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quarta-feira, 23 de maio de 2018

Olhando com olhar que se alonga... - Chico Araujo*

O primeiro ato ao chegar: inspecionou o ambiente, à porta ainda do restaurante. Avaliou a quantidade de pessoas presente - queria estar distante de qualquer possibilidade do mínimo tumulto ou barulho -, a disponibilidade dos garçons - não pensava pudesse haver demora em seu atendimento -, a disposição das mesas - intentava sentar próximo à janela, para alongar seu olhar pela avenida que bem perto dali se abria em estrada. Entrou. Sentou-se à mesa onde pensara ficar.


- Bom dia.

- Bom dia.

- O senhor é bem pontual.

- Embora sempre tente, nem sempre consigo. As nuances da vida.

- Verdade. Não temos controle sobre sua dinâmica.

- Nos iludimos, apenas, quando julgamos que temos.

- Trago o de sempre?

- Sim, por favor.

O bom dia desejado ainda valia, mas em verdade verdadeira dali a meia hora a tarde sopraria seus ventos mais aquentados. Pelo costume e horário, dali a meia hora o ambiente teria um pouco mais de barulho, suportável, pois estava onde queria estar.

- Com licença. Sua cerveja, "véu de noiva", como gosta.

- Obrigado.

- Vai querer algum papel hoje?

- Não, não. Hoje vim acompanhado de um caderninho.

- Então, me dê licença. Fique à vontade. Precisando, é só chamar.

- Combinado.

O "combinado" foi dito com um leve sorriso seguido de ligeira mudança na ação de olhar. O objeto da atenção agora era novamente a avenida-estrada, o sabor da cerveja preferida já aprazível.

De imediato não lhe chegou vontade alguma de escrever. No entanto, a avenida-estrada, como nunca antes, prendia sua atenção, convidava-o a fixar-se no olhar para ela. Ela como que o encantava para deter-se naquele olhar que, a princípio, não tinha clareza sobre o porquê daquela detenção intensa e extensa.

No movimentar-se da Terra, o Sol ia anunciando a passagem do tempo, impondo mais claridade em certos lugares, instaurando sombras em outros. O dia, assim, prosseguia, enquanto a cerveja era sorvida, o barulho no ambiente criava vida, o calor se intensificava. Sinestesias. Olhava e olhando saboreava não somente a bebida, mas a própria atitude de permanecer olhando, percebendo que os sons lhe tocavam.

- O senhor me dá licença?

- Pois não?

- O senhor está aqui sozinho já faz um tempo... Posso sentar um pouco com o senhor?

- Mas há outros lugares livres no recinto!

- É verdade - disse ela já puxando a cadeira e se sentando -, mas gostaria mesmo de conversar um pouco com o senhor?

- Mas por quê?

- Curiosidade. O senhor, sempre que vem aqui, chega no mesmo horário, senta à mesma mesa, bebe o mesmo tipo de cerveja, come a mesma comida - aliás, daqui a pouco o garçom lhe perguntará se já pode fazer o pedido - e, o que chama mais a atenção, o senhor sempre fica olhando pela janela, creio que sempre para o mesmo lugar.

- A senhora está me observando? Quem é a senhora mesmo?

- A proprietária. Costumo ficar naquela sala ali em cima, por trás daquele vidro escuro. De lá vejo todo o movimento, observo as pessoas, observo os funcionários... Na verdade, tudo o que é possível. O senhor sempre está só, sempre olhando pra avenida, pensando, creio.

- Gosto de ficar assim e aqui. Fico olhando para a avenida e para a sequência dela, a estrada. As estradas costumam levar e trazer, mas há momentos em que elas nem trazem nem levam. Ficam como se não houvesse sentido em seu existir.

- Mas isso não é eterno. Haverá sempre um momento em que o fluxo naturalmente retornará.

- Os instantes de depois jamais podem ser iguais aos de antes. Toda a paralização de agora não será recomposta adiante. A diferença entre um momento e outro deve ser bem observada, avaliada, para que não se tenha a falsa ideia de que o que vem depois é melhor. Nem sempre é. A existência carece de equilíbrio.

- O senhor fala como se aquela estrada a qual olhamos agora não fosse exatamente aquela vista pelo seu olhar. A cada nova palavra sua chega-me a ideia de outra estrada, outro caminho, talvez não tão concreto como nossa visão vê agora... Quem sabe algo mais subjetivo, numa dimensão simbólica não alcançável de imediato...

- Nosso cotidiano nem sempre é, de fato, objetivo. Há muitas entrelinhas, muitas metáforas em cada novo dia. O Sol é um só; seus brilhos, no entanto, apresentam matizes e a percepção deles dependerá da percepção de cada um.

- Tal qual a noite...

- Tal qual a noite... Tal qual falas de quem fala - as minhas falas, por exemplo -... Tal qual ideias de quem as tem e as divulga... Metáforas exigem interpretação; elas dizem muito, mas não diretamente. E há discursos criados no sentido de que as entrelinhas não sejam facilmente compreendidas...

- Há de se ter atenção aos discursos...

- Sim... Há de se ter atenção aos discursos...

Naquele ponto, o diálogo silenciou, enquanto dois copos de cerveja eram novamente enchidos. Agora eram efetivamente dois olhares perscrutando a avenida-estrada... 

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*Chico Araujo
- professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Olhando com olhar que se alonga..." compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 16 e 19 de maio de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Ó de ódio -Que os anjos nunca digam amém! - Túlio Monteiro*


“Bem-vindos os que se reúnem no amor de Cristo...”

Domingo, sol das dez da manhã abrasando um dia que prometia ser de muito calor naquela cidade quase cortada pela Linha do Equador. Trópicos. A missa de batismo acabara de começar na igreja de paredes azuis entrecortadas por vitrais retratando anjos e santos caleidoscópios.

Pelos bancos de marrons, lentamente polidos pelos milhares de fundilhos que por eles passaram ao longo de tantos anos, famílias inteiras se espremiam acalantando nos colos pequenos inocentes ainda entrevados pela ausência da água benta que breve seria despejada sobre suas cabeças na pia batismal encravada sob a gigantesca nave daquela casa de Deus. Vinte ou mais metros de altura.

O estampido do primeiro tiro calou as ladainhas e rezas. Tinha destino certo: a cabeça do menino de sete meses que se encontrava nos braços de vitiligem da futura madrinha. Sangue e cérebro espalhados nas pequenas vestes brancas da criança e sobre a incredulidade dos que se encontravam no derredor.

Segundo tiro, terceiro...quarto. No chão sagrado do templo estavam mortos, cabeças também arrebentadas, a avó materna, o irmão de oito anos, e seu pai, autor dos disparos que haviam arrebatado quatro vidas. Suicídio ou ira pelo descaso com o qual o vinham tratando?

Tumulto!

Sobre os corpos, a mãe das crianças dilacerava gritos; os olhos derramando-se em um choro com cheiro e sabor de morte, representação suprema da mais profunda e plena dor que um ser humano possa vir a experimentar.

Fincadas nos candelabros do altar vazio, velas tremelicavam chamas gotejando lágrimas de cera em mistura lenta de sangues sobre os ladrilhos brancos e tão alvos quanto as asas dos anjos que adejavam aquele lugar agora maculado.

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*Túlio Monteiro – escritor, crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! O texto "Que os anjos nunca digam amém" foi escrito em março do Inverno de 2008. Agora integra o projeto Abecedário de Crônicas do Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro