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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
sábado, 24 de julho de 2010
Incompetência impede artista africano de entrar no Brasil
Recebi, por e-mail, carta-denúncia do preconceito, má-fé ou incompetência de policiais federais, no aeroporto de Belo Horizonte, ao tratar com o renomado escritor e contador de histórias camaronês Boniface Ofogo Nkama, rei e detentor da palavra, um mestre da cultura de seu povo. A situação por que passou o Sr. Nkama, segundo nos relata Benita Prieto, também constrangida, organizadora do Simpósio Internacional de Contadores de Histórias, é, no mínimo, um acinte contra o bom senso.
Presto minha solidariedade a Benita Prieto, amiga com quem compartilho a representação da categoria dos mediadores do livro, leitura e literatura, junto ao Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura, uma artista cujo trabalho dignifica a cultura deste país. Em nome de Benita Prieto, do Sr. Boniface Ofogo Nkama e do Brasil, com autoridade de cidadão brasileiro que zela pelas instituições deste país, exijo mais RESPEITO à cultura, ao fundamental trabalho da Polícia Federal, que neste caso foi muito mal representada. Mais respeito e a urgente reparação deste constrangedor acontecimento.
Veja o que nos relata Benita Prieto:
Ele havia estado com a Vice-Cônsul do Brasil em Madri, no dia 20/07, com toda a documentação e foi informado que há pouco tempo foi celebrado um acordo que dispensava o visto dos cidadãos camaroneses. Confirmando o e-mail que eu havia recebido do setor de vistos do Consulado do Brasil em Madri dizendo não haver necessidade, pois a carta convite de intercambio cultural era suficiente para sua estada no país, como turista, durante três meses.
Boniface embarcou sem problemas, mas ao chegar ao aeroporto de Confins/MG a Policia Federal não permitiu sua entrada. Embora ele tenha relatado toda a situação, mostrado os documentos, cartas, e-mails, seus livros, o programa do Simpósio de Contadores. UMA SITUAÇÃO HUMILHANTE E CONSTRANGEDORA.
Boniface me telefonou às 17 horas dizendo que às 19 horas seria DEVOLVIDO a Madri. Imediatamente liguei para a Polícia Federal do aeroporto de Confins perguntando o que poderíamos fazer. E eles me disseram que nada.
Recorremos ao serviço de imigração e o Ministério das Relações Exteriores enviou uma permissão para a entrada no país.
A Polícia Federal alega que a permissão chegou as 19h31 e o voo já havia partido as 19 horas. E novamente me disse que não se podia fazer mais nada.
A situação é lamentável nesse momento em que o Presidente Lula acaba de voltar da Africa para acordos de cooperação com esse continente que é o berço da humanidade.
E imaginem o que pode acontecer na Copa do Mundo de 2014 e nas Olimpíadas de 2016 se as informações dos consulados do Brasil no exterior divergem das que existem no nosso país.
Peço a todos que nos apoiem enviando este email para sua rede de amigos e para todas as instituições públicas e privadas, nacionais e internacionais, que conheçam. E repliquem esse e-mail nos seus blogs e nas redes sociais.
Benita Prieto
Idealizadora e Produtora do Simpósioe-mail : simposiodecontadores@ simposiodecontadores.com.br
Presto minha solidariedade a Benita Prieto, amiga com quem compartilho a representação da categoria dos mediadores do livro, leitura e literatura, junto ao Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura, uma artista cujo trabalho dignifica a cultura deste país. Em nome de Benita Prieto, do Sr. Boniface Ofogo Nkama e do Brasil, com autoridade de cidadão brasileiro que zela pelas instituições deste país, exijo mais RESPEITO à cultura, ao fundamental trabalho da Polícia Federal, que neste caso foi muito mal representada. Mais respeito e a urgente reparação deste constrangedor acontecimento.
Veja o que nos relata Benita Prieto:
Boniface Ofogo Nkama (http://www.boniofogo.com/ ) nascido na República dos Camarões e radicado na Espanha desde 1988, nosso convidado para o Simpósio Internacional de Contadores de Histórias (www.simposiodecontadores.com. br) que acontecerá na próxima semana, no Rio de Janeiro e em Ouro Preto, foi impedido de entrar no Brasil, no aeroporto de Confins/BH, pela Polícia Federal que alegou falta de visto, no dia 23/07/2010 (sexta-feira), vindo de Madri em voo da TAP.
Ele havia estado com a Vice-Cônsul do Brasil em Madri, no dia 20/07, com toda a documentação e foi informado que há pouco tempo foi celebrado um acordo que dispensava o visto dos cidadãos camaroneses. Confirmando o e-mail que eu havia recebido do setor de vistos do Consulado do Brasil em Madri dizendo não haver necessidade, pois a carta convite de intercambio cultural era suficiente para sua estada no país, como turista, durante três meses.
Boniface embarcou sem problemas, mas ao chegar ao aeroporto de Confins/MG a Policia Federal não permitiu sua entrada. Embora ele tenha relatado toda a situação, mostrado os documentos, cartas, e-mails, seus livros, o programa do Simpósio de Contadores. UMA SITUAÇÃO HUMILHANTE E CONSTRANGEDORA.
Boniface me telefonou às 17 horas dizendo que às 19 horas seria DEVOLVIDO a Madri. Imediatamente liguei para a Polícia Federal do aeroporto de Confins perguntando o que poderíamos fazer. E eles me disseram que nada.
Recorremos ao serviço de imigração e o Ministério das Relações Exteriores enviou uma permissão para a entrada no país.
A Polícia Federal alega que a permissão chegou as 19h31 e o voo já havia partido as 19 horas. E novamente me disse que não se podia fazer mais nada.
ESSA ATITUDE É INACEITÁVEL. Boniface é um artista reconhecido internacionalmente e que já esteve em 18 países sem nenhum problema, inclusive no Brasil, em dois simpósios anteriores, e foi um dos protagonistas do documentário Histórias que gravamos aqui em 2005.
Estou envergonhada e preciso tomar uma atitude, pois tenho certeza que houve PRECONCEITO COM UM AFRICANO, POR SER NEGRO E ARTISTA.
Boniface é um artista excepcional, um contador de histórias, um intelectual, um mediador intercultural, um escritor. Vinha para o Brasil para estrear no Simpósio o documentário En Memória uma homenagem a seu pai, recentemente falecido. Ele é da etnia yambasa onde seu pai era rei e o detentor da palavra, um mestre da cultura popular. E Boniface por tradição agora representa na sua etnia o que foi seu pai.
Nossa primeira ação foi entregar para um advogado todos os documentos pedindo que Boniface seja trazido ao Brasil para o evento com todo o respeito e dignidade que merece. E com um pedido de desculpas do governo brasileiro.
Estou envergonhada e preciso tomar uma atitude, pois tenho certeza que houve PRECONCEITO COM UM AFRICANO, POR SER NEGRO E ARTISTA.
Boniface é um artista excepcional, um contador de histórias, um intelectual, um mediador intercultural, um escritor. Vinha para o Brasil para estrear no Simpósio o documentário En Memória uma homenagem a seu pai, recentemente falecido. Ele é da etnia yambasa onde seu pai era rei e o detentor da palavra, um mestre da cultura popular. E Boniface por tradição agora representa na sua etnia o que foi seu pai.
Nossa primeira ação foi entregar para um advogado todos os documentos pedindo que Boniface seja trazido ao Brasil para o evento com todo o respeito e dignidade que merece. E com um pedido de desculpas do governo brasileiro.
A situação é lamentável nesse momento em que o Presidente Lula acaba de voltar da Africa para acordos de cooperação com esse continente que é o berço da humanidade.
E imaginem o que pode acontecer na Copa do Mundo de 2014 e nas Olimpíadas de 2016 se as informações dos consulados do Brasil no exterior divergem das que existem no nosso país.
Peço a todos que nos apoiem enviando este email para sua rede de amigos e para todas as instituições públicas e privadas, nacionais e internacionais, que conheçam. E repliquem esse e-mail nos seus blogs e nas redes sociais.
Benita Prieto
Idealizadora e Produtora do Simpósio
terça-feira, 16 de outubro de 2007
Em preto e branco
Quem nunca cometeu um preconceito que atire a primeira pedra. Os piores deles são os que se cometem por, digamos, tradição, por costume. Estão de tal maneira introjetados no inconsciente coletivo que pouco são identificados; o que torna seus efeitos danosos, por vários motivos. O primeiro deles pela dificuldade de explicá-los e, portanto, combatê-los. A vítima deles ao questioná-los, na maioria das vezes, é ridicularizada acusada de estar exagerando na sua crítica (ou na sua autodefesa), dizem que ela está vendo cabelo em casca de ovo. Quem há de perceber preconceito numa expressão comum entre prestadores de serviço como “trabalho de branco”?Outro dia deixei meu carro numa oficina e o gerente na minha frente recomendava ao mecânico, um negro, esmero especial: “Não se preocupe só faço trabalho de
branco”, respondeu.Quase vou embora, pois nessa expressão, em tal contexto, "tudo" contra a raça negra está presente: seu trabalho não presta, negro é preguiçoso, desleixado, incompetente, enfim tudo de ruim. Quem construiu essa imagem? Ah foram bem os donos de escravos e afins que os viam fazer trabalhos (escravos) sem a menor vontade, daí afirmarem que negro é indolente, só trabalha, a muito custo, sob o lanho da chibata. Isso é mais do que preconceito e merece uma reflexão.
Preconceito existe e de todas as formas, os positivos (se é que se pode dizer assim) e os negativos. Como exemplo dos primeiros, temos várias expressões: “os ingleses são pontuais” é uma delas, bem como dizer que “os brasileiros são criativos”. Um perigo, ambas, pois nem todos ingleses são pontuais e nem todos os brasileiros são criativos, nesta ainda há uma apologia ao energúmeno “jeitinho brasileiro”. Na outra uma supremacia de raça. Supremacia esta que os britânicos fazem questão de propalar de todas as formas até com as mais eufêmicas, como num registro que encontrei na Enciclopédia Barsa, que diz que hoje na Tasmânia os habitantes são todos de origem britânica, pois os nativos “extinguiram-se em luta contra os ingleses”. Coitados dos nativos que se suicidaram ao se defender e desafiar o império geno e etnocida.
Exemplo de preconceito negativo são expressões como “programa de índio” para definir um lazer desagradável. Ora bolas o que é que índio tem a ver com o mau gosto ou a desventura alheia? Parece brincadeira, mas não é, pois essa associação acaba por criar uma rejeição étnica que pode levar alguém – num país propenso a querer dar um jeitinho em tudo – a se vingar dos índios tocando fogo, por exemplo, em um pataxó. (Pura ficção, não é mesmo?)
A linguagem reflete mesmo a identidade, revela sim de forma surpreendente como pensa e age um povo. E tradicionalmente, a começar na linguagem, a cultura branco-ocidental e a de seus herdeiros coloniais revelam-se preconceituosas. Quanto a isso vejamos o excelente trabalho do professor doutor José Lemos Monteiro sobre o preconceito na literatura, em que afirma: “O brasileiro denuncia em suas formas de manifestação linguística um sentimento de desvalorização ou até de aversão ao negro e, de modo oposto, uma atitude de apreço e respeito pelo branco”. E continua: “basta consultar o Dicionário Aurélio para se comprovar a diversidade de conotações atribuídas aos lexemas 'preto' ou 'negro' (Sujo, encardido) ou 'branco' e 'alvo' (Puro, inocente, cândido)".*
Daí, Lemos investiga cem obras literárias desde a formação do Brasil até os nossos dias extraindo 750 exemplos em que os escritores utilizam “preto” e “negro” de forma depreciativa, ao contrário de branco e alvo, empregados com valores positivos. E destaca surpreso: “É curioso
que, até mesmo na poesia de Castro Alves, que tanto lutou em favor da libertação dos escravos, essas conotações se fazem presentes, como prova de que se encontram sedimentadas no inconsciente coletivo de nosso povo”.(Não posso deixar de citar um esquecimento de Lemos em relação a Monteiro Lobato, que tratava, via boneca Emília, a personagem Tia Anastácia de "negra beiçuda".)
As conotações para negro e preto, 90% delas, evidenciam: “depreciação, menosprezo, discriminação; morte, tragédia, desgraça, sinistros; desgosto, amargura, solidão; tristeza, tédio, melancolia; maus pressentimentos, preocupação; medo, susto, terror; azar, agouro, fatalidade; inveja, despeito, ressentimento; destruição, estragos, manchas; crime, maldade, prisão; deslealdade, ingratidão; feitiçaria, satanismo, bruxaria; pedantismo, boçalidade; hediondez, feiúra, monstruosidade; miséria, humilhação; nojo, náusea, imundície, podridão, lixo; depravação, promiscuidade, lascívia, pecado, vícios”.*
Se a linguagem é um espelho da sociedade, quem nasce com a tez negra ou dela é descendente, bem cedo convive com essas conotações em maior ou menor grau. Expressadas das mais diversas formas, desde o desdém inconsciente das professoras na pré-escola, a desatenção dos garçons, até o menosprezo da competência profissional, como a do gerente em relação ao mecânico do início deste texto e a do próprio mecânico que, para se autoafirmar, comparou seu trabalho ao de branco.
Dada a sutileza dessa questão, depois de uma longa tolerância a esses preconceitos, a reação das vítimas pode eclodir de forma violenta, expositiva, quase inexplicável. O que aparentemente lhe tira a razão; mas se formos encarar esse fato de forma sensata, concluiremos que não compreender a reação da vítima é como não querer compreender o grito de quem chegou ao limite de uma implacável tortura chinesa (que é lenta, contínua e interminável).
Sem receio de generalizar, pode-se afirmar que toda sociedade é preconceituosa; mas o que difere uma das outras é a forma como trata o preconceito. Daí casos de ofensas com expressões racistas, devam ser punidos em todo o mundo de forma exemplar, a fim de começarmos a dar um basta nesse desrespeito a pessoa humana.
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** Fonte: MONTEIRO, José Lemos. O branco no preto: as negras expressões de racismo na Literatura Brasileira. Matraga: Revista do Programa de Pós-graduação em Letras. Rio de Janeiro, UERJ, 9 (14): 141-62, 2002.
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** Fonte: MONTEIRO, José Lemos. O branco no preto: as negras expressões de racismo na Literatura Brasileira. Matraga: Revista do Programa de Pós-graduação em Letras. Rio de Janeiro, UERJ, 9 (14): 141-62, 2002.
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