quarta-feira, 21 de junho de 2017

As ruas e avenidas me acompanham... - Chico Araujo



Não poucas vezes carrego comigo a impressão de que as ruas e avenidas me acompanham quando transito por elas. É como se não passasse por elas simplesmente, tendo saído de um ponto "x" para chegar a um ponto "y". A vivência não seria apenas a de um “passar por”. Não, não é essa a sensação que de mim se apodera. É profundamente algo muitíssimo distinto desse mero atravessar por entre pontos. 

Devido às perspectivas arquitetônicas e por um olhar peregrinando pelas engenharias, as ruas não se propõem iguais: calçadas, calçamentos, pavimentações, mantas asfálticas de ruas e avenidas, urbanizações em praças públicas, alturas de prédios residenciais, desenhos de empreendimentos comerciais, tudo se insinua pelas desigualdades, por mais que se tenha desejo de haver a igualdade. E esse desejo nem se mostra tanto assim. 

Reflexos. Insinuantes "nãos", quando mesmo se quisera dizer "sins" – embora pouquíssimas vezes estes sejam flagrados por obviedade e intenção real. Fato. 

Tal qual os logradouros, eu, que por eles trafego por obrigações diárias, não sou igual – nem a mim mesmo, passante de ontem e passante de hoje, nem aos outros transeuntes, todos marcados e demarcados por suas possibilidades no existir. Não penso em melhores ou em piores; reflito sobre as oportunidades de cada um em tantos e tantos dia a dia na trajetória da humanidade. 

Humanidade... Humanidade... 

As ruas e avenidas por onde transito me olham muitas vezes com desconfiança, outras muitas com agressividade, ainda outras com súplica em suplício. Respondo de maneiras distintas em instantes vários: também desconfio delas; e misturo meu medo delas com meu olhar agressivo, ato de defesa animalesco visando à falsa e intensa intimidação – de mim para ela; minha defesa – meu suplício em minha súplica. 

Desdenho suas calçadas? Repudio suas alamedas? Ignoro seus olhares? Mãos femininas e masculinas ávidas no pedir. Infâncias se despedem das almas de inquietas crianças a se vilipendiarem – inocentes – por frestas nos descaminhos de calçadas, avenidas, praças públicas com seus múltiplos atrativos destrutores. Crianças, jogadas de suas infâncias aos abraços mundanos de uma corrupção incompreendida – sim, poucas vezes eles sabem o que fazem; sim, muitas vezes o que lhes corrompe é a ilusão (em circunstâncias diversas, inserida pelo desejo despertado no cerne de suas carências). 

E então, em muitos pontos, são malabares arremessados ao espaço, o próprio chão asfáltico ardente, ou um balde de plástico como base. E mãos estendidas sorrindo pelos centavos porventura concedidos – talvez uma grande sorte. Nem todos se deliciam dela. Caminha assim a humanidade... 

Tão humanos somos... 

Não poucas vezes carrego comigo a impressão de que as ruas e avenidas me acompanham...

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Chico Araujo, poeta, ficcionista, compositor e intérprete, publica todas as quartas-feiras aqui no Evoé! o texto As ruas e avenidas me acompanham foi criado em 07/06/2017 . Leia mais Chico Araujo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 19 de junho de 2017

BRINCADEIRA DE FOGUEIRA - Túlio Monteiro

Nesta crônica memorialista, Túlio Monteiro viaja às origens das adivinhas de Santo Antônio para falar dos festejos juninos de hoje.





“Danei a faca no tronco da bananeira.
Não gostei da brincadeira,
Santo Antônio me enganou ” 
(Antônio Barros)


Os versos simples acima fazem parte do cancioneiro popular dos festejos juninos brasileiros. Tempo de fartura, colheita de milhos, pé-de-moleque, aluá, paçoca, doces diversos e, claro, fogueiras e brincadeiras de adivinhação, principalmente nas noites de Santo Antônio, o coitado do santo casamenteiro que todo ano é pendurado de cabeça para baixo pelas moças casadoiras em busca de conseguir – no farfalhar das saias à beira da fogueira – um noivo ou marido para aquele ano ainda.

São tantos os jogos de adivinhação que os mesmos se tornam quase incontáveis. Tem o da bacia com água, onde os pretendentes a casamento se olham em um espelho d´água – ao lado da fogueira – para ver se enxergam o rosto da pessoa amada; o batismo de fogo, onde padrinhos e madrinhas de fogueira surgem do nada e ainda assim passam a vida inteira cumprimentando-se como se à pia batismal tivessem comparecido e tudo o mais.

São de minha infância as melhores lembranças de quadrilhas juninas e festejos, onde ainda vingavam em mim as crendices passadas de geração em geração. Como o da música popular que ajuda a dar nome à presente crônica:

Tem tanta fogueira tem tanto balão.
Tem tanta brincadeira

Todo mundo no terreiro faz adivinhação;

Meu São João eu não, meu são João eu não

Eu não tenho alegria.


Só porque não vem, só porque não vem
Quem tanto eu queria – (bis)

Danei a faca no tronco da bananeira
Não gostei da brincadeira
Santo Antônio me enganou.
Saí correndo lá pra beira da fogueira
Ver meu rosto na bacia, a água se derramou...


Poderíamos discorrer sobre inúmeras marmotas – usando o popularesco nordestino – para rirmos às pampas de tantas presepadas que são feitas nessas três festas juninas chamadas assim por ocorrerem justamente no mês de junho, que para o rico e popular folclore de minhas terras são as mais importantes do ano.

Mas uma parte especial da música de Antônio Barros que acabei de citar necessita ser analisada um pouco mais a fundo, já que a história da faca no tronco da bananeira é bem mais uma história de paz do que uma simples brincadeira de adivinhação amenizada pelos tempos e por nossos antepassados. Reza a lenda que, ao enfiarmos, na véspera da festa junina, uma faca virgem no tronco de uma bananeira qualquer e lá a deixarmos até a manhã do dia seguinte – os pretendentes homens a casamento depois de arrancá-las de lá, hão de encontrar a letra inicial do nome da mulher amada e com a qual unirá votos de matrimônio até o fim da vida.

Bom! Até aí, nada de suspeito é levado em consideração quanto ao verdadeiro objetivo do intento. Vejamos, pois, qual é ele. Nos dias de hoje, com os adventos de novas tecnologias os festejos estão mais, por assim dizer, amenos em relação aos que ocorriam 50 ou 70 anos atrás, onde os rapazes costumavam, além de vestirem a melhor roupa e colocarem a melhor colônia de cheiro para impressionar, enfiavam na barra da cintura uma faca do tipo peixeira para, em caso de briga, lançarem mão das mesmas e partirem para o ataque. Sim! A coisa era braba depois que alguns mais exaltados pela bebida viravam ferozes “bestas” no sentido mais nordestino do termo.

Pois eis que um dia, um anfitrião desses que usavam parabéluns nas mãos, já calejado das desavenças de todo ano, passou uma ordem: Só entravam no terreiro dele os homens que se livrassem das facas pelo menos durante a realização dos festejos, que sempre terminavam no alvorecer. Palavra de coronel dita, palavra de coronel respeitada. E lá se iam os rapazes procurar um local para guardarem suas preciosas armas onde pudessem se lembrar onde estavam no dia seguinte.

A essa altura, presumo, o nobre leitor já deve ter concluído de onde veio a brincadeira de enfiar a faca na bananeira que, coitada, por ser mais mole e largar uma nódoa danada quando perfurada, era a árvore preferida para se “guardar” as perigosas peixeiras.

O arremate desta crônica vou deixar um pouco ao seu imaginário, mas já afirmando que, em uma bela manhã de carraspana e festa de Santo Antônio, um jovem rapaz, ao retirar sua reluzente faca do tronco da bananeira nela enxergou justamente a letra inicial da moça com a qual passara a noite a dançar quadrilha, xote e forró de pé-de-serra. Muitos viram aquele feito e passaram a acreditar nele, uma vez que naquele ano mesmo o casal em questão contraiu matrimônio, gravidez e mais uns sete filhos depois do episódio.

Verdade ou não, foi assim que me disseram ter se iniciado essa tradição. Sendo de competência de nossos caros historiadores afirmarem ou contradizerem o que hora explano no papel. Mentira ou não, isso lá não interessa, uma vez que chegaram os festejos juninos, meu povo. Hora de preparar a boca e a barriga para as três festas mais famosas do Nordeste brasileiro. Anavantu!

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Túlio Monteiro escreve todas as segundas-feiras no Evoé! Leia também seus textos em Literatura com Túlio Monteiro.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

“Todo segundo é a possibilidade de uma nova descoberta...” - Chico Araujo (em 06/06/2017)

*Paisagem surrealista - Evandro Schiavione - 1984
Começo pedindo todas as desculpas possíveis ao autor da frase que intitula esse meu texto, pois reconheço que não sei quem ele seja. Recebi-a em uma daquelas várias mensagens de WhatsApp que nos chegam diariamente. Mas, ao mesmo tempo em que peço escusas por dessaber a autoria, destaco a frase – um pensamento mesmo – entre aspas, declarando não ser ela de minha autoria, mas de outrem.

Isso dito, passo a um pouco transitar de braços dados com ela, por entender que carregue em si uma verdade. Isso porque, na cisma de embraçado a ela, ao intuir o instante mais próximo que vem, achar-me em uma estrada semidesconhecida, rumo a um lugar plenamente nunca visto para, nele, respirar benéfico ar cerca de 800 metros acima do mar e me maravilhar com paisagem de rara beleza verde de tanta natureza intacta em meu redor.

Em meu redor, sim. Pois estive ali, espírito solto, voz calada, olhar contemplativo, bem no ponto exato onde me deveria pôr estando cingido por aquela maravilha. Por dentro, uma sensação especial, um possível sem qualquer limite, limitado que me encontrava naquela grandeza se alongando por espaços e espaços e espaços... eu, como que me esticando junto com ela...

Ahhhh, Zé Rodrix... Uma Casa no campo... Uma casa beijada docemente pela dimensão do natural e do supranatural... Uma casa onde os pássaros trinam melodias pasmosas em concerto continuado – só a noite lhes acena justo sossego; afinal, o dia seguinte é de harmonia novamente.

Ali fui acolhido por amigos que, em gentileza intensa, de alguma forma naquele lugar me plantaram, entretecendo raízes profundas de amizade muito antes iniciada e agora amalgamada em uma memória para a qual ouso não haverá esquecimento.

Com eles, ouvi discos, li páginas de livros. Com eles, dividi falas num ouvir e calar, falar e ser ouvido, calar e dar ouvidos novamente a vozes alegres, tranquilas, mas bem festejadas. A paz transitou por aquele espaço. A paz nem pediu licença – precisava? – e foi-nos soprando sua graça. Eu a senti tocando meu espírito; eu a vi, vibrando em sintonia com o vento as folhas das tantas árvores e plantas, eu a vi no colorido das flores.

Todo segundo é a possibilidade de uma nova descoberta... E ele, quando me veio na ocasião especial, me desvendou a existência de sob o véu que a recobria numa insistência renitente de se aprazar. Lá não era um olhar pela janela; lá foi a vida em chama acesa.

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segunda-feira, 12 de junho de 2017

DE QUE COR É O AMOR? - Túlio Monteiro

Dois amigos - Henri Toulouse-Lautrec - 1894
De que cor é o amor? Que me responda quem nunca cometeu loucuras por aquelas curvas a mais ou a menos. Quem nunca passeou os dedos entre vinhos e meros cigarros, depois daquele amor inventado com cara de primeira vez, cama desarrumada, roupas espalhadas, esgaçadas. Um cheiro de corpos no ar, suor e risos íntimos – daqueles baixinhos – jeito de cúmplices. Como aquele sonho que parece não terminar. 

Essa vida é tão cruel, desprezível e exata que um dia simplesmente acaba, acaba. E o tempo passa transformando o que era amor em coisa que um dia termina, para ou meramente muda de cor, camaleoa minha – cama! E esse tal indelével tempo teima e trama o fim de nosso amor tão lentamente que às vezes nem nos damos conta de que estamos preferindo amar bichos que abanam os rabos: cachorros, gatos, coelhinhos de estimação.

Chegam junto com essas mazelas do tempo a hora de cada um seguir suas estrelas, esquecendo o amor d’antes, suas cores e nuances. Entretons de um amor que já foi e não mais é. E disso, meu amor, não sejamos hipócritas: todo amor acaba ou, no máximo, vira uma doce e cândida amizade. Bem aos modos de poeta largando livro de lado.

E naquele instante em que o amor é dia e se faz noite não tem mais jeito. No antes éramos canibais de nós mesmos, hoje somos chocolate amargo da manhã que sempre chega cinza para depois azular nesse inferno de terra na qual o nosso Deus escolheu para nascermos.

Reguemos as plantas a varanda e choremos sobre todo esse jardim, carmins e aquele pé de jasmim lilás que vemos ao correr da estrada – nossa rota 66 – CE 065, cabelos ao vento. Pé no fundo do acelerador sem tempo a perder e perdemos. Sempre querendo passar a todo custo da vida, só que suas curvas íngremes acabam por terminar...às vezes de maneira fugaz outras lenta e gradativamente regurgitando sobre nossos ombros os erros e acertos de vidas inteiras jogadas fora – acharque. Pântano lodoso com o que antes foram duas almas que se tocaram e se misturaram.

Por fim, vem a morte esta eterna que engana a todos e a si mesma. Fingindo-se inexistente para apenas levar o que restou de nossos corações, nossos projetos de vida.

Derretamos, pois, esses relógios, bichos que marcam horas. E eu afirmo, por fim: as horas realmente existem! O tempo passa incólume e a amargura da velhice chega trazendo junto cadeiras de balanço e o fim da chuva que despenca e insiste em cair molhando a terra que rega as flores sem dono que moram na rua.

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Túlio Monteiro escreve no Evoé! sempre às segundas-feiras. Leia também seus texto em Literatura com Túlio Monteiro.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Esse texto tá muito longo... vou esperar o filme - Chico Araujo

Wassily Kandinsky - pintor russo

Em tempos de redes sociais tantas e tantas – difundindo, em muitas ocasiões, superficialidades humanas em larga escala - e do presentíssimo aplicativo WattsApp no dia a dia das pessoas, apesar de muito mais permissivo que o limitador Twitter (a cento e quarenta caracteres), ler algum texto escrito mais extenso e, em alguns casos, com certa profundidade temática tornou-se algo irritantemente pouco verossímil até em boa parte da sociedade letrada.

Quem gosta de expressar-se por meio da escrita, fazendo mesmo dela seu mecanismo de análise, de proposição de questões, de busca de compreensão de sua existência na sociedade de que faz parte tem sofrido, de certa maneira, com a velocidade a mais proposta para a passagem do tempo – que ele não se permite concessão para quem deseje ficar um pouco mais entretido em sua incursão leitora.

Bom dia. Boa tarde. Boa noite. Carinhas enviando beijos em formato de coração por meio de “emojis”; “emojis” cujos olhos expressam formato de coração; “emojis” com carinhas alegres, tristes, chorando, rindo... Coração pulsando. Mãos batendo palmas. Feição que chora de rir. Mão que indica sinal de positivo. Cabeça que se revela em cor azul, demonstrando uma famigerada dor de cabeça. Exemplos de três expressões corriqueiras e de alguns ícones de nossa comunicação em dias atuais. Creio ser válido dizer que quase todos nós somos usuários deles.

Tempo de comunicação rápida; a velocidade de tudo para tudo e para todos. Quem não usa, está alienado, não faz parte.

Faço parte! 


Mas me questiono muito e mesmo muito questiono alguns: ficar tanto tempo nas redes não é alienante? Me arrisco: muitas vezes... sim. Porque pluralmente nesse contexto do “muitas vezes”, navegamos entre as ondas de uma e outra, de outra e mais outra e em algumas somos informados pela... desinformação! Nestas, um intenso jogo de linguagens babelísticas nos confundem e nos levam, por propósito, a lugar algum – um lugar algum que se metamorfoseia em lugar nenhum. 
Nestas, aquilo que transparece vertical, profundo, nada mais é que indução a braçadas pelo superficial. Sem olhar atento, curioso, desconfiado, as braçadas são realmente dadas e esse nadar pela superfície deixa-nos sempre nesse nadar pela superfície. A indução bem construída envolve-nos e nos chega com a pretensão de nos formar. Abdução do que importa, do que interessa.

E o que interessa? É bom que tanto você quanto eu saibamos, leitor; esse texto já se organiza como muito longo [será?] e, no caso dele, creio que não haverá filme. 
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Chico Araujo publica toda quarta-feira no Evoé! Este texto foi escrito em 29/05/2017. Leia mais texto de Chico Araujo no blog Vida, Minha Vida.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

CEM ANOS DEPOIS - Túlio Monteiro





Chegou a desolação da primeira fome.
Vinha seca e trágica, surgindo no fundo
sujo dos sacos vazios, na descarnada
nudez das latas raspadas.
(Rachel de Queiroz “O Quinze”)


– Eita, homem! Que sequidão é essa?!

– Sei lá, mas pelo piado desse bem-te-vi o negócio vai ser brabo pelo resto do ano. Dessa vez falta água de até nas vazantes dessa terra desgraçada e miserável.

E o calor transcorria seco, rasgado e modorrento pelos ares nada úmidos daquele interior perdido no tempo. Parecia fogo em brasa. E como onde há fumaça há fogo por lá também havia. Restos de bois e cabritos magros abandonados por Deus e até mesmo pelo diabo naquela torridão de chão que já se alastrava até a capital.

Caminhavam cabisbaixos em número de três contando os mosaicos formados pelo barro que havia surgido onde antes havia água para uma boa pescaria regada a uma pinga de cabeça, coisa que só eles sabiam o que era. Largaram tudo e rumaram para a cidade mais próxima. Pior do que ali não podia estar – dizia o que aparentemente era mais esperto dos miolos.

– Diachos! Nem meu burro velho escapou comendo palma. Taí o resultado desse ano de 15. Gente morrendo de fome e nós no meio delas. Se pelo menos pai tivesse sobrevivido aos maus-tratos das dores nas pernas ele ia dar uma luz de pra onde a gente ir.

No caminho, léguas e légua já percorridas, uma casinha de taipa ou a sombra de um bom juazeiro sempre serviam de abrigo ali pelo meio-dia, quando ficava impossível de caminhar sem rumo, ou pelo faro como dizia o menos servido de raciocínio.

– Foi aqui onde nasci e me criei. Pai e mãe, avô e vó, todos eram agricultores. Não tenho vontade de deixar, de sair e ir para cidade não tenho vontade, não. Fui criado na agricultura e queria viver por aqui mesmo até quando Deus quiser.

– Cala a boca e anda, irmão. Eu te falei pra não trocar tua bezerra por esse tal de telefone celular que taí, na tua matalotagem, sem servir pra nada. Nem eletricidade tinha mais lá em casa quando tu fez essa bela troca com aquele galego dos diabos, que apareceu por lá cheio de porcarias pra vender e pra trocar. Mas, não, você foi na dele e deu no que deu. Tá lá, a casa fechada. Cadeado na meia porta sujeito a qualquer um invadir nossa morada de barro batido que pai fez pra a gente morar em cima daquele lajedo. Burro!

Deve ser um segredo guardado a sete chaves pelos centenários sertanejos que ainda habitam aquela região, mas muitos comentam ao pé do ouvido que há, com certeza, uma profecia sertaneja preconizando que a cada cem anos uma devastadora estiagem irá assolar todas as redondezas. A seca sempre virá destruindo e queimando tudo, tangendo da vida animais e plantas, amedrontando o homem mais destemido e demonstrando todas as fragilidades dos viventes diante das forças revoltosas da natureza. Reza uma lenda, que isto estava escrito num pedaço de umburana, guardado dentro de um alforje carcomido e escondido numa gruta nas proximidades da divisa entre Canindé e Poço Redondo. Conto assim porque assim me contaram, porque assim ouvi falar.

Com o mormaço por companheiro, o terceiro irmão que até ali não havia aberto a boca, saiu-se com essa lembrança. Coisa passada de ouvido a ouvido por gerações inteiras sobre almas penadas e gente morta de sede.

– Vocês lembram de quando vô ficava proseando com os amigos e falou que já fazia tempo que uma tal de seca de 1915 tinha quase acabado com esse nosso Ceará? Vinha ele e tio Abinêr conversando por uma estrada e começaram a conversar sobre o assunto, e foi quando um deles parou e disse espantado: “Danou-se, cumpade, pois se dizem que uma das maiores secas foi a de 1915, a que vem aí vai ser em 2015, que é quando completa cem anos”. E seguiram caminho acima, visivelmente preocupados, sem trocar mais nenhum pé de palavra.

– Para de conversa, besta dos diachos, e anda sem falar tanta porcaria. Tá vendo aquele pé de Juá lá na frente? – Disse o irmão mais velho, atalhando a vista com a palma da mão para encobrir o tremeluzir do vento quente que tracejava ilusões de ótica nas vistas cansadas daqueles três andarilhos.

– Vamos parar por lá hoje pra mode descansar. Quem sabe num tem uma alma viva numa casa qualquer pra nos dar uma noite de descanso e um pouco de água e comida?!

Com efeito, a seca de 1915 foi uma das mais terríveis que já se espalhou pela região nordestina. Foi a inclemência da devastação de tudo acima e abaixo da terra, do desespero do homem e da dizimação dos rebanhos, da fome e da sede alastradas em progressão alarmante, das muitas e muitas levas de retirantes abandonando seus lugarejos já quase mortos. Foi nessa estiagem que, para impedir que os retirantes se dirigissem à capital, o governo cearense criou campos de concentração nos arredores das grandes cidades, nos quais recolhia os flagelados. A varíola fez centenas de mortos no Campo do Alagadiço, próximo a Fortaleza, lugarejo onde em 1829 nasceu José de Alencar.

Lá se espremiam mais de 8 mil pessoas, sem a presença de condições sanitárias, que recebiam alguma comida e permaneciam vigiados por soldados. A segregação dos miseráveis era lei, mas chegou um momento em que o flagelo em massa era tão chocante, com uma média de 150 mortes diárias, que o governo do Estado ordenou, em 18 de dezembro 1915, como contam os arquivos dos jornais da época, a dispersão dos flagelados, ou “molambudos”, como eram também conhecidos. O que era ruim ficou pior ainda.

Dados informam que durante semelhante estiagem teriam morrido pelo menos 100 mil nordestinos. Outros 250 mil migraram para escapar da “velha do chapelão” – como a fome era conhecida no imaginário do semiárido.

Segredos de alforje ou não, parecia que a velha profecia voltava a se realizar e os três irmãos, enfim, chegaram ao precioso pé de Juazeiro onde pessoas não havia, mas a sombra que por lá se agigantava deu guarida aos caminhantes e suas pernas já cansadas de tantas léguas tiranas. Ficariam por ali até à noite quando a fresca da madrugada, enfim, resfriava um pouco o enfado de um dia inteiro a caminhar no rumo da tão sonhada cidade de Fortaleza, onde tinham parentes que, quem sabe, os socorreriam ante tamanha necessidade.

A tarde veio, a noite chegou e o silêncio só era quebrado agora pelos piados das corujas rasga-mortalhas que teimavam em sair à noite à caça de roedores, esses sim, uma verdadeira peste nos descampados do sertão jaguaribano.

Uma pequena fogueira tinha sido acesa para assar um velho pedaço de charque que ainda teimava em sobrar nas mochilas carregadas às costas pelos três irmãos. O mais velho, soturno e quase sempre calado quando a noite chegava estava lá com seus medos de visagens, quando se saiu com uma solução pensada e repensada milhares de vezes.

– Amanhã bem cedo vamos tratar de pegar uma dessas pistas para a gente dar um rumo melhor da cidade. Andando por esses torrões sem eira nem beira não vamos chegar é em lugar nenhum. – Afirmou, tendo por concordância o balançar de cabeças de seus irmãos mais novos.

Dito e feito! Pelo amanhecer do dia e com o calor já comendo de esmola, rumaram para a rodovia mais próxima de que tinham notícias. Má escolha. Os poucos caminhões e carros que passavam se recusavam terminantemente a lhes dar carona e o solo abrasador do asfalto só aquecia mais as laterais cheias de seixos. O máximo que tinham conseguido era um pouco de água que um caminhoneiro resolveu lhes dar juntamente com carnes enlatadas retiradas da carga que, às pressas, rumava em sentido contrário ao seu.

Mais um dia de sequidão e solidão conseguiram, por fim, caronas mal-ajambradas em cima de um caminhão que conduzia uma carga de caixas de mantimentos para Fortaleza. Enfim, chegariam à cidade da luz onde, sem saberem, dois milhões e meio de pessoas se apinhavam num indo e vindo de transeuntes a caminho do trabalho ou à procura desse.

Tinham que encontrar os parentes que pelo que sabiam também não andavam bem das finanças, mas haveriam de lhes dar um norte, um trabalho qualquer para ajudar a tocar a vida. Como estava indo para a Governador Sampaio descarregar, o caminhoneiro os deixou no centro de onde poderiam encontrar condução para o bairro que eles buscavam. Desceram e agradeceram com o gestual típico do povo interiorano para, rotos, desapareceram em meio à multidão de pernas que se apressavam em mais uma manhã de segunda-feira causticante. Estavam na cidade grande, onde nenhum deles jamais tinha pisado. Uma sensação de perda ficará para trás ao mesmo tempo que, abismados com tantas pessoas e prédios, se interrogavam como chegariam ao endereço contido em um velho pedaço de papel. De casa, só as lembranças perdurariam, enquanto se engendravam pelas ruas da capital do Sol em busca talvez de nada.

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Túlio Monteiro escreve todas as segundas-feiras, aqui no Evoé! Leia também seus textos em Literatura com Túlio Monteiro.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

CONVERSA MAIS DOIDA A DE VOCÊS... - Chico Araujo

Fotografia impressionista - Aurilene Estevam

Foi só sentar no banco da prazerosa praça...

- O senhor é do bem.
- Como?
- O senhor... é do beeemmm!!!
- Como pode afirmar? O senhor não me conhece...
- Conheço as pessoas. O senhor é pessoa tranquila, que pensa no bem dos outros.
- Pergunto de novo: como pode afirmar? - primeiro: os seus passos. O senhor quando caminha, não tem pressa e ao mesmo tempo está seguro de para onde vai. O senhor sabe para onde vai e o que vai fazer aonde vai.
- ?
- O senhor tem gestos simples, um olhar firme, inquiridor, mas tranquilo. O senhor vê os outros.
- Vou insistir: como pode dizer tudo isso sobre mim?
- Hehehehe... A sua relativa ingenuidade é boa, é de quem prega a paz... não vê maldade, embora às vezes sinta medo...

Ele olhava aquele homem falante ali sentado, cabelos lisos e limpos sobre os ombros, barba longa, crescida à vontade, mas limpa, roupas nem sujas nem limpas, japonesinha nos pés... nos olhos, um olhar profundo, tranquilo e investigador, brilhante; uma boca inquieta liberando voz quase feliz, voz que dizia com firmeza aquilo supostamente compreendido em sua cabeça.

- ?
- O senhor passa aqui todo dia, nessa hora, e sei que já me viu muitas vezes; algumas vezes, o senhor há de lembrar, até me cumprimentou, depois desejei bom dia quando o senhor passava...
- Sei.
- Sei que sabe... Como eu disse antes, o senhor “vê” os outros. É engraçado isso, porque muitos e muitos “outros” não me veem aqui quando passam... e passam como o senhor... todo dia... (disse isso olhando para os lados e fazendo movimentos de indicações variadas a pessoas transeuntes). O senhor sempre me vê; já me respondeu alguns bons dias e até mesmo já me sorriu... talvez não tenha percebido... pensamento longe... mas me sorriu, mais de uma vez.
- O senhor passa o dia aqui?
- Só fico de manhã, até onze horas. Depois faz muito calor aí vou caminhar pelas ruas até a hora do almoço.
- Mas não é melhor ficar embaixo das árvores quando o calor aumenta?
- Não sei. Nunca fiquei embaixo das árvores depois que o calor aumenta. Eu caminho aí por algumas ruas até chegar na hora do almoço. A D. Menina me dá um prato de almoço todo dia.
Ela é boa também. Ela me vê também. Eu não sei o nome mesmo dela e tenho vergonha de perguntar; aí chamo de D. menina. Ela atende, não se zanga comigo. Me dá um prato de comida, um copo de suco ou de guaraná.
- Por que o senhor fica tanto tempo aqui na praça? Não tem casa? não tem família? Não tem pra onde ir?
- O senhor é bom, mas é um bocadinho ingênuo mesmo... É claro que eu tenho pra onde ir! Eu – silenciou, enquanto olhava para vários lugares, pontos em volta – Eu posso ir pra onde eu quiser. Se eu quiser eu posso ficar aqui; e também posso ir pra onde eu quiser... O senhor tenta pegar sempre o ônibus na mesma hora, às vezes até anda mais rápido pra não perder ele... O senhor tem hora marcada... O senhor sempre tem pra onde ir... Só não sei se o senhor pode ir pra onde quiser e eu posso.

O silêncio marcou o tempo em que os dois se olharam firmemente, um concordando com o outro, o outro superior ao um.

- O senhor é do bem, o senhor é bom. Então vou lhe contar um pouco, somente um pouco, para não atrapalhar seu ônibus que já está perto de chegar. O senhor chegou mais cedo hoje.

- Como sabe que o ônibus está perto de chegar? Nem relógio o senhor tem?

- O 78713 não costuma atrasar. Sei que quem o dirige sabe que as pessoas precisam dele fazendo o que deve fazer. Também tem o seguinte: fico tanto aqui que me acostumei a ler o tempo pelo canto dos pássaros, o sopro do vento nas folhas, a claridade do sol ali naquele mosaico, o calor que aumenta, o ritmo das pessoas caminhando por aqui. Mas deixe eu lhe contar um pouco – e ficou muito sério, olhar perturbadoramente fixo no olhar... Eu tenho casa – com as mãos sugeriu os limites do mundo -... Mas já tive casa como o senhor certamente tem e pra onde deverá voltar mais tarde. A casa que o senhor fala e que eu tive era uma casa boa, grande, espaçosa, muitos quartos, grande cozinha, salas, muito espaço dentro e fora, jardim...

Ela estava sempre cheia de gente, eu tinha amigos que me visitavam quase todo dia, tinha os amigos da minha mulher que também nos visitavam com frequência, tinha os amigos dos meus filhos... hoje eu não moro num lugar só: eu ando, eu transito... estou livre...

O senhor acredita que alguns amigos que eu tinha já passaram aqui e nããããããão me reconheceram? De jeito nenhum me reconheceram – a voz ficou levemente diferente, frágil; os olhos pareciam querer derramar alguma lágrima -... Diferente do senhor, que me vê e que hoje está conversando comigo e eu agradeço por isso, por essa atenção.

Faz muito tempo que praticamente só observo... Sabe, chegou um tempo esquisito em que tudo ficou escuro... O senhor me entende? Mesmo de dia, tudo era escuro, não se conseguia enxergar muita coisa com a claridade necessária. Ora, aí eu quis ver melhor, eu quis ver mais... hehehehe, acho que eu não tinha a luneta apropriada... hehehehe... Quando eu quis ver mais e porque eu não via bem, comecei a perguntar, questionar meus amigos... e eles não me respondiam... de pouquinho em pouquinho eu notei que eles não estavam mais em minha casa... e eu não soube até hoje os motivos exatos de eles terem sumido. O que sei mesmo é que eles não me veem mais... Eu vejo alguns deles na televisão quando consigo ver alguma coisa em algum lugar onde não me mandam logo embora. Eu também não sei exatamente por que, mas eu e a mulher de quem eu era marido ficamos num silêncio tão grande que o melhor pra nós – ainda acho isso – foi eu ter o mundo como casa. Nossos filhos ficaram com ela. O senhor é um homem bom. O senhor é do bem.

A praça silenciou. Um silêncio tão estranho, vivo, profundo que parecia tudo ter ficado em suspenso. Naquele instante, o homem bom não sabia para onde olhar, o que pensar, o que fazer; o homem do banco examinava um mosaico da praça...

- O 78713 está vindo.
- Como?
- O 78713... seu ônibus... já está chegando... é bom que não perca; demora a vir outro. Não o perca, viu? - Ahhh... O ônibus... Tá, perco não. Já vou.
Levantou-se para ir até a parada do ônibus, mas de repente estacou: Posso ajudá-lo em alguma coisa
- Não, estou bem. Mas o senhor precisar pegar o ônibus, não perca ele... a gente não sabe dizer ao certo quando vem o outro...
O 78713 chegou ao ponto no horário. Nele partiu um homem desorientado quanto ao acontecido ali na praça avistada agora sempre sempre sempre com um pouco mais de distância... até sumir... não da memória...
Na praça ficou alguém cujas feições simulavam uma quase possível felicidade, o olhar já investigando as horas no mosaico, mas já também espreitando o ir e vir de pessoas em suas rotinas, algumas no mesmo ritmo, outras em outras pisadas, ou lentas, ou rápidas... Ainda existem muitos do bem...

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Chico Araujo escreve toda quarta-feira aqui no Evoé! O texto Conversa mais doida a de vocês... foi criado em 25/05/2017.Leia mais textos de Chico Araujo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 29 de maio de 2017

SOBRE O FIO DE UMA NAVALHA - Túlio Monteiro

O Rapto de Perséfone - Rembrandt, 1606-1669
Já são tantos anos caminhando sobre o fio afiado de uma navalha qualquer sempre repleto de incontroláveis ações e relações, nesse meu céu repleto de virtudes e vícios. Logo esse céu para onde não quero ir. E olhe que um dia estive à beira de partir, sentir o sabor do beijo banguela dessa tal senhora morte. Ufa! Que hálito! Crônica louca, mais parecida poesia que escrita de velocidade. Paremos com isso e ignoremos esse galo que canta feito um louco toda manhã anunciando um novo dia. Novo dia? Isso de marcar as horas estancou desde o dia em que parei de querer saber onde começará a minha hora e terminará a tua.


E me desculpe se já não paro para sentir as tuas dores. Eu lamento, pois as minhas eu já não aguento. Entorto a vista a cada vez que você me conta um novo bando de mentiras. Prefiro correr o perigo de talvez nunca mais te achar nem de abrir a boca para pronunciar-te o nome ante mazelas e coisas difíceis tão impossíveis de explicar. Fique, portanto, com o lado direito de meu peito e se dê por satisfeita, saia ou fique minha amiga ou amante quando eu te bater à porta. Pois sou um sobrevivente de tudo e todos que estão lá fora feito idiotas correndo perigos de desastres naturais ou provocados, pois já cobri minha cota dos riscos de vida pelos quais passei. Perrengues são comigo mesmo.


Hoje amanheci querendo, buscando encrencas. E risquei teu nome no ar com você de volta me esperando na esquina. Um dia eu vou te achar seja nessa ou em outra vida se é que isso de voltar existe mesmo. E te vou ser perverso descontando tudo que te dei e não recebi de volta. Portanto, prepare-se, já que nosso próximo cruzar de olhos haverá de ser em verde-castanho-escuro novamente, olhos reluzentes. Prepare-se, então, meu bar na contramão. É que nunca mais quero ser tratado como um cachorro jogado às pulgas, uma vez que vocação para otário eu nunca tive. Não sou um cão sarnento eu o sou em pessoa e duas palavras bastam para boa entendedora.


Estende essa tua rede e sente o cheiro dessa flor colhida no lixo por minhas mãos calejadas de nada. Faça como Deus, que vive nos ensinando prazos. Coisas de sonhar se a vida já é tão repleta de nada em preto-e-branco. Fecha esse livro, poeta, e para de procurar em grandes nomes as respostas que nunca tu terás, já que como a vida todo bom livro também acaba. E não me venhas com desconcertantes beijos de deixar escapar segredos, pois já te disse tantas vezes te amo com esse tempo arrastado por testemunha que resolvi: nunca mais. É que nessa novela chamada vida jamais quero ser teu amigo.

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Túlio Monteiro - escreve no Evoé! toda segunda-feira. Leia também seus texto em Literatura com Túlio Monteiro.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A pureza das crianças - Chico Araujo

Brincadeira de criança
Portinari 1955

Ali bem perto fica a quadra esportiva e de lá, em perfeito e tranquilo desafio ao sol no corpo e à quentura fervendo do chão, pés descalços de crianças chutam uma bola de uma trave à outra – meu “gol a gol” com meu irmão na infância, as traves improvisadas nos pares de chinelas japonesas.

Vez em quando uma gargalhada forte, feliz, verdadeira, talvez por alguma barbeiragem dos dois atletas; em intervalos imprecisos, a plenos pulmões, a vibração intensa em goooooooolll. As crianças deviam, sim, ter o poder de ensinar a felicidade aos adultos.

De certo, meninos e meninas se jogam na piscina. “Thibuns” ecoam de lá e vêm me desafiar em minha casa – eu, escrevendo em meio à inquietação do forte calor. Até que um caridoso vento me apanhava pela janela aberta; mesmo assim, cessando seu sopro, ai ai ai... Imagine aí um calor calor!

Ah, as crianças... Na plenitude da inocência brincam e brincam e brincam. Daqui escuto a felicidade se alargando delas às pessoas que lhes estão próximas. Consegue ver? Concentra que consegue! Olha como estão vivas jogando água umas nas outras com suas mãos pueris... água azul sobe e desce beijando os rostos risonhos de olhares fechados – as gotas caídas nos olhos. Você vê, não vê? Um seu instante de relaxamento e quase felicidade.

Percebo os atletas da quadra quente correndo do calor para se afundarem no prazer da frieza do banho azul: “Thibuns”. Essa algazarra é uma prece e aceito que nos venha abençoar, carentes que estamos de sossego, clamando por frestas de paz.

Ahhhh, essas crianças... tão puras em seu brincar que chegam a alcançar sua essência humana, sem saber. Ahhhh, essas crianças, tão próximas delas mesmas e, graciosa e felizmente, ignorantes do centro do país. 

(18/05/2017)
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Chico Araujo - publica no Evoé toda quarta-feira. Leia também Chico Araujo em Vida, minha vida.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

VELHINHOS VIRAM PLANTAS - Túlio Monteiro

Reparou na inocência
Cruel das criancinhas.
Com seus comentários desconcertantes?
Adivinham tudo 
E sabem que a vida é bela.
“Só as mães são felizes” (Cazuza)


A metamorforse de Narciso - Salvador Dalí

Eu não sei o que meu corpo aporta já que tantos foram os portos e corpos aos quais ele já lançou âncoras. Já traí até mesmo meu melhor amigo e nunca contem isso para ele, pobre alma sem calefação nenhuma. Ri um riso louco de Rimbaud cada vez que chorei em lugares sórdidos em meio à outra solidão. Hoje estou à exaustão.

Você já viu um milagre? Reparou como os senhorezinhos e as mamães velhinhas vão virando plantinhas porque sabem que ela já está chegando, fria, cadavérica, em espasmos lentos, senta-se, cruza as pernas, lê o bom livro dos mortos e espera, espera, espreita e ri aquele sorriso banguela. Só as crianças são felizes em suas tribos e inocências. Menininhos e menininhas são felizes em seus quartos sem medos de sombras ou assombrações. Reze, filhinho... que papai do céu te protegerá. O caramba. Hoje estou à satisfação.

Já fui passarinho em beirais repletos de amigos, quando no lado negro da vida eu já ouvia Lou Reed, Floyd e Ramones. Dava, não. Tinha que não me chamar Carlos, mas vim para ser gauche na vida, tanto é que nasci “torto” canhoto, canho, cânhamo, corda de pescoço. Enforcado. Sei não, hoje estou à anti-razão.

E como ainda é cedo, bela flor. Queres partir por quê? Qual rumo queres dar à tua ida à-toa na vida. Nada sério, espero! Fique mais um minuto. Vou pôr a nossa música que ainda assim teima em sempre tocar para lembrar de você. Fica, meu codinome. Fica, meu outro nome... aquele que só nós dois sabemos e saberemos. Talvez nunca mais nos vejamos, pense nisso. Reflita e não pule. Às gargalhadas digo, sim: hoje estou à não paixão.

Flores noturnas

E esse badalar de carrilhão me enche o saco e os ouvidos a cada quinze minutos, em um balançar de horas que não levam a absolutamente nada a não ser direto para os braços dela: a inexorável que nos transforma em velhos que viram plantas, fraldas e falta de força nas pernas dantes tão ágeis e corredeiras. E as pernas ligeiras de moleque de rua de meu pai já não são as mesmas, já não correm e brigam na rua contra os meninos bem maiores que ele. Sempre foi macho, aquele homem que me fez e passou a vida dizendo para não mentir, para não errar, para não seguir por caminhos tortos, para nunca parar de procurar. Está virando uma plantinha, meu velho e eu junto com ele eu também. Alhures! Definitivamente hoje estou NÃO!

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Túlio Monteiro escreve todas as segundas-feiras aqui no Evoé.