Recebi, em meu e-mail, desta menina da foto (captada pelas lentes de Chico Gadelha), um convite muito especial:
Joélia Vieira, agente de leitura em Jardim, CE
Oi Kelsen, Agente de Leitura Joélia, há quanto tempo heim? Ei estou convidando-lhe para um encontro de sensibilização entre as famílias com que trabalho, será no dia 28 de outubro às 13:00 h em minha residência no Sítio Jardim, em Jardim - CE.
Conheci Joélia e mais 23 pessoas lindas, em maio de 2006, em Assaré, onde fui ministrar uma capacitação ("Sensibilização e Pedagogia da leitura") para os agentes de leitura de lá e de Jardim. Ambas ficam no Cariri, ao sul do Ceará. Os Agentes de Leitura são um bem-sucedido projeto idealizado naquele ano por Fabiano dos Santos, então coordenador de Políticas do Livro e Acervo da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, a coordenação do projeto coube a Geórgia Zaranza e contava ainda com a colaboração de Andréa Hávt Bindá ("um beijo, Dea, onde você esteja").
Financiado pelo Fundo de Combate a Pobreza - Fecop, o projeto desde o primeiro semestre de 2007, está meio esquecido pela gestão que assumiu o governo este ano. Sem receber, respectivamente, a bolsa e o pro labore, tanto os agentes como os coordenadores do projeto, que já virou política pública de estado, continuam trabalhando. O estranho é que a verba está disponível, mas não é repassada, e ninguém se digna a explicar a razão. (Veja o projeto).
Impossibilitado de ir ao encontro, por compromissos anteriormente assumidos, em resposta a seu convite, escrevi uma carta aberta às Famílias Leitoras de Jardim. E na intenção de estar bem pertinho, pedi que Joélia Vieira a lesse em meu nome. Seria emocionante chegar aos presentes saindo dela, como num parto poético. Eu me harmonizaria com todos e todas pela harmonia entre mim e ela. O coração deles e delas pulsaria pela emoção de seu coração ao ler o que o meu coração pulsa ao escrever para todos.
Eis a carta:
Famílias leitoras de Jardim,
Meu nome é Kelsen Bravos e além de escritor sou fã dessa pessoa que ora me lê para vocês. Desde que a vi ainda em maio de 2006, lá em Assaré, senti o quanto havia de intensidade poética, de beleza e compromisso social em seus sonhos. E hoje eu estar aqui, participando desta sensibilização junto a vocês assim sendo lido por ela é a maior prova de que o quanto senti a respeito de Joélia era verdadeiro, pois ela é uma GENTE de leitura que semeia livros no coração de cada um de nós com muita força poética, beleza e compromiso social.
Parabéns a vocês todos, dos mais pequeninhos aos mais grandões, dos mais velhos aos recém-nascidos, parabéns, por serem uma família de leitores que se emocionam, sonham e despertam com a fé transformadora do bem social. Quero abraçar a todos e dizer que os amo.
Amar é uma palavra muito importante. Vem da palavra amor. A palavra amor significa não deixar morrer. É por isso que quando uma pessoa muito querida morre, nos sentimos tão impotentes; porque temos a impressão de que junto a ela se foi também nossa capacidade de não deixar morrer, que o nosso amor faliu, acabou. Mas não é assim que nossa capacidade de amar acaba. Ela só acaba quando a gente desiste de amar. Se é que acaba...
Amar, como já lhes disse, é não deixar morrer. Não deixar morrer uma planta, um bichinho, uma idéia, um sonho bom, as pessoas, é não deixar morrer antes da vontade de Deus.
Amar é não deixar morrer a lembrança de quem nos é caro. É preservar as coisas, a natureza, a memória, a cultura, as pessoas.
Eu queria abraçar e dizer isso a todas as pessoas do mundo. Mas no mundo existem mais de seis bilhões de pessoas espalhadas por todos os lugares. É por isso que escrevo, para que, mesmo depois de eu ter-me ido prestar contas com o Além, continue "falando" com elas a partir do que deixei escrito.
Com meus livros quero afirmar o amor que sinto pelas pessoas, pelas coisas e seus lugares. São uma forma de eu dizer: vamos amar uns aos outros e amar nossos lugares, as coisas e todas as outras formas de vida, as plantas e os animais. Não podemos deixar morrer nossas idéias, nossas emoções, a natureza, as pessoas (ou a lembrança delas)... não podemos deixar morrer nossa cultura. Escrever é, portanto, um ato de amor.
Entretanto existe um gesto de amor mais importante do que o de escrever. Sabem qual é? Vou lhes dar uma dica:
Imaginem um livro numa estante, sem ninguém pegá-lo. Se ficar assim cem anos, ele ficará cem anos morto. Mas se você pegar esse livro e começar a lê-lo, você estará fazendo um gesto divino de amor; estará ressuscitando quem escreveu, e aumentando a própria capacidade de ler e entender o próximo e a si mesmo, estará ampliando a sua capacidade amar.
Portanto, leiam, leiam sozinhos e leiam em grupo, leiam sempre, porque ler é amar!
Um beijo azul,
Kelsen Bravos