O Brasil não produz livros "demais", o Brasil produz leitores de menos
| Ilustração: Ricardo Humberto |
Os editores brasileiros revelam que estão publicando livros “demais”. Isso é uma verdade ou um mal-entendido? Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, disse que publica 280 títulos por ano e que “não dá para crescer mais com obras de mercado, até porque o mercado está muito competitivo. (…). Há editoras que hoje não conseguem entrar em redes de livrarias com um exemplar de algum título. Há uma superprodução. De livros, escritores, editores, um número de editoras grande surgindo”.
Sérgio Machado, da Record, informa que em 2010 o Brasil editou 55 mil títulos, numa média de 210 obras por dia útil. Só a Record coloca no mercado 80 títulos por mês. Seu proprietário revela que tem 2 milhões de livros em galpões que lhe custam uma despesa alta.
Há uma crise no ar. Uma crise paradoxal. De excesso e de carência. Excesso de livros ou carência de leitores? Assim como um copo com metade de água pode ser visto como um espaço metade cheio ou metade vazio, permitam-me examinar a questão por outro ângulo, fazendo uma correção: o Brasil não produz livros “demais”, o Brasil produz leitores de menos. Há que “produzir” o leitor. E não estou falando de alfabetização. Essa cadeia do livro não existe sem o destinatário: o leitor. Não há excesso de livros, há falta de bibliotecas, de livrarias e de leitores. Há, por outro lado, centenas de iniciativas governamentais e particulares tentando corrigir isso. Todos, não só os editores, temos que modificar o conceito de livro, livraria, biblioteca, leitor e leitura, pois na verdade todo esse sistema em torno do livro está em crise (ou metamorfose).
Mas que crise é essa? Quantas crises há dentro desta crise?
CRISE EDITORIAL