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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Zerando a conta - Chico Araujo*

Zerar a conta, como você deve saber, leitor, significa encerrar uma dívida por meio de pagamento pertinente. Feito o pagamento, a dívida se encerra e a conta fica zerada. É isso o que faço agora, entregando ao gestor do blog, o queridíssimo amigo Kelsen Bravos, o último texto (a última crônica) acordado para a construção e desenvolvimento do Abecedário de Crônicas do Evoé. 


Evoé!

Encerra-se o Abecedário com a lógica da inserção nele de texto que contemple a letra “z”, a última do alfabeto. Sigo, declarando: nesse limite natural que o alfabeto me impõe, sinto-me alegre e com a sensação de "dever cumprido".

Mas há algo me inquietando, um algo que não está diretamente relacionado à produção desse texto: a zorra que vivenciamos no Brasil nesse momento histórico. Zorra que expõe a falta de zelo de nossos governantes para com a população, tratando-a de uma maneira profundamente aviltante, como se ela vivesse em uma zona na qual deveria ficar eternamente, sem possibilidade de movimento para ascensão e onde poderia cair no esquecimento deles. 

Tal atitude, interpreto-a como zombaria e desprezo.

A zombaria é de tal monta que se tem divulgado a saída de brasileiros – principalmente alguns com folga nas finanças – para outras plagas distantes dessa terra espetacular. Zarpam eles para outros países na esperança de conseguirem vida melhor; zarpam para aniquilarem a sensação de seres explorados negativamente por aqueles cuja maior importância na função de políticos seria a de trabalharem em benefício do povo, mas dele se afastam, renegam-no, esforçando-se para jogá-lo no esquecimento e na escuridão. Contundente sabotagem!

Será sempre muito relevante a qualquer um de nós "dar um zoom" para enxergar o mais próximo possível essa e outras situações. A função de político em nosso país não deveria possibilitar a perpetuação de nenhum deles nesse poder de tal maneira que enriquecem e mais enriquecem, pensando exclusivamente em acúmulo de riqueza para si, enquanto a população mais pobre e mesmo miserável fica a ver navios, muitas vezes zonza por se perceber em processo de exclusão.

Continuadamente, devido a esse contexto, muitos ficam zuruó, sofridos, perdidos, sem chão, ziguezagueando dia após dia, procurando um porto seguro que reiteradamente não se alcança. Distribuição melhor de renda certamente daria sustentação ao sonho do povo sentir-se cidadão e comprometido com a cidadania.

Pessoas comuns, "povo" que são, andam céticas quanto ao futuro do País e muito zangadas por não encontrarem oportunidades viabilizadoras de sua entrada nas categorias das camadas sociais onde a existência ocorre de forma mais adequada, mais tranquila. 

A carência acentuada que têm de quase tudo posto em evidência como meio de bem existir – moradia, alimentação, transporte, saúde, trabalho, lazer... – deixa colossal parte delas a transitar pela cidade como se zumbis fossem. É algo muito triste. Muita gente zoa delas, sentindo-se superior a elas. É outro algo muito triste.

Ziquizira é algo que acompanha muitos dessa população empurrada para o ostracismo num verdadeiro zanzar para um "não ser nada" na sociedade, um zero à "esquerda" nela.

Essa população precisa urgentemente poder viver, não apenas sobreviver enfrentando níveis intensos e profundos de pobreza e miséria.

E logo. E já. Até para que não tenham medo aqueles que a sabotam.
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Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Zerando a conta" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 8 de agosto de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Vacilante - Chico Araújo*

Com cara de quem vira fantasma, eis que chegou trêmulo (justamente ele, supersticioso até a última raiz do cabelo), mudo (justamente ele sabidamente falador pelos cotovelos), olhos arregalados. Sua branquidão facial denunciava uma palidez inusitada, extraordinária de tão toda.

Sentou-se à mesa em que eu estava bem acompanhado de minha cervejinha gelada e me olhou fixamente como se não me visse. Estava como se olhasse para um lugar qualquer além daquele no qual nos encontrávamos, além mesmo das paredes, além mesmo de além das paredes e do universo a partir delas.

- Seu Luiz, por favor, traga um pouco de água com açúcar para esse apavorado aqui.

- Já tô levando. Parece ter visto coisa do outro mundo.

Seu Luiz entregou a água às mãos trêmulas. Uma parte do preparo açucarado caiu sobre a mesa, mas a maior parte foi ingerida pelo atônito. Seu Luiz e eu ficamos em silêncio, observando aquele ser tão indefeso naquele instante, perplexo, perturbado. Aos poucos ele foi voltando e, quase sem descoramento e tremedeira, falou em tartamudeio:

- E-E-Eu fui a-a-avi-sado.

- Avisado? De que?

Não falou de imediato. Pegou meu copo de cerveja, completou-o e verteu o precioso líquido em um único gole. Aí olhou menos aflito para o seu Luiz e, em resposta à pergunta feita, repetiu:

- Eu fui avisado.

- Avisado de que, homem de Deus? Desembucha logo – arrematou seu Luiz, aparentemente assumindo a perplexidade.

Antes de rezar a missa, encheu mais uma vez meu copo de cerveja e sorveu tudo novamente de uma só golada.

- Seu Luiz, por favor, traga outra, bem gelada, e outro copo, que esse aqui parece estar precisando de combustível pra soltar a língua.

O silêncio perdurou enquanto seu Luiz foi e voltou. Cerveja aberta, enchi o copo dele, também o meu e fiquei aguardando já um pouco ansioso. Ele olhou para mim, para seu Luiz, de novo para mim, até alcançar com a mão direita o copo disponível a ele. Dessa vez bebeu mais devagar e não tudo de uma vez. Pôs o copo na mesa. Ele olhou para seu Luiz, para mim, de novo para seu Luiz e, ainda malseguro, ensaiou uma fala:

- Um aviso. Quando eu estava quase chegando aqui, ouvi um aviso.

Seu Luiz começou a perder a muito conhecida pouca paciência:

- Se você não desembuchar logo de uma vez vou lhe botar porta afora dando chutes no seu traseiro.

Ele respirou fundo, buscando, talvez, um pouco mais de domínio sobre si, porquanto ainda instável. Tomou mais um pouco da cerveja e aí começou a narrativa:

- Eu tava quase chegando aqui, tava passando ali perto das árvores do nosso resto de floresta quando ouvi uma voz me chamando. Ou pelo menos pensei que alguém me chamava. Mas olhei pra traz e não vi ninguém. Aí me virei e comecei a vir pra cá de novo, mas ouvi de novo alguém me chamando, só que dessa vez a voz tava bem mais perto.

A mão dele deu novos sinais de tremedeira. Ele bebeu mais cerveja e despejou mais no copo. E continuou, sob a atenção minha e de seu Luiz.

- Eu me virei de novo e... ninguém! Ninguém estava ali, nem perto nem distante. Aí eu parei por um tempinho, olhando para tudo que era lado e nada. Ninguém nem perto nem longe. Aí eu cismei e fiquei na dúvida se corria pra casa ou se corria pra cá. Aqui era mais perto, então decidi correr pra cá.

- E correu.

- Corri logo não. Quando eu já estava quase dando a primeira passada, uma voz disse bem perto do meu ouvido:

- Prepare-se. O futuro está chegando.

Não deu pra segurar a gargalhada dupla, uma do seu Luiz, outra minha. Seu Luiz arrematou:

- Mas você tá no vacilo mesmo, hein? E distraindo a gente do nosso precioso tempo. Ora, mas tenha santa paciência! O futuro sempre está chegando!

Sem mais rir, seu Luiz saiu, resmungando, pondo-se por trás do balcão, agora recebendo fregueses. Eu fiquei, ainda rindo, pelo menos até perceber que ele me olhava sério. Fui investigar:

- Tá falando ajuizado?

- Não brinco com essas coisas. Escute o resto da história.

- Tem mais além dessa chegada do futuro? – zombei um pouco, enquanto ele manteve o rosto sisudo.

- Quando aquela voz falou no meu ouvido Prepare-se. O futuro está chegando, apesar do susto e do tremor, quis me voltar pra ver quem brincava daquele jeito comigo, mas não consegui me virar. Meu pescoço não se mexeu pra trás, eu só podia olhar pra onde eu já estava olhando, a porta daqui do bar do seu Luiz. Eu olhava pra cá, queria correr pra cá, mas não conseguia. Estava paralisado, totalmente preso por aquela voz. Aí ela disse outra coisa, também bem baixinho, no meu ouvido: O futuro é o progresso que muda tudo.

- Mas isso também não é novidade. O futuro sempre traz progresso e o progresso resume-se exatamente em mudanças. Algo deixa de ser, de existir, para existir outro algo. É sempre assim.

- Depois de dizer essa outra frase, meu corpo como que se livrou da prisão daquela voz que me fazia ficar parado, imóvel. Foi depois dessa liberdade que corri para cá, mas sentindo no corpo todo um vento frio e violento vindo de lá das árvores. Era como se o resto de nossa floresta soprasse em cima de mim aquela predição. A ventania fria somente parou quando consegui entrar aqui.

- Você está é vacilando, vendo coisas onde não existem.

- Diz isso porque não foi com você.

Olhei para ele agora sem nenhuma vontade de rir. Ele continuava sério e pude notar certo tremor rápido percorrendo todo o seu corpo, naturalmente viajando por toda a espinha. O rosto não estava lívido como antes, porém sua mão estava novamente trêmula, quando pegou novamente o copo para beber mais cerveja.

Me virei pro seu Luiz e apenas pude dizer:

- Seu Luiz, traga mais uma, por favor.

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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Vacilante" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 10 e 11 de julho de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Quando o querer é um querer que se quer intensamente - Chico Araujo*

Certamente, você já quis algo. E se seu desejo foi forte, mas muito forte mesmo, vai entender a situação que se mostra agora.

Ele foi à praça. Cedo da manhã, ele se encaminhou para a praça. Gostava de lá, pois nela conseguia, quase em cem por cento, ser abraçado pela quietude.

Não, a praça não cabia na classificação de lugar deserto. Ao contrário, era até bem movimentada, como toda praça deveria ser. Por ela passavam e passavam e passavam pessoas em transitar frequente de passos distintos, indo e vindo, vindo e indo. Mas essa presença de vidas humanas viajando por ali não se configurava como incômodo para ele, afinal, também se inseria na humanidade, também precisava da liberdade de ir e vir - todos precisam. Houve um tempo em que as praças eram proibidas, agora, não mais, e é bom que assim permaneça.

Quando ali, ele sempre observava as pessoas em suas idas e vindas, em seus caminhares para lugares tantos; gostava de vê-las e de captá-las em instantâneos não percebidos. Com seu olhar seguia muitas delas até que se perdessem entre outras, ou até que fisgado por novo objeto de apreciação, ou até que fosse distraído por algum qualquer outro evento não compreendido de imediato: poderia ser o sopro mais forte do vento, o cantar próximo de um pássaro, um arrastado de pé diferente, uma fala de nova voz em sua audição, uma fragrância marcante de perfume...

De fato, a praça não se constituía, de forma alguma, como um deserto, sendo, em verdade, um espaço de agitação, uma agitação boa, sem conflito, flamante e por isso mesmo pulsante de vida. E era isso o que ele buscava ali, quando para ali ia.

Ia até ela sempre que se sentia deserto, um deserto de sol intenso a lhe inquietar o espírito, a escaldar seus pensamentos e sensações. Dentro desse deserto, sabia-se perdido, desorientado, sem Norte. Ficava preso em algo ou em algum lugar que não compreendia e por não compreender não podia definir e sem essa definição para si não atinava meio de traçar um rumo a livrá-lo daquele cárcere – pelo menos, não conscientemente.

Inconscientemente ia para a praça. Nela, sem qualquer contradição, se encontrava com a quietude, que o abraçava, o envolvia de tal maneira e com invulgar intensidade que o deserto sucumbia, se desintegrava (como se um ato de magia desconstruísse toda aquela desertificação), fazendo-o ir para o lugar de onde nunca deveria ter saído – para povoar sua alma.

Ia para a praça e nela se apaziguava. Para si, dizia não importar onde ela ficava, contanto que a encontrasse, quando precisasse ir até ela. Em momentos de travessia difícil, carecia dela, da quietude abraçando-o.

Movia-se até a praça – uma praça que se escrevia: sua quietação. Ia, porque "quando o querer é um querer que se quer intensamente", sua chama acesa, além de luz, é sopro de vida, vida que arde, força que se fortifica e segue em frente.

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*Chico Araújo
publica todas as quartas-feiras no Evoé! "Um outro novo dia" foi escrito em 06 de junho de 2018 e integra o Abecedário de Crônicas do Evoé!. Leia mais Chico Araujo em Vida, Minha Vida...

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Olhando com olhar que se alonga... - Chico Araujo*

O primeiro ato ao chegar: inspecionou o ambiente, à porta ainda do restaurante. Avaliou a quantidade de pessoas presente - queria estar distante de qualquer possibilidade do mínimo tumulto ou barulho -, a disponibilidade dos garçons - não pensava pudesse haver demora em seu atendimento -, a disposição das mesas - intentava sentar próximo à janela, para alongar seu olhar pela avenida que bem perto dali se abria em estrada. Entrou. Sentou-se à mesa onde pensara ficar.


- Bom dia.

- Bom dia.

- O senhor é bem pontual.

- Embora sempre tente, nem sempre consigo. As nuances da vida.

- Verdade. Não temos controle sobre sua dinâmica.

- Nos iludimos, apenas, quando julgamos que temos.

- Trago o de sempre?

- Sim, por favor.

O bom dia desejado ainda valia, mas em verdade verdadeira dali a meia hora a tarde sopraria seus ventos mais aquentados. Pelo costume e horário, dali a meia hora o ambiente teria um pouco mais de barulho, suportável, pois estava onde queria estar.

- Com licença. Sua cerveja, "véu de noiva", como gosta.

- Obrigado.

- Vai querer algum papel hoje?

- Não, não. Hoje vim acompanhado de um caderninho.

- Então, me dê licença. Fique à vontade. Precisando, é só chamar.

- Combinado.

O "combinado" foi dito com um leve sorriso seguido de ligeira mudança na ação de olhar. O objeto da atenção agora era novamente a avenida-estrada, o sabor da cerveja preferida já aprazível.

De imediato não lhe chegou vontade alguma de escrever. No entanto, a avenida-estrada, como nunca antes, prendia sua atenção, convidava-o a fixar-se no olhar para ela. Ela como que o encantava para deter-se naquele olhar que, a princípio, não tinha clareza sobre o porquê daquela detenção intensa e extensa.

No movimentar-se da Terra, o Sol ia anunciando a passagem do tempo, impondo mais claridade em certos lugares, instaurando sombras em outros. O dia, assim, prosseguia, enquanto a cerveja era sorvida, o barulho no ambiente criava vida, o calor se intensificava. Sinestesias. Olhava e olhando saboreava não somente a bebida, mas a própria atitude de permanecer olhando, percebendo que os sons lhe tocavam.

- O senhor me dá licença?

- Pois não?

- O senhor está aqui sozinho já faz um tempo... Posso sentar um pouco com o senhor?

- Mas há outros lugares livres no recinto!

- É verdade - disse ela já puxando a cadeira e se sentando -, mas gostaria mesmo de conversar um pouco com o senhor?

- Mas por quê?

- Curiosidade. O senhor, sempre que vem aqui, chega no mesmo horário, senta à mesma mesa, bebe o mesmo tipo de cerveja, come a mesma comida - aliás, daqui a pouco o garçom lhe perguntará se já pode fazer o pedido - e, o que chama mais a atenção, o senhor sempre fica olhando pela janela, creio que sempre para o mesmo lugar.

- A senhora está me observando? Quem é a senhora mesmo?

- A proprietária. Costumo ficar naquela sala ali em cima, por trás daquele vidro escuro. De lá vejo todo o movimento, observo as pessoas, observo os funcionários... Na verdade, tudo o que é possível. O senhor sempre está só, sempre olhando pra avenida, pensando, creio.

- Gosto de ficar assim e aqui. Fico olhando para a avenida e para a sequência dela, a estrada. As estradas costumam levar e trazer, mas há momentos em que elas nem trazem nem levam. Ficam como se não houvesse sentido em seu existir.

- Mas isso não é eterno. Haverá sempre um momento em que o fluxo naturalmente retornará.

- Os instantes de depois jamais podem ser iguais aos de antes. Toda a paralização de agora não será recomposta adiante. A diferença entre um momento e outro deve ser bem observada, avaliada, para que não se tenha a falsa ideia de que o que vem depois é melhor. Nem sempre é. A existência carece de equilíbrio.

- O senhor fala como se aquela estrada a qual olhamos agora não fosse exatamente aquela vista pelo seu olhar. A cada nova palavra sua chega-me a ideia de outra estrada, outro caminho, talvez não tão concreto como nossa visão vê agora... Quem sabe algo mais subjetivo, numa dimensão simbólica não alcançável de imediato...

- Nosso cotidiano nem sempre é, de fato, objetivo. Há muitas entrelinhas, muitas metáforas em cada novo dia. O Sol é um só; seus brilhos, no entanto, apresentam matizes e a percepção deles dependerá da percepção de cada um.

- Tal qual a noite...

- Tal qual a noite... Tal qual falas de quem fala - as minhas falas, por exemplo -... Tal qual ideias de quem as tem e as divulga... Metáforas exigem interpretação; elas dizem muito, mas não diretamente. E há discursos criados no sentido de que as entrelinhas não sejam facilmente compreendidas...

- Há de se ter atenção aos discursos...

- Sim... Há de se ter atenção aos discursos...

Naquele ponto, o diálogo silenciou, enquanto dois copos de cerveja eram novamente enchidos. Agora eram efetivamente dois olhares perscrutando a avenida-estrada... 

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*Chico Araujo
- professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Olhando com olhar que se alonga..." compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 16 e 19 de maio de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Nada, nunca, nenhum... - Chico Araujo*

O despertador os fez abrir os olhos na hora de sempre de sempre de sempre... 5 da manhã. Sem galo. Sem quintal.

Mario e Maria se levantaram sem quererem dar atenção a qualquer cansaço que tivesse se escondido neles desde a noite, quando se iludiram de que poderiam enganá-lo.

- Bom dia.

- Bom dia, bem.

O selinho foi seguido de arrastados dos chinelos partindo de cada lado da cama os quais soavam como sonos ainda não despertos, talvez no assombro do sonho não concluído.

Mario, à padaria. Maria, ao café.

No reencontro, o encontro de olhares cúmplices e apaixonados. Nas bocas, o pão quentinho com manteiga se misturando com o café fresquinho.

- Que foi, Mário?

- Nada.

- Nada? Parece estar com olhar distante, um olhar que é mesmo o pensamento sabe-se lá em que lugar.

- Nada não. Só querendo adivinhar como será o dia, o que é impossível.

- Deixa acontecer. O que é pra ser será.

- Não é cem por cento assim. Às vezes conseguimos interferir e mudar algum acontecimento. Se não fosse assim...

- Que nada! Só impressão sua.

- Será?

Jovens ainda, ainda eram somente os dois. Quem saberia dizer o futuro? Não ousavam, ainda, pensar muito adiante, embora entendessem não puderem viver sempre os dois, sem a própria família formada.

Saíram de casa juntos, de mãos dadas, como ocorria toda manhã.

- Nunca mesmo conseguimos interferir? Os acontecimentos apenas acontecem?

- Ainda está pensando nisso?

- Nunca é uma palavra de difícil compreensão e profunda extensão, não acha? Nunca é igual a jamais e jamais implica negação, um “não” bem grande. Pelo que diz, é um “não” possivelmente pra tudo.

- Acordou exagerado hoje, hem?

- Será? Veja, se “nunca” impera, jamais sairemos da condição em que nos encontramos, ficaremos sempre – outra palavrinha chata de tão determinante – onde estamos. Nem avançaremos nem retrocederemos. O ponto e as questões se repetirão exatos em suas mesmices.

- Está mesmo inquieto hoje.

- É, acho que estou mesmo, Maria. Mas se estou assim hoje e não estava ontem, isso significa que o seu nunca não é nada permanente, ininterrupto, eterno. Então, minha reflexão quanto a nossa interferência nas coisas passa a ter sentido.

- ...

Chegaram ao ponto de ônibus de mãos dadas como ocorria em cada manhã. O beijo rápido. A despedida para lugares opostos, como em toda manhã.

De maneira síncrona, descem de seus coletivos, exata hora e meia depois de terem entrado neles. Mais dez minutos, aproximadamente, de caminhada, cada um chega ao local de trabalho. Tem sido assim diariamente, desde que morando onde moram após o casamento.

Não eram trajetórias opostas, caminhos contrapostos na vida decidida pelos dois para serem um. Naquele instante da vida em parceria, nenhum abria mão do outro, da companhia do outro, da existência do outro.

Nenhum, nunca, jamais, desejaria o nada em suas vidas compartilhadas. As discordâncias faziam parte do tudo a envolvê-los e tudo era o que almejavam um para o outro.

Sabiam: nunca abririam mão dessa vivência participada.
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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Nada, nunca, nenhum..." compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito em 15 de maio de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 9 de maio de 2018

O marido, a mulher, a mãe, o maio - Chico Araújo*

De acordo com a praxe anual, o marido foi ao médico, sozinho.

- Bom dia, doutor.

- Bom dia. Como o senhor está?

- Sinto-me bem.

- Nada de diferente?

- Não, nada. Pelo menos não que eu tenha percebido.

- Ótimo. Mas alguns dados de seu exame clínico estão apontando variações em relação aos anteriores. Vamos conferir, né?

- Certamente.

Exame de segurança feito, a primeira palavra:

- Aparentemente, tudo certo; não percebo anormalidade. Mas vamos ampliar essa investigação por conta dos exames clínicos. O senhor fará o seguinte...

Tudo feito de acordo com as orientações médicas, eis que no retorno ao especialista ouviu dele:

- Avalio que encontramos um problema em sua saúde; devemos, portanto, dar atenção especial a ele, para darmos boas condições a ela.

- E o que devo fazer?

- De imediato e por importante, não fique apenas com minha avaliação. Vá a outro perito e escute dele sua avaliação para o caso.

Foi, não a um, mas a dois outros. As palavras de um e outro mudavam aqui e ali, mas as avaliações se deram sempre no mesmo plano e as sugestões apontaram todas para o mesmo caminho.

O marido entendeu ser preciso caminhar de acordo com as opiniões especializadas.

A mulher, sabedora de todo o infortúnio, primeiro foi palavra tranquilizadora, acolhedora. E sem demora, as ações de força e garra estupendas puseram-se a falar e a orientar em tranquilidade, sob as orientações dos doutores.

Pela Fé, orou e pediu, pediu e orou, e mesmo não deixou de vigiar, de perscrutar, de inquirir, às vezes de maneira direta, outras de forma sutil, de soslaio, o marido, aquilatando o espírito dele diante do caso. Percebeu múltiplas sensações e as entendeu tanto quanto compreendia a necessidade de um porto se tornar seguro ao navegante meio que à deriva. Segurou-o.

E caminhou junto.

A mãe foi aos filhos. De suas interpretações e vivências, incitou:

- Eis um momento em que o pai mais que nunca precisa dos filhos. E esse momento chama-se agora e, mais ainda, agora mesmo, é já esse instante. Atenção, apoio, respeito, carinho, amor... Se porventura não houve como demonstrá-los claramente até há pouco, desde agora precisa ser posto e exposto de maneira aberta, sem qualquer possibilidade de dúvida. Gestos, palavras, atitudes, sorrisos, serviços... Tudo isso precisa ser realizado desde já na exata medida necessária. Não mais, não menos; mas plenamente de forma verdadeiramente verdadeira, honesta, pura.

Os filhos ouviram a mãe e sinceramente aquiesceram. E foram dignos em toda a travessia agitada naquela inusitada turbulência. Por compreensão à mãe e por atenção às necessidades do pai, mais do que sempre foram, foram singularmente filhos.

A mãe tranquila quanto aos filhos, pois o sabiam ser, determinou-se altruísta ao marido em prática perfeita.

A mudança das marés, de tranquilas para inquietas, turbulentas, inaugurou-se em um dezembro; quando recomeçaram os sopros amenos dos ventos da bonança, abril já se encaminhava para ceder seu lugar ao maio, especialmente o mês das noivas, o mês das mães, o mês, enfim, também especialmente, de felicidades e bênçãos.

No maio, desordens em dissipação, a mulher pontua ao marido:

- Por tudo o que vemos e sabemos, o pior passou. Agora é seguir em frente, vivendo nova etapa na existência.

- Sim. “Vida que segue” em “andanças com Fé”.

E que assim seja.

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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "O marido, a mulher, a mãe, o maio" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 07 e 08 de maio de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Lutas e liberdades - Chico Araujo*

Há algum tempo sentara-se naquele banco de sua preferência. Segundo ele, do assento podia investigar o que incitava chama para suas reflexões, em busca de compreender o mundo e suas vicissitudes, as pessoas e suas nuances, seus matizes.

O amigo se aproxima, já prevendo conversa não tão comum.

- Faz tempo que tá aqui?

- É possível. Não sei precisar... Não percebi bem quando exatamente cheguei.

- A postura é a mesma, né? Tá aí observando, inquirindo, se perguntando...

- Não consigo ser diferente. Minha existência tá marcada por ser assim.

- E isso é bom pra você, né?

- Nem sempre. Viver em sociedade obriga contatos, diálogos, revelação de posicionamentos... Não sou muito bom nisso e certamente minha postura atrapalha minha vivência social. As pessoas, em geral, costumam querer respostas ao que perguntam; nem sempre, porém, querem aprofundar as questões, então observam pouco, indagam pouco – até sobre elas mesmas, dinamizando postura de autorreflexão –, acostumando-se a se contentar com saberes fáceis, muitas vezes superficiais.

- Você não se encaixa nesse vasto grupo.

- Também tenho minhas culpas.

- O mais comum em você é o não tão comum ato reflexivo.

- Essa é uma questão importante, porque quem se permite à reflexão acaba por se distanciar das outras pessoas, não exatamente por saber mais, antes porque o ato reflexivo exige algum silêncio, ausência necessária de diálogo fora do próprio ato reflexivo.

- Você é uma das pessoas que se distancia das outras. É muito fácil pra mim ver você com esse semblante de agora, com esse olhar de agora, um olhar que sugere profunda análise sabe-se lá de que. Só dá pra saber se você disser, se você permitir o diálogo, a conversa. Esse nosso momento aqui é raro, porque embora eu veja muito você, não trocamos muitas palavras, não compartilhamos, com frequência, ideias.

- Tem razão.

- Só isso?

- Na verdade, não. O que estou tentando “ver” é de que lutas vivem as pessoas hoje. Vivemos um momento histórico no qual se tornou imperativo diluir, dissolver tudo rapidamente, de acordo com interesses específicos impostos por quem tem poder de fazer isso.

- As mídias.

- Não somente elas, mas elas certamente. Eu posso estar agora tentando convencê-lo de algo em que acredito, sem que perceba. Meu discurso pode ser organizado para realizar essa façanha: seleciono palavras, emprego verbos, construo frases, configuro contextos para, como resultado, adquirir sua concordância quanto ao que penso. Se eu consigo, ganho, a partir de você, a possibilidade real de que minha ideia vai adiante, se propagando e reverberando, tornando-se algo marcante na sociedade. Se eu consigo convencê-lo, é certa minha influência pelo menos em parte do universo social, a ponto de ousar transformá-lo.

- Você está fazendo isso comigo?

- Reflita.

- Bem, sua fala não é inocente.

- Não, não é, mas você somente alcançará a profundidade dela quando – e se – se permitir refletir sobre ela. Essa atitude parece, infelizmente, estar se despedindo da existência de muitas pessoas, mas muitas mesmo, a ponto de gerar mudanças profundas nos modos de viver. Se não reflito, aceito mais facilmente muito do me é dito, muito do que me é vendido, muito do que me é apresentado como verdade, sendo mentira. Fico passivo, enfim, e essa passividade determina minhas maneiras de existir, de ser, com influência quase certa naqueles mais próximos a mim, também pouco questionadores, no entanto crentes em mim. Veja que eu e você também somos mídias, principalmente quando assumimos a ação de propagar ideias, mensagens, ideologias a partir de nossas crenças, desejando, inclusive, a adesão de outros às crenças nossas.

- Mas isso sempre fez parte do funcionamento das civilizações.

- Nem por isso devemos aceitar a situação sem qualquer questionamento, sem nenhuma atividade de um perguntar e perguntar-se a respeito. Perguntar e perguntar-se em nenhuma hipótese significa negar algo só por negar, de maneira inconsciente; ao contrário, inquirir e inquirir-se implica postura consciente, de julgamento para aceitação ou negação de algo.

- E você está entendendo não existir nada disso em nossos dias.

- Não é que não exista. Existe, sim. O problema é que quanto mais pessoas não façam isso, não desenvolvam essa postura da perquirição, maior a dominação sobre elas. Nessa ocorrência, é legítima a questão: Que lutas essas pessoas que passam aqui estão lutando?

- Não será presunção sua querer saber exatamente sobre as lutas de cada um?

- Talvez. Mas há pouco você citou as mídias. Tenho me perguntado muito – e creio ser uma questão pertinente a todos – sobre a influência das diversas redes sociais, principalmente as virtuais, no nosso cotidiano. Há muitos estudos sérios sobre o tema. Sem me deter aqui neles, porém observando o que fazemos naquelas das quais participamos – postagens de imagens estáticas, vídeos, símbolos, comentários... – fico convicto da superficialidade em que estamos vivendo e, quanto mais superficiais, por óbvio, menos críticos somos e, por decorrência, muito mais manipulados. Não por acaso se vê tanto maniqueísmo moldando opiniões e existências.

- Acho que estou lhe entendendo.

- Em um mundo assim, quais liberdades? Preciso ser livre para ser, para viver, para dizer sobre essa minha vivência. Ser livre se dimensiona na possibilidade de eu poder decidir para mim mesmo – como indivíduo, também como ser social – valores, crenças, ideologias, vontades, posicionamentos...

- E você entende não haver isso nos dias de hoje.

- Repito: há, sim, pois há quem reflita, quem questione e se posicione. Em convivência, há exponencialmente muitos outros sem possibilidade de tudo isso, porque não lhes foi permitido desenvolver habilidades, competências mesmo, para até saberem que não sabem e que, por isso, estão apenas aceitando aquilo que lhes é imposto dia a dia.

- Sem liberdade não se existe...

- Sem liberdade, não se sabe que luta lutar... Não existe sujeito sem liberdade... Sem sujeito o que há é negação... é sujeição... é dominação...

A ausência de palavras a partir daquele ponto foi testemunhada pela praça, naquele instante exuberante nos cantos dos pássaros, na dinâmica do vento soprando sobre as árvores, sobre os bancos, sobre tudo... 

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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Lutas e Liberdades" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito no 15 de abril de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...
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15/04/2018


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Kafkaesco - CHICO ARAUJO*


            Pois entendam, que já de início solicito essa busca de compreensão.
Faz cinco minutos que ele se sentou ali na parte interna da Lanchonete-Bar Agora Mesmo. E agora mesmo, nesse exato instante em que você lê o aqui escrito, Você sentou-se de frente a ele e deu voz à pergunta:
- Acha mesmo que tudo ficará assim como está?
Chegou com a incredulidade de muita gente – Para que mesmo? –, tornando-se décimo primeiro. E ficou K, simplesmente. E não foi que vingou? Naquelas situações difíceis, pouco se dava crédito a sua existência, até que teve a teve confirmada. Então houve festa, módica, mas houve. E logo logo foi destacado como singular.
Enquanto crescia, a fama se alargava, rompia as cercanias primeiras e se espalhava pelas circunvizinhanças tórridas. Então, pairavam sobre ele algumas desconfianças, muito embora, pelo sim pelo não, o melhor talvez fosse crer. E quanto mais alguém cria, mais se divulgava seu potencial afirmado e confirmado em casos específicos. Aí, ora, veja bem, sua popularidade o tornava mais e mais celebridade.
- Não.
- Só isso? Um simples não?
- Vá até a porta de entrada, estude a rua, volte e me diga o que viu.
Você não se levantou de imediato. Olhou K com olhar fixo, seguro, investigativo em perceber no amigo qualquer sinal de alteração no semblante, nos gestos, no humor, até cumprir a sugestão dada.
- Não vi nada diferente. Pra mim tá tudo igual.
- Tem que aprender a ver para ver, assim como se tem que instruir-se na ação de ler para ler. Só caminha quem aprende caminhar. Só entende quem se aparelha para compreender.
- O que quer dizer com tudo isso?
- Confirmou. Não se encontra aprontado para perceber e saber.
Você se sentiu em desconforto com o dito por K. Em rebuliço, pediu:
- Por favor, me oriente. Mais de uma vez declarou aqui mesmo que quem sabe tem obrigação de instruir quem não sabe. Veja minha aflição; estou precisando.
- Você, lembra-se da pergunta que fez?
- Claro. Acha mesmo que tudo ficará assim como está?
- Quando foi ali à porta e olhou além dela não viu nada em diferença ao que viu ontem?
- Repito, não vi nada diferente. Pra mim tá tudo igual.
- Vou poupá-lo de voltar lá agora, vou lhe adiantar um pouco; contudo, faço uma nova pergunta: o dia está claro ou escuro?
Você olhou em redor e ainda alongou a investigação para a porta e as janelas do Agora Mesmo. Aí pontuou:
- O óbvio... Claríssimo... Estamos praticamente no meio da manhã, não é mesmo? Além disso, nenhum sinal de nuvem de chuva, o sol brilha com muita intensidade.
- Se está claro, por que não vê?
- Mas ver o que, K?
- Você, quando aprender a olhar com o cuidado necessário, verá que sua pergunta não tem sentido. Hoje, quase nada está como estava antes.
- Porque hoje é outro dia e nenhum dia é igual àquele que lhe vem depois.
- Quando se põe a refletir, consegue ir além. O que mais tem a dizer?
- A dizer? Quero uma resposta, uma orientação sua. Tô aflito demais.
- Uma contribuição pessoal a não enxergar. Mas vamos lá... Você, o dia pode estar claro com sol intenso, mas ele está turvo, sem brilho que ilumine. Inaugurou-se, há pouco, em verdade, um tempo de pouca clareza, embora acreditemos haver luz suficiente. Por isso é importante que veja, e rápido, além, mas muito além, do que espera que eu diga. Ver, nesse caso, é saber e crer, enxergar não somente com a visão primeira, mas com a alma, o espírito. Ver, nesse caso, está além de entender a partir de qualquer palavra que eu diga, porque há falas em abundância dizendo também em fartura em contrário até do que lhe digo. Então, o melhor ver agora está mesmo sintonizado com seu íntimo, seu espírito vibrante, suas crenças, suas vivências, suas interpretações, seu saber.
- Eu entendo o que você diz, K, e isso me aflige mais. Eu entendo e é como se eu não entendesse nada. Mais precisamente, eu entendo as palavras que diz, mas parece que não entendo o significado delas, onde elas podem chegar em sentido.
- Isso faz parte do contexto, do momento vivido agora. Por isso precisa investigar respostas para o que procura saber em você mesmo, ouvir a si mesmo. Existem meios, existem caminhos, existem traços, pistas, tudo podendo servir como ferramentas para chegar onde precisa e deseja chegar.
- A minha aflição você não abranda, não sossega.
- Não é culpa minha, não é querer meu. Repito: faz parte do momento. Se partir de você mesmo, de suas sensações, de seus sentimentos, perceberá até porque a resposta está não em mim, ou não somente só em mim, mas principalmente aí mesmo, repercutindo, gritando de tanto desassossego em seu interior.
Você olhou novamente para os lados, em redor, para a porta, investigou as janelas, mas... nada...
- Queria ser como você.
- Cada um é na medida do que deve ser. Não há igualdade entre as pessoas. As especialidades existem em todas, bastando o descobrimento dessas particularidades.
- O dia está claro...
- O tempo, Você, está escuro, sombrio, nebuloso, tenebroso, denso, confuso, duvidoso, ambíguo, ameaçador, temível... Não começou hoje, porque um tempo assim vai sendo feito de pouco em pouco, embora paulatinamente, obstinadamente. Alguns veem mais rapidamente, acostumados a olhar e ver, compreender. Não se entregue. Vá vendo.
- É por isso a sua calma, porque vê?
- Olhe bem. Onde está vendo calma, perceba análise, entenda associação e comparação. Também preciso ver além dessa escuridão que não vê ainda – quisera não chegasse a ver nunca mesmo, por inexistente, mas é falsa essa ideia. Análise, associação, comparação são mecanismo eficientes em favor da compreensão. Amanhã, melhor será, caso não receba sopros do passado. Volta ali à porta e olha tudo novamente.
Você caminhou até a porta e, atencioso, estendeu o máximo que pode seu olhar para além dela, querendo, profundamente, saber. Retornou pensativo.
- E então?
- Não são exatamente as ruas, nem as praças, nem os prédios, nem as casas... Isso está praticamente igual. Não falei com ninguém, no entanto, soube – me permita assim dizer – de alguns passos, de alguns olhares, de alguns silêncios, de alguns gestos ausentes a chegada de um tempo sem ser tempo, porém ausência, quase uma perfeita carência do momento a se desenhar. Por alguns instantes, ali, uma brisa soprou fria em meu rosto uma bofetada intensa, numa espécie de sacudida, e, em seguida, friamente percorreu minha espinha até beijar meu espírito e aquentá-lo, enquanto me sussurrava uma animação de despertar quente. Aí quis voltar para cá e voltei. O que é tudo isso, K?
- Fique um pouco mais aqui comigo, Você. Podemos nos ajudar; dialogando, há a possibilidade de sabermos mais. Juntos. Não se fie apenas na fama criada em torno de mim; ela pode até ter algum sentido, porém seu significado precisa ir além de mim. Não me aceite me limitando ao dito sobre mim. Posso ser mais e posso ser menos. E não fechando seu olhar, seja sobre o que for, pode ver muito mais...
- Mas, e agora K?
- Estamos aqui sentados. Agora Mesmo é um bom lugar para alimentarmos nosso corpo. Também é um bom momento. Vamos ver o cardápio para hoje...   

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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Kafkaesco" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 10 e 12 de abril de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Justo - Chico Araujo*


Foi só saber o sexo, o pai taxou:

- Francisco Justo!

A mãe, entre dócil, incrédula e insatisfeita redarguiu:

- Francisco Justo?

Com os olhos chorosos de felicidade incontida, a voz trêmula de satisfação, a convicção em Fé inabalável, o pai replicou:

- Claro! Francisco em homenagem ao grandioso São Francisco; Justo como uma espécie de confirmação, por duplicação, das atitudes justas realizadas pelo Santo. Esse menino terá tudo para ser justo em sua vida. Saberá reconhecer o bem e negar o mal; defenderá as causas em benefício dos necessitados.

O pai realizou esse discurso numa alegria inegavelmente sincera. A mãe, contagiada pela alegria do marido, mas ainda reticente, o interpelou:

- Você sabe que São Francisco somente se tornou Santo depois dos vinte e quatro anos, não sabe? Antes, ele deu muita preocupação aos pais, porque só gastava o dinheiro deles com farras, não queria saber de trabalho, nem de estudo.

O pai desalegrou um pouco, mas continuou:

- Sei. Mas depois que criou juízo foi sempre justo, foi sempre amigo das pessoas necessitadas, até dos animais ele foi amigo.

- Tá. Mas já que estamos quase diante de uma duplicidade desnecessária, que tal ficarmos somente com Francisco ou com Justo? Um nome só é suficiente. Entre esses dois nomes, eu gosto mais de Francisco. Acho que tem mais a ver com nossa formação e nossa cultura.

O marido não era daqueles que gostava de contrariar a esposa. Pelo contrário, o que o deixava feliz era a felicidade dela. Assim, não permaneceu em questão, preferindo levar a ela mais um prazer:

- Tá bom, Maria. Francisco, então, que sei será justo e também terá vida normal, semelhante à de todos os jovens, tendo especial atenção à vivência e prática da justiça. Ele saberá ser justo.

O menino nasceu bem, forte, cheio de saúde. Foi batizado Francisco e passou a ostentar os sobrenomes da mãe e do pai, conforme a tradição. Sem mais.

Teve infância saudável, sob os adequados cuidados e ensinamentos de pai e mãe, de mãe e pai, sem predominância de um sobre o outro, pois naquela casa nada ocorria unilateralmente – embora se soubesse que a fala de predominância em termos finais era a de Maria, pelo motivo já apontado.

Foi, a pré-adolescência de Francisco, tranquila, pacata, sob os constantes olhares cuidadosos e ensinamentos adequados dos progenitores, com base no que já se pode compreender sobre eles. Além desse ensino caseiro, teve direito a instrução formal, em escola apropriada às posses da família. Não será aqui relatada como foi sua adolescência, pois, em verdade, de tão comum, não importa. Quem já viveu essa fase fique livre para liberar sua imaginação.

Passou o tempo e Francisco completou exatos vinte e quatro anos e, nesse exato dia, acordou cedo, tomou café da manhã com os pais – fatias de pão feito torrada, leite, ovos mexidos, bananas, melão, mamão, maçã, café –, escovou os dentes, banhou-se, vestiu-se e saiu de casa como se fosse para um dia normal de trabalho. Pediu benção ao pai e à mãe e por eles foi abençoado. Disse até breve para os dois irmãos – a descendência não se resumia a ele – como sempre fazia e, antes de sair, recebeu, de todos, um abraço especial de parabéns.

Mas aquele dia não seria normal. Não seria comum. Não seria semelhante aos anteriores.

Desceu do ônibus duas paradas antes daquela costumeira onde descia quando em rumo ao trabalho, 1 hora após nele subir. De imediato foi à loja de estamparias para receber um conjunto de cinco camisas de malha que houvera encomendado dias antes – um presente de aniversário para si. As camisas tinham cores distintas, mas a mesma inscrição feita em letras “gritantes” e em negrito: QUEM É JUSTO PRATICA JUSTIÇA! Dentre as cinco, escolheu, para uso imediato, a de cor branca com escrita vermelha. Seguiu para o trabalho, tendo no espírito a sensação de que o dia era mesmo especial.

Já próximo ao elevador, recebeu de dois colegas abraço com felicitações pela data. Os dois observaram a frase na camisa. Um deles pontuou:

- Tá disposto, hein?

Os três gargalharam, enquanto entravam no elevador. Nele, outras quatro pessoas visualizaram o texto na camisa, duas das quais balançaram a cabeça em ritmo de concordância, discreto sorriso como testemunho de aprovação.

À saída do elevador e mesmo em frente a ele, no vidro da porta que permitia acesso ao grande e famoso escritório, a inscrição latina Civis ad hoc ius est scriptor politica potestas alertava para o fato de que “o poder político não pode estar acima do direito do cidadão”.

Foram percorrendo, abraçados e sorridentes, o longo corredor da empresa. Ladeando o caminho, à esquerda e à direita, divisórias, nas quais os diversos colegas e o próprio Francisco postavam-se diariamente para cumprirem jornada de trabalho. À medida que a extensão daquela trilha ia diminuindo, os companheiros de Francisco deixavam o trabalho para abraçá-lo e felicitá-lo, em alegria insuspeita, todos declarando apoio à mensagem enviada por ele a partir da camisa em uso.

A vozearia em torno do aniversariante foi diminuindo e chegando quase ao silêncio total, quando a porta que olha o corredor, ao seu final, abriu-se para mostrar a todos a presença séria do superior que, quinze dias antes, declarou, sem qualquer motivo aparente, a quem quisesse ou não ouvi-lo, em uma reunião de última hora:

- Quem quiser ficar aqui, siga as regras! As regras, eu as crio. Está claro? Quem tiver juízo, obedece. Está claro? Entendam que esse é o nosso mundo e no que se refere a ele e às possibilidades de vocês nele atendam a mim que tudo estará certo.

A divisória ocupada por Francisco ficava à esquerda da porta ao final do corredor. Dividia aquele espaço com os dois que o abraçaram ainda no andar térreo do prédio. Antes de chegar de vez ao seu devido local de trabalho, olhou para a autoridade postada à frente de todos e desejou bom dia. E esperou resposta.

Para a estupefação de todos, após alguns segundos, a resposta veio:

- Bom dia, senhor Francisco. O senhor aniversaria hoje?

- Sim, aniversario.

- Por isso essa algazarra toda?

Não houve resposta a esse questionamento.

- Pois bem... Dou-lhe meus parabéns, também. Desejo muitas felicidades ao senhor.

- Agradeço.

- O senhor merece. Mas, agora, voltemos todos ao trabalho que o dia hoje promete.

A esse comando, todos foram ocupando seus postos.

- Ah, senhor Francisco... Achei bem inteligente a frase na sua camisa. Creio ser esse o nosso espírito aqui: QUEM É JUSTO PRATICA JUSTIÇA!

Enquanto aquele chefe retornava a sua sala, porta já quase fechada, uma frase, não ouvida por ele, fez alguns darem risadas abafadas:

- Sabe lá de nada, inocente!

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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Justo" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 8/04 e 9 de abril de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Idiossincrasias, ideologias, idiotias... - Chico Araujo*

Sentia-se estranho – desde a hora em que acordara? –, e não conseguia compreender o porquê daquela estranheza. Então refletia.

Ele, em verdade, era de pensamento brando, de comportamento manso, de visão de mundo conciliadora. Em suma, poderíamos ver nele postura pacífica em seu dia a dia. Pela soma de tudo, não seria exagero dizer-lhe uma pessoa tranquila, de boa índole, destituída de agressividade maléfica contra quem quer que fosse. Nada, então, que o encaminhasse à surpresa, ao espanto sobre ele. Naquela manhã, contudo, nasceu-lhe uma sensação de estar diferente.

Com visão distinta, havia, sim, alguns que faziam questão de imputar a ele traços de idiotia, por considerá-lo amorfo, molenga, covarde mesmo (é engraçado observar que em comum abundam interpretações inadequadas por quem não tem capacidade para um bom juízo). Um profundo engano, todavia, pois de idiota não tinha absolutamente nada.

Insisto: era apenas – e isso não é pouco – um pacificador, alguém sempre interessado em aproximar as pessoas – mesmo as conflitantes – em torno de coisas boas, positivas, alegres, além de buscar sempre a compreensão de tudo o que pudesse compreender. Devido a isso, o mais comum era encontrar em seu rosto sorriso aberto e, em sua boca, muitas vezes, o silêncio. No olhar, um brilho incomum. Quem não entendia nada disso, certamente não via seus bocados para a existência.

Pois quando o sol desvendou novo dia, porém, ele mesmo se sentia diferente daquilo acostumado a ser e não encontrava explicação para a inquietação abraçadora. Preparou-se aos moldes do costume, alimentou-se e partiu para o trabalho. No ônibus de toda manhã à mesma hora, ouviu de companheiro cotidiano compartilhador do mesmo horário, do mesmo veículo, da mesma rota:

- O que aconteceu? Está com uma cara! Parece sem alegria...

- Não sei dizer nem o que nem o porquê, mas acordei mesmo me estranhando hoje. Já quando olhei para o teto por mais tempo que o normal às minhas orações matutinas, atentei que fui dormir um, mas acordei outro. Nada específico me ocorre como motivo para isso; porém, há alguma coisa diferente mesmo, embora não saiba dizer o que seja.

- Olha, pelo que aprendi de você nesses meses todos de enfrentamento diário matutino nesse horário costumeiro e nessa rota repetitiva, algo de muito sério deve estar acontecendo, porque simplesmente é a primeira vez que encontro você sem um sorriso no rosto. Aliás, aprendi que você sorri com o rosto, com os olhos, com a boca, com os gestos, com as palavras, com as atitudes, com os passos... Você sempre é todo sorriso... É como se estivesse sempre em estado pleno de felicidade...

- Bem, obrigado por me entender assim desse jeito, que deve ser muito bom. Mas, sinceramente, não sei dizer o que seja. Sei que hoje não estou igual a como estava ontem até a hora de dormir.

- E pelo menos se lembra de algo que tenha acontecido antes de você dormir?

- Eu vi um filme...

- Sobre o quê? Pode existir nele algo perturbante, a ponto de mudar características tão marcantes suas...

- Bem, o filme não era um documentário, foi anunciado como ficção, mas bem que tem muito a ver com muita coisa que acontece todo dia. O espaço dele era o de uma cidade grande, então ele começou mostrando carros, ônibus, motocicletas, sinais de trânsito, também muitas buzinas eram ouvidas. As imagens mostraram por primeiro essa confusão de trânsito por avenidas e algumas ruas largas interligadas a elas. Depois mostraram muitas pessoas tentando atravessar essas ruas e avenidas, algumas com passos rápidos, outras correndo mesmo.

Também mostraram outras se esbarrando em calçadas, como se estivessem num formigueiro desorganizado. Intensamente e velozmente, pessoas vinham, pessoas iam. Ninguém se olhava, ninguém se conhecia, ninguém se falava... apenas andavam, apenas colidiam, quase todos de cabeça abaixada... Bem rápido tive a sensação de que aquela gente toda éramos nós... Aquela gente toda éramos nós todo santo dia... Logo uma angústia me bateu e fiquei sentindo que a gente que assiste aquelas cenas fica com a impressão de que aquela quantidade toda de pessoas não sabe para onde está indo. Se a gente se coloca dentro, a gente se pergunta: para onde vou? Para onde vamos nós todos?

- Isso tudo só no começo?

- Sim, só no começo... E não conseguirei lhe contar tudo. Vou falar só do fundamental, pelo menos para mim. Depois de visão sobre a cidade, aquele que entendi fosse o personagem principal aparece também caminhando no meio da multidão. A imagem começa por cima, mostrando a confusão de gente caminhando numa calçada e aí vai se aproximando dele, bem devagar, até pegar ele de frente e ficar acompanhando ele até ele bater em duas pessoas, pedir desculpas e seguir. Aí a gente vê o rosto dele. É um homem de meia idade, cabelos meio pretos meio brancos e tem um rosto muito fechado, muito sério, parecendo muito preocupado.

- Teu sósia hoje...

- Depois a câmera o abandona e passa a mostrar uma sala onde há pelo menos quinze pessoas, homens e mulheres, rindo, rindo muito, comemorando mesmo, debochando em suas risadas, enquanto apontam para esse homem, pois, na verdade, estão todos vigiando ele, todo passo que ele dá é visto por esse grupo. Aí, na televisão, a tela se divide no meio, radicalmente no meio, então são dois lados que ficam, e aí tanto o homem na rua quanto o grupo na sala são mostrados, ele caminhando sério, muito fechado em si mesmo, o grupo rindo, rindo, se acabando de rir. Galhofando. Troçando. Zombando. De repente o homem para em frente a um edifício onde está escrito Justice. Para, olha pra entrada, lê o letreiro e vai, devagar, olhando pra cima. A imagem vai mostrando seu olhar vagaroso e crescente pra parte de cima daquele imóvel. E de repente ela para no alto do prédio e a gente vê o fim dele se confundindo com a existência do céu. Fiquei numa ideia de que aquela imagem queria mostrar que o homem pode querer fazer justiça, sem jamais poder conseguir, pois não sabe como alcançá-la, como fazê-la. O homem não sabe ser justo, não sabe o que é justiça e por isso não consegue fazer a existência dela. Sem dar mais detalhes, sinto ser esse o ponto básico, central do filme: O homem não consegue realizar justiça porque não sabe o que ela é, o que ela significa nem o que é necessário para que exista. É algo além de sua compreensão; simplesmente, o homem não a alcança.

- Interessante.

- Inquietante.

- Então foi o filme o elemento de sua transformação?

A pergunta foi feita enquanto os dois amigos desciam do ônibus em uma parada que ficava exatamente em frente ao insinuante edifício de 33 andares em que trabalhavam.

- Talvez não ele exatamente. Talvez o fato de ele me fazer me lembrar de uma cena que vivo todo dia e que ainda não tinha percebido, alcançado, refletido sobre ela.

- Qual cena?

- Essa em que estamos agora.

- Essa?

- Olhe em volta. Vê a quantidade de pessoas passando aqui de um lado pra outro, cada uma seguindo pro seu destino que não se sabe qual é, quase todas de cabeça baixa, numa suposta reflexão que pode não ser reflexão? Vê que elas andam rápido como se não pudessem andar devagar, com tranquilidade, e por isso mesmo vão esbarrando umas nas outras? Vê que estamos em uma calçada larga no centro de uma cidade grande muito agitada? Escuta os barulhos das ruas, os motores dos carros, dos ônibus, das motocicletas, as buzinas deles? O filme talvez seja sobre mim, sobre você também. Olha esse prédio em que trabalhamos. Não tem nome na entrada, somente o número. Mas quando a gente olha daqui lá pra parte mais alta dele o que a gente vê é o fim dele como se chegasse perto do céu, o que é falso, impossível.

- Incrível! E onde você encaixa esse negócio aí da justiça?

- Em coincidências. A primeira está no fato dos 33 andares. A segunda está no fato de exatamente no andar 33 ficar um grande escritório de advocacia, aquele em que todos os advogados são considerados como sensacionais, fazendo eles crerem ser simplesmente maravilhosos, porque sempre realizam atos de justiça. A terceira é que, no andar abaixo, o 32, fica aquele enorme espaço de vigilância do prédio, daqui, da própria avenida, das ruas por perto. Há muitas câmeras espalhadas nessa região e elas capturam imagens que são vistas por muitas pessoas, homens e mulheres que se revezam em turnos pra ficarem olhando aqueles monitores sempre funcionando. Já estive lá algumas vezes fazendo limpeza e eles riam das pessoas filmadas nos monitores – dos cabelos, das roupas, do jeito de andar, do jeito de comer... – pessoas desconhecidas, mas motivo da alegria, da troça, da zombaria deles.

- ...

- Algumas dessas câmeras, caro amigo, estão sobre nós agora, nos investigando, nos vasculhando. E não duvido da existência de alguém, lá em cima, rindo de nós agora, troçando, pelo que somos, por sermos como somos, por vestirmos como nos vestimos, talvez até por estarmos aqui, parados em uma calçada, olhando pra cima, julgados estúpidos, enquanto pessoas ligeiras esbarram em nós...


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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Hibridez na hibridização" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 31/03 e 06 de abril de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...





quarta-feira, 4 de abril de 2018

Hibridez na hibridização - Chico Araujo*


Pois veja que o Filé-de-Borboleta, naquela sua conhecida ânsia de falar falar falar, irrompeu no Bar do seu Luís e logo depois de um educado-agitado Boa tarde, seu Luís disparou a pergunta direta e objetiva ao vendeiro:
- Quede o Ferrado, seu Luís? Chegou ainda não?
- Se chegou tá disfarçado. Tô vendo ele não.
- Eita, seu Luís.
- Sente aí, homem, que já ele chega. Tá na hora dele chegar. Vai tomar uma?
- Bote umazinha aí pra mim, seu Luís. Caprichada.
- Pois sente aí, Filé, que já ele chega.
Filé sentou e ficou esperando o amigo, bebericando de leve aquela cachacinha bem dosada servida pelo seu Luís. Mas já não falava. Bebericava e olhava pro tempo, pro lado, pra cima, pra baixo, pras pessoas que entravam e saíam, pras paredes, pro seu Luís, demonstrando agitação em seus pensamentos, atiçando a curiosidade do mercador. O que será que esse cabra tem hoje? Tá muito pensativo e inquieto... Hoje ele vem com alguma novidade...
Enquanto seu Luís refletia, Ferrado apareceu à porta do Bar e em susto escutou o chamado em grito:
- Ferrraaaddoooo. Vem cá, macho. Tu quase que não chega...
Ferrado desejou boa tarde a seu Luís e aos poucos indivíduos presentes no estabelecimento naquele instante e foi se dirigindo para a mesa onde Filé o aguardava.
- Que que houve, Filé? Parece agitado, nervoso...
- Nervoso, não. Agitado, um pouquinho. É que eu tenho pensado muito naquilo que disse aquele deputadozinho com aquela história de trazer progresso pra nossa cidade. No que ele disse e no que eu tô vendo acontecer na cidade, parecendo ser de pouquinho, mas já sendo é muito.
- E aí? O que o perturba?
- E aí que eu tenho pensado que aquilo que pode ser bom pode ser é ruim.
- Que história é essa, Filé? Já tomou quantas?
- Essa é a primeira, mas já vou pra segunda.
Verteu uma talagada da cachaça ainda existente no copo. Seu Luís se aproximou dos dois levando a cachacinha também bem dosada para o recém-chegado. Aproveitou e falou:
- Esse cabra aí tá meio esquisito hoje, mas aquele esquisito que a gente já sabe que vem coisa nova. Prepara aí os ouvidos que a falação vai ser muita. Filé olhou o comerciante e não rebateu aquela fala; pediu mais uma dose da cachaça e uma boa porção de torresmo Pra gente distrair o estômago enquanto papeia. Depois do afastamento do comerciante, o agitado Filé prosseguiu em sua falação. Ferrado, bebericando, pôs-se a ouvir.
- Olha só, na cidade temos aqui o Bar do seu Luís que satisfaz todo mundo, certo? Aqui tem nome de bar, mas não é só bar. Aqui todo mundo compra o que quer, o que precisa, que o comércio dele é até bem grandinho, né não? Então, com esse negócio de progresso dito por aquele lá, é possível que venha restaurante, que a gente já tem alguns, mas vai ter muito mais, supermercados, que a gente não tem, mas tem aqui a venda do seu Luís na parte que não é bar e outras vendinhas que nos servem muito bem, né não?
- Tô lhe escutando...
- Aí, pra ter essas coisas, esses outros comércios maiores que o do seu Luís, isso é sinal de que a cidade vai ter mais gente. Aquele deputado, se tá mesmo com projeto pra cá do jeito que ele disse, ele tá pensando em transformar a cidade em lugar que tem gente, muita gente, porque quanto mais gente, mais dinheiro pro bolso dele, que aquilo lá não é flor que se cheire, já percebi. Se duvidar ele tá querendo fazer uma cidade pra ele.
- E ter mais dinheiro é ruim, Filé?
- Quem tem muito diz que não. O problema muitas vezes tá no que se faz pra se ter muito dinheiro. Né não? Olha só, se a cidade tiver esse progresso que tô falando, com os tais dos mercantis e restaurantes, o Bar do seu Luís se acaba, que ele não tem como enfrentar grandes restaurantes e mercantis. Né não?
- É bem possível, Filé, é bem possível. Seu raciocínio é ajustado. Mas nos mercantis, a gente sabe, tem mais fartura, então a gente pode comprar mais barato neles do que a gente compra aqui. Né não?
- Que a gente teria mais escolha, eu acredito. Comprar mais barato, não sei.
- Tem outra, ô Borboleta. Progresso sempre cria emprego onde ele chega. Mais emprego significa menos gente desocupada.
- Aqui a gente não tem problema de gente desocupada. Todo mundo que tá em idade de trabalhar, trabalha. Não temos muito dinheiro aqui, mas o que a gente tem dá pra viver. Né não? Aqui todo mundo se conhece, todo mundo se ajuda, todo mundo é amigo, mesmo quem mora mais distante. Né não? O progresso faz a cidade ficar maior, faz ter mais gente e faz as pessoas se desconhecerem. Né não?
- Numa cidade grande é natural você não conhecer todo mundo. Mas cidade grande, com progresso, também tem mais oportunidades pras pessoas.
- Oportunidade de quê?
- De trabalho, de estudo, de moradia, de saúde... A gente aqui não tem um hospital que preste. Quando o Dodô teve aquele problema de saúde dele precisou ser levado lá pra capital. Nem tem hospital aqui nem tem na região. Esses Postos de Saúde ajudam muito em coisa pequena, mas não em coisa grande, doença mais séria.
- Todo mundo que mora aqui já tem onde morar, mesmo os que moram em casa bem simples, bem humilde. Aqui a gente não tem morador de rua. As doenças que a gente vê aqui são aquelas comuns, que todo mundo tem e fica bom logo. Cidade grande tem muito mais doenças e tem muita gente morando na rua. Né não?
- Onde tá querendo chegar, Filé?
- Se esse projeto que aquele lá falou for de vera, vingar mesmo, nunca mais que aqui será como a gente vive agora, nessa paz de todo mundo com todo mundo sempre se ajudando. O seu Luís, como é comerciante e comerciante gosta de dinheiro, é capaz de pegar esse terrenão que ele ainda tem aqui do lado e construir nele um daqueles parques aquáticos que mostram na televisão, com direito a apartamentos pra rápida temporada. Eu já ouvi aquele lá falando isso pro seu Luís. Sabe o que acontece? Nunca mais que a gente vai poder vir aqui pro seu Luís, que ele vai mudar isso tudo aqui, vai deixar com outra cara, mudar cadeiras, mesas, o balcão, os preços dos de beber e dos de comer, rapaz. Vai deixar de ser Bar do seu Luís pra ter um nome estrangeiro, que chame mais atenção, pra agradar “as gentes” que vierem sabe lá Deus de onde. Ferrado, isso aqui nunca mais vai ser do jeito que é. Você já viu aquele terreno enorme sendo limpado lá na saída da cidade? Sabe o que vai ser aquilo? Heim? Sabe? Aquilo ali é o primeiro passo pra construção de um tal de empreendimento que tão começando a fazer que vai ter um bocado de coisa, campo de futebol, piscina, quadra de voleibol, quadra disso, quadra daquilo, um bocado de coisa que eu nem sei direito o que é... É um negócio que quando ficar pronto vai ter nome estrangeiro. Coisa daquele falastrão que tá se acostumando a vir aqui no bar.
- E você acha isso ruim, Filé?
- Ruim, Ferrado? Pensa só aqui no seu Luís. Se o seu Luís for pela cabeça daquele deputado e mudar tudo aqui, nem tu, nem eu, nem ninguém que vem aqui hoje vai poder vir pra cá e ficar do jeito que nós tamo agora. Nós daqui da cidade não vamos poder comprar o que o seu Luís vender, porque a gente não vai poder pagar. O progresso chegando aqui, a cidade vai mudar tanto, que nós teremos de sair dela. E se a gente não sair de todo, vai ficar morando longe de tudo que tá perto hoje da gente.
- Tá exagerando, né, Filé. Tá variando? Você sabe que mesmo a gente sendo todo mundo amigo e se ajudando sempre quando um precisa do outro, aqui não é todo mundo igual. Tem diferenças aqui como tem em todo lugar. Não é todo mundo igual, não é tudo igual pra todo mundo. Tem diferenças. Só que aqui estamos todos juntos e irmanados
- Pois é... Amanhã estaremos misturados e nem um pouco juntos...
- Sei não, amigo. Não está exagerando?
- Acho que se você quiser ver você vai ver...
Seu Luís se aproximou da dupla para abastecer de bruta os copos vazios, os torresmos postos já na mesa quase consumidos. Quando terminou o abastecimento, ouviu do Filé-de-Borboleta:
- Seu Luís, o que é aquilo naquelas caixas grandes ali?
- Televisões. Vou botar duas nesse meu bar. Agora quem quiser ver futebol aqui vai poder. Futebol, jornal, filme, novela... Vamos ter de tudo nessas televisões. O freguês vai dizer o que quer ver.
Disse isso e foi saindo pra atender outras pessoas que chegavam. Filé ficou encarando o amigo Ferrado que também o olhou, numa expressão indecifrável, após entornar goela abaixo sua boa dose de cachaça...
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*Chico Araújo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Hibridez na hibridização" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 28 e 29 de março de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...