segunda-feira, 24 de abril de 2017

Túlio Monteiro: VIDA DE DOR

Tem piedade de mim! Deixa-me ao menos
Desfrutar um momento de prazer,
Pois que é meu fado despontar na aurora
E ao crepúsculo morrer!… 
Vida de Flor – Fagundes Varela 


Hoje estava a relembrar-me de alguns poetas de lida e de linho. Conheci muitos. Dos que vestiam a mesma roupa, sempre, aos janotas dos clubes e saraus modernosos, cheios de perfumes e firulas a declamar e decantar suas musas, seus feitos bravios, suas conquistas e metais raros. 

Como atravessei o século 20 e já estou no 21, não foram poucos os bardos que vi passarem dessa para melhor. Uns em cortejos dignos de garbosos féretros outros na mais completa solidão de alguns gatos pintados e carpideiras de última hora. O certo é que ela sempre vem, incólume e silenciosa. Senta-se e espera com seu rosto magro que os tolos sepultem o que sobrou de um poeta, lambendo os beiços por ter levado mais um ou uma que cismou em desafiá-la, cada qual ao seu modo. Para quê citar ou não citar nomes? Simples! Com muitos só troquei um bom dia e de outros fui amigo até hoje mesmo depois de suas idas sem vindas nem vidas. Mas é melhor deixar os mortos em seus descansos finais para darmos mais fluidez nesse mero texto ora a homenagear um amigo. Ainda vivo, diga-se de passagem. 

Mais um desses sujeitos simpáticos que conheci vendendo ou distribuindo sua poesia pelas ruas e praças de Fortaleza nos idos anos 1990, já de bengala às mãos feito um Chaplin com ares de cearense da gema. Falo de Jorge Furtado, que até no nome não foi poupado no que se diz respeito à sua beleza. Sempre risonho é outra dessas figuras ímpares que te fazer sorrir e não rir de suas estripulias. A exemplo de já ter espalhado sua passagem mais de umas vinte vezes o que de início, qual a fábula do garoto e seus cordeiros, sempre nos deixava tristes, enlutados e pensando como faríamos para dar conta de outro Mário Gomes. 

Brincadeira dele, sim! Sempre teve essa mania de dizer morto, o velho Jorge. E pode anotar aí, que de tanto falar nesse tom de decoreba um dia ele acaba acertando e ninguém vai acreditar. Creio que só vamos encontrar o Jorge da mesma forma que foi encontrado o Nilto Maciel, uns três dias depois e, ainda assim, por acaso. 

Está cansado, só e doente Jorge Furtado. Ossos fustigados. Dia desses me falou que está sendo muito bem amparado pelo pessoal da Casa do Cantador de Fortaleza, mais conhecida como ASCAN – Associação dos Cantadores do Nordeste, lá para os lados do Carlito Pamplona. 

Traços de quem sabe das dores que deveras sente, mas não perde a piada de revés; aquela que chega em tom de chiste e sempre enrola a gente com o jeito moleque de cearense de ser. Findo-me, pois, a admirar e suscitar as dores que afligem o poeta ao escrever os versos abaixo em pleno vigor de sua capacidade intelectual em detrimento de sua saúde física. Mas, enfim, eles são assim mesmo, eternizam-se em seus escritos: 


POEMA DE RESISTÊNCIA
Luto contra o tédio e a solidão que me assedia na madrugada insone.
O fardo do meu fado é enfadonho.
A cidade está em caos!
Os meus já se tornaram crônicos.
Sou um paiol de conflitos preste a explodir,
A guerra que travo comigo mesmo me esmaga os ossos
e me dilacera os nervos, mas a poesia me serve de paliativo,
enquanto o fim não entra em cena.
(Jorge Furtado - 2017)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Túlio Monteiro: TEMPOS QUE COMETAS NÃO ESQUECEM

Ele e o cometa fulgurante que espatifou um asteroide pequeno que todos chamam de Terra
(Kryptônia – Zé Ramalho)




“Foi bonito demais! ” . Assim ouvi, ainda menino de calças curtas, meu avô Laurindo Monteiro narrar a passagem do danado do Cometa de Halley por aqui. Era 1910 e as exatas 65.816 almas que habitavam Fortaleza pararam completamente entre as madrugadas de 17 e 18 de maio daquele ano da graça para apreciarem a noite virar dia por 72 horas.

– Dava para encontrar uma agulha no chão de tão claro que ficou o dia, meu neto. Você precisava ver a belezura que ficou a noite. Nada se perdia, ninguém precisava acender lampiões a gás e as pessoas passeavam à noite sem medo de escurecer. Foram 3 dias lindos. Dias assim, assim, não...disse-me ele a consultar seu velho relógio de algibeira...eram as mesmas horas passando aqui nesse meu relógio de já tantos anos, mas noite que é noite passaram muitas horas para voltar a acontecer.

Fui o neto mais próximo de meu avô paterno desde meu nascimento, afinal desde quando arregalei os olhos pela primeira vez até sua morte moramos em casas irmanadas, parede com parede, telhas vãs, daquelas que tudo cortava o silêncio da madrugada. Até o breve ronco do velho que descansava depois de um dia de lida no mercadinho no qual ele se entretinha em conversas com quem ia e vinha, acordava-me fácil. Muitos paravam mais para uma prosa que bem para comprar as mercadorias que ele vendia, chapéu de massa na cabeça, por vezes cochilando em entre tardes-noites. 

Não nos percamos nos segredos que guardam o passado e trazem o futuro para voltarmos à passagem do Cometa do fim-do-mundo por aqui. Uma vez que Planeta afora haviam anunciado aos quatro ventos (desculpem o trocadilho), que o Mundo iria se acabar em 1910 e pronto. Todos pensavam que com a passagem da Terra por dentro da cauda do cometa gazes letais e sufocantes matariam boa parte da humanidade. Muitos pereceriam ante mais uma peste lançada por Deus, sempre Ele, aos pecadores. Por aqui, em Fortaleza, o autor dos dias de meu pai Bernardo Monteiro, não viu, mas ouviu falar que teve gente que se matou naquelas madrugadas sem escuridão na Terra da Luz. 

Como historiador, prefiro os fatos reais aos fictícios e, em pesquisas alfarrábicas, descobri que em 17 de junho de 1910, exatamente um mês depois da famosa passagem do Halley foi inaugurado em noite de gala o Theatro José de Alencar. Aí, sim, o negócio deve ter sido bonito. Fogos de artifício rasgaram os ares daquela noite com apresentações culturais e, claro, os discursos políticos de praxe. Entretanto, por razões desconhecidas a inauguração real do Theatro José de Alencar só ocorreu na noite de 23 de setembro de 1910, com apresentação da Companhia Dramática Lucile Perez, com a peça O Dote, de Artur Azevedo. Teatro lotado, aplausos e gente feliz.

Levou dois anos para ser construído a mando do governador Nogueira Acioly, apesar da pedra fundamental ter sido ficada em 1896 pelo então presidente da província Bezerril Fontenele no centro das Praça Marquês de Herval, hoje também chamada de Praça José de Alencar. 

Foi em 6 de outubro de 1906, seguindo-se rigorosamente a planta elaborada pelo engenheiro militar Capitão Bernardo José de Melo que o Theatro passou a ser erguido em estrutura metálica com ferros importados da Escócia pela Walter Mac Farlanes Co. e Serrane Fondri, de Glascow. Todo o prédio é confeccionado em art noveau e coríntio, de modo similar aos teatros-jardins tão pertinentes à sua época. 

Mas não é só por fora que o Theatro José de Alencar guarda seus segredos pouco conhecidos. E não estamos falando da lenda urbana da mulher de branco que por lá vaga todas as noites. Falo das belezas que podem ser vistas por lá aos olhos de quem pousá-los com supervisão de historiador. Por exemplo, foi o cearense Ramos Cotoco, assim chamado por lhe faltar uma parte do braço esquerdo decepado que deve ter sido, quem pintou os nomes das obras literárias de José de Alencar nas frisas e grades. Além das figuras femininas no teto da sala de espetáculos. Já Paula Barros, paraense, foi o autor dos retratos do maestro Carlos Gomes e José de Alencar, além da representação das três artes – pintura, música e drama – na cúpula oval da sala de espetáculos, enquanto Rodolfo Amoedo, professor de Cândido Portinari ficou encarregado da moldura circular acima do pano de boca. A Gustavo Barroso e Herculano Ramos, o encontro de Iracema com o Guerreiro Branco no 1º pano de boca. Em 1974, com a grande reforma que tratou dos retoques e concertos das cadeiras de palhinha, esteve por aqui Burle Marx que instalou mais um de seus famosos jardins onde funcionou até 1973 o centro de saúde da cidade.

Suplantados os talvez suicidas tresloucados, detenhamo-nos nos fatos da história, como por exemplo o fato de que a Terra ainda continua por aqui e que em 1986 eu mesmo me mandei para a praia do Iguape com Eloisa à época minha namorada e alguns amigos que estão por aí afora cuidando de suas vidas. Fomos ver quem? Sim, ele o cometa de Halley que tem por mania passar perto da Terra a cada 76 anos. Perguntem-me se nós vimos alguma coisa. Nada! Absolutamente nada, uma vez que a poluição visual das luzes artificiais e a distância que nos separou do fugidio astro nada nos trouxe além de frustação. Ainda éramos moleques de 20 anos e juramos ali que na próxima vez voltaríamos para ver o Halley a olhos nus. Só esquecemos de calcular que essa próxima vez será em 2062. Quem sabe um de meus filhos ou netos poderão se dar a esse luxo, pois com 98 anos não espero mais estar por cima dessas terras áridas desse Nordeste brasileiro. 










segunda-feira, 10 de abril de 2017

TÚLIO MONTEIRO - Roupas com cheiro de mala

O tempo passa em meio a momentos que fazem um dia monótono.
Você perde tempo gastando as horas de modo descuidado.
Perambulando por aí, em sua terra natal; esperando alguém ou algo que te mostre o caminho.
(Time. Pink Floyd)


Levantou-se e largou o lençol de cambraia de linho ali mesmo. Não aguentava mais aquela relação com cheiro de vou embora hoje. Estava realmente chateado em estar com idade tão tenra caminhando a passos largos rumo a lugar nenhum. Parecia o papel de seda das arraias que ditosamente revoavam as paisagens da sua infância de menino magrelo a correr mundo pelas veredas do lugar onde nascera. Fino e quase transparente.

Precisava se desgarrar dali, soltar amarras e, à sota-vento, partir rumo de algo mais engraçado que baús, televisões, contas para pagar e caras amarradas. Amores de papel crepom soltando suas cores em copos d´água verdes, vermelhos, amarelos e azuis. Simplesmente não dava mais. Era isso e pronto, que fossem às favas os livros que o cercavam, cachorros, gatos, inclusive naquele instante mesmo pensava como era ser um gato-pingado em tempos de carpideiras e quimoeiros a flertar com a loira desposada do Sol...essa tal Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Com seus fortes e rios entrecortantes: o Cocó de um lado e o Ceará de outro, Leste-Oeste de um barco há muito encalhado lá pelas bandas da velha Ponte do Ingleses. E riu um riso solto, quase louco e tenebroso de pensar como são as coisas. Enquanto os ingleses festejam até hoje o afundamento do Titanic, nós temos por aqui um tal de Mara Hope encalhado em um banco de areia sem servir para absolutamente nada. 

Mas não arreparemos, não! Já que na voz da música, cantar parece com não morrer...tudo isso enquanto ele engomava mais uma vez a calça encardida que teimava em não desamarrotar. Tênis já tão caminhados com buracos nas solas. E lembrou Chaplin a comer solas de sapatos em cena de vida de artista. Dava não. Vestiu a calça, uma camiseta básica e saiu pela porta do lado com as manias que sempre o perseguiram desde criança. Transtorno obsessivo compulsivo, sapecou-lhe aos ouvidos um dia o médico de loucos que todos agora insistem em chamar de psiquiatras. Alcunha mais leve para quem tem problemas de autoestima e tem que tomar remédios controlados para não sair distribuindo sopapos pela rua afora. À noite reverteria a coisa. Daquela não passaria. Olhou para as malas e saiu.

Dia todo no mundo e mais um dia cinza por terminar. Chegou de volta, abriu o guarda-roupas e de lá retirou as peças que ainda lhe cabiam, todas com aquele odor de roupas com cheiro de mala. Estava decidido. Partiria antes que todos voltassem e assim o fez. Esqueceu a luz acesa e foi embora. Nunca mais retornou! O badalar do sino de ferro chamando os fiéis, de joelhos, para ouvir o encanto suave de suas palavras.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Márcia Matos: ... em dias de branda chuva...

Eis Márcia Matos, dessas pessoas lindas de quem a poesia emana tão natural quanto réstia de sol a expressar cores em gotas aspergidas pelas cachoeiras dos mais secretos arroios das serras. Assim seu olhar vê o derredor, e nos oferta em sinestesias. (K.B)

________



As roupas ventavam na cerca de arame naquela tarde sonolenta de quintal. O tempo se perdia na preguiça de nada olhar com atenção e se arrastava de restos de sol pálido de um dia inteiro nublado. A paisagem regia a inutilidade das coisas. Nasci nesse ambiente frio do nordeste e por vezes me porto como os caramujos que se alastram devagar pelo muro gosmento de um fraco inverno. Ser natural de rua descalça de asfalto e de pedra nos traz uma neblina no olhar para as coisas insistentes de agenda. Dia que nem inspira prosa e demais lento para o brincar poético das borboletas no lago branco sobre a mesa respingada de vinho suave e tinto do almoço.

Márcia Matos

Ao som de pássaros e cata vento adormeço de não haver tormentos. Nada me exige nesta tarde entediada de jumento, cachorro e sapo.

Só esta mariposa que pousa agarrada a esta folha, sem mais força nas asas para voo maior de aventuras...

Passam-se assim esses dias de branda chuva. A rede me embala para os tempos de inocência nesta varanda onde antes cresciam os meus sonhos em frondosos galhos... cheiro de manga rosa menina; de cana doce cortada por mão de mãe e língua roxa de azeitona madura...

Acordo pelos mosquitos que não mais me reconhecem intrigados com fragrâncias de outras terras enquanto meus pecados de mulher me despertam com o soar repetitivo que clama à prece na pequena Matriz.

Levanto devagar para não despertar os anjos noturnos... sob o olhar da lua embaçada em céu pouco estrelado e atenuada pela minha miopia da verdade.

[por Márcia Matos março/2016. Croniquetas de um ano a se iniciar pós carnaval na serra:

Sem motivos... (quase ideias para o vol III - Temas para o nada escrever)]

Túlio Monteiro: VERDE-CARINHO

De verde-carinho hoje amanheci vestido. Eram olhos tão belos. Os belos olhos cor de esmeraldas me deram aquela estrela há tanto tempo ardendo em seu frio noturno, chamuscando de prata pingos gelados – lágrimas de anjos – que até hoje insisto em fitar ante o sobressalto de uma nesga de céu seja qual se fizer presente em noites sem nuvens livres de chuvas.

E aquele jeito de amar desesperado sempre em meus sonhos já tão distantes daquela tarde de arrebol perfeito, beira do mar por testemunha de um amor que surgiu com a mesma força e velocidade que se foi. Ela me dizendo que eu era o fim do mundo e que nossas horas e dias seriam misturas d’ almas tão fortes que nunca mais nos esqueceríamos um do outro. E não deu outra. Se ela lembra ou não daquele julho, basta-me a mim lembrar-me. Só vinte anos de amor a correr-me nas veias tão novas sem medo da morte e nem sequer que ela me viesse a chegar tão cedo.

Misturamos nossos corpos, nos doamos, nos demos centímetros a centímetro assim de um jeito tão esquisito e castanho-carícia que meus olhos se tornaram dela desde aquele abril, daquele octogésimo terceiro. Deixei a virgindade de lado e tornei-me livre naqueles braços de um aperto tão sem par que nunca mais esqueci aquele jeito de amar desesperado, chorado e vivido.

E um dia, como praxe é aos jovens em início de vida, ela se foi. Falou-me de coisas relativas a ser passional e capaz de matar por amor. Como se eu soubesse o que era ser passional ou se me importasse em morrer por suas mãos e unhas afiadas. E aquela noite pintada de verde-carinho se foi tão lindamente como as estrelas que nos viram por tantas vezes, deitados nas pedras daquela praia que coroamos como nossa. Por vezes lá estive novamente. Em outros julhos, outros dezembros e por muitas vezes procurei, em vão, tentar vê-la com os mesmos olhos de início. Como se os olhos do início pudessem voltar assim, do nada, da mais distante escura-cor-louvor de um século há tanto tempo nos idos anos 1980.



O casarão bonito que ela habitava àquele tempo ainda está lá, em pé, e as pedras toscas que cobriam a terra fofa daquela vila sem saída e um cheiro de chamar luar ainda ecoa entre os beijos que por lá trocamos. Éramos, sim, um. E hoje tudo o que eu queria era ver, derradeira vez que fosse, aquele olhar poderoso de índia cearense. Aqueles olhos de verde-carinho que me disseram adeus e nunca mais pude contemplar.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Túlio Monteiro: OS VELHOS COM CABELOS NAS NARINAS

Nasci em plena quartelada de 1964, crescendo entre fardas, ameaças e caças Mirrage a cortar os céus, esses, sim, pássaros de aço a empestear feito inseticida os ares do meu País. Logo naqueles anos tão filhos disso e filhos daquilo, e eu queria só ser menino e aprender o total do que me vinha às retinas e às narinas – um cheiro de gasolina de avião.

Onde voas assim tão alto, sou nada mais que um pássaro no chão. Descobri-me tão cedo poeta. Entretanto, onde queria ternura, vinham-me notícias de torturas em retas e rimas pessoalmente absorvidas pela brutalidade imposta, àquele tempo de rosas de Hiroshima, quando os coqueiros de minha infância não pareciam obuses e ouvia nas rodas da comuna de meu avô paterno um amargo sibilar de um tal A.I 5. Que porcaria devia ser esse tal Ato Institucional, perguntei ao Marxista meu avô. A resposta: esqueça que não interessa a menino de bilas e baladeiras que corre feito um maluco pelas ruas. Ruas da minha Parangaba de antes. Mangueiras por testemunhas de minhas coisas do que se chama por aqui de malinagens. 

O velho com cabelos nas narinas morreu. Ele se foi e não me revelou o que diabos era ditadura. Preferi não ver o velho e seu terno no caixão, nariz cheio de algodões. A morte é mesmo uma droga. E cresci. Virei gente, como se fala por cá. Vi que o amor era tão cego quanto a injusta justiça desse Brasil de ouro tão cabisbaixo. Vieram as Diretas Já! E o menino-homem já um tanto passado na casca do alho descobriu que as arestas um tanto insuspeitas eram por demais suscetíveis ao suborno que chegou aqui nas caravelas que trouxera Dom João VI com o rabo entre as pernas, tangido que foi por Napoleão Bonaparte. 

Onde havia um rapaz com vinte anos redondos, surgiu o questionador de coisas sem entender o senso nem o humor do que irradiavam aos quatro ventos com Betinho, Tancredo Neves, Ziraldo e companhia. Daquele tempo até hoje, muitos fatos estão inconclusos. Não encontraram, por exemplo, no helicóptero caído no mar, o velhinho macho com cabelos nas narinas que botou o Brasil nos trilhos com a Constituição de 1988. Singelo grito morto e amordaçado de um País que já estava levantando-se. Cada cultura tem o Odisseu que merece, o grego se perdeu por dez anos. O nosso Ulysses está perdido a vinte cinco.

O mar sob o céu do Brasil, caros, está virando saudade e o Rio São Francisco quase não está indo mais bater no meio dele, tantos recortes foram feitos, desde sua foz, e vêm tornando sua paisagem árida. Umas “legitimadas” outras surrupiadas e desviadas na marra pelos tais canais do trabalhador. Obra dos novos coronéis, velhos com cabelos nas narinas, de fraques e termos alinhados. O Rio Doce já era, acabou-se. E as morenas dos olhos rasos d’água sentam olhando para a sequidão que se alastra, queimando plantações por mares de areia, calor e dentes podres.

Hoje, onde havia aquele rapaz, há um ser que pensa e imagina as brutalidades que estão por vir, a cavalo galopante, sabendo que o deus Sol forma um elo e que o certo é saber que o certo está sempre certo. E que a bandeira Positivista, o panteão de nossa pátria está ameaçado novamente de ser rasgado e jogado ao fogo amigo que vai – e afirmo que vai – destronar nosso cretino Chefe Geral desta Nação Tupiniquim.

Já ouço as vozes da manhã que mais uma vez cisma em vir, segundo a segundo, rumo ao fim de meus dias em forma de pedidor de coisas e solicitações ásperas e deselegantes. Tantos brasileiros estão sendo riscados do mapa depois de mais um carnaval, que não consigo imaginar o doloroso que vai ser dos tantos milhões de brasileiros em busca do pão seu de cada dia. Preparem-se os fracos, os fortes estarão a sobreviver, pois como reza a cartilha capitalista desde que descobriram que árvores serviriam para gerar o maldito bicho chamado dinheiro. Só ele compra, dá e tira.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Da série Cada pessoa, um livro; o mundo, a biblioteca: Marielle de Moraes

A XII Bienal Internacional do Livro do Ceará (14 a 23 de abril de 2017), da qual tenho a responsabilidade e o prazer de ser um dos curadores, tem por tema "Cada pessoa, um livro; o mundo, a biblioteca". O conceito chave deste tema está no fato de cada pessoa cumprir uma história, sua vida é um enredo de incontáveis acontecimentos ao longo de sua existência (cada pessoa é um livro). Constitui um acervo que compõe a infindável biblioteca que é o mundo, hoje com um acervo de quase 8 milhões de pessoas. O Evoé tem o prazer de trazer Marielle de Moraes para dizer um pouquinho de sua narrativa até aqui. (KB)



Sou Marielle Barros de Moraes, cearense, nordestina, brasileira. Sou filha de dois vendedores de comida de rua, que trabalham em um “box” num lugar chamado “Esqueleto da Moda”, no Centro de Fortaleza, no Ceará. Minha mãe nasceu num lugar no Ceará (CE) chamado Serra do Juá, que é um distrito do município de Caucaia-CE e foi tentar a vida aos 14 anos como costureira numa fábrica de costura em Fortaleza. Meus avós maternos são sertanejos cearenses (sertão mesmo, daqueles que não tem água, o gado morre na estrada, gente pedindo na beira da BR, etc.), semianalfabetos e que criaram os filhos para ajudarem nos afazeres domésticos e na roça. Meu avô materno tinha por orgulho ter criado 14 filhos no sertão e nunca nenhum ter morrido de fome.

Nasci em 21 de fevereiro de 1986 (diga-se de passagem apenas com o coração funcionando - e por esse motivo os médicos me receitaram um medicamento chamado Gardenal, o qual anos depois minha mãe descobriu que havia sido receitado por erro médico - isso mesmo - erro médico) em pleno governo Sarney. Meu pai, desempregado à época, não tinha dinheiro para nada, nem para o leite. Lembro-me de minha mãe falando que nessa época ela teve que me alimentar com o leite que chegava ao Brasil de Chernobyl, aquele leite mesmo que, provavelmente, estava contaminado devido ao acidente nuclear. Além de ter a época que minha mãe, com apenas uma galinha no quintal, esperava ela pôr ovos para alimentar eu e minha irmã. E ela? Ela esperava o "deus-dará", como ela falava.

Falo isso porque desde criança escuto minha mãe falando para que eu e minhas irmãs estudássemos para não sermos escravizadas nas “casas de família”, que era o destino da maior parte das adolescentes e mulheres de Fortaleza e do interior do Ceará. Meu pai não conseguiu completar o Ensino Fundamental; já minha mãe, terminou o Ensino Médio para “dar exemplo às filhas”, por meio do Telecurso 2000. Lembro-me muitas vezes que, pelo fato de eu estudar muito para conseguir entrar na faculdade, fui muitas vezes taxada por alguns membros da minha família de louca e, alguns deles, muitas vezes, mandavam minha mãe me internar.

Ingressei para o curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Ceará (UFC) em 2004. Lembro-me quando criança eu passava em frente à UFC minha mãe falava “aqui só entra quem os pais têm dinheiro, os filhos dos coronéis, dos médicos, dos “dotô” advogados, mas se vocês estudarem muito acredito que vocês passam”. O tempo passou e, em 2002, terminei meu Ensino Médio numa escola pública estadual “General Eudoro Correa”. Queria muito fazer cursinho, mas meus pais não tinham como pagar (nessa época meu pai era vendedor em loja de calçados e minha mãe dona de casa). Foi aí que o “ser professor” salvou minha vida. Fui dar aula para crianças (de reforço escolar) para pagar meu cursinho. Eu estudava de manhã no cursinho, e dava aulas de reforço de duas da tarde às 9h da noite e depois ia estudar para o vestibular. Passei na UFC e na Universidade Estadual do Ceará (UECE). No primeiro ano de faculdade meu pai ficou desempregado e só consegui ir à faculdade porque ele, com o dinheiro do Bolsa Família, foi comprar pão e salsicha para fazer cachorro-quente pra vender e, assim, eu e minha irmã (que um ano depois entrou na UECE para o curso de Serviço Social) tínhamos o dinheiro da passagem para ir à faculdade.

Bacharelei-me em Biblioteconomia no ano de 2007 pela UFC e, nessa universidade, cultivei o sonho de ir tentar o mestrado na Universidade de São Paulo (USP). Para chegar a USP, na época, eu ajudava um professor na Faculdade de Farmácia da UFC a dar aulas de metodologia da pesquisa e em troca ele me dava uns trocados para eu juntar para comprar a passagem tentar o mestrado em São Paulo. No final, para eu ir, um conhecido que trabalhava na Aeronáutica comprou uma passagem pra mim de ida e volta para São Paulo tentar as provas. Já minha família fez “vaquinha” e os alunos da Homeopatia onde eu ajudava o professor também me deram grana pra ir a Sampa. Fui recebida na casa de um bibliotecário da USP que eu conheci no dia em que cheguei em São Paulo, o Thiago Gaudêncio. Passei no mestrado. O choro dos meus pais de emoção foi o mesmo choro de quando eu havia passado na UFC. Lembro-me como se fosse hoje. A emoção de eu passar também se misturou com a preocupação de como eu iria viver em São Paulo.

Assim, dois anos depois, vivendo com a bolsa da CAPES, passei também no doutorado na USP e para aliviar um pouco logo no primeiro mês de doutorado recebi a bolsa da CAPES e um ano depois fui contemplada com a bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Além disso, também fui contemplada com a bolsa da CAPES e outra do CNPQ (que tive que abrir mão depois) para estudar um ano no exterior por meio do programa Ciências Sem Fronteiras. Meus pais conseguiram o financiamento da casa deles por meio do Minha Casa, Minha Vida e agora aguardo a minha defesa do doutorado.

Marielle de Moraes 
E lembrar que eu em 2007 fiquei mais que feliz em ser o primeiro nível superior da minha família. Nem imaginava que iam chegar outros títulos. A filha da vendedora de comida de rua vai virar doutora por "culpa" do Lula e da Dilma. Obrigada #Lula e #Dilma

E que comecem os jogos!


Falei isso pra vocês porque estou me emocionando com a aproximação da data da minha defesa dia 27 de abril às 18 horas nas dependências do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP-Butantã).

Túlio Monteiro: HÁ PÓ DE ESTRELAS PELAS ESTRADAS


(Para Eloisa Marques Monteiro)

Hoje quis armar um poema, desses decassilábicos, coisa de Bilac. Uma forma há muito querida e há muito teimada. Disse: dessa vez o danado sai! Só me dera ao luxo de escrever só um soneto alexandrino (infinitamente) em toda a minha vida. Um só. Nele busquei inatingível perfeição, para rimar “há pó de estrelas pelas estradas”... Quis hoje um poema assim e de voz feminina. Como não consigo, entretanto, inserir minhas palavras na voz de uma mulher sagrada, preferi voltar ao cubismo e liberdade métrica, abduzindo aos quintos esse tal escandir.

Ora, pois como laborar em torre de marfim esse eterno camafeu que é escrever alexandrinos, se não me aparto do mundo lá fora que se despedaça entre escândalos, sinais vermelhos, boçais apitando, consumistas frustrados disparando balas perdidas e uma perversa anti-juventude sem coração?! Por isso hoje, as onipresenças de minhas letras habitam com mais facilidade o texto livre, em composições crônicas saídas de mãos e dedos cada vez mais doloridos. Sem espalhafato. Sem querer mudar o mundo e nem fugir dele. Escrevo só para mim e aos que se metem a perder tempo com o que risco nas telas dos computadores teimosos em perder coisas, apesar do haja salvar daqui, salvar de lá em pen-drives e outros hardwares e softwares nefelibatas. Vã crença. Melhor eram as máquinas de escrever e o velho papel carbono. Lápis e borracha.

A bem da verdade, nada mudou, se olharmos por um certo viés. O redondo sempre encontra o fim de um círculo... e ele se fecha, como se fechou para muitos e fechará para todos. Nada é rotatória eterna. Até computadores de última geração – que constatação! – até eles perdem coisas, como perdiam coisas nossos corações do século passado e os corações de nossos pais e avós. Amigos? Sim! Alguns já se foram, outros estão caminhando por aí em trilhas que se retorcem para nos acharmos todos nós com nossos pais e avós. Como assim a natureza sempre comandou. Do pó ao pó. Das asas ao pavão.

Não. Hoje não há decassílabos bilaquianos e nem voz de mulher sagrada. São por demais artificiais. Bem diz Belchior que “minha alucinação é suportar o dia a dia e o meu delírio é a experiência com coisas reais.” A mulher da voz do meu poema não é sagrada, não é coisa, é poesia real. E mais da metade que me deram desse mundo veio só dela, minha hoje companheira. O resto foi colhido verde demais. Tiraram do pé muito cedo e não virou nem se transformou no que sinto por ela. Que me carrega no colo e minha vida só depende do encanto dela, minha senhora, minha vida. Os olhos quase verdes dela já estão cansando como os meus castanhos já estão bem mais para lá do que para cá. Nossas mãos já se dão em parceria, num quase apego de não querer ir embora. Diachos, como eu gosto dessa mulher. E se os computadores perdem coisas, os corações não perdem nunca. Não perdem as lembranças desde o nascimento dos filhos que tivemos. Nossos filhos com cheiro de alecrim.

XII Bienal Internacional do Livro do Ceará

A Bienal Internacional do Livro do Ceará, ao longo de duas décadas, vem-se consolidando como um dos mais importantes eventos culturais do gênero no país e já tem lugar cativo na agenda literária estadual e nacional. Pode-se considerar o evento como um patrimônio cultural do estado.


Iniciativa do Governo do Estado do Ceará, por meio da Secretaria da Cultura (Secult), em parceria com o Instituto Dragão do Mar e apoio do Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, a XII Bienal Internacional do Livro do Ceará será realizada em Fortaleza, de 14 a 23 de abril de 2017 no Centro de Eventos do Ceará, com o tema Cada pessoa, um livro; o mundo, a biblioteca. 

O tema “Cada pessoa, um livro; o mundo, a biblioteca” traz em si infinitas possibilidades: a diversidade de expressões, a multiplicidade de vozes; incontáveis itinerários narrativos a proporcionar conexões transculturais, encontros de mundos, diálogos no espaço presencial e virtual, fazendo uma grande homenagem ao acervo literário universal, à cultura e à identidade brasileira como patrimônio da humanidade. Esse turbilhão de possibilidades pautou a definição da programação da Bienal.

A programação tem curadoria geral composta por Cleudene Aragão, Kelsen Bravos e Lira Neto. Além deles, complementam a equipe de curadoria os coordenadores de programação temática, cuja especificidade define-se segundo o público ou o conceito. O Espaço da Juventude tem a concepção e coordenação de Régis Freitas; a Praça do Cordel, de Klévisson Viana; o Salão do Professor, de Sarah Diva; o Café Literário, de Alan Mendonça; o Espaço Infantil, de Kelsen Bravos, Teddy Williams e Andrea Vasconcelos (Circo), Cláudio Ivo (Circo); Encontro de Mediadores, Tino Freitas, Encontro do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas e Comunitárias do Ceará, Aparecida Lavor; Encontro Biblioteca Viva, Nixon Araújo; Festival de Ilustradores, Eduardo Azevedo e Rafael Limaverde, entre outros. Todos em articulação com a curadoria geral e coordenação executiva geral do evento, sob responsabilidade da coordenadora da Política do Livro e Acervo da Secult, Mileide Flores, e definição de Fabiano dos Santos Piúba, secretário da Cultura. 

Tendo sempre a participação de uma personalidade cearense, o conjunto das atrações de natureza artística e literária engloba palestras, mesas redondas, conferências, oficinas, contações de histórias, lançamentos de livros entre outros eventos literários, além de apresentações lítero-musicais com artistas de reconhecimento local, nacional e internacional. Esse conjunto oferta uma programação ampla, democrática e de acesso gratuito, para um público plural - infantil, juvenil e adulto, com necessidades especiais e diversas expressões de gêneros e etnias,tudo resultado de demandas geradas nos tradicionais encontros com a participação da sociedade.

Essa mobilização e participação da sociedade se reflete no já característico envolvimento do público durante a realização da Bienal. É o que constatam as estatísticas, pois, quanto à frequência de público, o evento registrou, nas duas mais recentes edições, uma média de 55 mil visitantes/dia, seduzidos pelas atrações da abrangente programação temática adequada às diversas faixas etárias (Infantil - Juventude - Adulta) e pela feira de livros. Tanta concentração pessoas proporciona grande visibilidade e oportunidade de vendas de livros e negócios no âmbito da cadeia produtiva e criativa do livro, bem como de consulta de opinião sobre os caminhos da política para o livro e a leitura.

O evento caracteriza-se pela visibilidade na mídia e grande mobilização social, educacional e econômica. Daí por que, durante os dez dias da Bienal, promovem-se encontros para ouvir opinião da sociedade e entidades envolvidas com a implementação de políticas públicas para o livro, a leitura, a literatura e bibliotecas; articula-se o fomento e a democratização do acesso ao livro e à leitura com secretarias da Educação, estadual e municipais, e com escolas particulares e dialoga-se com o mercado, representado por editores, livreiros, distribuidores e autores independentes. Uma novidade da XII edição é a intensa parceria com a Secretaria de Ciências Tecnologia e Inovação que integra de forma muito harmônica a programação cultural do evento. Será surpreendente.

Esperamos todos no Centro de Eventos do Ceará, de 14 a 23 de abril de 2017, para a grande quizomba literária que será a XII Bienal Internacional do Livro do Ceará. Evoé!

segunda-feira, 13 de março de 2017

Túlio Monteiro: INSANOS VOLTANTES

As novas eras se prometem fincar depois que ouço as vozes com amargos duplos sons. Sei que eles voltaram para resolver de vez o que a nação não fez. Culpa minha, sua e de tantas almas já idas por vinte anos de não progresso e nada de volta...pelo contrário está chegando a hora de sair de novo nadando contra a corrente e de encontro ao vento. Hora faz-se de as máscaras caírem e o gigante adormecido Brasil fechar novamente suas portas aos seres que aqui pensam.

Converso com tantos e são tantos os pensantes e passantes que vão e vêm a passos largos nessa esteira rolante de areia e asfalto onde pisoteiam o futuro da áspera luz que banha meu País já não tanto varonil. Eles virão pelas costas, como adolescentes em busca do nosso verde, amarelo e azul anil. Que me façam entender os que agora me leem sabendo do que falo. Burrificaram este cidadão de semblante baixo – olhe a geografia do formato do mapa do Brasil – Parece-me uma cabeça abaixada olhos fitos no rumo dos pés do Tio San.

Daí o resto serão os restos que sobrarem nos potes das cozinhas, nos olhos da menina de gengivas expostas ao léu, àqueles e àquelas que pagarem mais. O Rei Brasil está nu de comandos e eles – os das fardas calados em suas casernas – Será que só eu vejo e enxergo ou todos estão cegos? Cegos às avessas. As narinas de um compatriota me farejam os poros na busca do lado mais lancinante. Vejo então os dentes podres da menina, das longarinas da velha ponte onde nunca mais pisei. Um barco à deriva sou. Eletrochoques por vir. O certo incerto voltará a ser comandando pelos de maiores patentes.

E eu mais estrangeiro do que nunca nessa bolinha azul, amarela, branca e verde. E o Rei-país me pareceu mais bonito nu? Queres o que de mim, Brasil? O que faço para que todos vejam e sintam a podridão das cinzas que voltaram a ser cinzas feito rosas cremadas junto aos corpos que sumiram Araguaias afora. É o meu desmascaro, meu grito insano de silêncios sem luz e sem cantos.

Para o bicho amarelo, para o bicho índio, ao bicho homem que anda devorando o nosso verde para vende-lo aos insanos voltantes balizarem novas gruas com armas tão mais potentes; e na televisão já pálida um jornal me fala que oura criança foi brutalmente violada. Quando seremos nós a sermos invadidos e mortos. Meninos com olho diesel nos sapatos um tanto já ásperos de correr, em vão, “cheira, cachorro! ”

Não sejas mais um cego que vê o que veem minhas retinas...as retinas rotinas daquelas meninas. Flores em aberturas incandescentes para os Reis agora vestidos em formas camufladas, em artigos figurados e repletos das tais subliminares. Calemos aqui essa sentença para fechar as portas e janelas. É noite, o dia se foi e os fantasmas começam a aparecer silenciosos e gélidos.
_______________
Túlio Monteiro - escritor, ensaísta, crítico literário e revisor.

terça-feira, 7 de março de 2017

Ensaios & Ensejos


Com a direção, produção e imagens de Luísa Moura Bravos (8 anos), apresento o livro, organizado por Felipe Camilo, Ensaios & Ensejos - um inventário de percepções sobre artistas nos limiares de uma capital. Trata-se de ensaios escritos, a maioria, por artistas sobre outros artistas. Percepções, como revela o subtítulo.

Faz parte do Mapadoc/CE - Mapeamento da Cultura Cearense em Audiovisual e o livro traz também um dvd com documentário sobre o tema.

O trabalho é uma realização do Projeto Mapadoc/Ceará, Coletivo Pã e Trama de Olhares.

Confira o link do livro em .pdf: Clique Ensaios & Ensejos

Boa leitura!

Túlio Monteiro: DAS COISAS DE MENINO

Túlio Monteiro escreve aqui toda as segundas-feiras.


Fantasmas que são fantasmas sempre aparecem. Hoje, por volta de quatro e meia de uma madrugada alta, os meus teimaram em me importunar mais uma vez. Sempre os mesmos que habitavam meus pesadelos de criança, uma vez que, pasmem, nasci a menos de um quilômetro do antigo asilo para loucos de Parangaba. Tinha lugar pior para um escritor um tanto quanto aperreado nascer?

Ainda hoje, o prédio que habita meus pesadelos de infante está lá, imponente e insano na antiga Estrada dos Arronches, hoje avenida João Pessoa, por onde meus pés calçados em sandálias Havaianas sempre passavam aliados às minhas mãos, que sempre carregavam uma boa baladeira e um cacho ou dois de mamonas penduradas na lateral do calção, a caçar passarinhos por pura diversão. Na falta deles, os pobres calangos pagavam o pato do arteiro que fui. Eram os há muito já idos anos de 1970.

Tenha-se por Asilo São Vicente de Paulo, o único local onde os loucos legítimos, daqueles que jogam pedras na Lua e tentam voar ficavam trancafiados em cubículos minúsculos, contava minha avó materna quando queria me assustar por conta de alguma peraltice de moleque sem bicicletas ou aniversários.

Era e ainda é feio o danado do asilo. Prédio recuado e cercado por muros muito altos, de onde nunca se via os verdadeiros loucos, restando às imaginações minhas e de meus fiéis amigos escudeiros de infância difícil ouvir os uivos lancinantes dos que ficavam presos e sem possibilidade sequer remota de escaparem pelo portão da frente.

É fato histórico que o doutor Phillipe Pinel, famoso psiquiatra francês, por lá esteve em finais do século 18 para ocupar o cargo de diretor por haver logrado aprovação, em primeiro lugar, em concurso público. Nas mãos trazia seu certificado em papel amarelo pardo e na outra uma autorização para libertar os asilados, muitos deles algemados há mais de 30 anos.

Reza a lenda que, mal adentrou o recinto dirigiu-se ao carcereiro comunicando-se rispidamente com a seguinte frase: – “Sou o doutor Pinel e exijo que as portas dessas celas sejam imediatamente abertas”. Nos calabouços onde as trevas eram eternas, esquálidas figuras desvairadas, cabelos revoltos e imundos, entreolhavam-se como fantasmas.

– Mas, senhor, essas portas não são abertas há anos. Todos são loucos, a escória da sociedade. Se eles saírem se matarão uns aos outros e a nós também. Não farei isso – disse-lhe de supetão o carcereiro, branco como uma vela.

Ante a negativa do subordinado, o médico tomou-lhe o molho de chaves e foi abrindo as celas uma a uma. Em câmera lenta e com olhares fixos em Pinel, os loucos foram se espalhando, silenciosos, pelos corredores tão imundos quantos as celas. Em dado momento, um homem gigantesco tentava subir as paredes feito uma aranha, os braços e as pernas tentando alcançar o teto onde uma claraboia brilhava ao céu do meio-dia. Revolto e em penitência o maluco ajoelhou-se aos pés do psiquiatra dizendo-lhe que já fazia tempo que não via um raio de sol.

Essas histórias de trancoso misturadas à dura realidade dos fatos me eram contadas por minha avó materna, Dona Luíza Bravos Monteiro, como forma de aquietar o neto mais traquino que ela tinha à época em que morei em uma casa bem ao lado da dela. De onde a vi partir para nunca mais voltar aos 81 anos de idade, em 19 de dezembro de 1983.

Saudades daqueles tempos? Claro! Afinal, meu universo infantil era repleto de bilas, bolas de meia, arraias, passarinhos e amigos leais. Muitos deles ainda moram por lá e mesmo depois que parti para o mundo dos adultos, ainda ouço falar de alguns e de suas trajetórias de vida. No entanto, sempre que os sonhos ou pesadelos chegam, ainda somos moleques de calções curtos correndo soltos pelas ruas da minha velha Parangaba.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Túlio Monteiro: ENTRE PEIXES, MUSEUS E RELÓGIOS

Vai aqui mais uma crônica de Túlio Monteiro. Em breve, dele teremos também resenhas e ensaios literários. (KB)



ENTRE PEIXES, MUSEUS E RELÓGIOS

Túlio Monteiro*


 A Gentilândia é um daqueles lugares onde a cidade lembra o que foi lugar
onde se vive para conviver, para ver, para sentir, para ouvir, para andar, para conversar. 
Convivência experimentada no cotidiano, fruto das relações sociais alicerçadas pelo tempo. 
Por isso, ser gentilandino é um estado de espírito e quem já viveu na Gentilândia
sabe que éimprescindível voltar sempre. 
Elmo Vasconcelos Júnior
(curador do Memorial da Gentilândia) 


Começou assim: eram meados 1986 – século passado – quando parti do Farias Brito, colégio onde concluí o segundo grau, para as cadeiras de madeiras toscas do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. Tinha arriscado mais uma vez a Arquitetura já que tinha dado um chute no destino, qual ele poderia ter me tornado também Geólogo pela UNIFOR, mas os deuses do vernáculo cismaram porque cismaram de me enviesarem a vida para as bandas da escrita, crítica literária ou coisas que os valham. 

Outro mundo, outros seres, outros loucos. O impacto de ver tanta gente diferente demorou tanto a passar que lá se foram, no mínimo, uns dois meses para me acostumar com aquele mundaréu de cabeludos pirilampeando – se me faço entender – para um lado e para o outro. Restinho dos bichos soltos da geração riponga que estava dando lugar a umas tais “Diretas Já!”. Os ares eram outros, pois o sopro maldito da fuligem de armas militares da tal falada Ditadura que tomou, de um dia para outro, vinte anos de uma geração inteira que ainda assim não passou em brancas, porque não sincerizar, negras nuvens negras. Era hora de os facínoras recolherem-se às suas casernas. 

Eis que acabei por ir descobrindo coisas em conversas sempre repletas de imagens e símbolos, com interlocutores de todos os níveis de sabença. Viventes que me repassavam informações que só aprendidas na base do vamos destapar os segredos do Benfica? Fui, a princípio, sendo conduzido para depois me transformar no timoneiro desse barco chamado vida, passando a desconstruir e retelhar o casario da Gentilândia – reza a lenda que a família de João Gentil perdeu quase todos os imóveis do local nos jogos de cartas e outros azares – suas nuanças, calçadas, parapeitos e um anônimo peixe que até hoje sobrevive em seu silente mergulhar pétreo. Explico: Uma meia parede foi erguida para proteger o prédio do atual Museu de Arte da UFC – MAUC – inaugurado pelo então Reitor Antônio Martins Filho em 18 de julho do ano de 1961, onde antes funcionava o Colégio Santa Cecília. 

Pois bem. Voltemos ao ser aquático que lá está fixado pelo espírito moleque de algum pedreiro que, tendo descoberto alguns pedaços de pedra derivada de xisto percebeu que aquelas possuíam exatamente o formato de um peixe. Certamente para não perder a chacota e o chiste – talvez sabendo que naquele recém-construído edifício cultural iriam ficar expostas obras de grandes nomes da escultura e pintura cearense, quiçá nacionais, o laboral trabalhador meteu sua colher de ferro para cima e pronto – está lá para quem tiver a paciência de procurar em uma extensão de cinquenta metros da parede que cerca o MAUC pelo lado da avenida 13 de maio, quase esquina com avenida da Universidade, 2854, encontrar o que temei em chamar de pequeno sítio arqueológico acinzelado. 

Outros enigmas estão espalhados pelos arrabaldes da Gentilândia/Benfica, sendo tudo uma questão de procurar nas entrelinhas, nos espaços menos esperados podendo ser encontradas preciosidades iconográficas de real importância histórica. É o caso da torre dos quatro relógios da igreja dos Remédios, que fica bem em frente à faculdade de Ciências Sociais e ao lado do CETREDE. 

Aos 14 de agosto de 1910, foi concluída a pequena capela de Nossa Senhora dos Remédios, inaugurada com grande festa da qual participaram mais de duas mil pessoas – evento de grande aporte levando-se em conta que Fortaleza possuía exatos 65.816 habitantes – tendo sido a missa celebrada por Monsenhor Bruno Figueiredo, nascido em Aracati (CE), ordenado que havia sido desde 1875; educador de grande nome, Lente do Liceu do Ceará à época, sendo vigário-geral do Bispado do Ceará. 

De início e até 1927, a igreja dos Remédios era uma delicada ermida, até serem erigidos os atuais dois corredores laterais, custeados pelo ainda abastado benfeitor do Benfica Coronel João Gentil Alves de Carvalho. É daquela época, também, a instalação do relógio de quatro faces ainda hoje badalando as horas que marcam o compasso dos que deslizam a pé, em seus carros e nos agora nos chamados VLT’s (Veículos Leves sobre Trilhos), os metrôs, primos atuais dos antigos bondes com seus motorneiros a serpentear Fortaleza afora. 

Os quatro mecanismos têm sua história singular: foram projetados para serem instalados no monumento ao centenário da independência (1822/1922), cuja pedra fundamental foi lançada aos 23 de julho de 1922, na então Praça do Cristo Redentor, situada onde hoje é o início da avenida Monsenhor Tabosa e defronte ao Instituto Dragão do Mar de Arte e Cultura, inaugurado em 28 de abril de 1999 com seus 30 mil metros quadrados muito bem divididos em salas de cinema, teatro, cafés, anfiteatro, praça verde, planetário, salas de estudo sendo anexado à Biblioteca Pública Menezes Pimentel com seus 70 mil livros e 40 mil títulos diversos, hoje sendo todos digitalizados para as gerações pósteras. 

Voltemos aos relógios! Como era de se previr o Monumento ao Centenário da Independência não foi inaugurado no dia 7 de setembro 1922, mas, sim, na véspera de Natal daquele ano – por volta de cinco horas da tarde – numa provinciana e agradável Fortaleza de 104.852 almas como testemunhas. A obra fora encomendada pelo prefeito Ildefonso Albano que deixou a cargo do seu sucessor o coronel Adolfo Gonçalves Siqueira a finalização da obra, executada que foi pelos mestres de obras Antônio Machado, Domingos Reis e Severino Moura. Por ocasião dos festejos tomou a palavra o então arcebispo da capital Dom Manoel da Silva Gomes. Os marcadores das horas, como já sabemos permanecem na cúpula da Igreja dos Remédios, enquanto a Praça Comendador Machado – hoje Praça do Cristo Redentor – que também abriga o Teatro São José desde 1915, encontra-se abandonada e habitada pelos velhos novos excluidos que todos os dias chegam a metrópole. O motivo pelo qual o nobre quarteto simplesmente não ter sido instalado na torre em questão foi o movimento pendular causados pelos fortes ventos aracati que insistem em açoitar nossa cidade, vindos lá das bandas da África, oceano Atlântico por caminhos alísios soprados de lá para cá. Ventos Aracati – tupi-guarani – ventos bons que vêm do mar, todas as tardes, como uma brisa marítima que ganha força ao ter por canalizador o Rio Jaguaribe que desemboca no mar pelas cidades cearenses de Aracati e Fortim. Desde lá navegando o sertão jaguaribano. Esse Vento Aracati amigo que ora areja minha memória sobre o Benfica...

_____________
*Túlio Monteiro - escritor, crítico literário e revisor


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Túlio Monteiro: SOBRE ÁGUAS, SANTOS, DEMÔNIOS, MÚSICAS E POLÍTICA

Publico aqui com prazer sem par esse que vem chegando lá de num sei onde, devagarinho, vem de volta para fortalecer as lides cuturais. Trincheiras ganham ânimo, pois o moço é bom de luta.
Muito bom tê-lo aqui de volta, Túlio Monteiro.


Há dias, manhãs – diria eu – em que nada parece dar certo. Sem chavões, hoje é um deles. No de ontem, choveu tanto nessa minha terra que insistem em chamar de Alencar que eu continuo e deveras permanecerei chamando de minha. Por que de Alencar? Alhures, aqui não. Alencar: ideia sonante; estereótipo de indianista. Leiam a lenda de Pokahontas como aviso aos navegantes.

Antes de ontem, a noite/madrugada foi simplesmente repleta de chuva, água dos céus, beirais sem ninhos, “jacarés” aqui, gárgulas se fossem em Notre Dame. E eu afirmei: Pronto, os choros celestes de fevereiro chegaram e só se vão embora em março ou abril. Anoiteceu, anuviou-se, preparei lençóis – edredom é coisa de sulista – para nós é rede de punhos. De preferência, as tecidas lá pelas bandas de Jaguaruana, a terra de meu pai, seu Joaquim Bernardo.

Deu meia-noite, uma da matina... três horas. E nada. São Pedro, o danado da torneira, olhou de riba para baixo, cofiou o bigode e esfregou a barba já um tanto brancos e disse:

– Peguei os e as bestas de novo. Vai ser dessa vez não, rapaziada das terras de Padre Cícero. Aquele negócio hóstia da Beata Maria de Araújo em 1889 e a Romaria de Nossa Senhora das Candeias para ajudar financeiramente um ferreiro desempregado, que tudo o que sabia fazer eram candeeiros, até hoje não me desceu goela abaixo[¹]. Vamos deixar para outra noite. Dito e Feito.

Pois muito bem! Domingo chegou, calor de novo e o clima de serra ficou para outro dia. Uns falaram em praia, gente bonita, gente feia, “pedalar” – Uga! – Lembramos logo da situação do País: As tais pedaladas! Todo dia cai mais uma carta/máscara já diriam Ivan Lins e Victor Martins em Cartomante, nas vozes de Elis e dele próprio[²] e [³]:

CARTOMANTE

Nos dias de hoje
É bom que se proteja
Ofereça a face a quem quer que seja

Nos dias de hoje esteja tranquilo
Haja o que houver pense nos seus filhos
Não ande nos bares esqueça os amigos
Não pare nas praças não corra perigo
Não fale do medo que temos da vida
Não Ponha o dedo na nossa ferida... Ah...
Nos dias de hoje
Não lhes dê motivo
Porque na verdade
Eu te quero vivo

Tenha paciência 
Deus está contigo
Deus está conosco
Até o pescoço

Já está escrito
Já está previsto
Por todas videntes
Pelas cartomantes

Está tudo nas cartas
Em todas as estrelas
No jogo dos Búzios
E nas profecias... ah...

Cai, o Rei de espadas
Cai, o Rei de ouros
Cai, o Rei de paus
Cai, não fica nada!!

          Letra danada de atual, não?! Mesmo sendo de 1978, época de bruta Ditadura bruta, de drásticas ausências sociais, haja vista os quereres do samba enredo de 1986, acertou e ainda acerta na mosca a Escola Império Serrano: Foram vinte anos que alguém comeu[4]

EU QUERO


Eu quero, a bem da verdade
A felicidade em sua extensão
Encontrar o gênio em sua fonte
E atravessar a ponte
Dessa doce ilusão 

(Quero, quero, quero sim)
Quero que meu amanhã, meu amanhã
Seja um hoje bem melhor, bem melhor 
Uma juventude sã
Com ar puro ao redor (bis)

Quero nosso povo bem nutrido
O país desenvolvido
Quero paz e moradia
Chega de ganhar tão pouco
Chega de sufoco e de covardia

Me dá, me dá
Me dá o que é meu
Foram vinte anos
Que alguém comeu (bis)

Quero me formar bem informado
E meu filho bem letrado
Ser um grande bacharel (bacharel)
Se por acaso alguma dor
Que o doutor seja doutor
E não passe por bedel
Cessou a tempestade
É tempo de bonança
Dona liberdade
Chegou junto com a esperança (vem, meu bem) 

Vem meu bem, vem meu bem
Sentir o meu astral, que legal
Hoje estou cheio de desejo 
Quero te cobrir de beijos
Etecetera e tal (bis)


As pessoas parecem não querer ouvir, falar nem dizer nada. Ou seja, a velha fábula dos três macacos sábios – leiam-se: Iwazaru (o que tapa a boca); Kikazaru (o que tapa os ouvidos) e Mizaru (o que cobre os olhos), já tão comentada e repassada gerações e gerações mundo afora em línguas vivas e mortas.[4].

Agnóstico que sou e me declaro desde que vim ao Mundo – pois nascemos todos assim – quero acreditar que um novo Salvador da Pátria no Brasil vai demorar a surgir. Outro Doutor Ulysses Guimarães e sua Constituição de 1988 ou mesmo um novo Tancredo Neves levam anos para dar frutos. E o que fizeram com os dois? Um, derrubaram o helicóptero que até hoje está lá por Angra dos Reis sem ser achado e Tancredo foi, sim, assassinado no dia 21 de abril de 1985 – dia em que se homenageia outro grande mineiro, o esquartejado e empalado em 21 de abril de 1792, Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes).

Tancredo assassinado, sim! Diverticulite coisa nenhuma. Morte absurda e mentirosa, isso, sim! Senão, vejamos fatos repercutidos à época de sua morte onde o primeiro presidente civil – ainda que indiretamente – eleito após o período militar 1964/1984 foi considerado clinicamente morto no dia acima mencionado. Seu corpo, já com morte cerebral, foi mantido por drogas pesadas e aparelhos até às 22 horas e 23 minutos do fatídico dia. Após 38 dias e sete longas cirurgias veio a falecer por completo, digamos.

Assumiu em seu lugar o vice-presidente José Sarney (PFL), partido fundado por dissidentes do PDS. Com Sarney, permaneceria o Brasil por mais 4 anos nas mãos dos que impetravam o Regime Militar. Até hoje, creio piamente que sua morte tenha sido fruto dos mesmos idealizadores do caso RioCentro, ocorrido em 31 de maio de 1981, onde as bolas da vez foram o Sargento Guilherme Pereira do Rosário, morto quando preparava as bombas em um veículo de marca PUMA GT, vermelha – placas OT-0987 – e o então Capitão Wilson Machado Dias, hoje Coronel que atua como educador do Colégio Militar do Rio de Janeiro. [Fotos em(6)].

Outro questionamento que não quer calar: de que morreu, em 21 de setembro de 2003, Dona Risoleta Neves, fiel esposa e guardiã de segredos talvez irreveláveis? Abaixo uma pequena descrição da Agência Brasil – Empresa de Comunicação. Deduzam, pensem fora da caixa ou, simplesmente, raciocinem:


Brasília, 21/09/03 (Agência Brasil - ABr) – A viúva do ex-presidente Tancredo Neves, dona Risoleta Neves, 86 anos, morreu neste domingo por volta das 8h20, no Rio de Janeiro, de diverticulite, mesma doença que matou Tancredo em abril de 1985. Por causa da enfermidade, a ex-primeira dama estava internada, há cerca de dois meses, no hospital Copa D´Or, em Copacabana, zona sul da capital. Segundo a assessoria de imprensa do hospital, dona Risoleta chegou a passar por duas cirurgias antes de ser encaminhada ao Centro de Tratamento Intensivo do Copa D´Or, onde morreu de falência múltipla dos órgãos. O corpo da matriarca da família Neves – avó do governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB-MG) - será velado neste domingo em São João Del Rey, cidade mineira onde morava. O corpo deve ser enterrado na manhã desta segunda-feira (22) no mesmo cemitério onde foi enterrado ex-presidente.[7].

Mas, para fecharmos o círculo e não nos tornarmos prolixos, nem extinguirmos de vez o assunto, tática eficaz de alguns nobres pares que insistem publicar trilogias, voltemos aos tempos de chuvas e bonanças.

Aguardei as chuvas do último dia 10 que nem passarinho cobrindo seus rebentos. Não que aqueles que passarão, passarinho. Isso deixo para o sempre Mario Quintana que já se foi (1906 - 1994):

POEMINHO DO CONTRA

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho
Eles passarão...
Eu passarinho! 

Um até breve!


___________________
0– MONTEIRO, Túlio. Escritor cearense, Professor, cronista, poeta, crítico literário, formado em Letras pela UFCe, com Especialização em Investigação Literária pela mesma Entidade Universitária. Tem publicado alguns livros.

1 – CARVALHO, Gilmar de. Madeira Matriz: cultura e memória. São Paulo: Annablume, 1998;
2 – https://www.vagalume.com.br/elis-regina/cartomante.html
3 – https://www.youtube.com/watch?v=RZpf-8qEjSI
4 – https://www.youtube.com/watch?v=prUbWNsH-Xs
5 – http://deljipa.blogspot.com.br/2013/08/a-historia-dos-tres-macacos-sabios-duas.html
6 – http://acervo.oglobo.globo.com/fotogalerias/as-imagens-do-atentado-no-riocentro-9708098
7 – http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2003-09-21/risoleta-neves-morre-no-rio-da-mesma-doenca-que-matou-tancredo