quarta-feira, 28 de novembro de 2018


CAMELOS EM TERRAS ALENCARINAS? NO CEARÁ TEVE DISSO, SIM!



Certa vez o pintor francês François Biard em viagem pelo Brasil, escreveu em seus relatos que observara vários camelos a andar preguiçosamente pelas praias cearenses.
Um inveterado viajante, François Auguste Biard (1798 / 1882) chegou ao Rio de Janeiro em 1858 e logo cativou o ambiente da Corte, ingressando em sua intimidade. Contador de suas aventuras pelo mundo afora, cabia de ser excelente companhia, apesar de extremamente satírico e impiedoso crítico de tudo o que via. Percebia-se que estes artistas que chegavam, passavam a constituir atrativo cultural para uma elite social que vivia carente de estímulos que lhes ampliassem os horizontes intelectuais. E para isto os franceses possuíam condições de sobra, já que traziam as lições de Paris e, particularmente, dos recintos cortesãos. No caso de Biard, o exemplo é perfeito. Fora, na Corte do Rei Luís Felipe, retratista de grande prestígio e por esta razão obteve sempre os melhores favores de Dom Pedro II, que chegou a facilitar-lhe a instalação de seu ateliê numa sala do Palácio Imperial.
Foi censurado por infidelidade na descrição, posto que, no Ceará, não haviam camelos. Mas os animais de fato existiam naquelas plagas. Sim! Pasme o notável leitor que hora me prestigia. No Ceará imperial veio para cá uma leva de quatorze camelos pelos idos de 1859.
Comprados pelo governo imperial e vindos da Argélia como solução para o problema dos transportes no sertão, era pensamento das autoridades que, no Nordeste, o animal resistente à escassez de água e comida poderia ser boa pedida para tração e carga.
Foi então que o presidente da província José Martiniano de Alencar, pai do escritor José de Alencar, já pensando na aclimatação de camelos para aquele fim, incorporou em 1859 que a iniciativa do Barão de Capanema, importando do Norte da África quatorze deles, entre machos e fêmeas. Adaptaram-se e reproduziram-se facilmente no novo habitat, chegando ao número de vinte.
Porém, o pequeno rebanho sofreu com a falta de criadores especializados, apesar de terem vindo como tratadores dos mesmos quatro argelinos, mouros de turbantes que foram recebidos com certa reserva pela população, isso pelo fato de serem ferrenhos censores da religião cristã. A longa gestação das fêmeas, que dura cerca de um ano, ultrapassava os prazos pretendidos para a formação de criações maiores. Foi o fim do empreendimento.
Os animais que conseguiram se aclimatar foram utilizados, primeiro nas passeatas ou préstitos carnavalesco, depois viraram atração turística até suas mortes os alcançarem.

Sim, amigo, o Brasil, mais precisamente nosso Ceará Moleque, já chegou a importar até mesmo camelos da África na ação contra a seca no Nordeste. No dia 24 de julho de 1859, um barco francês que vinha de Argel desembarcou em Fortaleza 14 camelos e quatro argelinos, contratados para tratar os animais e ensiná-los a trabalhar na região.
Responsáveis pela ideia, o botânico Freire-alemão, o barão de Capanema e o poeta Gonçalves Dias tinham sido encarregados por d. Pedro II de encontrar soluções para a seca. Criaram, então, aquela que ficou conhecida como Comissão das Borboletas (1859/1861) Naquela época acreditava-se que o solo do Ceará escondia riquíssimas jazidas de pedras preciosas. Como o território era inexplorado, o desconhecimento dava margem a devaneios e fantasias, e não faltaram homens de notório saber a acreditar nos rumores.
O imperador D. Pedro II tinha um alto apreço pela ciência e pela pesquisa científica e motivado por algo mais do que a curiosidade de homem culto, o governante decidiu investir na exploração.

Entretanto, a expedição centrou fogo na circulação de mercadorias no Nordeste, que era feita em lombo de burro ou em carros de boi. Com a seca, os animais morriam, e o comércio parava.
Mais do que o comércio, a morte dos animais interrompia toda a ligação entre o sertão e o litoral. Foi então que Freire-Alemão, Capanema e Dias convenceram o governo imperial a substituir o boi e o cavalo por camelos, animais de carga mais resistentes à fome e à sede. Mas os camelos não resistiram à seca do Nordeste.
"História da Comissão Científica de Exploração", livro escrito por Renato Braga, não narra o fim dos camelos. Há registros de 1855 de discussão sobre a transposição das águas do rio São Francisco, onde o Deputado pela Província do Ceará, Marcos Antonio de Macedo escreveu relatório contestando geógrafos que achavam a obra inviável.

Prova irrefutável de que o Ceará é o estado brasileiro com mais esquisitices, essa dos camelos fica como mais uma dos homens e mulheres que um dia vaiaram o Sol em plena Praça do Ferreira e chacoteavam com os quimoeiros, carpideiras e gatos pingados da Fortaleza do século 19. Um grande abraço e até a próxima.
Túlio Monteiro, escritor, pesquisador e metido a historiador, novembro de 2018.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

POR MAIS FLORES NA JANELA! - DIana Barbosa Gomes Braga*

Resultado de imagem para imagens de girassóis e cactos.

Não sei vocês, mas recordas dos teus sonhos sobre casa, aqueles traçados com lápis de cor ou giz de cera, coloridas com canetinhas?

Ainda tento manter a casa com a cara de lar, ponho flores na janela para recordar a menina da infância que queria mais que um endereço para morar.

As flores suavizam a vida de quem olha a janela, seja por dentro ou por fora. E elas tem identidade, os mini cactos ensinam a resiliência e a florescer mesmo na aridez que a vida possa atravessar. Kalanchoe é ótima para presentear alguém que desejas prosperidade; mini rosas sempre lembram um afago n’alma e pedem beijos a beija-flores. E no Advento que se anuncia, a poinsenttia, traz a esperança de quem está para chegar em forma de Menino para que não percamos a esperança; voltar a ter fé em Deus e na humanidade.

Onde está sua caixa de correio e chegam contas, lá é seu endereço, mas lar é mais que isso. E o conforto da sua casa e a segurança não estão nos móveis e na TV 4k, nem no ar condicionado, nem na internet veloz e nem no banho quente. Esses luxos pagos pelo trabalho não garantem uma vida feliz, adianta cama vazia e sem calor de amor? Ninguém casa para estar só nas batalhas e nas alegrias do dia a dia. Ninguém precisa viver um comercial de margarina, mas se vive, oxalá! Embates e dificuldades sempre existirão, pois relações humanas pedem perseverança, confiança, significado e sentido; Do contrário, a gente passa a suportar e não conviver, deixa de dividir não apenas a TV na sala, mas o riso no meio do almoço de domingo.

Quando você fecha os olhos que pensamento vêm sobre sua casa? Olha ao redor e veja se sua casa é a morada que gostas de estar e pretende voltar diariamente? Se não consegues lembrar com um sorriso e há tristeza no olhar, é sinal que deixou de ser refúgio, conforto. E não falo só de materialismo. A gente habita ou mora junto, deixou de estar conectado com toda a parafernália tecnológica que usamos. Quem nunca passou Whats up avisando que o almoço está pronto ao invés de ir junto de alguém? E a rotina tem seu quê de charme, aquela rede ou poltrona preferida, aquele jeito de casa na ausência e a presença daquele que contigo constrói.

Lar é compromisso construído para que não desmorone. Parece ser simples, mas não é porque temos a mania de olhar a grama do vizinho, a vida nas redes sociais parece ser mais bonita e animada, enquanto isso a gente nem compra plantas, não cuida do cãozinho, não arruma a almofada e nem escuta a música que gosta. Dê atenção a você, aquilo que importa e precisa. Faça algo que comungue contigo.

Há muito de nós que desejamos o lar...
Há muito de nós que vimos a casa virá residência...
Mas todos desejamos o porto seguro.
Na janela a gente só não pode deixar a vida passar.
Nana BGB – de girassóis, violetas e cactos.
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*DIANA BARBOSA GOMES BRAGA, mulher, esposa, amiga e acima de tudo poeta.



sexta-feira, 23 de novembro de 2018





O PRIMEIRO CARRO DE FORTALEZA: MEMÓRIAS DE UM AUTOMÓVEL

Saímos aos pinotes, com uma barulheira infernal e soltando rolos de fumaça pelo pontiagudo calçamento da antiga Fortaleza. Quase púnhamos as tripas pela boca. As janelas enchiam-se de gente curiosa. Grupos formavam-se às esquinas. Corriam pessoas de toda parte. De repente, em frente ao Clube Iracema, o carro empacou, enguiçado, bufando. Rafael não lhe deu jeito. John Bernard sujou-se todo e nada conseguiu. Fui até à Praça do Livramento e arranjei, com um velhote que vendia água, dois jumentos que puxaram o automóvel até a garagem, com uns moleques que gritavam atrás: “Moço, me dá um tostão pra ajudar a empurrar”. (Gustavo Barroso).



Recordo que custei a polpuda quantia de 8:000$000 (oito contos de Réis). Mesmo sendo de segunda mão, fui importado dos Estados Unidos da América, em 1909, pelos senhores Meton de Alencar e Júlio Pinto, respectivamente sogro e genro, donos que eram da Empresa Auto Transporte Ltda.
A viagem no vapor de nome “Cearense” se deu sem nenhum alarde, tendo durado cerca de quinze longos dias entre maresias, sargaços e oxidações. Cheguei silencioso e sem funcionar adequadamente. Vinha eu para fazer história e nem sabia, pois iria trafegar de maneira um tanto precária, mas garbosa pelas únicas três avenidas de Fortaleza, onde não havia sinalizações e o que mais se via circular por elas eram bondes puxados a burros. Eram elas as Avenidas do Imperador, Dom Manoel e Duque de Caxias.
Relembro que meu trajeto entre a Alfândega, onde aportou o cargueiro “Cearense”, até às portas do Cassino Cearense (Cine Júlio Pinto), situado à Rua Major Facundo, número 64, se deu de maneira inusitada, uma vez que, sem funcionar, tive que ser rebocado por um jumento. E como somente minha estridente buzina funcionava juntamente aos meus faroletes, a população de então cismou porque cismou que eu era um veículo mal-assombrado.
Necessários foram vários dias até destrincharem o meu funcionamento. Depois de inúmeras tentativas, o dinamarquês John Petter Bernard e o Dr. Meireles conseguiram pôr-me em funcionamento. Entretanto, mal percorridos alguns metros dei a estancar, empacando de vez na Rua Formosa, bem em frente ao Clube Iracema, hoje sede da Secretaria de Finanças. Novo jumento e novo reboque até à frente do Cassino Cearense.
Como minhas andanças chamavam muita a atenção dos menos avisados, passaram a me testar durante a madrugada, onde quase sempre “dava o prego”, sendo necessário um desmancho quase que total, isso porque meu motor situava-se embaixo da lataria. A coisa era tão séria que em certa feita num desses desmontes lá pelas bandas da estrada de Messejana perderam a tampa do radiador. Fazer o quê se não havia loja de peças de reposição? A saída encontrada por Júlio Pinto foi, no mínimo, inusitada: anunciou nos jornais e outros periódicos da época que gratificaria generosamente quem encontrasse a tal tampa. O fato por si só gerou curiosidade da galhofa cearense e uma série de pessoas passou a procurar pela bendita, estrada de Messejana afora. Porém, como ninguém sabia a forma nem o tamanho da mesma, de tudo foi trazido às retinas incrédulas de Júlio Pinto e Meton de Alencar, sendo a mais curiosa delas um camburão de zinco totalmente enferrujado. Na encontrada a danada em questão, Peter Bernard improvisou uma. Ou seja, já se faziam, àquela época, as famosas gambiarras tão comuns nos dias de hoje.
E por tantos ajustes passei que praticamente fiquei irreconhecível. De tanto rodar pelas toscas ruas de uma Fortaleza descalça de asfalto, meus pneus se desgastaram. Também, não era para menos: até nos trilhos dos bondes me puseram a circular, tudo isso porque as bitolas dos mesmos eram exatamente iguais às de minhas rodas.
Resultado: nova troca e novas gambiarras. Sem pneus sobressalentes, os de borracha foram substituídos por rodas de madeira com aros de ferro, o que devidamente não foi bem aceito pelos transeuntes de então. Porém, continuei rodando nada incólume, diga-se de passagem. Mas se engana quem crê que percorri apenas as ruas daquela velha e saudosa Fortaleza. Não! Além de ir até Messejana, estrada do Arronches e seus arrabaldes, fui até Canindé durante suas tradicionais festas religiosas. Entretanto, é preciso esclarecer que semelhante viagem de mais de 100 quilômetros foi feita de maneira paulatina. Onde primeiro fui de trem até a cidade de Itapiúna e dali em diante por uma estrada carroçal.
Circulei, pois, por anos a fio. Sendo protagonista também do primeiro acidente automobilístico da cidade. Em uma barbeiragem, Rafael Dias Marques, na tentativa de desviar de transeunte, deu de frente com um muro, deixando apenas prejuízos materiais.












[1] RAMBLER: Em livre tradução do russo significa guerreiro ilustre. O Rambler 1909 – primeiro carro a possuir roda sobressalente – fabricado pela empresa americana Thomas Jeffery & Company.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

O PRIMEIRO RÁDIO DO CEARÁ - Túlio Monteiro*

Nós somos as cantoras do rádio,
levamos a vida a cantar.
De noite embalamos teu sono,
de manhã nós vamos te acordar.
Nós somos as cantoras do rádio,
nossas canções cruzando o espaço azul
vão reunindo num grande abraço
corações de Norte a Sul.

Carmen Miranda

1922, ano do centenário da Independência do Brasil e da Semana de Arte Moderna em São Paulo. Aqui pelo Ceará as comemorações foram bem singelas. Àquela época, Fortaleza era uma provinciana cidade de mais ou menos cem mil habitantes, isso por conta da anexação dos então municípios de Porongaba e Messejana – sim hoje são dois bairros de nossa capital, porém, há quase 100 anos, eram cidades. (Quem diria! Aquela província, hoje, é a sexta mais caótica e maior capital do País com uma população de 4.074.730! Milhões de almas logo ao amanhecer, a perambular, a trabalhar, dia após dia a testemunhar arrebóis matutinos e vespertinos a alaranjar nossos céus. Quem adivinharia?!)

Como já era de se imaginar, a Semana de Arte obteve um sucesso estrondoso em São Paulo, só perdendo em realização de eventos para as comemorações da Independência que ocorreram na então capital do Brasil, o Rio de Janeiro, por volta dos dias que antecederam e precederam o 15 de novembro de 1922. Aqui as comemorações foram modestas. Era tão pequenina a Fortaleza Descalça de Otacílio de Azevedo. A movimentação ficou por conta de muitos bondes elétricos lotados e o desfilar de dezenas de carros, alimentados a óleo diesel, por uma cidade quase totalmente livre de pavimentações, restavam-lhes amargurar pedras tocas das vias. Entre os quais estava um Ranbler vermelho de 1909, movido a diesel, o primeiro carro a circular em Fortaleza. e seu dono - vestido de preto - Clóvis Meton de Alencar.

Clóvis Meton de Alencar, um dos mais destemidos empreendedores de sua época, haja vista que dele foram as iniciativas de trazer para Fortaleza o primeiro automóvel, o primeiro cinema, a primeira fábrica de cimento e pregos[1]. Desbravador e homem de boa fortuna, Meton de Alencar, após visita à casa do então Ministro da Relações Exteriores, o também cearense Francisco Sá, nosso engenheiro metido a Professor Pardal, se encantou com um rádio que transmitia por ondas curtas as notícias de várias partes do Mundo. Corria o mês de setembro na capital Rio de Janeiro. Não deu outra: imediatamente Meton passou a procurar, infrutiferamente, peças para a construção daquele que viria a ser não só o primeiro rádio de Fortaleza, mas também o primeiro a ser construído no Brasil, segundo fontes seguras.

Para a realização de mais um ousado projeto, nosso Guglielmo Marconi percorreu as casas comerciais do Rio em busca da matéria-prima exigida no manual de instruções em forma de brochura com desenhos feitos à base de crayons de Conté, que ensinava como fazer um aparelho receptor para ouvir, direto de Paris, as irradiações emanadas da Torre Eiffel. Tamanha insistência e utilizando-se da lei de tentativas e acertos, Meton logrou êxito em seu dedicado planejamento, construindo de maneira caseira as bobinas, condensadores, soquetes, resistências e baterias. Era rudimentar a geringonça, mas que funcionava, funcionava.



Unidas as peças de fabricação própria às lâmpadas receptora 216 – A, de fabricação da “West Eletric”, empresa responsável pelas transmissões no Rio de Janeiro do alto do Corcovado – ainda sem o Cristo – das ondas curtas de alcance avaliadas entre 5.000 e 10.000 quilômetros, Meton de Alencar logrou êxito na fabricação de seu aparelho que fora montado em um pedaço de madeira e possuía 30cm de comprimento por 25cm de altura. Em quatro de outubro de 1922, diante de uma plateia compostas por amigos, ele sintonizou a Rádio Clube do Brasil, com sede no Rio de Janeiro, vindo a se tornar o primeiro homem a captar ondas de rádio no Norte e Nordeste brasileiros.

Hoje, Fortaleza conta com um sem número de rádios AM e FM, tendo como predecessora a velha e hoje extinta Ceará Rádio Clube, mais conhecida como PRE-9. Inaugurada que foi por outro mecenas, o libanês naturalizado cearense, João Demétrio Dummar, em 16 de agosto de 1932, sob o prefixo PRAT.

Fico por aqui na certeza de que trouxe à baila mais uma curiosidade sobre desbravadores e homens de visão que o Ceará já produziu e teima em produzir; esperando que vocês, nobres leitores, nobres leitoras, tenham realmente gostado das informações aqui contidas. Um abraço e até a próxima.

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Túlio Monteiro. Escritor, crítico literário e metido a historiador. Fortaleza, novembro de 2018. Antigas válvulas de rádio. Era preciso aquecer eletricamente o aparelho para só depois de alguns minutos o mesmo passar a funcionar.
[1] Para saber mais favor consultar: em Túlio Monteiro

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

O CEARÁ MOLEQUE DE MISTER HULL: SER OU NÃO SER BAITOLA - Túlio Monteiro

No Maranhão existe um termo exclusivo para designar os rapazes alegres, qualira. Dizem que a origem desse designativo, vem da época de sua colonização em que a fina burguesia e a alta sociedade introduziam a música clássica no ensino de seus herdeiros ainda imberbes. Entre os instrumentos da orquestra, a Lira tem um de porte mais avantajado. Em razão dessa sua forma e tamanho, dizem que os moçoilos optantes por tal peça de cameratas e bandas enfrentavam grande dificuldade ao se deslocarem, pois tinham de apoiar o peso do instrumento na lateral da região glútea, acarretando com isso um arrebitado "rebolado" e ao testemunhar a cena todos gritavam "Aí vai um homem (?) com a lira". Tal frase por redução virou co'alira, e depois, pela associação de arrebitado rebolado ao  andar de certos rapazes, virou um qualificativo, para muitos, pejorativo e de duplo sentido: qualira!
Sir Francis Reginald Hull
Mas qualira é um termo exclusivo lá do Maranhão. No Ceará, há também um termo bem original para qualificar tais rapazes alegres, o famoso "baitola". Sua origem está associada a um termo comum no meio ferroviário: "bitola", que significa o espaço paralelo que existe entre os trilhos, como forma de abalizar o caminhar das rodas de ferro fundido dos trens que ainda hoje circulam País afora. É, como se pode constatar, um termo bem técnico, porém, no Estado do Ceará, terra da molecagem que um dia vaiou o Sol em plena Praça do Ferreira por conta de o mesmo impedir que uma deliciosa chuva caísse nas Terras de Iracema, o vocábulo ganhou vida em pleno início do século 20 e tem a ver com um ilustre personagem cujo nome denomina uma das principais avenidas da capital alencarina. A história de baitola vem, portanto, de longas datas. Para buscá-la, vamos ao ano de 1892, início da Primeira República e período de vasto crescimento do Brasil.

Nessa época, em São Paulo, a empresa britânica de trens “São Paulo Railway” desembarcara suas primeiras levas de materiais pesados para a construção de uma das primeiras ferrovias brasileiras: A Santos / Jundiaí. Para amealhar mão-de-obra nativa, alguns técnicos ingleses foram enviados à Terra da Garoa com o intuito de executarem levantamentos topográficos e de localização no alto da Serra do Mar, por onde ainda hoje trafegam trens de carga ou de passageiros.

Em um desses primeiros desembarques dos vapores do porto de Santos, chegou uma sisuda, porém alegre figura inglesa de porte altivo e ferocidade sem fim no que dizia respeito a ser duro com seus comandados. Era Sir Francis Reginald Hull. Alto, forte, loiro e de modos para lá de refinados, Hull logo caiu nas graças de seus superiores por conta de seu modo britânico de conduzir as levas de operários que se amontoavam Serra do Mar afora.

Mister Hull permaneceu em São Paulo por mais ou menos três anos, onde depois de promovido ao cargo de Chefe da Terceira Secção executou brilhantemente três túneis, três viadutos compostos por pesadas estruturas metálicas, viadutos de pedra e cimento, além de mais de trinta eclusas abobadas. Emérito engenheiro, Reginald Hull após o término das obras em questão voltou para a Inglaterra, seu torrão natal. De 1895 a 1913 nada mais se soube dele, que, por certo, deve ter dado continuidade à sua vencedora carreira de engenharia civil.
Trem movido a vapor na Serra do Mar, São Paulo, início do século 20

Mas eis que, em 1913, desembarca no Porto do Mucuripe para trabalhar na Estrada de Ferro de Baturité – EFB, o nosso aclamado Francis Reginald Hull. Era uma época próspera para o meio ferroviário brasileiro e bem particularmente para o Ceará. Fundada em 5 de março de 1870, tendo como sócios o senador Tomás Pompeu de Sousa Brasil, Gonçalo Batista Vieira (Barão de Aquiraz), o engenheiro civil José Pompeu de Albuquerque Cavalcante, Joaquim da Cunha Freire (Barão de Ibiapaba) e o negociante inglês Henrique Brocklehurst, a EBP floresceu em berço esplêndido tendo como objetivo maior o escoamento da produção serrana de Pacatuba e Maranguape para o porto de Fortaleza. Posteriormente, após a assinatura do contrato com o Governo Provincial do Estado, o projeto, agora uma realidade, passou a ter como ponto final – ou inicial – a cidade de Baturité, à época a maior produtora de café do Ceará.

Foi então que Henrique Brocklehurst decidiu por mandar vir da Inglaterra para ampliar os domínios da empresa nosso já conhecido Mister Hull, que por aqui chegou com a pompa de sempre sendo recebido com honras de chefe de estado no porto do Mucuripe, como já dissemos no ano da graça de 1913.

Sempre portando um monóculo tipo “pinci-nez” e garbosamente bem-vestido, nosso personagem de trejeitos um tanto hilários chegou chegando. Vinha para pôr ordem na galhofa operária do Ceará, que costumava trabalhar, mas não sem antes se fartarem de generosas doses de cumbe. Pronto! Estava armado o circo. Um belo qualira, no dizer maranhense, somado à molecagem do cearense. Prato cheio para o que iremos narrar a seguir. E rio-me!

Apesar de seus trejeitos um tanto delicados, Hull, como já afirmamos, era enérgico quando o assunto era trabalho braçal. Não à toa foi chamado às pressas para colocar ordem na canalha. Trabalhadores, sim, porém sinceros admiradores da esculhambação tão cultuada na Terra de Alencar.

Apesar do exacerbado calor, verdadeira canícula, Hull, para se diferenciar, vestia-se como um lorde inglês, e como uma lorde inglês não se deixou abater pela molecagem que o cercava. Impôs ordem e deu um salto enorme para progresso local e contribuiu, de modo involuntário, para a fama do sarcasmo cearense. Por onde passava dando ordens aos seus comandados, era secretamente achincalhado. O motivo: seu português peculiar com entonações anglo-saxônicas era de morte!

Era enérgico o inglês! E se via um de seus comandados executando de maneira errada seus afazeres não se detinha às limitações de seu português anglófilo e imperava aos seus capatazes e comandados:

– Batam nessa “baitôla” corretamente, bando de incapazes! Querem ver um trem descarrilar?!

Sua insistência e preocupação com a bitola ["baitôla"] dos trilhos eram tantas que ao vê-lo se aproximar os da lida gritavam: "Lá vem o baitola! Olha o baitola!"...
 
Sorrio agora! Imaginando como devem ter sido engraçados os embates entre o sir "Baitôla" inglês e a Plebe cearense. Esperando, sobremaneira, que tenhamos vencido os certames! Né, não?!

Mas, como tudo tem começo e fim, Hull teve novamente de partir das plagas tupiniquins para voltar às suas origens inglesas. No entanto, sua paixão por terras brasileiras, principalmente a cearense, já estava a lhe atiçar o sangue e a libido.

No ano de 1921, ele desembarcou mais uma vez no Brasil, desta vez em terras baianas, Sim! Terras de negros retintos e, claro... deixemos para lá. Risos.

Desta vez como vice-cônsul da cidade Ilhéus e, logo após, superintendente geral da “The State of Bahia South Western Railway Company Limited”, onde desenvolveu um intenso trabalho no projeto e execução da construção da ferrovia que uniu Ilhéus à Vitória da Conquista e lhe valeu o reconhecimento público e participar em um romance de Jorge Amado no personagem do “coronel inglês”.

No entanto, Hull já havia adotado o Ceará como segundo torrão. Para lá retornando aos 6 de maio de 1933, desta vez definitivamente, como superintendente da “The Ceará Tramway Light & Power Co. Ltd.”, dividindo seu tempo com atividades de vice-cônsul do governo britânico no Ceará. Faleceu em 1951, no estado que sempre amou, hoje dando nome a uma importante avenida de Fortaleza.

Que o Ceará moleque nunca deixe de vingar.

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Túlio Monteiro, escritor, crítico literário e metido a memorialista. Novembro de 2018.





terça-feira, 13 de novembro de 2018

A INCRÍVEL TRAJETÓRIA DA FONTE DOS CAVALINHOS – NOSSA FONTANA DI TREVI - Túlio Monteiro



Hoje tratarei de um dos cartões postais mais antigos e simbólicos da cidade de Fortaleza: O Chafariz da Lagoinha. Peregrino como todos os monumentos do Ceará o são, tal edificação aportou em Fortaleza no ano de 1929 vindo da Alemanha encomendado que fora à empresa Herms Stoltz pelo então prefeito Álvaro Weyne (1881 – 1963).

Escolhida através de um catálogo, a estrutura era parte do projeto político de Weyne, então conhecido como o “prefeito das flores”, isso por conta de sua tentativa de embelezar a Fortaleza da Bélle-époque, que já possuía energia elétrica, mas ainda era abundantemente iluminada por combustores a gás. Por conta desse fato, um engenheiro inglês foi contratado especialmente para dar luz e vida à Fonte dos Cavalinhos, como posteriormente ficou conhecida tal peça, que foi esculpida em zinco e capeada em cobre. Sua descrição é de beleza singular sendo composta por três cavalos, três sereias (nereidas), oito cabeças de leões e quatro leões em forma de nuvens jorrando água por suas bocas.

Atualmente, a fonte se encontra instalada, desde 1984, na Praça Murilo Borges, mais conhecida como Praça do BNB, ode hoje fica a sede da Justiça Federal. Entretanto, sua estrutura está comprometida no seu todo. Oxidadas, as partes douradas contraíram tons verde-acinzentados, sem contar as visíveis marcas deixadas por pichadores inescrupulosos.

Outrossim, a nossa fonte peregrina já passeou pelos quatro cantos da cidade. Uma vez desmontada no início dos anos 1960, foi parar na Praça Clóvis Bevilacqua, mais conhecida como Praça do Direito, onde permaneceu até a metade da década, uma vez que, em 1965, foi requisitada pelo então Reitor da Universidade Federal do Ceará, Antônio Martins Filho. Mais uma vez desmontada e sendo sucateada, tornou-se então a Fonte dos Cavalinhos, sendo reerguida nos cruzamentos da Avenida da Universidade com Avenida 13 de Maio. Por lá ficou entre os anos de 1965 e 1966, onde os três cavalos foram devidamente batizados pelos heroicos universitários de então. Aos cavalinhos a fina flor da molecagem cearense – Sim! Aquela mesma que já vaiou o Sol – deu os epítetos de três dos mais fortes coronéis dos tempos de ditadura militar pesada. Passaram a se chamar então: Adauto Bezerra, César Cals e Virgílio Távora. A galhofa era grande e não faltavam aventureiros para jogar no interior da mesma, algumas moedas como a desejar sonhos inatingíveis.

Mas, como disse, nossa amiga fonte teve seus dias contados no cruzamento das aludidas avenidas, ainda descalças de suas sandálias de asfalto. Novamente desmontada a golpes de picareta, ela foi mutilada e parcialmente destruída sendo jogada às favas em um velho depósito da Superintendência Municipal de Obras e Viação (SUMOV), localizado na Avenida Sargento Hermínio, artéria que se localiza ironicamente no Bairro Álvaro Weyne. Por lá amargando um pungente ostracismo de quase duas décadas.

Em 1979, uma comissão nomeada pela prefeitura de Fortaleza e composta por nomes de peso como Ednardo Weyne, Zenon Barreto, Nirez, Honor Torres, Luciano Bandeira e Gilberto Brito, tentou, em vão, recuperar a aludida peça. Foram meses de análises químicas e estudos antropológicos. Tudo em vão. Tão depenada estava a coitada, que nada restou a não ser removê-la para o pátio Museu Histórico e Antropológico do Ceará, onde hoje funciona o Museu da Imagem e do Som (MIS). Mais uma década e meia de esquecimento.

O tempo avançou lento, indelével e inexorável como costuma ser. Até que, chegado o ano de 1983, quando após inúmeras tentativas frustradas já haviam sido feitas, o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) decidiu pela recuperação – dentro do possível – do Chafariz da Lagoinha. Sua reinauguração com a pompa que lhe é merecida ocorreu em 20 de julho de 1984, quando o Brasil efervescia em suas Diretas Já! e um sentimento de nativismo tomava conta de um País ávido por mudanças, coisa que não vemos mais hoje em dia.

Estava de volta à “vida”, pelo menos em parte, a sofrida fonte que em seus tempos áureos – anos 1930 – brilhava na Praça da Lagoinha como era e é mais conhecida a Praça Capistrano de Abreu, encantando gerações que pelas plagas da cidade de Alencar não mais caminham. No entanto, o descaso e abandono das autoridades competentes mais uma vez estão pondo em risco as estruturas quase seculares de nossa Fontana di Trevi. Está abandonado novamente o adorável monumento. Pelos seus canais de distribuição de água e sereias iluminadas já não corre a energia elétrica necessária ao seu embelezamento. Estando a mesma a padecer com seus vazamentos e oxidações desde o ano de 2013. Esperemos, pois, que as autoridades que hoje constroem VLT’s e viadutos Fortaleza afora incorporem o espírito inovador de Álvaro Weyne, devolvendo ao velho chafariz a beleza de outrora.

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Túlio Monteiro, escritor, crítico literário e metido a historiador, Fortaleza, novembro de 2018.

sábado, 10 de novembro de 2018

AS PALETAS E PINCÉIS DE FRANCISCO IVO: DAS MARÉS DE MORRO À SÃO JOÃO DEL- REY – TERRA DE TANCREDO NEVES - Túlio Monteiro


Afirmar categoricamente que todo cearense – porque não dizer todo nordestino – além de um forte é, antes de tudo, um artista nato não será jamais um exagero. No caso específico do fortalezense Francisco Ivo, essa característica se aplica sobremaneira.

Em uma dessas felizes coincidências, os Céus permitiram a Francisco Ivo trilhar o caminho da sua formação acadêmica em Geologia pela Universidade de Fortaleza – UNIFOR, lado a lado ao seu dom natural: o da pintura amplamente inspirada por Raimundo Cela e Antônio Bandeira, com pinceladas vigorosas a passear pelo Impressionismo e Pós-Impressionismo. Tudo isso sem contar sua vasta navegação pelos portos seguros de José Reis de Carvalho, que aqui pelo Brasil esteve percorrendo a Estrada Real entre 1859 a 1861 a retratar as belezas ímpares desta terra que, em se plantando, de tudo dá.

Desde garoto, quando zanzava lépido pelas ruas da Gentilândia e pôde frequentar com grande sapiência as exposições do MAUC – Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, por lá constatando e confirmando portentosas obras de artistas cearenses e estrangeiros como Cela, Bandeira, Jean Pierre-Chabloz, Chico da Silva e Sinhá D´Amora, Ivo pode-se julgar um ser abençoado.

Artista plástico com um estilo relativamente diferente, ele costuma primeiro fotografar suas paisagens para, após isso, transformá-las em pinturas que vão desde o mais cultuado Impressionismo, passando por um Realismo absoluto até chegar ao estilo Naif que o coroa e prevalece em sua obra.

Na pintura-poética de Francisco Ivo há lugar e destaque para a fauna e a flora brasileiras, bem como uma singular retratação do caju e da caatinga nordestina. Tudo isso recheado com potentes pinceladas que demarcam e embelezam um multifacetado universo de cores robustas e estéticas.

E esta estética alcançada por Ivo nas pinturas só foi possível graças à sua formação como geólogo, quando teve contato com o mundo da cristalografia, ciência que estuda as leis que regem a formação dos minerais. Onde seus quadros são a união perfeita do fascínio que o artista possui pelo estudo da terra, pelas artes e pelo Rio de Janeiro, onde mora.

Neste de 2019, é chegada a hora então dos pincéis e paletas de Francisco Ivo alçarem novos voos. Desta vez seu destino é o histórico ex-Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, atualmente conhecido como cidade de São João del-Rei, terra de Tancredo Neves.

Durante todo o mês de maio poderão ser apreciados 32 quadros em óleo sobre tela. Todos de autoria de Francisco Ivo. A mostra ocorrerá no Museu Regional de São João del-Rei e contará com o apoio do Ibram – Instituto Brasileiro de Museus.

Saúdo, pois, as obras desse cearense que decidiu por romper fronteiras nacionais e internacionais. Levando Brasil e Mundo afora sua deliciosa e irrequieta arte pictórica. Confirmando a máxima de que sonhos podem virar realidade, sejam eles de que tamanho venham e possam ser.

Sorte a dos cearenses de ter nascido nas terras de Alencar mais um artista de mão cheia. Mais um desses contemporâneos que despontam vez por outra para embelezar nosso Planeta com cores, nuanças e tessituras indivisíveis por dois. Salve, Francisco Ivo!



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Túlio Monteiro. Escritor, crítico literário. Diretor da Galeria Antonio Bandeira – Prefeitura Municipal de Fortaleza – (2000 / 2004).

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Poesia na Bagagem: o cancioneiro do esteta Carlos Gildemar Pontes - TÚLIO MONTEIRO*

livro
PARTE 1


DAS COISAS DE UMA ANTOLOGIA



Antes de identificarmos o conceito de antologia poética, torna-se necessário desmembrar o termo em si. Original e etimologicamente falando, o conceito de antologia provem do grego anthos, onde seu significado seria “coleção de flores”. Algo assim bem diferente no que se refere ao termo em relação à poesia.

Contudo, a palavra originada do grego tem um importante recurso em seu significado: a palavra “coleção”. Ou seja, do ponto vista artístico literário, antologia seria um conjunto, uma coleção formada a partir de diversas obras, diversos livros, diversas criações. Onde o ponto estético nada mais é que explorar uma mesma temática de uma mesma autoria ou de um determinado período. Centrando forças em uma raiz similar em todas as produções de uma determinada coleção, ou melhor, coletânea. Ou como diz Adriano Espínola: “há, em uma antologia, uma variedade de tons que oscila da indignação à ironia, da gravidade à leveza, da alegria à tristeza. Tudo urdido com naturalidade e maestria”.

Atentando para uma linha do tempo, Meleágro, um jovem poeta grego foi um dos primeiros executores do que se tem hoje como antologia poética, onde, àquela época, as sentenças definiam os poetas de então como “silvas”, “florilégios” ou colecionadores de “flores”. Estranho, não?! Por certo. Entretanto, a partir do século18 nossa aludida locução passou a ter sentido de “coleção”.

E é exatamente na área da botânica que o termo “antologia” começa a derivar a palavra coleção. Isso porque, nesta área científica, a sentença remete a uma “coleção” de flores, violetas...acácias. Senão, vejamos o Hai-Cai que segue e é de autoria do escritor Carlos Gildemar Pontes, poeta de obra singular que será mais aprofundadamente analisado ao decorrer do presente estudo literário:



HAI CAI

No vaso partido
As flores perdem as cores
Perdem o sentido.



No que abrange a Literatura, uma antologia literária, em prosa ou verso, é formada a partir de uma coleção de textos escolhidos a esmero, seja por um determinado autor ou crítico literário, sendo essa obra organizada em um volume único ou posteriormente em novos tomos. Os poemas ou contos escolhidos se comportam em uma temática comum, remetendo-se a um determinado autor ou período histórico; onde um exemplo bastante seguido na atualidade está na junção de poemas, contos ou crônicas temporais para formatar um determinado apanhado de trabalhos literários. Em um passado próximo, Carlos Drummond de Andrade nos presenteou com um sem número de antologias quer de sua autoria ou da lavra de outros poetas seus contemporâneos. Já na atualidade temos um Luiz Fernando Veríssimo como exponencial que é reconhecido por seus muitos livros de antologias.

Apesar das inúmeras coletâneas de contos e crônicas existentes, é na poesia que as antologias se proliferam com voracidade ímpar. Selecionado, como já dissemos, por um determinado autor ou estudioso da Literatura, elas seguem um critério arbitral e individual. Uma antologia poética, no entanto, também pode apresentar uma coletânea de autores e não somente os poemas de um só. Para que essa junção se dê, basta que ele ou eles abordem uma temática comum ou relativas a um mesmo período de produção. Um exemplo clássico a ser dado são os dos movimentos literários ocorridos através de determinadas gerações. Leiam-se Romantismo, Simbolismo, Realismo e Concretismo para citarmos apenas alguns. A seguir, um exemplo de versos Concretistas do poeta Carlos Gildemar Pontes:

SERTANEJO



No gozo de tuas mãos sangrentas
Calejadas de enxada
E apertadas pela fome
Faz desabar
                 na terra
                            toda pancada
                                               derivada
                                                           de
                                                             emoção.
Nas
      ruas
             pisadas

Nos campos sorvidos
                                 está a sepultura
                                                        do
                                                           teu
                                                               suor.

Apesar de ser chamada de antologia mesmo sem haver comentários do compilador, o trabalho fica mais completo se ele o fizer, de forma a contextualizar os textos, classificando-os de acordo com seu gênero ou tema, e defender suas opções de escolha – isso pode ser feito, inclusive, em um prefácio, notas ou comentários que antecedam cada parte da antologia selecionada. Senão, vejamos o que diz o escritor e ensaísta Adriano Espínola na quarta de capa da coletânea Poesia na bagagem, do escritor e professor cearense Carlos Gildemar Pontes:

Em boa hora, Carlos Gildemar Pontes reúne seus melhores poemas neste volume denominado Poesia na bagagem. De pronto, o que percebemos é a variedade rítmica, formal e temática dos textos. O poeta aqui vai do haicai ao poema longo e confessional; dos versos rimados aos brancos; do enfoque social ao íntimo; da natureza à feitura do próprio poema. Também há, nesta antologia, uma variedade de tons, que oscila da indignação à ironia, da gravidade à leveza, da alegria à tristeza. Tudo urdido com naturalidade e maestria.



Mas para que servem as antologias além de guardarem em seus bojos imprescindíveis e caras informações sobre determinado autor, autores ou épocas? Simples: eles servem para abrigar os textos mais importantes de determinadas gerações de pensadores, de estetas...de sonhadores!

Para esse fim e para o fim pedagógico, as antologias despontam de árduos trabalhos de pesquisa para se tornarem eternas. Além disso, são importantes para orientar corretamente as análises de obras de determinado escritor caso ele tenha produzido muitas obras, ou exista uma carência com relação ao tempo disponível para estudá-lo.

Apesar de suas vantagens, acredita-se que as antologias possam ser um obstáculo à leitura completa dos textos literários, ou seja, estudam-se as antologias, mas não se busca conhecer a obra integralmente. É importante, por isso, que os estudantes de Literatura que usam antologias para se posicionar quanto a um determinado autor ou estilo literário, não ignorem as obras por completo, e as respeitem. Pode-se dizer que, vista dessa forma, a antologia servirá como um guia para o leitor chegar até a obra integral. 


PARTE 2


POESIA NA BAGAGEM: O CANCIONEIRO DO ESTETA CARLOS GILDEMAR PONTES


A poesia é a síntese do Absoluto. Parte indissolúvel da sua beleza. E o Absoluto é o todo, a completude, o elo das somas, o grau e a integridade da perfeição. Mas, como a poesia pode ser síntese de algo acabado, se o conceito de absoluto não está pronto, neste nível de compreensão das formas e das subjetividades? Simples, a poesia é o caminho da inteligibilidade do cosmos. É a harmonia em movimento, uma passagem que permite seres, como nós, atingirem o além da compreensão conceitual no nosso atual estágio de permanência, nesta evolução. CARLOS GILDEMAR PONTES

E eis que veio à luz nesse 2018 de intempéries, Poesia na bagagem, do escritor, poeta e ensaísta Carlos Gildemar Pontes. Nada mais salutar que poesia para os dias sombrios que o Brasil assiste, atônito, com seus habitantes a não crerem que o retrocesso que está acontecendo é verdadeiro, real e nada saudável. Ministérios serão extintos e a Cultura – prima pobre dos podres poderes – ficará à míngua, a mendigar, porta em porta, livros, filmes, peças teatrais e afins. Sorte a nossa termos seres especiais como Gildemar, que luta com unhas, dentes e golpes de artes marciais – sim! Além de poeta o homem é faixa preta de karatê –, para que osversoslivres ou metrificados não percam a ternura jamais.

Acompanho a escrita do nosso poeta desde os tempos de acadêmico do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará, quanto em 1984 ele lançou Lesco-lesco, a lida cotidiana. Recordo da estreia de Gildemar com um certo carinho e saudade, visto que eu contava apenas 19 anos de idade e era recém-chegado ao Bosque de Letras do Benfica. O lançamento, que na verdade não existiu de fato, pois à época e como eu ele ainda era um iniciante na feitura e costura da poesia, foi, no mínimo, diferente. Em tempos de “filipetas” e portas de banheiro ou de salas de aula, Gildemar saiu Bosque afora a escrever à base de pincel atômico a frase: “você sabe o que é lesco-lesco?”. Se chocou ou agiu de maneira interpelativa em outros pares não sei. No entanto, por onde quer que eu caminhasse, fosse indo às salas de aula, fosse nos banheiros, lá estava a pergunta a me rodear. Não teve jeito, corri ao velho “Aurélio” para saber o que diabos significa o termo em questão. Simples assim: trabalho pesado e diário; a dura faina de todos os dias para uns, ou ato sexual para os mais afoitos. Ri-me como ainda rio. Com vocês Lesco-lesco:


LESCO-LESCO

Qualquer coisa
Todo dia
Lesco-Lesco
Quem diria!

Qualquer coisa
Monstruosa
Lesco-Lesco
Em verso e prosa.

Qualquer coisa
Enigmática
Lesco-Lesco
Na gramática.

Qualquer coisa
Faz sentido
Lesco-Lesco
Meu amigo.

Toda coisa
Qualquer
Lesco-Lesco
Toda Poesia.

Como bom poema, este acima não especifica o todo pelas partes, deixando ao nobre ledor a análise dos versos em questão.

E Carlos Gildemar Pontes foi amadurecendo sua poesia como fruta saborosa tirada do pé. Como os bons vinhos, sua estética foi se afiando com o passar dos anos, fazendo-o nos brindar com um sem número de versos, uns mais bem acabados que os outros. Poeta de mão cheia e boa tessitura, Gildemar passeia pela Última Flor do Lácio com maestria ímpar. Quer seja no campo da metrificação e escansão, quer seja o da versificação livre.

De sua pena afiada brotam pérolas como “Noite”, poesia com a qual o crítico literário Adriano Espínola em tom de sabedoria pura disse ao Gildemar que com ela ele iria até o fim do mundo. Senão, vejamos:


NOITE

eu sou a noite
canto no ouvido dos bêbados
choro no berço dos mortos
racho cabeças inocentes
eu sou noite

sou escura e cruel
sou fria e de aluguel
sou as ruas e os becos

e também os homens secos
eu noite
mordo a língua dos culpados
cuspo sangue nos mercados

cato migalhas, mesmo assim
bordo fios de cetim
noite, água a escorrer nas coxias
afogando estrelas em precipício

levando a tormenta dos sonhos
lavando a bagana dos vícios
a noite não dorme


mas adormece os loucos
os homens são poucos
são apenas sombras

sou eu a noite
e varro os vultos medonhos
transformo meninas em feras

e como-as durante as eras
sou eu a mãe das corujas
das velhas por trás das janelas
dos gatos ligados calados

nos ratos coitados tão sujos
sou hoje e amanhã serei também
depois e além
planejo as notícias do dia

sou triste sou alegria
folia amante dos boêmios
alimento dos poeta que plantei

madrugada vivo a vagar
nos palácios ou nos covis
nas cantigas de ninar
nos alentos infantis

eu sou a noite
a conspiração dos detentos
a armadilha dos sonolentos
a tentação.

E Carlos Gildemar Pontes, leitor insaciável no dizer da professora Albetânia Bezerra Alves, caminha por seu Poesia na bagagem, nos servindo uma antologia que parece não ter fim tamanha é a qualidade de seu apanhado. Seguindo-se ao Lesco-lesco, a lida cotidiana, ele nos apresenta sua criação nas décadas posteriores, onde trouxe à vida Metafísica das partes, 1991; O olhar de Narciso, 1995. Livros nos quais já podemos notar um amadurecimento maior no tocante ao fabricar de versos, coisa típica dos homens de Letras.


Basta-nos notar o tom mais severo com que Gildemar trata de sua escrita, buscando e rebuscando a palavra mais correta e amiúde na construção de seu fazer literário. Coisa que ele executa com maestria na poesia carro-chefe de Metafísica das partes, de 1991:


METAFÍSICA DAS PARTES
parte considerável de nós
traz inúmera solidão desde menino
partes de nós ficaram pelo caminho
parte de nós uma nau errante
partes do coração distante

parte considerável de nós segue firme
partes se dissipam sem destino
parte das partes não voltará
partes da parte que fica seguirão

uma das partes nada sabe
outra parte nada teme
uma não tem leme

uma outra tem uma solução
outra uma imensidão
parte do coração errante

parte considerável de nós
se aquieta se aprofunda
partes se confundem

de todas as partes repartidas
nos perdemos
de todas as partes que ficaram

nós sonhamos
à parte olhamos parados
para partes que partem
deixando partes de nós
partidas.

Eis um Gildemar centrado e concentrado naquilo que sai de seus punhos marciais. Poesia engajada com a vida e a política social do Mundo e do País. Algo assim jovial, porém eterno. Sentimento puro ante à sequidão das fogueiras e arrabaldes da vida. Poesia tem que ser viva, nunca antes ou dantes morta. Poesia, vida e Arte maior. Compromissos que nenhum poeta que se preze pode deixar de carregar em seu saco de matalotagens, pois o poeta brasileiro, assim como os nordestinos, é antes de tudo um forte.

Saúdo, então, o meu amigo Carlos Gildemar Pontes, por quem tenho orgulho de cativar a sinceridade de poder escrever o que bem me venha à telha, certo de seu crivo será essencial sempre. Saúdo, pois, Poesia na bagagem, valentemente publicado pela carioca Editora Gramma, lamentando apenas que a tiragem de 500 exemplares seja tão curta ante o preciosismo poético que carrega o livro em questão. O livro possui 300 páginas de um navegar ora por mares tranquilos, ora por mares de sargaços e bravios. Despeço-me, assim, com a poesia “Capitão-de-mar-e-rua”:
 
CAPITÃO-DE- MAR-E-RUA
cubro-me com o vento da noite
e só, durmo sob do vento o açoite
sonho com o amanhã em cama de neve

para fugir das torturas que me pousam leves
ó se o meu deus soubesse onde estou agora
me faria do alimento satisfeito

me faria sonolento do meu leito
que espero ter, antes da boa hora
mas aqui desta sarjeta, pobre e sujo

cubro-me com o manto da noite escura
e acordo com a fome, nobre amiga
esperando que ela não mais me persiga
bem queria esta no mar, ser um marujo
cair da proa e guardar no mar as amarguras.

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Túlio Monteiro - scritor, crítico literário e um apaixonado por Literatura. Fortaleza, terra de Iracema e Moacir. Novembro de 2018.




segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Das coisas da poesia cearense: Mário da Silveira – um breve texto em primeira pessoa - por Túlio Monteiro*




A riqueza de um homem.

Quando encontraram Mário da Silveira
na mortalha de suas vestimentas,
notaram que o jovem poeta,
coroado de rosas e de espinhos,
carregava consigo um de seus sonetos,
e eu, ao lê-lo, hoje,
noto que ele morreu ricamente,
tendo poesia sobre seu peito!




Tomo I

Permitam-me apresentar-me: Sou Mário da Silveira, poeta, trovador, boa gente e, sem desvelo, um boa praça gentil com as mulheres e sensível ao toque dos aromas femininos.

Nasci em Fortaleza, capital do Ceará aos dezessete de setembro de 1899, filho de Raimundo da Silveira Gomes e dona Teodolinda Matos da Silveira. Estudei no Colégio Nossa Senhora do Carmo e Instituto de Humanidades, onde fui alvo do suave vício pelas letras clássicas, o que me tornou um precoce no que se refere ao erudito. Tanto é que, mal completados dezesseis anos, publiquei pela Tipografia dos Irmãos Jatahy o livro No Silêncio da Noite: fragmentos.

Em 1919, proferi na Casa de Juvenal Galeno a conferência A Eterna Emotividade Helênica, que me tornaria conhecido em Fortaleza bem como no Rio de Janeiro, onde em breve passagem pela então capital do País, trabalhei como secretário do escritor João do Rio no Jornal A Pátria, onde cativei em forma de amizade as companhias de Ronald de Carvalho e Raul de Leoni que, à época, idealizavam o que viria a ser a Semana de Arte Moderna.

Mas, voltando à conferência na Casa de Juvenal Galeno, que foi prestigiada por um sem número de pessoas, decantei o período Helênico em seus três principais critérios bem aos moldes de um Fernando Pessoa. Onde o primeiro deles aplica-se ao conjunto da vida, no qual a temos por imperfeita por nos parecer que ela vem a falecer naquilo mesmo por que se definem, ou seja, naquilo mesmo que parece que deveria ser. Sendo assim, todo corpo é imperfeito e toda a vida é imperfeita porque dura, mas não dura para sempre. Já em relação ao prazer físico há outra imperfeição porque o envelhece o cansaço. Quem sente desta maneira a imperfeição da vida e quem assim se compara a ela própria, tem neste ideal de perfeição o Ideal Helênico, assim designado pelos gregos antigos, o povo que mais distintivamente o praticou, deixando-o como herança maior às civilizações pósteras.

Como segundo critério, destilei aos presentes a vida imperfeita no tocante à deficiência quantitativa de sua essência, quando a considero inferior a qualquer coisa ou princípio, no qual, em relação a ela, resida a superioridade dos deuses. Sendo esta inferioridade essencial no relevante ao corpo humano e seu prazer sexual. Sendo ele vil e terreno, morre e com ele também se vai o prazer dos chacras, uma vez que a juventude se esvai como fumo leve: foge, mas porque a vida seja breve, há sempre um dia a mais para quem ama. Murcha a beleza que vemos porque cresce na haste temporal. Pois só Deus e Alma que Ele criou e a Ele se assemelha são, perante à ótica do Cristianismo, a forma ideal de existência.

Crendo que havia me feito entender até o presente momento da minha explanação, findei a palestra com o terceiro Ideal helênico, que aborda a vida por imperfeita por a julgarmos, enquanto seres humanos passíveis da morte eminente, nos deixamos levar pela suprema negação de que a vida é uma absoluta imperfeição. E é deste conceito de imperfeição que nasce a forma do ideal que nos é mais familiarmente conhecida como budismo, que trata da vida como um mero substrato metafísico.

Mergulhado em meu ego um tanto elevado ante meus dezenove anos de idade, rio-me por dentro ao captar rostos estupefados diante do que ouviam. Estava eu tratando e gerenciando uma palestra sobre ideais gregos na capital cearense. Algo assim sobre a civilização helênica que foi, essencialmente, uma civilização artística que, de certa forma, negligenciou o lado prático da vida, coisa que, confesso, também me atingiu em cheio, uma vez que nunca parei quieto em um emprego sequer que fosse, doando-me, incontingente, aos versos e ao farfalhar das saias das donzelas alencarinas. Pois fazer arte é querer tornar o Mundo mais belo, isso porque a obra de arte, uma vez gerada, constitui-se em beleza objetiva e que sempre deve ser acrescentada àquelas que existem na Terra. Pois é mister haver um critério objetivo de beleza ou de perfeição. Ora, dos três critérios de perfeição só o dos gregos tem objetividade. Que impulso natural pode ter para criar obras de arte, formas que pertencem ao Mundo e à vida, quem, como o cristão, tem o mundo por pó e mal, a vida por vileza e pecado, ou quem, como o místico da Índia, tem toda a Aparência por ilusão absoluta, flor que nasceu murcha na haste da Mentira? Se a criação artística não procedesse de um instinto irreprimível nas comunidades civilizadas, nunca teria havido arte índia, nem cristã. Onde O cristão é metafisicamente feliz. Tem os olhos da alma postos naquela perfeição divina em que não há mudança nem cessação. Pesa-lhe pouco a vileza do mundo: viver e ver são para ele um mal-estar transitório. Ao índio nada dói o haver Mundo; volta para o lado o rosto, e contempla em êxtase o Todo a que nem o Nada falta. É, o índico, metafisicamente feliz também.

Findada a palestra, os paparicos de costume me foram dados. Ciente de que a maioria dos presentes nada entendeu, senti meu alter-ego massageado. Coisas de um poeta insano, com seu um metro e oitenta de altura e peso bem distribuído. Cativador de corações femininos que tremem em seus balouçantes vestidos esvoaçados. Tendo por companhia minha eterna bengala, usada apenas como acessório de minha beleza ímpar, despedi-me de meu anfitrião, o poeta Juvenal Galeno e dirigi-me à Praça do boticário Ferreira. É domingo e, como de costume, vestes sacerdotais farfalham abundantes por aquele logradouro. Hora dos flertes às donzelas mais atiradas, ou não! Pena mesmo, como disse, ser tão ligado ao Ideal helênico que negligenciei o lado capital da vida, uma vez que só possuo dos paletós: um no corpo e outro no varal. Rio-me! Mas vou à caça.


Tomo II
É chegado o ano de 1920. Meus neurônios e hormônios joviais não me deixam mais quieto. Preciso e necessito trilhar novos horizontes. Conhecer novas plagas e descobrir novos corpos e olhos femininos. Despeço-me de pai e mãe e embarco em um vapor marítimo rumo à capital do Brasil. Rio de Janeiro, aqui vou eu. Por promessa trabalhista, pasmem, recebi um convite do poeta João do Rio para trabalhar n’ A Pátria, periódico de linha Modernista que precedeu a Semana de Arte que ocorrerá em 1922. Desembarco na capital fluminense e me extasio. Tudo é novo ante meus olhos de jovem moço. As praias são lindas e as moçoilas mais liberais que as do Ceará. Faca e queijo nas mãos.

Meus contatos cariocas não poderiam ser melhores, pois João do Rio, um senhor de trejeitos afeminados, fez questão de apresentar-me à fina flor da poesia local. Agora no Rio, decido por aqui passar breve temporada de um ano, com pretensões de voltar ao Ceará em 1921, onde irei produzir com afinco a poesia que direi à época da Semana de Arte, uma vez que o convite já me foi feito por Raul de Leoni e Ronald de Carvalho.

E pelo Rio fico-me. Um ano de prazeres intelectuais e carnais. É insana a vida carioca. Suas noites não se comparam às das plagas cearenses. São extremamente ativas, cheias de mais vitalidade e mocidade. Por cá componho como um louco. Poesias saltam-me aos dedos e penas insanas, donde, certa manhã compus Laus Purissimae, composto não somente de versos polimétricos, mas também de versos livres – bem ao fazer Modernista – porém com características Simbolistas. Apresento-os, a seguir, a abertura desse poema helênico com setenta e sete versos livres:

Laus Purissimae

Para louvar-te,
Para dizer da tua Forma, eu deixo
Minhas antigas, bárbaras roupagens
De grego jônico, e venho
Como um dórico
Num metro novo,
Numa nova expressão de arte quase intangível,
Platonicamente serena
(Que é o sonho louco dos mediterrâneos)
Venho, repito,
Para eterno ciúme dos Deuses,
Anunciar a rodos os estetas
Que nem tudo se foi da Beleza-Perfeita;
Que tu chegaste, ó minha Palas-Atenas,
Ó Suma Reveladora,
Ó Quase-Fluida! Ó Leve! Ó Subjetiva!


No início do ano de 1921, decido-me por voltar ao Ceará. Despeço-me dos amigos e amores e embarco em mais vapor marítimo rumo ao torrão natal. É hora de novas publicações. Inveterado boêmio, não fumo, não bebo nem entro em jogatinas. Entretanto, o serpentear de saias sempre foi o meu fraco e a noite minha eterna companheira. Absorto e livre do trabalho braçal, amanheço como anoiteço tendo por amiga eterna minha bengala e o velho par de paletós. Ainda assim, a beleza um tanto ímpar que me foi dada compensam a falta de vinténs.
Mário da Silveira - única foto do poeta

Tarde-noite do dia 22 de julho de 1921. Como de costume, estou na Praça do Ferreira a conversar amenidades. Sentado em de seus muitos bancos e tendo por apoio a velha bengala, não percebo o seu aproximar. Ele vem lento e um tanto indeciso. Titubeia o meu executor. No entanto, sua fúria é maior. A vingança vem a cavalo e por conta de um assédio mal resolvido. Era bela a moça, porém comprometida com uma abastada figura alencarina.

Só recordo do cano da arma. Escuro. Uma Smith-Welson carregada com cinco balas em seu feroz tambor. Mal tive tempo de bramir a bengala e os cinco balaços me transpassaram o corpo. É agonizante a minha morte. Apinham-se curiosos enquanto meu carrasco foge. Foge Carlos Gondim, mas não escapará de apodrecer na Cadeia Municipal – atual EMCETUR – onde morrerá louco e arrependido por ter estragado a sua e acabado com a minha vida. Em meus bolsos nada. Apenas um poema alexandrino perfeito, posteriormente publicado em Coroa de Rosas e Espinhos, livro póstumo onde amigos do porte de Antônio Sales publicaram em minha homenagem. 500 exemplares apenas.

Em seu prefácio, Antônio Sales assim descreveu minha morte e vida:

Este punhado de versos e prosa foi tudo quanto se pode recolher da vida e produção literária de Mário da Silveira, tragicamente desaparecido, com vinte e dois anos de idade. É muito pouco, mas é o bastante para dar uma ideia de sua estranha e vigorosa mentalidade.

Pagando, porém, tributo à sentimentalidade da raça, ele conservava uma ingenuidade de criança e uma afetividade de moça, e, é desse subconsciente moral que lhe vinham as notas líricas de seu estro, onde o pensamento filosófico se alia tão estreitamente aos sentimentos passionais, como se vê dos dez formosos e vigorosos sonetos de COROA DE ROSAS E ESPINHOS.

A adversidade colhe-o cedo em suas garras, e só o largou inerte, no chão de uma praça pública, com o corpo traspassado de balas. É preciso crer na predestinação para compreender a fatalidade de seu destino.

Aos mais amigos, um soneto de despedida escrito de próprio punho por Mário da Silveira. Predestinação?

COROA DE ROSAS E ESPINHOS
Sedenta de ódio, cega de despeito,
Nesta penosa e transitória lida,
A alma dos homens, pérfida e atrevida,
Perde às cousas mais nobres o respeito.

Dizem: “Tudo o que sentes no teu peito
Há de um dia passar, - porque na vida
Tudo é incenso sutil, poeira diluída,
O que é terreno é efêmero e imperfeito.

Um grande amor é como o resto...A gente
Quando menos espera, logo sente
Apagar-se o clarão de Ignota chama.”

Eu sei que tudo é como fumo leve:
Foge: mas, porque a vida seja breve,
Há sempre um dia a mais para quem ama!

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*Túlio Monteiro - é poeta, contista, crítico literário, articulista do Evoé! Leia mais em Literatura com Túlio Monteiro.