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sexta-feira, 20 de julho de 2018

Vida! - Kelsen Bravos*

"Vida em primeiro lugar." - Cleudene Aragão


O meu olá inicial, Povo do Meu Bem-Querer, vai em nome de Cleudene Aragão, inspiração dessa crônica e um dos melhores presentes da Vida para mim. Em nome dela cumprimento a vós todos e todas. A frase em epígrafe, minha amada amiga sempre a me reitera, ante a decisão de prioridade nas bifurcações dos caminhos: "Vida em primeiro lugar".


Tenho uma tremenda compreensão das decisões inexoráveis daquelas pessoas determinadas a cumprir seus propósitos, mesmo, para tanto, seja necessário abandonar os seus. Eita! Num é fácil, não; mas entendo. Seria uma completa tragédia abandonar seus propósitos, a sua Poética para ser expressão do lirismo comportado, funcionário público com livro de ponto e expediente, protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. Viver feito o lirismo desses versos de Manuel Bandeira, para dar garantias de um futuro melhor à família, quando em essência não queria outro lirismo a não ser o da libertação, é dureza. Sem essa liberdade o resultado seria uma ruma de vidas despedaçadas, com pelo menos um morto-vivo (a perambular sem vontade em busca do futuro num passado cujo lirismo capitulou tudo que era fora de si mesmo). Uma tragédia.


São fartos os exemplos de decididos pelo lirismo difícil e pungente dos bêbados, pelo lirismo dos clows de Shakespeare que causaram muita tristeza e muita dor em si e nos outros; mas com inexorável determinação passaram além do Bojador e serviram de exemplo para os seus. Deram o melhor de si: o exemplo da própria solidão e loucura e venceram e conquistaram respeito e não recuaram porque lutavam pela vida. Com isso estão a cumprir uma parte fundamental da Vida que é amar a si mesmo.


Eu, por mim, não por ser conservador ou por me render às circunstâncias, mas, em essência, por convicta crença de termos uma só Vida composta de sucessivas e progressivas existências no plano relacional e nas quais nosso maior propósito evolutivo é a dedicação ao próximo, por isso não abdico da dedicação à pessoa ao lado. Claro, não cumpro tamanho desprendimento de mim mesmo em favor de outrem, com perfeição. Sou imperfeito. Muito! Dia a dia tomo mais consciência de minha imperfeição; dia a dia, porém, busco me aprimorar. É um processo muito pouco fácil, daí as bifurcações do caminho e a frase mantra de minha amada amiga: "Vida em primeiro lugar."


Ponderar sobre as prioridades da vida me deu uma certeza, amar o próximo como a si mesmo sempre vale a pena. O outro seja sempre o maior propósito, o melhor modo de cultivar o amor a si mesmo. Para os demais objetivos temos todo o tempo do mundo, afinal cada um de nós é uma soma infinita de passagens no plano relacional evolutivo. Isso não justifica procrastinação, nem abdicar das responsabilidades. Estou a considerar tomadas de decisão em situação limite, diante das opções da bifurcação do caminho.


Priorize a Vida! Pular ao mar em socorro de uma vida faz um bem imenso, mas ver o navio da viagem dos sonhos ir sumindo no horizonte dá cansaço e dor. O cansaço sempre se rende ao apego à Vida e esta plenifica a vontade de ir além do Bojador, mesmo a nado. Siga em frente, persista, você vale a luta. Evoé!


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*Kelsen Bravos - professor, escritor, compositor, editor do Evoé!

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Vacilante - Chico Araújo*

Com cara de quem vira fantasma, eis que chegou trêmulo (justamente ele, supersticioso até a última raiz do cabelo), mudo (justamente ele sabidamente falador pelos cotovelos), olhos arregalados. Sua branquidão facial denunciava uma palidez inusitada, extraordinária de tão toda.

Sentou-se à mesa em que eu estava bem acompanhado de minha cervejinha gelada e me olhou fixamente como se não me visse. Estava como se olhasse para um lugar qualquer além daquele no qual nos encontrávamos, além mesmo das paredes, além mesmo de além das paredes e do universo a partir delas.

- Seu Luiz, por favor, traga um pouco de água com açúcar para esse apavorado aqui.

- Já tô levando. Parece ter visto coisa do outro mundo.

Seu Luiz entregou a água às mãos trêmulas. Uma parte do preparo açucarado caiu sobre a mesa, mas a maior parte foi ingerida pelo atônito. Seu Luiz e eu ficamos em silêncio, observando aquele ser tão indefeso naquele instante, perplexo, perturbado. Aos poucos ele foi voltando e, quase sem descoramento e tremedeira, falou em tartamudeio:

- E-E-Eu fui a-a-avi-sado.

- Avisado? De que?

Não falou de imediato. Pegou meu copo de cerveja, completou-o e verteu o precioso líquido em um único gole. Aí olhou menos aflito para o seu Luiz e, em resposta à pergunta feita, repetiu:

- Eu fui avisado.

- Avisado de que, homem de Deus? Desembucha logo – arrematou seu Luiz, aparentemente assumindo a perplexidade.

Antes de rezar a missa, encheu mais uma vez meu copo de cerveja e sorveu tudo novamente de uma só golada.

- Seu Luiz, por favor, traga outra, bem gelada, e outro copo, que esse aqui parece estar precisando de combustível pra soltar a língua.

O silêncio perdurou enquanto seu Luiz foi e voltou. Cerveja aberta, enchi o copo dele, também o meu e fiquei aguardando já um pouco ansioso. Ele olhou para mim, para seu Luiz, de novo para mim, até alcançar com a mão direita o copo disponível a ele. Dessa vez bebeu mais devagar e não tudo de uma vez. Pôs o copo na mesa. Ele olhou para seu Luiz, para mim, de novo para seu Luiz e, ainda malseguro, ensaiou uma fala:

- Um aviso. Quando eu estava quase chegando aqui, ouvi um aviso.

Seu Luiz começou a perder a muito conhecida pouca paciência:

- Se você não desembuchar logo de uma vez vou lhe botar porta afora dando chutes no seu traseiro.

Ele respirou fundo, buscando, talvez, um pouco mais de domínio sobre si, porquanto ainda instável. Tomou mais um pouco da cerveja e aí começou a narrativa:

- Eu tava quase chegando aqui, tava passando ali perto das árvores do nosso resto de floresta quando ouvi uma voz me chamando. Ou pelo menos pensei que alguém me chamava. Mas olhei pra traz e não vi ninguém. Aí me virei e comecei a vir pra cá de novo, mas ouvi de novo alguém me chamando, só que dessa vez a voz tava bem mais perto.

A mão dele deu novos sinais de tremedeira. Ele bebeu mais cerveja e despejou mais no copo. E continuou, sob a atenção minha e de seu Luiz.

- Eu me virei de novo e... ninguém! Ninguém estava ali, nem perto nem distante. Aí eu parei por um tempinho, olhando para tudo que era lado e nada. Ninguém nem perto nem longe. Aí eu cismei e fiquei na dúvida se corria pra casa ou se corria pra cá. Aqui era mais perto, então decidi correr pra cá.

- E correu.

- Corri logo não. Quando eu já estava quase dando a primeira passada, uma voz disse bem perto do meu ouvido:

- Prepare-se. O futuro está chegando.

Não deu pra segurar a gargalhada dupla, uma do seu Luiz, outra minha. Seu Luiz arrematou:

- Mas você tá no vacilo mesmo, hein? E distraindo a gente do nosso precioso tempo. Ora, mas tenha santa paciência! O futuro sempre está chegando!

Sem mais rir, seu Luiz saiu, resmungando, pondo-se por trás do balcão, agora recebendo fregueses. Eu fiquei, ainda rindo, pelo menos até perceber que ele me olhava sério. Fui investigar:

- Tá falando ajuizado?

- Não brinco com essas coisas. Escute o resto da história.

- Tem mais além dessa chegada do futuro? – zombei um pouco, enquanto ele manteve o rosto sisudo.

- Quando aquela voz falou no meu ouvido Prepare-se. O futuro está chegando, apesar do susto e do tremor, quis me voltar pra ver quem brincava daquele jeito comigo, mas não consegui me virar. Meu pescoço não se mexeu pra trás, eu só podia olhar pra onde eu já estava olhando, a porta daqui do bar do seu Luiz. Eu olhava pra cá, queria correr pra cá, mas não conseguia. Estava paralisado, totalmente preso por aquela voz. Aí ela disse outra coisa, também bem baixinho, no meu ouvido: O futuro é o progresso que muda tudo.

- Mas isso também não é novidade. O futuro sempre traz progresso e o progresso resume-se exatamente em mudanças. Algo deixa de ser, de existir, para existir outro algo. É sempre assim.

- Depois de dizer essa outra frase, meu corpo como que se livrou da prisão daquela voz que me fazia ficar parado, imóvel. Foi depois dessa liberdade que corri para cá, mas sentindo no corpo todo um vento frio e violento vindo de lá das árvores. Era como se o resto de nossa floresta soprasse em cima de mim aquela predição. A ventania fria somente parou quando consegui entrar aqui.

- Você está é vacilando, vendo coisas onde não existem.

- Diz isso porque não foi com você.

Olhei para ele agora sem nenhuma vontade de rir. Ele continuava sério e pude notar certo tremor rápido percorrendo todo o seu corpo, naturalmente viajando por toda a espinha. O rosto não estava lívido como antes, porém sua mão estava novamente trêmula, quando pegou novamente o copo para beber mais cerveja.

Me virei pro seu Luiz e apenas pude dizer:

- Seu Luiz, traga mais uma, por favor.

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*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Vacilante" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 10 e 11 de julho de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 9 de julho de 2018

V DE VEXAME - Túlio Monteiro*

Vexame no esporte, vexame na política. Agora, caros ledores, que o Brasil deixou para lá de derrotada nossa pátria de chuteiras voltam à cena nossos tumores políticos. É chegado o momento de sairmos do estado letárgico que contamina o povo brasileiro a cada quatro anos para revolvermos a lama de Samarco e pensarmos: o que fazer quando as eleições chegarem para valer. Em quem votar, em quem acreditar?

Se o vexame dos dois a um contra a Bélgica foi um verdadeiro chocolate belga, imaginemos quão amargo será o sabor do chocolate que levaremos nas urnas em outubro próximo futuro. Algo que será assim acachapante e dantesco. Isso se não tomarmos vergonha nas caras e começarmos desde já a busca por uma campanha menos cheia de dólares na cueca em troca de promessas infundadas e absurdas.

E Neymar foi bem assim, uma saia justa atrás da outra saindo-se com pérolas do tipo: Posso dizer que é o momento mais triste da minha carreira, a dor é muito grande porque sabíamos que poderíamos chegar, sabíamos que tínhamos condições de irmos mais além, de fazer história, mas não foi dessa vez. Difícil encontrar forças para querer voltar a jogar futebol, mas tenho certeza que Deus me dará força suficiente para enfrentar qualquer coisa, por isso nunca deixarei de Te agradecer Deus, até mesmo na derrota... porque eu sei que o Seu caminho é muito melhor do que o meu. Muito feliz em fazer parte desse time, estou orgulhoso de todos, interromperam nosso sonho, mas não o tiraram da nossa cabeça e nem dos nossos corações.

Sobrou até para Bruna Marquezine que, não sendo liberada pela Vênus Platinada, está levando a culpa por não ter dado regaço e colo ao camisa 10 brasileiro. Coitada da menina. Tenhamos dó não concordam?!

E como diria o nosso sábio primo Clauton Rocha ao parafrasear Dilma Rousseff: se a Rússia perdeu não volta para casa, porque se ela perdeu vai voltar para casa que na verdade é a sua casa, sua terra natal. Entenderam? Nem eu! Qualquer coisa ou dúvida, mensagens ao velho Clauton.

Ainda teve que lascasse com pobre do Fernadinho, autor do gol contra que sentenciou a derrota do Brasil. O pobre do rapaz já foi chamado de macaco de Lampião, de traíra e de vendido dentre outras coisas melhores de não serem comentadas sob pena desta crônica ser modificada por nosso amado editor.

Todo amor e suporte a Fernandinho. Jogador disciplinado. Mais uma vez, Alisson não passou segurança alguma. Mãos curtas que nunca saem do gol. Mas a culpa é do negro, né? Chamá-lo de macaco em redes sociais e ameaçar a família é suave, né? Odeio as branquices do meu País varonil.

Óbvio que eu não estou satisfeito com a atuação do Fernandinho e ele também não está acima das críticas, mas ofender ele e a família? Chamar ele de macaco? O pessoal parece que perdeu o prumo e além do espírito esportivo, perderam também a noção de ser humano. Devagar com o santo que andor é de barro. Mais calma nessas horas.

E o Tite, hein? Ficará ou não? Isso ele decidirá, pois com a eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo da Rússia não alterou a disposição da CBF de renovar seu contrato.

Agora, voltando ao cenário político do País, em quem mesmo você pensa em votar para Presidente, Governador, Senador, Deputados Estadual e Federal? A lista é grande, pessoal. As eleições também serão. Já sabem onde estão suas armas de voto: o Título de Eleitor? Não?! Pois tratem de ir ajustando suas tabelas de aposta – não as da Copa –, mas as dos que irão governar nosso Brasil pelos próximos quatro anos, quando uma nova chance de sermos hexacampeões chegará.

Como afirmei antes, o período letárgico de uma Copa do Mundo vem para deixar mais lentos os reflexos da economia brasileira, quiçá mundial. Entretanto, é chegada a hora de sermos conclamados às urnas para fazermos jus ao nosso direito de voto. Pois que o façamos de maneira bem arejada, correta e longe da soberba de votos comprados em troca de meras dentaduras ou meritocracias. Essa é minha opinião.

Sejamos, pois, senhores de nossas responsabilidades enquanto cidadãos conscientes de nosso dever cívico. Já que vivemos em uma democracia de direito que a exerçamos de maneira limpa e cristalina. Afinal, com o Lula livre ou não um novo futuro se apresenta, cabendo a nós transformá-lo em esperança e felicidade, Fico por aqui, pessoas de minha mais alto-estima. Querendo crer que ando fazendo minha parte no que diz respeito levar-lhes meros textos de tiro curto, mais conhecidos como crônicas de Túlio Monteiro. Saudações litertárias.
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*Túlio Monteiro - é poeta, contista, crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! O texto V de Vexame" integra o projeto Abecedário de Crônicas do Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.