quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Túlio Monteiro: SOBRE ÁGUAS, SANTOS, DEMÔNIOS, MÚSICAS E POLÍTICA

Publico aqui com prazer sem par esse que vem chegando lá de num sei onde, devagarinho, vem de volta para fortalecer as lides cuturais. Trincheiras ganham ânimo, pois o moço é bom de luta.
Muito bom tê-lo aqui de volta, Túlio Monteiro.


Há dias, manhãs – diria eu – em que nada parece dar certo. Sem chavões, hoje é um deles. No de ontem, choveu tanto nessa minha terra que insistem em chamar de Alencar que eu continuo e deveras permanecerei chamando de minha. Por que de Alencar? Alhures, aqui não. Alencar: ideia sonante; estereótipo de indianista. Leiam a lenda de Pokahontas como aviso aos navegantes.

Antes de ontem, a noite/madrugada foi simplesmente repleta de chuva, água dos céus, beirais sem ninhos, “jacarés” aqui, gárgulas se fossem em Notre Dame. E eu afirmei: Pronto, os choros celestes de fevereiro chegaram e só se vão embora em março ou abril. Anoiteceu, anuviou-se, preparei lençóis – edredom é coisa de sulista – para nós é rede de punhos. De preferência, as tecidas lá pelas bandas de Jaguaruana, a terra de meu pai, seu Joaquim Bernardo.

Deu meia-noite, uma da matina... três horas. E nada. São Pedro, o danado da torneira, olhou de riba para baixo, cofiou o bigode e esfregou a barba já um tanto brancos e disse:

– Peguei os e as bestas de novo. Vai ser dessa vez não, rapaziada das terras de Padre Cícero. Aquele negócio hóstia da Beata Maria de Araújo em 1889 e a Romaria de Nossa Senhora das Candeias para ajudar financeiramente um ferreiro desempregado, que tudo o que sabia fazer eram candeeiros, até hoje não me desceu goela abaixo[¹]. Vamos deixar para outra noite. Dito e Feito.

Pois muito bem! Domingo chegou, calor de novo e o clima de serra ficou para outro dia. Uns falaram em praia, gente bonita, gente feia, “pedalar” – Uga! – Lembramos logo da situação do País: As tais pedaladas! Todo dia cai mais uma carta/máscara já diriam Ivan Lins e Victor Martins em Cartomante, nas vozes de Elis e dele próprio[²] e [³]:

CARTOMANTE

Nos dias de hoje
É bom que se proteja
Ofereça a face a quem quer que seja

Nos dias de hoje esteja tranquilo
Haja o que houver pense nos seus filhos
Não ande nos bares esqueça os amigos
Não pare nas praças não corra perigo
Não fale do medo que temos da vida
Não Ponha o dedo na nossa ferida... Ah...
Nos dias de hoje
Não lhes dê motivo
Porque na verdade
Eu te quero vivo

Tenha paciência 
Deus está contigo
Deus está conosco
Até o pescoço

Já está escrito
Já está previsto
Por todas videntes
Pelas cartomantes

Está tudo nas cartas
Em todas as estrelas
No jogo dos Búzios
E nas profecias... ah...

Cai, o Rei de espadas
Cai, o Rei de ouros
Cai, o Rei de paus
Cai, não fica nada!!

          Letra danada de atual, não?! Mesmo sendo de 1978, época de bruta Ditadura bruta, de drásticas ausências sociais, haja vista os quereres do samba enredo de 1986, acertou e ainda acerta na mosca a Escola Império Serrano: Foram vinte anos que alguém comeu[4]

EU QUERO


Eu quero, a bem da verdade
A felicidade em sua extensão
Encontrar o gênio em sua fonte
E atravessar a ponte
Dessa doce ilusão 

(Quero, quero, quero sim)
Quero que meu amanhã, meu amanhã
Seja um hoje bem melhor, bem melhor 
Uma juventude sã
Com ar puro ao redor (bis)

Quero nosso povo bem nutrido
O país desenvolvido
Quero paz e moradia
Chega de ganhar tão pouco
Chega de sufoco e de covardia

Me dá, me dá
Me dá o que é meu
Foram vinte anos
Que alguém comeu (bis)

Quero me formar bem informado
E meu filho bem letrado
Ser um grande bacharel (bacharel)
Se por acaso alguma dor
Que o doutor seja doutor
E não passe por bedel
Cessou a tempestade
É tempo de bonança
Dona liberdade
Chegou junto com a esperança (vem, meu bem) 

Vem meu bem, vem meu bem
Sentir o meu astral, que legal
Hoje estou cheio de desejo 
Quero te cobrir de beijos
Etecetera e tal (bis)


As pessoas parecem não querer ouvir, falar nem dizer nada. Ou seja, a velha fábula dos três macacos sábios – leiam-se: Iwazaru (o que tapa a boca); Kikazaru (o que tapa os ouvidos) e Mizaru (o que cobre os olhos), já tão comentada e repassada gerações e gerações mundo afora em línguas vivas e mortas.[4].

Agnóstico que sou e me declaro desde que vim ao Mundo – pois nascemos todos assim – quero acreditar que um novo Salvador da Pátria no Brasil vai demorar a surgir. Outro Doutor Ulysses Guimarães e sua Constituição de 1988 ou mesmo um novo Tancredo Neves levam anos para dar frutos. E o que fizeram com os dois? Um, derrubaram o helicóptero que até hoje está lá por Angra dos Reis sem ser achado e Tancredo foi, sim, assassinado no dia 21 de abril de 1985 – dia em que se homenageia outro grande mineiro, o esquartejado e empalado em 21 de abril de 1792, Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes).

Tancredo assassinado, sim! Diverticulite coisa nenhuma. Morte absurda e mentirosa, isso, sim! Senão, vejamos fatos repercutidos à época de sua morte onde o primeiro presidente civil – ainda que indiretamente – eleito após o período militar 1964/1984 foi considerado clinicamente morto no dia acima mencionado. Seu corpo, já com morte cerebral, foi mantido por drogas pesadas e aparelhos até às 22 horas e 23 minutos do fatídico dia. Após 38 dias e sete longas cirurgias veio a falecer por completo, digamos.

Assumiu em seu lugar o vice-presidente José Sarney (PFL), partido fundado por dissidentes do PDS. Com Sarney, permaneceria o Brasil por mais 4 anos nas mãos dos que impetravam o Regime Militar. Até hoje, creio piamente que sua morte tenha sido fruto dos mesmos idealizadores do caso RioCentro, ocorrido em 31 de maio de 1981, onde as bolas da vez foram o Sargento Guilherme Pereira do Rosário, morto quando preparava as bombas em um veículo de marca PUMA GT, vermelha – placas OT-0987 – e o então Capitão Wilson Machado Dias, hoje Coronel que atua como educador do Colégio Militar do Rio de Janeiro. [Fotos em(6)].

Outro questionamento que não quer calar: de que morreu, em 21 de setembro de 2003, Dona Risoleta Neves, fiel esposa e guardiã de segredos talvez irreveláveis? Abaixo uma pequena descrição da Agência Brasil – Empresa de Comunicação. Deduzam, pensem fora da caixa ou, simplesmente, raciocinem:


Brasília, 21/09/03 (Agência Brasil - ABr) – A viúva do ex-presidente Tancredo Neves, dona Risoleta Neves, 86 anos, morreu neste domingo por volta das 8h20, no Rio de Janeiro, de diverticulite, mesma doença que matou Tancredo em abril de 1985. Por causa da enfermidade, a ex-primeira dama estava internada, há cerca de dois meses, no hospital Copa D´Or, em Copacabana, zona sul da capital. Segundo a assessoria de imprensa do hospital, dona Risoleta chegou a passar por duas cirurgias antes de ser encaminhada ao Centro de Tratamento Intensivo do Copa D´Or, onde morreu de falência múltipla dos órgãos. O corpo da matriarca da família Neves – avó do governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB-MG) - será velado neste domingo em São João Del Rey, cidade mineira onde morava. O corpo deve ser enterrado na manhã desta segunda-feira (22) no mesmo cemitério onde foi enterrado ex-presidente.[7].

Mas, para fecharmos o círculo e não nos tornarmos prolixos, nem extinguirmos de vez o assunto, tática eficaz de alguns nobres pares que insistem publicar trilogias, voltemos aos tempos de chuvas e bonanças.

Aguardei as chuvas do último dia 10 que nem passarinho cobrindo seus rebentos. Não que aqueles que passarão, passarinho. Isso deixo para o sempre Mario Quintana que já se foi (1906 - 1994):

POEMINHO DO CONTRA

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho
Eles passarão...
Eu passarinho! 

Um até breve!


___________________
0– MONTEIRO, Túlio. Escritor cearense, Professor, cronista, poeta, crítico literário, formado em Letras pela UFCe, com Especialização em Investigação Literária pela mesma Entidade Universitária. Tem publicado alguns livros.

1 – CARVALHO, Gilmar de. Madeira Matriz: cultura e memória. São Paulo: Annablume, 1998;
2 – https://www.vagalume.com.br/elis-regina/cartomante.html
3 – https://www.youtube.com/watch?v=RZpf-8qEjSI
4 – https://www.youtube.com/watch?v=prUbWNsH-Xs
5 – http://deljipa.blogspot.com.br/2013/08/a-historia-dos-tres-macacos-sabios-duas.html
6 – http://acervo.oglobo.globo.com/fotogalerias/as-imagens-do-atentado-no-riocentro-9708098
7 – http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2003-09-21/risoleta-neves-morre-no-rio-da-mesma-doenca-que-matou-tancredo

Um comentário:

  1. Excelente texto. Um estilo vigoroso, a um tempo regional e universal, ainda que falando de uma realidade tão essencialmente brasileira. Como, aliás, é especialidade de Túlio Monteiro. Um escritor de mão cheia e, melhor, de cérebro cheio... de boas ideias. As associações entre texto, músicas, poesia e material informativo qualificam esse tipo de texto como uma nova forma de crônica, bem mais atuante e viva.

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