segunda-feira, 27 de março de 2017

Túlio Monteiro: OS VELHOS COM CABELOS NAS NARINAS

Nasci em plena quartelada de 1964, crescendo entre fardas, ameaças e caças Mirrage a cortar os céus, esses, sim, pássaros de aço a empestear feito inseticida os ares do meu País. Logo naqueles anos tão filhos disso e filhos daquilo, e eu queria só ser menino e aprender o total do que me vinha às retinas e às narinas – um cheiro de gasolina de avião.

Onde voas assim tão alto, sou nada mais que um pássaro no chão. Descobri-me tão cedo poeta. Entretanto, onde queria ternura, vinham-me notícias de torturas em retas e rimas pessoalmente absorvidas pela brutalidade imposta, àquele tempo de rosas de Hiroshima, quando os coqueiros de minha infância não pareciam obuses e ouvia nas rodas da comuna de meu avô paterno um amargo sibilar de um tal A.I 5. Que porcaria devia ser esse tal Ato Institucional, perguntei ao Marxista meu avô. A resposta: esqueça que não interessa a menino de bilas e baladeiras que corre feito um maluco pelas ruas. Ruas da minha Parangaba de antes. Mangueiras por testemunhas de minhas coisas do que se chama por aqui de malinagens. 

O velho com cabelos nas narinas morreu. Ele se foi e não me revelou o que diabos era ditadura. Preferi não ver o velho e seu terno no caixão, nariz cheio de algodões. A morte é mesmo uma droga. E cresci. Virei gente, como se fala por cá. Vi que o amor era tão cego quanto a injusta justiça desse Brasil de ouro tão cabisbaixo. Vieram as Diretas Já! E o menino-homem já um tanto passado na casca do alho descobriu que as arestas um tanto insuspeitas eram por demais suscetíveis ao suborno que chegou aqui nas caravelas que trouxera Dom João VI com o rabo entre as pernas, tangido que foi por Napoleão Bonaparte. 

Onde havia um rapaz com vinte anos redondos, surgiu o questionador de coisas sem entender o senso nem o humor do que irradiavam aos quatro ventos com Betinho, Tancredo Neves, Ziraldo e companhia. Daquele tempo até hoje, muitos fatos estão inconclusos. Não encontraram, por exemplo, no helicóptero caído no mar, o velhinho macho com cabelos nas narinas que botou o Brasil nos trilhos com a Constituição de 1988. Singelo grito morto e amordaçado de um País que já estava levantando-se. Cada cultura tem o Odisseu que merece, o grego se perdeu por dez anos. O nosso Ulysses está perdido a vinte cinco.

O mar sob o céu do Brasil, caros, está virando saudade e o Rio São Francisco quase não está indo mais bater no meio dele, tantos recortes foram feitos, desde sua foz, e vêm tornando sua paisagem árida. Umas “legitimadas” outras surrupiadas e desviadas na marra pelos tais canais do trabalhador. Obra dos novos coronéis, velhos com cabelos nas narinas, de fraques e termos alinhados. O Rio Doce já era, acabou-se. E as morenas dos olhos rasos d’água sentam olhando para a sequidão que se alastra, queimando plantações por mares de areia, calor e dentes podres.

Hoje, onde havia aquele rapaz, há um ser que pensa e imagina as brutalidades que estão por vir, a cavalo galopante, sabendo que o deus Sol forma um elo e que o certo é saber que o certo está sempre certo. E que a bandeira Positivista, o panteão de nossa pátria está ameaçado novamente de ser rasgado e jogado ao fogo amigo que vai – e afirmo que vai – destronar nosso cretino Chefe Geral desta Nação Tupiniquim.

Já ouço as vozes da manhã que mais uma vez cisma em vir, segundo a segundo, rumo ao fim de meus dias em forma de pedidor de coisas e solicitações ásperas e deselegantes. Tantos brasileiros estão sendo riscados do mapa depois de mais um carnaval, que não consigo imaginar o doloroso que vai ser dos tantos milhões de brasileiros em busca do pão seu de cada dia. Preparem-se os fracos, os fortes estarão a sobreviver, pois como reza a cartilha capitalista desde que descobriram que árvores serviriam para gerar o maldito bicho chamado dinheiro. Só ele compra, dá e tira.

Um comentário:

  1. Memórias e reflexões bem colocadas que levam o leitor à observar cenas de nossa história política.

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