quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Desafio do Lira Neto

Recebi uma espécie de desafio em rede ou uma corrente de desafio de meu amigo-irmão Lira Neto, que anda esplendendo sua inteligência e sensibilidade em seus mais que competentes livros feitos com muito planejamento, disciplina e tino investigativo. "Agarrou", como diz meu outro amigo-irmão Vessillo Monte, "o jabuti com as unhas de gato maracajá", ao comentar a conquista do Prêmio Jabuti de Literatura na categoria biografia com o excelente Inimigo do Rei, que trata da vida de José de Alencar.

Sobre o desafio transcrevo aqui palavras de Lira: "Recebo, de dois blogueiros amigos, Vássia Silveira e Maurício Lima (o Maurição), o mesmo desafio. Trata-se, vocês já devem ter visto por aí, do "meme da página 161":

1. Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2. Abrir na página 161;
3. Procurar a 5ª frase completa;
4. Postar essa frase em seu blog;
5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6. Repassar para outros 5 blogs.


Pois bem. Passo a tarefa a outros cinco blogueiros:Kelsen Bravos, Natércia Pontes, Victor Gentilli, Socorro Acioli e Reinaldo Morais."

Ao ler tal desafio, estiquei o braço para mesa que fica aqui atrás do meu birô e toquei em dois livros (leio/releio mais de um livro por vez e os espalho pela casa, coincidiu de haver dois no mesmo lugar). E agora, o que faço? Resolvi registrar os dois. Façam sua escolha:

Um era Corações sujos de Fernando Morais, livro reportagem que trata da Liga do Caminho dos Súditos, em japonês, Shidô Remmei. Uma associação de imigrantes nipônicos formada em 1944 para preservar sua cultura e identidade, ameaçada pela segunda guerra mudial. Com a rendição do Japão, seus líderes radicalizaram e promoveram o "silenciamento" de quem afirmava a derrota dos súditos de Hiroíto. O outro é Baudolino de Umberto Eco, cuja história - que a exemplo de O Nome da Rosa se passa na idade média - retrata o relato ao historiador Niceta Coniate da saga picaresca do menino que conquista o apreço de Barba Ruiva, e o acompanha em suas viagens.

A frase (definir período seria mais apropriado) do primeiro livro é:

"Nas duas ou três semanas seguintes o grupo ouviu de novo as instruções para quando estivesse em ação, que eram repetidas ou pelo mesmo Ogazawara, da Tinturaria Oriente, ou por Sunao Shinyashiki."

O período do segundo livro é:

"É pura maldade, e nada mais."

Cumpri minha parte, o desafio agora segue para os blogueiros Daniel Diaz, Régis Freitas, Washington Forte , Natany Ribeiro (e a turma do Loquaz) e Pablo Uchoa.

domingo, 21 de outubro de 2007

Carta Aberta às famílias leitoras de Jardim-CE

Recebi, em meu e-mail, desta menina da foto (captada pelas lentes de Chico Gadelha), um convite muito especial:


Joélia Vieira, agente de leitura em Jardim, CE

Oi Kelsen, Agente de Leitura Joélia, há quanto tempo heim? Ei estou convidando-lhe para um encontro de sensibilização entre as famílias com que trabalho, será no dia 28 de outubro às 13:00 h em minha residência no Sítio Jardim, em Jardim - CE.

Conheci Joélia e mais 23 pessoas lindas, em maio de 2006, em Assaré, onde fui ministrar uma capacitação ("Sensibilização e Pedagogia da leitura") para os agentes de leitura de lá e de Jardim. Ambas ficam no Cariri, ao sul do Ceará. Os Agentes de Leitura são um bem-sucedido projeto idealizado naquele ano por Fabiano dos Santos, então coordenador de Políticas do Livro e Acervo da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, a coordenação do projeto coube a Geórgia Zaranza e contava ainda com a colaboração de Andréa Hávt Bindá ("um beijo, Dea, onde você esteja").
Financiado pelo Fundo de Combate a Pobreza - Fecop, o projeto desde o primeiro semestre de 2007, está meio esquecido pela gestão que assumiu o governo este ano. Sem receber, respectivamente, a bolsa e o pro labore, tanto os agentes como os coordenadores do projeto, que já virou política pública de estado, continuam trabalhando. O estranho é que a verba está disponível, mas não é repassada, e ninguém se digna a explicar a razão. (Veja o projeto).

Impossibilitado de ir ao encontro, por compromissos anteriormente assumidos, em resposta a seu convite, escrevi uma carta aberta às Famílias Leitoras de Jardim. E na intenção de estar bem pertinho, pedi que Joélia Vieira a lesse em meu nome. Seria emocionante chegar aos presentes saindo dela, como num parto poético. Eu me harmonizaria com todos e todas pela harmonia entre mim e ela. O coração deles e delas pulsaria pela emoção de seu coração ao ler o que o meu coração pulsa ao escrever para todos.


Eis a carta:


Famílias leitoras de Jardim,

Meu nome é Kelsen Bravos e além de escritor sou fã dessa pessoa que ora me lê para vocês. Desde que a vi ainda em maio de 2006, lá em Assaré, senti o quanto havia de intensidade poética, de beleza e compromisso social em seus sonhos. E hoje eu estar aqui, participando desta sensibilização junto a vocês assim sendo lido por ela é a maior prova de que o quanto senti a respeito de Joélia era verdadeiro, pois ela é uma GENTE de leitura que semeia livros no coração de cada um de nós com muita força poética, beleza e compromiso social.

Parabéns a vocês todos, dos mais pequeninhos aos mais grandões, dos mais velhos aos recém-nascidos, parabéns, por serem uma família de leitores que se emocionam, sonham e despertam com a fé transformadora do bem social. Quero abraçar a todos e dizer que os amo.

Amar é uma palavra muito importante. Vem da palavra amor. A palavra amor significa não deixar morrer. É por isso que quando uma pessoa muito querida morre, nos sentimos tão impotentes; porque temos a impressão de que junto a ela se foi também nossa capacidade de não deixar morrer, que o nosso amor faliu, acabou. Mas não é assim que nossa capacidade de amar acaba. Ela só acaba quando a gente desiste de amar. Se é que acaba...

Amar, como já lhes disse, é não deixar morrer. Não deixar morrer uma planta, um bichinho, uma idéia, um sonho bom, as pessoas, é não deixar morrer antes da vontade de Deus.

Amar é não deixar morrer a lembrança de quem nos é caro. É preservar as coisas, a natureza, a memória, a cultura, as pessoas.

Eu queria abraçar e dizer isso a todas as pessoas do mundo. Mas no mundo existem mais de seis bilhões de pessoas espalhadas por todos os lugares. É por isso que escrevo, para que, mesmo depois de eu ter-me ido prestar contas com o Além, continue "falando" com elas a partir do que deixei escrito.

Com meus livros quero afirmar o amor que sinto pelas pessoas, pelas coisas e seus lugares. São uma forma de eu dizer: vamos amar uns aos outros e amar nossos lugares, as coisas e todas as outras formas de vida, as plantas e os animais. Não podemos deixar morrer nossas idéias, nossas emoções, a natureza, as pessoas (ou a lembrança delas)... não podemos deixar morrer nossa cultura. Escrever é, portanto, um ato de amor.

Entretanto existe um gesto de amor mais importante do que o de escrever. Sabem qual é? Vou lhes dar uma dica:

Imaginem um livro numa estante, sem ninguém pegá-lo. Se ficar assim cem anos, ele ficará cem anos morto. Mas se você pegar esse livro e começar a lê-lo, você estará fazendo um gesto divino de amor; estará ressuscitando quem escreveu, e aumentando a própria capacidade de ler e entender o próximo e a si mesmo, estará ampliando a sua capacidade amar.

Portanto, leiam, leiam sozinhos e leiam em grupo, leiam sempre, porque ler é amar!

Um beijo azul,

Kelsen Bravos

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Em preto e branco

Quem nunca cometeu um preconceito que atire a primeira pedra. Os piores deles são os que se cometem por, digamos, tradição, por costume. Estão de tal maneira introjetados no inconsciente coletivo que pouco são identificados; o que torna seus efeitos danosos, por vários motivos. O primeiro deles pela dificuldade de explicá-los e, portanto, combatê-los. A vítima deles ao questioná-los, na maioria das vezes, é ridicularizada acusada de estar exagerando na sua crítica (ou na sua autodefesa), dizem que ela está vendo cabelo em casca de ovo. Quem há de perceber preconceito numa expressão comum entre prestadores de serviço como “trabalho de branco”?

Outro dia deixei meu carro numa oficina e o gerente na minha frente recomendava ao mecânico, um negro, esmero especial: “Não se preocupe só faço trabalho de branco”, respondeu.

Quase vou embora, pois nessa expressão, em tal contexto, "tudo" contra a raça negra está presente: seu trabalho não presta, negro é preguiçoso, desleixado, incompetente, enfim tudo de ruim. Quem construiu essa imagem? Ah foram bem os donos de escravos e afins que os viam fazer trabalhos (escravos) sem a menor vontade, daí afirmarem que negro é indolente, só trabalha, a muito custo, sob o lanho da chibata. Isso é mais do que preconceito e merece uma reflexão.

Preconceito existe e de todas as formas, os positivos (se é que se pode dizer assim) e os negativos. Como exemplo dos primeiros, temos várias expressões: “os ingleses são pontuais” é uma delas, bem como dizer que “os brasileiros são criativos”. Um perigo, ambas, pois nem todos ingleses são pontuais e nem todos os brasileiros são criativos, nesta ainda há uma apologia ao energúmeno “jeitinho brasileiro”. Na outra uma supremacia de raça. Supremacia esta que os britânicos fazem questão de propalar de todas as formas até com as mais eufêmicas, como num registro que encontrei na Enciclopédia Barsa, que diz que hoje na Tasmânia os habitantes são todos de origem britânica, pois os nativos “extinguiram-se em luta contra os ingleses”. Coitados dos nativos que se suicidaram ao se defender e desafiar o império geno e etnocida.

Exemplo de preconceito negativo são expressões como “programa de índio” para definir um lazer desagradável. Ora bolas o que é que índio tem a ver com o mau gosto ou a desventura alheia? Parece brincadeira, mas não é, pois essa associação acaba por criar uma rejeição étnica que pode levar alguém ­– num país propenso a querer dar um jeitinho em tudo – a se vingar dos índios tocando fogo, por exemplo, em um pataxó. (Pura ficção, não é mesmo?)

A linguagem reflete mesmo a identidade, revela sim de forma surpreendente como pensa e age um povo. E tradicionalmente, a começar na linguagem, a cultura branco-ocidental e a de seus herdeiros coloniais revelam-se preconceituosas. Quanto a isso vejamos o excelente trabalho do professor doutor José Lemos Monteiro sobre o preconceito na literatura, em que afirma: “O brasileiro denuncia em suas formas de manifestação linguística um sentimento de desvalorização ou até de aversão ao negro e, de modo oposto, uma atitude de apreço e respeito pelo branco”. E continua: “basta consultar o Dicionário Aurélio para se comprovar a diversidade de conotações atribuídas aos lexemas 'preto' ou 'negro' (Sujo, encardido) ou 'branco' e 'alvo' (Puro, inocente, cândido)".*

Daí, Lemos investiga cem obras literárias desde a formação do Brasil até os nossos dias extraindo 750 exemplos em que os escritores utilizam “preto” e “negro” de forma depreciativa, ao contrário de branco e alvo, empregados com valores positivos. E destaca surpreso: “É curioso que, até mesmo na poesia de Castro Alves, que tanto lutou em favor da libertação dos escravos, essas conotações se fazem presentes, como prova de que se encontram sedimentadas no inconsciente coletivo de nosso povo”.
(Não posso deixar de citar um esquecimento de Lemos em relação a Monteiro Lobato, que tratava, via boneca Emília, a personagem Tia Anastácia de "negra beiçuda".)

As conotações para negro e preto, 90% delas, evidenciam: “depreciação, menosprezo, discriminação; morte, tragédia, desgraça, sinistros; desgosto, amargura, solidão; tristeza, tédio, melancolia; maus pressentimentos, preocupação; medo, susto, terror; azar, agouro, fatalidade; inveja, despeito, ressentimento; destruição, estragos, manchas; crime, maldade, prisão; deslealdade, ingratidão; feitiçaria, satanismo, bruxaria; pedantismo, boçalidade; hediondez, feiúra, monstruosidade; miséria, humilhação; nojo, náusea, imundície, podridão, lixo; depravação, promiscuidade, lascívia, pecado, vícios”.*

Se a linguagem é um espelho da sociedade, quem nasce com a tez negra ou dela é descendente, bem cedo convive com essas conotações em maior ou menor grau. Expressadas das mais diversas formas, desde o desdém inconsciente das professoras na pré-escola, a desatenção dos garçons, até o menosprezo da competência profissional, como a do gerente em relação ao mecânico do início deste texto e a do próprio mecânico que, para se autoafirmar, comparou seu trabalho ao de branco.

Dada a sutileza dessa questão, depois de uma longa tolerância a esses preconceitos, a reação das vítimas pode eclodir de forma violenta, expositiva, quase inexplicável. O que aparentemente lhe tira a razão; mas se formos encarar esse fato de forma sensata, concluiremos que não compreender a reação da vítima é como não querer compreender o grito de quem chegou ao limite de uma implacável tortura chinesa (que é lenta, contínua e interminável).

Sem receio de generalizar, pode-se afirmar que toda sociedade é preconceituosa; mas o que difere uma das outras é a forma como trata o preconceito. Daí casos de ofensas com expressões racistas, devam ser punidos em todo o mundo de forma exemplar, a fim de começarmos a dar um basta nesse desrespeito a pessoa humana.

____________
** Fonte: MONTEIRO, José Lemos. O branco no preto: as negras expressões de racismo na Literatura Brasileira. Matraga: Revista do Programa de Pós-graduação em Letras. Rio de Janeiro, UERJ, 9 (14): 141-62, 2002. 

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Evoé no 11 de setembro de 2001


Celebrações boêmias com o Vessillo já as fiz de todas as formas, cores e horários.
Todas têm sua história. A do dia 10 para o dia 11 de setembro em 2001, dia dos ataques terroristas a Nova Iorque, seria apenas mais uma; entretanto, o tal ataque a colocou em destaque em minhas lembranças.

Saímos juntos ainda à noitinha, sentamos e começamos uma libação, como sempre, repleta de leituras recentes contrastadas com antigas leituras, críticas, comentários indignados e irados do Vessillo sobre os "intelectuais" brasileiros e os "intelectuais" da nossa província. Todos comensais do poder (não importa qual seja esse poder), contumazes babões e pastichadores de obras alheias. Legítimos representantes da "Confraria do Elogio Mútuo", como diz Vessillo Monte. Eu lhes digo que esta Confraria tem vários nomes, o mais oficial deles em Fortaleza é um tal clube cujo cheiro do animal que o denomina diz muito do que ele representa.

Entre uma cerveja e outra, citações, exemplificações, dissensos, consensos... risadas e canções, Noel, Ismael, Chico, Vinícius, Edu Lobo, João do Vale, Vandré, Paulo César Pinheiro... Poemas, o Vessillo declama todos, "canta" as músicas... chora e ri. Falamos da vida, da nossa vida, lembramos dos amigos, rimos dos amigos e rimos de nós...

Já quase de manhã, a inevitável pergunta... vamos tomar mais uma? Quem vai trabalhar? A que horas? Dando de ombros, citei Pessoa: "Ai que prazer não cumprir um dever"! Nenhuma reunião importante, deixemos amanhecer, né?

Ao alvorecer cantamos: "Raiou, resplandeceu, iluminou; na barra do tempo o canto do galo ecoou, a flor se abriu, a gota de orvalho brilhou, quando a manhã surgiu nos braços de Nosso Senhor, a PAZ amanheceu sobre o país, e o povo até pensou que já era feliz; mas foi porque pra todo mundo pareceu que o menino Deus nasceu..." (a bênção, Paulo César Pinheiro!).

Que ironia, meu Deus, Vessillo Monte e eu saudamos a manhã de 11 de Setembro de 2001 cantando à Paz.

Por volta das oito nos despedimos confirmando que chegaríamos ao trabalho, no máximo, ao meio-dia, pois às 13h iniciava nosso horário de trabalho e o Lira Neto, à época, nosso chairman numa editora... talvez não ficasse muito feliz pelo motivo de nossa ausência, menos pelo fato em si, mais pelo fato de ter perdido a libação.

Pois bem, lá pelas doze, treze horas, chego ao trabalho. Vou primeiro à cantina. Vazia. De lá vou direto para editora sem passar pela entrada principal. Na sala em que trabalhava, também não havia ninguém, na da produção, os micros estavam desabitados, nem estranhei. Liguei meu computador, para conferir as notícias, li a informação: "Clique e veja as cenas do ataque terrorista a NY".

Quanta bobagem, pensei, esse povo está cada vez menos criativo nos argumentos para filmes... embora os efeitos especiais sejam fantásticos! Mas quanta violência!

Levantei e fui falar com o Lira. Ao chegar no saguão da sala de espera do chairman, vi todo mundo lá, olhos vidrados na tevê. "Foi o Talibã, cara, com certeza!" Uma voz, efusiva, exclamava.

"Talibã?! Que papo é esse, gente!? O que é que vocês tão fazendo aqui!!! Que que tá passando aí?..." todos olharam surpresos pra mim. A voz do chairman lá de dentro da sala perguntou: "Em que planeta você estava, Kelsen Bravos?!"

Ao tomar noção de tudo, fiquei estarrecido. Incontinente, lembrei-me do Vessillo... o poeta devia com certeza estar nos braços da Paz, a quem cantamos ao amanhecer.

Daí a pouco chega o poeta: olhamo-nos reticentes e depois, para o espanto de todos, braços abertos, saudamo-nos: EVOÉ!!!

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Ceará fora do ranking da violência?!

Para definir quais seriam os estados beneficiados pelo Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), o Ministério da Justiça se baseou no levantamento dos indicadores de violência contra a pessoa, feito em 2005, que considera as seguintes categorias de crimes:

1. Crimes letais não violentos contra pessoa, ou seja, atentado violento ao pudor, estupro, tentativa de homicídio e tortura. Categoria em que o Ceará ficou em 27º lugar.
2. Crimes violentos letais intencionais, ou seja, homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte e latrocínio. Em que o Ceará aparece na 15ª posição.

Primeiro, devemos refletir: por que não se baseou nos atuais indicadores de violência? Por que não considerar a corrupção uma violência, se ela é a geradora de toda espécie de crimes?

Assaltos cinematográficos a bancos, rota do tráfico internacional de drogas, paraíso da prostituição e da exploração sexual infantil, sonegação fiscal, tudo isso fruto do crime organizado gerador e mantenedor da corrupção em vários estratos sociais, e em instâncias da gestão e da iniciativa privada. Como o Ceará pode ter ficado de fora do Pronasci? Como pode o Ceará ficar de fora da lista dos mais violentos do país? Será que teremos de chegar aos índices de criminalidade sudestinos? Que parâmetro é esse?

O ideal seria instituir o índice zero como parâmetro ideal de violência, com uma tolerância de um número bem baixo, acima do qual seria considerado o que de fato é: calamidade pública.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

O dia do Blog

Um monstro da lógica numerológica instituiu o 31/08 Blog Day mundial! A data foi definida da seguinte forma: b=3, l=1, o=0, g=8 (coisa de monstro, né?)
É o segundo ano dessa iniciativa que busca fazer com que a blogosfera mundial interaja mais. Para comemorar o método é simples: todos os blogs do mundo publicam uma lista de 5 blogs para serem visitados, e o resultado é uma grande movimentação interna da blogosphera mundial durante a semana. Eis a minha lista comemorativa:

http://www.sedentario.org/
http://www.outrosdiaz.blogspot.com/
http://produzindo.blogspot.com/
http://blogdoliraneto.blogspot.com/
http://umabrancasombrapalida.blogspot.com/

Boa festa!

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Profissão professor

Na mitologia grega um titã roubou o fogo dos deuses para disseminá-lo entre os mortais. Por essa solidária ousadia o titã Prometeu foi condenado a castigo eterno: ficar no monte Cáucaso, acorrentado, tendo abutres a lhe devorar o fígado. Sinto que todos os professores e professoras de fato têm o mesmo afã de Prometeu: Luz para todos! Talvez por isso, até hoje, os professores convivam com tantos abutres a lhes devorar o fígado.

Meu bisavô materno criou uma escola em sua pequena cidade e alfabetizou seus filhos, os filhos alheios e os alheios também. Meu avô, tal qual o seu pai, alfabetizou muita gente. Ambos não eram catedráticos; mas sabiam. E o saber naquela
época valia muito, sobretudo, quando era acompanhado do ato de ler. Mas eles não queriam só para si esse privilégio e socializaram o conhecimento.

Do tempo dos meus e dos vossos avós para cá, a educação mudou muito. O professor, então, esse sim virou outro. Deixou de ser mito. Graças a Deus, e devido a homens de boa vontade, ele deixou de ser uma figura quase
divina, como queriam parecer os escolásticos. Por isso, antes de qualquer outra profissão, sou professor.

Além de mim, tenho tias, primas e primos, todos professores. Quando a família toda se reúne, é um festival de profissões. Há jornalistas, advogados, médicos, engenheiros, estatísticos, contabilistas, arquitetos, economistas; mas a supremacia é de professores.


Não é só pelo tempo em que estou nessa lida, portanto, que sei do que falo quando falo da profissão de professor. Por isso chego a me irritar quando pessoas – cuja formação passa bem longe do magistério e cuja educação parece esquecida no berço – vêm fazer críticas a educadores, a professores. Ainda mais porque baseiam suas críticas, predominantemente, em índices de rendimento impostos em avaliações massificantes.


Ora bolas! A profissão de professor não é fácil, pressupõe um tempo a que nenhuma outra iguala. Não é só durante a aula, nem mesmo ao tempo em que está na escola que se resume sua tarefa. Ele planeja suas aulas e isso não é tão simples, porque por mais que os demais e necessários profissionais envolvidos – supervisores e coordenadores – e diretores digam qual a orientação “pedagógica” da escola, por mais que esta atenda às diretrizes político-pedagógicas recomendadas pelos parâmetros nacionais, é na relação professor e aluno; é na sua relação com a sala de aula que o professor deve basear seu planejamento, discuti-lo com o aluno e construírem o melhor a fazer.

Daí a complexidade, pois cada aluno corresponde de modo diferente às atividades escolares. Cada um tem seu tempo e apresenta dificuldades distintas. Perceber a delicadeza dessas situações individuais, e planejar e orientar ações para melhor atendê-las é o papel do professor em relação a cada aluno.
É dessa particularidade da profissão, no mínimo, que se deve começar um diálogo sobre educação. E não a partir das estatísticas que medem o rendimento escolar dos alunos em uma avaliação em massa, como é a imposta, por exemplo, pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e muito menos, nesta perspectiva, de seus “clones” nas esferas estaduais e municipais.

Não quero aqui tirar a importância desse tipo de avaliação imposto pelo SAEB, busco tão-somente esclarecer que considerá-lo apenas, e principalmente, como forma de avaliar não só o aluno, mas também o sistema educacional é mascarar a realidade, é esconder a dificuldade que o professor enfrenta no seu trabalho.
Trabalho este que não seria tão mais difícil assim, caso cada professor ficasse exclusivamente com uma turma de vinte alunos. E que fosse remunerado tão bem quanto deputado ou senador, governador ou vice-governador.

Acontece que o mestre, para ter uma situação econômica razoável, tem de trabalhar pela manhã, pela tarde e pela noite, em várias escolas com turmas de, no mínimo, cinqüenta alunos.
Muitas vezes, por turno, o professor chega a ter até cinco turmas, ou seja, por dia ele trabalha com 750 alunos. Ao final da semana pode ter trabalhado com 3.750 alunos, caso tenha apenas uma aula por semana em cada turma. Via de regra essas turmas são em escolas distintas.

Lidando com essa realidade, é impossível, o professor ter uma leitura sensível do aprendizado de seus alunos.
Não conheço escola que trabalhe com número máximo de vinte alunos por sala e sequer há professor com salário digno, que lhe dê a tranqüilidade e a condição para investir continuamente na própria formação – tão fundamental para a profissão. Mas todo professor do ensino fundamental ou médio que conheço está sempre em dificuldade financeira, com a garganta em frangalhos e, todo fim de semana, azafamado, lotado de tarefas escolares para corrigir, provas para elaborar e fazendo de tudo para mais um pouco saberem de seus alunos.

Não fosse a dedicação dos professores e professoras desse país não sei o que seria da escola. As escolas públicas que deveriam ser o parâmetro a ser seguido pelas particulares são as mais vilipendiadas. Os professores do Estado do Ceará, por exemplo, recebem por cem horas semanais cerca de quinhentos reais e trabalham em média com quatrocentos alunos.


E me vêm gestores travestidos de abutres com base em índices de desempenho de avaliação dos alunos quererem devorar o fígado dos profissionais da educação, acusando-os de falta de maior zelo e competência.

Por que, em vez de culpar os professores, os gestores não promovem concurso público, convocam e admitem logo todos profissionais aprovados. (A rede estadual de ensino no Ceará, por exemplo, está abarrotada de professores substitutos, muitos dos quais excelentes profissionais, mas numa situação instável e com trabalho fadado à descontinuidade). Por que não aumentam o salário dos professores, em vez de fazerem festim monetário com as convocações extraodinárias dos legislativos municipais, estaduais e federais? Por que não repassam as verbas devidas à educação?

Dizem ser simplistas essas questões; mas não as respondem e nem propõem outras. Estou cada vez mais crendo que a incompreensão dessa realidade só pode ser índice de um gravíssimo e súbito caso de idiotia que, por conveniência, acomete os gestores públicos quando o assunto é educação.

Kelsen Bravos

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Sol-posto

Caminho equilibrista sobre o fino muro que separa o apolíneo ­- império da razão - do dionisíaco - anarquia dos impérios. Antes, a mais leve das brisas me fazia flanar dionisíaco. Ô beleza! Era o mais feliz ali no lado esquerdo (que é o lado do coração). Só um cataclismo a lá tsunami, às vezes, fazia-me recolher para o outro lado. Com o passar do tempo me acostumei a andar por sobre o muro sem risco de pender pra lá ou pra cá. Depois fui me tornando cada vez mais formal, mais apolíneo. Engolido pelo lesco-lesco, hoje o trabalho é que me manda. Gosto disso; mas rotina implacável às vezes esgota.
Aí bate uma saudade, esse sentimento revelador de que o presente não está muito bom, e desejo estar daquele lado canhestro do muro. Aí o menino inquieto, o poeta ávido de vida, se arvora dentro de mim, feito um saci a pular dentro do meu coração, reclamando espaço. O fauno mais perseguidor de ninfas se agiganta e me ordena cumprir um ritual bacante, boêmio.
Buscando-me conter, olho o relógio. Geralmente é por volta das 16 horas. Quase fim de tarde. Ainda há sol lá fora e calor e brisa marinha (e mulheres que passeiam sobre os calçadões com seus sorrisos e roupas coloridos). Ainda há tempo... pronto já caí do fio do muro. Saio da sala como quem sai do claustro. Meço as possibilidades e vou à beira-mar. Quero ver o pôr-do-sol. Preciso vê-lo e buscar de novo o equilíbrio nesse ritual cotidiano que a natureza nos oferece.





O pôr-do-sol é a mais pura celebração da natureza. Impossível não se tornar melhor ao reverenciá-lo. Para este rito, Fortaleza dispõe alguns altares. O mais conhecido é o da ponte – construída por ingleses para o comércio; mas os cearenses a batizamos Metálica. Sim a Ponte Metálica é uma catedral para a homilia do sol-posto.
Pra lá me dirijo, caminho sobre ela, sinto o cheiro e o gosto salitrado da brisa aspergida pelo quebrar das ondas dos verdes mares bravios do Ceará nas longarinas da velha e reformada ponte. Alcanço o lugar mais ermo, estou pronto para as lições do silente sermão do Sol, que é o da renovação.
De início, ele é cáustico, metálico. Inclemente, inquieta, multiplicando o desconforto, o estresse de quem o está a observar. Olhá-lo de frente, afrontá-lo assim, não há quem possa. Seria um ato irracional insistir nisso. Quem fizer essa irracionalidade findará com cegueira também física. Eis a primeira lição: a da resignação. Sugere: olha para ti mesmo, fecha os olhos e medita.
Mas o que se inicia pungente, vai amenizando. Sai do metálico incadescente aos matizes de vermelho, roxo e púmbleo. Aos poucos, devolve ao ser a possibilidade de olhar. Até chegar o momento de iluminação sem a presença do astro, que já mergulhou na linha do horizonte; mas sua luz, agora amena, permanece e proporciona a cada um ver o entorno de si. Sim, só para que as pessoas possam sentir que não estão sós e quanta beleza há no coletivo. Eis a segunda lição: a da contemplação. Não estás só, olha tranqüilo para as pessoas e as coisas, dá-lhes a tua atenção. Conduz ao mantra: Ama o próximo como a ti mesmo.
Por fim, o que é penumbra vai ficando escuro. Essa inversão de luz devolve por completo o ser a si mesmo. Só que o agora de novo ensimesmado livrou-se da tensão com que chegara e já tem guardado no espírito o espetáculo do pôr-do-sol. Nunca mais esse rito o deixará, pois aprendeu com a natureza um mistério da paz. É a terceira lição: a da transcendência. Reverbera: a paz está em ti, és a minha imagem e semelhança.
Cumprida a homilia do sol-posto. O equilíbrio deveria estar de volta, pois uma situação quase apolínea se instauraria, caso fosse direto para casa ou de volta ao trabalho, e se não houvesse o leste.
Mas, comigo, é só olhar para o leste e ver a lua se refletir nas águas já escuras da tarde-noite, onde brincam golfinhos, que o portal da boemia se abre. E assim, tranqüilo, pouso sentimental numa mesa de bar... um chopp, uma música, um olhar... um bate-papo falando da vida... e – quem sabe, na supremacia das emoções – braços, corpos suados, ao ritmo das ondas da preamar, fazendo amor, eternizam, do jeito humano, a tal homilia do sol-posto.

Kelsen Bravos

sábado, 12 de maio de 2007

O negócio é futebol

Se os torcedores de futebol brasileiros demorarem a acordar do sonho de que torcem por amor ao clube ou por amor à pátria, a realidade pode lhes trazer, no mínimo, depressão.

Há muito o futebol é negócio, seja comercial ou político. Na final de 1950, o discurso do administrador da Guanabara aos jogadores, minutos antes de eles entrarem em campo, transmitido por todas as rádios, foi um relato de soberba pela construção do Maracanã, à espera de um coroamento político.

Kubitschek, em cinqüenta e oito, torcia pela vitória da Canarinho, porque ela seria ao mesmo tempo estímulo ao seu “vitorioso” governo e analgésico para as mazelas populares. O presidente mineiro sabia que gente feliz não reclama, e povo sem dor não grita.

Em 1970, nos porões da ditadura, todo mundo torcia (menos os torturados) enquanto o pau comia. Todos juntos, numa mesma corrente "pra frente, Brasil!"

Lula não é diferente. Seria muita ingenuidade nossa inseri-lo entre o senso comum dos torcedores brasileiros. Acho até que ele preferia estar (ou pensa mesmo ser) entre a massa ignara; mas todo dia alguém tem de lembrá-lo de que é presidente da república do Brasil. O hexa fará muito bem a ele, como fez o primeiro campeonato a Kubitschek, e pode ser trágico para todos.

Irrita assistir aos telejornais. Sempre trazem as notícias das demais editorias e por fim as do esporte. Daí acontecer cena, no mínimo, esdrúxula. Os apresentadores falam dos mortos da guerra urbana, deflagrada pelos traficantes em São Paulo, no dia das mães, com toda a sua tragédia. Ato contínuo, mudam as feições tensas e com um sorriso largo anunciam: “Agora vamos falar de Copa do Mundo!”

Uma cena dramática como a de um palhaço que, depois de receber a notícia de que a filha morrera estuprada, entra no picadeiro sorrindo, porque o show tem de continuar. Acontece que o palhaço da história é um só. Depois do aplauso, ele ficará com sua solitária dor e irá à luta por justiça. No caso da copa do mundo, são milhões de palhaços a sorrir e a chorar em catarse.

Ganhar copa do mundo para o Brasil é um sentimento coletivo, as individualidades se diluem em meio a alegria geral. Configura-se a idéia de que nada pode atrapalhar esse momento, daí é tal de dane-se a dor de um, precisamos cantar para festejar a honra e o valor de toda nossa gente bronzeada.

Enquanto a gente bronzeada dança, a “elite branca e capitalista”, como diz Lembo, governador de São Paulo, contabiliza os milhões de dólares que lucra com o futebol.

O futebol é um lucrativo negócio. Pelé foi o primeiro jogador brasileiro a despertar para esse fato. Em 1970, antes do jogo contra o Peru, seguindo orientação do jornalista espanhol de ascendência germânica, Hans Heningsen, o Rei do Futebol pediu um tempo ao juiz e passou preciosos segundos atando os cadarços de sua chuteira Puma.

Com o gesto, Pelé justificava contrato de U$100 mil por quatro anos de exclusividade mais U$ 25 mil exclusivos pelo Mundial no México e mais 5% de royalties nas vendas dos tênis. Não foi só pelo talento que ele foi eleito (por quem mesmo!?) o Atleta do Século XX.

Para a copa de 2006, só as marcas de material esportivo, bola, chuteiras e uniformes, como as alemãs Puma e Adidas, e a estadunidense Nike esperam lucrar U$ 2 bilhões.

A seleção brasileira é patrocinada pela Nike. Firmou com a CBF um contrato de U$200 milhões desde 1996. Com esse contrato acabou-se de vez a inocência dos jogadores. A empresa exige profissionalismo. Quer que o time do Brasil seja tão eficaz como o do basquete estadunidense. Este sonho, pelos talentos que temos, não está muito longe.

Como a maioria dos brasileiros, adoro futebol. Há tempos não brinco de futebol, faz tempo não bato um racha. Gosto da plasticidade desse esporte. Tenho na medida a diferença entre jogo e brincadeira. Uma partida bem disputada é espetacular. Se há então jogadores ricos e felizes, preocupados apenas com a arte, nada melhor. A seleção brasileira está quase assim. Torço que ela encante o mundo com o que o futebol tem de mais belo.

Torço sim pela seleção brasileira, como torço pelo glorioso Ceará Sporting Clube. Não com cega paixão. Sem essa de nação, sem essa de pátria de chuteiras. Sem essa de ficar me digladiando com torcedores de times rivais, como fazem as fanáticas massas de manobra, denominadas torcidas organizadas.

Entre torcidas organizadas, há organizações criminosas, ligadas ao tráfico e à mesma bandidagem que transformou o dia das mães deste 2006 em tragédia. A segurança pública precisa ficar esperta com o que eles podem aprontar durante a copa do mundo. Em certo aspecto, os bandidos são iguais aos capitalistas que investem no futebol, não amam o esporte querem apenas tirar proveito dele.

Por isso em vez de me digladiar “por esporte”, prefiro me reger pelo Estatuto do Torcedor (Lei N° 10.671) e exigir transparência nas negociações da CBF e da Federação Cearense de Futebol e fazer valer meu direito de consumidor. Nos Estados Unidos o consumidor é muito respeitado, porque lá eles reclamam seus direitos. Façamos o mesmo.

Evoé!

Às vezes ficamos assim malemolentes, depois que tomamos um bom vinho. E um bom vinho para um boêmio é – antes de tudo – razão para um encontro libativo. Livre daqueles exagerados comentários sobre as características organolépticas da bebida. Esses discursos são uma antilibação. Acabam com quaisquer possibilidades de diálogo.

Encerro essa arrogante trelência, dizendo: Que vinho que nada! Sou viciado mesmo é em gente! Porque é o que sou. Em tudo que penso e faço o que me predomina é a essência humana.

Às vezes há quem refute esse meu vício, afirmando que ser humano é ter todos os defeitos, é não lutar contra a natureza animal que nos habita. E baseia seu argumento elegendo como máxima a “sábia” fábula do escorpião.

Aquela que dá conta de um aracnídeo desses que pediu “carona” a um ser anfíbio (um sapo), para transpor um rio sobre as costas dele. No meio do caminho, o tal escorpião crava-lhe o venenoso esporão no lombo de seu benemérito Caronte. O anfíbio, impactado com tamanha traição, para tentar entendê-la pergunta por que tamanha perfídia. Ouve como resposta que escorpião é naturalmente traiçoeiro, e não resistiu lutar contra a própria natureza.

A fábula tem a sabedoria do bom observador que tenta explicar o comportamento humano, fazendo analogia entre a natureza do lacrau e do humano. Mas é de fato um desmedido equívoco, por dois motivos: primeiro, porque mais do que comparar o humano com o inumano, tenta explicar um pelo outro. Grande tolice! O ser humano de verdade domina o animal que é em si mesmo. Ao fazer isso, substitui pela solidariedade a competição – circunstância até compreensível entre os animais, porque eles competem por sobrevivência. Daí o paradoxo no exemplo do escorpião. Por sobrevivência, ele não deveria matar o seu benfeitor; mas fê-lo exatamente para sobreviver. O paradoxo é uma criação humana. Coitado do bichinho, o que ele tem a ver com a covardia do bípede racional? A resposta a essa questão é o segundo ponto: nada. É pura transferência, sublimação do atraso de quem ainda tem medo da plenitude de ser humano.

A essa plenitude prefere a barbárie da competição, espaço mais aético que existe, do ninguém por ninguém, do cada um por si. Daí perder-se no entremundo do racional e do irracional. Querer conquistar destruindo, logrando, tirando vantagem, lucrando, matando quem lhe mostra num gesto o caminho: a solidariedade.

Ora pois o humano de verdade não acumula, porque o excedente ele comunga. E o bom vinho é um eloquente exemplo de comunhão, vem sempre acompanhado do pão que é repartido entre todos, por isso todos desse pão que compartilham são companheiros. A libação antes de tudo e por excelência é um ato de companheirismo, de solidária comunhão, jamais de competição ou exibição organoléptica.

A libação é um ato boêmio e a boemia é o primeiro estágio da evolução humana, pois o boêmio ama o próximo como a si mesmo. Até chegar o dia de transformar o próprio sangue em vinho e o próprio corpo em pão.

Evoé!!!!

Kelsen Bravos

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Fogão a lenha

“Que tal almoçar aqui em casa?”. O convite partira de Almir Mota, um contador de histórias e tanto. (Era sábado, dia 30 de setembro, de 2006, véspera das eleições para presidente, senadores, deputados e governadores).

A casa de Almir Mota tem um fogão a lenha. Fica num bairro bem bucólico de Fortaleza. A natureza ainda exubera por lá. É um bairro simples, suburbano. Com toda a esquisitice de ruas improvisadas.


Havia comprado-a recentemente. Nem bem recebeu a casa, foi logo fazendo adaptações. Alargou a cozinha, construiu um alpendre no quintal e nele fez surgir um fogão a lenha.


O alpendre é ensombrado, ladeado por goiabeira, jambeiro, aceroleira, abacateiro e cajueiro. Cada um exala seu aroma, inclusive, o fogão, com seu cheiro de lenha apagada.


O perfume do fogão me faz lembrar o cheiro do cacique Daniel dos Pitaguaris, a quem eu conheci durante a 7ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, da qual fui coordenador do espaço infantil. Quem o me apresentou foi o poeta e arte-educador Ray Lima. Ele fora à bienal socializar o excelente trabalho “Os Meninos Autores”, desenvolvido pela Escola Zumbi em Maracanaú, da qual é idealizador.


Ray me informou que o cacique ao saber do evento fez questão de vir dançar o torém, dança étnica dos pitaguaris, no palco do espaço infantil, a que denominei de Minarete Encantado. Tudo acertado. Eles vieram e dançaram. Foi um sucesso.


O fotógrafo Chico Gadelha, que cobria a bienal, me inquiriu pelo torém. Disse-lhe que já ocorrera. Ih... dissemos os dois. Ficaríamos sem o registro da participação dos pitaguaris? Jamais. Pedi para o cacique voltar ao palco. Ele aceitou com satisfação.


Todavia quase causo um conflito étnico (para ser bem exagerado), pois ao microfone, apressado, dissera para a renovada platéia que os pitaguaris compunham um dos eixos de ação da Escola Zumbi e apresentariam ali uma manifestação cultural de seu povo: o torém.



Cacique Daniel subiu ao palco acompanhado dos curumins. Cantou uma introdução e não dançou; mas ao microfone falou de forma serena que não compunham eixo nenhum, que os pitaguaris, assim como todas as nações nativas desse continente, eram o berço da cultura brasileira e das Américas. Que não havia ninguém ali presente que não tivesse sangue de índio, que ele respeitava todos os povos e suas manifestações, mas queria deixar claro que os pitaguaris eram uma nação independente, com cultura e identidade próprias, que mantinham escolas com a pedagogia de sua gente. Que todos presentes e não presentes é que pertenciam à cultura deles e não eles é que pertenciam a outra cultura. Balançou o maracá, entoou um canto de despedida, agradeceu e se foi do palco; mas fez questão de umas fotos comigo.

Chico Gadelha, fotógrafo de mão-cheia, registrou esses momentos, inclusive o meu aperto de mão com cacique. Fiquei tão próximo dele que lhe senti o cheiro. Matei minha curiosidade infantil de qual seria cheiro de índio. Agora sei: cheiro bom de fogão a lenha apagado. Como o cheiro do povo do sertão do meu Ceará.


Esse cheiro, inclusive, deve ter ficado na memória afetiva dos contadores de histórias que vieram participar do I Encontro Internacional de Contadores de Histórias no Ceará. Um evento que fez parte da programação oficial da 7ª Bienal.


O encerramento do encontro, dia 26 de agosto, foi com a Maratona de Contação de Histórias pela Paz. Nem bem acabou o evento, todos rumamos para a casa de Mota, aliás, para o fogão a lenha de sua casa. Em torno do qual haveria uma roda de histórias. Foi um encontro lítero-musical, gastronômico e multicultural.


Marcella Romero, do México, aprendeu, com a minha mulher, Lidiane Moura, a fazer tapiocas. Disse que em casa iria criar a "taccooca", uma mistura de tacco mexicano com a tapioca cearense. Para Socorocaba, Marcos Boi, blues man e partner de contação de Zé Bocca, levou as lições práticas que lhe dei de como fazer caldo de sururu. Fomos responsáveis pelo pitéu que saiu na madrugada e reanimou a todos.


German Jaramillo Duque já me escreveu da Colômbia registrando a saudade da “roda de histórias na casa de Almir”; do Peru, Cucha Aguila exige mais encontros junto ao fogão à lenha; do Brasil afora Luciana Tenório, Fabiano Moraes, Rogério Andrade Barbosa, Giba Pedroza e Renata Mattar, Zé Bocca e Marcos Boi, além dos cearenses Júlia Barros, Mara Monteiro, Josy Correia e Júlia Fiúza, Raimundo Moreira, todos relembram sempre o encontro como um dia mágico.


Houve contação de histórias, declamações e muitas canções, acompanhadas pela rabeca de Marcos, o acordeon de Renata, os tambores de Júlia Fiúza... Tudo foi-se acomodando à magia do fogão a lenha.


Andréa Havt, que organizara a Festa do Livro e da Leitura de Aracati (evento que se integrou, em 2006, à 7ª Bienal) apareceu também, trazendo a voz e o violão gaúcho de Vítor Ramil, junto a eles veio também o escritor Eduardo Loureiro, e tudo se conformou da melhor forma possível madrugada adentro.


Tudo ali no entorno do fogão à lenha. Que tinha como principal atração, na trempe, um caldeirão de barro com feijão-verde com muito queijo de coalho. Esse seria também o cardápio para o tal almoço de véspera da eleição; mas acabou virando baião, porque ao ouvir o convite nem pensei duas vezes, topei e disse fazer questão de preparar uns peixes. E no Ceará, peixe combina com baião.


No caminho escolhi cinco peixes bem-fornidos. E na casa de Almir, junto ao fogão a lenha, fizemos e servimos ao molho de gengibre e alcaparras os tucunarés com baião-de-dois.


O resultado da eleição do dia seguinte só não foi tão bom quanto o almoço, porque teríamos segundo turno para presidente. A próxima votação seria num domingo, dia 29 de outubro, dois dias depois do meu e do aniversário do candidato Lula.


O anfitrião disse fazer questão de comemorar meus quarenta e cinco anos junto ao fogão à lenha, no domingo. No fim das contas, o que eu pensava ter sido ruim seria melhor, pois teríamos comemoração dupla: festejaríamos também a reeleição de Lula, com uma mariscada acompanhada de uma especial salada de chuchu.


Mas infelizmente, a violência absurda, banalizada, assassinou Andréa Havt Bindá, uma semana antes, num assalto estúpido, em um cruzamento de duas avenidas de Fortaleza. O silêncio de reverência tomou conta de todos que a amam. Silentes ficamos, tal como lhe era habitual em sua enorme generosidade de cumprir a parte fundamental do diálogo: ouvir. Ouvir para entender e respeitar: atitude essencial à promoção da paz.



Kelsen Bravos

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Esperança verde-marinho

Ai Fortaleza, te digo agora como poeta, só suspirando!
... eu acredito em você, perdoe o tratamento.
Se não acreditasse, sumiria daqui como animal que foge sem dar a mínima...
Antônio Girão Barroso




Se a elite capitalista torna São Paulo um pasticho de Nova Iorque, a de Fortaleza tenta fazê-la uma caricatura de Miami. O que me leva a essa afirmação? Uma seqüência histórica de fatos que em nome da “modernização” dos costumes impinge uma ideologia predadora em que prevalecem os escrúpulos plutocratas, ou seja: “se o fim é o lucro não importam os meios, principalmente se o lucro é nosso”.

Dessa forma, nesse jogo sem lei, ganha quem deixa de lado valores de responsabilidade social e envereda pela seara do querer levar vantagem em tudo e de qualquer jeito, do quanto mais tem mais quer. Daí surgem os novos ricos em todas as áreas, que se somam aos herdeiros de latifúndios, indústrias, financeiras e da classe política que a eles se locupletam. Para afirmar sua força e obter prestígio, o vencedor desse jogo quase sem regras tem de mostrar o quanto pode comprar e ter, é a regra do vale pelo que tem. Isso gera um exibicionismo consumista de futilidades. Tudo que é efêmero vira necessário. Um mundo frívolo se instaura. Em seus carros importados, os filhos do fútil exibem sua ideologia: "Não sou o dono do mundo; mas sou filho do dono!".

Contagiam até a sagrada área da educação, primeiro sucateando escolas e universidades promotoras de estudos consistentes e em seu lugar instituem cursos de diplomação rápida muitos deles com base em literatura de auto-ajuda; esta, uma verdadeira liturgia da banalidade. À propósito de liturgia, não é à toa que surgiu nesse Brasil uma tal “empresa” Universal em nome do reino de Deus.

Esse processo predatório é bem antigo. A invasão ocidental gerou aqui o reino da aparência. Um exemplo simples disso são as roupas de lá que nunca deixaram de ser usadas aqui; apesar do forte calor tropical. Pura exibição. Como vemos, quase nada mudou até hoje.

Os efeitos de tal cultura sobre Fortaleza são desoladores. Os exemplos são inúmeros. Vou me ater apenas a um cenário que encanta ou fere a todos que chegam por aqui, o litoral, a beira-mar – das velas do Mucuripe ao pôr-do-sol da ponte velha que ainda não caiu.

Há menos de cinqüenta anos, o litoral de Fortaleza era povoado de pescadores e suas jangadas ocupavam não só a enseada do Mucuripe. As embarcações fundeavam ao longo da beira-mar no sentido oeste até a praia Formosa, que não tem esse nome à toa.

Na areia, era comum se ver varais com as redes de pesca estendidas nas quais os jangadeiros ou faziam reparos com suas agulhas de espinha de peixe ou estavam mesmo era confeccionando um novo arrastão. Prontas, eram dali mesmo testadas. Lançadas ao mar, ao serem puxadas vinham carregadas de peixes.

Hoje não mais se vê isso, senão na enseada do Mucuripe, onde há minguados barcos, quase nenhum peixe e pouquíssimos jangadeiros. Para onde foram os outros? Para a favela, pois a indústria pesqueira tomou seus lugares. E nada lhes deu em troca além de desemprego e fome. É a força da grana destruindo coisas belas.

Quando a elite descobriu o banho de mar, de repente o cenário da praia foi-se transformando, algumas melhorias ocorreram: calçadões, barracas, a urbanização enfim. Era a força da grana erguendo coisas belas.

A brisa do mar, o sol-posto, o céu estrelado ou as noites de plenilúnio e a aurora, espargindo luz no verde marinho e esperança nos corações cansados, se fundiam num canto de sereia aos boêmios da cidade seduzindo-os para os encontros sem-fim.

Entendamos por boêmios aqueles que são contestadores, têm o afã da liberdade, a emoção não lhes cabe em si, estão sempre - por mais que contidos - a transbordar de tristeza, de alegria, de inconformismo. Idealistas, por isso desconcertados do padrão.

O lugar da boêmia é onde o boêmio está. Costumo dizer que boemia é epifania que se constitui na gente. Ela está, portanto, em todos lugares e em lugar nenhum. Mas um canto de Fortaleza ficou marcado como reduto dessa gente que por não caber em si reverbera arte e contestação em forma de poesia, música, pintura, teatro, manifestos, política, enfim, na melhor acepção da palavra. O Estoril, a rua dos Tabajaras e seu entorno são esse lugar.

O Estoril passou a ser um belo restaurante que promove festivais gastronômicos de lagostas e camarões e reduto de encontro entre turistas e acompanhantes. Um lugar sem arte, onde quem o freqüenta testemunha, como quase todos em seu entorno, o prostiturismo que empesta a orla de Fortaleza. Conseqüências da lei plutocrata do “se o fim é o lucro não importam os meios, principalmente se o lucro é nosso”. Hoje o Estoril está fechado, abandonado pelos gestores da cidade; mas os “turistas” e as acompanhantes continuam por lá.

Tento lembrar de quando minha Fortaleza perdeu a delicadeza e a memória me fez ir bem mais longe do ano em que nasci, fui de carona na voz do texto do poeta Antônio Girão Barroso, numa crônica sobre Fortaleza, em que ele, estranhando o crescimento da cidade, pontua perguntando a ela: “Fortaleza, você está grávida, meu bem?”

 Daquele tempo até hoje, é óbvio, a Aldeia cresceu. Que mal há nisso?! Até os filhos crescem!!!. Não há, portanto, mal algum, certo? Errado. Ela cresceu, como estava a comentar, sempre totalmente à revelia dos que a amavam/amam e que nunca foram contra o seu progresso. Os poetas sempre ficamos ali, alijados, do progresso da cidade imposto pelo (mau)gosto consumista de uma elite fútil.
Antes de o Estoril deixar de ser um portal para boemia, havia o Cirandinha e, bem depois dos dois, o Cais, que se tornou assim uma espécie de tábua de salvação para náufragos. Tudo foi engolido, até ele, pela sanha do lucro e por causa de nossa incompetência de defender a delicadeza.

O fato mais triste é que agora estamos dispersos, e por mais que inventemos cais, sinto que não teremos mais esses ancoradouros; por outro lado tento me apegar numa esperança verde-marinho pelo fato de que ninguém mais pode tirar esses lugares de nós, nem o meu de mim e nem o de cada um de si; entretanto, sei, o ruim é que "tiraram" o Cais de todo mundo. E nos dispersamos.

"Expulsos” como os jangadeiros, deixamos livres os espaços para a transformação grotesca de Fortaleza numa Miami dos trópicos. Com essa finalidade é que os vendilhões tentam cada vez mais transformá-la para nós numa porca velha parida, ou seja, uma mãe que devora os próprios filhos.
(Essa comparação, o Lira Neto, ao som de Vinícius, numa libação vespertina lá no Cais, foi quem me disse que lhe disse Antônio José Forte, um pianista sem igual, que o mercado local e a cidade ignoram. “Fortaleza é uma porca velha”, disse-lhe por isso o músico boêmio.)
Essa realidade não é privilégio de Fortaleza, é brasileira. O que então apaixonados pelo tempo da delicadeza podemos fazer para mudar essa história?

Cansado de esperar, arregacei as mangas e me juntei a outros sonhadores de pés no chão, e depois de uma eleição histórica elegemos uma administração municipal comprometida com os destinos de Fortaleza, a fim de cercar a tal porca velha, para, em breve, dela nos livrarmos. E ao fazermos isso salvarmos nossa cidade-amante, que para muitos – enganados que estão pelas palavras do poeta Paula Ney – é loura e desposada do Sol; mas de fato é mestiça e solteira e "quase" livre, descendente de Iracema, tão linda quanto ela.

Uma bela mulher de quem já ameacei ficar de mal – como fez Dorival Caymmi com a morena Marina –, quando ela, a minha então ingênua Iracema, influenciada pelo meio fútil, quis se oxigenar para ficar loura e seduzir a quem vive atentando contra sua beleza natural.
Os tempos, entretanto, são outros, pois a mestiça está consciente de que ser falsa loura pode torná-la de todo feia como quase feio ficou-lhe o rosto depois da operação plástica que fizeram na beira-mar, calçamentaram ali, aterraram aqui, edificaram acolá, no sentido de a quererem cada vez Miami. E a nós, cada vez alhures!!! Como muitos que já daqui se foram dizendo que para nunca mais voltar. Particulamente espero que a saudade do verde marinho nessa gente que partiu se transforme em esperança sabiá de que nos fala Tom Jobim.
Kelsen Bravos