quarta-feira, 31 de maio de 2017

CONVERSA MAIS DOIDA A DE VOCÊS... - Chico Araujo

Fotografia impressionista - Aurilene Estevam

Foi só sentar no banco da prazerosa praça...

- O senhor é do bem.
- Como?
- O senhor... é do beeemmm!!!
- Como pode afirmar? O senhor não me conhece...
- Conheço as pessoas. O senhor é pessoa tranquila, que pensa no bem dos outros.
- Pergunto de novo: como pode afirmar? - primeiro: os seus passos. O senhor quando caminha, não tem pressa e ao mesmo tempo está seguro de para onde vai. O senhor sabe para onde vai e o que vai fazer aonde vai.
- ?
- O senhor tem gestos simples, um olhar firme, inquiridor, mas tranquilo. O senhor vê os outros.
- Vou insistir: como pode dizer tudo isso sobre mim?
- Hehehehe... A sua relativa ingenuidade é boa, é de quem prega a paz... não vê maldade, embora às vezes sinta medo...

Ele olhava aquele homem falante ali sentado, cabelos lisos e limpos sobre os ombros, barba longa, crescida à vontade, mas limpa, roupas nem sujas nem limpas, japonesinha nos pés... nos olhos, um olhar profundo, tranquilo e investigador, brilhante; uma boca inquieta liberando voz quase feliz, voz que dizia com firmeza aquilo supostamente compreendido em sua cabeça.

- ?
- O senhor passa aqui todo dia, nessa hora, e sei que já me viu muitas vezes; algumas vezes, o senhor há de lembrar, até me cumprimentou, depois desejei bom dia quando o senhor passava...
- Sei.
- Sei que sabe... Como eu disse antes, o senhor “vê” os outros. É engraçado isso, porque muitos e muitos “outros” não me veem aqui quando passam... e passam como o senhor... todo dia... (disse isso olhando para os lados e fazendo movimentos de indicações variadas a pessoas transeuntes). O senhor sempre me vê; já me respondeu alguns bons dias e até mesmo já me sorriu... talvez não tenha percebido... pensamento longe... mas me sorriu, mais de uma vez.
- O senhor passa o dia aqui?
- Só fico de manhã, até onze horas. Depois faz muito calor aí vou caminhar pelas ruas até a hora do almoço.
- Mas não é melhor ficar embaixo das árvores quando o calor aumenta?
- Não sei. Nunca fiquei embaixo das árvores depois que o calor aumenta. Eu caminho aí por algumas ruas até chegar na hora do almoço. A D. Menina me dá um prato de almoço todo dia.
Ela é boa também. Ela me vê também. Eu não sei o nome mesmo dela e tenho vergonha de perguntar; aí chamo de D. menina. Ela atende, não se zanga comigo. Me dá um prato de comida, um copo de suco ou de guaraná.
- Por que o senhor fica tanto tempo aqui na praça? Não tem casa? não tem família? Não tem pra onde ir?
- O senhor é bom, mas é um bocadinho ingênuo mesmo... É claro que eu tenho pra onde ir! Eu – silenciou, enquanto olhava para vários lugares, pontos em volta – Eu posso ir pra onde eu quiser. Se eu quiser eu posso ficar aqui; e também posso ir pra onde eu quiser... O senhor tenta pegar sempre o ônibus na mesma hora, às vezes até anda mais rápido pra não perder ele... O senhor tem hora marcada... O senhor sempre tem pra onde ir... Só não sei se o senhor pode ir pra onde quiser e eu posso.

O silêncio marcou o tempo em que os dois se olharam firmemente, um concordando com o outro, o outro superior ao um.

- O senhor é do bem, o senhor é bom. Então vou lhe contar um pouco, somente um pouco, para não atrapalhar seu ônibus que já está perto de chegar. O senhor chegou mais cedo hoje.

- Como sabe que o ônibus está perto de chegar? Nem relógio o senhor tem?

- O 78713 não costuma atrasar. Sei que quem o dirige sabe que as pessoas precisam dele fazendo o que deve fazer. Também tem o seguinte: fico tanto aqui que me acostumei a ler o tempo pelo canto dos pássaros, o sopro do vento nas folhas, a claridade do sol ali naquele mosaico, o calor que aumenta, o ritmo das pessoas caminhando por aqui. Mas deixe eu lhe contar um pouco – e ficou muito sério, olhar perturbadoramente fixo no olhar... Eu tenho casa – com as mãos sugeriu os limites do mundo -... Mas já tive casa como o senhor certamente tem e pra onde deverá voltar mais tarde. A casa que o senhor fala e que eu tive era uma casa boa, grande, espaçosa, muitos quartos, grande cozinha, salas, muito espaço dentro e fora, jardim...

Ela estava sempre cheia de gente, eu tinha amigos que me visitavam quase todo dia, tinha os amigos da minha mulher que também nos visitavam com frequência, tinha os amigos dos meus filhos... hoje eu não moro num lugar só: eu ando, eu transito... estou livre...

O senhor acredita que alguns amigos que eu tinha já passaram aqui e nããããããão me reconheceram? De jeito nenhum me reconheceram – a voz ficou levemente diferente, frágil; os olhos pareciam querer derramar alguma lágrima -... Diferente do senhor, que me vê e que hoje está conversando comigo e eu agradeço por isso, por essa atenção.

Faz muito tempo que praticamente só observo... Sabe, chegou um tempo esquisito em que tudo ficou escuro... O senhor me entende? Mesmo de dia, tudo era escuro, não se conseguia enxergar muita coisa com a claridade necessária. Ora, aí eu quis ver melhor, eu quis ver mais... hehehehe, acho que eu não tinha a luneta apropriada... hehehehe... Quando eu quis ver mais e porque eu não via bem, comecei a perguntar, questionar meus amigos... e eles não me respondiam... de pouquinho em pouquinho eu notei que eles não estavam mais em minha casa... e eu não soube até hoje os motivos exatos de eles terem sumido. O que sei mesmo é que eles não me veem mais... Eu vejo alguns deles na televisão quando consigo ver alguma coisa em algum lugar onde não me mandam logo embora. Eu também não sei exatamente por que, mas eu e a mulher de quem eu era marido ficamos num silêncio tão grande que o melhor pra nós – ainda acho isso – foi eu ter o mundo como casa. Nossos filhos ficaram com ela. O senhor é um homem bom. O senhor é do bem.

A praça silenciou. Um silêncio tão estranho, vivo, profundo que parecia tudo ter ficado em suspenso. Naquele instante, o homem bom não sabia para onde olhar, o que pensar, o que fazer; o homem do banco examinava um mosaico da praça...

- O 78713 está vindo.
- Como?
- O 78713... seu ônibus... já está chegando... é bom que não perca; demora a vir outro. Não o perca, viu? - Ahhh... O ônibus... Tá, perco não. Já vou.
Levantou-se para ir até a parada do ônibus, mas de repente estacou: Posso ajudá-lo em alguma coisa
- Não, estou bem. Mas o senhor precisar pegar o ônibus, não perca ele... a gente não sabe dizer ao certo quando vem o outro...
O 78713 chegou ao ponto no horário. Nele partiu um homem desorientado quanto ao acontecido ali na praça avistada agora sempre sempre sempre com um pouco mais de distância... até sumir... não da memória...
Na praça ficou alguém cujas feições simulavam uma quase possível felicidade, o olhar já investigando as horas no mosaico, mas já também espreitando o ir e vir de pessoas em suas rotinas, algumas no mesmo ritmo, outras em outras pisadas, ou lentas, ou rápidas... Ainda existem muitos do bem...

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Chico Araujo escreve toda quarta-feira aqui no Evoé! O texto Conversa mais doida a de vocês... foi criado em 25/05/2017.Leia mais textos de Chico Araujo em Vida, minha vida...

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