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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A INTERTEXTUALIDADE EM CAETÉS, DE GRACILIANO RAMOS - Túlio Monteiro

A fórmula do escritor onisciente e das personagens sem “vida própria” tornou-se desgastada no final do século XIX. Este estreitamento formal começou a ser descartado por autores do porte de Dostoievski, Maupassand, Tolstoi e Flaubert para citar apenas alguns. No Brasil, Machado de Assis, com Dom Casmurro, foi quem primeiro rompeu com os moldes ditados pelas correntes seguidoras do Realismo-Naturalismo, tornando-se ele, o precursor do que viria a ser chamado de moderno romance brasileiro.

Os romances, que até então eram narrados em 3ª pessoa, passaram a ser narrados em 1ª pessoa, dando às suas personagens a possibilidade de adquirirem “pensamentos próprios” e de expressarem seus sentimentos e opiniões sobre o ambiente em que estão inseridas.

A maioria das obras surgidas durante a corrente modernista não visava mais somente o mero entretenimento de seus leitores - objetivo maior do romance romântico - nem tampouco buscavam atingir o cunho excessivamente reformista da escola realista-naturalista. Objetivavam, sim, o aprofundamento do “eu” humano, dando ao leitor uma visão dura, porém extremamente verdadeira do mundo que o cercava, correspondendo isto à mundividência macroscópica e total do universo que os romancistas de então tinham como meta. Uma constante procura pela verossimilhança e consequentemente uma maior aproximação entre o enredo e a vida real, eram também fatores preponderantes aos que se aventuraram escrever sob a ótica modernista. 

E foi bebendo desta fonte, que Graciliano Ramos escreveu Caetés em 1933. Romance inaugural de uma carreira literária impecável, há que se perdoar a imaturidade do autor quando da feitura desta obra específica. Livro de linguagem simples, porém enxuta, Caetés nada mais foi que um laboratório, um experimento de Graciliano para seus romances posteriores, estes sim, verdadeiras obras-primas da literatura brasileira, como bem afirma Antônio Cândido, na introdução de seu Ficção e Confissão: “O romancista doloroso e profundo de S. Bernardo e Angústia ainda é, aqui, praticante aliás magistral de fórmulas básicas da técnica do romance”[1].

Pouco afeito que sempre foi às descrições intermináveis, já em Caetés Graciliano Ramos nos dá provas de sua imensa capacidade de muito dizer em um curtíssimo número de linhas. Econômico, sim, mas nem por isso pobre em qualidades literárias, o autor brinda seus leitores com descrições que, apesar de extremamente breves, são profundamente ricas em conteúdo, movimento e plástica. Um excelente exemplo disto é a descrição que o autor faz de Marta Varejão, moça rica e de coração livre para amar, com a qual João Valério, em determinado ponto do romance, pensou em se casar. Note-se o uso sequencial de adjetivos, um artifício muito usado por Graciliano em todos os seus romances para descrever de forma rápida, porém bastante eficiente, as personagens por ele criadas:

“Realmente não era feia, com aquele rostinho moreno, grandes olhos pretos, boca vermelha de beiços carnudos, cabelos tenebrosos, mãos de mulher que vive a rezar. E alta, airosa, simpática, sim senhor, ótima fêmea.”[2]

De excessiva simplicidade só mesmo a estrutura fechada, com começo, meio e fim bem delineados e as passagens desnecessariamente óbvias que vez por outra surgem no corpo de Caetés. Fora isto, o romance inicial de Graciliano já permite ao leitor mais apurado, perceber os primeiros traços da genialidade que este alagoano traria à luz em suas obras posteriores.

O livro discorre sobre uma história de amor proibido que se passa na pequena cidade de Palmeira dos Índios, interior do estado de Alagoas, nos anos trinta do século 20. Nela, João Valério, guarda-livros de uma empresa de comércio, apaixona-se por Luísa Teixeira, a jovem esposa de seu chefe, Adrião Teixeira, homem abastado, mas já de idade avançada e saúde um tanto quanto imperfeita. A trama se desenrola sem muitas novidades até seu desfecho final, quando Adrião, ao receber uma carta anônima, descobre ter sido traído por sua mulher e por aquele que tratava como um filho desde que passou a trabalhar em seu comércio. O suicídio do velho e o arrependimento tardio de Luísa, que não mais pretende levar adiante seu relacionamento com João Valério, dão tintas finais ao romance.

Wilson Martins, na sua excelente apreciação crítica inserida na 13ª edição de Caetés, comenta que Graciliano Ramos, ao escrever este romance, expôs toda a influência absorvida em Eça de Queirós, mais especificamente das leituras que fez d’A Ilustre Casa de Ramires e d’O Primo Basílio. Muito bem exposto, mas, sem querer sermos pretensiosos, cremos ter o crítico esquecido de acrescentar ao seu comentário, a gritante semelhança que há entre Caetés e Dom Casmurro. O triângulo amoroso entre João Valério, Luísa e Adrião em nada difere do existente entre Escobar, Capitu e Bentinho, à exceção de que, ao final da história, Escobar não se suicida nem Luísa dá à luz um filho bastardo. Fica pois, claro, ter Graciliano lido e intertextualizado Machado de Assis, fato que em nada desabona sua obra de estreia no campo da ficção literária.

Contudo, nem só de pequenos defeitos e algumas redundâncias é feito Caetés. Seu corpus já abriga traços da genialidade de Graciliano Ramos que, como já dissemos, só viria à tona em seus futuros romances. Uma prova cabal disso é o metaromance inserido ao longo de toda a trama. O Caetés que João Valério tenta a duras penas terminar, nada mais é que um intratexto do livro que o abriga, levando o leitor mais atento a constantemente formular perguntas do tipo: Seria João Valério o próprio Graciliano? Teria sido Luísa uma grande paixão proibida do autor? É Caetés uma autobiografia? Teria Graciliano Ramos lido A Normalista, de Adolfo Caminha? Quem sabe?! 

Outra prova do excelente uso que o autor faz das técnicas que em 1969 a crítica francesa Júlia Kristeva, partindo das noções de Dialogismo definidas pelos formalistas russos Backtin e Tinianov, fundamentaria como Técnicas de Intertextualidade, é a clara alusão que o autor João Valério faz a Iracema, de José de Alencar. Vejamos:

Daí passei para Iracema, da Iracema para o meu romance, que ia naufragando com os restos do bergatim de D. Pêro. Não era mal tentar salvá-lo, agora que, com o armazém fechado, eu podia dispor da tarde inteira. Decidi-me antes que o entusiasmo esfriasse.[3]

E João Valério – suponha-se Graciliano Ramos - vai mais fundo ainda em suas intertextualizações. Tendo pouco conhecimento da história de nossa colonização e sem muita imaginação para compor as personagens de seu romance, João Valério utiliza-se das pessoas que o cercam cotidianamente para gerar os selvagens que habitam seu Caetés

Continuei suando, escrevi dez tiras salpicadas de maracajás, igaçabas, penas de araras, cestas, redes de caroá, jiraus, cabaças, arcos e tacapes. Dei pedaços de Adrião Teixeira ao pajé: o beiço caído, a perna claudicante, os olhos embaçados; para completá-lo emprestei-lhe as orelhas de padre Atanásio...

Sou incapaz de saber o que se passa na alma de um antropófago. Dos indivíduos das minhas relações o que tem parecença moral com o antropófago é o Miranda, mas o Miranda é inteligente, não serve para caeté. Conheço também o Pedro Antônio e o Balbino, índios. Moram aqui ao pé da cidade, na Cafurna, onde aldeia deles. São dois pobres degenerados, bebem como raposa e não comem gente. O que me convinham eram canibais autênticos e disso já não há.

Em falta melhor, aproveitei os remanescentes dos brutos da Cafurna, tirei-lhes os farrapos com que se cobrem, embebedei-os, besuntei-os à pressa, agucei-lhes os dentes incisivos. Matei alguns brancos, pendurei-os em galhos de árvores e esfolei-os com a ajuda do Balbino. Depois entreguei-os às velhas, entre as quais meti a D. Engrácia, nua e medonha, toda listrada de preto, os seios bambos, os cabelos em desordem, suja e de pés de pato.[4]

E o Caetés de Graciliano Ramos é assim: o romance inaugural de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Redundante, cercado de influências claras, raso, um tanto instável e escrito por um homem “tão prevenido e mesmo tão desconfiado”, como bem afirmou o poeta Augusto Frederico Schmidt. Porém, se é de bom tom levar-se em conta a imaturidade de qualquer autor que se inicia no mundo literário, o que se dizer do primeiro livro de um escritor do porte de Graciliano Ramos? 

De qualquer forma, Caetés é uma obra agradável de se ler. De enredo leve e já possuindo pinceladas de uma ampla visão sociológica da realidade e do profundo questionamento crítico-social que caracterizaram e permearam os romances nascidos durante a geração de 1930, Caetés é leitura indispensável aos que desejam penetrar no fantástico mundo ficcional do alagoano Graciliano Ramos, a fim de desvendarem um dos mais vastos universos literários de nosso País.
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[1] CÂNDIDO. Antônio. Ficção e Confissão. SP, Editora 3D. sem data, p.12. 
[2] RAMOS, Graciliano. Caetés. SP, Editora Record, 13ª edição, 1977, p. 36. 
[3] RAMOS, Graciliano. Op. Cit. p. 99. 
[4] RAMOS, Graciliano. Id. Ib. p.100.

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Túlio Monteiro - escritor, biógrafo, pesquisador, revisor, ensaísta e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

domingo, 25 de agosto de 2013

Escalada até a Pedra do Descanso - Bica do Ipu

No início dos anos de 1990, eu ministrava aulas na sede do município de Ipu. Um dia, a fim de fugir do calor de uma tarde muito quente e modorrenta, bem típica das cidades ao pé de serra, resolvi subir até a cachoeira imortalizada por José de Alencar no romance Iracemapublicado pela "Tipographia Viana & Filhos", em 1865.


Na subida até base da Bica do Ipu, fui sentindo o clima esfriar. Parecia estar entrando em um imenso refrigerador. A bica cai do alto do Pico Angelim, na Serra da Amontada, a 130 metros de altitude, por uma formação rochosa também conhecida por "Despenhadeiro da Morte". Fica no início da Chapada da Ibiapaba, pelo oeste cearense.

Ao chegar divisei, vários conhecidos, entre colegas professores e alunos. Já na conversa solta, ao olhar para a bica, observei algumas pessoas lá no meio da imensa parede da encosta por onde caía a cachoeira do riacho Ipuçaba. Curioso, perguntei como elas chegavam até lá.


A fenda na pedra, acima dela a trilha da Lasca da Velha.

Descobri haver dois caminhos, um era a trilha da Lasca da Velha, uma via de pedra, aberta pelos indivíduos da Nação Tabajara. A descoberta do outro começou com a resposta de um aluno: "Por aqui, professor, é fácil. Vamos que eu mostro como chegar até lá." Nem pensei duas vezes, fui.

Escalei o paredão da queda-d'água da Bica do Ipu, orientado pelo aluno de nome David. Faço isso de novo não. Só em pensamento, se muito.

Ele ia à frente a me orientar onde havia pedras soltas. Enfrentamos a subida e, de vez em quando, ficávamos debaixo da água da cachoeira trazida pelo vento. Uma água fria, forte que, por vezes, se demorava sobre nós. Essa demora, somada ao ar rarefeito da altitude do Pico Angelim (130 metros) era sufocante e, de início, me causou uma forte tensão. Depois aprendi a proteger a cabeça entre os braços, utilizando o paredão como amparo. Essa posição criava um nicho, um bolsão de ar onde podia respirar com certa tranquilidade...

Hoje, viver tal aventura, só em pensamento.

... Escalamos o paredão até chegar à Pedra do Descanso, para além da qual não há condições de subida sem auxílio de equipamentos (cordas, cintos de segurança, martelo e pinos para suporte da corda). Além dos óculos, eu apenas trajava calção de banho, camiseta e chinelas havaianas que serviram de proteção para os cotovelos. Tão logo chegou, o meu guia voltou. Fiquei só.

Na Pedra do Descanso, vivi o melhor e o pior momento da aventura. Dela pode-se ver o sertão, a amplidão do horizonte. É muito bonita a vista de lá. O som é magnífico. Ouve-se o vento, os pássaros e o cair da cachoeira. Vários são os sons dessa gelada, doce, perfumada e vertiginosa queda-d'água. O bater das águas na pedra levanta um véu de gotículas, logo espargidas pelo vento. Experimentei um arrebatamento, senti-me voando. A altura é vertiginosa, estonteante. A soma de tudo provoca uma completa e inesquecível sinestesia.


Na hora de voltar, foi que me dei conta de que, para chegar até a pedra, precisei dar um pequeno salto a fim de vencer a fenda entre a base à qual se chega pela subida e a Pedra do Descanso.


A Pedra do Descanso é um mirante natural. De forma larga e horizontal bem acentuada, sobressai perpendicular ao paredão vertical, daí servir de pouso ao escalante. Mal comparando, seria como uma varanda de uma, digamos, cobertura.

Pois bem, ao querer voltar me dei conta de que a pedra de onde saltei era bem menor, e estava molhada. Qualquer erro seria fatal. Se pulasse com uma força superior à necessária, eu cairia. Se, ao pousar do salto, o fizesse com muita firmeza, eu escorregaria (a pedra estava molhada) e cairia. O meu salto de volta teria de ser muito preciso. Deveria ser executado de tal modo que desse para me segurar nas fendas da parede e não escorregar. 
A Bica do Ipu cai de 130 metros.Fonte: Wikipedia.

Percebi que se me demorasse mais elucubrando, eu travaria. Consegui me tranquilizar afirmando que se o David, que me orientou na subida, conseguira voltar sem mais problemas, e, assim como ele, vários aventureiros já haviam feito isso sem erros, comigo não seria diferente.

Respirei fundo e me impulsionei. Uma de minhas pernas derrapou um pouco, não lembro qual; o que me fez segurar mais firme nas fendas da parede. Respirei um pouco e comecei a descida. Desta vez torcendo para que o vento trouxesse parte da ducha da cachoeira para cima de mim. Desejo atendido, a água gelada foi um unguento para o cansaço. Um prêmio. Estava sentindo calor em pleno frio.

Na descida vi o quanto de pedras soltas havia no caminho. Na subida, são um risco maior. O escalante poderia se apoiar numa delas crendo estar firme, o que poderia ocasionar um acidente. Chegou um momento  da descida que ficou só cansativo, exige muita atenção e as possibilidades de escolha são mínimas. Tive de exercitar a paciência, não adiantava ter pressa. Mais um aprendizado.


Ao chegar, avaliei o caminho da escalada e da descida. Uma sensação de conquista e despedida. Hoje é proibida a subida, o acesso até pontos muito mais baixos é rigorosamente negado. Bela decisão. Não é uma aventura segura.


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A TRILHA DA LASCA DA VELHA