terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Conversa de Botequim: Era um sujeito cascudo e bocão

Passar algum tempo sem encontrar o Vessillo Monte constitui grave penitência. Seu refinado bom humor e o inversamente proporcional mau humor me são essenciais. Aliás, o bem-humorado de fato rebenta do mal-humorado. Não é à toa que, sim, todo comediante (se for do bom mesmo) tem em si perene ranzinzice, cujo antítodo consiste em dar à sua irascibilidade vazão com efeito risível, senão vira neurastenia crônica. O bom humor, portanto, prevalece entre mim e o poeta Vessillo Monte, pois somos dois rabugentos.

Devo fazer alguma falta também, porque mesmo em companhia do mais fleugmático dos seres, o Doce Gigante Flávio San, gentil e delicado até ao espantar moscas, o poeta me liga cobrando comparecimento.

Flávio San, por sua vez, me intima com seu violão e poesia. Às vezes, o Doce Gigante se espanta com a rabugice minha e do Vessillo e nos interpela com voz mansa de padre em confessionário e mãos de maestro regendo em adágio: “poeta, poeta... calma, poeta... olha o coração (com as pontas dos dedos das duas mãos toca o próprio peito)..., o coração, poeta... vamos cantar!... ‘ponta de areia, ponto final’...”

Às vezes dá certo, outras vezes também. Quase sempre funciona, bem diferente do tempo em quando um dia convoquei o poeta para tomar satisfação com um sujeito cascudo e bocão instalado, segundo me revelou meu irmão Kelson, às margens da minha sagrada lagoa da Parangaba (topônimo tupy-guarany que significa Terra onde nasceu Kelsen Bravos).

Pois bem, ao lhe revelar do assédio que o tal sujeitinho andava fazendo aos coopistas e, sobretudo, às coopistas, ali às margens da sagrada lagoa, o poeta se alevantou e quase retumbante bradou: Vamos lá, Kelsen Bravos, pôr fim a este constrangimento.

Cuidei logo de encher um cooler com gelo e bastante cerveja, muita cerveja, pois a missão seria demorada. Tivemos, obviamente, de largar os editoriais afazeres cotidianos para nos dedicar à paladina missão de calar o sujeito cascudo e bocão a aterrorizar minha sagrada Lagoa da Parangaba. Vimos que lhe cabia mais um adjetivo: arredio.

Decidimos fazer ocupações libativas ao longo das margens da lagoa. Parávamos o carro, descarregávamos o cooler com as cervejas e nos acomodávamos junto ao que se parecia bancos. Em cada pouso ficávamos no mínimo uma hora.

Nada do sujeitinho. Saímos algumas vezes para renovar o estoque de cervejas no cooler. Ao voltar, vinha a notícia do alvoroço de sua ofensiva aparição. Quando foi necessário repor as cervejas, o poeta resolveu ficar.

Disse-lhe que já era quase noite, que podia ser perigoso. Talvez demorasse mais, devido o trânsito e tal... O poeta de olhos já vermelhos e boca espumante esbravejou: homem, por Deus, vá buscar mais cerveja e me deixa ficar aqui! Resolvi levar também pinga e cigarros. 

Voltei o mais rápido que pude. De fato minha preocupação eram os demais habitués noturnos das margens da lagoa. Encontrei o poeta cercado por vagabundos. Sempre me impressionou a capacidade de o poeta ganhar a simpatia de toda gente, fosse onde estivesse. Já haviam feito uma fogueira e estavam em animada conversa. Foi providencial eu ter comprado também a cachaça. Na fogueira, já assava um peixe pescado ali mesmo.

Nossos novos amigos enriqueceram nossas informações do tal cascudo e bocão. Era comum aparecer à noite. Pelo que nos falaram não era tão ameaçador assim. O papo varou a madrugada. A barra do dia já se iluminava. Como é lindo o amanhecer às margens da Lagoa da Parangaba.

Já passava das nove da manhã, estávamos o poeta e eu metidos dentro dágua até a cintura, quando ouvimos um alarido em um ponto das margens perto de onde estávamos. Mulheres corriam assustadas. É ele! gritei.

Fomos correndo por dentro dágua até o ponto onde uma multidão se concentrava. Nossos amigos noturnos haviam prendido o tal sujeito em flagrante delito. Sua sorte foi, por respeito, terem atendido o pedido do poeta. Deixem que eu resolvo a questão com ele.

Trouxeram-no até nosso acampamento. Soltem, podem soltar. Frente a frente com o Vessillo, o tal sujeito ficou estático e boquiaberto. Hirto. Tão absorto que nem parecia estar mais ali em espírito.

Neste instante, o meu celular toca. Do outro lado, a voz indignada do chairman querendo saber onde estávamos. Tentei explicar, mas achei melhor passar o telefone para o poeta, muito mais eloquente do que eu. Vessillo, o Lira. Ele quer falar contigo.

Ao ouvir o nome do chairman o tal sujeito cascudo e bocão pareceu bradar: O Lira?! E incontinenti correu para dentro da lagoa. Eu ainda gritei que o Lira queria caçar era jabuti e não jacaré; mas não adiantou, o cascudo e bocão nunca mais foi visto.  

4 comentários:

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    1. Obrigado, Meu Caro Amigo Chico (Sérgio) Araujo!

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  2. Texto assombroso de lindo.
    Abraço saudoso. Solidade

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    1. Querida Solidade,

      Um texto só se completa no leitor, então: Você é a linda e eu fico só com o assombroso.

      Um beijo azul, adoro você, menina!

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