Mostrando postagens com marcador Letra U. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Letra U. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Uuuuh!... - Kelsen Bravos*

Gosto de ir a estádio de futebol. Gosto de vôlei, futebol de salão, basquete. Adoro jogos coletivos. Fui atleta amador com destacada trajetória no âmbito escolar e de federação; não de futebol, mas de handebol. Para quem não conhece, é uma espécie de futsal; mas jogado com as mãos. Melhor seria compará-lo a polo aquático, jogado em uma quadra cuja dimensão oficial é quarenta por vinte metros. Nos extremos opostos das menores bases do retângulo da quadra, encontram-se as metas do jogo.

Para atingir a meta que é o gol, jogam sete contra sete, mais os reservas também num total de sete, que substituem os titulares quantas vezes o técnico desejar. A bem da verdade, a única diferença entre reserva e titular é o fato de estar jogando ou não. A peleja dura dois tempos de trinta minutos e se for um jogo decisivo, para o qual não pode haver empate, há até duas prorrogações de dez minutos, divididos em dois tempos de cinco. A se permanecer o empate, a decisão consagrará o vencedor da disputa em tiros de sete metros, ou seja, pênaltis.

O Handebol reúne o de melhor em um esporte, alta competitividade, apuro tático por meio de extremo senso de equipe, refinado índice técnico expressado em lampejos individuais, dribles, defesas espetaculares e gols, muitos gols que fazem a torcida vibrar a cada lance do intenso jogo cujo tempo não para e só os atletas, verdadeiros titãs, conseguem manter!

Todos defendem e todos - até, raramente, o goleiro - atacam. Devido a intensidade e velocidade dos ataques e contra-ataques, ouve-se das arquibancadas muitos "Uuuuuuh!" A torcida se expressa em quase êxtase pelo quase gol, pela jogada de efeito com alto nível de produtividade, pela performance eficaz do goleiro. Se o "Uuuuuuh" é o preâmbulo do êxtase, imagina o gol.

Num contexto assim, não há lugar para individualismos fúteis. O craque se dilui, craque mesmo é o time, a equipe, que segue a estratégia, adota a tática, apura a técnica, lê a circunstância, pensa, avalia e, num átimo, executa a mudança necessária no decorrer do jogo com extrema sintonia. Se com as estratégias reformuladas, mesmo assim ficar difícil o embate, adota-se o plano original, decerto um lampejo individual (e não individualista) resolve.

No nosso time, quando ocorria um jogo mais difícil contra uma equipe que se emparelhava à nossa, acontecia de um ou outro atleta dar o brilho decisivo ao jogo, com muita raça e técnica. Não foi à toa que passamos quatro anos sem perder um jogo, e, por vezes, não havia jogo fácil.  Somos amigos até hoje, todos nós, os adversários, inclusive.

Vejo pouco o pessoal. A tal roda-vida que leva a vida pra lá nos separa. Mas, porque se tem voz ativa, meus amigos inventaram um jogo, um racha, aos sábados, que depois virou treino, que depois virou um time "Os Dinossauro" (assim sem o s-plural mesmo, bem cearense), que está no campeonato, e os cinquentões, sessentinhas, estão fazendo bonito.

Eu, é claro, cardiodisplicente (não fosse o esporte da juventude... sei não, viu?) ainda não compareci nem para ver um treino, ou gritar um "uuuuuuh" (seria duplamente torturante - uma sensação assim de morrer de sede em frente ao mar). Estou seguindo recomendações médicas e já-já chego lá com a segurança devida para trocar uns passes e - quem sabe - até jogar.

Lembrei-me do "Uuuuuh" do handebol, ao conferir alguns jogos do Mundial de Futebol da Rússia. A seleção brasileira, talvez com o melhor elenco depois do de 1982, perdeu para um time que joga o pé-bola como se fora handebol, os contra-ataques belgas têm os mesmos evolução e desenho. Todos atacam e todos defendem, craques individuais por lá só os da necessidade da mídia.

De todas as seleções as da Croácia, Bélgica e França são as que têm o futebol mais evoluído, portanto, mais próximo do handebol, jogam bonito. Pelo senso de equipe, apuro técnico, tático e raça, a Croácia sobrassai às demais, tomara seja ela a campeã. 
______________
*Kelsen Bravos - professor, escritor, compositor, editor do Evoé!

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Ubíquo e ubiquidade - Chico Araujo*

Ubíquo. Sou um sujeito ubíquo. Ou quase. Não, nunca tive pretensão de o ser; em verdade, nunca antes houvera passado em minha consciência qualquer ligeira aspiração em o ser. Mas o querido amigo KB, nessa última quinta-feira de junho, assim me reconheceu e, sinceramente, quem sou eu para admoestar tão precioso amigo.


Ele, direto e simples, disparou em rápida conversa por ambiente virtual:

- Toda vez que penso na letra U, me vem a tua imagem associada à palavra “ubiquidade”. Professor é o bicho mais ubíquo que existe.

E, na alegria daquele momento, completou sua fala:

- kkkkkkkkkkkkk.

KB ria da constatação que o levou à comparação; ria também de mim, de si mesmo, certamente por saber de tudo o que nos envolve no nosso dia a dia. Um riso amistoso, honesto, acolhedor, gracejador. E quem sou eu para exprobrar tão valioso amigo.

Aceito a alcunha, a antonomásia, o epíteto, que também se estende a ele e a quem mais vestir os atributos assumidos por nós dois. Ambos podemos, sim, por fato e por direito, estar em muitos lugares no perfeito instante em que escrevo essa crônica, não somente onde fisicamente nos localizamos; é bem certo, também, estarmos aí com você, leitor que agora nos lê, nesse preciso novo instante desse novo agora, por meio da crônica a nos interligar.

Sendo professores – KB e eu –, é-nos comum estabelecermos diálogos com muitos estudantes, os quais nos enriquecem com seus conhecimentos e enricam com tantos outros cujo encaminhamento nós fazemos. Profícuos diálogos com potencial reverberação noutras tantas imprevisíveis pessoas, noutros tantos imprevistos lugares.

Indubitável essa ubiquidade de um professor: como ser formador, tem essa faculdade de se difundir, de se expandir, quanto mais esteja agindo; assim, é-lhe possível ir além de onde possa estar, alongando-se e marcando presença em espaços e ambientes a ele impossíveis de determinar.

Não, não posso objurgar o fundamental amigo KB. Ele está certo. E mais certeiro ainda tornou-se quando ampliou seu raciocínio pontuando características as quais não incidem somente sobre mim, mas que se firmam nele também:

- Exatamente assim, a ubiquidade do professor, escritor e compositor.

KB e eu, além de professores, somos escritores e compositores, então, bem além das salas de aula nos fazemos presentes em tantos sítios, em tantos recintos como esse no qual se encontra agora você que me lê. Onde chegará essa minha crônica? Difícil especular, impossível dizer... Nossas composições musicais, quem, porventura, as está escutando nesse tempo em que essa crônica é tecida? Novamente, difícil especular, impossível dizer... Impossível também será negar que estaremos onde nossos escritos e nossas composições estiverem.

Não, definitivamente não posso reprochar o basilar e provocador amigo KB (a cada palavra aqui escrita mais me convenço de que fui provocado, sutilmente, por ele, a escrever essa escrita). Assumo, então, adicionando-o: somos, sim, ubíquos; a ubiquidade se revela em nós e por nós.


______________
*Chico Araujo - professor, poeta, contista e compositor, publica toda quarta-feira no Evoé! O título "Ubíquo e ubiquidade" compõe o Abecedário de Crônicas do Evoé e foi escrito entre 1° de junho de 2018. Leia mais Chico Araújo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 2 de julho de 2018

U de último dos grandes poetas de rua de Fortaleza - Túlio Monteiro*


O velho sentado na penumbra riscou o pires com o copo.
O garçom jovem foi até ele...mais uma dose!
(Ernest Hemingway – em Well-Lighted Place)



– O que foi, poeta? Está com nojo de mim? – Berrou-me asperamente o poeta Mário Gomes com sua argúcia de sempre.

Sempre de paletó e mangas longas, barba por fazer e livros e mais livros às mãos e sovacos, o poeta que morreu em um ano e foi sepultado no outro, fitou-me com aquele olhar esverdeado de sempre, saindo-se com mais uma de suas ácidas tiradas:

– Pare de me achar sujo e me dê um dinheiro, poeta. Pois se dinheiro trouxesse felicidade você estava morrendo de rir agora e não aqui, no velho Flórida Bar tomando essas cervejas quentes que o Bayma serve a troco de nada. Vamos lá que eu tenho pressa de chegar à Praça do Ferreira para as confabulações de sempre.

Não tinha jeito! Era puxar uma cadeira e ficar por minutos contemplando as sandices absolutamente cruciais do Mário. E olhe, menino, que o homem tinha livros dentro da cabeça, como se cirurgia tivesse feito e costurado lá por dentro coisas de deliciar-se comendo lagartas para excrementar borboletas. Tome conversa jogada fora com o talvez último dos grandes poetas de rua de Fortaleza: o velho Mário Gomes. Isso já no século 21.

E haja poesia junto com palavrões. Passasse um rabo de saia ele já ia cofiando o bigode e dizendo as paparicagens típicas de um poeta louco de amores desde os tempos em que cursara arte dramática na Universidade federal do Ceará para aprender como se achegar a uma bela mulher. Ficou pelo caminho o curso de ator em detrimento do autor de Lamentos do Ego e Violenta Orgia Universal, para citar apenas dois de seus livros.

– Olhe, poeta, já fui assim bonitinho que nem você, mas me enveredei por caminhos nunca dantes imagináveis. Você conheceu o “Barba Azul” e o “Buraco da Gia”? Não?! Pense em uns cabarés desgraçados. Lá peguei de tudo e de tudo passei. Conheci amigos cachorros e cachorros amigos. Aderi ao Fome Zero e estou aqui, sem nada. Sentenciou-me o homem em um rápido estalar de língua, acertando o copo de pinga exatamente no centro de sua goela. Mira perfeita. O velho olhou a praça através do copo, depois se virou para os garçons.

– Mais uma dose, disse, apontando para o copo. – O garçom que tinha pressa em vê-lo pelas costas veio atendê-lo já com meu consentimento de cabeça de que podia pendurar mais uma por minha conta.

A tarde sempre se tornava noite nos desvarios das sabenças de Mário. O cabra tinha cultura para dar e vender, mas não tinha o maldito vil metal e por isso mesmo era descartado das grandes rodas pelos escribas janotinhas sempre muito cheirosos e alinhados.

Com um tapa na mesa de metal, Mário levantou-se, balançou para um lado e para o outro, sungando as calças velhas para confidenciar-me: Poeta, mais uma vez obrigado... mas aquele trocado que você disse que ia me dar...olhe que dinheiro não traz felicidade...

Estava na hora de seu plantão noturno na Praça do Ferreira, onde morava. Foi a derradeira vez que troquei palavras com Mário Gomes. Dali para frente, nossos destinos foram outros, totalmente outros. Ele entrou para a eternidade falecendo no dia 31 de dezembro de 2014, sepultando-se no São João Batista em 1º de janeiro de 2015. Aos seus amigos e principalmente inimigos ele deixou o seguinte poema:

"Quando eu morrer
Irão distribuir minhas camisas,
Minhas calças, minhas meias, meus sapatos.
As cuecas jogarão fora.
Ninguém usa cueca de defunto.
Irão vasculhar minha gaveta.
Vão encontrar muita poesia,
Documentos e documentários.
Só sei dizer
Que foi gostoso viver.
Sentir o amor e proteção de minha mãe.
De conhecer meus irmãos, meus amigos.
De ver de perto as mulheres.
Só posso deixar escrito:
“Obrigado, vida”. "

________________
*Túlio Monteiro  -  poeta, contista, crítico literário, ensaísta, memorialista e pesquisador da literatura cearense.