quarta-feira, 19 de julho de 2017

De lá do passado - Chico Araujo

Meu reencontro por meios virtuais com George Farias, músico cearense hoje radicado em Boa Vista, além do imenso prazer gerado pelo próprio recente novo encontro, trouxe-me, inevitavelmente, o acordar, na memória, do tempo em que, ainda bem mais jovens do que somos hoje, percorria Fortaleza no entremeio de minha juventude.

Fui partícipe de muitas noites no para sempre querido Estoril, bar / restaurante da Vila Morena. Lá tive a oportunidade de tomar cerveja gelada servida pelo pitoresco garçom Baleia; também vivi a emoção de estar perto de artistas já em reconhecimento como Geraldo Azevedo, Luiz Melodia, Zé Ramalho, Quinteto Agreste; igualmente naquela bela casa pude ver e ouvir Patativa do Assaré declamando poemas de sua prodigiosa autoria, bem como ter contato com o poeta e psiquiatra Airton Monte. Naquele espaço, exposições de artes plásticas conviveram com a poesia, com a música, com a sedutora boemia.

Creio ter sido o Estoril o bar / restaurante mais frequentado pelos boêmios daqui e d’alhures, artistas e não artistas visitantes da capital do Ceará. Em posterior a ele e mesmo por muitos anos em concorrência amigável – frequentadores de um também eram presença constante no outro – volta-me a imagem do Cais Bar, ainda sem o calçadão. Nas areias que existiram ali em frente, pus meus pés descalços em belíssimas noites de lua – em maravilhosas noites sem ela também - recebendo no corpo os respingos do mar que quebrava e espumava nas pedras.

Naquele tempo não existia fartura de transporte público pela madrugada (e hoje há?). Mas existia o “corujão”, que se dizia transitar pela cidade a cada hora da antemanhã. Talvez por perder o horário – a noite nunca nos disse exatamente a que horas estávamos – ou mesmo por não existir de maneira assegurada o “de hora em hora” divulgado, comum era a caminhada pela Av. Abolição rumo ao Centro da cidade, dobrando na Av. Alberto Nepomuceno, depois subindo na Rua Dr. João Moreira e passando ao lado do Passeio Público, até atravessarmos, por dentro, a Praça da Estação, para subirmos, em seguida, pela Rua Castro e Silva, até se dá a desejada chegada à Rua Padre Mororó, nosso destino, visualizando, meio que turvamente (talvez a iluminação da época), o Cemitério São João Batista, eu sempre acompanhado de no máximo três amigos – os de sempre, que gostavam de música, poesia e cerveja... e de caminhar pela madrugada.

Reminiscências...

Do Estoril constantemente me volta à memória certa ocasião em que lá me encontrando em um lindo final de tarde / começo de noite, cerveja já servida pelo Baleia, violão deitado sobre a mesa aguardando seu tocador, chega-se a nós, vindo da Ponte Metálica, um casal, do qual ouvi, do músico – hoje muito conhecido na esfera do forró, sendo advogado também – amistoso pedido para sentar-se ali e tocar um pouco aquele violão que dormitava. Mas é claro! E não se dá para dizer quanto tempo levou aquela cantoria, pois para a mesa mais e mais gente se achegava.

Muitas vezes era assim: um desconhecido chegava e logo em seguida se tornava conhecido, uma conversa iniciada se tornava festiva, um violão adormecido despertava em acordes e vozes se somavam entoando canções populares.

Enquanto isso, o mar soprava até nós sua brisa mansa...
________________________
Chico Araujo publica todas as quartas-feiras no Evoé! Madeleines foi escrito em 7 de julho de 2017. Leia mais Chico Araujo em Vida, Minha Vida...

segunda-feira, 17 de julho de 2017

SOBRE A NARRATIVA E SUA DIMENSÃO UTILITÁRIA - Túlio Monteiro

Para ter valor uma narrativa deve encerrar em si alguma dimensão utilitária. A produção de uma obra literária que não possua esta característica estará deixando de ocupar importantes papéis no que diz respeito às suas inúmeras funções sociais: o de informar e esclarecer de forma crítica e abalizada o seu público leitor, por exemplo. O bom escritor deve possuir um profundo senso prático no que diz respeito à sua produção intelectual, buscando sempre ultrapassar os limites do simples narrar, para com isso inserir o produto de sua criação no restrito campo das obras comprometidas com o engrandecimento da humanidade. Um bom exemplo deste tipo de escritor é o do russo Nikolai Leskov (Orjol,1831 – S.Petersburgo,1895). Simpático aos interesses dos camponeses e das ideias de Tolstoi e Dostoievski, combateu ferrenhamente as burocracias eclesiástica e governamentais de seu País. Confirmando a máxima de que viajar é adquirir conhecimento e experiência narrativa, Leskov, trabalhando como agente russo de uma firma inglesa conheceu quase todo o seu país. O contato com os mais variados tipos de pessoas e níveis sociais enriqueceram, sobremaneira, seu conhecimento de mundo, levando-o a produzir uma literatura comprometida com os ideais igualitários socialistas fundamentados por Karl Marx e Engels no Manifesto Comunista de 1848. Seu primeiro texto impresso: “Por que os livros são caros em Kiev?”, aborda e critica – já na Rússia do século 19 – uma questão extremamente atual no mundo de hoje: a atitude ditatorial das classes dominantes, detentoras do poder econômico e por consequência de todo o processo mecânico de produção impressa, de encarecer o custo final dessa produção com o único intuito de dificultar o acesso das classes menos favorecidas a informações que, se absorvidas por essas massas, culminariam com ameaças reais à sua hegemonia oligárquica. A produção literária de Leskov inclui ainda inúmeros escritos abordando temáticas que versam sobre as péssimas condições da classe operária, dos desempregados, sobre o alcoolismo gerado pela falta de perspectivas e toda uma gama de desigualdades sociais advindas das arbitrariedades do poder czarista de então.

Sobre este teor utilitário e engajado da narrativa literária, Walter Benjamin escreve: “O senso prático é uma das características de muitos narradores natos. Mais tipicamente que em Leskov, encontramos esse atributo em Gotthelf, que dá conselhos de agronomia a seus camponeses, num Nodier, que se preocupa com os perigos da iluminação a gás, e num Hebel, que transmite a seus leitores pequenas informações científicas em seu Schatzkastlein (Caixa de Tesouros). Tudo isso esclarece a natureza da verdadeira narrativa. Ela tem sempre em si, às vezes de forma latente, uma dimensão utilitária. Essa utilidade pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa norma de vida – de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar conselhos.”[1]

Um aconselhador, por certo. Porém, um aconselhador que gere opiniões visando sempre extrapolar os meros limites da história e da ficção, buscando uma proximidade maior com informações que possam ser úteis não só aos leitores de sua época, mas também às gerações futuras que, porventura, venham a ter acesso aos seus escritos. “A própria questão da narrativa exige tal risco”, comenta o crítico Luís Costa Lima[2]. Limitar sua atuação apenas aos campos da historiografia e/ou da ficção é cercear as inúmeras possibilidades sociais que a literatura pode proporcionar a seus receptores.

Notas:
[1] BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: Magia e técnica, arte e política. DF, Brasiliense, 2ª ed.,1986.p200. 
[2] LIMA, Luís Costa. A Aguarrás do Tempo: Estudos Sobre a Narrativa. RJ, Edit. Rocco, 1989.p.16

_______________________

Túlio Monteiro - escritor, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro..

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Madeleines? - Chico Araujo

Na obra Em busca do tempo perdido, escrito memorialístico desenvolvido em sete volumes, Marcel Proust divulgou para os leitores de todo o mundo as madeleines francesas. As madeleines são, em verdade, bolinhos franceses originalmente feitos em formato de conchas marítimas, a partir da mistura de farinha de trigo, açúcar, manteiga, ovos, raspas de cascas de limão e fermento em pó.

No caminho de Swann, primeiro volume da série dos sete romances memorialísticos, foi o livro no qual Marcel Proust revelou, por meio de seu narrador-personagem, a fonte de inspiração para tão portento escrito literário: as madeleines. Nele, descreve o narrador como a degustação da iguaria em casa de sua mãe acendeu nele a memória de acontecimentos relevantes em sua existência; tão importantes que os levaram à escrita de Em busca do tempo perdido.

É em No caminho de Swann, portanto, que se narra uma experiência intrigante de um personagem que entra em processo de despertar de sua memória a partir do instante em que se delicia com o bolinho caseiro materno. O momento é simples e intenso: o personagem-narrador põe na boca um pouco do biscoito e de chá e, ao sentir o sabor dessa mistura, entra em intenso processo de rememoração de experiências do seu passado. O personagem-narrador deixa claro que o “gatilho” a desfechar sua memória foi o consumo do chá com a madeleine.

Por mecanismo metafórico generalizante, pode-se aceitar que um mecanismo involuntário despertador de memória – fazendo com que ela traga, para o presente, lembranças adormecidas no tempo – seja uma madeleine. Especificamente em Proust, as reminiscências foram acordadas pelo processo sinestésico associativo do sabor do biscoito e do chá com o aroma de ambos – paladar e olfato se entrelaçando. Para você, o que seria uma “sua” madeleine?

Para mim, bem recentemente, uma madeleine a mim se chegou por meio eletrônico, exatamente em mensagem eletrônica enviada por um amigo me avisando que outro, a quem não vejo por trinta anos, estava a minha procura. George Farias! Músico cearense migrado para Roraima buscava contato comigo. Quase de imediato esse contato se fez. E foi lendo o e-mail por ele primeiramente enviado que a memória de pronto se pôs em rebuliço. Na conversa realizada logo depois, o alvoroço se fez mais intenso.

George Farias foi um dos componentes do Grupo Bauê, formado por quatro jovens interessadíssimos em compor músicas e interpretá-las lá pelo começo dos anos 1980. Conheci-os por volta de 1983, por intermédio da atriz cearense Neidinha Castelo Branco. Naquela época, eu já estava com sólida parceria musical com Matteus Viana, eu letrista, ele melodista e harmonizador das canções que fazíamos.

30 anos... É muito tempo transcorrido na vida...

Uma das primeiras visões que me acorreram em ler o e-mail de George foi um momento especialíssimo para nós dois: subimos ao palco do nosso maravilhoso Teatro José de Alencar para interpretarmos, eu na voz, George no violão, a música “Nos bailes da vida”, de Fernando Brant e Milton Nascimento. Nossa participação se inseriu no evento “A Noite das Estrelas”, que tinha por motivação maior premiar atores, atrizes, diretores e peças de teatro no ano de 1983. Os idealizadores daquele acontecimento cultural: Neidinha Castelo Branco e o teatrólogo Maurício (seu sobrenome a memória não conseguiu trazer para cá).

Talvez seja desnecessário dizer o quanto aquela noite foi especial; mas “A Noite das Estrelas” propiciou a George e a mim uma oportunidade rara: subir a um grande palco de teatro pela primeira vez! É isso mesmo. George e eu não tínhamos experiência em palco de teatro e “debutamos” simplesmente no maior teatro de nosso estado: o José de Alencar. Lembro-me, sem equívoco, de que optei por estar todo de branco naquela apresentação artística; míope que sou, naquela época usava óculos de grau em armação arredondada, de metal, inspirado em certo músico de Liverpool.

Essa busca de contato de George Farias me trouxe mais lembranças. Por exemplo, os ensaios em preparação para o show musical Nascer do Canto, realizado no Teatro Carlos Câmara, muito conhecido como Teatro da Emcetur. Nascer do Canto foi evento de apresentação para o público de músicas autorais minhas em parceria com Matteus Viana. O Grupo Bauê aceitou participar daquele momento e foi, de fato, quem deu todo o suporte musical básico para que tudo pudesse acontecer. Nunca me esqueci de George tocando violão de "forma trocada", por ser canhoto, e portar violão para destros, nem de Washington, outro músico do grupo, tocando escaleta, na época um instrumento desconhecido por mim, instrumento que deu uma sonoridade especial nos arranjos de algumas músicas.

Nascer do Canto tinha amplos significados. A memória despertada me traz alguns: 1. o nascimento, digamos, oficial, do canto de Matteus Viana e Chico Sérgio (era assim que assinava na época); 2. o nascimento de nossas músicas de um lugar, que seria o Ceará, em visão macro, e Fortaleza, via Teatro Carlos Câmara, em visão micro; 3. o surgimento, para a sociedade, de um canto em parceria que se inseria também como ato contestador da política vigente, uma vez que ainda estávamos no período da Ditadura Militar e composições nossas objetavam o regime.

Para a realização daquela apresentação musical naquele ano de 1984, precisamos ter a liberação de todas as músicas pela Polícia Federal. E, disseram-nos – nunca confirmamos o fato –, da presença de policial daquele departamento no recinto. E é certo, sem necessidade.

30 anos... É muito tempo transcorrido na vida... É muito guardado na nossa memória... Que venham sempre as madeleines...

____________________
Chico Araujo publica todas as quartas-feiras no Evoé! Madeleines foi escrito em 5 de julho de 2017. Leia mais Chico Araujo em Vida, Minha Vida...

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Plano Nacional de Leitura e Escrita - Lei Castilho

O deputado Thiago Peixoto (PSD/GO), responsável pela relatoria da Lei Castilho na Comissão de Cultura, apresentou, na última sexta-feira (07), relatório favorável ao projeto que institui a Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE) como estratégia para promover o livro, a leitura, a escrita, a literatura e as bibliotecas de acesso público no Brasil. Em seu voto, o deputado goiano ressalta que o Projeto de Lei (PL) é “resultado de um grande debate feito entre o segmento editorial, a sociedade civil organizada e o poder público. Uma verdadeira congregação em prol do desenvolvimento da leitura, literatura e escrita no Brasil” e conclui que “trata-se de uma matéria louvável e de suma importância para o desenvolvimento cultural, social e democrático do país, que merece ser apoiada e concretizada”.



De autoria da senadora Fátima Bezerra (PT / RN), o PL foi proposto por José Castilho Marques Neto, em maio de 2016, quando ainda era secretário-executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL). No Senado, o PL teve relatoria favorável do senador Paulo Paim (PT / RS) e, depois de aprovado, seguiu para a Câmara dos Deputados, onde ainda terá que passar pelas comissões de Educação e de Constituição e Justiça e de Cidadania para só então seguir para a sansão presidencial.


O PL tem como diretrizes a universalização do direito ao acesso ao livro, à leitura, à escrita, à literatura e às bibliotecas; o reconhecimento da leitura e da escrita como um direito; o fortalecimento do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas; a articulação com as demais políticas de estímulo à leitura, ao conhecimento, às tecnologias e ao desenvolvimento educacional, cultural e social do País e o reconhecimento das cadeias criativa, produtiva, distributiva e mediadora do livro, da leitura, da escrita, da literatura e das bibliotecas como integrantes fundamentais e dinamizadoras da economia criativa.






Fonte: PublishNews

ANGÚSTIA EM SÃO BERNARDO - Túlio Monteiro

Desde então procuro descascar fatos, aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café, à hora em que os grilos cantam e a folhagem das laranjeiras se tinge de preto.
Paulo Honório, em São Bernardo, de Graciliano Ramos
Estranho só agora ter que voltar à casa de onde tão cedo fui mandado embora por meu pai. Apesar de ter sido arrancado prematuramente do meu mundo de menino, mal completos sete anos, são muitas as lembranças surgidas à mente deste homem já feito. Trinta anos pelo São Pedro.

Vim para enterrá-lo ao lado do túmulo de minha mãe, da qual nada me recordo. Tudo que sei dela a mim chegou através daqueles que me cercavam quando ainda corria solto pelas terras da fazenda São Bernardo: Minha ama, o vaqueiro Marciano e o peão Casimiro Lopes, homem de compleição e intelecto brutos, mas o único que me deu um pouco do carinho de pai que todo menino gosta de ter. Impossível esquecer os momentos nos quais ele me levava a passear em seu cavalo para ver os animais pertencentes ao meu pai – os racionais e irracionais – ou quando papagueava comigo contando-me histórias de onças, entrecortadas por cantigas do sertão.

Eu nasci de sete meses,
Fui criado sem mamar
Bebi leite de cem reses
Na porteira do “currá”

Vim a saber que eu tinha pouco mais de um ano quando ela partiu. Suicídio por envenamento. Não suportava mais o ciúme doentio de meu pai que enxergava traição em cada amigo visitante, cada serviçal ou mesmo nos piados de animais noturnos, segundo ele assovios, sinais convencionados entre os amantes de sua mulher.

Depois que minha mãe Madalena morreu, Paulo Honório passou a oscilar entre a inocência e a culpa de sua esposa. Tornou-se homem ensimesmado, ora trabalhando feito um bruto, ora sentado à mesa da sala de jantar, noite madrugada adentro, deitando no papel reminiscências que um dia desejou tornar livro. Expiação impressa de suas culpas, dúvidas e razões.

(...)

O grito de uma coruja no forro da igreja da fazenda sobressaltou-me. Similar às Madeleines de Proust, aquele piar estridente que tantas vezes ouvi nas noites escuras e solitárias de minha infância, despertou-me do monólogo interior que me açoitava a mente. Caminhei pela casa até chegar à sala de jantar, onde a estante de minha mãe permanece intacta e abarrotada de livros. Obras que vão dos clássicos de Shakespeare e Cervantes à literatura subversiva que tanto a apaixonava e que tantas discussões acaloradas gerou entra ela, o Doutor Magalhães, seu Ribeiro e o Luís Padilha, respectivamente o Juiz da comarca de Viçosa de Alagoas, o Guarda-Livros de meu pai e o ex-próprietário de São Bernardo. Seres cultos que atraiam a ira e o ciúme exacerbado de meu pai, homem de mãos grandes, rosto vermelho e sobrancelhas espessas; àquela época um cabra rude de coração miúdo, lacunas no cérebro e nervos diferentes dos nervos de outros homens.

Correndo os olhos de leitor voraz – herança materna – pelas lombadas dos livros bem arrumados, percebi uma falha organizacional. Entre as obras de Marx, Engels e Prestes um envelope gris destoava. Abri com zelo aquele móvel que, enfim, seria meu, uma vez que meu pai jamais permitiu que daquela casa ele fosse removido. Dele, só Paulo Honório possuía as chaves, apenas a ele cabendo a execução dos necessários serviços de limpeza e manutenção. De homem que detestava as letras, lapidou-se um literato ao longo dos seus muitos anos de solidão.

Dentro do envelope, um punhado de folhas amareladas que encerram quase três décadas do fluxo da consciência de meu pai. Iniciadas sem muito ou nenhum esmero sintático, à medida que os anos de angústia avançavam e a cultura invadia meu pai como a luz de um sol setentrional, sua costura textual se fez mais densa e harmoniosa, prova maior de que a estética – ao contrário do que pregam os cultuadores das velhas e desgastadas torres de marfim – está ao alcance de qualquer mortal.

Todos os acontecimentos ocorridos na vida de meu pai após a partida de minha mãe estavam ali. Os li com avidez. Qual Otelo ou Bentinho, Paulo Honório foi um homem torturado hora pelo remorso, hora pela convicção da infidelidade de sua Desdêmona, de sua Capitu. E eu, o menino magro de cabelos loiros como os da mãe, que se esgoelava em choros contínuos e vivia se esgueirando furtivamente pelos cantos da casa, fui a maior vítima dos fantasmas criados pelo ciúme de Paulo Honório. Fui preterido por ele, mandado embora de meu lar – que a mim não importava ser feliz ou infausto –, para ser criado em um internato. Inferno de Dante aos meus olhos pueris.

Cresci “industrializado”. O tratamento mecânico e despido de afeto que se recebe em um internato deixa marcas indeléveis na mente e na alma. Tornei-me adolescente soturno, depois homem de poucas palavras e nenhum riso, que encontrou nas letras o refúgio ideal, transformando-me no escritor que meu pai nunca foi.

Procurei esquecer São Bernardo e os que comigo habitaram-na. Fingi não ter passado, odiando meu pai a cada dia que me era dado a viver. Endureci e assim vivi por quase trinta anos sem pisar nas terras de Viçosa. Palmeira dos Índios era meu lugar, Alagoas meu porto seguro. Rio de Janeiro, mero local para se conquistar dinheiro e fama.

No entanto, agora sentado à mesa que Paulo Honório usou como refúgio literário em detrimento de suas dores, sinto-me impotente diante de tantas folhas amargas, tantos fatos encobertos pelas cinzas dos anos de solidão que dilaceraram meu pai e eu. Nos afastamos, deixamos de nos falar. Eu cuidando de meus escritos e ele dos dele. Deus, como teríamos sido menos infelizes se tivéssemos nos tornado íntimos, cúmplices na vida e nas letras, pai e filho, simplesmente.

(...)

Todos dormem em São Bernardo.

“Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto, o luar entra por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas no chão”.  Resolvo por escrever. Forma maior e única que conheço para livrar-me dos assombros que me habitam. Quem sabe, não o inicio um novo romance na mesa em que meu pai tantas vezes esteve a acordar lembranças, “em busca de um tempo perdido” que ele nunca conseguiu resgatar. Tentativas de “acabar” com a memória, dissolver as recordações por intermédio dos estranhos hiatos de um sonho angustiado.

Levanto-me e procuro uma vela. Não tenho sono. As lembranças causam um arrepio. Dou luz à vela e sento-me para escrever uma linha, confidenciando-me em voz baixa:

– Estraguei a minha felicidade, estraguei-a estupidamente.

Deixo a pena correr pelo papel ao tracejar frenético de meus dedos. Se ao menos meu pai voltasse...nem sequer tive a amizade de meu pai. Que miséria!

(...)

Todos dormem em São Bernardo.

“E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos.”

_______________________
Túlio Monteiro - escritor, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Olha só quem já está andando... quase correndo... - Chico Araujo


As Mães – sim, as Mães – costumam ser bastante amorosas com suas crias, notadamente quando estas ainda muito dependentes delas; amamentam na plena pureza do binômio amor e vida; praticamente não dormem com tranquilidade, para estarem sempre com o olhar sobre; põem-nas nos braços-colos declarando carinho e atenção insuspeitáveis; riem e fazem-nas rir, cantam canções diversas, conversam com as pequenininhas como se já falassem também, professando a máxima do afeto maior, imensurável.

Quando os pequeninos adoecem, por mais simples que seja o adoecimento, elas, sem equívoco e sem demora, esquecem-se de si em benefício total da descendência. Muitas vezes não pregam os olhos” durante dias e, pacientes, cuidam sem reclames daqueles que lhes descendem. Mantêm mamadeiras sempre na temperatura ideal para o leite, quando já não ocorre a amamentação; dedicam-se à seleção dos melhores frutos e legumes, das primorosas verduras para as “sopinhas-papas”, quando chega o momento das comidas menos líquidas.

Aparecem os primeiros dentinhos, um estado febril acompanha aquela descendência. Mais horas sem bem dormir, num acompanhamento quase sem qualquer descanso, paciência ímpar pela irritação e choro e enjoo pueril. A papinha preparada com boas doses de amor e afeição se estraga por não ser consumida, a Mãe não reclama, aceita o contratempo, sabendo-o passageiro.

O tempo vai passando...

Um belo dia, a frase salta da boca materna, entre feliz e espantada: Olha só quem já está andando... quase correndo...

Então se vê um momento concreto de início de independência. Agora o braço-colo já não se configura como o lugar ideal para estar; agora é o mundo a ser descoberto, por primeiro o mundo ali bem perto, o chão da casa. O doce e abençoado chão da casa materna, lugar onde todos os filhos estão sempre em imensa proteção, principalmente quando no amparo das boas mães.

Depois do chão da casa, paciência, Mãe; o mundo chama... e impera!

Gibran Khalil Gibran, libanês que, além de filósofo e ensaísta, também foi poeta, poetizou, certa vez, "Os filhos”, publicado originalmente no livro O profeta¹:

Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.

Hoje, filho, pai e avô, posso corroborar esses iluminados versos de Gibran. Iluminados, sim. Certeiros também, em nossos corações humanos, frágeis, temerosos. Versos que nos dizem muito do que proporcionamos a nossos pais, quando um certo dia, de uma maneira sutil ou, de outra, áspera, concreta ou implicitamente, a eles dissemos que não seríamos o que eles desejavam que fôssemos, que não seguiríamos os passos pensados por eles para o cumprimento de nossos caminhos. Um dia assumimos para nós nossos próprios pensamentos, resolvemos tomar conta das chamas cujas nossas almas acendem.

Meus pais, um dia, rumaram da casa dos pais deles, daquele espaço onde deram os primeiros passos, para assumirem o destino de suas existências em casa própria. Eu, um dia, tive a mesma ação. Minhas filhas reproduziram esse ato. Meus outros filhos, certamente, em algum momento futuro, o realizarão.

Sabe o que acontece, Mães? Depois que os filhos começam a andar, eles quase imediatamente desejam correr. Então, não há nada segure as asas que os fazem voar.

A vida é assim.

______________
1 Aos interessados em Gibran Khalil Gibran, caso distante de livrarias e bibliotecas, recomendamos algumas leituras em Para ler e Pensar, também Clube Positivo.

Chico Araujo publica todas as quartas-feiras no Evoé! Olha só quem está andando... quase correndo... foi escrito de entre 15 e 25 de junho de 2017, inclusive. Leia mais Chico Araujo em Vida, Minha Vida...

terça-feira, 4 de julho de 2017

Crítica: Um olhar sobre a crônica de Túlio Monteiro "A água, o vale e a montanha", por Suely Andrade

Uma crônica traçada da altura da habilidade de Túlio Monteiro com o léxico e a semântica, encabeçada na epígrafe pelas firmes palavras do mestre Moreira Campos (de quem o cronista teve a graça de ser aluno). Essa menção faz-se mais do que mera intertextualidade, pela impressão que facilmente dá ao leitor de antecipação do arremate das ideias da crônica, que trata da profusão da vida em todas as suas instâncias, assim como da força que a move. Longe da pretensão de uma análise engessada desse texto do autor Túlio Monteiro, coloco aqui, à exposição, alguns aspectos que a mim sobressaem na composição da narrativa A Água, O Vale e a Montanha.

Para isso, inicio destacando o enlace da estrutura formal com a temática, o que a meu ver se estabelece através dos temas que surgem, ora em parágrafos extensos, ora em parágrafos concisos, ou mesmo em construções nominais, também mínimas.

Essa perspectiva ilustra bem com a construção: !!!!!!!!!!!!!!!!Chuva!!!!!!!!!!!!!!!!, que incide na narrativa com a intenção clara do autor de concretismo. Para além do segmento, o autor lança mão do uso do sinal de exclamação, com o intuito de favorecer o leitor com a intensidade pretensa para a palavra 'chuva' e o que ela representa. Nisso se incluem, seguramente, tanto o significado universal do fenômeno chuva, quanto o seu significado intimamente ligado ao texto. Nesse pormenor, menciono as estruturas superficiais e profundas de que trata Fiorin, 1990.

Ainda sobre a fusão forma-tema, destaco a fluência e o ritmo estabelecidos pelo autor na narrativa com o efeito trazido pelas frases nominais ou mesmo por parágrafos curtos. É o caso das construções: 'Gozo' e 'Arrebol' que intercalam parágrafos. Aqui, o leitor mais atento e corrente consegue verificar tanto a cadência narrativa sugerida pelo breque que representam tais construções diante de outras extensas, como a conotação gradativa que, no complexo narrativo, se estabelece apontando para um clímax no desfecho da crônica, onde encaixo também a observação feita inicialmente acerca da epígrafe, quando Túlio Monteiro, muito felizmente, evoca Moreira Campos e com ele ilustra tão bem sua visão lírica – nessa crônica que também o é – sobre a vida.
_______________
Suely Andrade – escritora e crítica literária.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A ÁGUA, O VALE E A MONTANHA - Túlio Monteiro



O único compromisso da Literatura é com a vida. A força da vida
está no sexo. Se você escreve sobre a verdade disso, não se preocupe,
meu velho, com a moral burguesa. Não vale nada.
Moreira Campos

Março. Mês de chuvas, águas que caem do céu para fertilizar, gerar novas vidas vegetais, matalotagens altruístas que manterão vivas incontáveis vidas animais. 

A montanha que há bem pouco agonizava, secando sob o sol abrasador sua pele antes verde, hoje cinza cor de seca, aguarda as águas que certamente virão. Aguarda a montanha, carente de líquidos qual mulher pouco ou nada amada, em desejo ciese de ser fecundada pelo homem maduro ou pueril que um dia há de penetrá-la, lançando-lhe no âmago uterino corpóreo – de pele ou de terra – filhos perpetuadores, genes eternizantes.

!!!!!!!!!!!!!!!!Chuva!!!!!!!!!!!!!!!!

Noite que se vai, sol que se chega e que se põe. Ciclo da vida, círculo que nunca se encerra ou jamais se começa. Poesia incessante que se conjuga no infinitivo verbo eternizar. 

A noite que sobre tudo despenca se abate, despeja-se sem trégua no corpo da montanha que reina. Animais se aninham, aconchegando-se em lares quentes feitos por si. Pássaros diurnos cessam seus cantos, estrelas cadentes deixam de riscar o céu, agora cheio de nuvens prenhes de água, esperma do zênite que fura a crosta da Terra, para semear vida no interior dessa bola azul que o animal-homem ainda teima em insistir ser somente sua.

Madrugada adentro, escorre pelas encostas da montanha o burburinho macio das águas. Percorrem valas, cantos, grotas, mapas tortuosos a indicar-lhes seu porto final. À sua passagem, plantas curvam-se em respeitosas reverências, sabendo serem elas – as águas –, as fontes primeiras de suas existências.

Epicurismo. Silêncio notívago de vaga-lumes que se escondem entre as folhas temendo o frio que se instala. Em seu deslizar convicto, elas descem cada vez mais rápidas pelos caminhos de terra que encontram, prelibando a cada metro percorrido o ato final da saga iniciada no topo da montanha, macho telúrico em franca busca dum coito anunciado pelos céus que cercam o planeta. 

O ângulo de declive diminui.

Antes vertiginosas, as águas abrandam a intensidade de sua descida, delicadamente apossando-se do vale que se tornará mãe de novas vidas, novas fontes de pseudo-eternidade. 

Macho e fêmea fundem-se em um só. Amor da natureza consigo mesma. Milagre da vida que, ao iniciar-se, inicia consigo a própria morte. Os ventos, cupidos alados que são, acobertam gemidos que viajam às estrelas, conspirações maiores do universo.

Gozo...

Quietude no lago que se formou no centro do vale, aos pés da montanha. Na madrugada alta, um luar em plenilúnio enche de prata as gotas de chuva que ficaram presas nas folhas das árvores. Orvalho dos reis, diria um poeta.

Finda-se, por enquanto, o prazer. Dormem agora embalados pelo silêncio de seus corpos, os amantes saciados. Mágico instante em que montanha e vale, macho e fêmea, homem e mulher, invertem gêneros gramaticais.

Arrebol...

O dia que agora nasce será mais um naquelas paragens. Dia de novos prazeres, de novos milagres, novas fertilizações. Igualdade de desejos e sexos. Cumplicidade: circularidade infinita d´um verbo conjugado amor.

_______________________
Túlio Monteiro - escritor, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Por que que a gente é assim? - Chico Araujo

O fato é, aparentemente, bem simples, de tão comum: estacionar o veículo o mais próximo possível da clínica em que se fará um exame. 

Na avenida movimentada por trânsito intenso, não é fácil localizar um espaço onde se possa deixar o carro. A senhora conseguiu. Visualizou a vaga de longe e com destreza o paralisou em lugar impróprio. Desceu, logo depois, com seus dois filhos.

Na dinâmica da situação, cri não ter observado que, em parando naquele exato lugar, barrara o acesso feito na calçada para cadeirantes. Atencioso, fiz o alerta. Pra quê? 

A resposta veio rápida, entre irritada e arrogante: O senhor está vendo outro lugar pra estacionar? Surpreso pela réplica, sugeri, quase calmo: “A senhora não deve ter visto o estacionamento aqui mesmo na esquina.” Então, a tréplica veio mais abespinhada: "E eu lá vou pagar seis reais num estacionamento por causa de um exame?"

Desalentei. 

Pedi desculpas e rumei para o estacionamento onde havia deixado meu carro. Paguei sete reais e cinquenta centavos por ter excedido o tempo de 1 hora. Outra parte daquela conta foi paga pela própria clínica para onde se dirigiu a senhora e seus dois filhos – uma menina, um menino –, a mesma clínica da qual saí, após realizar um eletrocardiograma de rotina.

Aquela casa de saúde tem por método de beneficiamento a seus clientes / pacientes pagar a primeira hora do estacionamento onde podem deixar seus veículos a uma distância dela de aproximadamente trinta metros. Um amplo estacionamento.

Já no meu carro, me assaltou a pergunta (que não se associa ao cancioneiro cazuziano): Por que que a gente é assim? Foi uma questão que se insurgiu e que não sossegou. Não saí logo do estacionamento; fiquei parado ali alguns minutos, refletindo sobre aquela pergunta. Não me veio resposta, nem lá, no tempo em que fiquei estacado, nem aqui, onde me impus escrever esse texto, talvez almejando, com ele, alcançar alguma refutação satisfatória. Não veio.

Solicito sua percepção, leitor, para o fato de eu não estar me referindo a qualquer uma terceira pessoa somente. É importante a consciência de que a expressão “a gente” inclui o “nós”, portanto se refere a ela, a mim e a você também. É muito possível que não somente aquela senhora tenha realizado hoje a ação descrita; é bem provável que muitos de “nós” também a tenhamos praticado. Então, Por que que a gente é assim?

Amamos em plenitude somente a nós mesmos? Os outros que se danem? Altruísmo “às favas”? Amemos a nós mesmos como a nenhum próximo amaremos? Sendo o homem, por consenso, um ser social, como explicar tamanho paradoxo, exatamente esse expondo, em uma simples vaga para estacionar, que ego é infinitamente mais relevante que álter? Como seres sociais – ainda se afirma muito isso –, devemos ter em plano bem desenvolvido moral e ética. Temos? A partir do exemplo, não temos.

Não, prezado leitor, não estou sendo radical, estou apenas refletindo sobre uma ação simples, cotidiana, semelhante a várias outras ações, também vulgares, por habituais, por meio da qual nos revelamos ser muito menos, quando ousadamente nos declaramos ser abundantemente mais. Somos presunçosos, não?

Concretamente, a grande questão não está aqui posta tendo por base o suposto único lugar visualizado para estacionar o mais próximo possível do destino programado, tampouco se refere aos seis reais a se pagar em um estacionamento. Isso é pouco e assaz pequeno. O amplo “mote” proposto está em torno do nosso inequívoco “nos sentirmos bem” – e bem à vontade –, mesmo quando sabemos do prejuízo de outrem por ação que concretamente “a gente” realiza.


Os nossos dias, prezado leitor, cada vez mais parece carecer de políticas afirmativas, no sentido mesmo e preciso de se promover o máximo de igualdade de oportunidades possível. A bem da verdade, não se trata aqui de propor que sejamos – “nós” e “a gente” – bonzinhos. A questão posta vai muito além da bondade e da também sempre necessária caridade: ela se afirma na profundidade do respeito pleno que todos merecem, no reconhecimento cabal do direito a ter direitos, na incontestável sabedoria de admitir que ninguém é mais por ter mais “esperteza”.

Em minha cabeça, também ainda ressoa o breve diálogo travado entre o menino e a mãe, captado enquanto meus passos seguiam adiante:

- Mãe, tu tá errada mesmo.

- Cala a boca, menino. E vê se anda logo. 

____________________________

Chico Araujo, poeta, ficcionista, compositor e intérprete, publica todas as quartas-feiras aqui no Evoé! O texto "Por que a gente é assim?" foi criado em 16/06/2017. Leia mais Chico Araujo em Vida, minha vida...

terça-feira, 27 de junho de 2017

MÁRCIA MATOS: De asa partida... POEMAS DO NADA A VER (desmotivo para o Volume I)




As palavras em rima de mim cansaram.
Nada que combine em rica sílaba me convém
Nem em tela luminosa ou papel pardo
Nenhum pobre acorde de palavras se atém

Em folha branca a asa não mais brinca
Só a carga de narrar versos em branco
Enquanto salta o ritmo que desalinha
O cantar de mais um mote em pranto

Sofro há horas o madrugar sem maestria
Do que agora pede inspiração
Esquecendo a musa que em teimosia
Azucrinava e rogava devoção

Vão-se os dedos com reumática crise
Minando à míngua esta dor fugidia
Tragando-me em humilhante artrite
O que antes transbordava poesia

Posto enfim o que não é mais chama

Márcia Matos

Entrego à aurora a pena quebrada
E sob o orvalho da flor humana

Descanso a mão sem a alma lavada!


__________________
Márcia Matos, poeta e cronista, publica ocasionalmente no Evoé! Natural de Palmácia, Ceará,  é professora na Secretaria de Educação do Estado e Município do Ceará. Graduada em Letras (UFC) e Pós-graduada em Planejamento Educacional e Administração Escolar.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Eu sou aquele que come as flores do aniversário - Túlio Monteiro'



"Refratário aos mistérios e enigmas do encantado, em atração constante pelo mito, pela magia, pelo difuso, pela penumbra da inconsciência, possui a grande ciência do texto lírico, belo, inovador e ousado. Travestido de compadre do diabo, é, entretanto, um romeiro devoto, capaz de fazer promessas e vestir o balandrau do Pobrezinho de Assis. Finge regar os caminhos de Satã para vencê-lo de tocaia e ganhar as graças de Deus."  (Juarez Leitão)


Sábado. Cedo! 

Como de costume levanta-se, esticando músculos e ossos já utilizados, amiúde, por mais oito décadas. Passara a noite nu, porque o nu nunca lhe fora mais que beleza, liberdade corpórea, utilização da carne em prol da satisfação mútua dos corpos que, um dia, acolheram o seu em alcovas muito ou nada corretas... o que definitivamente não lhe importava- já que sexo nunca nada lhe mais fora que o prata emanado das estrelas e luas do caleidoscópio estridente de gozos bramidos noites adentro, pois todo homem que não presta e se preza faz sua mulher perder a vergonha, gemer e voltar sempre aos seus braços e beijos. Pois como a Lua excita a mente dos loucos, desperta o ciúme e a paixão dos poetas, levanta o nomadismo dos ciganos e faz com que o assassino vislumbre de longe a sua vítima, assim as mulheres e os homens livres de dogmas puritanos conduzem seus pares à sublimação e ao clímax ... a Eros e Tanatos. 

Não se queixava mais da vida, apesar de já ter perdido todos os "bicos" que fazia nos jornais, andando agora doente, os nervos escangalhados, o coração dando arrancos, muitas vezes infligindo-lhe noites de insônias rebeldes que o levavam a pensar em crimes, suicídios e outras coisas absurdas, satânicas até.

Sim! A velhice havia-lhe chegado qual grades intransponíveis. Olhos mirados nos espelhos da escrita, enxergava-se agora espectro, um velho sem família, sem parentes ou amigos. Um trapo, um bicho indefeso atirado aos abutres amontoados em colinas pontiagudas e labirínticas que certamente ocultam dragões, herdeiros, talvez, daquele que habitou - e por lá ainda durma pesado sono - as profundezas do Alto dos Angicos, pedaço do Ceará que o Coronel-garanhão Antônio José Nunes, em século já ido, arrebatou das mãos dos Tremembé.

Trinca-se o espelho da imagem envelhecida. Que se fossem, malditamente, para o mais abissal dos Infernos de Dante as lembranças de tempos, felicidades, sofrimentos e corpos passados. Valia-lhe mais o ali e o presente. 

Oito décadas e meia pelo setembro que se aproximava, já tantas vezes havia sentido a morte roçar-lhe sobre os ombros com seu car­rilhão de plumas eriçadas como a cauda de um réptil venenoso, que no mundo nada mais o assustava. Preferia repetir Fernando Pessoa e "exigir de si mesmo o que sabe que não poderia fazer. Pois não é outro o caminho da beleza". Ou Byron, "onde todas as coisas que nasceram, só nasceram para morrer. E a carne é uma erva que a morte ceifará". 

II

A manhã daquele sábado já deslizava para a tarde quando decidiu sair, deixando de lado o passado remoto que sempre teimava em aborrecer-lhe com coisas que só lhes serviam de entrave na vida. O dia estava quase pelo meio e flanar pelas ruas com ou sem saída da velha Gentilândia seria o remédio maior para o tédio que o invadia. Era o revelho dragão que mais uma vez deixava a Vila Cordeiro para serpentear os ares da cidade que escolhera para servi-lhe de caverna.

Voos tranquilos rumo ao centro da cidade, quase nunca repetia percursos, algo assim sem querer deixar pistas, rastros aéreos de seu Norte Verdadeiro: a Literatura! E como escrevia furiosamente bem aquele sábio dragão, riscando os céus da prosa e da poesia com a maestria pertinente apenas aos guardiães da literariedade de primeira linha.

Entretanto, no final daquela manhã de sábado, o monstro fabuloso resolveu parar seu bater de asas e mergulhar em direção ao chão. Seguiria andando, podendo, assim, ver e rever velhos conhecidos que o cumprimentavam quase em reverência sempre que seus pés e braços alados tocavam o solo infértil e relegado aos desprovidos de almas poéticas. Nessas horas, transmutava-se em humano, disfarçando-se para não dar na vista, nem ser perseguido pela legião de admiradores que arrebatara desde seus primeiros anos de escrita.

Entretanto, desistir de seu voo e descer ao solo tornou-se erro fatal. Ao tentar mudar de calçada, não percebeu que em sua direção um outro dragão se aproximava impiedoso, alta velocidade, urrando em voo rasante e nefasto.

Foi pego com a guarda baixa o maior dos dragões brasileiros.

A pancada sofrida por seu frágil disfarce humano lançou-o longe, o asfalto como campo de batalha recebendo gotas de seu sangue real. Sem lhe dar chances de defesa, seu algoz o atingira em cheio no tórax e cabeça, incapacitando-o de rufiar asas e voltar a sua toca, onde certamente curaria as feridas como tantas vezes já ocorrera em combates passados. Estava ferido de morte, o monstro áleo de Santana do Acaraú.

Ainda transmudado em corpo de homem, foi levado a hospitais onde bravamente agonizou por mais quase um dia, sob os cuidados dos sinceros amigos que sabiam de sua secreta identidade. Outros de sua estirpe? De uma casta linhagem que atravessou os séculos misturando-se entre homens co­muns para acalmá-los nas horas de mais angústia e ânsia por poesias e um pouco de paz? Nunca o saberemos!

Foi sepultado, como era de seu desejo, em solos da Fazenda do Dragão, encravada nas terras de São Francisco do Estreito, onde, segundo narra certa lenda, ele nascera em forma de gente.

Naquela mesma tarde, dizem os que por lá estavam presentes, um vento Aracati insistentemente soprava aos ouvidos dos iniciados um poema há muito escrito pelo Dragão que se fora:

O menino jaz atropelado:
Nossa Senhora, salve o menino!
Deixe que eu morra em seu lugar.
Deixe que eu morra por ti, menino.
Deixe que eu morra atropelado.
Nossa Senhora Salve o menino! . ..
(*"Desastre às 13h e 30 min". ln: As Tágides, (2001 ), de José Alcides Pinto)

_________________
Túlio Monteiro - é escritor premiado e crítico literário. Publica no Evoé! todas as segundas-feiras.