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domingo, 17 de abril de 2011

Reflexão: Os inúmeros Realengos do Brasil


A tragédia de Realengo, no Rio de Janeiro, me remeteu à recente leitura da crônica Mineirinho, escrita por Clarice Lispector, em 1962, a pedido da revista Senhor, na qual era colunista. A revista resolveu abordar de forma diferente o polêmico assassinato do bandido carioca José Miranda Rosa, conhecido por Mineirinho,  fuzilado pela polícia com 13 tiros. 

Quem me proporcionou a leitura foi Lina Cavalcante, cuja monografia de especialização em semiótica (pela  Universidade Estadual do Ceará) analisa a crônica. Espero que o trabalho de Lina, Do factual ao lírico: a literariedade da crônica Mineirinho, de Clarice Lispector, seja amplamente divulgado, pois a relevância do tema acolhe os anseios causados pelas circunstâncias atuais do conviver em nosso país, onde a violência está tão banalizada que as pessoas perderam a capacidade de se surpreender e nem mais se indignam. 

Aproveito esse espaço para parabenizá-la pela sensível escolha do tema. Uma sensibilidade de berço, decerto, pois ela vem de uma família de renomados jornalistas.

Crônica
Mineirinho
Clarice Lispector

É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que esta doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: 'O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no Céu.' Respondi-lhe que 'mais do que muita gente que não matou'.
Por quê? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim. Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo