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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Kelsen Bravos: Evoé, Uiara Santana! No Circo Celestial o espetáculo é seu!

- Hoje tem espetáculo?!
- Tem sim, Senhor?!
- O que é que ele tem?
- Ele tem Belchior!
- Que mais atração ele emana?!
- Uiara Santana!!!

De uma só vez abril nos levou Uiara Santana e Belchior, o menestrel, trovador, poeta-existencialista-inventor, a quem uma outra crônica vou dedicar. Uiara Santana tive saber dela na militância da política cultural. Em Fortaleza, na primeira reunião do Conselho Municipal de Política Cultural, lá estava ela, como estava em todos os momentos das reuniões temáticas e assembleias de todas as fases da Conferência Municipal de Cultura. Representava o Circo; mas também trazia as bandeiras da causa da mulher, do movimento negro, do teatro, da saúde, da política afirmativa, enfim. 



Uma mulher de luta e de história, muita história. Nascida e criada em Circo, filha de artistas circenses, mãe, avó, tia, madrinha de artistas circenses. Professora, formou-se em técnica de enfermagem, para servir aos seus. Era também parteira, muitos tiveram a honra de ser guiados por ela à primeira luz natural, suas mãos eram assim luz do sol, traziam vidas à luz e o seu saber educava para o bom caráter. A todos ensinou que o Circo pode ir de coluna ereta a qualquer lugar. 



Além de talentosa artista, era de esquerda e organizou o movimento sindical, ajudou a criar a APAECE - Associação de Proprietários, Artistas e Escolas de Circo do Ceará, participou da formatação e execução de vários projetos como o Circuito Circo e Saúde, uma ação transversal cujo propósito visa reunir cultura e saúde, por meio do diálogo com gestores, artistas, pesquisadores e profissionais da saúde e da cultura a fim de construir uma agenda estratégica que permita conhecer e ampliar ações de promoção de saúde para a população em geral a partir da linguagem do circo, e proporcionar a melhoria dos serviços ofertados pelo SUS aos artistas itinerantes.


Mas foi mesmo num projeto de formação de leitores que me cheguei mais a ela. Tratava-se do projeto de Formação de Leitores no Circo, realizado pela APAECE- Associação dos Proprietários, Artistas e Escolas de Circo do Ceará e organizado pela Ideais Produções, na pessoa de Andrea Vasconcelos. Foram promovidas rodas de memórias e conversas sobre literatura para artistas, profissionais e pesquisadores do circo. A ideia era fomentar o interesse pela leitura, a fim de qualificar cada vez mais o conteúdo dos espetáculos circenses em Fortaleza, além de gerar valioso registro para o acervo do Memorial do Circo Cearense.

Em 2011, Formação de Leitores no Circo.
Uiara Santana era só entusiasmo dentro deste projeto. Sua força motriz, eu diria. Leitora, falava com brilho no olhar do quanto a literatura preenchia seus dias. Certa feita, disse-me da imensa vontade de publicar seus escritos, literários e memoriais. Colaborou de forma importante para o Memorial do Circo Cearense. Lembro-me de vê-la iluminada lembrar dos tempos de atriz nos palcos circenses.
Estrela-mor dos Circos , Uiara Santana agora brilha liberta.
No 30 de abril, 2017,  estreou no Céu seu Espetáculo.
Ouvi seus depoimentos e eles me inspiraram a, em 2012, como curador da X Bienal Internacional do Livro Ceará, propor a participação do Circo, dando destaque a Literatura como expressão circense. Essa ideia se harmonizou com as intenções da Apaece/IdeaisProduções e efetivamos o Circo e Literatura na programação infantil não só na Bienal de 2012 como também nas edições de 2014 e de 2017.
Circo e Literatura - XI Bienal Internacional do Livro do Ceará
Uiara Santana marcou presença fazendo as vezes de guia da exposição
de parte do Memorial do Circo - em 2014.

Há uma semana da XII Bienal Internacional do Livro do Ceará, 14 a 23 de abril de 2017, Uiara Santana se hospitalizou. Sugeri, como curador do evento, identificar a Sala do Circo e Literatura com o seu nome para estimular sua recuperação e fazer jus à musa inspiradora. Pois sim, findou a tida por todos como a melhor de todas as edições, a Bienal das Bienais, e nossa musa continuava no hospital de onde saiu no 30 de abril para estrear no Circo Celestial, mas antes seu corpo há de cumprir os ritos de despedida num dia muito especial, 1° de Maio. Data que tem tudo a ver com ela, cuja vida exemplificou tão bem o quanto é possível endurecer sem perder a ternura jamais. Evoé, Uiara Santana! 


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O circo como lugar de formação de leitores

segunda-feira, 25 de março de 2013

VIVA DIA 27 DE MARÇO - DIA DO CIRCO



A Associação dos Proprietários, Artistas e Escolas de Circo do Ceará – APAECE, instituição que se consolida como uma das principais na representação da classe circense no Nordeste vem por meio deste, convida-lo para o evento comemorativo ao Dia Internacional do Circo, que ocorrerá no dia 27 de março de 2013 a partir das 15h.



sexta-feira, 23 de março de 2012

O circo como lugar de formação de leitores

Kelsen Bravos*
O Circo. Não há lugar mais impressionante no imaginário das pessoas. As crianças ao lhe ver a lona exclamam festivas: “me leva pro circo!”. Lugar onde adultos e idosos revivem o encantamento infantil, jovens e adolescentes sonham com a liberdade da vida do artista, o mundo do circo é multifacetado. Polariza as mais diversas expressões artísticas, das pinturas dos cenários ao balé dos trapezistas em desafio à lei da gravidade, do silente ilusionismo dos mágicos ao estardalhaço engraçado dos palhaços. Grandes ou pequenas, as companhias simbolizam a resistência da arte. Quanto mais simples mais democrático é o circo.
Circo do Motoka - um dos locais de formação

Tive oportunidade de contribuir em um projeto de Formação de Leitores no Circo, realizado pela APAECE- Associação dos Proprietários, Artistas e Escolas de Circo do Ceará e organizado pela IdeaisProduções. Foram promovidas rodas de memórias e conversas sobre literatura para artistas, profissionais e pesquisadores do circo. A ideia era fomentar o interesse pela leitura, a fim de qualificar cada vez mais o conteúdo dos espetáculos circenses em Fortaleza, além de gerar valioso registro para o acervo do Memorial do Circo Cearense.
D. Uiara, ricas histórias sobre o mundo circense

O projeto Formação de Leitores envolve circos de médio e pequeno porte. Companhias constituídas por vários clãs. Geração, pós-gerações de famílias circenses. Um povo que leva a casa aonde a sua arte for. A lona é a sua morada. O endereço são as comunidades onde o circo se instala, a quem beneficia com diversão e arte. Vejo assim esses circos, como lares transformados em centro cultural ambulante acessível aos mais simples.
Não pensei duas vezes em aceitar o convite para promover, nesse privilegiado espaço cultural, o livro, a leitura e a literatura, pois, de todas as artes em exibição ao público no circo, faltava a literatura em sua forma mais clássica: o livro. E a forma de exibir o livro e a literatura é a mediação da leitura, eis o objetivo de minha participação: propor um circo como lugar de sensibilização para a leitura.
O primeiro passo consistia em formar circenses em mediadores de leitura. Acredito na pedagogia do exemplo cuja fórmula é simples: fazer as crianças e demais pessoas testemunharem o ato e o prazer de ler. Sendo assim, os artistas do circo passariam a ser também referência para proporcionar a necessária vivência da leitura a seus pares, familiares e público. Parece quase óbvio: o artista deve ler para a criança testemunhá-lo praticando, prazerosamente, o ato de ler. Do mesmo modo, deve também fazê-la ler para, assim, proporcionar prazer a si mesma e aos outros. Chamo a isso de "pedagogia do exemplo".
O segundo passo consistia em gerar espaços de leitura no circo. Constituir uma biblioteca de consulta com espaços de leitura individual, coletiva e mediada. Doei vários livros ao projeto Formação de Leitores no Circo com esse fim. Foi só o começo, outras oficinas e participações se seguiram à minha levando reflexões e práticas de leitura.



Minha participação foi preenchida por momentos de leitura compartilhada. Socializamos leitura, buscamos a identidade do leitor, falamos da importância da leitura, de quão fundamental é a pedagogia do exemplo. Aprendi muito sobre a disciplinada vida do artista circense, de como suas crianças têm excelente desempenho nas escolas, como o núcleo familiar tem força no cotidiano de suas vidas. Destacamos, sobretudo, a imensa importância do circo como espaço democrático de acesso a todas as artes para todas as classes, notadamente as mais destituídas de poder econômico cujo hábito de ir a cinemas, teatros, casas de show e bibliotecas sempre pesa no orçamento familiar. O circo vai aonde essa gente está.

O projeto Formação de Leitores é só começo de um grande sonho coletivo da APAECE e da IdeaisProduções do qual compartilho também, quero estar junto para colaborar o máximo que eu puder na promoção da leitura como forma de inclusão social também nos circos.
(*Kelsen Bravos – escritor, editor, professor e consultor para
área do livro, leitura, literatura e cultura digital)