segunda-feira, 3 de abril de 2017

Túlio Monteiro: VERDE-CARINHO

De verde-carinho hoje amanheci vestido. Eram olhos tão belos. Os belos olhos cor de esmeraldas me deram aquela estrela há tanto tempo ardendo em seu frio noturno, chamuscando de prata pingos gelados – lágrimas de anjos – que até hoje insisto em fitar ante o sobressalto de uma nesga de céu seja qual se fizer presente em noites sem nuvens livres de chuvas.

E aquele jeito de amar desesperado sempre em meus sonhos já tão distantes daquela tarde de arrebol perfeito, beira do mar por testemunha de um amor que surgiu com a mesma força e velocidade que se foi. Ela me dizendo que eu era o fim do mundo e que nossas horas e dias seriam misturas d’ almas tão fortes que nunca mais nos esqueceríamos um do outro. E não deu outra. Se ela lembra ou não daquele julho, basta-me a mim lembrar-me. Só vinte anos de amor a correr-me nas veias tão novas sem medo da morte e nem sequer que ela me viesse a chegar tão cedo.

Misturamos nossos corpos, nos doamos, nos demos centímetros a centímetro assim de um jeito tão esquisito e castanho-carícia que meus olhos se tornaram dela desde aquele abril, daquele octogésimo terceiro. Deixei a virgindade de lado e tornei-me livre naqueles braços de um aperto tão sem par que nunca mais esqueci aquele jeito de amar desesperado, chorado e vivido.

E um dia, como praxe é aos jovens em início de vida, ela se foi. Falou-me de coisas relativas a ser passional e capaz de matar por amor. Como se eu soubesse o que era ser passional ou se me importasse em morrer por suas mãos e unhas afiadas. E aquela noite pintada de verde-carinho se foi tão lindamente como as estrelas que nos viram por tantas vezes, deitados nas pedras daquela praia que coroamos como nossa. Por vezes lá estive novamente. Em outros julhos, outros dezembros e por muitas vezes procurei, em vão, tentar vê-la com os mesmos olhos de início. Como se os olhos do início pudessem voltar assim, do nada, da mais distante escura-cor-louvor de um século há tanto tempo nos idos anos 1980.



O casarão bonito que ela habitava àquele tempo ainda está lá, em pé, e as pedras toscas que cobriam a terra fofa daquela vila sem saída e um cheiro de chamar luar ainda ecoa entre os beijos que por lá trocamos. Éramos, sim, um. E hoje tudo o que eu queria era ver, derradeira vez que fosse, aquele olhar poderoso de índia cearense. Aqueles olhos de verde-carinho que me disseram adeus e nunca mais pude contemplar.

4 comentários:

  1. A poesia expedita, alimentando-se das lembranças e recheada de metáforas incomuns,ao mesmo tempo que tão especiais... Admiro seu manancial,Túlio, que torna qualquer repertório apreciável.

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    1. Obrigado pelas suaves palavras, Suely...quando te vejo publicada por aqui? Túlio Monteiro

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  2. Parabéns, "irmão das coisas fugidias"!Grande abraço e muitas
    noites enluaradas c inspiração...

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    1. Valeu, Márcia. E parabéns pela bela estreia no blog do Kelsen Bravos. Mariposas pra você. Túlio Monteiro.

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