quinta-feira, 14 de julho de 2016

Conversa de Botequim: Às vezes, perder é ganhar

O PCdoB se posicionou com autonomia e coerência. Nenhuma bancada defende a Democracia de forma igual ao PCdoB. Temos um cenário político grave e como sempre os comunistas assumem o protagonismo na luta pela superação dos problemas. Qualquer aliança, um voto para direita, um voto que seja para um liberal seria um ato desastroso para qualquer pretensão de mudança em favor da garantia e avanço das conquistas sociais. Ademais, melhor assim com as posições bem definidas, governo interino liberal, presidência da Câmara liberal, Cunha isolado, a sua malta acéfala. Que a esquerda se una, que siga o exemplo da bancada do PCdoB na luta em favor da Democracia. Neste caso da eleição para presidência da Câmara, perder foi uma vitória.

Conversa de Botequim: Da arte de privilegiar interesses sociais

A política é a arte do impossível pela razão, pode-se dizer também que é a arte de compatibilizar interesses. A qualidade política lastreia-se nos princípios ideológicos. São eles que definem os interesses a serem defendidos e compatibilizados. Os nossos interesses são os públicos. Interesses que consolidam políticas públicas sociais, para a maioria da população. A favor da população, negociemos tudo, menos os princípios; senão a política vira isto que está implícito nesta alegoria:

"Eu disse ao meu sobrinho:
'Você casaria com a garota que eu escolher?'
Ele disse: 'NÃO!'
Eu disse: 'Ela é filha de Bill Gates.'
Ele prontamente: 'Neste caso, claro que sim!'

Liguei para Bill Gates e disse: 'Quero casar sua filha com meu sobrinho!'
Bill Gates disse: 'NÃO!'
Eu disse: 'Ele é diretor do Banco Mundial.'
Bill Gates: 'Neste caso, SIM!'

Liguei para o presidente do Banco Mundial: 'Quero que você nomeie meu sobrinho como diretor do Banco.'
Ele disse: 'NÃO!'
Eu disse: 'Ele é genro de Bill Gates!'
'Ok, ok. Ele começa na próxima semana!' "

É exatamente assim que funciona a MÁ política. Continuemos fazendo a boa política e lutando a boa luta! Viva a Democracia!

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Memória: Turundundum no funeral de Lobato.

Reproduzo aqui publiação de Almanaque Urupês, pelo valor histório. Confira o endereço da fonte no final desta postagem.
Pancadaria no funeral
de Monteiro Lobato

Trotiskistas e Stalinistas saem no tapa a beira da sepultura do criador da Emília
Na madrugada de 4 de julho de 1948 morria em São Paulo, vitimado por um derrame, o escritor taubateano Monteiro Lobato.
A notícia chocou o Brasil. No dia seguinte, as ruas do entorno do cemitério da Consolação onde o corpo de Lobato foi sepultado tiveram o trânsito interrompido tamanha era a massa humana que acompanhou o caixão do escritor até o túmulo. Alguns garantem que compareceram no funeral 200 mil pessoas.
Uma comissão enviada de Taubaté foi incumbida de pleitear, em nome da cidade, que o sepultamento se realizasse em solo taubateano, o que entretanto não foi possível.
O editor Ênio Silveira(1925-1996) faz uma descrição tragicômica da cerimônia de sepultamento do escritor ocorrida  no dia 5. O testemunho é  parte de uma entrevista publicada na coleção “Editando o Editor”, publicada pela Edusp.
O Funeral de Monteiro Lobato
Eu era amigo do Lobato, portanto, vocês hão de compreender que, por mais do que profundas e dolorosas razões, compareci ao enterro e fiquei o tempo todo grudado ao caixão do Monteiro Lobato. Foi, para dar uma pálida idéia, um enterro comparável ao do cantor Francisco Alves, multidões, multidões. Calculo que havia umas duzentas mil pessoas da cidade de São Paulo. São Paulo parou. A morte de Lobato – não é Getúlio Vargas não, é um escritor que morreu – parou a cidade de São Paulo, o centro da cidade, as lojas espontaneamente fecharam as portas. Aquela massa compacta subindo a Consolação – vinda do centro da cidade, no cemitério, esperando o enterro. Estive onde foi velado o corpo, em Campos Elíseos, depois fui para o cemitério esperar. Pois chegou aquela multidão, fervendo, compacta, sólida, e então fiquei ao lado do túmulo vendo aquela cena maravilhosa. O Lobato era, entre outras coisas fascinantes, acusado de comunista; ele não era propriamente comunista, mas simpatizava com o partido. Ele foi muito atacado pela Igreja, o Lobato foi muito acusado. Não era membro do partido, mas era muito amigo de comunistas e sempre esteve ao lado do partido nos momentos mais difíceis. Mas, ao mesmo tempo, ele era espírita e comparecia às Sociedades Espíritas – ia para a Europa em espírito -, acreditava no Além, kardecista, não sei o quê, mas espírita. Era, ao mesmo tempo, barão rural, da aristocracia rural, ele era visconde, se houvesse o Império ele ainda seria visconde. Também era membro de uma Sociedade Agrícola de São Paulo, do Clube Piratininga e de outras coisas que reuniam a aristocracia rural paulista. Era também bom escritor, portanto tinha a sua grei de escritor-jornalista. Ali, “namorava” também alguns trotskistas, que por isso o julgavam trotskista.
Bom, então, esta fauna diversa, multifacetada, se reuniu ali, à beira do túmulo. Quando iam descer o corpo, um pouco antes, pediu a palavra arrebatadamente o Rossini Camargo Guarnieri, poeta, membro do Partido Comunista:
– Camarada Lobato – era ditadura, o partido era ilegal -, estamos aqui, teus irmãos, não apenas para chorar por ti, mas para dizer que jamais morrerás, que estarás vivo na consciência do povo, no coração do povo, como um batalhador, como um companheiro…
– Perdão, companheiro não! Lobato era trotskista – era o professor Phebus Gikovate. – Canalha, filho da puta …
Principiaram aí cenas de pugilato, soco, caíram os dois, e rolaram no chão, o Gikovate e o Camargo Guarnieri caíram na cova aberta. Uma cena de filme de Felini. Quando tiraram os dois, um sujeito Clube Piratininga disse assim:
– Não, o senhor Lobato era da fina aristocracia, se tivéssemos ainda o Império, ele seria um nobre, nobre por dentro e nobre por fora. Lobato…
Era uma gritaria. D. Purezinha, viúva do Lobato, chorava, na verdade, não sabia se chorava ou ria. Eu achando que o Lobato gostava muito dessas cenas, estava me divertindo imensamente. *
In Ferreira, J. P (Ed.) , Ênio Silveira, Coleção” Editando o Editor”, v. 3, Edusp, São Paulo, 1992.

Gravação Rara
Ouça a cobertura que a Rádio Bandeirantes fez do velório e do sepultamento de Monteiro Lobato, clicando aqui.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Lançamento: Trajetórias e Identidades, no II EPEF

Recebi a notícia com muita alegria: o livro Trajetórias e Identidades - saberes docentes e práticas de ensino na promoção da autonomia será lançado dia 1º de julho de 2016, na Universidade Estadual do Ceará.

O convite partiu de Ana Paula Sancho e Rafaela Oliveira Falcão, professoras da Secretaria Municipal da Educação de Fortaleza, duas das organizadoras do Trajetória e Identidades. O livro reúne artigos sobre experiências pedagógicas de professores e professoras. Autores e autoras relatam
 seus êxitos no trabalho docente desenvolvido na terceira maior rede pública de ensino do Brasil.

O acontecimento literário faz parte da programação II Encontro de Produção e Práticas Pedagógicas no Ensino Fundamental - II EPEF que ocorre na Reitoria da Universidade Estadual do Ceará - UECE. O II EPEF inicia pela manhã com mesa redonda (8h - 11h). À tarde, das 13h às 15h, haverá apresentação oral de experiências. Às 15 horas, ocorre o lançamento do livro.

O conjunto do evento revela conquistas importantes, entre as quais o movimento histórico do registro e exposição das atividades, o que possibilita a reflexão, a análise crítica e a constituição de tecnologia educacional a partir da prática dos educadores e educadoras de Fortaleza. Destaca-se ainda o importante fato da autoria. Escrever consiste num ato de profundo pensar e demonstra o compromisso dos professores e professoras que assumem o mister da mais relevante das profissões da qual todas as demais são devedoras: o magistério.
Parabéns às organizadoras Ana Paula Sancho, Rafaela Oliveira Falcão, Diana Pio Monteiro, Ozélia Horácio G. Assunção, parabéns a todos os escritores e a todos os professores que compartilham seus saberes docentes e práticas de ensino na promoção da autonomia. Parabéns à Secretaria Municipal da Educação de Fortaleza e à Universidade Estadual do Ceará por acolher o evento.

Serviço:
O quê: lançamento do livro Trajetórias e Identidades
Quando: dia 1º de julho de 2016, às 15 horas.
Onde: na  Reitoria da Universidade Estadual do Ceará – UECE, Campus do Itaperi, Avenida Dr. Silas Munguba, 1700 -  campus do Itaperi, Fortaleza - CE, 60740-000.
Como: dentro da programação do II Encontro de Produção e Práticas Pedagógicas no Ensino Fundamental - II EPEF (8h às 16h)
Programação do II EPEF:
De 8h30min às 11h40min: mesa redonda
De 13h  às 15h: apresentação da sessão oral e
De 3h30min às 16h: lançamento do livro Trajetórias e Identidades.

domingo, 19 de junho de 2016

No Ceará tem disso sim - por Kelsen Bravos



Do Ceará para o mundo

Dia 17 de junho de 2016 estabelece um marco para economia do livro no Ceará. Foi inaugurada a Livraria da Câmara Cearense do Livro (CCL), no Aeroporto Pinto Martins. A loja oferta a excelente produção editorial do Ceará para o mundo. A estratégia foi uma iniciativa de Albanisa Dummar e Patricia Veloso, associadas da CCL, entidade de classe das editoras cearenses, e articulada por sua presidente (Lucinda Azevedo) junto ao Sebrae (na pessoa de seu presidente, Joaquim Cartaxo), à Secretaria da Cultura (com o Secretário Fabiano dos Santos Piúba), à Frente Parlamentar Mista do Livro e da Leitura, representada no evento inaugural pelo deputado federal Odorico Monteiro. A parceria viabiliza também acervos móveis que percorrerão toda região em Micro-Ônibus transformados em Livraria (KB).

Patricia Veloso, Albanisa Lúcia Dummar Pontes, Lucinda Marques,
Odorico Monteiro, ao microfone. Joaquim Cartaxo e Fabiano dos Santos

Quando o galo canta... 

Em 2015, no Armazém da Cultura, Albanisa Dummar me compartilha a ideia de instalar uma Livraria da Câmara Cearense do Livro no Aeroporto Internacional Pinto Martins. Na ocasião aventamos parceiros para tal empreendimento, quem sabe a Fecomércio ou o Sebrae ou ambos. Foi uma boa conversa. Depois lembro de ter tratado sobre o assunto com algumas pessoas. Uma delas, num cafezinho, foi Fabiano dos Santos Piuba​, que sabe como ninguém de Livro, Leitura e Literatura. Naquele momento, não era secretário da Cultura do Ceará. Avaliou bem a iniciativa.





Secretário Fabiano dos Santos Piúba destaca
iniciativa que fortalece a economia do livro

... quem trabalha se alevanta!

No seguir dos meses, soube da movimentação da Patricia Veloso​ e da Albanisa, junto ao Sebrae, com a articulação da CCL, na pessoa da presidente da entidade, Lucinda Azevedo. Esse doce trio - que é parada dura em determinação e empreendedorismo - já lastreado no consenso dos associados da Câmara Cearense do Livro, galvanizou apoio dos legislativos federal e estadual de forma muito competente.


A sorte dos ventos - Marco histórico

Dizem que quando se trabalha os ventos ajudam. Pois sim, eis que os ventos do Ceará enfunaram a vela dessa jangada de ideias, Fabiano agora é secretário da Cultura, o Sebrae é parceiro do empreendimento, a Frente Parlamentar do Livro - tanto a local quanto a nacional - assumiu o compromisso com a causa. O resultado foi que no 17 de junho deste 2016 testemunhamos um fato histórico: uma autônoma livraria foi inaugurada em local estratégico do Aeroporto Internacional Pinto Martins. Tudo está pronto para dar muito certo.


Kelsen Bravos, Fabiano Piúba, Cleudene Aragão, Patrícia Veloso
 - autores, gestores públicos e editores unidos por um Ceará leitor



Com a sina do vento aracati - navegar sertão adentro

A parceria do Sebrae, o compromisso de representantes dos legislativos federal e estatual e o apoio da Secult-CE, tudo isso promove uma ebulição e tanto. A prova é que a parceria já se ampliou para viabilizar livrarias itinerantes em Micro-Ônibus - BookTruck. São fatos tão estimulantes que, mesmo em meio à crise geral, a gente chega, de fato, a se animar.

Mais animado ainda ficaremos com a implementação desse projeto dos Micro-Ônibus Livraria. Que a participação itinerante deles em feiras regionais leve sertão adentro junto à livraria uma programação cultural que conste de dinamização do acervo da literatura cearense que leva, e, num segundo momento, quando de seu retorno, promova conversas entre os autores e seu público leitor.




Os ventos promovam bem mais que chuva no arado de leituras

A livraria ambulante será, espero, uma ação a mais na tarefa de semear, adubar, polinizar e ajudar a amadurecer a Política do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (LLLB). Será assim feito a ação da chuva. Quanto à colheita, ela será tarefa da sociedade. Tal chuva no arado só vigorará se estiver associada de forma mais parceira à estratégia de cada segmento do cluster LLLB e tiver acolhida também das gestões municipais.


Chuva de leitura - Mediação - Bibliotecas

 O projeto dos Micro-Ônibus Livraria, bem mais do que promover a venda, deve, em parceria, cumprir ações atinentes à Política de Leitura, ao convergir e agregar programação cultural com foco na mediação. Se o fizer ajudará na semeadura, na formação de leitores, na formação de acervo e no fortalecimento de bibliotecas públicas, escolares e comunitárias.


Chuva de Literatura - Criação

Melhor ainda será, se o projeto dos Micro-ônibus Livraria também convergir e agregar programação cultural com foco na criação, ou seja, se suas ações se estenderem ao elo Literatura e promoverem encontro de autores com o público leitor, com mediadores da leitura, com editores e entre si. Todo o potencial da presença dos criadores junto a seus leitores de modo geral será esplendido e gerará mais criação. 

Autores, mediadores e editores unidos por um Ceará mais leitor
Kelsen Bravos, Cleudene Aragão, Júlia Barros e Almir Mota

A professora e escritora Cleudene Aragão prestigiou o evento

Revolução silenciosa 

Que movimento lindo e socialmente relevante pode vir a ser o projeto dos Micro-Ônibus Livraria! O melhor de tudo é só depender em essência do diálogo transparente para começar a efetivá-lo.

E dialogar de forma transparente é parte essencial da atual gestão da Cultura do Estado do Ceará, tanto na pessoa do secretário Fabiano dos Santos Piúba, quanto na pessoa da coordenadora da Política do Livro e Acervo da Secult-CE, Mileide Flores.

As instituições Sebrae, Legislativo, Câmara Cearense do Livro, Secretaria da Cultura e Autores também estão dispostas ao diálogo, aliás, já dialogam. Que venham as gestões municipais, a Secretaria da Educação. Que acolham a implementação de uma agenda positiva para o Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas que ora proponho. Fortalecerá a silenciosa revolução de promover leitores. Viva a Leitura! (KB)

sábado, 4 de junho de 2016

Clube de Leitura: Conto de Escola, por Machado de Assis

Publico cá este excelente texto do Bruxo do Cosme Velho, como forma de contribuir para divulgação do inestimável acervo A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro http://www.bibvirt.futuro.usp.br> e que pertence A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo e que foi por mim acessado no http://www.dominiopublico.gov.br/ (mais informações no fim da página). A ilustração de abertura minha filha Luísa (7 anos) fez depois de ouvir a leitura do Conto de Escola. Boa leitura:


Ilustração de Luísa Moura Bravos - 7 anos

Conto de Escola

A ESCOLA era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia — uma segunda-feira, do mês de maio — deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar a manhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de Sant’Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão.

Na semana anterior tinha feito dous suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial, e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes.

Subi a escada com cautela, para não ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo; ele entrou na sala três ou quatro minutos depois. Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído. Chamava-se Policarpo e tinha perto de cinqüenta anos ou mais. Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem; começaram os trabalhos.

Seu Pilar, eu preciso falar com você, disse-me baixinho o filho do mestre.

Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligência tarda. Raimundo gastava duas horas em reter aquilo que a outros levava apenas trinta ou cinqüenta minutos; vencia com o tempo o que não podia fazer logo com o cérebro. Reunia a isso um grande medo ao pai. Era uma criança fina, pálida, cara doente; raramente estava alegre. Entrava na escola depois do pai e retirava-se antes. O mestre era mais severo com ele do que conosco.

— O que é que você quer?
— Logo, respondeu ele com voz trêmula.

Começou a lição de escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção. Note-se que não era pálido nem mofino: tinha boas cores e músculos de ferro. Na lição de escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso ingênua. Naquele dia foi a mesma coisa; tão depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. Não lhes punha esses nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente, dava-lhes essas expressões. Os outros foram acabando; não tive remédio senão acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar.

Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma cousa soberba. E eu na
escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.

— Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo.
— Não diga isso, murmurou ele.

Olhei para ele; estava mais pálido. Então lembrou-me outra vez que queria pedir-me alguma cousa, e perguntei-lhe o que era. Raimundo estremeceu de novo, e, rápido, disse-me que esperasse um pouco; era uma coisa particular.

Seu Pilar... murmurou ele daí a alguns minutos.
— Que é?
— Você...
— Você quê?

Ele deitou os olhos ao pai, e depois a alguns outros meninos. Um destes, o Curvelo, olhava para ele, desconfiado, e o Raimundo, notando-me essa circunstância, pediu alguns minutos mais de espera. Confesso que começava a arder de curiosidade. Olhei para o Curvelo, e vi que parecia atento; podia
ser uma simples curiosidade vaga, natural indiscrição; mas podia ser também alguma cousa entre eles. Esse Curvelo era um pouco levado do diabo. Tinha onze anos, era mais velho que nós.

Que me quereria o Raimundo? Continuei inquieto, remexendo-me muito, falando-lhe baixo, com instância, que me dissesse o que era, que ninguém cuidava dele nem de mim. Ou então, de tarde...

— De tarde, não, interrompeu-me ele; não pode ser de tarde.
— Então agora...
— Papai está olhando.

Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para o filho, buscava-o muitas vezes com os olhos, para trazê-lo mais aperreado. Mas nós também éramos finos; metemos o nariz no livro, e continuamos a ler. Afinal cansou e tomou as folhas do dia, três ou quatro, que ele lia devagar, mastigando as idéias e as paixões. Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a agitação pública. Policarpo tinha decerto algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada do portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo. Era só levantar a mão, despendurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca. E daí, pode ser que alguma vez as paixões políticas dominassem nele a ponto de poupar-nos uma ou outra correção. Naquele dia, ao menos, pareceu-me que lia as folhas com muito interesse; levantava os olhos de quando em quando, ou tomava uma pitada, mas tornava logo aos jornais, e lia a valer.

No fim de algum tempo — dez ou doze minutos — Raimundo meteu a mão no bolso das calças e olhou para mim.

— Sabe o que tenho aqui?
— Não.
— Uma pratinha que mamãe me deu.
— Hoje?
— Não, no outro dia, quando fiz anos...
— Pratinha de verdade?
— De verdade.

Tirou-a vagarosamente, e mostrou-me de longe. Era uma moeda do tempo do rei, cuido que doze vinténs ou dous tostões, não me lembro; mas era uma moeda, e tal moeda que me fez pular o sangue no coração. Raimundo revolveu em mim o olhar pálido; depois perguntou-me se a queria para mim. Respondi-lhe que estava caçoando, mas ele jurou que não.

— Mas então você fica sem ela?
— Mamãe depois me arranja outra. Ela tem muitas que vovô lhe deixou, numa caixinha; algumas são de ouro. Você quer esta?

Minha resposta foi estender-lhe a mão disfarçadamente, depois de olhar para a mesa do mestre. Raimundo recuou a mão dele e deu à boca um gesto amarelo, que queria sorrir. Em seguida propôs-me um negócio, uma troca de serviços; ele me daria a moeda, eu lhe explicaria um ponto da lição de
sintaxe. Não conseguira reter nada do livro, e estava com medo do pai. E concluía a proposta esfregando a pratinha nos joelhos...

Tive uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse da virtude uma idéia antes própria de homem; não é também que não fosse fácil em empregar uma ou outra mentira de criança. Sabíamos ambos enganar ao mestre. A novidade estava nos termos da proposta, na troca de lição e dinheiro, compra franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa da sensação. Fiquei a olhar para ele, à toa, sem poder dizer nada.

Compreende-se que o ponto da lição era difícil, e que o Raimundo, não o tendo aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu útil para escapar ao castigo do pai. Se me tem pedido a cousa por favor, alcançá-la-ia do mesmo modo, como de outras vezes, mas parece que era lembrança das outras vezes, o medo de achar a minha vontade frouxa ou cansada, e não aprender como queria, — e pode ser mesmo que em alguma ocasião lhe tivesse ensinado mal, — parece que tal foi a causa da proposta. O pobre-diabo contava com o favor, — mas queria assegurar-lhe a eficácia, e daí recorreu à moeda que a mãe lhe dera e que ele guardava como relíquia ou brinquedo; pegou dela e veio esfregá-la nos joelhos, à minha vista, como uma tentação... Realmente, era bonita, fina, branca, muito branca; e para mim, que só trazia cobre no bolso, quando trazia alguma cousa, um cobre feio, grosso, azinhavrado...

Não queria recebê-la, e custava-me recusá-la. Olhei para o mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rapé do nariz. — Ande, tome, dizia-me baixinho o filho. E a pratinha fuzilava-lhe entre os dedos, como se fora diamante... Em verdade, se o mestre não visse nada, que mal havia? E ele não podia ver nada, estava agarrado aos jornais, lendo com fogo, com indignação...

— Tome, tome...

Relancei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em nós; disse ao Raimundo que esperasse. Pareceu-me que o outro nos observava, então dissimulei; mas daí a pouco deitei-lhe outra vez o olho, e — tanto se ilude a vontade! — não lhe vi mais nada. Então cobrei ânimo.

— Dê cá...

Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calças, com um alvoroço que não posso definir. Cá estava ela comigo, pegadinha à perna. Restava prestar o serviço, ensinar a lição e não me demorei em fazê-lo, nem o fiz mal, ao menos conscientemente; passava-lhe a explicação em um retalho de papel que ele recebeu com cautela e cheio de atenção. Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem.

De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com um riso que me pareceu mau. Disfarcei; mas daí a pouco, voltando-me outra vez para ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar, acrescendo que entrava a remexer-se no banco, impaciente. Sorri para ele e ele não sorriu;
ao contrário, franziu a testa, o que lhe deu um aspecto ameaçador. O coração bateu-me muito.

— Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo.
— Diga-me isto só, murmurou ele.

Fiz-lhe sinal que se calasse; mas ele instava, e a moeda, cá no bolso, lembrava-me o contrato feito. Ensinei-lhe o que era, disfarçando muito; depois, tornei a olhar para o Curvelo, que me pareceu ainda mais inquieto, e o riso, dantes mau, estava agora pior. Não é preciso dizer que também eu ficara em brasas, ansioso que a aula acabasse; mas nem o relógio andava como das outras vezes, nem o mestre fazia caso da escola; este lia os jornais, artigo por artigo, pontuando-os com exclamações, com gestos de ombros, com uma ou duas pancadinhas na mesa. E lá fora, no céu azul, por cima do morro, o mesmo eterno papagaio, guinando a um lado e outro, como se me chamasse a ir ter com ele. Imaginei-me ali, com os livros e a pedra embaixo da mangueira, e a pratinha no bolso das calças, que eu não daria a ninguém, nem que me serrassem; guardá-la-ia em casa, dizendo a mamãe que a tinha achado na rua. Para que me não fugisse, ia-a apalpando, roçando-lhe os dedos pelo cunho, quase lendo pelo tato a inscrição, com uma grande vontade de espiá-la.

— Oh! seu Pilar! bradou o mestre com voz de trovão.

Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me às pressas. Dei com o mestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos, e ao pé da mesa, em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo.

— Venha cá! bradou o mestre.

Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu, conquanto não tirasse os olhos do mestre, sentia no ar a curiosidade e o pavor de todos.

— Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros? disse-me o Policarpo.
— Eu...
— Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! clamou.

Não obedeci logo, mas não pude negar nada. Continuei a tremer muito. Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu não resisti mais, meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. Ele examinou-a de um e outro lado, bufando de raiva; depois estendeu o braço e atirou-a à rua. E então disse-nos uma porção de cousas duras, que tanto o filho como eu acabávamos de praticar uma ação feia, indigna, baixa, uma vilania, e para emenda e exemplo íamos ser castigados. Aqui pegou da palmatória.

— Perdão, seu mestre... solucei eu.
— Não há perdão! Dê cá a mão! Dê cá! Vamos! Sem-vergonha! Dê cá a mão!
— Mas, seu mestre...
— Olhe que é pior!

Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns por cima dos outros, até completar doze, que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas. Chegou a vez do filho, e foi a mesma cousa; não lhe poupou nada, dois, quatro, oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro sermão. Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou que se repetíssemos o negócio apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar para todo o sempre. E exclamava: Porcalhões! tratantes! faltos de brio!

Eu, por mim, tinha a cara no chão. Não ousava fitar ninguém, sentia todos os olhos em nós. Recolhi-me ao banco, soluçando, fustigado pelos impropérios do mestre. Na sala arquejava o terror; posso dizer que naquele dia ninguém faria igual negócio. Creio que o próprio Curvelo enfiara de medo. Não olhei logo para ele, cá dentro de mim jurava quebrar-lhe a cara, na rua, logo que saíssemos, tão certo como três e dous serem cinco.

Daí a algum tempo olhei para ele; ele também olhava para mim, mas desviou a cara, e penso que empalideceu. Compôs-se e entrou a ler em voz alta; estava com medo. Começou a variar de atitude, agitando-se à toa, coçando os joelhos, o nariz. Pode ser até que se arrependesse de nos ter denunciado; e na verdade, por que denunciar-nos? Em que é que lhe tirávamos alguma cousa?

"Tu me pagas! tão duro como osso!" dizia eu comigo.

Veio a hora de sair, e saímos; ele foi adiante, apressado, e eu não queria brigar ali mesmo, na Rua do Costa, perto do colégio; havia de ser na Rua larga São Joaquim. Quando, porém, cheguei à esquina, já o não vi; provavelmente escondera-se em algum corredor ou loja; entrei numa botica, espiei em outras casas, perguntei por ele a algumas pessoas, ninguém me deu notícia. De tarde faltou à escola.

Em casa não contei nada, é claro; mas para explicar as mãos inchadas, menti a minha mãe, disse-lhe que não tinha sabido a lição. Dormi nessa noite, mandando ao diabo os dous meninos, tanto o da denúncia como o da moeda. E sonhei com a moeda; sonhei que, ao tornar à escola, no dia seguinte, dera com ela na rua, e a apanhara, sem medo nem escrúpulos...

De manhã, acordei cedo. A idéia de ir procurar a moeda fez-me vestir depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol magnífico, ar brando, sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por sinal que eram amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Saí de casa, como se fosse trepar ao trono de Jerusalém. Piquei o passo para que ninguém chegasse antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças. Não, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua...

Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor... Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também ao som do rufo, creio que cantarolando alguma cousa:

Rato na casaca... Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me
deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor...

Fim

____________
"Conto de Escola, Machado de Assis
Fonte: ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II.
Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:
Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística
(http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/literat.html)

Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as
informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para
.

Estamos em busca de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter este projeto.
Se você quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para e
saiba como isso é possível."

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Todo estupro é coletivo!

Vi no Facebook texto assinado por Luara Colpo, que reproduzo abaixo. O texto é um abraço de solidariedade à moça que foi estuprada por trinta homens, no Rio de Janeiro. Reproduzo aqui o texto, por solidariedade, por denúncia e para alertar que todo estupro é coletivo, pois conta com a cumplicidade do silêncio omisso de cada um que se cala, que se queda, que vira a cara para injustiças, para a discriminação, sobretudo, a discriminação e violência contra a mulher. Segue o texto:




"Trinta.
Vinte e nove
Vinte e oito
Vinte e sete
Vinte e seis
Vinte e cinco
Vinte e quatro
Vinte e três
Vinte e dois
Vinte e um
Vinte
Dezenove
Dezoito
Dezessete
Dezesseis
Quinze
Quatorze
Treze
Doze
Onze
Dez
Nove
Oito
Sete
Seis
Cinco
Quatro
Três
Dois
Um
Nenhum.

Eu tiraria todos – um por um – de cima de você neste momento irmã. Eu limparia seu corpo, tiraria o som dos seus ouvidos, o cheiro deste lugar, as lembranças. Se o tempo voltasse, eu os impediria de terem saído de casa. Todos eles.

Eu desligaria os celulares, os computadores, tiraria baterias dos carros, dos ônibus. Eu faria feitiço, veneno, poção, dor de barriga para todos. Trinta.

Eu te levantaria daí e te levaria pra ver o pôr do Sol no Arpoador, se o mundo girasse ao contrário… Mas o mundo não gira.

Foram Trinta.

Um ex-companheiro e vinte e nove “amigos”. Nenhum deles se compadeceu. Vinte e nove seres humanos toparam se unir à um criminoso.

Trinta.

Trinta e um agora compartilharam. Trinta e dois riram. Trinta e três justificaram. Trinta e quatro se excitaram, trinta e cinco procuram o vídeo neste momento.

Agora o número se torna uma projeção geométrica. A misoginia aparenta infinita, o ódio e o machismo aparentam grandiosos demais. A primeira reação do público masculino em geral é ver o vídeo.

No entanto, quando pensei que fôssemos só nós duas, olhei para o lado e vi três, quatro, cinco. Chegaram seis, sete, oito, trinta.

Em segundos fomos noventa, cem, mil, somos milhares por você. Aquele som, aquele cheiro… Queremos que sua memória apague, mana

E que o mundo nos ouça: “A CULPA NUNCA É DA VÍTIMA”. Que ecoe.

Que ecoe: Daqui vocês não passam. Não passarão.

Que cada uma de nós seja porta voz do ocorrido. Se a grande mídia não denuncia a violência contra a mulher periférica, que nossas mãos sejam denúncia.

Na violência contra a mulher todas metemos a colher.

DENUNCIE.

No site do Ministério Público, Polícia Federal e disque 180. Mexeu com uma, mexeu com todas."

Luara Colpa

domingo, 1 de maio de 2016

Poema da confidência - Francisco Carvalho

Te amei com todas as estações da minha alegria

Te amei com desatino e irreverência
Te amei com raiva
Te amei com a impaciência de um menino
Te amei com solidão nos olhos
Te amei com a lua trespassada nos meus cabelos
Te amei com pressa e medo
Te amei como se o mundo fosse acabar para sempre
Te amei com sete punhais cravados no peito
Te amei com sete idolatrias no coração
Te amei como a loba ama a sua cria
Te amei com a luminosidade do remorso
Te amei no lugar da travessia
Te amei na encruzilhada da memória
Te amei no pólen da flor
Te amei na palpitação das colmeias
Te amei na chuva e no vento
Te amei no céu e no mar
Te amei na correnteza dos rios
Te amei na respiração das messes pendoadas
Te amei na paciência dos mendigos
Te amei com a voz em pânico
Te amei com as mãos em súplica
Te amei com a reminiscência dos ancestrais
Te amei com a fortaleza erguida
Te amei com a alma em chamas
Te amei escutando a música das artérias
Te amei com todos os exércitos do meu corpo
Te amei com a volúpia dos touros
Te amei com heterogeneidade dos sentidos
Te amei com o  espírito acordado
Te amei com todos os desejos em liberdade
Te amei veloz, como se tivéssemos
              Um encontro marcado com a bomba atômica

Francisco Carvalho

(em Barca dos Sentidos, Ed. UFC)

Matéria de Poesia - Manoel de Barros

A Antônio Houaiss (1974)

Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10x20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira :
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos -
tem muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre – diabo é colosso

Tudo que explique
     o alicate cremoso
      e o lodo das estrelas
serve demais da conta

Pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
     a lagartixa de esteira
     e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom  para poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
     tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
      sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora

[In Gramática Expositiva do Chão (Poesia quase toda)- Manoel de Barros
Editora Civilização Brasileira – edição 1990]

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Dia D da Leitura da Secretaria Municipal de Fortaleza - 26 de abril, 2016

Pelo segundo ano consecutivo, a Secretaria Municipal de Educação promove o Dia D da Leitura. Um dia pleno de contação de histórias, personagens da literatura e brincadeiras com letras e palavras para a alegria dos nossos pequenos leitores. A presença de escritores e mediadores da leitura foi um momento bem divertido e revelador, os leitores se surpreendiam ao encontrar o autor da história de alguns livros. Pela segunda vez consecutiva, tive também o prazer de participar e me surpreender.



Andreia Nunes Cavalcanti explica que o evento ocorrido no dia 26 de abril, de 8h às 16 horas,  na Casa de José de Alencar, equipamento cultural do estado, demarcou a abertura da semana da leitura. Essa ação cultural, que recebeu cerca de 800 crianças da Educação Infantil das escolas públicas de Fortaleza, será replicada em todas as escolas ao longo da semana. 


Depoimento de Andreia Nunes, da Educação Infantil.

Conversa com autores, Ana Paula Sancho, Kelsen Bravos e Amália Simonetti


Acontecimento dos mais importantes, a presença de autores de literatura infantil para conversar com a criançada. Uma oportunidade em que leitores e os criadores das histórias que habitam a biblioteca da escola se encontram, o resultado é brilho no olhar, alegria geral. 

Foi caso de Ana Paula Sancho - além de escritora, excelente mediadora - a contação de história foi a tônica do encontro, o mesmo se deu com a entusiasta da alfabetização infantil  Amália Simonetti.

Kelsen Bravos

Comigo, o papo é com o livro na mão e leitura, interação e festa. Apresentei os títulos já publicados e escolhemos um para tematizar o momento de nosso encontro. Foi a vez do livro Cruck, crock, creck, crick... CRACK! Que trata de forma delicada o grave problema das drogas com atenção especial ao crack.



A meninada convicta e em festa falou:
Cruck, crock, creck, crick, CRACK... TÔ FORA!


Ana Paula Sancho

Encenando o cangaceiro Lampião, a autora Ana Paula Sancho contou a história do seu livro A tocaia de Lampião e dos seres encantados, escrito no melhor estilo do cordel. Um livro que tive o prazer de coordenar sua edição na Coleção Paic Prosa e Poesia. Confira:





Amália Simonetti

Uma das que ajudou a constituir o Programa Alfabetização na Idade Certa, a professora Amália Simonetti, que também é autora de literatura para crianças, marcou presença com sua roupa com a árvore de histórias.




As mediadoras da leitura da SME




Na melhor expressão do que eu chamo de Pedagogia do Exemplo, as professoras formadoras da Educação Infantil do PAIC da SME de Fortaleza fizeram o encerramento do Dia D da Leitura na Casa de Jose de Alencar com um mix das histórias clássicas em que enredaram uma série de acontecimentos que atiçaram o estranhamento e a curiosidade da meninada. Foi tudo muito lindo! 

domingo, 10 de abril de 2016

A UECE e o Ceará merecemos!

Uma reitoria realizadora e comprometida com a ampla participação da UECE no desenvolvimento sócio-cultural e econômico do Ceará representa e reafirma o vigor do Estado Democrático de Direito!

Por isso eu apoio e convido você para apoiar a chapa JACKSON e HIDELBRANDO, para reitoria da UECE.





Veja mais porquês:

1. Quanto à Gestão Democrática - já provou que faz gestão participativa e ampliou e fortaleceu as ações no interior do estado, ademais mostra convicto compromisso com a transparência das ações financeiras e administrativas. Isso são fatos!

2. Quanto à Política de Pessoal - já provou que faz eficaz política de pessoal, ao promover garantias ao corpo docente, técnico-administrativo e ao investir na capacitação dos comissionados. Promete mais.

3. Quanto à Infraestrutura - já provou que faz e promete: ampliação de custeio e de investimento; crescimento da captação nacional e internacional de investimentos; promete também ampliar a adequação estratégica e legal da infraestrutura; promoveu reformas e ampliou os campi, atendendo a acessibilidade e promete mais.

4. Quanto à Política Acadêmica - ampliou o ensino e pesquisa, investiu em tecnologia nas ações de pesquisa e extensão, ampliou o programa de bolsas de pesquisa e promete mais.

5. Quanto à Autonomia e Integração - administração descentralizada e participativa, com fortalecimento da interiorização, fez e promete fazer mais.

Afora tudo isso, Jackson Sampaio tem histórico de militante na luta pela redemocratização do Brasil, é poeta dos bons e foi um dos responsáveis pela Revista O Saco, um dos mais importantes movimento cultural no Brasil dos anos de 1970 e 1980.

Um reitor assim realizador e comprometido com a ampla participação da UECE no desenvolvimento sócio-cultural e econômico do Estado só representa o vigor do Estado Democrático de Direito!

A UECE e o Ceará merecemos!

Kelsen Bravos


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Solidariedade: Campanha “Inventores de Invenções – Contando com você”, em favor da luta contra o câncer

Desenho de Eduardo Azevedo durante o evento em 9/1/2016 
A campanha solidária Inventores de Invenções Contando com você objetiva chamar atenção para a dificuldade que as pessoas em tratamento de câncer enfrentam, seja para conseguir medicamentos mais caros, seja para receberem doações de medula óssea, plaquetas de sangue, próteses ou outras necessidades.

Para tanto, escritores, mediadores da leitura, bibliotecários, músicos, ilustradores e produtores culturais do Ceará planejaram uma série de eventos e apresentações para o público infantil.

A programação traz conversas com o autor, leitura e contação de histórias, apresentações lítero-musicais, oficinas de ilustração e gravuras, exposições, feira de livros e outros artigos de arte, em apoio a pessoas em tratamento de câncer.

Como colaborar:
Junte tampinhas de garrafas PET e leve para o local do evento. Elas serão doadas para a Associação Peter Pan.

Apoiamos:No dia 23 de janeiro de 2016 estaremos apoiando:

Associação Peter Pan
Mobilize sua família e amigos! Tampinhas de garrafas PET são revertidas em ajuda financeira para ajudar no tratamento de milhares de crianças e adolescentes da Associação Peter Pan. Doe! Mais informações sobre como doar: clique em Associação Peter Pan
Desenho de Daniel Diaz,  no evento de 9/01/16

Parceria
A Biblioteca Pública do Estado do Ceará acolheu a campanha incluindo a ação Inventores de Invenções – Contando com você na programação do Espaço Estação, que fica na Praça da Estação, pela Rua 24 de Maio, n° 60, no Centro de Fortaleza.

Quando e onde
Na Biblioteca:

Todos os sábados de janeiro, no Espaço Verde da Biblioteca, de 9 às 11 horas a campanha Inventores de Invenções: Contando com você apresenta: Conversa com autor, leitura e contação de histórias; shows musicais e apresentações lítero-musicais; oficinas de desenhos; exposição.

Apoiam a Campanha:
Biblioteca Pública do Estado do Ceará; Fórum da Literatura, Livro e Leitura do Estado do Ceará - FLLLEC; Instituto Tony Ítalo - InsTI; Instituto Travessias, Livraria Feira do Livro; Mambembe - comida e outras artes; Mini-Museu Firmeza.

Integrantes:
Em ordem alfabética, integram o Inventores de Invenções: Ana Paula Sancho, Cássia Barroso, Cleudene Aragão, Daiane Carneiro, Daniel Diaz, Dione Morais, Eduardo Azevedo, Paulo Jorge, Fabiana Guimarães, Isa Fernandes, Ítalo Castelar, Joyce Custódio, Júlia Barros, Kelsen Bravos, Linda Dias, Luciano Albuquerque, Mara Monteiro, Mileide Fores, Nathália Forte, Rachel Gadelha, Sérgio Araujo, Teddy Williams. (Esperamos por você...)