segunda-feira, 17 de abril de 2017

Túlio Monteiro: TEMPOS QUE COMETAS NÃO ESQUECEM

Ele e o cometa fulgurante que espatifou um asteroide pequeno que todos chamam de Terra
(Kryptônia – Zé Ramalho)




“Foi bonito demais! ” . Assim ouvi, ainda menino de calças curtas, meu avô Laurindo Monteiro narrar a passagem do danado do Cometa de Halley por aqui. Era 1910 e as exatas 65.816 almas que habitavam Fortaleza pararam completamente entre as madrugadas de 17 e 18 de maio daquele ano da graça para apreciarem a noite virar dia por 72 horas.

– Dava para encontrar uma agulha no chão de tão claro que ficou o dia, meu neto. Você precisava ver a belezura que ficou a noite. Nada se perdia, ninguém precisava acender lampiões a gás e as pessoas passeavam à noite sem medo de escurecer. Foram 3 dias lindos. Dias assim, assim, não...disse-me ele a consultar seu velho relógio de algibeira...eram as mesmas horas passando aqui nesse meu relógio de já tantos anos, mas noite que é noite passaram muitas horas para voltar a acontecer.

Fui o neto mais próximo de meu avô paterno desde meu nascimento, afinal desde quando arregalei os olhos pela primeira vez até sua morte moramos em casas irmanadas, parede com parede, telhas vãs, daquelas que tudo cortava o silêncio da madrugada. Até o breve ronco do velho que descansava depois de um dia de lida no mercadinho no qual ele se entretinha em conversas com quem ia e vinha, acordava-me fácil. Muitos paravam mais para uma prosa que bem para comprar as mercadorias que ele vendia, chapéu de massa na cabeça, por vezes cochilando em entre tardes-noites. 

Não nos percamos nos segredos que guardam o passado e trazem o futuro para voltarmos à passagem do Cometa do fim-do-mundo por aqui. Uma vez que Planeta afora haviam anunciado aos quatro ventos (desculpem o trocadilho), que o Mundo iria se acabar em 1910 e pronto. Todos pensavam que com a passagem da Terra por dentro da cauda do cometa gazes letais e sufocantes matariam boa parte da humanidade. Muitos pereceriam ante mais uma peste lançada por Deus, sempre Ele, aos pecadores. Por aqui, em Fortaleza, o autor dos dias de meu pai Bernardo Monteiro, não viu, mas ouviu falar que teve gente que se matou naquelas madrugadas sem escuridão na Terra da Luz. 

Como historiador, prefiro os fatos reais aos fictícios e, em pesquisas alfarrábicas, descobri que em 17 de junho de 1910, exatamente um mês depois da famosa passagem do Halley foi inaugurado em noite de gala o Theatro José de Alencar. Aí, sim, o negócio deve ter sido bonito. Fogos de artifício rasgaram os ares daquela noite com apresentações culturais e, claro, os discursos políticos de praxe. Entretanto, por razões desconhecidas a inauguração real do Theatro José de Alencar só ocorreu na noite de 23 de setembro de 1910, com apresentação da Companhia Dramática Lucile Perez, com a peça O Dote, de Artur Azevedo. Teatro lotado, aplausos e gente feliz.

Levou dois anos para ser construído a mando do governador Nogueira Acioly, apesar da pedra fundamental ter sido ficada em 1896 pelo então presidente da província Bezerril Fontenele no centro das Praça Marquês de Herval, hoje também chamada de Praça José de Alencar. 

Foi em 6 de outubro de 1906, seguindo-se rigorosamente a planta elaborada pelo engenheiro militar Capitão Bernardo José de Melo que o Theatro passou a ser erguido em estrutura metálica com ferros importados da Escócia pela Walter Mac Farlanes Co. e Serrane Fondri, de Glascow. Todo o prédio é confeccionado em art noveau e coríntio, de modo similar aos teatros-jardins tão pertinentes à sua época. 

Mas não é só por fora que o Theatro José de Alencar guarda seus segredos pouco conhecidos. E não estamos falando da lenda urbana da mulher de branco que por lá vaga todas as noites. Falo das belezas que podem ser vistas por lá aos olhos de quem pousá-los com supervisão de historiador. Por exemplo, foi o cearense Ramos Cotoco, assim chamado por lhe faltar uma parte do braço esquerdo decepado que deve ter sido, quem pintou os nomes das obras literárias de José de Alencar nas frisas e grades. Além das figuras femininas no teto da sala de espetáculos. Já Paula Barros, paraense, foi o autor dos retratos do maestro Carlos Gomes e José de Alencar, além da representação das três artes – pintura, música e drama – na cúpula oval da sala de espetáculos, enquanto Rodolfo Amoedo, professor de Cândido Portinari ficou encarregado da moldura circular acima do pano de boca. A Gustavo Barroso e Herculano Ramos, o encontro de Iracema com o Guerreiro Branco no 1º pano de boca. Em 1974, com a grande reforma que tratou dos retoques e concertos das cadeiras de palhinha, esteve por aqui Burle Marx que instalou mais um de seus famosos jardins onde funcionou até 1973 o centro de saúde da cidade.

Suplantados os talvez suicidas tresloucados, detenhamo-nos nos fatos da história, como por exemplo o fato de que a Terra ainda continua por aqui e que em 1986 eu mesmo me mandei para a praia do Iguape com Eloisa à época minha namorada e alguns amigos que estão por aí afora cuidando de suas vidas. Fomos ver quem? Sim, ele o cometa de Halley que tem por mania passar perto da Terra a cada 76 anos. Perguntem-me se nós vimos alguma coisa. Nada! Absolutamente nada, uma vez que a poluição visual das luzes artificiais e a distância que nos separou do fugidio astro nada nos trouxe além de frustação. Ainda éramos moleques de 20 anos e juramos ali que na próxima vez voltaríamos para ver o Halley a olhos nus. Só esquecemos de calcular que essa próxima vez será em 2062. Quem sabe um de meus filhos ou netos poderão se dar a esse luxo, pois com 98 anos não espero mais estar por cima dessas terras áridas desse Nordeste brasileiro. 










2 comentários:

  1. Está se superando, amigo! Maravilha viajar no tempo dos eventos e personagens pitorescos d nossa terra sob o olhar d tuas memórias...assim contadas, c detalhes d historiador, mas tb inventividade d quem domina a PALAVRA! Conte-nos mais...Márcia Matos

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  2. Esse tipo de elogio, Márcia, só me deixa com mais vontade de produzir todo dia não só toda segunda. Obrigado pela visita à página. Volte sempre....Túlio Monteiro.

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