao ponto de tomar partido e indignar-se com a demagogia de Aécio Neves. San, o doce gigante, quedou sossegado ao perceber as mesas vizinhas, segundo ele, todas dilmadas - garantia de nenhum contratempo. Melhor assim - disse.

Apesar de tenso, o debate foi quase irrelevante em apresentação de programas e propostas da canditadura de cada um. Dilma reafirmando dar seguimento ao excelente caminho político adotado em sua gestão e Neves dizendo que faria a mesma coisa mas, segundo ele, de forma melhor.

Assim sendo, concluímos - como todas as pessoas de bom senso - ser melhor dar continuidade ao projeto de Brasil do atual governo. Mudar não vale a pena. Time que está ganhando não se muda. Até porque os projetos são bem distintos, embora Neves minta e omita o quanto de submissão da soberania nacional ao mercado tem o projeto de Brasil do PSDB.


A tensão do debate se deu pela exigência de se esclarecer questões atinentes a desvios de condutas e corrupções no histórico de cada um. Toda vez que Dilma Rousseff pedia esclarecimento, Aécio Neves fugia alegando ser mentira, que nunca ele cometera nepotismo, jamais arrombara a Saúde de Minas em cerca de 4,5 cinco bilhões, não havia ilegalidade no aeroporto de uso privado construído com verba pública, admitiu, entretanto, ter dirigido alcoolizado, e retrucou que Dilma ofendia Minas ao constrangê-lo com os pedidos de esclarecimentos. Alegou querer discutir propostas e não sua vida pessoal.

Neste momento Vessillo Monte se indigna e advoga ser necessário sim tal esclarecimento. Lembrou, citando Roma antiga, a razão do termo "candidato", palavra que vem de cândido cujo significado em latim quer dizer branco. Justamente a cor das roupas dos homens públicos romanos e de quem aspirava exercer função pública. Senadores, por exemplo, sempre se vestiam de branco a fim de à luz do dia ou à escuridão da noite, o branco se destacasse e todos soubessem dos passos dos homens públicos, afinal eram responsáveis pela gestão do Estado Romano.

Outrossim, de Aécio Neves e Dilma Rousseff nenhuma atitude nem o seu histórico podem ficar às escuras, afinal ambos são CAN-DI-DA-TOS! Quanto aos hábitos de cada um, eles têm de vir à luz, pois o Brasil traz no artigo quarto do seu Código Civil que ébrios contumazes, viciados em tóxicos, dementes sem discernimento, entre outros, são incapazes de assumir e exercer certos atos, o que se dirá do de governar a Nação Brasileira! Tem de esclarecer sim, CAN-DI-DA-TO!- esbravejou o poeta. 

O mais irritante foi Aécio Neves reiterada vezes falar em vão o sagrado nome de Minas, como se ele fosse Ela. Logo ele que lhe traiu a confiança depositada nas urnas! Minas Gerais é sim sagrada para todos nós brasileiros e conhece bem o dano causado por traidores da Nação Brasileira, Joaquim Silveíro dos Reis, por exemplo, inconfidente que traiu Tiradentes e a Conjuração Mineira.

Minas Gerais é Brasil. O povo mineiro é brasileiro. Vivemos uma democriacia de orientação laica, sagrada então é sua Nação.  Toda vez que o "serial big lie" Joaquim Aécio Silvério Neves dos Reis fala em vão o sagrado nome de Minas, todo o Nação Brasileira sente um forte nó na garganta! Vamos gritar e reafirmar  nossa libertação nas urnas!

Ao final do debate, vimos Dilma passar mal. Nesse instante, deve ter-lhe aflorado a Santa Ira, ressaltou Flávio San, alegando ser difícil qualquer pessoa de boa-fé suportar incólume tamanha desfaçatez. Até ele, o Doce Gigante, fleumático até para espantar moscas, ao ver a cara lisa do "serial big lie" Aécio Neves, ao fim do debate, apertou que partiu o copo, assutando-nos. Pediu descupas. Se eu estou indignado a este ponto imagino a presidenta. Aguentar tanta mentira, tanto cinismo não é fácil. Entendo perfeitamente a Dilma. - ponderou Flávio San.

Por compromissos de pai e marido zeloso, pouco depois do debate tive de me despetir mais cedo da libação. Flávio San efusivamente estendeu-me a mão. Lembrei-me do copo quebrado e lhe dei um forte abraço. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

CONVERSA DE BOTEQUIM: Panóptico.

Na conversa fiada que corria solta, Vessillo Monte rememora fatos ontológicos de gente merecedora de registro na memória de nosso Botequim. Lembramos vários. Um deles lhes conto assim:
Forjado no lesco-lesco do jornal da família, cumpriu longos estágios em todos os setores. Passou da manuteção das rotativas à presidência de um dos mais importante noticiosos do Brasil, condição para qual muito contribuiu. Varava os quatro cantos do mundo a sua fama de excelente negociador.
Todos declaram que ele deixava para o momento do até-logo o grande fecho e real interesse do contrato. Às vezes, seguia com os negociadores até o estacionamento...
Pois esse famoso empresário de comunicação do Ceará, depois de uma longa conversa com investidores, seguiu do estacionamento até um vicinal botequim tipo pé-sujo. Entrou com os figurões e pediu doses de uisque, sem parar de conversar, sempre olhando-os com atenção.
Ao vê-los entrar, Marquinhos, trabalhador gráfico de muitas histórias, evitando ser surpreendido da fuga do expediente para tomar umas cachacinhas, encolhe-se todo atrás de uma coluna, espremendo-se entre ela e o balcão.
Depois de duas rodadas de uisque, o patrão, que ficara de costas para ele, pagou a conta e seguiu com os empresários até o estacionamento. Onde deu dois tapinhas no ombro de cada um. Conta a lenda dos tapinhas que, se eles foram dados, os negociantes cederam aos argumentos do jornalista.
Espreguiçando-se para aliviar as caimbras em razão de tanto tempo encolhido, Marquinhos pede a conta. Ao que o dono do botequim informa já ter sido paga pelo patrão com acréscimo de mais duas.

CONVERSA DE BOTEQUIM: Um caso a troar.

O poeta Vessillo Monte me chega ao Botequim com um riso estranho, amacia a voz e diz:

- Ei, Bravos, meu poeta, temos de assumir nosso caso.

Miro bem o lânguido e verde olhar do poeta, avaliando o que viria depois dessa inusitada premissa.

Ao perceber meu riso de arre-égua contido pelo silêncio, o poeta continua:

- É que andam falando que temos um caso, pois só nos reunimos a sós no Botequim.

- Ora, Vessillo Monte, claro que temos um caso; e é a três! - respondo.

- A três, poeta?! Tipo ménage à trois?! - pergunta já anunciando a explosão da gargalhada.

- Sim, eu, você e a pessoa que anda a falar isso. Agora, pra ela, o caso vai troar!

- Vixe, poeta, ao nos encontrar, ela pensará como Napoleão em Waterloo: "Putaquelosparius! Lá vem os dois, tô arrombado!" - assevera Vessillo Monte.

- Fazer quê, né, poeta? Afinal: toda forma de amor vale a pena...

- Pelo visto, Kelsen Bravos, esse caso vai avançar para orgia...

- EVOÉ! POETA! EVOÉ!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Pelas ruas: SEMÁFORO

Seguíamos madrugada adentro pela vazia avenida. Quando, por hábito, paro ao vermelho do semáforo, Luana e Lidiane se surpreendem sem susto com uma menina pedinte à janela do carro. Misto de revolta e resignação, as meninas e o poeta Vessillo Monte cumprem gesto da mais possível e imediata solidariedade. Depois o poeta começa a cantar baixinho para nós enquanto silentes retomávamos o rumo do asfalto à procura de um oásis de humanidade em nossa deserta urbe. 
Uma menina igual a mil
Que não está nem aí
Tivesse a vida pra escolher
E era talvez ser distraída
O que ela mais queria ser
Ah, se eu pudesse não cantar
Esta absurda melodia
Pra uma menina distraída
Uma menina igual a mil
Do Morro do Tuiuti
Uma menina igual a mil
Que não está nem aí
Tivesse a vida pra escolher
E era talvez ser distraída
O que ela mais queria ser
Ah, se eu pudesse não cantar
Esta absurda melodia
Pra uma criança assim caída
Uma menina do Brasil
Que não está nem aí
Uma menina igual a mil
Do Morro do Tuiuti (Chico Buarque)

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

CONVERSA DE BOTEQUIM: Dos cânones boêmios

Incomodados com o alarido sem sentido da mesa ao lado, elegemos o poeta para missão diplomática de esclarecer os seus jovens ocupantes dos Cânones de um Concílio Boêmio, repleto de canções e diálogos libativos em decibéis amenos.

Vessillo Monte chega à porta que dá para o aprazível recanto verde do Botequim, bem diferente, aliás, do calor onde estávamos, e interpela os neófitos boêmios, cumprindo assim sua embaixada conciliatória:




- Ei, negada, dá pra falar mais baixo numa boa ou quer que eu tire o caso como pessoal?

A gargalhada foi geral.
___________
Todos cantamos juntos.

domingo, 21 de setembro de 2014

Conversa de Botequim: Das inerências...

Já íamos protestar contra esse mau gosto de os botequins ficarem o tempo todo com a televisão ligada, quando começa a propaganda eleitoral nada gratuita. Depois da conversa de uma candidata à presidência, afirmo ao Vessillo Monte o quão radical é a coerência da defesa dela ao casamento igualitário, homoafetivo.

- É, Bravos? Por que essa questão é mais tão coerente nela do que nos demais candidatos?
- Questão de inerência, poeta, questão de inerência... ela é Genro...
- De fato, Bravos, estás coberto de razão!

______________


Conversa de Botequim: Filosóficas

Aprazível, o papo singrava no cristalino leito da boa conversAfiada, quando irrompe Boquetim adentro, efusivo e parlapatão, um daqueles detentores de erudito repertório cuja profundidade é pireslesca. "Salve, poetas! Duas grandes figuras impolutas do conhecimento universal encontro eu cá neste templo da sabedoria!" - disse com ares de reitor. "Este daqui é a verdadeira Biblioteca da Babilônia, bradou sacolejando o ombro do poeta; e - apontado para mim - aquele ali nem parece ser negro!"

De muito bom humor, Vessillo Monte, saúda:

- Viiiiixe! Tudo bem, macho véi? Sentaí, mestre dos mestres!
- Mas só um pouquinho, porque estou indo comprar um presente para minha digníssima. - responde o chegante. E aí qual o rumo da prosa?
Olho para o poeta, e informo ao chegante que já nos preparávamos para ir a Schopenhauer.
- Vocês num templo do consumo?!... Inaugurou quando? Como é mesmo o nome?!
- Ainda não inaugurou - informei. Vamos lá para mostrar um slogan para a marca:
SHOPINRAUER - A representação de sua vontade!... Que tal?
- Genial! Não sabia que eram publicitários também. Muuuuuuito bom mesmo! - falou meneando todo o corpo, enquanto levava o copo à boca.
- Eh, amigo, na vida - diz entre risos o poeta Vessillo Monte - a gente faz tudo pra garantir a cerveja nossa de cada dia se divertindo...

_______________________
Tempos depois:
  • Vessillo Monteei, poeta Kelsen, parece que nosso amigo capotou. A gente deixa ele aí? Seria até bem feito. O cara achar que Schopenhauer é nome de um novo shopping em Fortaleza, é muito meio demais...


domingo, 14 de setembro de 2014

Conversa de Botequim: Dúvida atroz

Pensando em antecipar nosso hedomadário encontro, ligo para o Vessillo Monte.
- Bom dia, Kelsen Bravos! Por que me chamas tão cedo, poeta? Já leu os jornais? Viu aí a candidata que silva oferecendo a "Outra face a Ciro e Cid"?
- Vi, poeta, e me gerou dúvida atroz: qual das outras faces ela ofereceu?...
- Diz ela, que é a do "diálogo e a do respeito"...
- Ou seja, na linguagem da velha política, significa a face da circunstância, poeta, a da circunstância...
__________________

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Conversa de botequim: Milagres...

Caminhávamos em direção ao Botequim, quando vimos um daqueles que pensa que Deus é surdo, livro santo numa mão e na outra mão o dedo em riste ordenava ao mendigo caído ao chão:

- LEVANTA-TE E ANDA!!!

Várias tentativas sem êxito, já irritado o poeta me diz que vai resolver essa palhaçada. Aproximou-se e cochichou ao homem caído. De repente, o pecador não só se levantou como saiu em desabalada carreira. Os fiéis todos se ajoelharam diante do poeta!

- Que milagre foi esse, Vessillo Monte?!

-  Bravos, meu poeta! Senti que o cara rescendia a mais vagabunda cachaça e lhe disse num bom cearês que o de bebo não tem dono!!!

___________